Caridade na Verdade
No quadro das maiores preocupações de qualquer pensador verdadeiramente humanista, não deve haver matéria mais determinante e mobilizadora do que o modo como se processa o envolvimento da técnica no desenvolvimento dos povos. Em 1967, o então Papa Paulo VI, apenas três meses antes de se ter deslocado a Fátima, publicara a Carta Encíclica Populorum Progressio, entusiasticamente acolhido pelo grupo dos jovens católicos progressistas em que me integrava.
Desde então e, ouso afirmar, remontando ao pontificado de Leão XIII que, com a Rerum Novarum, apontou as linhas mestras da moderna doutrina social da Igreja para o futuro, ainda nada aparecera, neste específico domínio tão decisivo para o bem estar do Homem, como a última Encíclica do actual Papa, assumindo o modo mais libertador que é possível equacionar.
“(…) O tema do desenvolvimento dos povos está intimamente ligado com o do desenvolvimento de cada indivíduo. Por sua natureza, a pessoa humana está dinamicamente orientada para o próprio desenvolvimento. Não se trata de um desenvolvimento garantido por mecanismos naturais, porque cada um de nós sabe que é capaz de realizar opções livres e responsáveis; também não se trata de um desenvolvimento à mercê do nosso capricho, enquanto todos sabemos que somos dom e não resultado de auto-geração.
Em nós, a liberdade é originariamente caracterizada pelo nosso ser e pelos nossos limites. Ninguém plasma arbitrariamente a própria consciência, mas todos formam a própria personalidade sobre a base de uma natureza que lhes foi dada. Não são apenas as outras pessoas que são indisponíveis; também nós não podemos dispor arbitrariamente de nós mesmos. O desenvolvimento da pessoa degrada-se, se ela pretende ser a única produtora de si mesma. De igual modo, degenera o desenvolvimento dos povos se a humanidade pensa que pode recriar-se valendo-se dos “prodígios” da tecnologia. Analogamente, o progresso tecnológico revela-se fictício e danoso quando se abandona aos “prodígios” das finanças para apoiar incrementos artificiais e consumistas.
Perante esta pretensão prometeica, devemos robustecer o amor por uma liberdade não arbitrária, mas tornada verdadeiramente humana pelo reconhecimento do bem que a precede. Com tal objectivo, é preciso que o homem reentre em si mesmo, para reconhecer as normas fundamentais da lei moral natural que Deus inscreveu no seu coração.(…)”
Caritas in Veritate
Carta Encíclica de S.S. Bento XVI,
Roma, 29 de Junho de 2009, pela solenidade de São Pedro e São Paulo
Trata-se de brevíssima citação de um texto clarividente que, de novo, veio repor a caridade na acepção mais conveniente, na corajosa afirmação dos problemas que não são só deste mas de todos os tempos, tal o caso do desenvolvimento do indivíduo e dos povos em articulação harmónica com a técnica.
É esta a reflexão que me ocorre suscitar, no dia seguinte ao que, para visita pastoral aguardada com uma extraordinária expectativa, chegou a Portugal o seu autor. Com a inequívoca autoridade de referente universal, de líder espiritual, acutilante teólogo e filósofo, Bento XVI é, para nosso privilégio de católicos, o Papa que, desde João XXIII, não só mais nos tem interpelado, como cristãos, mas também mais tem desafiado o homem à necessidade da reflexão afim da redescoberta de si próprio.
Desafio de sempre, é coisa para ser respondida por cada um, durante o tempo que lhe cabe na páscoa [passagem] da vida. Sem dramas, sem precipitações ou confusões, fruto da ousadia de pensar que, questões de sempre, vão ser resolvidas neste tempo, só porque este tempo é o que nos coube viver…
PS:
Fui ontem participar na missa do Terreiro do Paço. Que coisa espantosa o silêncio. Que coisa surpreendente o silêncio enamorado de uma multidão. Tal como nas divinas obras de Arte, no poema, na peça musical, o silêncio, a suspensão, a pausa, o silêncio integrante da mensagem, do todo que ali se viveu, num inesquecível entardecer da cidade.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Certezas contingentes
Ter como absolutamente certo algo que, de facto, não é ponderável, faz a maior das confusões. Por vezes, tão grande é o risco de falibilidade que, em determinadas circunstâncias, chega a ser irracional. Não faltam os casos que poderia trazer à colação para ilustrar a justeza desta reflexão. Porém, revestem-se de particular acuidade aqueles que articulamos com os considerados fenómenos naturais.
A propósito, e, quase a título de anedota, jamais esquecerei que, há já uns bons anos, estava prevista, para a região de Lisboa, a possibilidade de avistar um fabuloso espectáculo de estrelas cadentes. Não faltaram as científicas previsões dos mais notáveis e mediáticos astrónomos portugueses que se deram ao trabalho de aconselhar o horário e até os locais a partir dos quais o espectáculo tinha mais hipóteses de sucesso.
Certamente como muitos outros cidadãos, habituados a confiarem na ciência, também eu fui induzido ao envolvimento na experiência que, tão apetecida e ludicamente, nos desafiava. Até à medula, deixei-me seduzir pela teia de tantos apelos de ordem estética que, inclusive, remetiam para um quadro de música e de equilíbrio cósmicos, qual harmonia pré-estabelecida, muito à imagem do querido Leibnitz.
Desde o princípio dos tempos que tais coisas se querem partilhadas. A perspectiva de fortíssimas sensações, remetendo para a inevitabilidade da redução à pequenez da nossa humana escala, diante da infinitude do cosmos, é algo que nos leva à necessidade do gozo em grupo, ao repúdio da solidão, pela certeza de que estará prestes uma daquelas raras ocasiões de ritual religioso, que não carece do intermédio de nenhum ministro sacerdotal…
E, assim sendo, lá fui, integrado num grupo de adeptos, até às alturas do santuário da Peninha. Só faltou comprar bilhete, tão certa era a inevitabilidade do evento. Todavia, por muito boa vontade que tivéssemos – e alguns de nós até gritavam o avistamento de algo que lá não estava, qual fenómeno de obsessiva miragem – nada acontecia. Alguém sugeriu que mudássemos de poiso e, em plena noite, descemos aos areais do Guincho. E nada acontecia, nada, o firmamento mantinha-se impávido, sereno, sem estrelas cadentes…
Certezas canceladas
Naturalmente, como já terão entendido, circunstâncias actuais determinam que me ocorra o episódio que acabei de lembrar. A ninguém, de facto, se impõe a frágil certeza ou, melhor, a imensa fragilidade das circunstâncias que assumimos como imutáveis. O caso dos transportes aéreos, tão copiosamente cancelados nos últimos dias, quase raia os contornos do absurdo ao não assumir a contingência dos factores no âmbito dos quais se concretiza.
Reparem que milhares e milhares de voos diários, na Europa, em todo o mundo, estão programadíssimos, com rígidos horários, de acordo com rotas mais que estudadas, que riscam os céus como se nada pudesse perturbar tão evidente moldura. Afinal, basta que lá bem a Norte, no meio de um glaciar islandês, tenha acordado um vulcão, bolsando a matéria fervente deste planeta que pode tudo ser menos inércia e quietude, para lançar a maior nuvem de confusão, perante a qual tudo bascula.
Finalmente, a anedota. Não raro, é em quadros quejandos que somos confrontados com as mais caricatas cenas. E, mais uma vez, assim aconteceu, conforme acabei de verificar, através de uma reportagem televisiva no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Passa-se o episódio com uma nossa jovem compatriota emigrada em França, totalmente rendida à pretensa imutabilidade dos factores.
Segundo o seu próprio testemunho, terá dito aos patrões que ia ao dentista, cujo consultório desconheço onde seja mas, por certo, perto do seu local de trabalho. Meteu-se num aviãozinho até à santa terrinha e agora, porque as coisas mudaram inadvertidamente, não consegue regressar. Ainda sem saber que desculpa será capaz de arranjar para endrominar os amos gauleses, rezava a todos os santinhos para que os senhores não se apercebessem da mentira…
Entre o espectáculo, cientificamente previsto, das iminentes estrelas cadentes e a científica programação do tráfico aéreo, não há significativa diferença. Cumpre ter em conta que a planificação das actividades nunca será tão séria quanto necessário se não contemplar a possibilidade de ocorrência dos mais remotos riscos. Este também é um princípio científico. Pois é, mas, por vezes, dá jeito não o considerar…
Assim sendo, o melhor é não esquecer o que sucedeu, também por toda a Europa, há cerca de dois séculos e meio, na sequência da erupção do vulcão vizinho deste, bem mais poderoso, e que tantos sinais de turbulência está a evidenciar.
