[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Sintra em compras polémicas (III)
Que comentário!...

[Se querem que vos diga, há alturas em que acabo por não saber o que fazer para gerir este blogue, de tal modo que vos seja da maior utilidade. Então não é que acabo de receber para publicação outro comentário, desta vez do Fernando Castelo, ao qual também não posso deixar de conferir a adequada relevância?

Não há dúvida que um suporte de comunicação, com estas características, permite a troca e o enriquecimento dos intercomunicantes de modo assaz interessante pelo dinamismo que chega a ser galopante. Por vezes tenho pena de não autorizar a saída a público de comentários que, apesar de pertinentes, carecem de substância ou são falhos da deontologia que considero ser de bservar num blogue que, como este, não pretende confundir-se com esse lodo que emporcalha a blogosfera.

Assim sendo, depois desta reflexão, cujo pretensiosismo é directamente proporcional à consideração que tenho por todos quantos procuram estas páginas, então, aí vai outra transcrição.]

"Meu caro João Cachado,

Permita que coloque, aqui, uma questão prévia: Salvo opinião contrária dos interessados, é preciso que, por todo este concelho, se conheçam os nomes de quantos colaboraram nesta aprovação, porque se é certo que a Proposta é levada pelo Presidente da Autarquia, não podem deixar de ter responsabilidades sobre uma matéria que pode endividar os munícipes em mais uns anos, além dos que já sabemos. Isto de ficar em Acta é pouco...

Estes actos, curiosamente, têm um sinal contrário àquele que envolveu o mecenato ligado ao eléctrico e que sem ele as reparações necessárias não seriam feitas. Parece que faltava dinheiro.
Sabe-se que o dinheiro do Jogo (pelo menos que se veja) não tem sido aplicado na recuperação do Centro Histórico.


É estranha, pois, a galopante vontade em adquirir bens - a Câmara não é mecenas, não é verdade? - cujo estado, destino futuro e custos associados à sua recuperação são desconhecidos.
No caso do Complexo de Fitares, existem duas componentes: Edifícios e Equipamentos. Os edifícios certamente com manutenção a cargo dos proprietários e os equipamentos (face à renda paga) a cargo de quem? Na verdade parece que os equipamentos não estão operativos, com funcionamento a partir de 2001, isto é, elevada taxa de utilização que se reflecte em desvalorização por uso.


NA PROPOSTA QUE FOI APRESENTADA, NÃO CONSTA A SEPARAÇÃO ENTRE VALORES DE EDIFÍCIOS E DE EQUIPAMENTOS, PARA MELHOR SE PODER AFERIR DAS RESPECTIVAS VALORIZAÇÕES.

Será que a Câmara vai adquiri-los e depois substituí-los? Bem, o segredo até pode ser a alma do negócio. Mas por lá não há, ao que se julga saber, poços de petróleo ou algum Posto de Combustível que faça brotar milhões.

Façamos uma extrapolação:

Admitamos,para efeitos de estudo académico, que a renda paga ao longo destes anos possa ter sido com um valor médio mensal próximo dos 30.000 euros. Nesta perspectiva, em 9 anos, já foram pagos mais de 3milhões de euros. Talvez ainda se possam acrescentar custos extra (p.ex. seguros).

Depois, devemos saber das razões que motivaram o encerramento das instalações (há mais de um ano) e, em consequência, a suspensão das actividades que eram oferecidas aos utentes.
Há pois uma penumbra na relação custo/benefício que deve ficar muito limpa, melhor dizendo, ser completamente eliminada para que a confiança na vida autárquica se mantenha e se evitem referências a generalizações.


Fernando Castelo
14.01.10"

[Então, é ou não um excelente serviço como base para nossa reflexão?]
Sintra em compras polémicas (II)
Que comentário!...


[Acabo de autorizar a publicação de um comentário, assinado por Miguel Geraldes, relativo ao meu artigo de hoje Sintra em compras polémicas. As palavras são tão certeiras e pertinentes, sucinta mas tão valiosa a informação veiculada que, de imediato, lhe dou o devido destaque, através da sua total transcrição.]

"Caro Senhor, mais uma vêz o encontro na 1ª linha deste combate que é o da defesa do património sintrense.

Louvável tem sido a sua acção e desde já os meus sinceros agradecimentos. E em jeito de agradecimento procuro aqui contribuir com mais alguma informação sobre esse enorme atentado, a aquisição por parte da autarquia da Quinta do Relógio.

Necessidade do espaço para a dinâmica cultural é como o Sr. muito bem referiu, é no minimo anedoctico. Palco para mais um fiasco como foi o colóquio das tendas filosofais destinado a umas quantas bestas que se dizem iluminadas? Mais outro fiasco como o da Ribafria? NÃO! NADA DISSO! Aquilo é um jeitasso a alguém!

Vejamos, a Quinta do Relógio está em obras há pelo menos 9 anos, por dentro o edifício está totalmente desvirtuado da sua forma original. Existem hoje 2 novos pisos abaixo do nivél do chão, pretendiam os actuais proprietários fazer uma garage. As obras estão ainda hoje muito longe do seu fim. Quem é que as vai terminar, a CMS? Claro! Por isso, património só na fachada!

Também será aqui util dizer que a Quinta do Relogio está para venda na consequência de um divórcio e que não há nada como ter a ajuda de amigos influentes em horas de necessidade. Contribuir para aliviar o problema do estacionamento no centro histórico? È de mentecapto!

O Problema do estacionamento só se resolve na períferia! Olhem para outros países europeus e para as soluções por lá tomadas. Se quem tem estas ideias de génio, até nem é de todo parvo, só podemos ter o entendimento destes fenómenos que tanto afectam a nossa Sintra, naquela prática que por cá ganhou raizes e que aqui já referi. O jeitasso das negociatas! É desesperante!

Miguel Geraldes
14/01/10 15:11"

[Não acham que ficamos a dever um grande favor a Miguel Geraldes?]

Sintra em compras polémicas (I)

Na página 22 da sua edição de hoje e em pequena peça assinada por Luís Galrão, o Diário de Notícias dá conta da Surpresa com compra de quinta degradada* em que faz um excerto da minha opinião sobre a intenção da Câmara Municipal de Sintra de adquirir a Quinta do Relógio.

Naturalmente, porque se trata de uma notícia muito sucinta, não pôde entrar no detalhe do texto que tinha remetido àquele jornalista. Todavia, como este blogue não padece das limitações da comunicação social escrita, passo a partilhar convosco aquilo que, neste momento, me parece conveniente. Não é que, por acaso, até nem saiba mais. Todavia, para já, é o que se me oferece. Fica desde já a promessa de voltar à liça a propósito desta matéria, consoante formos sendo informados da evolução do negócio em perspectiva.

