[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 13 de abril de 2010

Sintra, um polémico percurso

Da Alfredo da Costa…



O Casal de São Domingos é um edifício com uma certa dignidade que, a escassos metros dos Paços do Concelho, há muitos anos se degrada. Cada dia que passa, o Casal de São Domingos é um vómito e um grito. Vomita o lixo que se acumula na escada e grita o desleixo da autarquia, bem patente naqueles remendos de plástico azul aplicados no deslavadíssimo verde do portão, no painel lateral, que tem sido descaradamente roubado ao longo do tempo, e na sujidade acumulada sobre as cantarias enegrecidas.

Em plena Rua Dr. Alfredo da Costa – artéria sobrecarregada com edifícios descuidados que tive oportunidade de denunciar, há já uns anos, durante quatro edições seguidas do saudoso Jornal de Sintra (1), denúncia acompanhada de elucidativa ilustração fotográfica – o Casal de São Domingos volta hoje aqui à baila.

Desde já, cumpre esclarecer que, desta vez, não aparece como prolongamento do número zero do passatempo “Dedicação” entre aspas (2). Também não por se tratar de um caso excepcional da cultura do desleixo da Câmara Municipal de Sintra, uma vez que se multiplicam os exemplos, precisamente na mesma zona da Estefânea, aqui na freguesia de Santa Maria e São Miguel, onde a subida dedicação dos autarcas presidentes da Junta e da Câmara é nisto que dá.

…à esquecida Ribafria

O Casal de São Domingos, na economia deste texto, apenas funcionou como pretexto ou, se preferirem, como pontapé de saída, enfim, na terminologia futebolística, tão cara e, manifestamente, mais acessível a certas figuras locais que tanto se têm notabilizado nesse domínio. O pretexto é lembrar um outro exemplar de património municipal, muito mais importante, que, na minha modesta opinião, se não está tão abandonado, pelo menos, permanece muito aquém das suas potencialidades de aproveitamento.

Refiro-me à esquecida Quinta de Ribafria, um dos mais interessantes valores do nosso acervo de edifícios históricos que, entre Lourel e Cabriz, tão arredada tem permanecido, esquecida das preocupações dos responsáveis, a ponto de se desconhecer o que por lá acontece. De vez em quando, sabe-se de umas filmagens, de umas fugazes intenções de concretizar algum projecto, mas nada de palpável.

Houve notícia de que poderia ter constituído hipótese de ali sediar a Fundação Champalimaud. Uma jóia do património municipal esteve para voltar a mãos privadas mas, entretanto, Leonor Beleza acabou por preferir o ar do mar… Foi decisão bem avisada a dela já que, cá por Sintra, as neblinas matinais não parecem particularmente propícias. Depois de outra Fundação, a Friedrich Naumann, ali ter trabalhado durante anos, nunca mais o lugar esteve afecto a algo de permanente e definitivo.

Consultei várias pessoas que não puderam adiantar qualquer informação mais substantiva porque, efectivamente, se desconhece quais as intenções da Câmara Municipal de Sintra relativamente a uma digna, pertinente e atinente utilização da Quinta e do Palácio, pólo de invejável e indiscutível mais-valia que, manifestamente, o município não tem sabido explorar. Lamentável? Talvez. Para mim, é Sintra e está tudo dito!

…até à Quinta do Relógio

Tudo, não. De facto, há algo a acrescentar. Este caso da Ribafria vem a propósito porque, neste momento de tão significativas crises nacional e internacional, a autarquia, que não sabe o que fazer com ela, se permite vir solicitar aos munícipes mais de seis milhões de euros, com o objectivo de adquirir outro elemento do património sintrense, a saber, a Quinta do Relógio, desconhecendo-se ainda o montante a afectar para obras subsequentes. (3)

Tanto quanto se conhece, por exemplo, através de informação veiculada por Miguel Geraldes (4), o edifício está em obras, pelo menos, há nove anos, com o interior totalmente desvirtuado da sua forma original. Actualmente, existem dois novos pisos abaixo do nível da quota soleira, porque os actuais proprietários pretenderiam construir uma garagem. E, hoje em dia, as obras ainda estão muito longe do termo.

Quem terá sido o historiador de serviço que produziu a memória histórica descritiva apensa à proposta que a CMS apresentou, ocultando o descalabro da situação actual do edifício principal? O que levará a Câmara Municipal de Sintra a pretender acrescentar um tal património, nestas precárias condições, na ausência de um plano credível de utilização futura do imóvel?


Porque insistirá ser parte num negócio tão avultado, assim impedindo que o mercado continue a funcionar, com as suas regras de oferta e procura? Porquê? Que urgência é esta de, tão manifestamente, assim comprometer a capacidade de endividamento da Câmara? Só porque, na sequência de um divórcio, o proprietário da Quinta do Relógio está interessado em desfazer-se de um bem dificílimo de transaccionar?

