[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Cavaco,
ave de asa ferida?

A candidatura de Cavaco Silva seria assunto que, em princípio, jamais me mobilizaria para qualquer trabalho de reflexão. É, de facto, pessoa muito pouco interessante ainda que, logo como Ministro das Finanças de Sá Carneiro, mais tarde Primeiro Ministro e Presidente da República, se trate da figura institucional da vida política nacional mais responsável pelos caminhos ínvios que a democracia portuguesa passou a trilhar desde meados dos anos oitenta.


Parece algo paradoxal, como uma figura apagada, tão falha de carisma, desinteressante e inculta – ainda se lembram que revelou desconhecer quantos cantos tem Os Lusíadas e confundir Thomas More com Thomas Mann? – terá adquirido tal notoriedade. Muito provavelmente, a ignorância, a iliteracia, o geral atraso popular e do país acabarão por justificar esta saliência que jamais alcançaria noutra latitude mais desenvolvida.


De facto, foi a anunciada atitude do actual candidato, de se recusar responder a perguntas pertinentes relativas ao seu comportamento no passado recente, nomeadamente em relação à aquisição e venda das acções da SLN, que me deixou perplexo e até escandalizado, determinando-me à escrita destas linhas.


Na realidade, o que este senhor mais tem a fazer é explicar tudo muito bem explicadinho. Porque, meus amigos, o que este senhor pretende é continuar a representar-nos ao mais alto nível, a nós que lhe conferimos o poder bastante para o efeito, um poder que não é pouco na medida em que pode dissolver o Parlamento, ser o supremo magistrado da Nação e comandante supremo das Forças Armadas.

Se o que este senhor pretende é a continuação de um protagonismo político para o qual julga estar à altura, então, com toda a humildade democrática, o que tem a fazer é explicar aquilo que suscita dúvida aos eleitores. À partida para uma campanha eleitoral, num Estado Democrático de Direito, um candidato tem de ser tão impoluto como qualquer cidadão anónimo que nele poderá votar.


Voltemos ao negócio que carece de esclarecimento. Remonta ele a um período antes da eleição para o primeiro mandato como Presidente e, portanto, já nessa altura, se teria imposto que o Doutor Cavaco Silva tivesse esclarecido o que continua por elucidar. Reparem que, em relação a qualquer dos outros candidatos, nada de semelhante ocorre exigir. Todos se apresentam ao eleitorado com um passado impoluto, aliás como deve acontecer a quem tão alto aspira.


E, por outro lado, meus amigos, não basta ao Doutor Cavaco Silva dizer-se honesto. Agora, é preciso prová-lo inequivocamente. Portanto, provar que, ao comprar as acções, não beneficiou de um preço de favor e que, ao vende-las, não foi privilegiado por informação reservada. Tal como a Pompeia, mulher de César, não bastava ser honesta, já que também devia parecer, assim acontece com o candidato. E, já que invoco o que se passou em Roma cerca do ano 60 a.C., não esclarecerei se desejo ao candidato o ostracismo a que foi condenada a mulher do imperador…

Portanto, para já, e até evidência em contrário, só o Doutor Cavaco Silva tem um rabo de palha deste calibre. No entanto, nada me impede de admitir a reeleição do actual Presidente da República. Mas não deixa de ser curioso que, depois de toda esta controvérsia, isso já é algo que não tenho como tão certo como há umas semanas. Se os eleitores o obrigarem a uma segunda volta, tudo pode ficar em aberto, e até pode acontecer a vitória de Manuel Alegre.


De qualquer modo, seja ele reeleito, ficará sempre refém das palavras por dizer. Sobra-nos o direito a ouvir e que ele pretende calar. Manuel Alegre compara a eventualidade da reeleição com a ave de asa ferida que, portanto, jamais poderia voltar a voar normalmente. Eu acho que, neste caso, a comparação não foi feliz. É que o Doutor Cavaco Silva – e agora uso metáfora, não a comparação – nunca foi ave voadora. Quanto muito, de asas rudimentaríssimas, é uma pernalta, deselegante mas hábil no salto das barreiras que se lhe atravessarem à frente, mesmo que, para tanto, tenha de se ferir ligeiramente…




sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Cavaco, fariseu
apanhado em campanha
Alegre


Decidi suspender a continuação do texto precedente, apenas por mais dois ou três dias, em função da premência com que me sinto interpelado pela questão das acções do BPN, oportunamente detidas e posteriormente vendidas pelo candidato às eleições presidenciais Prof. Aníbal Cavaco Silva.

Quando, em determinada altura do passado recente, e também já em período de pré campanha eleitoral, o actual Presidente da República deu a entender que, todos quantos tivessem dúvidas relativamente à questão em apreço, mais não tinham que fazer senão consultar a sua declaração de rendimentos, logo confirmei o que sempre tive como certo, ou seja, que o apregoado catolicismo do candidato mais se confunde com manifesto farisaísmo.


De facto, ninguém duvidará que o Senhor Prof. Cavaco Silva terá cumprido com todas as determinações que impendem sobre os detentores de cargos públicos. Em termos legais, tal como acontecia com o fariseu que observava escrupulosamente a letra da lei, nada deverá ter escapado, tudo estará irrepreensível. No entanto, para quem, tão radicalmente, confessa um apego cego às virtudes da dignidade e da honestidade, o que se impõe é a cabal demonstração de que à legalidade invocada, subjaz uma prática inequívoca daquelas mesmas virtudes.


Em 2001, este docente universitário, decidiu investir algumas economias em acções de uma entidade cujo Presidente do Conselho de Administração, o Dr. Oliveira Costa, era seu amigo pessoal e, inclusive, por muitos considerado como um produto daquilo que passou a designar-se como cavaquismo.