Tanto quanto estou informado, a Câmara municipal de Sintra apresentou uma proposta de aquisições que se me afigura como encadeada mistura de alhos com bugalhos, numa tentativa de subtrair ao nosso entendimento que reais razões subjazem à estratégia de, num mesmo documento, incluir a compra de equipamentos afins de diferentes sectores, num montante tão significativo que muito bem pressuporia a afectação de propostas individualizadas.

Se, actualmente, como se afirma, estará longe de esgotada a capacidade de endividamento da Câmara; se, como é previsível, durante este mandato, se impõe concretizar obras e proceder a aquisições extremamente pertinentes, inequivocamente necessárias à melhoria de qualidade de vida dos cidadãos munícipes, então cumpre não comprometer essa capacidade de endividamento com operações polémicas e, nalguns casos perfeitamente evitáveis, porque sendo tal capacidade finita, na actual circunstância das finanças locais e nacionais ainda com mais cautelas se deve actuar.

No que respeita à vertente afecta ao sector da Educação e Desporto (terreno e edifícios onde funciona a Escola Básica nº 1 do Cacém e Complexo Desportivo de Fitares, faria uma chamada de atenção para a necessidade de melhor circunstanciar as razões a montante desta tomada de posição, nomeadamente, através da apresentação de um detalhe dos custos havidos:
- desde o início do regime de aluguer até à actualidade;
- estado actual das instalações e informação de pormenor quanto a eventuais obras a concretizar, no curto e médio prazos, para que o erário municipal não seja, intempestivamente, confrontado com a necessidade de despesas de manutenção, restauro e reparação, ao fim e ao cabo, provavelmente previsíveis, mas ainda não quantificadas. Com que intenção isto se passa é que cumpriria esclarecer.

Portanto, muito cuidado terá de se registar quanto à necessidade de perceber tudo quanto é prévio, no passado recente, exigindo que a EDUCA demonstre e circunstancie, o mais detalhadamente possível, a transparência da proposta, evidenciando como, em nome dos munícipes, tudo foi e continuará sendo feito no sentido de não restarem quaisquer dúvidas sobre a inevitabilidade da aquisição.

Aliás, neste contexto, julgo que deveriam ser, não só auscultados mas, inclusive, também envolvidos nesta fase de pré-decisão, os representantes da comunidade educativa em questão, na respectiva Assembleia de Escola. Os pais e encarregados de educação, os agentes económicos locais, a Junta de Freguesia, a paróquia, etc, têm uma palavra a dizer e, diria mesmo que, se ainda o não tiver sido feito, deveria ser aproveitada a oportunidade para marcar a diferença e ser pedagógico relativamente a situações análogas.

Quinta do Relógio

Quanto à aquisição da Quinta do Relógio, julgo que será de manifestar as maiores, as mais evidentes reservas. Desde logo, e, num pequeno parêntesis, chamaria a atenção para o facto de, no preâmbulo, se fazer referência a um desenho da autoria de Clémentine Brélaz, que nada tem a ver com a Quinta na actualidade – já que se reporta a um recanto da propriedade e edifício inidentificável devido a alterações de monta – naturalmente, sem qualquer relação com a estrutura principal, de pendor romântico, com motivos afins de ambiente arabizante.

Fecho o parêntesis e continuo. Tenha-se em consideração que o edifício principal carece de obras, cujo montante não tenho a menor possibilidade de quantificar, que sempre será extremamente significativo. Portanto, aos quase sete milhões da aquisição, não sei quanto mais haveria a considerar para a sofisticada operação de restauro, a concretizar em campanha sempre demorada. Desconheço a disponibilidade financeira dos actuais proprietários que, na realidade, se têm limitado a prolongar uma situação de estaleiro preventivo de maior degradação e decadência.

Por outro lado, nada se adianta - em relação a uma aquisição tão significativa para o erário municipal - quanto às iniciativas que a Câmara preveria ali concretizar no futuro. Há uma vaguíssima alusão à possibilidade de articulação com a Quinta da Regaleira e nada mais. É pouco, meu Deus, manifestamente pouco, para quem se apresta a gastar seis milhões e oitocentos mil euros na aquisição, para quem desconhece ou, pelo menos, não informa quanto será obrigado a gastar em obras e ainda tem de pagar não sei quantos mais milhões por um serviço de dívida que se prevê a quinze anos.

Anedoticamente, quase poderíamos ser levados a pensar que a Câmara espera, isso sim, aproveitar o espaço envolvente e disponível para parque de estacionamento, aliás, no contexto do que anunciou tencionar fazer, no interior da própria Quinta da Regaleira, para acolher cerca de trinta viaturas. Sempre ficava com espaço para mais umas dezenas...

Volto à informação, constante da própria proposta, nos termos da qual não está esgotada a capacidade de endividamento da autarquia. Pois, muito bem. Por se revelarem tão frágeis e destituídas de senso de gestão as razões que conduziriam à aquisição em apreço – no âmbito de um programa cultural que, inequivocamente, determinasse tão avultado investimento – então, em minha opinião, importaria privilegiar outra frente de actuação.

Dever-se-ia, isso sim, procurar investir tais verbas na tentativa de resolução de problemas que, tão causticamente, têm minado a qualidade de vida dos munícipes e dos forasteiros que procuram e têm direito a um usufruto escorreito, normal, actualizado, civicamente inatacável dos bens culturais de Sintra, usufruto esse altamente comprometido, por exemplo, devido à inexistência dos parques dissuasores de estacionamento nos pontos estratégicos das três freguesias da sede do concelho.

Esta, sim, é uma obra absolutamente inadiável. Assim como, por exemplo, a resolução dos gritantes problemas de recuperação de edifícios em pleno centro histórico, edifícios que, mesmo na vigência do actual dispositivo legal, já poderiam ter sido objecto de intervenção, assim houvesse vontade política nesse sentido, já que, aparentemente, não teriam faltado verbas provenientes da vizinha zona de jogo. E, na mesma crítica zona do centro histórico, ainda a concretização das obras de saneamento básico, cuja falta é um escândalo inominável e, espero que devidamente avaliável pela delegação de peritos da UNESCO que, nesta semana, permanece em Sintra.

O que não falta são obras onde aplicar tantos milhões que, tão benemeritamente se pretende despender com a aquisição da Quinta do Relógio. Esta propriedade, ao contrário do que acontecia na altura em que o executivo de Edite Estrela decidiu adquirir a Quinta da Regaleira, não pressupõe intervenção idêntica.

Julgo que será de deixar funcionar o mercado no sentido de que uma entidade, à altura do empreendimento, se posicione adequadamente e, por parte da autarquia, sempre com o cuidado de que os propósitos dos futuros proprietários não colidam com os interesses da comunidade.

Aliás, muito estranha se me afigura esta pressa aquisitiva quando, por exemplo, a Câmara Municipal de Sintra tem demonstrado tanta ineficácia na gestão de outro bem patrimonial de inestimável recorte cultural e tão importante como a Quinta de Ribafria. Acontece que, nitidamente, não tem unhas para aquela guitarra... Parece impossível que, não satisfeito com as provas de prático abandono deste património, o executivo autárquico venha agora tentar comprar a Quinta do Relógio, sem um inequívoco programa que sustente e viabilize tal intenção.