Sem respostas

Como se sabe, o dinheiro é um bem cada vez mais escasso e precioso. Penso que o pedido dos milhões que a Câmara Municipal de Sintra apresentou aos munícipes, para esta aquisição tão controversa e polémica, é de um atrevimento tanto mais patente quanto, noutros domínios, afins do turismo, precisa de concretizar urgentíssimas e avultadas obras que tem sido incapaz de promover ao longo de mandatos estéreis e improdutivos.

Mais uma vez, lembro o crítico e famigerado caso do estacionamento. Porque continuam os munícipes em constante e manifesta perda de qualidade de vida, por exemplo, com a sede do concelho e o centro histórico transformados em locais perfeitamente comprometidos, armadilhados e inseguros, impossíveis de descansada visita? Porque não investe a Câmara Municipal de Sintra os milhões necessários na construção dos indispensáveis, expeditos e civilizados parques periféricos?

Como se permite este executivo municipal dar-se ao luxo de adiar e não se implicar na resolução da recuperação do centro histórico, na reconstrução de muros, valas, valetas, sarjetas e saneamento básico, estradas e lindíssimos mas abandonados e degradados caminhos nas três freguesias da sede do concelho?


E, estando preocupado com a promoção das pernoitas, porque não se implica, a sério e não atirando com foguetes pífios para o ar, na reabilitação de uma unidade hoteleira como o Netto, fazendo valer a sua capacidade de negociação junto de grupos económicos? Porque insiste em álibis, como este da Quinta do Relógio, que não levam a lado algum? Ou levarão? Talvez a algum escuso beco…

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(1) Quem cala..., Jornal de Sintra, 13, 20 ,27 de Janeiro e 3 de Fevereiro de 2006;
(2) sintradoavesso, 01.04.10;
(3) sintradoavesso, 14.01.10 (I);
(4) sintradoavesso, 14.01.10
(II).




sexta-feira, 9 de abril de 2010

"DEDICAÇÃO" entre aspas...


Desvendamos hoje o mistério da foto apresentada no número Zero do passatempo “Dedicação” entre aspas…

Foto tirada em Maio de 2009, depois de vários alertas sobre a destruição deste painel.

Está na parte lateral do Casal de S. Domingos (R. Alfredo Costa, 39-41 em Sintra), um edifício municipal anexo à Área Financeira da Câmara Municipal de Sintra.

Na cultura do desleixo, é mais difícil recuperar este pequeno património do que avançar para a compra da Quinta do Relógio por 6.750.000 euros, sem se saber publicamente quantos milhões custará a sua recuperação.

Para ajudar os leitores à avaliação das campanhas de "Dedicação" ou do "Romantismo" agora em voga, seguem-se outras fotos hoje tiradas no local.












Fernando Castelo

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Festival de Sintra:
Contrapontos?

- grande desafinação...


A publicação do artigo Festival de Sintra, no primeiro número do Correio de Sintra, no dia 1 do passado mês de Março, bem como, uma semana mais tarde, no sintradoavesso, com um texto ligeiramente alterado, suscitou algumas reacções que poderão encontrar no espaço destinado aos comentários.

Apesar de, neste mesmo blogue, tanto já ter escrito acerca do assunto, parece ainda haver necessidade de melhor explicitar. Não pretendo, de modo algum, deixar de contribuir para todo o esclarecimento possível já que o festival de Sintra não é uma iniciativa qualquer que não mereça toda a consideração que lhe possa dispensar.

Na justa medida das minhas modestas possibilidades, se há algo que ainda posso fazer, é continuar a partilhar o bem mais precioso que possuo, ou seja, alguma informação decorrente do privilégio de frequentar, há muitos anos, festivais internacionais onde colho permanente e actualizado ensinamento.

O seu, a seu dono

É certo que, inequivocamente, me tenho pronunciado contra a concepção da grelha de programação do Festival de Sintra. Todavia, repito, não posso nem devo misturar alhos com bugalhos. Uma coisa é o Festival de Sintra, nas suas duas componentes musical e de bailado, respectivamente dependentes da actividade dos directores artísticos Dr. Luís Pereira Leal e Mestre Vasco Wellenkamp – que, volto a assinalar, como fiz em textos anteriores, não estão em causa – e outra, bem diferente, a decorrente da inclusão dos designados contrapontos, que é alheia aos mencionados responsáveis.

Tenhamos em consideração que, em termos muito gerais e abrangentes, há duas situações a distinguir. Primeiramente, convém ter presente que o programa geral do Festival de Sintra, ainda que, eventualmente, possa segmentar as diferentes vertentes da 1)música, do 2)bailado e dos 3)contrapontos, é de tal modo apresentado que o todo fica subsumido nas partes.

