terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
como chegar, onde ficar (1)
Várias pessoas me têm pedido para escrever sobre os festivais de Salzburg e acerca deste último do qual acabo de regressar. Também gostariam que contasse um pouco da história da cidade, da indissociável relação com Mozart, ao fim e ao cabo, matérias que tratei durante anos, enquanto mantive colaboração no saudoso Jornal de Sintra.
Ali assinei muitas páginas de crítica musical acerca do que ia acontecendo nos festivais. E sabem que era um caso único na imprensa portuguesa? Nenhum órgão da comunicação social escrita, além do Jornal de Sintra, durante anos sucessivos, teve enviado a Salzburg. E, como calculam, tratando-se de colaboração gratuita, o gosto que tive em produzi-la foi deveras especial porque, em Salzburg, só acontece a melhor música do mundo…
A verdade, se querem saber, é que há gente de Sintra que foi e vai a Salzburg na sequência da leitura desses meus textos. O facto de me ter visto compelido a deixar de colaborar naquele semanário e a adicional circunstância de ter notado alguns indícios de uma invejazita muito lusa e rasca, levaram-me a deixar de partilhar as minhas impressões, não só de Salzburg, mas também de Bayreuth, por exemplo. E se era coisa que me dava especial prazer!...
Ora bem, por isso mesmo, só pelo prazer que me dá e pela possibilidade de ser útil, nem que seja a um só leitor, decidi voltar à carga. Por isso aqui me têm, dando conta da minha experiência. E, desde hoje, fica já o compromisso da futura e constante preocupação no sentido de que os interessados numa eventual visita à cidade e à região, acedam a informação de um guia perfeitamente desinteressado. De vez em quando, talvez quinzenalmente, cá me terão a bater nesta mesma tecla.
Para vos contar da minha relação com Salzburg não bastaria dizer-vos quantas vezes já lá estive para participar na Mozartwoche, o festival de Inverno – exclusivamente afecto ao mundo mozartiano e suas conotações mais explícitas ou implícitas, cujo início, em 1956, marcou a efeméride dos duzentos anos do nascimento de Mozart – ou no Osterfestspiele, o Festival da Páscoa, fundado em 1967 pelo maestro Herbert von Karajan, natural da cidade.
De facto, ao longo de tantos anos, foram dezenas de vezes. Para vos dar uma ideia aproximada, e, circunscrevendo-me apenas ao Mozartwoche, que sempre comemora o nascimento do compositor, em 27 de Janeiro, nunca permaneço em Salzburg menos de quinze dias. No entanto, por exemplo, em 2006, 250º aniversário, estive quase um mês.
A minha casa
Seja qual for a razão que ali me conduz, festivais, estudo, puro lazer, há muitos anos que o Institut St. Sebastian é sempre o meu poiso. É um antigo convento do século dezassete, adjacente à igreja e ao famoso e lindíssimo cemitério, sob o patrocínio do mesmo santo, onde estão sepultados muitos notáveis, desde o Príncipe-Arcebispo Wolf Dietrich von Raitenau, num mausoléu belíssimo, até essa figura ímpar da história da Ciência e da Medicina que foi Paracelso, ou os Mozart, Leopold e Constanza, respectivamente pai e mulher de Amadé.
Depois de tantas estadas, é natural que me considerem um amigo. Como amigo, levo sempre uma lembrança (claro que adoram as queijadas de Sintra…) a sublinhar a relação duradoura que nos une. Cumpre esclarecer que St. Sebastian não é residência universitária, ainda que, entre os seus hóspedes, muitos estudantes se contem. Não queiram saber os jovens estudantes de música, de todo o Mundo, músicos, críticos, musicólogos que tenho encontrado, conhecido em St. Sebastian, relações que, felizmente, vou mantendo. Há grande informalidade, por exemplo, ao pequeno almoço, a altura propícia à troca de informação e de experiências.
Também não é um hotel. Vem a propósito referir que, durante alguns anos, até me ter decidido por esta casa, também eu era hóspede de um dos muitos hotéis da cidade. Todavia, por muito simpática que possa ser uma unidade hoteleira, o ambiente que se vive em St. Sebastian nada ou muito pouco tem para comparar. Mas a designação Institut é inequívoca. Trata-se de uma casa afecta à Igreja Católica Apostólica Romana que, em Salzburg, tem uma presença fortíssima.