Ter como absolutamente certo algo que, de facto, não é ponderável, faz a maior das confusões. Por vezes, tão grande é o risco de falibilidade que, em determinadas circunstâncias, chega a ser irracional. Não faltam os casos que poderia trazer à colação para ilustrar a justeza desta reflexão. Porém, revestem-se de particular acuidade aqueles que articulamos com os considerados fenómenos naturais.
A propósito, e, quase a título de anedota, jamais esquecerei que, há já uns bons anos, estava prevista, para a região de Lisboa, a possibilidade de avistar um fabuloso espectáculo de estrelas cadentes. Não faltaram as científicas previsões dos mais notáveis e mediáticos astrónomos portugueses que se deram ao trabalho de aconselhar o horário e até os locais a partir dos quais o espectáculo tinha mais hipóteses de sucesso.
Certamente como muitos outros cidadãos, habituados a confiarem na ciência, também eu fui induzido ao envolvimento na experiência que, tão apetecida e ludicamente, nos desafiava. Até à medula, deixei-me seduzir pela teia de tantos apelos de ordem estética que, inclusive, remetiam para um quadro de música e de equilíbrio cósmicos, qual harmonia pré-estabelecida, muito à imagem do querido Leibnitz.
Desde o princípio dos tempos que tais coisas se querem partilhadas. A perspectiva de fortíssimas sensações, remetendo para a inevitabilidade da redução à pequenez da nossa humana escala, diante da infinitude do cosmos, é algo que nos leva à necessidade do gozo em grupo, ao repúdio da solidão, pela certeza de que estará prestes uma daquelas raras ocasiões de ritual religioso, que não carece do intermédio de nenhum ministro sacerdotal…
E, assim sendo, lá fui, integrado num grupo de adeptos, até às alturas do santuário da Peninha. Só faltou comprar bilhete, tão certa era a inevitabilidade do evento. Todavia, por muito boa vontade que tivéssemos – e alguns de nós até gritavam o avistamento de algo que lá não estava, qual fenómeno de obsessiva miragem – nada acontecia. Alguém sugeriu que mudássemos de poiso e, em plena noite, descemos aos areais do Guincho. E nada acontecia, nada, o firmamento mantinha-se impávido, sereno, sem estrelas cadentes…
Certezas canceladas
Naturalmente, como já terão entendido, circunstâncias actuais determinam que me ocorra o episódio que acabei de lembrar. A ninguém, de facto, se impõe a frágil certeza ou, melhor, a imensa fragilidade das circunstâncias que assumimos como imutáveis. O caso dos transportes aéreos, tão copiosamente cancelados nos últimos dias, quase raia os contornos do absurdo ao não assumir a contingência dos factores no âmbito dos quais se concretiza.
Reparem que milhares e milhares de voos diários, na Europa, em todo o mundo, estão programadíssimos, com rígidos horários, de acordo com rotas mais que estudadas, que riscam os céus como se nada pudesse perturbar tão evidente moldura. Afinal, basta que lá bem a Norte, no meio de um glaciar islandês, tenha acordado um vulcão, bolsando a matéria fervente deste planeta que pode tudo ser menos inércia e quietude, para lançar a maior nuvem de confusão, perante a qual tudo bascula.
Finalmente, a anedota. Não raro, é em quadros quejandos que somos confrontados com as mais caricatas cenas. E, mais uma vez, assim aconteceu, conforme acabei de verificar, através de uma reportagem televisiva no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Passa-se o episódio com uma nossa jovem compatriota emigrada em França, totalmente rendida à pretensa imutabilidade dos factores.
Segundo o seu próprio testemunho, terá dito aos patrões que ia ao dentista, cujo consultório desconheço onde seja mas, por certo, perto do seu local de trabalho. Meteu-se num aviãozinho até à santa terrinha e agora, porque as coisas mudaram inadvertidamente, não consegue regressar. Ainda sem saber que desculpa será capaz de arranjar para endrominar os amos gauleses, rezava a todos os santinhos para que os senhores não se apercebessem da mentira…
Entre o espectáculo, cientificamente previsto, das iminentes estrelas cadentes e a científica programação do tráfico aéreo, não há significativa diferença. Cumpre ter em conta que a planificação das actividades nunca será tão séria quanto necessário se não contemplar a possibilidade de ocorrência dos mais remotos riscos. Este também é um princípio científico. Pois é, mas, por vezes, dá jeito não o considerar…
Assim sendo, o melhor é não esquecer o que sucedeu, também por toda a Europa, há cerca de dois séculos e meio, na sequência da erupção do vulcão vizinho deste, bem mais poderoso, e que tantos sinais de turbulência está a evidenciar.
sábado, 8 de maio de 2010
Às arrecuas,
ma nò tròppo…
Acaba o país de saber que S. Exa. o Primeiro Ministro dignou resignar-se ao que talvez não tivesse querido mas foi obrigado, depois de, nesta recente deslocação a Paris e Bruxelas, ter ouvido o que precisava. Ter-se-á rendido à evidência de que um país exaurido, exangue, praticamente incapaz de honrar o serviço da dívida externa que vem contraindo, não pode ter os vícios dos que têm dinheiro…
Até agora, não ouvi nem li, fosse quem fosse, pôr em causa a pertinência da concretização das grandes obras públicas que tanta controvérsia têm gerado. Ora bem, se polémica tem havido, ela apenas reside na simples circunstância de que, apesar da eventual necessidade, o simples facto de não haver recursos para os concretizar, inviabiliza qualquer hipótese de os equacionar no curto ou médio prazos.
De facto, em especial após a reclassificação das agências de rating, o dinheiro está tão caro, que Portugal não tem outra alternativa que não seja adiar a realização de projectos que acabariam por secar a hipótese de financiar negócios bem mais rentáveis. Nestes termos, o tgv, a terceira travessia do Tejo, mais auto-estradas, o aeroporto de Alcochete, têm de esperar por melhores dias.
É que, nas actuais circunstâncias, não há hipótese. Não pode agravar-se a dívida externa, o factor mais perigoso da situação portuguesa em particular. Este não é, de todo em todo, o momento para recorrer ao crédito nas praças internacionais, coisa que, aliás, já o próprio banqueiro Espírito Santo tinha afirmado tão recentemente, acrescentando que é preciso aguardar por melhores dias de apaziguamento e acalmia no mundo financeiro.
E, a propósito, ninguém ousará afirmar que o seu banco não estará desejoso de se envolver num negócio em que poderia retirar tão bons proventos. Bem, se o homem não sabe do que fala… Terá sido isto e mais umas dicas afins o que o PM ouviu aos seus interlocutores nesta deslocação à Europa transpirenaica. Era isto, afinal, que precisava ser público e evidente para o fazer recuar, mas sem perder totalmente a face. E lá ficaram para trás, a terceira travessia, o aeroporto, as auto-estradas.
Mas os comboios, senhor…
Sem relutância, estou prestes a aceitar a justificação que, no jornal Público, Vasco Pulido Valente avançava, no passado fim de semana, relativamente à teimosia do PM na concretização deste projecto do tgv. Com imensa pertinência, ironia e sabedoria, escrevia o Vasco que, na iminência de terminar o seu segundo mandato, sem nada de substancial ter mudado o país, a José Sócrates restava a hipótese de deixar o comboio como marca da governação...
Quanto ao tgv, aquilo que todos vamos sabendo, cidadãos mais ou menos informados que tentamos ser, também o PM o sabe. De facto, o emprego conseguido é efémero, de baixa qualificação, insignificante é a quota parte de produção portuguesa implicada e que, paradoxalmente, a ibérica ligação a Madrid nunca será um negócio rentável para a parte portuguesa. E isso é perfeitamente lamentável quando, com menor precipitação, até seria possível trabalhar uma alternativa mais compatível com os interesses do país.
No entanto, ninguém, em seu perfeito juízo, negará a absoluta pertinência de encarar a ferrovia, nas suas variantes de transporte de pessoas e mercadorias, em velocidades adequadas aos respectivos enquadramentos, e nas apropriadas bitolas. O que está em causa, isso sim, se a coisa for para frente, são as características do negócio em perspectiva que, além de implicarem na cativação de verbas indisponíveis, não satisfazem a resolução mais atinente dos dois aludidos factores, i.e., velocidade e bitola.
