[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 4 de outubro de 2010


Pontapé na gramática

Antes da continuação do texto ontem iniciado,* apenas um pequeno apontamento acerca da falta de qualidade do português falado e escrito que, constantemente, perturba os nossos dias.

Vamos, então, por ordem cronológica, ao encontro de duas grossas e recentes calinadas. Em primeiro lugar, graficamente muito destacado, um parágrafo da página 5 do programa referente ao concerto promovido pela Fundação Gulbenkian dos dias 29 e 30 de Setembro:

“Dedicada ao Príncipe de Hohenzollern-Heschingen, a abertura de concerto Le Carnaval romain foi dirigida por Hector Berlioz no palácio do príncipe em Löwenberg, na Prússia, em Abril de 1863. A obra obtera já grande sucesso público, sendo apresentada com frequência nas digressões do compositor francês.”

Obtera! É verdade, numa casa com aquela responsabilidade de tão sofisticada e amplíssima oferta cultural, é inadmissível que se publique e venda um texto com erro tão grosseiro. Alguém escreveu, alguém reviu, alguém imprimiu e a ninguém pareceu estranha aquela forma verbal. O autor pretendeu usar o pretérito mais-que-perfeito do indicativo do verbo obter, desconhecendo tratar-se de um composto de ter, que, portanto, como este se conjuga, devendo escrever obtivera.

Tão imperdoável como este, eis um caso que tem apenas duas horas de ouvido. Passou-se no programa Império dos Sentidos, da Antena Dois da RTP. No âmbito de um tempo dedicado à comemoração do centenário da República, o historiador António Reis – actual Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa, professor universitário, ex-Secretário de Estado da Cultura, meu contemporâneo da Faculdade de Letras na década de sessenta – em determinado ponto da sua participação, disse 'tinha eleito' quando, inequiviocamente, deveria ter dito 'tinha elegido'.

Na realidade, eleger é um verbo que, mantendo duas formas de particípio (a regular e a irregular), ou seja, respectivamente, elegido e eleito, se conjuga nos tempos compostos, com os auxiliares ter e haver, no primeiro caso, e ser e estar, no segundo. Que um falante descuidado ou ignorante empregue o particípio irregular eleito, invariavelmente, em qualquer das circunstâncias, é algo que deve merecer imediato reparo. No caso de António Reis é inadmissível e imperdoável.

A propósito do correcto emprego de cada um dos particípios, cumpre assinalar que, além de Ana Lourenço, jornalista da SIC Notícias, é raríssimo ouvir, por exemplo, o verbo aceitar devidamente conjugado nos tempos compostos. Ela, consciente da importância da irrepreensibilidade da expressão verbal na comunicação social, costuma terminar as entrevistas “(…) muito obrigada por ter aceitado esta entrevista (…)”. Assim é que é!

Cor local

Terminaria, de sorriso amarelo, com algo que já trouxe a estas páginas. É a já proverbial, mas bem real anedota - que testemunhei pessoalmente - de um Senhor Vereador da Câmara Municipal de Sintra que, desconhecendo a conjugação pronominal do verbo pôr, na primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo, em vez de pu-lo, diz puzi-o. [Nem sei como reproduzir a asneira, por escrito, sem a transcrição fonética, pouco acessível ao leitor comum...].


Em Sintra, não haja dúvidas, também neste domínio da comunicação, os eleitos locais pretendem que nada falte aos munícipes. De facto, como se comprova, não estamos nada mal representados...


*Prossegue no próximo dia 6.

domingo, 3 de outubro de 2010


Bancarrota Sócrates

Ao contrário do que possa parecer, não são apenas José Sócrates e Teixeira dos Santos os delirantes incompetentes - na expressão de alguns comentaristas - a quem, desesperados perante tanta incapacidade de gestão das crises interna e internacional, os portugueses devem apontar o dedo. Vítimas de tantos tratos de polé, esquecem o outro vértice do triângulo que, além destes dois, define o lugar geométrico de tanta incapacidade e desleixo.

Naturalmente, refiro-me a Victor Constâncio. Depois das provas prestadas na gestão da coisa pública portuguesa, também ele – a exemplo de Guterres, farto do pântano, e de Barroso que já dera tudo o que podia ao país da tanga – tratou da vidinha, ocupando um posto de vice-presidente no Banco Central Europeu, cuja benevolente direcção se limitou a acolher um português, que estava na calha das rotações de cargos, ignorando as credenciais que os deputados da oposição ao governo de Lisboa puseram em causa no parlamento de São Bento…

Curta é a memória, de facto. Tão curta é que muitos portugueses já esqueceram a ligeireza com que o banqueiro do povo – ainda não satisfeito com aquilo que foi considerada deficiente regulação e supervisão da banca comercial portuguesa que, em última instância, lhe competia assegurar em nome do mesmo povo – se apressou a sancionar a estratégia de intervenção do Governo no BPN, avaliando em 800 milhões de Euros o valor do previsível esforço dos contribuintes na operação.

Afinal, a cerca de 4.000 milhões - quantos submarinos? - já monta o descalabro em que redundou aquilo que muitos consideram um caso de polícia… Na realidade, a sua retirada para o BCE não podia ter sido mais estratégica, evitando-lhe o imenso incómodo do desgaste da imagem pessoal, que aconteceria inevitavelmente se tivesse permanecido por cá.

Que fazer?

