sábado, 20 de fevereiro de 2010

Bartolomeu,
que saudade!...

No que respeita à actividade cultural em geral, e, mais especificamente, em tudo quanto se relaciona com atitudes que, inequivocamente, contribuam no sentido de fazer perdurar a memória dos artistas que amaram Sintra, viveram e, de modo especial, se relacionaram com esta terra, já se sabe que, salvo raríssimas excepções, não se pode contar com a Câmara Municipal.

Veja-se, por exemplo, o caso de Bartolomeu Cid dos Santos. Todos os que acompanham as páginas deste blogue, sabem do especial apreço pelo homem que foi meu amigo e pela obra do artista cujo nome é de máxima grandeza nas artes plásticas e Cultura Portuguesa contemporânea, reconhecido como tal em todo o mundo civilizado.


Enfim, não será assim por todo o lado porque há quem desconheça que Bartolomeu é tão grande como Paula Rego. E basta pensar nestes dois artistas, articulando o primeiro com Sintra e a segunda com Cascais para concluir por onde, a nível dos respectivos executivos autárquicos, andará o esclarecimento e a falta dele.

Se, em Cascais, a respectiva Câmara Municipal tem feito pela pintora tudo o que é possível para a merecer, o mesmo não sucede em Sintra, onde, olimpicamente, a autarquia ignora Bartolomeu Cid dos Santos, que foi nosso vizinho na Vila Velha, ali tendo habitado uma casa cheia de especiais recordações, à Fonte da Pipa.

Bem enraizada, ali para os lados da Rua do Roseiral, a institucional e sintrense ignorância acerca da excepcional valia de Bartolomeu não alastrou, felizmente, a outros concelhos limítrofes, como o de Oeiras. Nem mais. Para o efeito de vos dar conta de que assim é, desde já me socorro de informação oficial daquela autarquia que passo a transcrever:


O CAMB - Centro de Arte Manuel de Brito apresenta Bartolomeu Cid dos Santos e Going South, de 30 de Janeiro a 16 de Maio de 2010.

Neste bloco expositivo consagrado à memória do artista Bartolomeu Cid dos Santos, falecido em 2008, o CAMB apresenta, a par de uma mostra individual de obras do artista na Colecção Manuel de Brito, um projecto expositivo autónomo designado “Going South” que reúne um conjunto de trabalhos (fotografia e escultura) desenvolvidos por cinco artistas contemporâneos que lhe prestam tributo: John Aiken, Miguel Martinho, Ana João Romana, Samuel Rama e Valter Vinagre.

Dando continuidade à linha de programação expositiva que tem visado divulgar os artistas mais representativos ou mais emblemáticos da Colecção Manuel de Brito, este bloco expositivo tem particular simbolismo, atendendo à ligação que o artista Bartolomeu Cid dos Santos tinha ao Palácio Anjos, por ter sido este o local onde viveu a sua infância e onde aprendeu a desenhar.
Nesta exposição individual é apresentada sobretudo gravura, produzida pelo artista entre a década de 50 e a actualidade. (…)” O CAMB está localizado no Palácio Anjos, Alameda Hermano Patrone, em Algés
(…)”


Em Algés, sob a égide da Câmara Municipal de Oeiras.

Senti hoje grande saudade deste querido amigo que Sintra tarda a homenagear. Provavelmente, porque, mais uma vez, passei pela Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, e, como acima dei a entender, não podia ter deixado de comparar. À minha medida, de vez em quando, vou lembrando o Barto. Por isso vos peço licença para, já de seguida, voltar a colocar, na primeira página, o texto que escrevi em 26 de Maio de 2008, poucos dias depois da sua morte.


NB:
Neste blogue, sobre Bartolomeu Cid dos Santos, ler os textos publicados em 26.05.08, 03.07.08, 24.09.09, 27.11.09

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Bartolomeu Cid dos Santos
(1931-2008)



Na passada quarta-feira, dia 21, morreu em Londres Bartolomeu Cid dos Santos. Ia nos setenta e seis anos, solto das coordenadas do tempo, um menino, é verdade, grande e gordo, amante das boas coisas da vida e preocupado com as mais sérias questões da vida. Venho contar-vosda nossa relação de amizade, indissociável do comum amor a Sintra.