A propósito, não vá algum jacobino militante ou irredutível ateu deixar-se cativar pelo meu testemunho de afecto a esta casa de Deus, ficando interessado em ali procurar abrigo, desde já fica feito o aviso: o melhor é não procurarem St. Sebastian já que a ostensiva presença dos crucifixos e de outros artefactos religiosos poderá gerar alguma alergia cutânea aos mais susceptíveis… Mas, não sendo esse o caso, apenas deixaria o conselho de pedirem um quarto afastado da torre sineira porque, com a igreja mesmo ao lado, depois das seis e meia da manhã, os toques podem incomodar. Enfim, em caso de necessidade, os tampões para os ouvidos não servem para outra coisa...
Quanto à viagem, o aeroporto Wolfgang Amadeus Mozart é o que serve a cidade. Mas não é a melhor opção para quem a demanda pela via aérea. A partir de Lisboa não há voos directos. Insistir em chegar a Sazburg por avião, implica fazer escala, por exemplo, em Palma de Maiorca, Paris, Amsterdam, Frankfurt, alternativa esta sempre mais dispendiosa do que a minha solução que, muito simplesmente, é a de voo directo para Munique e, a partir daí, o trajecto restante, por transfer.
Os cento e vinte quilómetros de automóvel entre a capital da Baviera e o destino final revelam-se como a melhor opção. Em relação a esta hipótese, a escala aérea implica em mais duas ou três horas. Como suplementar e grande atractivo, não só a possibilidade de viajar de carro através de uma deslumbrante paisagem, mas também de ser conduzido mesmo, mesmo até à porta. Para quem, como eu, é obrigado a acompanhar-se de muita bagagem, especialmente no Inverno, com a necessidade de bons abafos, não há nada mais cómodo e barato.
(continua)
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Como oportunamente informei, acabo de regressar de uma estada de quinze dias em Salzburg, onde participei na Mozartwoche, o festival de música que ali se realiza há mais de cinquenta anos, entre a última quinzena de Janeiro e os primeiros dias de Fevereiro, sempre aproveitando para comemorar a data de 27.01.1756, aniversário natalício de Mozart. Mais do que em qualquer outro momento, é nesta altura do ano em que tudo gira à volta o queridíssimo Amadé, como cada vez maior número de estudiosos e melómanos se lhe referem, respeitando o gosto do próprio compositor neste tratamento que, aliás, também foi seu modo de assinar.
Pois bem, para a inteligibilidade deste texto – que, além do preâmbulo supra, nada mais tem a ver com o festival – convém partilhar convosco a satisfação de pertencer ao cada vez mais reduzido grupo de mortais que pode dar-se ao luxo de viajar sem se fazer acompanhar da parafernália informática que alguns indefectíveis insistem em considerar indispensável à vida. A verdade é que, durante quinze e mais dias, consigo ir para qualquer lado sem o computador atrelado…
Sempre à minha custa, e após a ocorrência de alguns bem humorados episódios, que só maculam o meu cv, acabei por aprender que, com demasiada frequência, aquilo que apenas é interessante ferramenta para alguns trabalhos, inquinava, infectava e afectava algum do meu tempo, que só deixava de ser de paz e sossego, exactamente porque, invariavelmente, o computador suscita momentos de irritação, de impaciência, nada compatíveis com os objectivos que determinam as minhas ausências, nomeadamente, em locais onde procuro o benefício e o privilégio da Música, da Beleza e da Arte.
Portanto, sem computador estava eu, sem acesso a correio electrónico, sem poder publicar textos no sintradoavesso nem aqui intervir com quaisquer comentários. Enfim, na opinião de alguns familiares e amigos, personificava eu, naquela civilizadíssima Salzburg, o perfeito quadro do infeliz, desgraçado e desligado do mundo que, na minha diametralmente oposta opinião, mais coincide com a moldura do bem-aventurado eremita…
…Mas com telemóvel!