É do conhecimento geral que o sucesso do investimento foi de tal ordem que o rendimento das tais acções, ao portador, transaccionadas fora do mercado bolsista, ultrapassou tudo quanto imaginar se possa. Cento e quarenta por cento! Vejamos o que consegui apurar num documento subscrito pelo advogado Arnaldo Homem Rebelo, da Associação de Lesados do BPN que, em determinado parágrafo, refere o que o Expresso online anteriormente publicara, portanto, já do domínio público:


“(…) Cavaco Silva e a filha deram ordem de venda das suas acções, em cartas separadas, endereçadas ao então presidente da SLN (…) Ou seja, Oliveira Costa praticamente ofereceu de mão beijada 72 mil contos de mais-valias à família Cavaco (…) Que terá acontecido entre 2001 e 2003 para as acções de uma empresa que andava a ser importunada pelo Banco de Portugal terem «valorizado» 140%? (...) Terá tido [Cavaco Silva] algum palpite, vindo do interior do universo da SLN, só amigos e correligionários, para que vendesse, antes que a coisa fosse por água abaixo? (…) Como fixou a SLN Valor o preço de compra com uma taxa de lucro bruto para o vendedor de 140% em dois anos, a lembrar as taxas praticadas pela banqueira do povo D. Branca? (…)”

Entre as muitas questões que poderia suscitar a propósito deste assunto, uma avulta com especial acuidade. Prende-se ela com a própria profissão do candidato que, além de economista, é professor de finanças, portanto, da mesma área científica e, naturalmente, também com a sua condição de católico praticante, como faz questão de assumir publicamente.

O que parece – e parecerá até que o visado se explique sem margem para quaisquer dúvidas – é que o crente Cavaco Silva, perfeito conhecedor de todos os meandros dos negócios de aquisição e venda de acções de empresas, dentro e fora do mercado bolsista, conseguiu destacar-se a si próprio desta dupla perspectiva profissional. Assim, aparentemente, repito, passa de cristão católico à posição do vulgar oportunista, que se aproveita de informação privilegiada, sacando o que pôde num mercado ausente de moral…


Vendilhão ou vendedor

A César o que é de César e a Deus o que é de Deus, ao contrário do que poderá entender-se a partir de certa interpretação reducionista das próprias palavras de Jesus Cristo no Evangelho [Mateus, 22, 15-22], jamais significaria e, muito menos, neste caso, que, depois da transacção, bastaria entregar a declaração de rendimentos e o imposto ao fisco, i.e., a César/Estado, para que a outra perspectiva da dicotomia, a de Deus, tivesse sido cumulativamente respeitada.


Como qualquer comum cidadão e político – na acepção etimológica de politikos, homem da polis, da cidade – Cavaco Silva cumpriu o dever a que está condicionado pela res publica, a coisa publica, ou seja, pelo facto de viver em República, ele que é o seu supremo magistrado e mais destacado representante. Contudo, a menos que nos convença definitivamente do contrário, ter-se-á aproveitado, em benefício próprio, das subtilezas perversas do mundo da economia.


Ora bem, se assim, efectivamente, tiver acontecido, então terá posto em causa os valores da própria democracia, que impedem seja quem for de prejudicar o interesse geral para apropriação de benefício individual. Para que nos mantenhamos no registo das considerações que interessam à economia deste texto, importa lembrar que, aparentemente, e, até demonstração em contrário, Cavaco Silva terá usado de informação privilegiada para sua própria vantagem e da família.


Porém, como este mesmo cidadão se reclama do estrito cumprimento de valores que ultrapassam a condição material, remetendo-o para uma relação outra, com uma dimensão espiritual que, por outro lado, é exigentíssima na correspondência e observância estrita na prática da vida quotidiana, [o praticante, cristão católico é isto mesmo, doa a quem doer, incomode o que e quem tiver de incomodar…] então, para Cavaco Silva, a coisa seria ainda mais grave, porque transmitiria publicamente a imagem de alguém que não corresponde, em coerência e verdade, aos valores que apregoa.

Na sua persistência em não explicar o que lhe tem sido tão instantemente solicitado, o candidato permitirá que se interprete a sua atitude, no caso da compra e venda das acções em apreço, como coincidente com a dos vendilhões que Jesus Cristo, de chicote na mão, expulsou do templo [Marcos,11, 15,16,17]. É que, até definitivo esclarecimento, trata-se de um negócio mais de vendilhão do que simples vendedor

E, por favor, não esqueçamos que o negócio em que Cavaco Silva se terá envolvido faz parte daqueles que, manipulados por energúmenos, sem espalda substancial em valor efectivamente gerado, conduziram o BPN ao conhecido descalabro, à sua nacionalização, tida como necessária de acordo com o parecer do inerte Governador do Banco de Portugal, decisão do Governo e promulgação pelo Presidente da República, tudo num cúmulo de sucessivas polémicas a resultarem em milhares de milhões de euros que os contribuintes pagarão.

A acumulação de todos estes ingredientes carece de urgente explicação. Cavaco Silva foi eleito Presidente da República, para um primeiro mandato que agora termina, na sequência cronológica destes factos já então ocorridos. Tais factos, precisamente os mesmos factos, subsistem. Em vésperas de novo escrutínio ao qual se apresenta o mesmo candidato, impõe-se o conhecimento de todas as circunstâncias. Estou farto, estamos fartos de farisaísmo.


Não se trata de lana caprina ainda que a matéria sirva para vender comunicação social em barda. O que, de facto, está em causa é a própria dignidade da representação da nação e, jamais, que fique bem claro, o julgamento do carácter de alguém. Nada de confusões!




terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Espírito do lugar:
outras ofensas



“(…) No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro (…)”

(Os Maias)


Continuo no âmbito do texto precedente, aqui publicado no penúltimo dia do ano passado. A mesma obra literária, mais um trecho da mesma Sintra que, neste excerto de página absolutamente imperdível, o autor eleva à excelência dos mais belos lugares.