Naturalmente, a outros deixo as referências biográficas deste grande nome da arte portuguesa contemporânea. Todavia, imperioso se revela abordar um ou outro aspecto da vida do homem e do artista, especialmente porque tive o privilégio de beneficiar do seu encanto, em doses inesgotáveis, na sábia sedução que imprimia às conversas pelos caminhos da Arte.

Desde logo, mencionaria o pai, o famoso médico Prof. Cid dos Santos, conhecido humanista, homem de grande cultura, a quem o filho muito viria a dever por toda uma formação e educação direccionada para as artes e humanidades. O Bartolomeu menino estudou, por exemplo, música e alemão, absolutamente determinantes para que, mais tarde se revelasse o inevitável melómano em que se tornou.

Apetecia reproduzir episódios que me contou da sua meninice, tantos e tão ilustrativos desse tempo em que, por ser filho de quem era, pôde contactar a fina flor da intelectualidade portuguesa e internacional, nas salas e à mesa da sua casa ou em viagens inesquecíveis e únicas. Como certa deslocação a Paris, com o pai, por essa estrada fora, no automóvel da família, parando em Espanha, a visitar o médico e escritor Gregorio Marañon, em cuja casa foi descobrir uma autêntica e surpreendente galeria, com obras dos mais notáveis artistas, recentes e de épocas passadas.

Um grande melómano

Comigo, Bartolomeu partilhava o gosto pela música. Quando percebeu que, tal como para ele, a língua alemã é, também na minha perspectiva, instrumento inseparável do acesso a particularidades do universo de Wagner, concluiu que podia confessar-me as suas mais remotas experiências pessoais e directas, ainda miúdo, por exemplo, com a Tetralogia do compositor de Bayreuth.

Em especial, falou de certa récita do Siegfried que assistira em São Carlos, em plena guerra, quando o mítico maestro Knappertsbusch veio a Lisboa dirigir a Filarmónica de Berlin, na mesma oportunidade em que alguns músicos desta orquestra tinham jantado em sua casa… Se isto não é privilégio, então desconheço o que isso seja. Mas compreendo que, por causa das invejas, apenas se conte aos iniciados…

Com ele, a conversa nunca era coisa gratuita e, pelo contrário, sempre estimulante e oportunidade para saber mais. Melómanos inveterados, envolvemo-nos em discussões muito vivas e interessantes. Não raro, tive de recorrer à mais diversa documentação e bibliografia, para sustentar ou corrigir alguma opinião, dele ou minha, para esclarecer qualquer dúvida pertinente.

Neste domínio, em diferentes ocasiões, cheguei ao ponto de incomodar um grande amigo, o Dr Mário Moreau que, com o seu enciclopédico conhecimento do mundo da ópera, nos ajudou a clarificar aspectos mais ou menos obscuros que, também frequentemente, se revelavam altamente desafiantes, em diálogos sem fronteiras, em que toda a Arte, desde a poesia, à pintura, à gravura, à música, em que a política e, particularmente, a participação cívica se articulavam em coerente mosaico.

Sintra, uma preocupação

Contudo, muito sintomaticamente, o que nos fez aproximar não foi a melomania. Deu ele o primeiro passo, precisamente por intermédio do Jornal de Sintra, através de um artigo que subscreveu, em simultâneo com uma carta que me dirigiu, a propósito do estado lamentável do centro histórico, coisa que ele sentia na pele, na medida em que a sua casa, nas Escadinhas da Fonte da Pipa, constituía ímpar ponto de partida para a melhor avaliação.

O Bartolomeu era homem de esquerda, senhor de fortes convicções políticas. Como alguns de nós, mas contra a opinião dos mais poderosos, acreditava na capacidade de mudar a polis, através da participação em lutas de intervenção cívica, na possibilidade de viver uma vida democrática que ultrapasse a retórica dos discursos inconsequentes e se comprometa com as pessoas, com os seus problemas reais e concretos.