Tenham paciência. Estou quase a chegar ao assunto que hoje me traz ao vosso convívio. Entretanto, preciso é que me imaginem, a milhares de quilómetros de distância, no coração da Europa, reduzido à indigência comunicacional de um pré-histórico telemóvel Nokia, daqueles que custaram vinte e cinco tostões e que nem tiram fotografias… E, já agora, para disporem do quadro completo da minha capacidade (?!), ficarão também a saber que, só há pouco mais de um ano, a família mais chegada e um bom amigo me obrigaram a aprender a receber e enviar sms…
Pois, então, aí vem a história. Habituado que estou, apenas uma vez por dia, a telefonar para casa a perguntar as novidades, e, de viva voz, a saber como estão todos, num belo dia da semana passada, fui surpreendido, a meio da tarde, por um toque daqueles que assinalam a chegada de mensagem ao telemóvel. Como não é normal, fiquei preocupado. Parei imediatamente o trabalho de consulta que estava a fazer na Bibliotheca Mozartiana para aceder à mensagem.
Ora bem. Abençoados telemóveis! Em cima da hora, perfeitamente coincidente com o que estava a passar-se em Sintra, aparece-me um pequeno texto nos seguintes termos: “Pai, a Polícia Municipal já está a bloquear carros na nossa rua”. Era uma das minhas filhas que, tão preocupada como eu com os desmandos que sucedem em consequência do estacionamento caótico na zona da Estefânea onde moramos, que me queria dar a boa notícia da intervenção da Polícia Municipal. Finalmente, a força da ordem passava a actuar em força.
Ainda mal refeito da boa nova, eis que outra mensagem chegava, um quarto de hora mais tarde: “João, água mole em pedra dura… A Polícia Municipal bloqueia carros na Câmara Pestana. Como vês vale a pena insistir.” A minha mulher, desconhecendo que a filha já me havia informado, reforçava e congratulava-se. De facto, há anos que chamo a atenção, que escrevo e falo acerca do assunto sem qualquer resultado. Portanto, era caso para especial saudação e festejo.
O meu primeiro impulso foi o de mandar uma mensagem a felicitar a Comandante da Polícia Municipal. No entanto, contive-me. Melhor seria esperar uns dias para, uma vez regressado, confirmar se não teria sido só um passageiro fogo de vista.
Pois não senhor. A boa nova confirma-se mesmo e, por enquanto, a polícia continua a actuar como é seu dever, em benefício da comunidade. Ainda ontem, cá estava um automóvel de roda bloqueada na minha rua, mesmo de fronte do Olga Cadaval. E, apenas em dois dias, desde que voltei de Salzburg, já tive oportunidade de alertar condutores, que estavam prestes a prevaricar, para a eventualidade do bloqueio idêntico ao do carro imobilizado uns metros atrás. Perante os factos, ficam sem argumentos…
Ao regressar de uma cidade onde raríssimos são os comportamentos de desrespeito pelas normas vigentes relativas ao estacionamento, não posso deixar de manifestar esta satisfação. Vejo cumprir e fazer cumprir a Lei. Num Estado Democrático de Direito, isto não deveria constituir motivo para tanto regozijo. Infelizmente, em Sintra, por ser excepção, acaba por merecer este realce.
Como, por aqui, já tenho visto de tudo e, como em Sintra tudo é possível, por mais bizarro que se conceba, veremos se, ao mais alto nível da autarquia, não aparece alguém que desmotive a Senhora Comandante e os agentes da Polícia Municipal quanto aos resultados do bom serviço estão a dar aos cidadãos em geral e aos munícipes em particular...
PS:
Porque não se trata da primeira vez que abordo a questão das atitudes da Polícia Municipal ao serviço da comunidade, façam o favor de aceder aos textos precedentes, pelo menos, os mais recentes, publicados em 2 de Novembro e 18 de Outubro de 2010.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Tirar o chapéu a Manuel do Cabo
Goste-se ou não de algumas opiniões de Manuel do Cabo, o artigo que subscreveu na última edição do Correio de Sintra, na qualidade de Presidente da Associação Empresarial do Concelho de Sintra, justifica que se lhe tire o chapéu.
O texto espelha, com clareza, a involução do desenvolvimento sintrense, sem sombra de dúvida da responsabilidade dos autarcas que a têm gerido nos últimos 10 anos.
O facto de ter citado a criação de 700 novas empresas, sem também indicar as que fecharam, mas a cautela sobre o “cariz uni-familiar” de algumas, não desvaloriza o escrito.