Certamente, a exemplo do que terá acontecido a muitos de vós, esta descrição condicionou, total e decisivamente, a minha interpretação de um cenário que conheço desde criança. E, meu Deus, ainda bem! Que bom ter ficado, não pejorativamente condicionado, mas tão enriquecido pela arte de Eça! Que privilégio poder partilhar as palavras do autor, no preciso local onde coincidimos com o seu particularíssimo olhar que acabou por consignar à paisagem uma nova dimensão da realidade.


Se o cenário permanecesse imutável, tratar-se-ia de um espectáculo de eterno usufruto. Ora, meus amigos, perante tão pacífica sentença, eis que, em sentido adverso e perverso, se agiganta um poderoso óbice. Apenas movido por inqualificável egoísmo, a verdade é que há quem esteja perfeitamente nas tintas para que o lugar mantenha o carácter ganho pela intervenção do homem, tal como o verbo queirosiano o imortalizou.


Ora vejamos o exemplo mais concludente do que acabo de afirmar. Nesta altura, mais de dois anos passados sobre a denúncia que eu próprio trouxe a público, na quinta do Vale dos Anjos, Miguel Pais do Amaral continua a construção da sua desmesurada casa, polemicamente autorizada pela autarquia, na sequência dos mais suspeitos mas favoráveis pareceres, formulados e emitidos por entidades que com eles se emporcalharam. Sintomática mas não surpreendentemente, ignora-se ainda a natureza do despacho do douto Tribunal Administrativo de Sintra ao qual, há cerca de dois anos, o processo foi submetido para apreciação.


Como a obra de construção não foi exemplar e oportunamente suspensa, o quadro maravilhoso referido por Eça deixou de o ser. Foi alterado. Inapelavelmente. Ainda com muito trabalho por concretizar, já é bem visível o volume da mansão. Para maior vergonha de todos quantos são cúmplices do despautério, quando as paredes exteriores receberem o tratamento cromático final, tudo ficará bem mais à vista, poluindo aquilo que deixámos fosse tão vilmente desrespeitado.


O outro lado do desassossego

Nos últimos três anos, Seteais vai acrescentando ofensas de um triste fado. Mais um caso extremamente controverso é o da destruição do tanque, pelo grupo Espírito Santo, concessionário do hotel, que resultou no sucedâneo travestido de uma prosaica casa de máquinas, a qual, sob o beneplácito do IGESPAR, subscrito pelo Arquitecto Assessor Principal Luís de Pinho Lopes (presentemente Chefe do Gabinete do Secretário de Estado da Cultura) era suposto receber, na respectiva placa de cobertura, um lamentável e bacoco espelho de água ilusionista.*

Num local tão simbólico de Sintra, à beira da velha estrada de Colares, cuja largura é o traço da união entre dois magnatas da mesma escola, à compita em sucessivas campanhas de asneiras, a actual casa das máquinas é a desqualificada imagem de uma situação bem exemplificativa da miserável situação a que chegou a defesa do património em Sintra, directa e indirectamente nas mãos de autoridades às quais competia ter assegurado os interesses gerais de uma comunidade que – oh ilusão e santa ingenuidade! – para todos os efeitos, continua convicta de que o seu quadro político de referência é o Estado Democrático de Direito…


Como continuaremos a verificar, em matéria de desacatos, perpetrados num espaço que é património do Estado, também deste lado da estrada não estamos nada mal servidos…


(continua)


*vd. texto aqui publicado em 13.11.2008, Seteais, pobre tanque…




quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Espírito do lugar?

Não, espírito mercantilista...

“(…) E a passo, o breck foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussuração de ramagens e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de Verão… (…)”

(Os Maias)

Quando se fala ou escreve acerca do espírito do lugar – coisa tão compósita e quase indefinível – o que se tem em consideração é algo que coincide com alguns dos parâmetros afins desta descrição. De facto, o que se pretende significar com aquela expressão, passa pela referência às linhas de força do local, num entretecer de conotações que o ambiente e a cena suscitam ao observador.

No caso em apreço, estamos no Ramalhão. Trata-se de lugar com um espírito que, pela sua pena de homem de Arte, Eça nos traça através de uma mensagem de Arte inolvidável, como que escrevendo lapidarmente e para a posteridade, o que deveríamos ver e sentir sempre que fôssemos desafiados pelo mesmo estímulo do Ramalhão.

Deveríamos. Pois é, no condicional. Na realidade, uma única condição se impunha para que pudéssemos continuar beneficiando da descrição do artista, ou seja, que o espírito do lugar tivesse sido respeitado. Ora bem, tal como à saciedade pode verificar quem se interne em Sintra através do Ramalhão, isso não acontece e, aliás, há muito tempo deixou de acontecer.

Entre outros factores de abastardamento do espírito daquele lugar, avulta numerosa série de cartazes publicitários. Se ali estão implantadas aquelas mensagens promotoras da venda de bens e serviços, elas foram autorizadas pela Câmara Municipal de Sintra. Entretanto, os mesmos autarcas que, deste modo tão contundente, se permitem aviltar o espírito do lugar que o Ramalhão encerra, são os mesmos que promovem a despudorada e bacoca campanha publicitária Sintra, capital do romantismo

Perdoai-lhes, Senhor, que desconhecem o que seja o espírito do lugar! Por outro lado, julgam saber mas, como flagrantemente se demonstra por toda a nossa querida e tão descuidada Sintra, estão redondamente enganados quanto ao seu conceito romantismo. Se o percebessem cabalmente, saberiam que se conjuga com preocupações de defesa do património natural e edificado, nos termos da qual, o espírito do lugar é, precisamente, o primeiro princípio considerado e inequivocamente respeitado.

E tais preocupações, vemo-las fielmente atendidas em enquadramentos europeus, de algum modo, similares aos que a ideia de Paisagem Cultural acolheu em Sintra. Vemo-las bem patentes, na Escócia, na Alemanha, na Áustria, na República Checa, por exemplo, só para citar países onde abundam, devidamente trabalhados, muitos contextos afins de ambientes soit disant «românticos», sem que se arroguem no direito de promover atitudes de venda turística análogas às da lusa, provinciana e doméstica capital do romantismo.