Afirma quem sabe destas coisas, que, a concretizar-se o projecto, importaria optar, indiscutivelmente, por uma solução de alta velocidade e não de muito alta velocidade cuja diferença, quer ao nível da construção e implantação dos próprios carris quer da concepção dos motores propulsores das locomotivas, se traduz numa enorme diferença de muitos milhões de euros de investimento.
Por outro lado, no que à questão da bitola se refere, menores não são as implicações se for efectivamente adoptada a solução que está perspectivada. É que, de tal modo evidentes são as diferenças em relação à bitola europeia que fica comprometida a compatibilização, com todos os prejuízos advenientes para a circulação. Se, repito, a coisa vai mesmo para a frente, como o PM acaba de anunciar, impõe-se esclarecer os cidadãos, com a maior urgência.
Naturalmente, caberia ao Governo o esclarecimento. Todavia, sabemo-lo bem, não é essa nem a cultura nem a prática vigentes. Infelizmente, a contrario do que para si próprio mais conveniente seria, o governo actua sem dar quaisquer satisfações. Neste caso, trata-se de matéria de índole técnica que, devidamente tratada em termos da informação, muito poderia contribuir para a aceitação de um projecto que vai consumir tão vultuosos recursos dos contribuintes.
Esperemos que, perante a evidente e flagrante falta de informação oficial, os diferentes partidos da oposição, da esquerda à direita, não deixem de aproveitar o ensejo para fazerem o trabalhinho que se impõe. Se não o fizerem, aliam-se ao Governo na manutenção deste statu quo de trevas, tão pouco propício a uma comunidade que está prestes a empenhar-se a si própria e às gerações futuras, sem perceber aquilo em que está metida.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Acção directa
"(…) Porque a pressão exercida sobre mim constituiu uma violência psicológica insuportável, porque não vislumbrei outra alternativa para preservar o meu nome, exerci acção directa e, irreflectidamente, tomei posse de dois equipamentos de gravação digital, os quais hoje estão apensos à providência cautelar que corre termos no Tribunal Cível de Lisboa.
(…)Procurei assim afirmar e fazer valer os meus direitos, uma vez que nunca tendo sido acusado nem julgado por nenhum tribunal, não aceitarei ser agora julgado por jornalistas deste tipo (…)”
Estas são palavras constantes da declaração do Senhor Deputado Ricardo Rodrigues, ontem à tarde no Parlamento. Era a patética e frustrada tentativa de pública justificação da sua lamentável atitude durante a entrevista que estava concedendo aos jornalistas da revista Sábado.
Tudo porque acabava de ser confrontado com o seu patrocínio, como advogado, a Débora Raposo, em 2008 condenada por burla e falsificação de documentos, num caso que defraudou em vários milhões de Euros a Caixa Geral de Depósitos de Vila Franca do Campo, na ilha de S. Miguel, em que ele próprio chegou a ser arguido, mas não acusado.
A sua demissão de Secretário Regional da Agricultura do Governo Regional dos Açores, em 2003 – na sequência de boatos, com repercussão pública, que o ligavam a um escândalo de pedofilia no arquipélago – terá sido o assunto que levaria o Senhor Deputado a levantar-se e a sair da sala, não sem que, previamente, tivesse subtraído dois gravadores de cima da mesa.
Confrontado com a incomodidade de atitudes do seu passado insular que, infelizmente para si, ainda não se sumiram nem estão esquecidas na bruma dos dias, o Senhor Deputado não esteve à altura da situação. A verdade é que o Senhor Deputado esqueceu que funções exerce, em delegação do poder que muitos cidadãos nele depositaram para, ao mais alto nível, honrar a República.
O profissional da Política que o Senhor Deputado é, portou-se muito mal. Pior não seria possível. Ficou, por exemplo, ao baixíssimo nível do profissional do futebol que, não aguentando a pressão da ofensa verbal de um adversário, desata ao murro e pontapé, esquecendo que o relvado é um tabuleiro de desporto onde a escola do fair play é inequívoca e determinante.
Agiu o Senhor Deputado como um garoto inconsequente que, apanhado em flagrante deslize, tenta esquivar-se, de qualquer maneira, sem perceber que só agrava a situação. Agiu, afinal, como a aluna do Carolina Micaelis – lembram-se? – que, em desespero de causa, agrediu a incompetente professora que tinha deixado que o conflito evoluísse a nível insustentável.
Perdeu a cabeça, dirão alguns benevolentes companheiros do Partido. Pois é, mas um Senhor Deputado eleito, naquele contexto, jamais poderia protagonizar tão lamentável episódio. Não pode reagir a quente, não pode perder a cabeça. Nem mesmo um qualquer cidadão anónimo, aqui na rua, pode assim reagir, exercendo acção directa e irreflectida. Quanto mais, um Senhor Deputado, ali, dentro das solenes paredes do Parlamento de São Bento.
Não menos lamentável, acrescente-se, a atitude do líder parlamentar da bancada que – acompanhado por outros Senhores Deputados, todos de semblante patibular – desculpabilizaria aquilo que, de todo em todo, jamais seria desculpável.
No entanto, sempre optimista, ouso esperar que, por fim, impere o bom senso. Talvez acabemos por ser beneficiados por um comportamento que honre e dignifique o Estado Democrático de Direito que, tão ligeiramente, ouvimos apregoar sem grande convicção e muito menores consequências.
"(…) Porque a pressão exercida sobre mim constituiu uma violência psicológica insuportável, porque não vislumbrei outra alternativa para preservar o meu nome, exerci acção directa e, irreflectidamente, tomei posse de dois equipamentos de gravação digital, os quais hoje estão apensos à providência cautelar que corre termos no Tribunal Cível de Lisboa.
(…)Procurei assim afirmar e fazer valer os meus direitos, uma vez que nunca tendo sido acusado nem julgado por nenhum tribunal, não aceitarei ser agora julgado por jornalistas deste tipo (…)”
Estas são palavras constantes da declaração do Senhor Deputado Ricardo Rodrigues, ontem à tarde no Parlamento. Era a patética e frustrada tentativa de pública justificação da sua lamentável atitude durante a entrevista que estava concedendo aos jornalistas da revista Sábado.
Tudo porque acabava de ser confrontado com o seu patrocínio, como advogado, a Débora Raposo, em 2008 condenada por burla e falsificação de documentos, num caso que defraudou em vários milhões de Euros a Caixa Geral de Depósitos de Vila Franca do Campo, na ilha de S. Miguel, em que ele próprio chegou a ser arguido, mas não acusado.
A sua demissão de Secretário Regional da Agricultura do Governo Regional dos Açores, em 2003 – na sequência de boatos, com repercussão pública, que o ligavam a um escândalo de pedofilia no arquipélago – terá sido o assunto que levaria o Senhor Deputado a levantar-se e a sair da sala, não sem que, previamente, tivesse subtraído dois gravadores de cima da mesa.
Confrontado com a incomodidade de atitudes do seu passado insular que, infelizmente para si, ainda não se sumiram nem estão esquecidas na bruma dos dias, o Senhor Deputado não esteve à altura da situação. A verdade é que o Senhor Deputado esqueceu que funções exerce, em delegação do poder que muitos cidadãos nele depositaram para, ao mais alto nível, honrar a República.
O profissional da Política que o Senhor Deputado é, portou-se muito mal. Pior não seria possível. Ficou, por exemplo, ao baixíssimo nível do profissional do futebol que, não aguentando a pressão da ofensa verbal de um adversário, desata ao murro e pontapé, esquecendo que o relvado é um tabuleiro de desporto onde a escola do fair play é inequívoca e determinante.
Agiu o Senhor Deputado como um garoto inconsequente que, apanhado em flagrante deslize, tenta esquivar-se, de qualquer maneira, sem perceber que só agrava a situação. Agiu, afinal, como a aluna do Carolina Micaelis – lembram-se? – que, em desespero de causa, agrediu a incompetente professora que tinha deixado que o conflito evoluísse a nível insustentável.
Perdeu a cabeça, dirão alguns benevolentes companheiros do Partido. Pois é, mas um Senhor Deputado eleito, naquele contexto, jamais poderia protagonizar tão lamentável episódio. Não pode reagir a quente, não pode perder a cabeça. Nem mesmo um qualquer cidadão anónimo, aqui na rua, pode assim reagir, exercendo acção directa e irreflectida. Quanto mais, um Senhor Deputado, ali, dentro das solenes paredes do Parlamento de São Bento.