Ao citar um conjunto de vertentes que se tornam apelativas aos investidores, não deixa de se referir ao “famigerado xadrez económico-financeiro do nosso concelho”.
Meditemos no sofrimento com que aborda a “fraca dedicação” que ao desenvolvimento empresarial é dado pelo Município de Sintra, o qual, na sua opinião “faz pouco para atrair investimentos”. Não podemos regatear-lhe solidariedade pela coragem.
Venderam-nos gato por lebre, falaram numa dedicação que antes nos empobrece e enche de indignação, justificando que um destes dias as populações se levantem e manifestem com veemência o seu protesto. No dia em que se ocupe o Largo Virgílio Horta, os responsáveis terão a visão do que os sintrenses são capazes.
A monstruosa grua junta da Bristol, sujando a paisagem, é o símbolo do que se passa no concelho, merecendo exibir um dedo que aponte os responsáveis. Nada justifica a falta de propostas para a solução, um pouco como a construção de um hotel em S. Pedro.
Enquanto regredimos, a Europa avança. Cidades limpas, com riquíssimo Património histórico como Colmar, Annecy, Bruges ou Dubrovnik (entre outras) enchem-se de esplanadas cujos lugares são disputados por milhares de visitantes e deixam boas receitas financeiras.
No largo fronteiro ao parlamento Suíço, em Berna, agricultores vendem, semanalmente, os seus produtos (não fica uma pétala no chão!), protegidos pelo governo que limita fortemente a importação desses bens. Imaginam semelhante actividade em frente do Palácio Nacional de Sintra? Que escândalo, num espaço para automóveis em dias especiais.
O centro histórico de Munique, a cidade mais rica da Alemanha, é ocupado por quiosques e bancas nos chamados “Mercados de Natal”, onde milhares e milhares de pessoas compram e confraternizam. Até no pátio interior da Rathaus (Câmara Municipal) se come, bebe e compra. E Sintra das vaidades? O retrato de uma ou outra figura a inaugurar uma série de luzes numa árvore.
Por cá, meia dúzia de pessoas, sobreviventes da época do Plano De Gröer (1949), conseguem travar o progresso, incapazes de perceber que, com arte e engenho, se responderia às dificuldades actuais, garantindo mais capacidade económica e postos de trabalho.
Diz, então, Manuel do Cabo: - “É Tempo de mudar”. Antes, tinha escrito que “temos todas as condições, mas também temos todos os obstáculos (…)”. Que triste sorte se abateu sobre Sintra…
As palavras foram tão claras que encosta à parede os mais altos responsáveis.
Com o devido respeito, mais uma vez se tira o chapéu a Manuel do Cabo.
Fernando Castelo
sábado, 29 de janeiro de 2011
A Sintra dos futebóis...
quase sem dedicação
Sintra, cuja prioridade autárquica deveria ser o desenvolvimento, corrigindo as carências mais prementes para o bem-estar colectivo, acaba por ser afectada – a uma cadência regular – por diferentes técnico-tácticas do entorpecimento.
Vive-se uma ansiedade deprimente, alimentada por medias estranhamente informados: - Vai, não vai? Avança ou recua? O futebol é que está a dar! O futebol está a ser utilizado para que fins? Para o quê? Porquê? Sintra correrá o risco de uma triste orfandade, perdendo quem tanto lhe prometeu mas pouco cumpriu?
Concomitantemente, expectativas escondidas estarão a alimentar blogues com campanhas e movimentos: - Para se ir embora temos de lhe reforçar o ego! Nasceu para aquilo! É o “Movimento”, é o “Queremos”, tudo a bem do futebol nacional. Alguém, talvez para ajudar ao empurrão, vai mais longe e, no Facebook, até aponta Belém. Futebol como empurrão para outros voos.
Fica-se sem capacidade de reacção, perante o risco da dedicação ser dividida ao meio: - Metade por cá, para garantir uns subsídios e metade por lá, é uma divisão que não deslustra. É salomónica e ajuda ao retrato, mesmo que seja só conversa.
Sintra, concelho usado como o mais populoso do País, poderá ser gerido a meio-tempo – futebolisticamente em duas partes – com uns fora-de-jogo pelo meio. Não será nada do outro mundo, melhor, dessa forma as desilusões por quase 10 anos de abstinência evolutiva ficarão reduzidas em 50%.