Uma das causas que mais o mobilizava era a da defesa e preservação do património, questão bem real e concreta que, inequivocamente – se for perspectivada numa actuação integrada e abrangente – pode contribuir para a mudança em geral e para a melhoria da qualidade de vida em particular. Se alguma prova necessária fosse, demonstrativa do seu empenho, bastaria recordar o apoio pessoal à iniciativa da discussão dos problemas do bairro da Estefânea. Tive-o, exactamente ao meu lado, na mesa que conduziu o aceso debate daquele dia 22 de Março de 2004…

Tinha a família entranhada em Sintra há várias gerações, não estava sempre por aqui mas, quando estava, adorava. E, muito naturalmente, também sofria, como só pode quem assiste à contínua degradação desta sede de concelho que, afirmava ele constantemente, merece outro cuidado, uma gestão adequada às características, ao perfil e ao espírito do lugar.

O artista empenhado

Era um grande senhor da Cultura Portuguesa dos nossos dias. Há mais de cinquenta anos, fundara a Gravura, sociedade cooperativa de artistas gráficos que, em termos concretos e práticos, constituía uma entidade cujos objectivos eram afins da sua postura e filiação política. Como lembrava José Cutileiro, no Expresso do sábado passado, pelos seus dezassete anos, Bartolomeu era já um jovem comunista, capaz de pôr a tocar A Internacional, no ‘pick up’ aos berros, em manobra provocatória…

Mesmo em termos internacionais, Barto – como era conhecido lá por fora – é um nome incontornável da gravura, tão grande e significativo que os ingleses lhe souberam reconhecer o enorme mérito, admitindo-o como professor da célebre Slade School of Fine Arts de Londres, já no princípio dos anos sessenta, ali se mantendo até noventa e seis, altura em que se aposentou. Altamente honrosa, a sua nomeação como professor emérito de Arte da Universidade de Londres e membro da Real Sociedade Britânica de Pintores e Gráficos.

Detentor de um currículo espantoso, foi professor convidado e consultor de várias universidades europeias, fez inúmeras exposições por esse mundo. A fundação Gulbenkian que, como é sabido, não dá ponto sem nó, e só mesmo aos muito grandes dá a honra da promoção de exposições retrospectivas, concretizou uma sobre a obra de Bartolomeu Cid dos Santos cuja concepção era extremamente interessante, tendo constituído assinalável sucesso.

Que homenagem?

Em cerca de três meses, deixaram-nos dois nomes máximos das Artes e Letras portuguesas. Só a sintrense universal incultura se pode permitir não dar o devido destaque à perda de Maria Gabriela Llansol e Bartolomeu Cid dos Santos. Pensar que a sua memória se honra com o minuto de silêncio da ordem, não passa de brincadeira com coisas sérias…

Aliás, depois de tão atrabiliárias concessões de medalhas de ouro do concelho, a figuras totalmente insignificantes cá do burgo, também não imagino o que poderá a Câmara fazer… Uma coisa eu sei, que várias vezes me confessou. Dar-lhe-ia muita alegria ver recuperada a casa de Mily Possoz [será que esta gente dois serviços alguma vez ouviu falar dela?...], outra grande mas esquecida artista, que morreu em Sintra em 1967. Era sua vizinha. Se for necessário, podem contar comigo para lá ir indicar onde fica.

Cá por mim, à guisa de pessoal celebração, mal acabe de escrever este texto, tenho preparado o leitor de CD para ouvir o Acto III de Götterdämmerung (Crepúsculo dos Deuses) de Richard Wagner. Vou escutar este sublime momento da ópera, sob direcção e na leitura de Sir Georg Solti, 1973, dirigindo a Filarmónica de Viena, em que Birgit Nilson, Wolfgang Windgassen, Dietrich Fischer-Dieskau, Christa Ludwig Luccia Popp, e Gwyneth Jones assumem, respectivamente, as personagens de Brünnhilde, Siegfried, Gunther, Waltraute, Woglinde e Wellgunde.

O Bartolomeu tinha esta versão em lugar altíssimo. Para mim, constitui referência máxima. Neste ramalhete das maiores estrelas, há interpretações inultrapassáveis, perfeitamente paradigmáticas, intemporais. Ah, vou acompanhar a audição bebendo um Collares que, pois claro, já está aberto, já foi provado e aprovado. E tenho a certeza de que o Bartolomeu também aprovará esta minha celebração da Vida, da Arte e da Cultura (maiúsculas, à alemã…) com um copo do nosso melhor vinho.