Ultimamente, o despudor tem atingido contornos inimagináveis. Sintra vende-se. Como qualquer sabonete ou detergente. Dizem os autarcas que o seu objectivo é venderem-na romântica, como marca. Vendem-na à mistura com a Sintra Inn. Vendem-na, besuntada na chapa duma carripana ordinária, junto à igreja de São Martinho, à mistura com um ask me, em imperativo anglófono que parece esconder a vergonha de uma língua que são capazes de confessar ser a sua pátria…

Aqui nem sequer há gato escondido. Como poderão verificar, o cartaz do motel encerra toda a baixeza da mensagem que a autarquia autoriza seja transmitida, bem às claras e sem margem para dúvida. Sintra romântica, para eles, é isto: a pressa de uns amores, num motel periférico. Em tempo mais seco, já se sabe, para além do motel, também o amor e a cabana numa qualquer autocaravana, em pleno coração de Sintra, isto é, o parque de estacionamento do Rio do Porto.

Toca a vender!…

A terminar um ano, em que a rapaziada da autarquia responsável pelo turismo se limitou a fazer mais do mesmo, peço encarecidamente que não insistam em brincar com coisas sérias. Romantismo? Espírito do lugar? Não, decididamente, é um mundo que não está ao seu alcance.

Finalmente, deixar-lhes-ia uma mensagem de caris mercantil: É vender, rapaziada, é vender!... Vendam o que sabem, vendam gato por lebre! Vendam o que a ignorância compra! Continuem a pôr na rua o produto da vossa fábrica de enganos. Um dia virá em que rirá melhor quem rir, por fim, e em que serão confrontados com a mercadoria acumulada de tanta fancaria ordinária…




Agora atentem nas fotos e articulem-nas com a citação de "Os Maias". Mais palavras? Para quê?...








segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Quinta do Relógio,
mais um episódio


Anónimo disse...

The present owners bought quinta do relogio as complete ruin which has nothing left inside after fire and neglect of many decades years before acquire by present owner. accept the outside facade. Millions have been spend by present owner to reinforce the structure and restore other buildings and making most glorious garden in whole of Sintra. millions spent by ownners in the careful professional high degree restoration by best professional expert hire. easy to criticise but any one know big time needed for historic restoration work was stop as city municipality announce purchase. now owner decide to start work soon as purchase keep delay once completed the owner plan to make the palace pride of Sintra as owner in love with Sintra. I am associated with restoration work so I know. surely people in sintra get chance to enjoy quinta do relogio in its glory in future.
26/12/10 00:30


Como poderão verificar, o comentário em epígrafe está datado de ontem. No entanto, foi redigido como reacção a um texto publicado no sintradoavesso, há quase um ano, mais precisamente em 14 de Janeiro, subordinado ao título Sintra em compras polémicas. Enfim, em função de tão manifesto desfasamento cronológico, não podemos deixar de ter como certa a conclusão de haver quem consiga reagir mais rapidamente…

Entretanto, em tudo quanto se refere à Quinta do Relógio, como nos tem sido proporcionado constatar, a pressa é coisa que, por aquelas bandas, parece não se cultivar. Pelo contrário, à laia de quem espera pelo grande negócio da sua vida, a santa paciência, bem à portuguesa, é a virtude em que, manifestamente, mais se empenham os estrangeiros proprietários e, pelos vistos, este seu fiel amigo comentarista…

Uma coisa que me surpreende é que, dispondo assim de tantos milhões, e, convictos da mais valia que constitui aquele património da Quinta do Relógio, como é que os actuais proprietários, certamente gente de grandes cabedais e discernimento negocial, estariam disponíveis para prescindir de uma tão evidente galinha de ovos de ouro… Mistério? Negócio polémico ou flagrante negociata?


Bem sei que há uns escribas de terceira categoria armados em historiadores que, para sua própria vergonha, se prestam à triste tarefa de justificar, com argumentos de baixo estrato, o hipotético interesse daquela aquisição, com dinheiros públicos. Mas isso é outra história…

Mais uma observação. Propositadamente, nem sequer me dou ao trabalho de traduzir o macavenco inglês que suporta a mensagem supra. Para além da incorrecção do anonimato, ainda que admissível na blogosfera, o autor também cometeu a deselegância de suprir o seu escrito num idioma que não o nosso. Partiu do princípio de ser coisa adquirida essa provinciana prática de geral e lusa submissão às línguas estrangeiras. Aqui, no sintradoavesso, não penso que alguma vez cheguemos a esse ponto. Quem tiver dúvidas, é só ask me...

Aliás, deixem-me passar-vos a impressão – partilhada, tenho a certeza, por muitos leitores – de que, de tão mauzito, muito dificilmente, o texto terá sido escrito por um autor anglófono. Quanto muito, talvez sueco… De facto, noutra hipótese plausível, mais parece a retroversão de um original em português, igualmente muito falho de qualidade…

Finalmente, e para o que nos interessa, urge, isso sim, que o Presidente da Câmara Municipal de Sintra anuncie a mais que evidente necessidade de desistência do negócio da Quinta do Relógio. De facto, são tantas, tão justas e pertinentes as razões que lhe assistem para assim retroceder na sua intenção da compra, que nem sequer corre o risco de se prejudicar pessoalmente com tal decisão. Pelo contrário, só poderia sair enobrecido.

Não quererá o Dr. Fernando Seara começar o Novo Ano da melhor maneira, concedendo-nos ainda o benefício da dúvida quanto às melhores intenções da sua gestão?


PS: Não haverá por aí uma alma caridosa que, na sequência da publicação deste texto de hoje, chame a atenção do anónimo autor da mensagem em epígrafe, para a necessidade de uma resposta atempada que a todos nos beneficie com as suas doutas impressões? De facto, sem a sua reacção, não teremos a perspectiva do contraditório, ainda que não estejamos obrigados a qualquer obediência deontológica, mais atinente do contexto jornalístico que não é o nosso...