Esta não é coisa despicienda. O público destinatário tem direito a uma informação programática sem a mínima ambiguidade, nos termos da qual, independentemente da natureza do suporte, quer informática, quer papel (folheto, desdobrável, almanaque geral, etc), tudo seja imediatamente inteligível.

Basta recordar que o programa geral do Festival de Sintra, constante do grande telão, ultimamente aposto à fachada do Centro Cultural Olga Cadaval, apenas destacava as coordenadas de espaço e tempo, cruzando-as com a distinção das três componentes, através de cativante cromatismo. Contudo, manifestamente, não deixava de ser falho em informação e, de facto, de corresponder à fiel imagem daquilo que tenho designado como um saco de gatos, onde nada falta para deixar baralhado quem pretenda esclarecer-se.

Não saber agarrar

Por outro lado, em segundo lugar, como factor positivo, consideremos um exemplo concreto, bem ilustrativo do que, tantas vezes, tenho dito e escrito a propósito desta tão evitável confusão. Reparemos que o Dr. Luís Pereira Leal, o grande senhor que, durante dezenas de anos, assegurou a concepção da programação musical da Fundação Calouste Gulbenkian – só uma das casas que melhor programação oferece a nível internacional – sempre teve a preocupação de encontrar um tema agregador do programa que concebe para o Festival de Sintra.

No ano passado, se bem se lembram, designou-o como Fronteiras longínquas, em consonância com o facto de serem originários do extremo oriente os artistas que integravam a proposta mais formal ou, se quiserem, por conveniência desta minha explicação, o ponto do festival. Estava dado o mote. Pereira Leal sabe o que faz.

Entretanto, deixai que me expresse em corrente linguagem musical. É lamentável que tivesse havido quem devia, mas não soube, pegar no tema para desenvolver as respectivas variações… Que culpa tem o Director Musical que a estrutura organizativa do Festival de Sintra não tenha a capacidade instalada para corresponder aos desafios?

Pois bem, ao nível da concepção do programa geral e total, apenas se esperava que os designados contrapontos articulassem com o figurino cujas linhas mestras tive oportunidade de transmitir e de vender, como ideia importada, susceptível de adaptações locais mas sem a desfigurar.

E, para tanto, em articulação com o conceito proposto pela moldura das Fronteiras Longínquas, de acordo com as condições postas à disposição, nomeadamente, de carácter orçamental e logístico, teria de se investigar e encontrar quer as peças mais afins daquela temática, tanto de recorte erudito como popular, quer os artistas que lhes dariam vida. Também teria de se conceder o tempo suficiente a todas estas actividades. Por isso, festivais congéneres são preparados com cronogramas que compreendem dois, três e mais anos de preparação.

Naturalmente, em tempo de vacas magras, cumpre não ter mais olhos do que barriga, sendo de evitar tanto a dispersão, como a tendência para o estardalhaço. E um dos factores a considerar com maior pertinência é a possibilidade de cativar para o projecto os próprios artistas que asseguram a vertente formal e que, igualmente, poderão ser afectos a propostas com características coincidentes com a tal estratégia de informalidade e de conquista de novos públicos, que subjaz ao fulcro destas considerações.


Figurino (desrespeitado em Sintra…)

É neste domínio que, num país e num concelho como o nosso, não é, de todo em todo, particularmente difícil ou sofisticada, a articulação das propostas de música erudita, interpretadas por solistas em concerto sinfónico, ou em recital, em contraponto, por exemplo, com as mesmas peças ou outras, afins ou tematicamente contrastantes, interpretadas por bandas, por grupos de câmara, com arranjos, orquestrações e instrumental totalmente diverso, etc.

Aqui chegados, lembrarei, uma vez mais, o Maestro Abbado, já citado em artigos precedentes. O que ele concebeu para Salzburg, baseado na noção do musical contraponto, foi um produto que, sempre da mais alta qualidade, e em perfeita sintonia e articulação com o tema geral da vertente formal do Festival da Páscoa, se apresenta de tal maneira que o público enriquece com uma outra experiência cultural, próxima no tempo e no espaço.

Como a coisa funciona

O seu sucessor, Sir Simon Rattle, deu continuidade à ideia e sem qualquer alteração de figurino. Poderia aqui trazer exemplos exaustivos de anos e anos que levo deste fabuloso festival mas decidi-me por 2007, por ser ano jubilar do seu quadragésimo aniversário, e em que a vertente de ópera do Festival da Páscoa iniciou com Das Rheingold, (O Ouro do Reno), a apresentação de um Ring que só terminou, precisamente, na Páscoa deste ano de 2010.