Não menos lamentável, acrescente-se, a atitude do líder parlamentar da bancada que – acompanhado por outros Senhores Deputados, todos de semblante patibular – desculpabilizaria aquilo que, de todo em todo, jamais seria desculpável.
No entanto, sempre optimista, ouso esperar que, por fim, impere o bom senso. Talvez acabemos por ser beneficiados por um comportamento que honre e dignifique o Estado Democrático de Direito que, tão ligeiramente, ouvimos apregoar sem grande convicção e muito menores consequências.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Festival de Sintra 2010
– não, não é normal…
Já vamos na primeira semana e, segundo a organização, a 45ª edição do Festival de Sintra começará no próximo dia 24 deste mês de Maio. Porém, em termos da sua divulgação, nada transparece. Ou, melhor, alguma coisa acaba por se descortinar se a insistência for qualidade maior de quem procura a informação e não esmorecer a persistência. É que, como poderão verificar, não é fácil. Em Sintra, se tudo é particularmente difícil, em especial no campo cultural, porque haveria de ser fácil a disponibilização do calendário do festival?
Não dou qualquer novidade ao lembrar que, em latitudes mais civilizadas, no caso de festivais de grande renome e com programações de nível absolutamente excepcional, daqueles que suscitam uma extraordinária procura internacional de bilhetes, é perfeitamente normal ter o programa na mão e comprar os ingressos com um ano de antecedência, como em Salzburg e Bayreuth, por exemplo.
Tal não é nem nunca foi o caso de Sintra. De qualquer modo, apesar de não passar de festivalzinho de Verão de país periférico, chegou a gozar de reputação invejável até que o advento dessa coisa execrável, sob a espúria designação de contrapontos* – o tal saco de gatos sem conexão onde tudo cabe – a reboque da impreparação de quem ocupa lugares para os quais não está apetrechado, veio dar cabo do crédito da iniciativa que eu próprio cheguei a classificar como o mais sofisticado produto cultural de Sintra.
Todavia, não duvido de que, apesar de pálida sombra do que foi, o festival sempre apresentará motivos de interesse. Os seus directores artísticos – que nada têm a ver com o destempero dos tais contra – lá estão assegurando a apresentação de propostas de qualidade. Para a edição de 2010, fui sabendo que, além de Grigory Sokolov, Brigitte Engerer, Abdel Rahman El Bacha, cá viriam também Alexandre Tharaud ou Jean-Marc Luisada, todos nomes muito interessantes da pianística actual.
Desde o princípio do ano, não deve ter havido uma única semana em que, pelo menos uma vez, não tenha tentado saber algo via internet. Sem sucesso. No entanto, é absolutamente normal que um festival deste género seja anunciado com vários meses de antecedência, de tal modo que os interessados possam programar as suas vidas contando com a assistência a determinados eventos.
No meu caso, por exemplo, se assim não for, isto é, se não me comprometer com a devida antecipação, arrisco não poder assistir a determinado recital porque, nessa data, já terei outra marcação que, entretanto, terá ficado sem qualquer hipótese de alternativa anterior ou posterior. Por inerência de compromissos profissionais e de outra ordem não tenho outra hipótese senão organizar a agenda com a normal antecedência de segurança.
Então, como procurar? Naturalmente, Festival de Sintra 2010 será aquilo que ocorrerá buscar na Internet para ter acesso ao programa. Tentem e verão que vos acontece deparar com uma desactualizada fotografia de Brigitte Engerer encimando a informação de uma dúzia de linhas de circunstância que remete para um programa a apresentar brevemente. Entretanto, dois amigos – daqueles que, coitados, também como eu, obedecem a apertadas agendas melómanas – contactaram-me para saberem pormenores, pedindo um programa detalhado. O que fazer?
Hoje, dia 3, em vez de telefonar ao meu amigo Mário João Machado que, sem qualquer dúvida, me daria toda a informação, resolvi agir como qualquer interessado que não tivesse essa hipótese de contacto. Cerca das três da tarde, dirigi-me ao balcão do hall do Centro Cultural Olga Cadaval. Mas ninguém havia que me pudesse elucidar e não seria do amabilíssimo segurança de serviço que eu esperaria a almejada informação. E confirmei que não havia qualquer programa em suporte papel. Nada, nem um desdobrável, nem um simples folheto.
Não protestei. Não procurei outra fonte, não pedi para ser atendido por alguém responsável. Estava numa óptima e não queria estragar o bom humor. Voltei a casa. Resolvi fazer mais uma tentativa. Disquei o número do telefone do CCOC. Sugeriram-me que fosse ao sítio do próprio CCOC. Muito grato, segui a sugestão. De facto, na agenda, entre outros eventos que nada têm a ver com o Festival de Sintra, lá aparece também a informação referente ao que me interessava.
Mas, vamos lá ver. Serei eu completamente desprovido ou terei alguma ponta de razão quando manifesto a perplexidade que vos dou conta? Então, para aceder ao programa do festival eu tenho de consultar o sítio do CCOC? Com base em que lógica? Por se tratar do edifício onde funciona o auditório mais conhecido, onde alguns eventos têm lugar? Mas porquê, se também há uma série de outros em quintas e palácios que distam alguns quilómetros… Nesse caso, provável e igualmente, a remota designação de Sintraquorum, empresa municipal, será outro sítio para aceder à informação. Ou seja, tudo menos Festival de Sintra 2010… Valha-nos Deus!
Não, isto não é normal. E, claro que não havendo, até parece intenção de dificultar. Pois, pelo contrário, aqui mesmo ao lado, se quiserem confirmar como tudo é fácil, no que respeita ao Festival do Estoril, acedam à informação pertinente. Façam a experiência e, muito naturalmente, entrem por Festival do Estoril 2010. É lógico! Trata-se de uma iniciativa de altíssima qualidade que, neste momento, já está totalmente divulgada, com todos os pormenores. Enfim, Sintra, ou mais do mesmo e Cascais no seu melhor…
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* Vd. textos sobre assunto neste blogue
– não, não é normal…
Já vamos na primeira semana e, segundo a organização, a 45ª edição do Festival de Sintra começará no próximo dia 24 deste mês de Maio. Porém, em termos da sua divulgação, nada transparece. Ou, melhor, alguma coisa acaba por se descortinar se a insistência for qualidade maior de quem procura a informação e não esmorecer a persistência. É que, como poderão verificar, não é fácil. Em Sintra, se tudo é particularmente difícil, em especial no campo cultural, porque haveria de ser fácil a disponibilização do calendário do festival?
Não dou qualquer novidade ao lembrar que, em latitudes mais civilizadas, no caso de festivais de grande renome e com programações de nível absolutamente excepcional, daqueles que suscitam uma extraordinária procura internacional de bilhetes, é perfeitamente normal ter o programa na mão e comprar os ingressos com um ano de antecedência, como em Salzburg e Bayreuth, por exemplo.
Tal não é nem nunca foi o caso de Sintra. De qualquer modo, apesar de não passar de festivalzinho de Verão de país periférico, chegou a gozar de reputação invejável até que o advento dessa coisa execrável, sob a espúria designação de contrapontos* – o tal saco de gatos sem conexão onde tudo cabe – a reboque da impreparação de quem ocupa lugares para os quais não está apetrechado, veio dar cabo do crédito da iniciativa que eu próprio cheguei a classificar como o mais sofisticado produto cultural de Sintra.
Todavia, não duvido de que, apesar de pálida sombra do que foi, o festival sempre apresentará motivos de interesse. Os seus directores artísticos – que nada têm a ver com o destempero dos tais contra – lá estão assegurando a apresentação de propostas de qualidade. Para a edição de 2010, fui sabendo que, além de Grigory Sokolov, Brigitte Engerer, Abdel Rahman El Bacha, cá viriam também Alexandre Tharaud ou Jean-Marc Luisada, todos nomes muito interessantes da pianística actual.
Desde o princípio do ano, não deve ter havido uma única semana em que, pelo menos uma vez, não tenha tentado saber algo via internet. Sem sucesso. No entanto, é absolutamente normal que um festival deste género seja anunciado com vários meses de antecedência, de tal modo que os interessados possam programar as suas vidas contando com a assistência a determinados eventos.