A ementa de feitos em prol do futebol é rica, bastando que a paciência nos valha para consultarmos o site da Câmara, essa cartilha democrática que publicita as boas acções enquanto que as propostas e opiniões da oposição parece que foram banidas(*).
Lá encontramos em 2009, o tal ano de eleições, contratos-programa (um com 245.000 euros para um campo de futebol) e apoios financeiros (mais 200.000 euros para um clube). Foram instaladas balizas. A 1ª Gala do Desporto de Sintra (única até hoje) para “atletas com marcas desportivas relevantes” na "época 2008/2009", agraciou um futebolista sem as ditas, mas que tinha sido convidado a candidato para uma Junta de Freguesia.
Claro que outras coisas foram noticiadas: - O Dia dos Avós (ternura que não se repetiu); o fantástico SATU para daqui a 10 anos; a cerimónia do lançamento da primeira (e única) pedra na fase 2 do campus da Católica; um subliminar “Óscar” de um actor que, por acaso, era presidente da comissão de honra da candidatura.
Enquanto se fazia propaganda avulsa, o número de desempregados no concelho de Sintra subiu de forma assustadora, registando em Dezembro de 2009 mais 2.926 do que em 2008 (17.362/13436). Em Dezembro de 2010 voltou a aumentar, agora para 17.965.
Em síntese, passados 10 anos sem políticas de desenvolvimento que incentivem a mais postos de trabalho, com dezenas de áreas clandestinas sem solução e tanto mais, falar de futebol é um óptimo serviço aos maus políticos. As fugas de informação (estilo escapadelas) funcionam como lebres da propaganda barata.
Foi nesta dedicação total que Sintra acreditou.
Fernando Castelo
(*) -Permitam os visitantes deste blogue que sugira uma visita ao site da Câmara Municipal de Sintra, entrando nas "DELIBERAÇÕES DA REUNIÃO DE CÂMARA", depois "Propostas Aprovadas" na reunião de 26 de Janeiro de 2011.
Notarão que, das 28 propostas aprovadas, 27 indicam explicitamente os subscritores. Apenas a primeira não faz essa indicação.
Pois bem, para que fique o registo, a Proposta para um Voto de Pesar pela morte do Coronel Vitor Alves, militar de Abril, foi apresentada pelo Partido Socialista.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
IMI : Um porquinho camarário
Noutros tempos, para incentivar à poupança, os pais davam aos filhos uns porquinhos onde depositavam as pequenas economias. Com entusiasmo, as crianças guardavam naquela barriga gorda as moedas de meio-tostão, de um cruzado (custo de um papo-seco) e, por altura de festas, uma coroa. Serviria para posteriores aplicações cuidadas, coisas necessárias.
Hoje, o conceito do porquinho, de cujo pecúlio se beneficiava, mas se sabia aplicar, foi completamente ultrapassado e substituído por impostos cuja aplicação, tantas vezes, deixa as mais sérias reservas.
Claro que o IMI e as novéis Taxas, passaram a ser os porquinhos camarários da nova vaga, sacando (pode dizer-se assim) o mais possível aos contribuintes, para depois pouco se saber da forma como serão gastos, não nos devendo esquecer de alcunhados investimentos como é o empenho na compra da Quinta do Relógio.
Sintra não escapa à visão que temos de quem nos governa, já que os autarcas da Coligação Mais Sintra, com a maioria absoluta conseguida, rapidamente passam de gestores da pobreza para sê-lo da riqueza, quando é preciso decidir sobre matérias tributáveis que lhes interessa.
Ao aprovarem as taxas máximas do IMI para 2011 (imposto criado por Ferreira Leite e PSD) – recusando uma proposta mais baixa do PS – pouco se preocuparam com o facto de isso agravar os encargos de milhares de agregados, nos quais vivem crianças que, amiúde, são invocadas quando é preciso dar uma imagem de bondade social.
É certo que a actualização do património está atribuída às Finanças, mas na verdade não se conhecem medidas a pressionar esses serviços para a rápida e completa avaliação do património edificado e rústico, de onde resultaria a equidade fiscal que permitiria a redução generalizada da taxa anual aplicável.