Para além desta primeira jornada da famosa Tetralogia de Richard Wagner, outros momentos, noutros dias do festival daquele ano, incluiriam peças sinfónicas, coral sinfónicas ou poema sinfónico em que se faria sentir
a presença do ouro, como tema central agregador, Por exemplo, em Das goldene Zeitalter (A Idade do Ouro), de Dmitri Schosttakowitsch. Ou em Das goldene Spinnrad (A roda de fiar dourada) de Antonin Dvorák.

Estão a entender, apenas a partir de um pequeno mas concreto exemplo, como se pode procurar a lógica da concepção de um programa de festival com coerência e coesão internas? Mas continuemos. Então, se estes eram momentos da vertente mais formal, como foram concebidos os contrapontos?

Apenas darei como exemplo o último dos três concertos Kontrapunkte que tinha como título Gegen Wagner (Contra Wagner), incluindo obras de Erwin Schulhoff, Paul Hindmith, Ernst Krenek, Sandor Veress, Anton Webern e Ernst Toch que, nuns casos, através de fina ironia e noutros, por radicais, desafiantes e interpeladores contrastes, propõem uma estética musical que, flagrantemente, põe em causa as mais conhecidas soluções wagnerianas. Não esqueçam que era de Wagner a grande peça lírica do Festival. Tudo tem de estar conotado, relacionado por laços mais ou menos ténues, subtis, implícitos, explícitos.

Mais uma achega

Convém esclarecer que, desde 1967, ano em que Herbert von Karajan, ele próprio nascido em Salzburg, fundou o Festival da Páscoa, «apenas» e exclusivamente se conta com o acompanhamento e suporte musical da Orquestra Filarmónica de Berlin. Ora bem, desde logo, e, para que se perceba que não há qualquer concessão à qualidade musical, os contrapontos, mais tarde introduzidos por Abbado, também são assegurados por grupos de músicos da mesma e excepcional orquestra. No exemplo em questão, que atrás circunstanciei tão sumariamente, tratou-se de um conjunto de cordas e de metais composto pelos chefes de naipe.

Ainda mais uma achega que, provavelmente, enquanto exemplo modelar de concepção programática, poderá constituir uma síntese tão eficaz como desejaria para este texto em que venho tentando expressar aquilo que, para mim, é tão óbvio como beber água porque se tem sede…

Para tanto, nem mais nem menos, recorrerei ao seríssimo caso da Festa da Música de Lisboa que, durante vários anos, fez a alegria dos amantes da música, desde os velhos e inveterados melómanos, como eu e alguns dos meus amigos, até às crianças e jovens que davam os primeiros passos ou consolidavam as suas preferências nestes territórios tão apetecíveis da grande música.

Se bem se lembram, também se tratava de um figurino importado, originalmente concebido por René Martin, qual réplica da Folle Journée de Nantes, que o Centro Cultural de Belém importou durante vários anos até que uma certa senhora, arvorada em Ministra da Cultura [quem se lembra hoje da governante Pires de Lima?...], acolitada por Mega Ferreira, se permitiu pôr-lhe termo.*

Com três dias de duração, era uma grande festa em que se sucediam as propostas musicais, desde a grande orquestra sinfónica, ao músico em recital a solo, aos conjuntos de câmara, ao canto, em dezenas e dezenas de pontos e contrapontos, dentro do grande, dos médios e pequenos auditórios, nos corredores, em todo o lado onde fosse possível.

Muito público, muita informalidade e sempre, sempre, inequívoca qualidade. Convém ainda salientar que, embora só funcione como um todo e não seja reproduzível parcialmente, é perfeitamente possível encontrar no modelo um ou outro ponto forte que nos ajudem a resolver os problemas.

A questão dos temas

Por exemplo, a imprescindível submissão da proposta geral a um tema geral. Recordemos: Johann Sebastian Bach, 2001; Haydn & Mozart, 2002; De Monteverdi a Vivaldi, 2003; Chopin, Schumann, Liszt e Mendelssohn-geração 1810, 2004; Beethoven e os seus amigos, 2005; A Europa Barroca-AHarmonia das Nações, 2006. Em cada ano, um tema agregador para cada Festa. Trata-se de uma estratégia de uma defesa, um chapéu, se quiserem entendê-la como tal, sob o qual se abrigam todos os eventos, em relação articulada.

Algo tem de ficar muito claro. Naturalmente, é possível organizar festivais sem um tema geral. Agora, o que não é possível é organizar um festival, que inclua a solução dos designados contrapontos, sem a presença de um tema gerador e determinante. A própria noção de contraponto, stricto sensu, o pressupõe.