No meu caso, por exemplo, se assim não for, isto é, se não me comprometer com a devida antecipação, arrisco não poder assistir a determinado recital porque, nessa data, já terei outra marcação que, entretanto, terá ficado sem qualquer hipótese de alternativa anterior ou posterior. Por inerência de compromissos profissionais e de outra ordem não tenho outra hipótese senão organizar a agenda com a normal antecedência de segurança.
Então, como procurar? Naturalmente, Festival de Sintra 2010 será aquilo que ocorrerá buscar na Internet para ter acesso ao programa. Tentem e verão que vos acontece deparar com uma desactualizada fotografia de Brigitte Engerer encimando a informação de uma dúzia de linhas de circunstância que remete para um programa a apresentar brevemente. Entretanto, dois amigos – daqueles que, coitados, também como eu, obedecem a apertadas agendas melómanas – contactaram-me para saberem pormenores, pedindo um programa detalhado. O que fazer?
Hoje, dia 3, em vez de telefonar ao meu amigo Mário João Machado que, sem qualquer dúvida, me daria toda a informação, resolvi agir como qualquer interessado que não tivesse essa hipótese de contacto. Cerca das três da tarde, dirigi-me ao balcão do hall do Centro Cultural Olga Cadaval. Mas ninguém havia que me pudesse elucidar e não seria do amabilíssimo segurança de serviço que eu esperaria a almejada informação. E confirmei que não havia qualquer programa em suporte papel. Nada, nem um desdobrável, nem um simples folheto.
Não protestei. Não procurei outra fonte, não pedi para ser atendido por alguém responsável. Estava numa óptima e não queria estragar o bom humor. Voltei a casa. Resolvi fazer mais uma tentativa. Disquei o número do telefone do CCOC. Sugeriram-me que fosse ao sítio do próprio CCOC. Muito grato, segui a sugestão. De facto, na agenda, entre outros eventos que nada têm a ver com o Festival de Sintra, lá aparece também a informação referente ao que me interessava.
Mas, vamos lá ver. Serei eu completamente desprovido ou terei alguma ponta de razão quando manifesto a perplexidade que vos dou conta? Então, para aceder ao programa do festival eu tenho de consultar o sítio do CCOC? Com base em que lógica? Por se tratar do edifício onde funciona o auditório mais conhecido, onde alguns eventos têm lugar? Mas porquê, se também há uma série de outros em quintas e palácios que distam alguns quilómetros… Nesse caso, provável e igualmente, a remota designação de Sintraquorum, empresa municipal, será outro sítio para aceder à informação. Ou seja, tudo menos Festival de Sintra 2010… Valha-nos Deus!
Não, isto não é normal. E, claro que não havendo, até parece intenção de dificultar. Pois, pelo contrário, aqui mesmo ao lado, se quiserem confirmar como tudo é fácil, no que respeita ao Festival do Estoril, acedam à informação pertinente. Façam a experiência e, muito naturalmente, entrem por Festival do Estoril 2010. É lógico! Trata-se de uma iniciativa de altíssima qualidade que, neste momento, já está totalmente divulgada, com todos os pormenores. Enfim, Sintra, ou mais do mesmo e Cascais no seu melhor…
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* Vd. textos sobre assunto neste blogue
segunda-feira, 3 de maio de 2010
"DEDICAÇÃO" entre aspas...(1) é...Rua dos Arcos
Começa na Praça da República, mesmo no coração do Centro Histórico de Sintra.
Os arcos ainda lá estão, só que a rua deixou de estar a céu aberto, quando a taparam com as esplanadas dos cafés Paris e Central.

Em Novembro de 2008, face a múltiplas reclamações, foi prometida a recuperação e dignificação da rua, que até servia de armazém de bilhas de cerveja.

Outro exemplo do alto sentido do "romantismo".

Arranje-se o palavreado mais empolgado, tempere-se com ilusórias citações ao espírito do lugar, estas são provas do anti-turismo militante.
Como é possível ver-se disto em Sintra, depois de tantos alertas para o evitar?
Até quando esta vergonha?
Nota: Depois de aqui termos mostrado o abandono do Casal de S. Domingos, a pouca "Dedicação" tem mantido o lixo no local. Quem responde por isso?
Os arcos ainda lá estão, só que a rua deixou de estar a céu aberto, quando a taparam com as esplanadas dos cafés Paris e Central.
Em Novembro de 2008, face a múltiplas reclamações, foi prometida a recuperação e dignificação da rua, que até servia de armazém de bilhas de cerveja.
Frequentemente tem outros utilizações...
Outro exemplo do alto sentido do "romantismo".
Arranje-se o palavreado mais empolgado, tempere-se com ilusórias citações ao espírito do lugar, estas são provas do anti-turismo militante.
Como é possível ver-se disto em Sintra, depois de tantos alertas para o evitar?
Até quando esta vergonha?
Nota: Depois de aqui termos mostrado o abandono do Casal de S. Domingos, a pouca "Dedicação" tem mantido o lixo no local. Quem responde por isso?
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Bancarrota dois
Retomo o artigo A Bancarrota? Se calhar..., aqui publicado no dia 25 de Abril que, como terão verificado, não poderia ter sido mais premonitório. Mesmo não sendo economista nem jamais ter investido na bolsa, houve quem me dissesse que, só por horas, não acertei na mouche.
De qualquer modo, não assumo quaisquer capacidades divinatórias nem proféticas e, neste última acepção, muito menos de profeta da desgraça. Se bem se lembram, escrevia eu que andava num desassossego desgraçado, prevendo que uma segunda-feira, mais ou menos próxima, acordaríamos para o pesadelo da iminente bancarrota. E, sem grande margem para erro, desenhei a estratégia dos habituais predadores.
Pois eles continuam por aí, por tal se entendendo não só os que estão sediados na outra margem do Atlântico mas também os seus agentes ,nas praças fortes do centro da Europa, em Frankfurt e Milão. Continuam e de que maneira! Aliás se bem se derem ao trabalho de ir acompanhando as vozes que nos vão chegando, terão reparado que já avisaram: apesar de muito sérios, os casos da Grécia e de Portugal são muito menos preocupantes do que o de Espanha...
Como se depreende, trabalho não lhes falta. As peças de caça, os famosos pigs,* quais acossados javalis, tentam escapar, pedem auxílio desesperado aos coitos do costume. Todavia, um deles – o que, precisamente, dá aquele p inicial à sigla de fama tão má – cada vez mais, se põe a jeito do definitivo golpe.
De facto, não se percebe. Ou, pelo menos, eu não consigo perceber. Como se ainda fosse necessário, demonstrou-se à evidência como é angustiante a situação financeira do país. Incapaz de produzir a riqueza bastante e, para satisfazer os compromissos decorrentes do serviço da dívida, já não tendo outro remédio senão o recurso sistemático a créditos alcavalados dos juros elevadíssimos impostos pelas impiedosas agências de rating, Portugal aí está, irremediavelmente à mercê de todos os ataques.
A exemplo dos mais desgraçados devedores, está o país a pedir emprestado para pagar o que pediu emprestado… É a incontornável, a menos desejável espiral que cerceia os horizontes e compromete o futuro das gerações que nos seguem. Pois nada disto parece impressionar os governantes que temos, incapazes de cobrarem à banca o que, cheios de fanfarronada, impõem aos cidadãos indefesos. Nada disto parece impressionar um governo incompetente, sem a mínima táctica para o enquadramento da economia paralela que, totalmente, foge ao controlo do Estado.
Com base no que afirmara o Ministro das Finanças, ainda ousámos esperar que, finalmente, se suspenderia a falsa estratégia desenvolvimentista sustentada nas desconformes obras públicas. Ou seja, as auto-estradas que ficam desertas, o aeroporto que iria substituir o da Portela que está muito longe da saturação e que pode funcionar em articulação com o Montijo (para as low cost), o tgv até Madrid, que jamais produzirá qualquer rendimento directo…
Houvesse disponibilidade financeira, e facilmente daria de mão que tais obras até poderiam ser equacionadas. Mas, a realidade é totalmente oposta. Não temos para mandar cantar o cego. Pois, ainda assim, pela boca do inefável Ministro das Obras Públicas, ficámos a saber que, afinal, o monstro de treze mil milhões de Euros irá mesmo para a frente…
Tanta estupidez! Tanta falta de lucidez! Perante a ignorância institucionalizada, ao mais alto nível, não só estamos diante da mais desentranhada e suicida estratégia mas também daquilo que designaria como bancarrota dois, o descalabro, o verdadeiro desgoverno, a cegueira irracional que os poderes constitucionais parecem incapazes de suster.