Enfim, por aqui me fico, sabendo já que, com os votos favoráveis da Coligação Mais Sintra, acolitada pela providencial abstenção da CDU, foi aberta a porta para a hipotética viabilização do negócio. Espero bem que os senhores vereadores da oposição afectos ao Partido Socialista, se bem que vencidos no seu voto contra, não se fiquem por aqui. Há imenso trabalho pela frente no sentido de demonstrar que as aquisições em questão, nomeadamente a da Quinta do Relógio, são altamente polémicas e dificilmente defensáveis como de insofismável interesse para enquadramento no património municipal.

* título do artigo

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

REUNIÃO COM PERITOS DA UNESCO

Hoje gostaria de partilhar convosco o texto que, ontem, terça-feira, dia 12, serviu de base à minha intervenção em Monserrate, durante a reunião para a qual fui convidado pela administração da Parques de Sintra Monte da Lua. Tratava-se de apresentar um testemunho relativo a questões de interesse para o relatório dos peritos da Unesco, em visita de avaliação durante esta semana. Eis o texto.

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Primeiramente, gostaria de agradecer a oportunidade deste encontro com a delegação de peritos da UNESCO durante a sua visita de avaliação. Nunca será demais assinalar ser esta a primeira vez em que, finalmente, é possível uma tal reunião com cidadãos de Sintra. Ao sublinhar tal circunstância, ainda lembraria não ter sido a Câmara Municipal de Sintra a convidar-nos para aqui virmos mas, isso sim, a administração da Parques de Sintra Monte da Lua.

Na realidade, tal convite não é, de modo algum, irrelevante. Tenha-se em consideração que, durante um longo período, anterior à tomada de posse da actual administração, parecia haver, digamos, uma estratégia avessa à comunicação, no sentido mesmo de evitar a participação dos cidadãos nos programas cujos detalhes, características e consequências só mais tarde, sempre só a posteriori, seriam conhecidos.

Tal atitude prova e demonstra à saciedade como a nossa opinião, de facto, não era desejada. Felizmente, as coisas mudaram radicalmente. Hoje em dia, nada impede que reunamos deste modo, se bem que a nossa opinião acabe por ser determinante para a elaboração do vosso relatório. De qualquer modo, esta situação também terá de ser entendida no positivo contexto de atitudes prévias e análogas, envolvendo os cidadãos locais nos programas da PSML.

Entremos na matéria. No que respeita aos trabalhos de restauro e recuperação em curso em certos edifícios classificados, é com a maior satisfação que afirmo não me ser possível apontar seja o que for como crítica negativa. Tanto o Palácio de Monserrate como o Chalé da Condessa, sofisticados casos de estudo, realmente evidenciam uma actividade absolutamente paradigmática, demonstrando a correcção de procedimentos neste domínio, de acordo com o que se encontra internacionalmente estabelecido.

Igualmente, no que se refere à gestão do património florestal, está em desenvolvimento uma campanha que compreende o indispensável desbaste e erradicação de espécies infestantes. É preciso ter em consideração que, em determinados locais, não houve qualquer espécie de intervenção durante décadas. Há alguns meses, algumas vozes bem intencionadas, declararam que a Monte da Lua estava a cometer um crime horroroso.

Naturalmente, tal não era verdade e, contestando-o, técnicos devidamente habilitados, que não apenas dos quadros da Monte da Lua – eu próprio visitei determinadas áreas, na companhia de um silvicultor austríaco que ficou com a melhor das impressões a partir das evidências – repuseram a verdade, esclarecendo como tais trabalhos eram essenciais para a saúde e segurança das espécies em presença. Todavia aquela ignorante opinião não deixou de fazer o seu caminho.

Estacionamento, problemas de trânsito e outras questões específicas


O estacionamento de automóveis é uma das mais preocupantes questões ainda não resolvidas em Sintra, porém, indubitavelmente relacionada com a problemática da preservação do património neste território. Na realidade, ainda não foi generalizadamente assumido, quer pelos cidadãos quer pelas entidades, que o próprio modo como se acede a um monumento, já é uma importante etapa do complexo acto cultural que, no seu todo, a visita constitui.

Assim sendo, ninguém à volta desta mesa poderá negar o desconforto de aceitar de boamente que, principalmente nos fins de semana e feriados, imensos condutores sejam autorizados e até mesmo incitados a estacionar as suas viaturas praticamente ao pé do Palácio da Pena. É uma vergonha. A propósito, igualmente impensável que a Câmara Municipal de Sintra se prepare para instalar um parque de estacionamento para trinta automóveis – sabem os senhores peritos onde? – pois muito bem, intramuros, na Quinta da Regaleira. Não fiquem perplexos. Em Sintra, tudo é possível.

Analogamente vergonhoso o trânsito de automóveis particulares, em ambos os sentidos, para cima e para baixo, na Rampa da Pena, a partir do centro histórico, em direcção ao Castelo dos Mouros e ao Palácio da Pena. De facto a Serra de Sintra está totalmente devassada, sem qualquer política que condicione o acesso dos automóveis particulares aos pontos mais altos. Consequentemente, todos os previsíveis perigos podem realmente acontecer. E, naturalmente, os nocivos efeitos no ambiente são directamente proporcionais à situação em presença.

Não é fácil entender porquê, depois de tantos anos, a Câmara Municipal de Sintra ainda não conseguiu resolver o problema, principalmente através da estratégica instalação de parques periféricos, nas três principais e há muito identificadas entradas de Sintra, nas freguesias de Santa Maria, São Pedro e São Martinho. Como acontece em tantos lugares congéneres, o pagamento do estacionamento em tais parques, estaria incluído no preço dos bilhetes, de toda a espécie de transportes públicos incluindo funiculares e veículos de tracção animal que, a partir desses locais, em estreita articulação, se dirigiriam aos inúmeros destinos.

Mas há outras questões pertinentes que permanecem sem resposta. Como poderemos nós concordar com a inexistência de um civilizado regime de cargas e descargas de mercadorias em toda a Sintra e, em particular, no centro histórico? Como poderemos nós pactuar com uma evidente falta de higiene pública, quer no centro histórico quer noutras ruas e estradas?

Ainda gostaria de chamar a vossa atenção para outra situação bastante desagradável. Não há parque de campismo em Sintra já que, também neste domínio, de há muitos anos a esta parte, a Câmara Municipal não tem sido capaz de resolver o problema. E, nestas circunstâncias, imaginem que, especialmente no Verão, seja possível que os passageiros de quinze ou mais autocaravanas acampem no Rio do Porto, um pequeno parque de estacionamento urbano, a cerca de cem metros dos Paços do Concelho, num inqualificável abuso tolerado por todas as autoridades, sob a desculpa de que não há alternativa…

Problemas de Seteais

Agora a vossa atenção para aquilo que não tenho qualquer problema em considerar como premeditados atentados contra o Património. Não estão longe. No vosso caminho, de Sintra para Monserrate, terão oportunidade de parar em Seteais. Por favor, parem mesmo. É que, mesmo em frente ao Palácio de Seteais, dentro de uma quinta do outro lado da estrada, Quinta do Vale dos Anjos, está a ser construída uma mansão de mil e quatrocentos metros quadrados.