A evidente bancarrota Sócrates é designada como certidão de óbito e marcha fúnebre entre outros títulos congéneres da imprensa destes dias. Já não há economista que não afirme serem insuficientes as brutais medidas anunciadas uma vez que, no próximo ano, em resultado da inevitável recessão subsequente, não se conseguirá gerar a riqueza bastante, sequer para satisfazer os juros do serviço da dívida…

No entanto, fazendo ouvidos moucos à evidência da razão que estas vozes prenunciam, os delírio dos responsáveis das nossas catacumbas, continua impelindo-os na aposta de concretização das obras desmesuradas que a realidade da condição económico-financeira do país não comporta nos anos mais próximos. Para além da falta de discernimento que revelam, envergonha-nos que, tão irracional e perigosamente, ainda mais comprometam o futuro da comunidade.

Perante artistas deste calibre o que fazer? Cada vez mais, e com maior convicção, se ouve a opinião de que devemos preparar os nossos filhos e netos para abandonarem esta piolheira o mais cedo e precocemente possível, ao encontro de um quadro de vida onde possam fazer render os talentos inatos e adquiridos. Ao fim e ao cabo, tratar-se-á de continuar a engrossar o caudal daqueles que, lá fora, são tão bons como os melhores, em todos os campos de actividade.


Cá dentro, afinal, só estarão condenados à saída para outras latitudes? Será que a preocupação com uma boa educação dos jovens para a cultura humanística e tecnológica e para a vivência dos valores da liberdade, igualdade e solidariedade não é compatível, intramuros, com a prática, desta classe política, de tão baixo estrato, que despreza e agride os princípios da justiça social, limitando-se – com toda a coragem!... – ao sacrifício dos mais desprotegidos, para poupar os ricos e poderosos?

E, em Sintra, o que fazer para não agravar a situação e actuar de acordo com a estratégia que se impõe, ou seja, de cortes decisivos na despesa, que o governo afirma pretender mas não dá sinais encorajadores e, muito menos, decisivos?


(continua)

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.

Nos dias 25 e 30 de Abril deste ano, publiquei os dois textos seguintes, subordinados aos títulos Bancarrota? Se calhar… e Bancarrota dois que, como poderão (re)verificar, infelizmente, não perderam oportunidade porquanto, desde então para cá, a situação ainda mais se agravou pela mão dos responsáveis do costume.

Aí vai a transcrição.


A bancarrota?
Se calhar...
[25.04.2010]

Para vos dizer com toda a franqueza, apesar de me considerar pessoa interessada e informada acerca de tudo o que, a nível nacional e internacional, se vai sabendo relacionado com a lusa vidinha, não previa que, tão rapidamente, tivesse de andar neste desassossego galopante dos últimos dias, tentando adivinhar o comportamento dos principais mercados internacionais.

Para que conste, não tenho contas em paraísos fiscais nem jamais comprei qualquer papel na bolsa. Preocupação tão estranha deve-se, pois certamente, à necessidade de perceber o verdadeiro estado da nação, em especial, no que às contas diz respeito, uma vez que é mentiroso e susceptível da maior desconfiança o discurso oficial do estado a que isto tudo chegou.

Felizmente, já há muitos anos, aprendi a descodificar os mecanismos da especulação, a montante da avidez de certas instâncias, sem rosto nem bandeira, que se perfilam na sombra dos juros agiotas das operações overnight, ou no campo de batalha monetarista, em que autênticos predadores, pretendendo abater determinada moeda, isolam do grupo o seu elo mais fraco para, tal como na caça, mais facilmente poderem matar a peça…

Não deixa de ser sintomático que, a tentativa de saber o que se passa cá dentro, deva pressupor o acesso ao que se escreve e diz lá por fora. Que ironia! No preciso dia em que comemoramos trinta e seis anos do Vinte e Cinco de Abril, dou por mim a fazer o mesmo que fazia no dia 24, ou seja, tentando sintonizar outras fontes, porque as do regime, não são credíveis...

Enfim, como assim é, logo que posso, lá estou, vorazmente, ou com o The Economist, tentando digerir, nas linhas e entrelinhas, as referências mais explícitas e implícitas ao caso português ou, por exemplo, num blogue do The New York Times, com Simon Johnson, em tempos economista-chefe do FMI, a considerar, sem escândalo nem surpresa, que a Grécia e Portugal são mais arriscados do que a Argentina em 2001.

Multiplicam-se os manifestos do descrédito internacional através do testemunho de insuspeitos especialistas. É o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, no El Pais, advertindo quanto à possibilidade de Portugal e a Espanha sofrerem processos de falência análogos ao da Grécia. É Nouriel Roubini, o guru que previu a crise global em que estamos mergulhados, chegando ao ponto de, no seu site, escrever que Portugal e a Grécia até poderão ter de abandonar a união monetária.

Sabem o que passou a acontecer-me nas horas que precedem a reabertura dos mercados, à segunda-feira? Perante perspectivas tão alarmantes, fico num autêntico frenesim. Interrogo-me se será desta que – tal como já fizeram na Grécia, com o sucesso que se conhece – os especuladores internacionais conseguem, também neste elo mais fraco que é Portugal, manipular o Euro a seu bel-prazer, atirando-o para o desgraçado buraco que os governantes, com os habituais óculos cor de rosa, recusam ver.

Porém, aí estão os avisos, pelas mais respeitadas vozes. Quem tem a coragem de afirmar que são profetas da desgraça? Quem quer cair nesse ridículo? Pois bem, apesar dos sinais de alerta, continuamos ouvindo a insistência na concretização do aeroporto de Alcochete, nas linhas de tgv sem qualquer hipótese de rendibilidade, bem como na nova travessia do Tejo. Que falta de lucidez! Que cegueira é esta, de braço dado com as grandes construtoras?