Ainda há quem se admire com a emigração dos jovens de trinta e quarenta anos, partindo de armas e bagagens, abandonando esta proverbial piolheira da cultura do desleixo. Há séculos que assim é. Partem, sempre partiram os melhores de nós. O melhor que fizemos, fizemo-lo lá por fora, surpreendendo o mundo com uma capacidade que, aqui, dentro de fronteiras, não somos capazes de impor aos medíocres.
Será este o tal luso fado?
PS:
Com o futuro assim comprometido, não admira as peregrinações a Fátima, em ano de visita papal, ou a Santiago de Compostela em ano Jacobeu. De facto, se não nos valem os santos da corte celeste, acabamos mesmo muito mal…
Um abraço a Fátima Campos e que alcance o seu objectivo!
Não tenho a menor dúvida de que todos ganharíamos com ela, mesmo os que, independentes de esquerda como eu, sabem como é importante a genuinidade de propósitos e bonita a luta por ideais, ainda que, corajosamente, contra as posições mais instaladas do seu próprio partido.
Retomo o artigo A Bancarrota? Se calhar..., aqui publicado no dia 25 de Abril que, como terão verificado, não poderia ter sido mais premonitório. Mesmo não sendo economista nem jamais ter investido na bolsa, houve quem me dissesse que, só por horas, não acertei na mouche.
De qualquer modo, não assumo quaisquer capacidades divinatórias nem proféticas e, neste última acepção, muito menos de profeta da desgraça. Se bem se lembram, escrevia eu que andava num desassossego desgraçado, prevendo que uma segunda-feira, mais ou menos próxima, acordaríamos para o pesadelo da iminente bancarrota. E, sem grande margem para erro, desenhei a estratégia dos habituais predadores.
Pois eles continuam por aí, por tal se entendendo não só os que estão sediados na outra margem do Atlântico mas também os seus agentes ,nas praças fortes do centro da Europa, em Frankfurt e Milão. Continuam e de que maneira! Aliás se bem se derem ao trabalho de ir acompanhando as vozes que nos vão chegando, terão reparado que já avisaram: apesar de muito sérios, os casos da Grécia e de Portugal são muito menos preocupantes do que o de Espanha...
Como se depreende, trabalho não lhes falta. As peças de caça, os famosos pigs,* quais acossados javalis, tentam escapar, pedem auxílio desesperado aos coitos do costume. Todavia, um deles – o que, precisamente, dá aquele p inicial à sigla de fama tão má – cada vez mais, se põe a jeito do definitivo golpe.
De facto, não se percebe. Ou, pelo menos, eu não consigo perceber. Como se ainda fosse necessário, demonstrou-se à evidência como é angustiante a situação financeira do país. Incapaz de produzir a riqueza bastante e, para satisfazer os compromissos decorrentes do serviço da dívida, já não tendo outro remédio senão o recurso sistemático a créditos alcavalados dos juros elevadíssimos impostos pelas impiedosas agências de rating, Portugal aí está, irremediavelmente à mercê de todos os ataques.
A exemplo dos mais desgraçados devedores, está o país a pedir emprestado para pagar o que pediu emprestado… É a incontornável, a menos desejável espiral que cerceia os horizontes e compromete o futuro das gerações que nos seguem. Pois nada disto parece impressionar os governantes que temos, incapazes de cobrarem à banca o que, cheios de fanfarronada, impõem aos cidadãos indefesos. Nada disto parece impressionar um governo incompetente, sem a mínima táctica para o enquadramento da economia paralela que, totalmente, foge ao controlo do Estado.
Com base no que afirmara o Ministro das Finanças, ainda ousámos esperar que, finalmente, se suspenderia a falsa estratégia desenvolvimentista sustentada nas desconformes obras públicas. Ou seja, as auto-estradas que ficam desertas, o aeroporto que iria substituir o da Portela que está muito longe da saturação e que pode funcionar em articulação com o Montijo (para as low cost), o tgv até Madrid, que jamais produzirá qualquer rendimento directo…
Houvesse disponibilidade financeira, e facilmente daria de mão que tais obras até poderiam ser equacionadas. Mas, a realidade é totalmente oposta. Não temos para mandar cantar o cego. Pois, ainda assim, pela boca do inefável Ministro das Obras Públicas, ficámos a saber que, afinal, o monstro de treze mil milhões de Euros irá mesmo para a frente…
Tanta estupidez! Tanta falta de lucidez! Perante a ignorância institucionalizada, ao mais alto nível, não só estamos diante da mais desentranhada e suicida estratégia mas também daquilo que designaria como bancarrota dois, o descalabro, o verdadeiro desgoverno, a cegueira irracional que os poderes constitucionais parecem incapazes de suster.
Ainda há quem se admire com a emigração dos jovens de trinta e quarenta anos, partindo de armas e bagagens, abandonando esta proverbial piolheira da cultura do desleixo. Há séculos que assim é. Partem, sempre partiram os melhores de nós. O melhor que fizemos, fizemo-lo lá por fora, surpreendendo o mundo com uma capacidade que, aqui, dentro de fronteiras, não somos capazes de impor aos medíocres.
Será este o tal luso fado?
PS:
Com o futuro assim comprometido, não admira as peregrinações a Fátima, em ano de visita papal, ou a Santiago de Compostela em ano Jacobeu. De facto, se não nos valem os santos da corte celeste, acabamos mesmo muito mal…
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* No sintradoavesso, referi-me aos designados pigs, pela primeira vez, em 6 de Janeiro de 2010, no texto intitulado Sócrates + Seara=desânimo
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Saudação a Fátima Campos
No dia em que há eleições para a Concelhia de Sintra do PS, não queria deixar passar a oportunidade para manifestar a Fátima Campos o meu mais sincero desejo de que a lista que lidera saia vitoriosa. É uma oportunidade histórica de derrotar, democraticamente, uma facção aparelhista que, durante tantos anos, já teve oportunidade de mostrar o que vale e como vale.
Um abraço a Fátima Campos e que alcance o seu objectivo!
Não tenho a menor dúvida de que todos ganharíamos com ela, mesmo os que, independentes de esquerda como eu, sabem como é importante a genuinidade de propósitos e bonita a luta por ideais, ainda que, corajosamente, contra as posições mais instaladas do seu próprio partido.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Carta Aberta da CDU
Da Coordenadora da Concelhia de Sintra da CDU, via correio electrónico datado de hoje, às 17.09, acabo de receber o texto – constante de uma Carta Aberta – que passo a transcrever:
"Excelentíssimo Senhor
Dr. João Cachado,
No seguimento do seu artigo publicado no blog sintradoavesso.blogspot.com no dia 22 de Abril de 2010 e passando a citar “(...) Porém, como o alcance da minha intervenção não vai além deste blogue, espero que, tanto no executivo como na Assembleia Municipal, o PS e o BE continuem a opor-se ao projecto que a CDU – nada surpreendentemente – decidiu viabilizar. (...)” cumpre-nos
esclarecer:
1. Refutamos o tom insinuoso (sic) que colocou na sua observação visto que enquanto força política, possuímos um património político inquestionável.
2. Refutamos o tom de suspeição que acaba por cair directamente sobre o eleito da CDU Vereador Baptista Alves, sendo aliás esclarecedor o artigo publicado no Jornal Sol, edição de 28 de Março de 2010, sobre o processo Face Oculta.
3. A proposta em causa, que foi alvo de votação no dia 10 de Fevereiro de 2010, contemplava a aquisição da Quinta do Relógio e dos seguintes imóveis: Complexo Municipal de Fitares, Escola Básica n.º 1 do Cacém, EB1 de S. João das Lampas, EB1/JI de Bolembre, EB1/JI de Monte Abraão, EB/JI da Quinta da Fonteireira, EB1/JI de Vale Mourão, EB1/JI da Cavaleira, EB1/JI n.º 1 de Mem – Martins, EB1/JI de Fitares e EB1/JI n.º 2 de Queluz.
4. O Vereador da CDU absteve-se nesta votação tendo declarado: “(...) no entender da CDU, da listagem de operações que vão ser financiadas com este empréstimo estão de acordo com quase a totalidade porque são obras necessárias e imprescindíveis de serem executadas. E esta é uma forma de dar resposta às necessidades importantes da população. Não estão de acordo com uma delas que é a compra da Quinta do Relógio pelas razões que já expuseram anteriormente. Portanto, vão-se abster nesta votação”.