Ser programador de uma proposta cultural tão sui generis como é um festival, implica o conhecimento, na primeira pessoa, ou, pelo menos, indirecto mas detalhado, de casos como os de Nantes, La Rocque d’Anthéron, Luzern, Verona, Lugano, Salzburg, Schleswig-Holstein, Styriarte (Graz), Schwetzinger SWR, Grafenegg, Lockenhaus, Tiroler Festspiele Erl, Edinburgh, etc.

Há para todos os gostos. Há soluções exemplares, desde a bilheteira à arrumação das salas, à organização das manifestações paralelas de animação cultural, aos transportes e comunicações, à articulação com a hotelaria tradicional e a estada chez l’habitant. Há lições estupendas que não se pode ignorar. Ignorar é sucumbir e desperdiçar oportunidades. Em suma, por ser coisa coisa de… ignorantes, ignorar é inadmissível.

Não passa pela cabeça de ninguém que alguém menos esclarecido – enfim, deixem lá passar o eufemismo… – possa estragar o que tanto trabalho deu a conseguir erguer, isto é, a reputação de um festival como o de Sintra, cujas vicissitudes o engrandeceram.

Dificuldades podem existir, vão existir sempre. Por isso, só os mais bem preparados devem ocupar os lugares de comando. No dia em que alguém menos qualificado acede a um lugar de direcção ou de comando, é certo e sabido que a sua falta de discernimento vai potenciar o risco de, ele próprio, ser um motor e veículo de promoção de outros casos de desqualificação. Ora bem, não me vão dizer que nunca viram disto por aqui

Se me permito escrever com este desassombro é porque apenas me permito comentar os casos em que estão em causa dinheiros públicos. Uma entidade privada pode dar-se ao luxo de recrutar um incompetente. O mesmo não pode acontecer num serviço do Estado, ou no poder local onde o que está em jogo são recursos da comunidade, fruto dos impostos liquidados pelos contribuintes.

Tão simples como isto.

PS:

Se quiserem ter acesso aos vários textos publicados sobre o Festival de Sintra, no sintradoavesso, basta inserir as palavras «festival de sintra» no rectângulo ao canto superior esquerdo do painel do blogue.

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*No sintradoavesso, ler Dias da Música sem Festa da Música, 21.04.08



quinta-feira, 1 de abril de 2010

“Dedicação” entre aspas…

Desde o início, como sabem, o sintradoavesso tem pautado a sua actuação pela sistemática denúncia de situações tão frequentes e desagradáveis como ruas e estradas com pavimentos miseráveis, prédios de entranhas às escâncaras, lixeiras a céu aberto, construções inusitadas, estacionamento selvagem, património natural e edificado descuidado e ofendido que, a eito, por aí proliferam.

De algum modo, a designação do blogue evidencia a sua própria razão de ser. Como sintradoavesso foi baptizado. Percebe-se, sempre se percebeu porquê. Tantas horas de escrita e, quantas mais, da vossa leitura, constituem prova provada de que muita coisa causa, e continua a causar, espanto e escândalo neste periférico, amodorrado, neurasténico e desafortunado concelho de Sintra que será capital, não do romantismo, mas, isso sim, da designada cultura do desleixo.

Se demonstração necessária fosse para atestar o que venho afirmando, bastaria lembrar que, em poucos anos, Sintra passou de 5º para 42º lugar, perdendo trinta e sete lugares na graduação nacional de qualidade de vida. As situações afins da tão negativa imagem do concelho, objecto da preocupação do sintradoavesso, mais não são do que apenas um dos aspectos das causas que, a montante de tanto problema, explicam os nossos viveres menos qualificados, geradores de tanto descontentamento.

Ora bem, depois do recente advento da fotografia, o sintradoavesso vai apresentar o “Dedicação” entre aspas, passatempo que, não só visa a identificação e denúncia de casos repreensíveis e inaceitáveis, através da publicação de fotos relativas a tais situações que não podem nem deviam estar a acontecer, mas também dar oportunidade que os leitores dêem largas à imaginação.

Em princípio, a identificação da imagem não será tão óbvia como, à primeira vista, poderia parecer. Então, vão-se preparando. Contem ainda com a disponibilidade do sintradoavesso para receber e publicar fotos de casos semelhantes que existam em todas as freguesias porque, infelizmente, há imensas ocorrências que desconhecemos neste gigantesco concelho…

A título de exemplo, aqui têm a primeira imagem do passatempo “Dedicação” entre aspas, com as respectivas dicas.

Trata-se de:
a) Chegada do primeiro turista asiático
b) Peregrino decapitado
c) Painel em edifício municipal

domingo, 28 de março de 2010

Sintra a reinar ao romantismo...

A divulgação pelo Presidente da Câmara de que se vai investir 1,2 milhões de euros na propaganda da marca “Sintra Capital do Romantismo” é uma excelente notícia para as agências de meios e publicidade. No entanto, não desviará a atenção dos sintrenses de outros temas, entre eles o empenho na compra da Quinta do Relógio (6.750.000 euros) cujo rigor em custos de reconstrução e utilização prevista se desconhece.