Várias entidades, tais como o IGESPAR, Câmara Municipal de Sintra, ou o Parque Natural de Sintra-Cascais estiveram envolvidas e deram o seu favorável parecer à construção da casa. Verificarão que enormes quantidades de terreno foram removidas e amontoadas ao lado. Verificarão que, implantada num nível superior ao Palácio de Seteais, a fachada da casa tem onze metros de altura!

Eu próprio e outros cidadãos de Sintra escrevemos para a UNESCO em Paris, anexando fotos de satélite e outras atestando o ritmo a que cresce o edifício. Infelizmente, não recebemos resposta, nem para este caso nem relativamente a outra queixa sobre um tanque, parte integrante da Quinta de Seteais, destruído pelo concessionário do hotel, o grupo Espírito Santo, um dos mais influentes bancos portugueses. Pois, no local onde tal destruição se processou, nasceu uma arrecadação de maquinaria.

O Ministério da Cultura, através do IGESPAR, patrocinou, deu cobertura a um tal escândalo e, apesar das minhas denúncias na imprensa, apesar da minha ida à reunião pública mensal do executivo municipal, a Câmara de Sintra não foi capaz de impedir o que aconteceu.

Só para vos dar uma ideia de como as coisas correram, tenham em consideração que recebi do IGESPAR, que acima apelidei de patrocinador da destruição, assinado por um arquitecto, seu funcionário altamente colocado, um e.mail em que me esclarecia: “(…) A construção em curso será coberta por uma laje impermeabilizada, a qual servirá de fundo a um espelho de água criando no final da obra a ilusão de um tanque cheio (…)”.

Se bem entendem, sugeria o Senhor Arquitecto que não havia razão para preocupação porque o IGESPAR havia determinado tal solução. Ao fim e ao cabo, uma ilusão como solução. Surpreendidos? Pois não devem. Qualquer atentado é possível já que, em determinadas circunstâncias, se decide pura e simplesmente ignorar o que está estabelecido a nível nacional e internacional.

Como reparo final, facilmente compreenderão ser importante que a UNESCO responda, em tempo útil, às queixas dos cidadãos.


[Fim da minha intervenção]

Nunca será demais sublinhar o alcance desta possibilidade que a Parques de Sintra Monte da Lua protagonizou, no sentido de dar voz a algumas pessoas que, em Sintra, se preocupam com a defesa do património em geral e com a classificação da Paisagem Cultural da Humanidade em particular.

Estiveram presentes Dinah de Azevedo Gomes e Emma Gilbert, em representação da Associação dos Amigos de Monserrate, Maria José Rau, pela Associação dos Proprietários de Quintas da Serra de Sintra, Adriana Jones da ADPS, Fernando Morais Gomes, pela Alagamares, João Rodil e eu. Através de participações, em geral muito pertinentes, julgo que todos fornecemos elementos de informação indispensável para o relatório dos peritos que aqui estão em missão de avaliação.

Para além do que foi dito e ficou registado, à volta da mesa de trabalho, ainda houve oportunidade para frutuosa troca de impressões, durante o almoço que a PSML gentilmente ofereceu, e que acabaria por se revelar um momento igualmente muito importante para continuar a esclarecer os peritos da UNESCO acerca de outros assuntos de interesse para o seu trabalho sobre o que se passa em Sintra.




quarta-feira, 6 de janeiro de 2010



Sócrates + Seara =
desânimo


No princípio de um ano que se avizinha ainda mais difícil do que o anterior, não têm os sintrenses quaisquer razões para se sentirem particularmente animados. E assim é, tanto no que se refere a Sintra, propriamente dita, como ao todo nacional. Não será abusivo afirmar que, em ambos os casos, a razão mais pertinente para a prevalência de tal estado de espírito se prende com questões de liderança.

1. Vejamos como assim se me afigura. Ao nível do poder central, impor-se-ia que o chefe do governo se apresentasse aos cidadãos como inequivocamente mobilizador de todas as vontades, principalmente de todas quantas, apesar da enorme qualidade do contributo que poderiam fornecer, têm permanecido afastadas, residualmente expectantes, mas ainda não desistentes.

Todavia, tão fragilizado pelos mediáticos casos que o envolvem pessoalmente, desde a licenciatura que se afirma ter sido conseguida com certos expedientes, aos incríveis projectos das moradias do concelho da Covilhã, ao aterro da Cova da Beira, ao Freeport, às conversas interceptadas através de tão polémicas escutas – e estes últimos três casos ainda incomodamente pendentes – não se imagina como poderá o Primeiro Ministro mobilizar seja quem for.

Continuemos ainda neste âmbito nacional. Revela-se manifestamente incompreensível que, numa situação de dívida pública e de défice já incomportáveis – perigosamente semelhantes e tão próximos de países como Irlanda, Grécia e Espanha que, com estes já integra o grupo dos PIGS* – este mesmo líder insista na estratégia de um investimento público que, nas actuais circunstâncias, atinge foros de incompreensível teimosia.

Trata-se, não do investimento público geralmente designado de proximidade, mas das altamente polémicas infra-estruturas aeroportuárias, rodoviárias e ferroviárias de alta velocidade, que ainda mais comprometerão a qualidade de vida de gerações futuras, sujeitas que ficarão à obrigação de um serviço da dívida verdadeiramente ruinoso, como tem sido copiosamente demonstrado.

Convém-me agora, neste ponto do meu texto tão eivado de desânimo, iniciar e manter um parêntesis, tão longo quanto for necessário, para lembrar que, igualmente controversa, pelo menos tanto quanto a dos casos aludidos no terceiro parágrafo, fora a actuação do Ministro do Ambiente do governo de António Guterres, precisamente em relação a Sintra, num seu despacho sobre a empresa de capitais públicos Parques de Sintra Monte da Lua, dando azo a que o Engº António Abreu o denunciasse em carta inequívoca, publicada no Jornal de Sintra em 24 de Dezembro de 2004**.

Apesar das minhas múltiplas insistências, sempre me louvando dos dados vindos a público através do testemunho de António Abreu que, na condição de administrador da PSML, certamente, terá tido acesso directo aos documentos que lhe permitiram ser tão directo e certeiro na denúncia, nunca as acusações foram contestadas. Várias vezes, inclusive em reunião pública da Câmara Municipal de Sintra, solicitei ao Senhor Presidente que esclarecesse em relação ao resultado das investigações levadas a efeito, nomeadamente quanto às designadas irregularidades de gestão do biólogo Serra Lopes, sempre obtendo como justificação para resposta negativa, o facto de se encontrarem sob o regime de segredo de justiça.