A injusta situação existente deveria merecer mais sensibilidade por parte dos autarcas se nisso tivessem interesse. Por um lado, incentiva aos terrenos abandonados em zonas urbanizadas, já que os proprietários têm na mira a valorização e, por outro, não contribui para a regularização de importantes áreas consideradas clandestinas.
Ao mesmo tempo, com o arrastar das avaliações previstas na Lei, é possível que em Condomínios Privados e Clubes de Campo se consiga pagar menos Imposto do que em vulgares habitações onde vivem famílias que se viram obrigadas a adquiri-las e sentem as maiores dificuldades em pagá-las. Tal como ao penalizador Imposto.
São, pois, em boa medida, as camadas mais débeis – onde se incluem os trabalhadores – que engordam as receitas camarárias, apesar de em nada terem contribuído para a crise que atravessamos.
Obviamente que, face à elevada receita, proveniente da taxa mais alta aplicada, o IMI é um determinante porquinho que alimenta os cofres camarários, mas nem por isso tal mealheiro se repercute em melhores condições de vida no concelho.
Fernando Castelo
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
o despudor à solta
Enxames de maus políticos têm chegado ao poder, isolando a acção dos poucos empenhados na causa pública. Esbarramos com charlatães, artistas nas promessas, gente de palavreado fácil e ilusório, esbanjadores de dinheiro (nosso) para objectivos (deles), bem distantes do bem-estar e desenvolvimento da sociedade.
A ânsia de poder não os inibe de se tornarem reles mentirosos compulsivos, disfarçando tendências de domínio com aparente generosidade pessoal ou de recorte social. A busca de protagonismo é proporcional à sua insignificância.
Uma desqualificada casta de trapaceiros chega a recorrer à citação fácil de palavras de gente ilustre, na vã tentativa de engrandecer a sua pobre imagem de ignorantes.
É vê-los. Em períodos curtos de vida activa (?), através de habilidades manhosas, alcançam chorudas pensões que, paradoxalmente, lhes são garantidas pelos descontos feitos durante quarenta e mais anos a uma maioria de trabalhadores.
Como a principal virtude de tal gente é mostrar-se para pressionar a ascensão política, dedicam-se com afinco ao planeamento da imagem, preparada ao ínfimo pormenor. Os erros, com custos inimagináveis, ficam para outros resolverem.
A progressiva degradação do país resulta de, em todos os quadrantes, surgirem vozes leoninas que logo amansam segundo os interesses, águias a querer voar mais alto do que o tamanho das asas, coelhos que fogem para as suas confortáveis tocas. São espécies conhecidas e não é que os seus objectivos sempre colidem com os da comunidade?
Não raro e, sempre que oportuno, há os que estão à coca de benesses legislativas das quais possam tirar vantagens, ainda que, sob o diáfano manto da aparência, cheguem a manifestar-se como opositores. Como exemplo, cite-se a Lei 55/2010, recentemente promulgada, cujo perfil, nesta época de crise, beneficiará os partidos em detrimento de quem trabalha. Ao que se saiba, nenhum partido recusou as benesses. Sintomático? Não. Apenas mais do mesmo...
Neste cenário, não admira a pobreza franciscana que se sente na actual campanha eleitoral, em que alguns candidatos, entre acusações mútuas, falam das idas ao cabeleireiro da consorte, gracejam (com mau gosto) sobre a utilidade das foices, misturam promessas como se em vias de formarem governo, mas não dizem o que fariam se eleitos Presidente da República.
Este o espelho do ponto negro a que chegámos, em que ao vilão basta ter um olho na testa e pés para se elevar na montra de candidato a qualquer coisa.
Tudo em nome da democracia. Que perversidade! O que seria com outro regime?!
Perante um quadro tão preocupante, como não transformar em imperativo nacional a inequívoca manifestação de repúdio pelos maus políticos que mantemos?
Será preciso esperar por mais evidências de incompetência e oportunismo?
Fernando Castelo
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
dias de fascínio
Como sempre acontece por esta altura, entre a última quinzena de Janeiro e primeira semana de Fevereiro, Salzburg é o meu poiso para assistir ao Mozartwoche, o mais importante dos festivais dedicados ao universo da música de Mozart. Durante estes dias, estou mergulhado num conjunto de dezenas de eventos, distribuídos por concertos sinfónicos e coral sinfónicos, música de câmara, ópera, música sacra, etc, que me mantêm no mais maravilhoso desassossego.