De facto, andamos a viver acima das nossas possibilidades. Há demasiado tempo. Acho que andamos mesmo a brincar com o fogo. Até que, um dia destes, provavelmente, numa das próximas segundas feiras, alguém nos irá acordar para o pesadelo bem real da mais negra situação financeira, que nenhuma comunidade gostaria de encarar. Mas, será que temos de levar com o descarnado murro da bancarrota? Quem dera que não...


Bancarrota dois

[30.04.2010]

Retomo o artigo A Bancarrota? Se calhar..., aqui publicado no dia 25 de Abril que, como terão verificado, não poderia ter sido mais premonitório. Mesmo não sendo economista nem jamais ter investido na bolsa, houve quem me dissesse que, só por horas, não acertei na mouche.

De qualquer modo, não assumo quaisquer capacidades divinatórias nem proféticas e, neste última acepção, muito menos de profeta da desgraça. Se bem se lembram, escrevia eu que andava num desassossego desgraçado, prevendo que uma segunda-feira, mais ou menos próxima, acordaríamos para o pesadelo da iminente bancarrota. E, sem grande margem para erro, desenhei a estratégia dos habituais predadores.

Pois eles continuam por aí, por tal se entendendo não só os que estão sediados na outra margem do Atlântico mas também os seus agentes ,nas praças fortes do centro da Europa, em Frankfurt e Milão. Continuam e de que maneira! Aliás se bem se derem ao trabalho de ir acompanhando as vozes que nos vão chegando, terão reparado que já avisaram: apesar de muito sérios, os casos da Grécia e de Portugal são muito menos preocupantes do que o de Espanha...

Como se depreende, trabalho não lhes falta. As peças de caça, os famosos pigs,* quais acossados javalis, tentam escapar, pedem auxílio desesperado aos coitos do costume. Todavia, um deles – o que, precisamente, dá aquele p inicial à sigla de fama tão má – cada vez mais, se põe a jeito do definitivo golpe.

De facto, não se percebe. Ou, pelo menos, eu não consigo perceber. Como se ainda fosse necessário, demonstrou-se à evidência como é angustiante a situação financeira do país. Incapaz de produzir a riqueza bastante e, para satisfazer os compromissos decorrentes do serviço da dívida, já não tendo outro remédio senão o recurso sistemático a créditos alcavalados dos juros elevadíssimos impostos pelas impiedosas agências de rating, Portugal aí está, irremediavelmente à mercê de todos os ataques.

A exemplo dos mais desgraçados devedores, está o país a pedir emprestado para pagar o que pediu emprestado… É a incontornável, a menos desejável espiral que cerceia os horizontes e compromete o futuro das gerações que nos seguem. Pois nada disto parece impressionar os governantes que temos, incapazes de cobrarem à banca o que, cheios de fanfarronada, impõem aos cidadãos indefesos. Nada disto parece impressionar um governo incompetente, sem a mínima táctica para o enquadramento da economia paralela que, totalmente, foge ao controlo do Estado.

Com base no que afirmara o Ministro das Finanças, ainda ousámos esperar que, finalmente, se suspenderia a falsa estratégia desenvolvimentista sustentada nas desconformes obras públicas. Ou seja, as auto-estradas que ficam desertas, o aeroporto que iria substituir o da Portela que está muito longe da saturação e que pode funcionar em articulação com o Montijo (para as low cost), o tgv até Madrid, que jamais produzirá qualquer rendimento directo…

Houvesse disponibilidade financeira, e facilmente daria de mão que tais obras até poderiam ser equacionadas. Mas, a realidade é totalmente oposta. Não temos para mandar cantar o cego. Pois, ainda assim, pela boca do inefável Ministro das Obras Públicas, ficámos a saber que, afinal, o monstro de treze mil milhões de Euros irá mesmo para a frente…

Tanta estupidez! Tanta falta de lucidez! Perante a ignorância institucionalizada, ao mais alto nível, não só estamos diante da mais desentranhada e suicida estratégia mas também daquilo que designaria como bancarrota dois, o descalabro, o verdadeiro desgoverno, a cegueira irracional que os poderes constitucionais parecem incapazes de suster.

Ainda há quem se admire com a emigração dos jovens de trinta e quarenta anos, partindo de armas e bagagens, abandonando esta proverbial piolheira da cultura do desleixo. Há séculos que assim é. Partem, sempre partiram os melhores de nós. O melhor que fizemos, fizemo-lo lá por fora, surpreendendo o mundo com uma capacidade que, aqui, dentro de fronteiras, não somos capazes de impor aos medíocres.

Será este o tal luso fado? PS: Com o futuro assim comprometido, não admira as peregrinações a Fátima, em ano de visita papal, ou a Santiago de Compostela em ano Jacobeu. De facto, se não nos valem os santos da corte celeste, acabamos mesmo muito mal…

____________________

* No sintradoavesso, referi-me aos designados pigs, pela primeira vez, em 6 de Janeiro de 2010, no texto intitulado Sócrates + Seara=desânimo ____________________

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Museu de Portimão [3]

Se forem até Portimão e não tiverem tempo para muito mais do que a visita ao Museu, de qualquer modo, terão de almoçar ou jantar. Indo de automóvel, usem o parque de estacionamento perto da Casa Inglesa. É óptimo e muito central. Quanto à refeição, as sardinhas são sempre uma solução a encarar. Há muita tasca onde comê-las mas, nessa oportunidade, aconselharia a gozarem a possibilidade de irem até um dos restaurantes-esplanada no fim do paredão, junto à ponte do Arade.

