ave de asa ferida?
A candidatura de Cavaco Silva seria assunto que, em princípio, jamais me mobilizaria para qualquer trabalho de reflexão. É, de facto, pessoa muito pouco interessante ainda que, logo como Ministro das Finanças de Sá Carneiro, mais tarde Primeiro Ministro e Presidente da República, se trate da figura institucional da vida política nacional mais responsável pelos caminhos ínvios que a democracia portuguesa passou a trilhar desde meados dos anos oitenta.
Parece algo paradoxal, como uma figura apagada, tão falha de carisma, desinteressante e inculta – ainda se lembram que revelou desconhecer quantos cantos tem Os Lusíadas e confundir Thomas More com Thomas Mann? – terá adquirido tal notoriedade. Muito provavelmente, a ignorância, a iliteracia, o geral atraso popular e do país acabarão por justificar esta saliência que jamais alcançaria noutra latitude mais desenvolvida.
De facto, foi a anunciada atitude do actual candidato, de se recusar responder a perguntas pertinentes relativas ao seu comportamento no passado recente, nomeadamente em relação à aquisição e venda das acções da SLN, que me deixou perplexo e até escandalizado, determinando-me à escrita destas linhas.
Na realidade, o que este senhor mais tem a fazer é explicar tudo muito bem explicadinho. Porque, meus amigos, o que este senhor pretende é continuar a representar-nos ao mais alto nível, a nós que lhe conferimos o poder bastante para o efeito, um poder que não é pouco na medida em que pode dissolver o Parlamento, ser o supremo magistrado da Nação e comandante supremo das Forças Armadas.
Se o que este senhor pretende é a continuação de um protagonismo político para o qual julga estar à altura, então, com toda a humildade democrática, o que tem a fazer é explicar aquilo que suscita dúvida aos eleitores. À partida para uma campanha eleitoral, num Estado Democrático de Direito, um candidato tem de ser tão impoluto como qualquer cidadão anónimo que nele poderá votar.
Voltemos ao negócio que carece de esclarecimento. Remonta ele a um período antes da eleição para o primeiro mandato como Presidente e, portanto, já nessa altura, se teria imposto que o Doutor Cavaco Silva tivesse esclarecido o que continua por elucidar. Reparem que, em relação a qualquer dos outros candidatos, nada de semelhante ocorre exigir. Todos se apresentam ao eleitorado com um passado impoluto, aliás como deve acontecer a quem tão alto aspira.
E, por outro lado, meus amigos, não basta ao Doutor Cavaco Silva dizer-se honesto. Agora, é preciso prová-lo inequivocamente. Portanto, provar que, ao comprar as acções, não beneficiou de um preço de favor e que, ao vende-las, não foi privilegiado por informação reservada. Tal como a Pompeia, mulher de César, não bastava ser honesta, já que também devia parecer, assim acontece com o candidato. E, já que invoco o que se passou em Roma cerca do ano 60 a.C., não esclarecerei se desejo ao candidato o ostracismo a que foi condenada a mulher do imperador…
Portanto, para já, e até evidência em contrário, só o Doutor Cavaco Silva tem um rabo de palha deste calibre. No entanto, nada me impede de admitir a reeleição do actual Presidente da República. Mas não deixa de ser curioso que, depois de toda esta controvérsia, isso já é algo que não tenho como tão certo como há umas semanas. Se os eleitores o obrigarem a uma segunda volta, tudo pode ficar em aberto, e até pode acontecer a vitória de Manuel Alegre.
De qualquer modo, seja ele reeleito, ficará sempre refém das palavras por dizer. Sobra-nos o direito a ouvir e que ele pretende calar. Manuel Alegre compara a eventualidade da reeleição com a ave de asa ferida que, portanto, jamais poderia voltar a voar normalmente. Eu acho que, neste caso, a comparação não foi feliz. É que o Doutor Cavaco Silva – e agora uso metáfora, não a comparação – nunca foi ave voadora. Quanto muito, de asas rudimentaríssimas, é uma pernalta, deselegante mas hábil no salto das barreiras que se lhe atravessarem à frente, mesmo que, para tanto, tenha de se ferir ligeiramente…