2. Até hoje, nenhuma explicação. E fecho o parêntesis, não deixando de solicitar a vossa compreensão para o agravamento do sentimento de desânimo com que iniciei esta prosa. Porém, cumpre ainda aludir ao nível do poder local, se bem que, como acabam de verificar, ele já tenha estado bem presente nas linhas precedentes.


É evidente que, sendo conhecido o meu público apoio à candidatura de Ana Gomes – que, volto a sublinhar, nada teve a ver com apoio ao partido do qual é destacada militante – o mais recente e grande motivo de desânimo se relaciona com a perda das eleições. Não tenho a menor dúvida de que tivessem-na elegido os cidadãos e Sintra já teria saído deste marasmo patológico a que, perigosamente, está condenada por mais este mandato.

Não deixando de ser o melhor dos regimes, a democracia pode ser afectada por conhecidas perversidades, que os mais lúcidos sabem apontar, por exemplo, descobrindo a careca aos manipuladores dos meios de comunicação social escrita e audiovisual. Financeiramente fragilizados, servidos por medíocres escribas, com flagrantes falhas de preparação profissional, mas alcandorados à condição de jornalistas, os media sujeitam-se a um certo tipo de manobras, evidentes nas últimas eleições locais, e que, entre outros, também vitimaram Ana Gomes.

Efectivamente, tendo Ana Gomes perdido as eleições, afinal, quem mais perdeu não foi a candidata mas todos os sintrenses porque não podem contar com capacidade de mobilização de uma grande líder, com o desassombro, com a sua coragem de chamar as coisas pelos nomes, com a sua natureza avessa ao politicamente correcto. Tenho muita pena que assim tenha acontecido porque, mais quatro anos, é muito tempo e vai ser tempo perdido, subtraído àquilo que já deveria estar a acontecer, como estratégia de remediação do que, durante tanto tempo, ainda não foi feito.

Portanto, se a nível nacional o quadro é negro, em Sintra não está mais desanuviado. Claro que é o desânimo. Mas estou longe de apelar a que se deixe cair os braços, a que se desista. Claro que não é o estado de espírito mais propício ao envolvimento nas tarefas que urge concretizar. Infelizmente, entre nós, a designada classe política é de nível muito baixo, correspondendo aos preocupantemente baixos níveis de literacia da população em geral. Casos como os de Oliveira Martins ou Ana Gomes são raríssimos. Abundam, isso sim, os líderes medíocres, habilidosos, oportunistas. São tantos que podíamos exportar, mas para nenhures, que não queremos o mal de ninguém…


* Sigla resultante da junção das iniciais de Portugal, Ireland, Greece, e Spain = PIGS. Certamente não precisam da tradução…
** Ler texto publicado neste blogue, em 17.10.07,
«Irregularidades» de Serra Lopes
no rol do esquecimento?


Vale a pena aceder ao texto completo da carta de António Abreu. Na impossibilidade da sua transcrição integral, citarei, ipsis verbis, o seguinte parágrafo, limitando-me a destacar determinadas frases:

“(…) O ambiente para que esses factos tenham ocorrido não é alheio a quem criou a empresa, o então ministro José Sócrates e o seu secretário de Estado Rui Silva Pereira, tenha autorizado, na ausência de qualquer documento escrito, que fossem gastos na abertura dos parques, em que a empresa passou a cobrar entradas, até 435.000 contos, o que foi feito sem adjudicações. Tal como deram indicação para que uma das intervenções fosse feita com determinadas características num determinado prazo o que conduziu os responsáveis da empresa a que ela fosse feita por uma outra empresa que era a única que cumpria essas condições… (…)”






domingo, 3 de janeiro de 2010


A década


Não, podem descansar que não venho fazer síntese alguma da década. Mas, afinal, de que década é que se fala, quando, hoje mesmo, alguém se refere à década que terminou? Pois, nem mais nem menos, só pode estar a falar da década que começou no último ano do século vinte, ou seja, ainda no ano 2000. Por exclusão de partes, e, para bom entendedor, tal significa que ainda ninguém pode dizer que terminou a primeira década deste século vinte e um…

Portanto, permitam-me esta chamada de atenção. Para o efeito, tenho de recuar ao ano 2000 lembrando que este não foi o primeiro do século vinte e um mas, isso sim, o último do século vinte. O primeiro ano da primeira década do século vinte e um foi, na realidade, o de 2001. Assim sendo, o último ano da primeira década do século vinte e um será o de 2010, pelo que, não agora, no final de 2009, mas só no dia 31 de Dezembro de 2010, terminará a tal década.

Tão comum, esta confusão decorre do facto de estarmos a referir datas redondas, como são as dos anos 1000 (ainda século nono) e 2000 (ainda século dezanove). De igual modo, por exemplo, também a do ano 100 (ainda século primeiro) não marcou o início do século segundo, coisa que só se verificou no primeiro dia do mês de Janeiro do ano 101.

É por isso que, de facto, também as celebrações da última mudança de milénio deveriam ter ocorrido no instante subsequente à décima segunda badalada do dia 31 de Dezembro do ano 2000 e não do ano 1999, como aconteceu por todo o planeta, apesar da chamada de atenção de alguns maluquinhos do calendário que, como este vosso amigo, gostam de manter os pontos nos ii.


[Esta chamada de atenção foi suscitada por uma troca de mails entre o signatário e Fernando Morais Gomes, Presidente da Alagamares. Permitam que, aproveitando a oportunidade, a todos vos considere remetentes de um grande abraço de Novo Ano àquele nosso comum amigo, desejando que continue o excelente trabalho na condução dos trabalhos da associação.]




quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Llansol,
homenagem que ainda falta

Além do patrocínio que tem concretizado em relação ao denominado Espaço Llansol, sedeado naquela que foi a sua última residência, resolveu a Câmara Municipal de Sintra homenagear a escritora através de uma discreta placa circular, implantada nas pedras do passeio de calçada à portuguesa, junto a um dos grandes plátanos da Volta do Duche que Gabriela Llansol imortalizou.

Quem acompanhou as minhas chamadas de atenção, tanto na Assembleia Municipal, como no saudoso Jornal de Sintra e nas páginas deste mesmo blogue,* facilmente entenderá que as referidas atitudes da autarquia muito me satisfazem. Todavia, se igualmente bem se lembram, sempre considerei que a devida celebração pública deveria assumir uma inequívoca forma de aproximar a sua memória do cidadão comum.

Ora bem, apesar de tão boa vontade, parece que, de facto, a Câmara ainda não terá acertado. Se quiserem continuar a partilhar as minhas impressões acerca do assunto, terão de lembrar como Gabriela Llansol estava e ficou indissociavelmente ligada à Volta do Duche. E, como todos sabemos, se tal aconteceu, não só foi porque nalguns momentos da sua obra refere o lugar mas também porque tal trecho de Sintra a levou a protagonizar um acto de intervenção cívica que nunca será demais recordar.