São descendentes dos velhos braseiros, que ali existiram durante tantos anos satisfazendo o gozo de quem não dispensa a linda e vivinha da costa. Agora, mais sofisticados, continuam sendo uma boa aposta. Vão por mim, até ao Teca das Sardinhas onde, espero que acreditem, não tenho qualquer interesse comercial… Se tiverem a minha sorte, até pode acontecer que sejam servidos por um empregado de origem africana, cujo português falado é de tal ordem excelente que até emprega o condicional e o imperfeito do conjuntivo!

Supondo que acabaram de almoçar, terão o prazer de fazer o passeio até ao Museu, pelo paredão fora, junto ao rio, e de começar a digestão, muito satisfeitos com o que vão observando, nomeadamente, todo aquele arranjo urbano, muito simples mas extremamente operacional, não deixando de concluir como, mesmo partindo de situações muito difíceis, como a que anteriormente ali existia, é possível melhorar e proporcionar aos residentes e visitantes momentos agradáveis. Melhorar é sempre possível.

Sempre? Não, é exagero porque sempre haverá casos como o de Sintra onde, em sentido contrário, a evolução é sempre para pior…

NB:

As fotografias que se seguem apenas ilustram alguns pormenores relativos à componente do museu sobre a indústria conserveira de Portimão e, muito naturalmente, às conservas La Rose porquanto é no edifício daquela antiga fábrica que funciona o próprio museu. Todavia, como tive oportunidade de esclarecer no primeiro texto, é muito mais vasto o dispositivo museológico em presença.

Se querem que vos confesse, muito me apraz ter estado relacionado com aquele espaço. Mesmo ao nível das sensações, ainda hoje me parece sentir o entranhado cheiro a peixe. Recordo os odores dos temperos, das salmouras, dos vapores a sairem dos autoclaves, além de uma incrível variedade de ruídos, outra viva memória na qual radico a música concreta que poderia passar à pauta se, para tanto, tivesse engenho.

Vão ao Museu de Portimão. Os cheiros, de facto, não os encontrarão. Mas tudo o resto, inclusive os sons, por lá andam. Vão com tempo, vejam a documentação audiovisual imprescindível à compreensão daquele mundo fascinante e, mais tarde, se nisso virem conveniente, digam-me qualquer coisa sobre esta forte sugestão de actividade cultural que vos deixo.




1
Linha de fabrico















2
Triciclo publicitário











3
Topos de caixotes de madeira gravados com as diferentes marcas. La Rose é a primeira do canto superior esquerdo.




4
Entre outras estratégias de propaganda comercial, a mítica marca de conservas La Rose foi dada a conhecer ao mundo através de um gingle cantado pela própria Amália Rodrigues.
















5


Caixa de dúzia e meia de latas de conservas sortidas. Tratava-se de uma embalagem de luxo destinada a um mercado sofisticado.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010


Museu de Portimão [2]

Na realidade, o pai foi o último proprietário privado da fábrica de conservas de peixe que, sob a mítica marca La Rose, funcionou nas instalações industriais onde, após as mencionadas obras de adaptação, hoje está instalado o Museu de Portimão. Entretanto, já no princípio dos anos oitenta do século passado, conversara ele algumas vezes com o então Presidente da Câmara de Portimão, Arq. Martim Gracias, acerca da possibilidade de converter em museu o magnífico espaço da fábrica.

Mas «o projecto do pai» era manter uma parte da fábrica a laborar nos mesmos moldes e de acordo com o figurino histórico que dera fama e proveito à marca
La Rose. Se assim fosse, através de uma galeria panorâmica isolada, num plano superior, assistiriam os visitantes ao fabrico, em concreto, transformando em espectáculo o que era trabalho duro, em série, naquela cadeia de produção tão sui generis.

Também não era de difícil realização e poderia constituir fonte de financiamento muito significativa - com venda de produtos no fim do circuito - aliás a exemplo do que, propriedade de uns nossos amigos nórdicos, ele e eu tínhamos visto a funcionar na Dinamarca, meia dúzia de anos antes.


Não foi isso que veio a acontecer mas, meu Deus, o projecto que hoje em dia se visita é magnífico, nada tem que se lhe aponte e, muito menos, a falta daquela componente que o pai sonhara. Aliás, como se depreende, a viabilização de tal alternativa pressupunha a continuação da laboração da empresa, isto é, algo que foi considerado inoportuno ou, melhor, menos conveniente do que o encerramento.

Ainda um pouco mais de história. Acontece que, no fim da década de setenta, durante algum tempo, tanto eu com uma das minhas irmãs, pertencemos ao Conselho de Administração da empresa. Nessa altura, o outro sócio do pai, o Instituto de Participações do Estado (IPE) era representado naquele orgão de gestão pelo saudoso Comandante Gomes Mota – falecido em 2002 – militar de Abril, tão afecto aos valores da Democracia em construção, cuja memória igualmente homenageio neste despretensioso texto.