À nossa querida Sintra! Até já, Bartolomeu…

4 comentários:

  1. Domingos Amaral21/02/10, 14:00

    Caro Dr. Cachado,

    Estas suas chamadas de atenção está visto que não resultam. Deixe lá, não se incomode mais porque isto é mesmo uma tera de ignorantes. Talvez o Dr. Seara leia e como agora também tem o pelouro da cultura faça qualquer coisa.

    D. Amaral

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  2. Fernando Castelo22/02/10, 13:48

    Meu caro João Cachado,

    Esta sua crónica mostra bem o panorama das "forças vivas" de Sintra, melhor dizendo, das forças cinzentas que aparecem por aí consoante as circunstâncias.

    Pessoa amiga e da maior confiança, garantia-me que o Homem ilustre que era o Bartolomeu Cid dos Santos não era um simples militante de esquerda, era-o - até - de um partido político que em tempos era a vanguarda da classe operária. Seria de esperar que o nome de Bartolomeu Cid dos Santos merecesse uma proposta dessa força política, infelizmente em Sintra mais adaptada a uns lugares de Administração que, em termos práticos, a silenciam. E como é bom ter essas mordomias, provavelmente para minarem o inimigo por dentro.

    Depois temos, também, a sua antiga sugestão da toponímia da Volta do Duche passar a incluir "Espaço Llansol". Ninguém parece ter pegado na sugestão, nem o espaço do mesmo nome, nem aqueles convidados que aparecem - certamente com honrosos convites - nas celebrações e descerramento de lápides ou placas.

    Este um triste exemplo do que é Sintra e de como se vivem os sentimentos culturais.

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  3. Fernando Castelo,
    meu caro amigo,

    De facto, o Bartolomeu era comunista e era-o de uma maneira visceral. Não precisava de apregoar tal condição, era coisa discreta mas evidente. E, caro amigo, tenho de assinalar que a CDU de Sintra, no mesmo dia em que eu próprio fui à Assembleia Municipal solicitar que a Câmara lhe fizesse a justa homenagem, a CDU, escrevia eu, apresentou uma proposta no sentido de que a Casa da Cultura de Mira Sintra, então recém inaugurada, passasse a ostentar o nome do Bartolomeu como patrono. Naquela altura, o Presidente da Junta de Freguesia informou que levaria a proposta à apreciação dos fregueses para que, posteriormente, estivesse habilitado a acolher a sugestão.
    Como era de esperar, nunca mais soube de qualquer desenvolvimento...

    E a Câmara Municipal de Sintra, com o seu proverbial sentido de oportunidade, mandou às urtigas o meu pedido, certamente embrulhado no mesmo ordinário papel em que seguiu a sugestão da CDU, o lixo e o aterro de Trajouce... Entretanto, Oeiras, como se vê, não perde a oportunidade de divulgar a sua obra enquanto os serviços culturais da Câmara de Sintra andam entretidos com iniciativas de quinta categoria...

    Quanto à minha sugestão, de acrescentar à toponímia actual de Volta do Duche, a designação de Caminho Llansol, passando a ler-se, se aceite o alvitre, "VOLTA DO DUCHE - CAMINHO LLANSOL", não tenho qualquer eco. Não sei se o Espaço Llansol, nomeadamente, o Prof. João Barrento, teve conhecimento. O que me parece é que aquela lembrança, junto ao plátano, passa completamente desapercebida e que a Maria Gabriela merecia ter homenagem mais visível, num dos trechos de Sintra que ela mais tinha no coração, a Volta do Duche, pela manutenção da qual se bateu, em atitude cívica ineqwuívoca, escrevendo o belíssimo texto que tive oportunidade de re-publicar por duas ou três vezes.

    Como calcula, para mim, tudo isto é um desconsolo enorme. Por enquanto, Sintra é este deserto cultural. Podia aprender alguma coisa com Cascais, aqui tão perto. Porém, nem essa veleidade alimento...

    Um abraço

    João Cachado

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  4. Fernando Castelo22/02/10, 16:32

    Peço desculpa porque no meu texto anterior queria dizer "Caminho Llansol" e errei falando em "espaço Llansol".
    Espero me releve.
    Fernando Castelo

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