A força do civismo

O texto que vão (re)ler, foi publicado no Público em 8 de Dezembro de 2001. Antes de o enviar ao jornal, a Maria Gabriela quis ter a gentileza de mo ler. Para mim, o inesperado, duplo e comovido privilégio das palavras escritas, ditas na voz empenhada da primeira pessoa-autora. Concordarão, estou certo, que tratando-se de um dos mais veementes testemunhos em defesa de Sintra, consegue ultrapassar tal dimensão, para funcionar como labéu contra todos quantos se permitem ofender a dignidade, a memória e o espírito dos lugares.



"Não haverá diálogo entre mortos

(A propósito do projecto de “parking” subterrâneo na Volta do Duche de Sintra)

Começo pelos factos. Domingo à tarde fui ao encontro de informação organizado, no terreiro do Palácio de Sintra, por algumas associações ambientalistas. Estávamos umas 200 pessoas. Foi então que percebi o que o executivo camarário planeava, com o acordo do programa Polis II, para a Volta do Duche. Isto: construir, exactamente por baixo da estrada que serpenteia a colina, um parque de estacionamento subterrâneo. Vista do palácio a ideia é simplesmente aberrante. Que espécie de humanos foi capaz de sequer imaginar uma coisa daquelas? Foi-me então explicado que o projecto iria criar uns 300 lugares de estacionamento, iria custar (para começar!) mais de um milhão de contos, poria em risco as árvores que sobrevivessem, além das que seriam abatidas. Ouvi ler extractos de um relatório do Instituto Português do Património Arquitectónico emitindo críticas severas ao projecto. Ouvi dizer que não fora feito nenhum estudo geológico, nem de impacto ambiental. Ouvi dizer que não fora organizada nenhuma consulta pública. Ouvi dizer que os lugares de estacionamento, além de caríssimos, ainda seriam menos dos que actualmente existentes.

Ouvi dizer. Ouvi dizer. Projecto inútil, faraónico, destruidor. Praticamente infantil. Na realidade, a informação era escassa. Fora obtida à revelia da edilidade instituída. Que esta se recusava a colocar à disposição da população os elementos necessários a uma aprovação (ou desaprovação) informada. Não ouvi nenhum “slogan”. Nenhum partido político foi aplaudido, nem, aliás, apupado. Apenas foi pedido aos presentes (e ausentes) que assinassem um abaixo-assinado a exigir uma discussão pública sobre a questão. O que assinei.

Saí dali com o sentimento de que, na minha “cidade”, onde se desenrolam tantos dos meus livros, eleitos, estranhamente afastados do vivo e do belo, decidiam e devastavam. De que era prudentemente fundada a desconfiança generalizada pelos políticos. De que estes eram um perigo. Que não deixavam sangue nas ruas, mas ferida mortais nos lugares, nas paisagens, nas sensibilidades, na simples e antiquíssima boa-fé. Que interpretavam o voto que lhes fora transitoriamente concedido como um direito a desprezar a inteligência e a estima dos seus concidadãos.

Não vou discutir com ninguém o que não pode ser objecto de discussão. Não vou aceitar a morte de árvores, em troco da precária sobrevivência de outras. Não aceito que se anule uma paisagem que não fez mal a ninguém, excepto o dom quotidiano que nos faz de uma beleza de que os paisagistas (assim chamados!) perderam o segredo. Não quero ouvir dizer que o homem pode destruir o que os outros edificaram, sobretudo quando os que assim falam são mentes sem lampejo. Não aceito promessas a troco de atentados irrecuperáveis. Discutir isso seria discutir entre mortos. Repito: só os mortos poderão ter imaginado que as suas ambições desvairadas não teriam consequências.

Quando me sentar na Volta do Duche, como tantas vezes faço, que vou dizer às árvores, aos arbustos, aos pássaros, às estações, à vida? Que vos vou dizer? Que não tive forças para respeitar um simples pacto de bondade? Que, mais uma vez, a minha espécie planificou friamente o desastre? Que, juntos, somos mais frágeis do que um punhado de edis, de paisagistas, de construtores civis, sem alma para sentir a santidade da paisagem?

E, desta vez, não me serve de consolo constatar o que sempre soube: onde os interesses materiais vingarem como fim, o homem não será. É aterrador pensar, mas é a realidade: sem o dom poético, sem a simples capacidade de sermos maravilhados pelo vivo, a liberdade de consciência está condenada a definhar. Por mim e por vós, foi essa liberdade que fui defender no terreiro do Palácio de Sintra.

Maria Gabriela Llansol"

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In memoriam

Não é de poético espanto, a força destas palavras? Que assombro! E que desassombro!


Considero conveniente recordar em que enquadramento surgiu o texto supra, que terá constituído a machadada final e decisiva no propósito da recandidatura de Edite Estrela à presidência da Câmara Municipal de Sintra. As eleições locais realizaram-se uma semana depois da publicação do artigo de opinião de Maria Gabriela Llansol que teve um impacto enorme.

Como sabem, MGL é um dos mais notáveis nomes das Letras portuguesas, não só dos nossos dias mas também, ouso dizê-lo, de todos os tempos, e estou muito bem acompanhado, por exemplo, pelo Prof. João Barrento. Pois, como se verifica, através de um discurso do maior alcance, com toda a acutilância, sem qualquer eufemismo, acabou a escritora por desmascarar quem, apesar do escândalo do projecto, se perfilava para permanecer no poder.

Por exemplo, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, dezenas e dezenas de conhecidos académicos subscreveram o abaixo-assinado de que fala a autora do artigo que, com a sua pública tomada de posição –verdadeiro manifesto de Cultura contra a barbárie – induziu muita gente a segui-la, num dos mais interessantes movimentos de cidadãos que Sintra conheceu.

Não é muito frequente que intelectuais da craveira de Maria Gabriela Llansol se exponham desta maneira. Subscrever um abaixo-assinado, a favor de uma causa nobre e elevada, é uma coisa. Em idênticas circunstâncias, outra coisa é subscrever um texto com esta força.

Definitiva homenagem

Pois é, meus amigos, Maria Gabriela Llansol é, na realidade, para todos os efeitos e para sempre, a grande senhora da Volta do Duche. Como ela, ninguém se bateu para que aquele lugar permanecesse como ainda hoje se apresenta. Não era do género de pessoa receosa que se refugiasse atrás de atávicos e perenes medos para colher louros, já que não buscava a ribalta videirinha - Maria Gabriela denunciava e subscrevia.

É por tudo isto que me permito insistir. A homenagem pública que merece ainda não aconteceu. Na minha opinião, é a própria Volta do Duche que tem de ficar indissociavelmente ligada à escritora. Trata-se de uma questão de toponímia mas sem que tenha de se alterar seja o que for no sentido da substituição e, muito menos, da supressão de qualquer elemento. Muito pelo contrário e, em suma, proponho que, muito simplesmente, sejam acrescentadas duas palavras nas actuais placas que passariam a indicar:
Volta do Duche - Caminho Llansol.