Trabalhar e com ele conviver, tanto em Lisboa como nas nossas estadas no Sul, foi de grande proveito para mim. Aprendia-se imenso com alguém do seu calibre, e, certo é que laterais, mas interessantíssimas, acrescentei ao meu património pessoal, algumas das suas histórias. Por exemplo, uma ou outra relativas ao seu sogro, Almirante Sarmento Rodrigues, uma das mais gradas e notáveis figuras do regime, então, recentemente deposto. Mas isso, enfim, já faz parte de um rosário com outras contas…

Comer e passear atento

Como calculam, conheço bem Portimão e arredores. Desde miúdo, terei assistido a todo o seu processo de descaracterização, resultante da descontrolada actividade turística, totalmente à trouxe-mouxe, muito especialmente depois de fins dos anos sessenta, através do surto de uma construção civil gananciosa e sem escrúpulos, vis-à-vis da falta de preparação de certos autarcas, nem sempre tão bem intencionados quanto seria de esperar…



(continua)

NB:

Na próxima terceira e última parte publicarei algumas fotos sobre esta matéria.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Museu de Portimão [1]


Provavelmente não saberiam que, no passado mês de Abril, em Estrasburgo, foi atribuída a distinção de Museu Europeu do Ano ao Museu de Portimão, inaugurado há pouco mais de dois anos. Se aceitarem a minha sugestão de ali se deslocarem numa próxima oportunidade, hão-de verificar como tal prémio não podia ter sido mais justo.

Não tenho a menor dúvida em afirmar que aquele é um dispositivo cultural extremamente interessante, onde o diálogo entre informação e aprendizagem é tão propício que suscita aos visitantes todas as reacções de agrado desencadeadas pelas mais sofisticadas e actuais técnicas de disponibilização de espécies museológicas.

Nada foi deixado ao acaso. Ali tudo obedece à lógica de partilha de um saber acumulado, não só ao longo de gerações mais recentes, no âmbito da indústria conserveira, mas também inerente a um passado tão remoto como o que remonta à ocupação humana daquele território meridional e litoral, em tempos pré-históricos e, muito mais tarde, pelos povos mediterrânicos, em especial, romanos e árabes, que deixaram vestígios absolutamente indeléveis.

Informação institucional

O Museu e respectivos anexos constituem uma proposta cultural irrecusável que nenhum cidadão português, com pretensões ao conhecimento do país, poderá dispensar. É uma grande lição de Cultura, que corresponde ao significativo investimento de cerca de dez milhões de Euros. Dá gosto verificar como o fruto dos impostos por todos nós liquidados pode resultar num manifesto de tão evidente regozijo.

Nos próprios termos da informação institucional, as origens do Museu de Portimão reportam-se a 1983, altura em que a Câmara Municipal de Portimão, aprovou um projecto museológico visando a investigação, recolha, documentação e divulgação do património local, com especial destaque para o arqueológico, industrial, náutico e subaquático.


Em 1996, o edifício da antiga Fábrica de Conservas Feu Hermanos, foi adquirido pelo Município de Portimão, tendo em vista a sua adaptação ao futuro Museu. Três anos mais tarde, foi elaborado o Programa Museológico e lançado o concurso para o Projecto de Arquitectura, seguindo-se o processo de construção e reabilitação do edifício, o apetrechamento técnico e museográfico das novas instalações, cuja inauguração e abertura ao público, ocorreu a 17 de Maio de 2008.


Estruturado como Museu de Sociedade, de Identidade e de Território, integrado na Rede Portuguesa de Museus, pretende reforçar a divulgação e valorização do património, interpretar a evolução histórica, territorial e social da comunidade e um parceiro nas estratégias de desenvolvimento local.

O espólio do Museu é constituído por património industrial e etnográfico, designadamente o de indústria conserveira, construção naval, pesca, estiva, litografia, fundição, latoaria, fumeiros, transportes, entre outros. Quanto aos testemunhos arqueológicos do Município, este agrega materiais provenientes de várias estações arqueológicas terrestres e subaquáticas.

Por estes dias, quem pretender beneficiar da imprescindível visita, primeiramente, há-de deparar com a exposição permanente subordinada à tríade temática PortimãoTerritório e Identidade, que está estruturada em 3 percursos: 1-Origem e destino de uma comunidade; 2-A vida industrial e o desafio do mar; 3- Do fundo das águas. Além desta, ainda Portimão nos Alvores do Século XX e, muito afim do período de comemoração do centenário da República, Manuel Teixeira Gomes entre dois séculos e dois regimes.

O adjectivo apropriado é imperdível. A lógica daquele circuito expositivo é de tal modo evidente que outra não se afiguraria concretizável em função dos objectivos pretendidos ao nível da fácil e eficaz aquisição de conhecimentos por parte do destinatário visitante. Trata-se de uma daquelas situações perfeitamente paradigmáticas em que a exposição é um autêntico lugar de formação.


…e informação [muito…] pessoal

Como pretendo que nada falte aos meus leitores, passo a facultar-lhes, ainda a propósito dos antecedentes do Museu de Portimão, uma informação tão pessoal que só eu mesmo poderia veicular. É coisa que, relacionada com este assunto, tem a ver com interesses da minha família em actividades de comércio internacional e nas indústrias das pescas e conserveira.

(continua)

sábado, 25 de setembro de 2010

Silenciados ou insensíveis

“Se te portares bem, dou-te um rebuçado” promessa de Alice para calar políticos no Concelho das Maravilhas.

Devidamente organizados, uns três meses antes de actos eleitorais, é vê-los. Associações, clubes, instituições sociais, escolas, nada escapa a visitas, ao inventário dos problemas e carências, prometidas soluções. Tudo para a defesa dos nossos interesses – insisto, dos nossos – segundo nos fazem chegar.

Passadas as eleições, quaisquer que sejam os resultados, há sempre disponibilidade para integrarem aquele grupo de privilegiados que entram directamente para conselhos de administração, não descurando uns lugares noutras áreas, por vezes, com pompa, rotulados de assessores.