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desilusão
sem nome próprio

(conclusão)


Basta lembrar o modo como o Presidente da Câmara se envolveu na Jornada de Reflexão sobre a Estefânea em 22 de Março de 2004. Esteve presente no Palácio Valenças, acompanhado por dois vereadores e técnicos dos serviços, interveio, interessou-se e, mais tarde, fez uma série de promessas a muitos cidadãos que tinham sido mobilizados pelo movimento cívico, que emergira com a luta contra o aludido parque subterrâneo, movimento que ainda não tinha definhado e que até conseguira acolher conhecidas figuras do meio cultural nacional, mas radicadas em Sintra, como Gabriela Llansol e Bartolomeu Cid dos Santos.

Confiando nos sinais, eu iludia-me. Até que se começou a evidenciar como as promessas não passavam de palavras vãs, ao mesmo tempo que, noutro contexto, apesar de variadíssimas atitudes de insistência no sentido de satisfazer a comunidade com o esclarecimento que se impunha, casos como o da controversa gestão do biólogo Serra Lopes na Monte da Lua esbarraram, até hoje, com um presidencial muro de silêncio. E, mais recentemente, outros silêncios continuam a gritar no caso das mortes de duas senhoras em Belas, durante a cheia de 2008, ou de duas crianças numa lagoa do Cacém.


A geracional incompetência dos decisores políticos que têm servido Sintra nas últimas décadas não se alterou com Fernando Seara. Mas eu iludi-me. Ingenuamente. Repare-se que os mais emblemáticos casos de degradação do património civil edificado, tanto em pleno Centro Histórico – com o escândalo do Hotel Netto, a falta de saneamento básico, a vergonha da Rua dos Arcos, ou as ruínas do Rio do Porto, por exemplo – como na Estefânea, com a Garagem Sintra, o prédio do Comendador Justino e toda a quela fileira de indignidade na Heliodoro Salgado, tudo já vinha de anteriores gerências e mantém-se, santo Deus!


A preservação do património classificado passou a ser uma balela. O discurso é um e a realidade, essa, outra e bem mais dolorosa. Seteais testemunha-o à saciedade, não só com a cedência aos caprichos do concessionário do hotel, do grupo Espírito Santo, que se consumou na destruição do tanque, mas também no inconcebível licenciamento de uma casa, enorme e desconforme com as características e espírito do lugar, na Quinta do Vale dos Anjos, propriedade de Miguel Pais do Amaral, mesmo em frente do palácio.


Trata-se de património ofendido. Todavia, tal como tenho vindo a denunciar, há outro património que Fernando Seara, se não abandonou, até parece, como acontece na Quinta da Ribafria. Um vultuoso investimento dos munícipes nada rende. Resultaram infrutíferas as informais tentativas no sentido de saber o que por lá se passa. Umas cenas por lá filmadas, disseram-me. Será este o destino que o Senhor Presidente terá em mente para a Quinta do Relógio, cuja aquisição, cifrada em muitos milhões de euros, está a propor aos cidadãos, sem qualquer programa para as instalações?


Ainda outro património, de carácter mais virtual mas importantíssimo, como a reputação do Festival de Sintra, até isso Fernando Seara, por acção e omissão, deixou comprometer. Por outro lado, em domínio bem diferente, autorizou que se instalasse um clima de tolerância à impunidade. Por exemplo, no estacionamento selvagem e caótico dos automóveis, em zonas pedonais, desautorizando os agentes das forças policiais. Quando os próprios agentes se queixam de que o Presidente da Câmara os desmotiva do cumprimento do dever…


Estão a perceber os leitores as razões do meu gradual e definitivo afastamento? Entendem melhor o meu processo, de ilusão/desilusão? Não é difícil nem custa admitir mas cumpre sublinhar que, após um auspicioso e promissor período inicial, em que até alguma participação cívica foi possível, Fernando Seara desfez a máscara e, lembrem-se, tal como no poema de Manuel da Fonseca, matou a tuna

Como o título deste escrito dá a entender, esta desilusão não tem nome próprio. Muito redutor seria confundir, em exclusivo, o nome de Fernando Seara com esta desilusão. Não esqueçam que, à volta do Presidente, há uma corte de subservientes, inequivocamente co-responsáveis com o statu quo. Isto é trabalho de um grupo, não de um homem só, embora a responsabilidade última a ele tenha de ser endossada.

Agora, tal como Marcus Tullius Cícero, contra Lucius Sergius Catilina, só nos resta a possibilidade de desafiar o Presidente, perguntando-lhe até quando abusará da nossa paciência…


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Desilusão
sem nome próprio


"(...) Como foi possível estar ao lado de um político cujo cartão de visita era o futebol e agora estamos a ver que nada fez? (...) Desculpe pela opinião mas deve sentir-se muito mal ao ponto de se desmarcar (...) Ilda Canavarro, 15.12.2010"

Há dois dias, o comentário de uma antiga aluna, em epígrafe, acabou por determinar a necessidade de esclarecer o assunto nele implícito que, de vez em quando, tem sido suscitado por outras pessoas. Ora vamos lá ver se consigo ser suficientemente claro e tão conciso que não caia na tentação de me alargar em considerações que, apesar de relacionadas, nada acrescentariam ao cerne da questão.


Terei de recuar uma década. Sem mais delongas, passaria a recordar como foram penosos os últimos tempos do mandato de Edite Estrela. Em manifesta estratégia eleitoralista, a então Presidente da Câmara deixou-se enredar em casos tão controversos como, nomeadamente, a construção do parque de estacionamento subterrâneo na Volta do Duche, a inauguração apressada e atabalhoada das instalações inacabadas do Centro Cultural Olga Cadaval, ou as obras na Heliodoro Salgado.