Noutros lugares, certo é que em latitudes mais beneficiadas, coisas que tais merecem placas explicativas. Não percebo como, por cá, não afirmamos a história das pessoas e das coisas, das casas, por exemplo, que lhes ficaram presas à memória. A casa que habitou, a história da sua luta pela Volta do Duche, não podem, não devem estar escondidas. Por ali passa a dimensão da escritora e cidadã que soube intervir quando foi importante que interviesse.

Se e quando tal acontecer – provavelmente, na altura em que o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Sintra tiver sido atribuído a alguém que, efectivamente, mereça a distinção de tão especial serviço à comunidade – bom será que os estafados discursos de ocasião não metam tanto os pés pelas mãos nas excelências, a que Maria Gabriela tão pouco ligava.


* Neste mesmo blogue, ler: Llansol, palavra certa, 02.03.09; Uma questão de homenagem, 03.07.08; Maria Gabriela Llansol, voz contundente, 02.04.08.
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Aproveito a oportunidade para desejar a todos um Bom Ano Novo.




terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Fernando Castelo - Sintra

Por estas e noutras paragens


Meus caros amigos,

Regressado há dias da Alemanha, tenho evitado manifestar-me sobre a realidade cultural e de vivência naquele País de que sou tão amigo.

No entanto, duas situações me levam a escrever estas palavras.

A primeira, por ter recebido uma mensagem do Centro de Turismo Alemão, do seguinte teor:

2010: ALEMANHA CRIATIVA

2009 foi um ano de grandes acontecimentos na Alemanha. Comemorámos os 20 anos da Queda do Muro de Berlin e, com ele, o fim de tempos muito difíceis para o país.

Mas, até hoje, mesmo em tempos difíceis, temos motivos suficientes para continuarmos optimistas! Graças à sua parceria e ao seu apoio, 2009 termina com excelentes perspectivas para o próximo ano!

Em 2010 iremos falar muito da Alemanha criativa. A Alemanha criativa na moda, no design, na arquitectura e na arte.

Especialmente na arte! O Vale do Ruhr será a capital cultural da Europa em 2010, com as suas 53 cidades ansiosas por recebê-lo em alguns dos eventos programados para a região.

A Oktoberfest comemorará o seu 200º aniversário! Muito mais alegria na maior festa popular da Alemanha. Meissen festeja os 300 anos da mais fina porcelana ocidental. De Maio a Outubro, em Oberammergau, a famosa encenação da Paixão de Cristo, que se celebra de dez em dez anos, também acontecerá em 2010.

Não é à toa que um país que se reinventa sempre, em 2010 estará ainda mais criativo.

A Alemanha espera-vos em 2010!

Abraços


A segunda, prende-se com crianças portuguesas que, na sua actividade escolar em Munique, fizeram uma riquíssima pintura num túnel pedonal ao lado do rio Isar - do outro lado do Deutsches Museum - nela escrevendo: "O futuro é uma astronave que tentamos pilotar, não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar".


Esta é a garra de gente, de quem olha para a frente sem rodeios, sem tagarelices disformes.

Nós por cá parece que desenvolvemos o turismo do quarto alugado, a cultura serôdia, do deixa andar, reservando para os finais de mandatos (ou agora será a meio?) anúncios de acções que não se sabe quando surgirão.

Lá, vive-se! E nós por cá?



quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


João Cachado - Sintra

A cultura cá no burgo

A reflexão que vos proponho parte de matéria recentemente tratada, cujo desenvolvimento subsequente pretendo não passe desapercebido. De qualquer modo, para enquadrar estas considerações, forçoso é que releiam o texto aqui publicado, no dia 30 do passado mês de Novembro, o qual, como terão oportunidade de verificar, se relacionava com um episódio de desrespeito do direito geral ao sossego durante o período nocturno, protegido pela lei vigente.

Através de um comentário, datado de 10 do corrente, sob o pseudónimo de Miss M, os promotores do desacato responderam, nos termos que, para conhecimento de todos os interessados, passo a transcrever:

"Boa tarde, quer-me cá parecer que estamos a exagerar um pouco nesta questão particular do Ginásio do Sintrense.A minha perspectiva, e não descorando do direito ao silêncio e do respeito pelo próximo, leva-me a ter a noção de que os ditos "prevaricadores" apenas pretenderam trazer cultura e arte a um local tão nobre de Sintra como a Estefânia e a um espaço lamentavelmente abandonado como o Ginásio Ernesto Neves.

As actividades culturais que ali decorreram durante 12 meses mensalmente deram a conhecer diversas artes e culturas, artesanato, produtos biológicos, teatro infantil e bandas locais, numa tentativa de repor alguma da vida cultural perdida neste canto de Sintra.

É de facto verdade que são inúmeros os casos de desrespeito, ultraje e manipulação dos direitos que assistem a eventos do género, mas parece-me importante sublinhar a sempre presente atenção e cuidado desta Associação em avisar os vizinhos e manter o diálogo com os mesmos.

Toda a burocracia necessária para a realização destes eventos foi condignamente concedida, sem meios caminhos ou corta matos, depois de detalhada análise por parte da direcção do Sport União Sintrense, da Junta de Freguesia local e da Câmara Municipal de Sintra.Os eventos desta Associação terminaram ali no passado mês de Novembro e é lamentável que fique esta má impressão depois de um esforço enorme dos responsáveis para que a cultura prevaleça e chegue a todos. 10/12/09 15:25"

Independentemente dos evidentes atropelos do discurso – certo é que nada adequados ao estatuto de quem se arroga a condição de agente cultural local – que logo me desmobilizaram quanto à necessidade de resposta subsequente, não havia dúvidas de que o texto previamente publicado no sintradoavesso, não atingira os objectivos que me propusera, razão pela qual me vi na circunstância de, mais e melhor, esclarecer para que não sobrassem quaisquer dúvidas.
Eis o que se me ofereceu sublinhar:

"Escrevi, confirmo e reafirmo: prevaricadores! Assim mesmo, com ponto de exclamação e tudo.

Aqueles que, ao longo de doze meses, se permitiram incomodar dezenas e dezenas de pacatos cidadãos, vizinhos de uma zona inequivocamente residencial, através de inusitados manifestos de barulheira - agora atrevidamente qualificados como eventos culturais - são inequívocos perturbadores da ordem, prevaricadores cujas atitudes, actividades e actuações, a autoridade democrática não poderá deixar de controlar e sancionar devidamente.

Ao remeterem-me [-nos] um comentário tão a despropósito, tais indivíduos ou não estão bons da cabeça ou pretendem atirar com areia para os olhos de quem, como eu, ainda tem o topete de se mostrar incomodado... Mas será que alguém, no seu perfeito juízo, admitirá que um facto ou artefacto cultural seja suposto ofender, sequer beliscar, os direitos e interesses de terceiros para se afirmar como tal?