É a vida, as necessidades. Às malvas a prometida resposta aos mais profundos anseios populares...

Convergidos ou convertidos à dependência, dão assomos como prova de vida, com cuidadoso alarde porque, nestas coisas, é preciso contentar o benfeitor mas mostrar independência aos eleitores. E por aí ficamos, mesmo que nos deparemos com as mais indignas vicissitudes.

A morte de duas senhoras em Belas e a rocambolesca história do seu processo judicial, ou os jovens que, à falta de prometidas piscinas, encontraram o fim das suas vidas em lagoas improvisadas, apagaram-se na esponja do tempo, marcando muitos políticos cujo distanciamento ajudou ao silêncio.

O falhanço das políticas de desenvolvimento (falava-se em sustentado...), a patusca campanha para o romantismo turístico, o aproveitamento empolado das dificuldades sociais para fins de imagem política, não têm justificado a respectiva denúncia.

Sintra realmente cresce na sujidade, mas a falta de sensibilidade para o efeito justificará que não ocorram manifestações para o evitar. A qualidade de vida tem piorado porque, em vez da evolução, confrontamo-nos com o retrocesso.

Na componente histórica, a salvaguarda do riquíssimo património é um campo onde a sensibilidade não campeia, mais parecendo que existe uma cumplicidade com os atentados, não nos devendo esquecer da famigerada construção em Vale dos Anjos, da destruição do tanque ou do desaforo que foi a interdição de acesso dos munícipes aos jardins de Seteais.

Agora, como se não bastasse, passou a haver um parque de caravanismo em pleno Centro Histórico. Nem uma palavra sobre tal ofensa. Nada. Como se a proximidade de uma zona classificada pela Unesco como Património Cultural da Humanidade não merecesse respeito.

No âmbito da vivência cultural, a carência de bibliotecas públicas, ano após ano, passa despercebida.

O panorama que se vive em Sintra reflecte a oferta de lugares, de cargos, de benesses.

Lembrem-se meus amigos, três meses antes das próximas eleições, eles andarão por aí. A ouvir os nossos problemas, fingindo nada terem a ver com a situação que vivemos.

Fernando Castelo

sexta-feira, 24 de setembro de 2010


Passageira apreensão


Bem, depois de um episódio tão recente como o que, na passada terça feira, sucedeu na Fundação Calouste Gulbenkian, tenho razão bastante para entrar em período de apreensão absoluta. Se tiverem a paciência de lerem as linhas que se seguem, hão-de reparar como tenho motivo para assim poder ter começado este meu apontamento.

Vamos aos factos. No âmbito do excelente Festival Mozart com que está a iniciar a temporada 2010-2011 Gulbenkian de música, anunciava o programa do passado dia 21 a audição das primeira e última sinfonias de WAM, ou seja, da Sinfonia nº.1, em Mi bemol maior, K.16, da Sinfonia nº 41, em Dó maior, K.551, primeira e última sinfonias do compositor, para além do seu Concerto para Piano e Orquestra nº 20 em Ré menor, K.466.

Para a execução das obras, contava-se com a Orquestra da casa que, durante o anunciado concerto e na derradeira das sinfonias teria Florian Krumpöck ao piano e na regência. Interpretada a primeira das citadas peças, sob a direcção do concertino Florian Zwiauer, a alma mater do Festival, seguir-se-ia o concerto de piano.

Seguir-se-ia, escrevi eu e muito bem. Seguir-se-ia, entre outras, se a imprescindível presença do piano, não tivesse sido irremediavelmente comprometida por uma inultrapassável avaria de ordem técnica que afectou a manobra de fazer subir o Steinway, da cave sob o palco, até ao seu lugar definitivo, permitindo a interpretação…

E não havia nada a fazer. Nada. A mesma plataforma elevatória que, há mais de quarenta anos – posso eu testemunhar, quase diariamente – tem funcionado tão impecavelmente, recusava-se a colaborar. Mas o espectáculo, tinha de continuar. Após um penoso intervalo, durante o qual não se percebia se haveria alguma hipótese de resolver o manifesto contratempo, apareceu um funcionário.

Quase na borda do palco, muito timidamente, num quadro do mais profundo amadorismo, com uma vozinha inaudível, sem microfone [enfim, que aquilo, como sabem, é uma casa sem meios...] lá avisou que nada havia a fazer. E, como contra factos não há argumentos, todos tivemos de assumir que, no melhor pano cai a nódoa.

É que, na realidade, a Fundação Gulbenkian é o melhor pano. Melhor pano é inimaginável. E, para nosso grande e absoluto privilégio, apesar de internacional, a Gulbenkian tem sede em Portugal. Trata-se de uma verdadeira instituição, onde, como é sabido, nada é deixado ao acaso, uma verdadeira ilha de excelência num país em que tudo está contaminado por uma patológica cultura do desleixo.

Agora, digam-me lá se não tenho razão para a apreensão que comecei por manifestar… Eu aguento tudo, desde o fisco que me vem aos bolsos buscar o que não é capaz de cobrar aos ricos e poderosos, até à proverbial incompetência da Câmara Municipal de Sintra que nos mina a qualidade de vida. Eu aguento tudo, porque vivo na constante convicção de que, todos os dias, tenho a Gulbenkian como segunda casa, lugar de permanente refúgio. Mas, então, que profundo golpe foi este? Valha-me Deus, até a Gulbenkian agora me falha?