Estas situações contribuíram para a pesada herança que a edil acabaria por legar aos munícipes, com uma carga de significativa e patente baixa da sua qualidade de vida. Por exemplo, só no coração de Sintra, a atestar quanto afirmo, ficou a flagrante descaracterização do bairro da Estefânea, castigado pelo funeral do comércio local e por um horroroso e desgastante labirinto de trânsito, pela falta de estacionamento que, já no seu teu tempo, impunha, isso sim, a opção pela estratégica instalação de parques de estacionamento periféricos.

Não era fácil nem cómodo lutar contra problemas que acabaram mediatizados, adquirindo uma notoriedade nacional na imprensa e na comunicação social audiovisual. De modo muito discreto – porque sempre detestei saliência pessoal de qualquer ordem – entreguei o protagonismo a quem o soube aproveitar, mas sem enjeitar a coordenação do movimento cívico que, com base na contestação à concretização da construção do projecto na Volta do Duche, constituiu uma plataforma de luta de cidadãos apartidários e independentes, preparados para outros voos.

Mãos à nova obra

Tudo isto há dez anos. Era o dealbar do século XXI e Sintra estava exausta, na ponta final do percurso de uma gestão muito polémica do município. Muito mal rodeada por uma equipa impreparada para os desafios dos gigantescos retalhos da manta que se transformou em subúrbio da capital, desgastada por um acumular de episódios em que fora posta em causa, Edite Estrela iria passar o testemunho a um Fernando Seara que aparece num momento absolutamente crucial.

Em face do quadro em referência, difícil não é entender que, enquanto munícipe interventivo, eu estava aberto ao acolhimento, não de qualquer messiânico salvador do concelho mas, muito naturalmente, de alguém disposto a concretizar um projecto atento ao envolvimento de todos quantos, dispostos ao compromisso cívico, ansiavam por prestar uma colaboração profícua e desinteressada.

Naquela altura, de facto e objectivamente, Fernando Seara não desiludiu. Logo nos primeiros tempos do seu mandato, sustentado no seu saber de homem de Direito, habituado a reflectir sobre a constitucionalidade das instituições, pôs o dedo na ferida das empresas municipais, atitude que me animou sobremaneira já que, completamente perplexo e impotente, tinha eu assistido à génese de tais monstros tão ávidos de recursos.

Uma esperança a galope

Inesperadamente e com o maior desassombro, eis que o próprio Presidente vinha pôr em causa aquilo que, já na altura, eu considerava tão pernicioso como uma porta aberta a todas as manobras de agilização de pessoas e bens. Sossegou-me. Com a sua pública tomada de posição, confirmou a minha razão contra a existência das empresas municipais. Eu tinha razão e o Presidente tinha uma actuação afim. Para mim, era quase um alvoroço.

Na mesma altura, ou pouco tempo depois, cumprindo a promessa eleitoral que, não esqueçamos, fora compromisso de todos as forças partidárias concorrentes às eleições, Fernando Seara põe termo ao processo da construção do mencionado parque de estacionamento subterrâneo. Sei que, em face do adiantamento das negociações do anterior executivo, a coisa não foi nada fácil e, pelo contrário, revestiu aspectos até bastante sofisticados para evitar situações de prolongado contencioso.

Entretanto, no mesmo contexto do estacionamento e, aparentemente, sensível à necessidade de, em termos definitivos, tratar da questão na sede do concelho, o Presidente ia reunindo com alguns membros do Movimento Cívico de Sintra, entre os quais me incluía, ouvindo e concordando com as sugestões que continuo a subscrever, no sentido da instalação dos parques periféricos e requalificação de pequenas bolsas nas freguesias de São Pedro, São Martinho e Santa Maria.

Uma outra frente de actuação passou pelo discretíssimo desinteresse pelo projecto Sintralândia que, se bem se lembram, constituía o mais tenebroso plano de instalação de um parque temático, na zona da Granja do Marquês, que conduziria à destruição de duzentos hectares de boa terra agrícola, outra herança da anterior presidente da Câmara, que chegou ao ponto de subscrever um protocolo afim com o então Ministro da Defesa.

Ao impedir que o projecto se concretizasse, num momento em que uma grande empresa multinacional, especialista em tais empreendimentos, jogava tudo em vários tabuleiros, Fernando Seara enfrentou interesses avultadíssimos de toda a ordem, prestando a Sintra um serviço que a maior parte da população ainda desconhece. Esteve à altura, ignorando os cantos de sereia de cinco mil postos de trabalho que aquela disneylandia local iria promover, numa inominável lógica de destruição e de abastardamento de valores locais que nunca será excessivo sublinhar.

Porém, ainda que já tão significativos, não acabam por aqui os créditos iniciais de Fernando Seara e, paradoxal mas compreensivelmente, as razões que, em simultâneo, subjazem à desilusão que a sua gestão acabou por suscitar.

(continua)


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ask me…

Em Sintra, a informação turística deixou o balcão do amplo salão à entrada do edifício onde estão sediados os serviços do turismo, e saltou para a rua, ficando reduzida ao insignificante espaço de uma pequena autocaravana. Estacionada em plena Praça da República, responde ao desafio de um ask me, assim mesmo, nesta servil expressão, que ainda consegue ser mais bacoca do que a campanha Sintra, capital do romantismo, cuja publicidade também aparece impressa na chapa da carrinha.

Dentro do exíguo cubículo, apenas um funcionário é, de facto, quanto basta para satisfazer a demanda dos forasteiros. Tão curiosa é a situação que chega a suscitar uma capciosa e perversa dúvida. Ou seja, afinal, não será esta a dimensão que, na devida proporção, responde às reais necessidades do serviço que, pelos vistos, há muitos anos, tem vivido inflacionado, com recursos perfeitamente dispensáveis?