5. Assim, consideramos positiva a aquisição destes importantes equipamentos públicos escolares, distanciando-nos da aquisição da Quinta do Relógio.
6. A mesma posição de abstenção foi tomada pela bancada da CDU na Assembleia Municipal de 25 de Fevereiro de 2010.
7. Quando alguém se pronuncia sobre assuntos desta importância e coloca em causa a idoneidade de terceiros, é conveniente que estude as fontes, que analise os problemas ou então assuma os seus propósitos políticos.
8. Os factos devem ser analisados com rigor e exactidão e interpretados à luz da discussão realizada.
9. Temos cópias de todo o processo para ceder, caso seja do seu interesse.
Sem outro assunto de momento nos subscrevemos. Cumprimentos,
(Coordenadora Concelhia de Sintra da CDU)"
Eis a minha resposta:
À Coordenadora Concelhia de Sintra da CDU
Assunto:
Carta Aberta de 26.04.10
Exmos. Senhores,
Muito agradeço o texto objecto da Carta Aberta que, tão amavelmente, me dirigiram e através do qual também tiveram a oportunidade de esclarece a opinião pública, sobre os termos em que se processou a votação da CDU, tanto na reunião do executivo camarário como na Assembleia Municipal. Assim sendo, primeiramente, cumpre que expresse a minha satisfação, na medida em que o texto publicado no sintradoavesso, em 22 do corrente, vos suscitou a decisão de vir a público elucidar algo que, efectivamente, carecia.
Gostaria, em segundo lugar, o mais veemente e liminarmente que souber e for capaz, de afirmar sem qualquer margem para dúvida, que jamais – repito, jamais – foi minha intenção suspeitar fosse o que fosse, muito menos de insinuar algo menos abonatório, subestimar ou desrespeitar o cidadão eleito que é o Engº Baptista Alves, Vereador da CDU na Câmara Municipal de Sintra. Desconheço o que, a propósito do referido no ponto 2 da Carta Aberta, o semanário Sol terá publicado de abonatório. Para mim, o cidadão Engº Baptista Alves é alguém inconfundível, cuja exemplaridade de actuação, há tantos anos, em benefício dos munícipes, é a todos os títulos indiscutível.
Aquilo que escrevi e como escrevi, apenas teve a ver com a circunstância em si. Na realidade, infeliz mas objectivamente, através do recurso à abstenção, a CDU viabilizou uma operação que, na minha opinião, é extremamente polémica, pondo em causa uma série de factores de ordem económica e financeira que enquadram a actividade da autarquia, para além de favorecer uma negociação cujo objectivo nem sequer se vislumbra.
Através da Carta Aberta, tanto eu como a esmagadora maioria dos cidadãos, ficámos a saber que, afinal, a CDU também está contra a aquisição da Quinta do Relógio. Mas, por assim acontecer, porque não solicitou a CDU ao proponente que tornasse independentes as diferentes propostas de aquisição dos bens em apreço? Porque razão, sendo contra a compra da Quinta do Relógio, deixou a CDU que fosse veiculada a ideia de que a sua abstenção favoreceu a intenção da Coligação Mais Sintra?
Se tivesse actuado como sugerido no parágrafo anterior, saber-se-ia que a CDU estava de acordo com a aquisição do património afim do parque escolar e, como afirma no ponto 5 da Carta Aberta, se distanciava inequivocamente da aquisição da Quinta do Relógio. Se assim tivesse actuado, jamais teria eu escrito aquilo que escrevi, e como escrevi, desgostoso e desiludido, perante uma atitude da CDU que, afinal, não correspondia à realidade do que sucedera, quer na reunião do executivo quer na Assembleia Municipal.
Através deste episódio, que a Carta Aberta tão bem esclarece, fica a conclusão de que tudo há a ganhar com o saudável jogo da clareza de atitudes. E, no caso vertente, tanto mais assim é quanto sabem V. Exas. existirem muitos cidadãos que não acompanham – ou deixaram de acompanhar, como é o meu caso – as reuniões dos órgãos autárquicos, munícipes que tomam conhecimento do que acontece nas reuniões através dos órgãos de imprensa que não pormenorizam as circunstâncias.
Tal não significa que, a nível pessoal, não me sinta atingido pelos reparos assinalados nos pontos 7 e 8 da vossa Carta Aberta. De qualquer modo, solicitaria relevem a interpretação de ter pretendido lesar a idoneidade de terceiros que, de todo em todo, como já confirmei, era minha intenção. E, substantivamente, o que me cumpre evidenciar é a posição insofismável que, desde a primeira hora, manifestei.*
Finalmente, importaria renovar o sentimento de satisfação que o vosso esclarecimento me proporcionou, ficando a saber que, também em vós, tenho cúmplices nesta causa de denúncia do negócio de compra da Quinta do Relógio, cujos contornos me provocam a maior apreensão e que, provavelmente, até me acompanharão na proposta que trouxe a público relativamente à Sintra Garagem.
Sem outro assunto de momento, aceitem os melhores cumprimentos e o manifesto da maior estima e consideração do
João Cachado
* Vd. sintradoavesso, 14.01.2010 (I), 14.01.2010 (II) e 01.04.10
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Sintra, lagoa do desleixo
Apressada e compreensivelmente, na própria tarde da tragédia, e sem qualquer vontade de encarar as televisões que procuravam obter as suas declarações, o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, apenas dizia que os serviços da autarquia já tinham intimado o dono do terreno a drenar a água acumulada. Pois. A verdade, indesmentível, é que dois miúdos acabavam de morrer numa lagoa do Cacém.
Desconfio que sei onde tudo aconteceu mas a exactidão do local pouco interessa. Não estou a fazer notícia. Não tenho de estar preocupado com as regras da pirâmide da comunicação que, certamente, terão sido respeitadas pelos homens dos media encarregados de informar o facto. O que me interessa é trazer à colação a evidência de mais um desleixo que custou a vida de crianças.
Tudo isto é tanto mais lamentável quanto, passados dois ou três dias, a água tinha sido escoada. Desconheço que entidade terá concretizado tão atrasada operação, se a autarquia, se o proprietário. Pouco importa o pormenor. Agora, que o desastre já sucedeu, agora, que toda a gente chora lágrimas evitáveis, o luto que importa fazer não pode deixar de implicar o apuramento de responsabilidades. Se tal não for feito, ainda menos estaremos à altura de tão lamentável circunstância.
Inquestionavelmente, trata-se de negligência grosseira. Não poupemos os adjectivos. Descuido escandaloso, mais um vergonhoso episódio, daqueles que não aconteceriam se, entre nós, portugueses, não estivesse tão entranhada, florescente e próspera, a designada cultura do desleixo, contra a qual o Presidente Jorge Sampaio tantas vezes lutou, a mesma hedionda cultura que, à modesta escala deste blogue, aqui tenho continuado a denunciar, contra nós, sintrenses.
A propósito, recorro a um argumento de autoridade. Goste-se ou não do estilo, sempre que a oportunidade se lhe oferece, a verdade é que o Dr. Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, não tem poupado as palavras, com o objectivo de contribuir para a dignificação dos actos da administração, quer considerada a nível central quer local.
Ora bem, a oportunidade ofereceu-se-lhe, precisamente no dia seguinte ao da tragédia, quando, entrevistado por Conceição Lino, no programa da SIC, Nós por cá, e perante um caso absolutamente idêntico, no Norte do país, considerou que a possibilidade de uma ocorrência com tais contornos se inscrever na classificação de homicídio por negligência.
Desconheço que diligências terão feito ou farão as famílias das crianças que perderam a vida na famigerada lagoa do Cacém. Entretanto, uma coisa gostaria de convosco partilhar, ou seja, a vontade de que esta seria uma daquelas circunstâncias de crime público, que não carecem de queixa individual para serem devidamente enquadradas pelos tribunais. Fosse essa a situação, não tenho a menor dúvida de que muitos seríamos agora a exigir que justiça se fizesse, doesse a quem doesse.
Quem se atrasou a cumprir a determinação da autarquia? Será lícito (e justo?...)considerar que a responsabilidade da Câmara Municipal de Sintra terminou com o aviso dirigido ao proprietário do terreno? Ou, mais razoável e racionalmente, não será de entender como criminoso relaxo, a atitude dos serviços camarários, que não terão controlado o prazo de execução imediata da referida determinação? E, ainda outra coisa, aquele fatídico terreno, transformado em criminosa lagoa, não deveria ter sido oportuna e correctamente vedado?