Da divulgação feita no site oficial da Câmara Municipal de Sintra (
www.cm-sintra.pt) com o título “CULTURA E TURISMO” e subtítulo “SINTRA INVESTE NO ROMANTISMO”, ressalta a alusão pouco diplomática à “República da China”, já que Portugal apenas mantém relações com a República Popular da China. Também a dúbia interpretação do que é dito sobre a China “libertar” turistas, não ajudará muito a incentivar a sua vinda.

Quanto a Sintra, é sintomático que, só ao fim de 12 anos como Presidente da Câmara de Sintra, o Senhor Dr. Fernando Seara afirme, sabe-se lá se com ar consternado, que “temos que olhar para o turismo com dez anos de distância”. Talvez quisesse dizer “de antecedência”...
Tínhamos um patamar a 10 anos para o SATU, passámos a ter mais outro a 10 anos, com a chegada massiva de turistas chineses, ávidos de pedalar nas ciclovias prometidas em 2003.

Sem novos hotéis de qualidade perto dos locais a visitar (na cintura de Sintra construíram-se, sim, vários motéis) como é possível aumentar para o dobro o número de dormidas e satisfazer o “turista cada vez mais exigente”? Em parques de campismo? Ou com a zona da Volta do Duche reservada a caravanismo, sem o mínimo de segurança nem condições, tais como instalações sanitárias adequadas?

Consultando o “SintraINN” o total de quartos disponíveis não atinge os 1000, dos quais cerca de 600 em Hotéis de reconhecida qualidade. Destes, em zona acessíveis aos diferentes monumentos e palácios, apenas contamos com mais ou menos 113 quartos. Temos mais 122 em Hospedagens, 67 em Pensões, 38 em Motel, 29 Turismo de Habitação, 28 em Moradias, 26 em Pousada, 21 em Estalagem, 19 em Apartamentos e 17 Turismo Rural.

Poderá perguntar-se aos Senhores Presidente da Câmara e Vereador do Turismo se, imbuídos de tanto sucesso em alojamentos, estariam dispostos a passar dois ou três dias com as suas famílias em todos os que agora são colocados à disposição dos turistas, mesmo onde os “jacuzzi” fazem parte integrante da oferta.

Não há, pois, uma oferta adequada ao prestígio internacional de Sintra e à qualidade exigível, pois não basta embandeirar-se com o aumento de turistas se esses fluxos não forem positivos em termos económicos.

Quando muitos comerciantes se desfazem de lojas tradicionais e as mesmas passam a comércio desadequado à história dos locais, prova-se que pouco tem sido feito em prol do turismo.

Por fim, desmistifique-se que os "2,5 milhões de euros na requalificação da centenária linha do Eléctrico de Sintra”, não serão suportados pela CMS, mas sim por um mecenas cultural, facto que está omisso na divulgação feita pelo site oficial.

Fernando Castelo

quarta-feira, 24 de março de 2010

Da ignorância


Ontem mesmo, em Lisboa, durante uma conversa de circunstância a propósito daquela patetice da campanha turística Sintra, capital do romantismo, percebi que um arquitecto dos seus quarenta anos, havia tropeçado nas minhas palavras quando me referi ao ecletismo revivalista sintrense. E não foi precisa muita perspicácia da minha parte para perceber que, pura e simplesmente, o homem ignorava o que é o revivalismo romântico.

Jamais me passaria pela cabeça que um arquitecto não dominasse a terminologia e conceitos conotados. Todavia, tive de me render à evidência. Parece impossível, mas a coisa era absolutamente inequívoca, tanto para mim como para os outros dois companheiros, médicos, envolvidos na troca de impressões. A situação era tão bizarra que, desconhecendo os antecedentes e as coordenadas do artista, não saí da mesa sem perceber o fenómeno.

E consegui entender. É arquitecto, apenas porque se licenciou numa faculdade de arquitectura. De facto, nunca exerceu a profissão. É funcionário de uma autarquia em cujos serviços culturais emite parecer sobre projectos de animação cultural. Pasmo. De queixos caídos, continuo a sondar, acabando por perceber que o sujeito decide. O senhor arquitecto até tem responsabilidade de chefia! Pasmo duplo, não triplo, meu e dos outros dois.

Enfim, é o que pode designar-se como ignorância institucionalizada… Trata-se de ignorância, dura e crua, porque, repito, um licenciado em arquitectura não pode deixar de conhecer a matéria em questão. Olhem, fiquei tão afectado que ainda estou a recompor-me. Apenas me permito partilhar convosco o episódio porque o ignorante é funcionário público, da administração local, cujo salário é assegurado pelo erário público, portanto, produto dos impostos liquidados por todos nós.