De tal ordem é a sanha da estratégia empresarial da autarquia que não será difícil prever o que vai acontecer nas instalações actualmente em vias de adaptação a nova funcionalidade. Ou muito me engano ou, muito rapidamente, seremos confrontados com um espaço transformado em grande loja – há quem designe como show room, open space – onde será possível comprar o mais abastardado handycraft sintrense (?!), reservar quartos de hotel (e de periférico motel, porque amar é tão importante…) decidir por um rent a car das marcas mais conhecidas, comprar um percurso de exploração da serra, um challenge em jeep, and so on, com muitos packages à mistura…


Aliás, aproveitando a embalagem desta iniciativa mercantil, aconselharia a autarquia a alargar o modelo, por exemplo, também ao Departamento do Urbanismo. Mais uma uma outra autocaravana, desta feita no parque de estacionamento adjacente ao edifício da Portela, haveria de suprir a informação afecta à área do urbanismo e, lá dentro, no rés-do-chão, com o espaço dividido em várias células, alojariam os promotores imobiliários que, ali mesmo, tratariam das vendas dos seus imóveis…

E, de tanto sucesso se prevê a adopção do figurino das autocaravanas que me permito até alvitrar uma solução mais integradora, decorrente de uma perspectiva sistémica. Então, por que não destinar as autocaravanas dos departamentos municipais – entretanto todos mercantilizados, como o do Turismo – fazendo-as concentrar num parque com tanta atractividade como o do Rio do Porto, que já ganhou a tradição de camping municipal em pleno centro histórico?...

Neste contexto do marketing e do merchandizing para aproveitamento comercial das instalações disponíveis, um pouco por todo o concelho, considero-me detentor de uma bolsa de ideias que abrirão janelas de oportunidade dinamizadoras da actividade económica em todo o território sintrense. Quem quiser aproveitar, só terá de me contactar, ligando ao call center virtual que acabo de abrir, naturalmente, subordinado ao slogane Ask mee…

NB: espero não precisem os leitores que, dentre os abundantes itálicos, assinale os que são particularmente afectos ao discurso presidencial sintrense...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sintra,
15 anos de expectativa

Por ocasião do décimo quito aniversário da atribuição da classificação de Paisagem Cultural da Humanidade pela UNESCO a Sintra, penso que, pouquíssimas razões sobrarão para a entusiástica celebração da efeméride.

De qualquer modo, tratando-se de uma altura propícia à lembrança de alguns factos, gostaria de destacar o trabalho e a actuação de duas pessoas, o Prof. Doutor Victor Serrão e o arqueólogo Doutor José Cardim Ribeiro, a quem se deve todo o trabalho de concepção e apresentação da candidatura de Sintra àquela instância das Nações Unidas.

É da mais elementar justiça que faça este realce na medida em que toda a documentação constante do processo é da mais alta qualidade, bem atestando o alto gabarito técnico destes dois meus queridos amigos. Um, professor catedrático de História da Arte na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o outro director do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas e uma das mais acreditadas vozes da Arqueologia portuguesa, têm dado a Sintra o melhor do seu saber em diferentes oportunidades. Até que ponto é que Sintra tem sabido retribuir, isso é questão para outra ocasião…

De significado indesmentível, durante a década e meia que passou, foram as ameaças da UNESCO no sentido de retirar a classificação, por manifesta quebra de contrato, deixem-me assim designar a falta de trabalho de casa das entidades que, em Sintra, mais ou menos directamente, lidam com este sofisticado processo que se reporta à manutenção de um património herdado, que é preciso estar à altura de honrar, para o usufruto no presente e testamento às gerações futuras.


Em Janeiro deste ano, durante a última visita de peritos, ficaram bem patentes as dificuldades da Câmara Municipal de Sintra quanto ao cumprimento das suas obrigações no contexto da classificação da área em questão. Aliás, a qualquer observador minimamente atento, basta percorrer a zona para constatar aquilo que os peritos observaram e fizeram constar do seu relatório.


Exemplos de iniquidade passam pelo crime de destruição do tanque de Seteais, com o beneplácito do IGESPAR e, do outro lado da estrada, igualmente lamentável, a construção de uma residência na Quinta do vale dos Anjos, cuja autorização continua por explicar.


Por outro lado, já noutro contexto, não se compreende como, tendo havido disponibilidade financeira procedente de verbas da zona de jogo do Estoril, não procedeu a autarquia à requalificação do centro histórico. E ainda muito menos se entende que, perante tanta omissão, o discurso da Câmara, que só engana quem quiser ser enganado, dê a entender que, no´âmbito da preservação do património, tudo se processa no melhor dos enquadramentos.

Verdadeiramente positivo, o meu único destaque para Sintra Paisagem Cultural da Humanidade vai direitinho e inteiro para a Parques de Sintra Monte da Lua, uma distinção absolutamente inequívoca a partir do momento em que o biólogo Paulo Serra Lopes deixou a administração da entidade que serviu com tanta polémica.

Há uns anos a esta parte, sob a presidência do Prof. António Ressano Garcia Lamas, a PSML dá-nos a garantia das melhores práticas na salvaguarda do património natural e edificado, autênticas jóias da coroa, sob sua custódia. A equipa ali em actividade é um sério caso de eficiência e de ânimo na defesa dos valores em jogo. Acreditem que, muitas vezes, é ao exemplo desta gente que vou buscar alento para a minha atitude de cívica denúncia dos desmandos que, não raro, tanto nos desassossegam.


Esta é uma terra cujas características e bens patrimoniais merecem uma atitude radicalmente diferente da que tem persistido, nomeadamente, ao nível da autarquia. Preciso é que o discurso oficial seja consequente e coerente com o que acontece no terreno. Caso contrário, em Paris, na UNESCO, ou noutros lugares onde vão acontecendo conferências sobre defesa do património, Sintra continuará sendo conhecida como lugar onde muito bem prega Frei Tomás…



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Natal em Sintra,
tanta lâmpada, tanta falta de luz…

“(…) Reduzimos em 50% a verba empregue (*) em relação ao ano passado, gastando-se este ano €:60.000,oo (…) temos, apesar de tudo, de criar condições para que a economia continue a funcionar, e isso consegue-se com o desenvolvimento de iniciativas locais que promovam e ajudem as empresas locais e outras de nível nacional, como é o caso desta empresa que instalou a iluminação de Natal em Sintra (…) Portanto, para mim não há nenhuma crise que possa ser ultrapassada parando a economia (…) para além de que as iluminações de Natal são mais um motivo da atractividade de Sintra (…)”





Se tiverem lido, com a atenção que merecem, as palavras da epígrafe, parte de declarações do Dr. Fernando Seara, publicadas na edição de 3 de Dezembro de 2010 do saudoso Jornal de Sintra, e lembrarem o que escrevi acerca do assunto – quando pus em causa aquilo que não tenho a mínima razão para deixar de considerar como flagrante despesismo, numa altura em que qualquer gasto supérfluo é tão lamentável como escandaloso – concordarão que integram um expediente retórico de consistência muito duvidosa.