Pode, isso sim, ferir a susceptibilidade estética, desafiar e abalar ícones estabelecidos, contribuir para rasgar preconceitos, mas sempre acrescentando conhecimento e, eventualmente, até transmitindo novas perspectivas de abordagem de mais ou menos conhecidos fenómenos.

Todavia, cai imediatamente pela base o argumentário do promotor de um evento dito cultural, se e quando alguma das iniciativas afins incorrer no prejuízo de potenciais destinatários. Tal é, manifestamente, o caso dos residentes nas imediações do velho ginásio da Heliodoro Salgado que, impotentes, nada mais puderam fazer, já que a própria autoridade policial local seria ultrapassada pela autarquia que concedeu licença ao despautério.

A situação vertente, que não deixa de ser paradigmática, é perfeitamente entendível se tivermos em consideração o baixo nível de quem, nos serviços respectivos, tem de analisar, avaliar, provavelmente subsidiar e, finalmente, autorizar a pública concretização de propostas que, afinal, acabam por colidir com a tranquilidade da comunidade, em horário que a Lei vigente considera vedado a práticas que tais.

De facto, em Sintra, o prevaricador foi ao encontro do autarca cujo gabarito cultural correspondia ao baixo nível em que tudo se enquadrou, pelo que, com a maior facilidade, se terá obtido autorização bastante para a prevaricação que, repetidamente, se processou.

Há muitos anos, toda a gente me conhece como grande consumidor de bens culturais de toda a ordem, de todas as origens, mais ou menos selectos, eruditos ou populares, sejam quais forem as vertentes e suportes, desde a música à literatura, às artes plásticas, ao cinema, ao teatro, ao artesanato, etc.

No entanto, a minha avidez cultural, aliás como a de qualquer normal cidadão,* tem os contornos e limites dos direitos dos outros, razão pela qual não frequento e desconsidero qualquer programa que desrespeite a mínima conveniência de alguém.Naturalmente, pessoas como eu - e, felizmente, vão sendo cada vez mais - jamais frequentaram ou se permitirão colaborar nas investidas culturais (?!?) nocturnas do Bairro Alto e quejandos, que transformaram num inferno absolutamente insuportável a vida dos desgraçados residentes.

Para todos os efeitos, apesar de me ver contemplado com escritos deste calibre e destempero, ainda não desisti de me considerar a viver num país civilizado, razão pela qual, ao longo do ano, fui recorrendo à intervenção da Guarda Nacional Republicana que, cumpre assinalar, sempre correspondeu como seria de esperar."

Posteriormente, uma entidade cultural denominada Cyntia voando propôs-me um encontro pessoal para esclarecer ainda o que, em definitiva resposta, considerei não ter mais qualquer cabimento. Não previra eu que, finalmente, uma outra mensagem (cujo anonimato se justifica pelas considerações aduzidas pelo autor) ainda traria maior substância às minhas razões. Ora reparem:

"Eu também vivo com a poluição sonora provocada pelo dono do bar S'pontaneo - Diogo Pessoa Lopes, desde 1999, e que tem, sem dúvidas, boas relações na CMS (a começar pelo seu primo, o [ex-] Vereador Dr. João Lacerda Tavares) exactamente com o mesmo tipo de discurso de MissM a que João Cachado tão brilhantemente respondeu: - "(...)Alguém no seu perfeito juízo, admitirá que um facto ou artefacto cultural seja suposto ofender, sequer beliscar, os direitos e interesses de terceiros(...)"

Pois é! E acredito que muitos dos artistas participantes não tenham a menor ideia do prejuízo que provocaram a terceiros! (...) Escondo-me atrás do anonimato pois tenho medo, coisa que já percebi que João Cachado não tem. Houvesse mais como ele! Obrigada 11/12/09 16:02"

Conheço muito bem a situação até porque, infelizmente, tenho familiares que residem no local, também altamente prejudicados. Apesar da intervenção pessoal do próprio Presidente da Câmara, os moradores e comerciantes da Praceta Dr. Arnaldo Sampaio, nas traseiras do Centro Cultural Olga Cadaval, continuam a viver sem direito ao merecido sossego.

E tudo porque certos prevaricadores se arvoram em agentes culturais. Lamentável, isso sim, que os conceitos de Arte, Cultura e Beleza sejam conjugados nas linhas e entrelinhas de discursos argumentativos como os de Miss M e dos defensores do S’pontâneo. E ainda, tão ou mais lamentável é que, tal como lembra o comentário anterior, os intervenientes nos tais eventos culturais nem se apercebam das lesivas consequências do seu envolvimento.

E daqui não sairemos enquanto, na Câmara Municipal de Sintra, se persistir nos erros e enganos actuais. É que as licenças para a concretização de iniciativas como as de café-concerto ou atitudes de intervenção urbana citadas por Miss M têm diferente enquadramento mas sempre no respeito pelos direitos de terceiros.

* na acepção consagrada pelo dicionário Houaiss da língua portuguesa que, no verbete inerente ao conceito, propõe indivíduo que goza de direitos constitucionais e respeita as liberdades democráticas.

NB.
Os textos citados diferem, pontualmente, dos originais consultáveis no espaço destinado a comentários.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Fernando Castelo - Sintra

Cultura e dedicação total*

A nossa crise, tem dois patamares (continuo a gostar desta dos patamares...) determinantes: o da cada vez mais deficiente moral pública e outro relacionado com a facilidade com que se alcunham de culturais certos actos que lhe são ofensivos.

Incomoda-se o bem-estar de dezenas ou centenas de pessoas e...zás, passa a ser uma virtuosa peça cultural, aprovada por quem não mora lá e se exibe com poderes decisórios.

CONFESSO QUE, NESTES CASOS, OS RESPONSÁVEIS PELA ELABORAÇÃO DOS PARECERES E OS DECISORES, DEVIAM SER OBRIGADOS A ESTAR PRESENTES NOS LOCAIS ATÉ AO FINAL DESSES ACTOS "CULTURAIS".

Naturalmente que, quem aprova coisas deste tipo, não sabe o que é a cultura de um povo, os costumes e as suas raízes sociais. Nesta fase pós-DEDICAÇÃO TOTAL (desculpem mas é bom não esquecermos) as minhas esperanças culturais desvaneceram-se, tanto mais que actores militantes, não sei se comissários de qualquer coisas ou comissionistas, parecem ter desertado para o poscénio, por uns tempos, até terem mais uns livritos para distribuir às famintas crianças ou uns espectáculos bem remunerados para uns tantos privilegiados. Sintra não merecia disto.

* Embora o Fernando Castelo tivesse enviado esta mensagem enquadrada em comentários, considerei muito apropriada a sua publicação na primeira página. E os leitores, não concordam comigo? (João Cachado)