Por acaso, Sintra não é a autarquia da história. Não, desculparão mas não esclareço. Paciência, fica na pasta das vossas dúvidas… Até porque o que relatei podia ter-se passado em muitas Câmaras Municipais. Contudo, infelizmente, como todos bem sabemos, por cá – e, então nos serviços culturais! – o tal arquitecto da treta não está nada mal acompanhado…

Apenas se confirma, aqui e por todo o lado, que são os ignorantes, sempre mal preparados, que colocam subordinados ignorantes em patamares de responsabilidade. É assim que a ignorância alimenta e gera a ignorância. O pior é que a potencia inusitadamente, reproduzindo-se sem controlo. É um flagelo!


PS:

Outro assunto, mas ainda a propósito de ignorância. O que terá querido dizer o Senhor Deputado Ricardo Rodrigues do PS, ao afirmar que o PSD pretendia fazer chincana política [ao chamar à Comissão de Inquérito o Senhor Primeiro Ministro]? Chincana? É que nem sequer se trata de regionalismo açoriano...

Claro que o Senhor Deputado desconhece ser chicana o termo correcto. No precipitado afã de fazer eco da voz do dono, não se lhe colocou qualquer dúvida. Lamentável, perfeitamente lamentável a ignorância do Senhor Deputado. Por ali, terá acontecido um fenómeno de contaminação fonética [gincana?] - deveras interessante de explorar noutro contexto - que, provavelmente, o conduziu à retumbante calinada. Estou desejoso de verificar como resolveu a questão o Diário das Sessões...


segunda-feira, 22 de março de 2010

Sintra,
desleixo capital



Apenas quatro parágrafos para, mais uma vez, trazer um assunto que, de modo algum, é novo nestas páginas. Trata-se da patética campanha Sintra, capital do romantismo* que, despudoradamente, a Câmara Municipal insiste em promover, depois de, por más decisões e omissões, se ter constituído como entidade que mais contribui para a degradação de locais paradigmáticos das três freguesias da sede do concelho onde se concentram as características mais românticas jóias da coroa.

Capital de quê? Do romantismo? Claro que não sabem do que falam. Claro que se trata da mais atrevida ignorância, a galope no pacóvio desdém pelo estudo de coisas tão sérias como as que se conotam com a noção de romantismo que tanto se articula com o pródigo ecletismo revivalista sintrense. E, na realidade, o romantismo até tem, não uma, mas várias capitais. Mas noutras latitudes. Em países civilizados… Aqui, não.

De facto, noutras mãos, com gente outra, informada, culta, interessada – numa atitude de dedicação total [lembram-se do slôgane da campanha eleitoral?...] – na gestão dos destinos desta comunidade, Sintra até teria condições para o efeito mas, de há muitos anos a esta parte, é guitarra demasiado sofisticada para as unhas da tão desqualificada gente que tem tentado tocá-la…

Veja-se, a título de exemplo inequívoco, o caso da Sintra Garagem cujas sobras de telhado desabaram, há poucos dias, escandalosamente, em pleno coração da Estefânea, continuando a pôr em risco pessoas e bens. Reparem que, em Maio de 2004 – há seis anos! – o Presidente da Câmara me garantiu que tinha acabado de assinar um despacho que resolvia o assunto em definitivo. Valha-nos Deus!

Sintra, capital de alguma coisa? Só se for da cultura do desleixo


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*Neste blogue, ler os textos publicados nos dias 21.10.09,04.09.09, 01.09.09, 17.08.09 e 20.07.09.


sexta-feira, 19 de março de 2010

Como eram a azinhaga e a casa
Vale dos Anjos,
o inferno em que tudo vale

O primeiro comentário inserido no artigo “Seteais, a propósito duma promoção” poderia ser gerador de uma indignação legítima, pela desconformidade latente com a defesa do nosso Património na Serra de Sintra e Paisagem Cultural da Unesco.


Até onde foram as escavações
Todavia, basta ler aquelas breves palavras para perceber que há quem aprove os projectos mais infames, verificando-se amiúde o alheamento dos organismos que deveriam actuar rapidamente contra os desmandos. Não raro, ao considerar os contornos com que se propõem projectos PIN ou, ao chegar à conclusão de que o licenciamento de um Fórum e grande parque de estacionamento adjacente se aparenta ligado a um mecenato de tal modo controverso que poderá atingir os dois milhões e meio de euros, a título de reabilitação do eléctrico, quem poderá espantar-se com a escrita dos disparates mais similares e convergentes?

Volumetria do construído agora
Só faltou que PC advogasse uma continuidade de condomínios privados, ou o loteamento da Serra para moradias e suas piscinas, como chegou a estar previsto para a Tapada do Saldanha e que o 25 de Abril fez gorar.