Por favor, haja quem se digne assumir as responsabilidades decorrentes deste tristíssimo caso. Morreram duas crianças que mereciam andar por aí, no gozo do seu direito à vida. Trata-se de mais um atentado à segurança das pessoas. É para esse efeito que nós, contribuintes sintrenses, pomos à disposição da comunidade, os meios necessários para que se exerça a autoridade democrática de que, inequivocamente, a autarquia está investida.
Inequivocamente, meus senhores, inequivocamente!... Por isso, ou somos corajosamente consequentes ou, como há tanto tempo acontece, não passamos de uma cambada de bandalhos.
domingo, 25 de abril de 2010
A bancarrota?
Se calhar...
Para vos dizer com toda a franqueza, apesar de me considerar pessoa interessada e informada acerca de tudo o que, a nível nacional e internacional, se vai sabendo relacionado com a lusa vidinha, não previa que, tão rapidamente, tivesse de andar neste desassossego galopante dos últimos dias, tentando adivinhar o comportamento dos principais mercados internacionais.
Para que conste, não tenho contas em paraísos fiscais nem jamais comprei qualquer papel na bolsa. Preocupação tão estranha deve-se, pois certamente, à necessidade de perceber o verdadeiro estado da nação, em especial, no que às contas diz respeito, uma vez que é mentiroso e susceptível da maior desconfiança o discurso oficial do estado a que isto tudo chegou.
Felizmente, já há muitos anos, aprendi a descodificar os mecanismos da especulação, a montante da avidez de certas instâncias, sem rosto nem bandeira, que se perfilam na sombra dos juros agiotas das operações overnight, ou no campo de batalha monetarista, em que autênticos predadores, pretendendo abater determinada moeda, isolam do grupo o seu elo mais fraco para, tal como na caça, mais facilmente poderem matar a peça…
Não deixa de ser sintomático que, a tentativa de saber o que se passa cá dentro, deva pressupor o acesso ao que se escreve e diz lá por fora. Que ironia! No preciso dia em que comemoramos trinta e seis anos do Vinte e Cinco de Abril, dou por mim a fazer o mesmo que fazia no dia 24, ou seja, tentando sintonizar outras fontes, porque as do regime, não são credíveis...
Enfim, como assim é, logo que posso, lá estou, vorazmente, ou com o The Economist, tentando digerir, nas linhas e entrelinhas, as referências mais explícitas e implícitas ao caso português ou, por exemplo, num blogue do The New York Times, com Simon Johnson, em tempos economista-chefe do FMI, a considerar, sem escândalo nem surpresa, que a Grécia e Portugal são mais arriscados do que a Argentina em 2001.
Multiplicam-se os manifestos do descrédito internacional através do testemunho de insuspeitos especialistas. É o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, no El Pais, advertindo quanto à possibilidade de Portugal e a Espanha sofrerem processos de falência análogos ao da Grécia. É Nouriel Roubini, o guru que previu a crise global em que estamos mergulhados, chegando ao ponto de, no seu site, escrever que Portugal e a Grécia até poderão ter de abandonar a união monetária.
Sabem o que passou a acontecer-me nas horas que precedem a reabertura dos mercados, à segunda-feira? Perante perspectivas tão alarmantes, fico num autêntico frenesim. Interrogo-me se será desta que – tal como já fizeram na Grécia, com o sucesso que se conhece – os especuladores internacionais conseguem, também neste elo mais fraco que é Portugal, manipular o Euro a seu bel-prazer, atirando-o para o desgraçado buraco que os governantes, com os habituais óculos cor de rosa, recusam ver.
Porém, aí estão os avisos, pelas mais respeitadas vozes. Quem tem a coragem de afirmar que são profetas da desgraça? Quem quer cair nesse ridículo? Pois bem, apesar dos sinais de alerta, continuamos ouvindo a insistência na concretização do aeroporto de Alcochete, nas linhas de tgv sem qualquer hipótese de rendibilidade, bem como na nova travessia do Tejo. Que falta de lucidez! Que cegueira é esta, de braço dado com as grandes construtoras?
De facto, andamos a viver acima das nossas possibilidades. Há demasiado tempo. Acho que andamos mesmo a brincar com o fogo. Até que, um dia destes, provavelmente, numa das próximas segundas feiras, alguém nos irá acordar para o pesadelo bem real da mais negra situação financeira, que nenhuma comunidade gostaria de encarar. Mas, será que temos de levar com o descarnado murro da bancarrota? Quem dera que não...
Se calhar...
Para vos dizer com toda a franqueza, apesar de me considerar pessoa interessada e informada acerca de tudo o que, a nível nacional e internacional, se vai sabendo relacionado com a lusa vidinha, não previa que, tão rapidamente, tivesse de andar neste desassossego galopante dos últimos dias, tentando adivinhar o comportamento dos principais mercados internacionais.
Para que conste, não tenho contas em paraísos fiscais nem jamais comprei qualquer papel na bolsa. Preocupação tão estranha deve-se, pois certamente, à necessidade de perceber o verdadeiro estado da nação, em especial, no que às contas diz respeito, uma vez que é mentiroso e susceptível da maior desconfiança o discurso oficial do estado a que isto tudo chegou.
Felizmente, já há muitos anos, aprendi a descodificar os mecanismos da especulação, a montante da avidez de certas instâncias, sem rosto nem bandeira, que se perfilam na sombra dos juros agiotas das operações overnight, ou no campo de batalha monetarista, em que autênticos predadores, pretendendo abater determinada moeda, isolam do grupo o seu elo mais fraco para, tal como na caça, mais facilmente poderem matar a peça…
Não deixa de ser sintomático que, a tentativa de saber o que se passa cá dentro, deva pressupor o acesso ao que se escreve e diz lá por fora. Que ironia! No preciso dia em que comemoramos trinta e seis anos do Vinte e Cinco de Abril, dou por mim a fazer o mesmo que fazia no dia 24, ou seja, tentando sintonizar outras fontes, porque as do regime, não são credíveis...
Enfim, como assim é, logo que posso, lá estou, vorazmente, ou com o The Economist, tentando digerir, nas linhas e entrelinhas, as referências mais explícitas e implícitas ao caso português ou, por exemplo, num blogue do The New York Times, com Simon Johnson, em tempos economista-chefe do FMI, a considerar, sem escândalo nem surpresa, que a Grécia e Portugal são mais arriscados do que a Argentina em 2001.
Multiplicam-se os manifestos do descrédito internacional através do testemunho de insuspeitos especialistas. É o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, no El Pais, advertindo quanto à possibilidade de Portugal e a Espanha sofrerem processos de falência análogos ao da Grécia. É Nouriel Roubini, o guru que previu a crise global em que estamos mergulhados, chegando ao ponto de, no seu site, escrever que Portugal e a Grécia até poderão ter de abandonar a união monetária.
Sabem o que passou a acontecer-me nas horas que precedem a reabertura dos mercados, à segunda-feira? Perante perspectivas tão alarmantes, fico num autêntico frenesim. Interrogo-me se será desta que – tal como já fizeram na Grécia, com o sucesso que se conhece – os especuladores internacionais conseguem, também neste elo mais fraco que é Portugal, manipular o Euro a seu bel-prazer, atirando-o para o desgraçado buraco que os governantes, com os habituais óculos cor de rosa, recusam ver.
Porém, aí estão os avisos, pelas mais respeitadas vozes. Quem tem a coragem de afirmar que são profetas da desgraça? Quem quer cair nesse ridículo? Pois bem, apesar dos sinais de alerta, continuamos ouvindo a insistência na concretização do aeroporto de Alcochete, nas linhas de tgv sem qualquer hipótese de rendibilidade, bem como na nova travessia do Tejo. Que falta de lucidez! Que cegueira é esta, de braço dado com as grandes construtoras?
De facto, andamos a viver acima das nossas possibilidades. Há demasiado tempo. Acho que andamos mesmo a brincar com o fogo. Até que, um dia destes, provavelmente, numa das próximas segundas feiras, alguém nos irá acordar para o pesadelo bem real da mais negra situação financeira, que nenhuma comunidade gostaria de encarar. Mas, será que temos de levar com o descarnado murro da bancarrota? Quem dera que não...
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