Se bem se lembram, o que eu sublinhei foi a contradição em que o Presidente da Câmara se enredou. Primeiramente, perante o próprio Presidente da República, e, mais tarde em declarações ao Expresso, o Dr. Fernando Seara não se coibiu de proclamar, urbi et orbi, a miséria e a fome que lavram no concelho, que terão levado a autarquia a mobilizar recursos para acudir ao flagelo, inclusive abrindo cantinas escolares em fins de semana, acolhendo e socorrendo alunos e respectivas famílias.

Indubitavelmente, esta é uma premissa de grande preocupação. De acordo com o testemunho do Presidente da Câmara, trata-se de verdadeira aflição, de um estado indisfarçável de carência que, na minha opinião, é impossível conjugar com qualquer manifestação de ligeireza iluminante que, agora, à trouxe-mouxe, o edil introduz na equação do quadro social deste concelho multifacetado e tão desguarnecido.

Se o nosso Presidente fosse um qualquer sujeito desqualificado, nem sequer me daria a este trabalho de explicita réplica. Mas não. O Dr. Fernando Seara é um homem esclarecido, que sabe problematizar e se reclama de perspectivas de análise integrada e sistémica, relativamente às questões que enfrenta. Por tudo isto, muito sinceramente, não consigo entender como se permitiu fazer as declarações constantes da citação inicial.

E, mais uma vez, se enredou em novas contradições. Então, convencido de que, mesmo neste período de gravíssima crise nacional e municipal, com consequências sociais tão sérias “(…) o desenvolvimento de iniciativas locais que promovam e ajudem as empresas locais e outras de nível nacional (…) criam condições para que a economia continue a funcionar (…)” como se entende que tenha reduzido para metade a verba que, no ano passado, permitia concretizar o objectivo?

Mais explicitamente, se uma estratégia anterior – neste caso a inerente ao investimento em iluminações natalícias que, em sua opinião, eram dinamizadoras e impulsionadoras da economia sintrense – propiciava resultados tão positivos quanto é possível inferir das suas palavras, como se justifica este seu tão dramático recuo de meio por meio? E ainda fica por contabilizar o consumo de energia…

E, como se já não estivéssemos bem aviados com a desgraça sintrense, não é que, além dos cidadãos contribuintes do nosso concelho, desempregados, pais e encarregados de educação das criancinhas a quem, em nosso nome, o Presidente da Câmara afirma ter de matar a fome, agora também ficamos todos preocupadíssimos com os trabalhadores da firma Irmãos Castros de Espinho, depois de nos ter ele dado a entender que, não fora a decisiva contribuição de Sintra, o seu próximo futuro laboral era muito problemático? Não, de facto, com argumentos de tal natureza, não se aguenta tanta fragilidade…

E, ainda, caros leitores, por mais generosa que possamos imaginar ou conceber, não há visão sistémica que aguente a conclusão a que chegou o Dr. Fernando Seara, ou seja, que, em tempo de crise, a eventualidade de poder ter decidido não fazer iluminações natalícias [as deste ano são as mais horrorosas de sempre!...]significaria, nem mais nem menos, do que contribuir para a estagnação económica do concelho. É de almanaque, como soe dizer-se, esta tirada de defesa tão sui generis da viabilidade dos negócios sintrenses…

Mesma questão, outra vertente

Entretanto, há uma outra premissa que, em articulação com a da contradição do discurso da miséria versus despesismo, não me canso de chamar a atenção. Trata-se do tão lamentável como criticável desaproveitamento de capacidades instaladas em dispositivos culturais do concelho, que rendem nada ou muito pouco, haja em consideração os brutais investimentos que, em tempo oportuno, os munícipes decidiram concretizar.

Aliás, é neste mesmo contexto que, mais uma vez, me permito alertar para o desperdício de algumas praticamente adormecidas valências do Centro Cultural Olga Cadaval. E, muito aquem de qualquer exaustivo diagnóstico, como esquecer o caso da Quinta de Ribafria onde, se alguma coisa acontece, é mistério que o município muito bem guarda?…

Em face deste quadro de manifesta falta de operacionalidade do executivo municipal, num concelho com tanta falta de iniciativas de índole cultural de adequado nível, apenas me resta esperar que, na Assembleia Municipal – para além do PS que se opôs, e da CDU que, embora discordando do negócio, se absteve, acabando por viabilizar a operação de aquisição da Quinta do Relógio – saibam agora os partidos da oposição exigir o aproveitamento exemplar de todos os nossos dispositivos culturais, e que tudo façam no sentido de não comprometer as finanças municipais com uma aquisição de contornos tão obscuros.

Se assim actuarem, os senhores deputados municipais estarão contribuindo para que Sintra possa suscitar, aos potenciais investidores e empreendedores em geral, a sedução (prefiro este termo à tal atractividade) que continua a exercer noutros domínios, apesar de tão mal tratada por quem é suposto tudo fazer em seu benefício.

(*) Apenas aproveitando para esclarecer que a forma empregue é incorrecta. Trata-se de um falso particípio, talvez criado por analogia com o verbo entregar que, esse sim, tem dois particípios, um regular, entregado e um irregular, entregue. O verbo empregar só tem um particípio, empregado, que se usa quer com o auxiliar ter quer com o auxiliar ser.