Não, não acredito. E a atestar que assim mesmo não é, logo entrou o jovem Maestro Krumpöck, impondo à orquestra e ao auditório a sua leitura da Júpiter. E que coisa espantosa de se ouvir e entender ele nos deu no fim de tarde. Reger Mozart é aquilo, aquela sábia noção dos tempi, aquela acre e doce relação de momentos de tensão e lassidão em que Amadé foi perfeito e perfeitamente imbatível em toda a História da Música.

Conheço Krumpöck das minhas frequentes estadas em Salzburg e Viena, conheço-lhe o piano, a sagacidade, a mozartiana propensão. Tenho pena, muita pena que, devido ao capricho de uma máquina que não deve ter sido bem oleada, Lisboa não tivesse escutado o nº 20 em Ré menor pelas suas mãos. Paciência. Percebeu, no entanto, que ali, naquele austríaco Florian, há uma sensibilidade mozartiana inequívoca.

A atestar que o acontecido é mesmo para esquecer, já ontem ouvimos a Freiburger Barockorchester, o Coro Gulbenkian e um conjunto de belíssimas vozes solistas, sob a direcção de René Jacobs, interpretando a ópera Cosi fan tutte em versão de concerto. É um daqueles programas, tão sofisticado, que só a Gulbenkian tem meios para se abalançar. E foi uma noite de glória, numa das casas que, a nível mundial, propõe da melhor música.


domingo, 19 de setembro de 2010

Mais acompanhado…

Retomo hoje uma questão que aqui vos trouxe no passado dia 7 deste mês, constante do texto Sintra, saber viver... cuja abordagem me permitiu atingir os dois objectivos que, desde já, me permito recordar.

Em primeiro lugar, propus-me denunciar a atitude dos designados agentes culturais de Sintra que, silenciando a situação de degradação de tantas ruas, travessas, jardins e edifícios – inclusive municipais!... – nas três freguesias da sede do concelho, contribui para a manutenção e difusão da imagem de descalabro a que esta terra chegou. Infelizmente, não se trata de algo que apenas afecte o actual executivo camarário já que, em geral, revela a incompetência da toda uma classe política que, sucessivamente, não tem sabido exercer o poder autárquico.

Por outro lado, se bem se lembram, expressava eu o maior desalento porquanto, decorrente dessa omissão, sentia a falta de companheiros com quem, através desta fabulosa arma que é a escrita corajosa, pertinente e consequente, pudesse continuar a desenvolver uma luta a favor dos reais interesses de Sintra, já que nenhuns outros, como é público e notório, me têm animado de há muitos anos a esta parte.

A atestar a verdade inequívoca destas considerações, os amigos de Sintra que frequentam estas páginas poderão facilmente confirmar como, no território que mais me tem (pre)ocupado, não haverá uma única situação merecedora de denúncia que não tivesse sido objecto de atenção, em mais de 500 (quinhentas) mensagens no sintradoavesso, bastando que, para o efeito, acedendo ao arquivo do blogue, mencionem o local.

Igualmente, em centenas de artigos publicados no saudoso Jornal de Sintra, não perdi a oportunidade de escancarar o que muitos gostariam de esconder. Fi-lo, como sabem, até que um conhecido e lamentável episódio,* protagonizado pela actual direcção, inviabilizou a continuidade da minha colaboração no semanário onde jamais tive o mínimo problema e sempre mantive a mais cordial relação com todos os seus anteriores directores.


Os pontos nos ii

Ora bem, voltando ao cerne da questão, o que me leva a este aparente puxar pelos galões da contínua luta de denúncia do que Sintra não merece? É que, por um lado, gostaria de saudar, o mais efusivamente que me é possível, o artigo Maravilhas naturais e coisas menos naturais, de Fernando Morais Gomes, presidente da Alagamares, publicado em 10 de Setembro no sítio da associação.

Trata-se de um escrito na contínua linha do seu trabalho que tenho tido oportunidade de distinguir, trabalho que coincide e se insere, tanto na minha forma de actuação de sempre como na de outros militantes da mesma causa como Pedro Macieira, Emília Reis ou Fernando Castelo, por exemplo. Natural é que assim seja. É a tal cumplicidade a funcionar, não coisa de hoje, mas de muitos anos nisto, a chamar a atenção de quem não está à altura dos desafios.

Ainda a propósito, teria o maior gosto em convidar-vos à frequência de
http://cafecomadocante.blogs.sapo.pt/2010.html onde o mesmo Fernando Morais Gomes nos confronta com os mais oportunos nacos de prosa, como aquele recente acerca da Sintra Garagem que, de igual modo, tanta água pela barba me tem dado. De facto, sinto-me muito mais acompanhado. Mas não quero confusões com quaisquer pseudo militantes da causa da defesa do património, por mais benquistos que possam parecer.

Mais especificamente, nada me apetece pactuar com o oportunismo de outras vozes [que, agora, aparecem a falar do que sempre tem estado mal, mas à sua revelia…] porque talvez sintam o terreno um pouco mais propício, chegando ao ponto de proporem, como suas e originais, soluções afins da resolução do problema do estacionamento, que beberam directamente nos meus escritos.


Para que dúvidas não restem, refiro-me à mesma gente que, no tempo da luta contra a construção do parque subterrâneo de estacionamento na Volta do Duche, só surgiu da letargia, que é o seu estado natural, não se tendo acobardado, com receio de ferir susceptibilidades, porque, na voragem dos acontecimentos, nada mais podia fazer do que emparceirar com quem nunca foi cobarde nas denúncias.

Claro é que, após o êxito da iniciativa, foi habilíssima na colheita de louros. Com tais pessoas, não quero [poderei mesmo usar o plural], não queremos qualquer confusão...