Portanto, pela minha parte, estou grato a PC por ter justificado estas palavras ao mesmo tempo que se juntam as fotos de como era a Quinta dos Anjos e como evoluíram as obras da construção.

Não é para envergonhar o PC, mas sim quantos intervieram no processo e se encontram caladinhos por razões que a verdade, certamente, desconhece.

No inferno também haverá gente desqualificada.

Fernando Castelo


Nem o muro escapou ...... Largura da Azinhaga...... Novo "muro" acimentado

quarta-feira, 17 de março de 2010

Seteais: silenciar, jamais!!!



















Tantas vezes tem sido esta grave questão abordada e, salvo a Alagamares, jamais alguma das entidades que se reclama da defesa do património em Sintra, mesmo das que têm responsabilidades institucionais, se dignou manifestar-se para salvaguarda dos interesses colectivos em causa.

Com o intuito de melhor desafiar a participação de todos, a partir desta data, decidimos quebrar o exclusivo pressuposto de denúncia escrita - que desde o início do sintradoavesso tem vigorado - para, sempre que possível, passarmos a introduzir mensagens audiovisuais que melhor caracterizem a matéria objecto das preocupações que com todos partilhamos.

Hoje, iniciamos esta prática com uma foto actual do destruído tanque travestido em prosaica casa de máquinas e um pequeno vídeo onde é possível ver os gases poluentes, bem como ouvir o barulho dos motores em operação.

João Cachado/Fernando Castelo


terça-feira, 16 de março de 2010

Seteais,
a propósito duma promoção

Começo por vos pedir que releiam os textos aqui publicados nos dias 13 e 14 de Novembro de 2008, respectivamente, Seteais, pobre tanque e Seteais, tanque essencial. Se não o fizerem, deixarão de entender o alcance do assunto que hoje vos trago para reflexão.

Entretanto, apenas lembraria que houve um alto funcionário do Estado, Arquitecto Assessor Principal da Administração Pública Central, na altura afecto ao IGESPAR, que, dando total cobertura à destruição e subsequente adaptação do tanque a casa de máquinas, se permitiu justificá-la com argumentos que envergonhariam qualquer estudante de Ética da Recuperação do Património.

Pois fiquem sabendo que, actualmente, tão douto técnico desempenha as funções de Chefe do Gabinete de Sua Excelência o Secretário de Estado da Cultura. Se, como eu, ainda não perderam totalmente a capacidade de espanto – num país em que, ao mais alto nível da decisão política, passaram a ser possíveis as maiores bizarrias – surpreendam-se com mais esta promoção ao cargo de Principal colaborador de um governante.

Insisto, com a sugestão do primeiro parágrafo. Releiam os textos, pelo menos, os que vos sugeri e, se possível, todos os outros que, acerca do caso em apreço, tive oportunidade de subscrever neste mesmo blogue. A propósito, não posso perder a oportunidade de sublinhar como Seteais continua a ser um local tão causticado pela ignorância e cupidez.

Seteais, desespero de causa

Conselho final. Vão até lá, reparem no miserável aspecto daquela controversa casa de máquinas que o Senhor Arquitecto Assessor Principal pretendia ver encimada pela ilusão de um espelho de água inconcebível. Porém, ao deslocarem-se, observem também, do outro lado da estrada, a volumetria da mansão que Miguel Pais do Amaral está a construir na Quinta do Vale dos Anjos.

Subam a azinhaga, verifiquem como o caminho – é absolutamente incrível! – está actualmente reduzido a oitenta centímetros de largura. Percebam o tipo de abusos que vão sendo cometidos. Entendam que aquela casa, com os seus onze metros de altura de fachada, vai ficar mais acima que o Palácio de Seteais donde, aliás, a construção já é visível.

Todas as entidades afins da autorização de construção da mansão do magnata foram consultadas. Nenhuma, desde o Parque Natural Sintra-Cascais, à Câmara Municipal de Sintra, ao IGESPAR, emitiu parecer desfavorável. Acham isto normal, numa zona de intervenção problemática?

E, repito, do outro lado, um agradável tanque com espaço circundante dotado de conversadeiras e adequada decoração arbustiva, que fazia parte inequívoca do acervo de património construído da Quinta de Seteais, interessantíssimo espaço de lazer, foi liminar e criminosamente arrasado, porque o hoteleiro concessionário do Palácio, o grupo Espírito Santo, precisando de instalar a maquinaria poluente, longe da zona de alojamento, encontrou um Arquitecto Assessor Principal que não viu o mínimo inconveniente.

Acuda-nos e valha-nos com a sua intercessão o poderoso São Judas Tadeu que, como tenho lembrado, em absoluto desespero de causa, é advogado dos impossíveis...