* Ler no sintradoavesso, entre outros, Truncar & manipular, 21.09.09 e A não esquecer, 28.09.09



terça-feira, 14 de setembro de 2010

Governar em Portugal…

No começo de um ano lectivo que se prevê bastante animado, espero bem que os decisores políticos que tutelam o Sistema Educativo nacional sejam tocados pela necessidade de moderarem as suas expectativas. De uma vez por todas, imperioso se revela que assumam a realidade sociocultural portuguesa, deixando-se da veleidade de que o nosso é um país médio da União Europeia.

Em particular, muito bom seria que se coibissem do exercício de relações perfeitamente disparatadas, quando não caricatas, com o que se passa em países cujos agentes e actores dos respectivos sistemas educativos nada têm ou muito pouco apresentam de relacionável com o nosso.

O caso mais flagrante de dislate institucional tem acontecido com o atrevimento de se equacionarem medidas afins de resultados manifestamente positivos em enquadramentos finlandeses…

Apenas um exemplo. Tem Portugal um problema relacionado com a elevada percentagem de retenções? Mas porquê tanta preocupação? Faça-se como na Finlândia, meus senhores, imitem-se os bons exemplos. É só analisar as estratégias, adoptá-las, procedendo às devidas adaptações…

Todos nós temos assistido a este abusivo e escandaloso tipo de abordagem. É uma questão seríssima do nosso sistema que, de modo algum, se pode articular com a realidade finlandesa em particular ou sequer com a escandinava em geral. Mesmo que fosse possível adoptar e adaptar o complexo dispositivo nórdico, restaria sempre o pequeno problema do enquadramento familiar e social das crianças e jovens portugueses...

Já pensaram os responsáveis portugueses na distância incomensurável que separa a família média finlandesa da sua congénere portuguesa? Têm em consideração os nossos dirigentes que, na Finlândia, ao deparar-se com o problema de apoio a um estudante em dificuldades, tal circunstância tem contornos específicos, também relacionados com os altos índices do nível e qualidade de vida do país na sua globalidade?

Num país onde não há analfabetismo, em que são elevados os níveis de escolarização dos cidadãos, com hábitos de consumo cultural excepcionais, a estratégia para obviar os chumbos dos meninos não é exportável para Portugal onde a iliteracia, o analfabetismo funcional e pleno têm contornos insuportáveis em termos europeus.


Haja decoro! Acabemos com estas manobras para deslumbrar papalvos.





quinta-feira, 9 de setembro de 2010

“DEDICAÇÃO”? AO MÁXIMO!!!

S. PEDRO NÃO ESPERAVA TANTO...

(...) temos enfrentado com toda a honestidade, frontalidade e força de vontade empenhados em melhorar e dar qualidade de vida a todos os que habitam nesta zona, uma freguesia mítica e linda onde dá vontade de viver.” (Mensagem do Presidente da Junta de S. Pedro de Sintra).

A Praça D. Fernando II é uma das zonas mais nobres não só do centro histórico de S. Pedro, mas também de Sintra em geral, exigindo o maior empenho dos autarcas para a preservação da sua dignidade.

Por isso, aquando dos festejos populares de 2009, causou espanto que alguns antigos bancos de pedra que existiam na Praça tivessem sido arrancados e por ali ficado. O acto foi justificado como “para melhor funcionamento dos stands”. Isto é, eliminou-se um bem público para benefício ocasional dos “comes e bebes”.

Quatro dos bancos retirados do local










A sanha anti-bancos não foi total. Talvez para salvaguardar a “mítica e linda” história local, o único banco danificado e de impossível usufruto, manteve-se no seu lugar.

Este banco, sim, ficou no local











Como este mobiliário urbano é propriedade da Câmara, o despautério foi transmitido ao respectivo Presidente (em 18.6.2009) para “(...) fazer inverter a situação” (...) “explicando – se tanto se tornar necessário – as regras e padrões pelos quais um Presidente de Junta se deve nortear (...)”. Até hoje, nenhuma “dedicação” foi dedicada a responder.

Acabados os festejos, os bancos arrancados (em bom estado, como as fotos provam) deixaram de ser vistos, receando-se por um acto condenável de usurpação.

No Ofício nº. 831/09, de 30.7.2009, o Presidente da Junta garantia que “(…) os mesmos estão guardados no armazém da Junta, pois iremos fazer uma experiência com outro modelo de bancos, caso não resulte, os mesmos irão ser repostos (…)”

Esta garantia acabou por se revelar como não correspondente à realidade, já que, uns dias depois, se detectaram dois desses bancos no estaleiro de uma respeitável Instituição, a qual – felizmente – os recolheu para não os deixar ao abandono.

Os bancos que foram protegidos











Entretanto, o tal banco danificado manteve-se firme no seu lugar, até que há poucos dias foi recuperado da forma que seguidamente se ilustra a quantos gostem de apreciar estas expressões plásticas…

O banco recuperado...











Registe-se que os bancos retirados nunca mais voltaram ao seu antigo local.

Se nos lembrarmos do que foi relatado neste blogue em 22 de Agosto, sobre a Fonte da Estefânia que foi levada há quase 3 anos, não restam dúvidas de que estamos perante evidências isoladas de um mal que alastra como mancha de óleo mas que não passam de sintomas de uma doença generalizada a vários níveis, cuja patologia envolve a falta de competência, a cultura do desleixo institucionalizada que tudo mina e contamina.

Depois disto, ainda haverá dúvidas sobre o diagnóstico da “Dedicação”?


Fernando Castelo