É um tempo em que a música acontece de manhã, à tarde e à noite, num tal quadro de solicitações que difícil é conjugar com as conferências, visionamento dos mais diferentes audiovisuais e suportes informáticos, lançamento de publicações e de edições discográficas, exposições de artes plásticas em inúmeras galerias e contacto com pessoas do maior interesse cultural que, além deste momento mozartiano tão forte, apenas tenho oportunidade de me relacionar mais uma ou duas vezes por ano.
É um privilégio enorme o facto de ser membro efectivo da Fundação Internacional do Mozarteum de Salzburg, onde tenho acedido a fontes documentais de indesmentível fascínio. Absolutamente excepcional é o caso do monumental acervo da Bibliotheca Mozarteana cuja directora, Prof. Geneviève Geffray, amiga pessoal de longa data, pontifica como autoridade de reconhecido gabarito a nível mundial e guardiã de tesouros inestimãveis.
Ando numa roda viva, é certo, mas tenho tempo para tudo o que me interessa, sem stress de qualquer ordem. Não dispenso os meus lugares de culto e, naturalmente, a Katholnigg, a mais célebre casa a vender discos nesta cidade austríaca que é Meca da música, onde conto com a especialíssima assistência da sua gerente, Astrid Rothauer, outra boa amiga a quem tanto devo e com quem tanto tenho aprendido.
A minha casa, em plena Linzer Gasse, é no Institut St. Sebastian, instalado num antigo convento do século dezassete. Quem conhece, sabe como é lugar central, sossegado e onde se pode conviver com músicos, melómanos, estudantes, gente de todos os cantos do mundo que, tal como eu, demandam este alojamento, sem qualquer hipótese de considerar outra alternativa. St. Sebastian é um vício que se entranhou.
Entre o Grande Auditório do Mozarteum ou na sua Wiener Saal, no Grosses Festspielhaus, na Haus für Mozart, na Catedral e noutras igrejas como a dos Franciscanos, St. Peter ou na da Universidade, na Grosse Aula, a música acontece com a melhor qualidade que é possível encontrar, assim concentrada, como só um grande festival permite. Como não sou rico, acreditem que renuncio a muita coisa, de facto não essencial, para poder frequentar este e outros festivais, como os de Bayreuth, Lucerna, Verona.
Imaginam a dificuldade que é regressar? Olhem, difícil não é perceber porquê...
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
omissões pouco honrosas
"(...) Toda aquela vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brasão rococó, as janelas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia estar-se deixando morrer voluntariamente naquela verde solidão-amuada com a vida, desde que dali tinham desaparecido as últimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas (...)"
(Os Maias)
À época em que faz de Sintra cenário parcial de Os Maias, era assim que Eça de Queiroz dava conta do estado de degradação a que chegara o Palácio de Seteais. Dói a alma só de imaginar a cena. E, muito naturalmente, como não sentir-nos reconfortados pelo caminho feito, desde então até à actualidade? Indubitavelmente que, entre muitos outros, o Palácio de Seteais é um notável caso de recuperação que cumpre evidenciar.
Entretanto, por assim acontecer, nada autoriza que devamos baixar a guarda, neste e nos outros locais em que os nossos bens patrimoniais classificados beneficiaram de obras de restauro e ou de preservação. Ora bem, para encurtar razões, é isso mesmo que está a acontecer na zona de Seteais. Estamos a deixar que gente pouco preocupada com os interesses da comunidade e, isso sim, apenas olhando para as suas próprias vantagens, desqualifiquem um local que nos é tão caro.
Deixámos que o concessionário do Palácio destruisse o tanque. Também parece que não sentimos a dor de nos ter sido vedado o acesso ao Penedo da Saudade. Agora, não vejo alguém de direito insurgir-se contra a instalação do picadeiro e colocação de placas comerciais nos pilares dos portões junto à estrada. Por outro lado, como tenho vindo a denunciar, mesmo em frente, na Quinta do Vale dos Anjos, continua o escândalo da construção de uma casa, só possível com a conivência de autoridades que deviam ter zelado pela preservação do espírito do lugar e, concomitantemente, em sintonia com o bem comum.
Estarão os sintrenses assim tão mal e num tão agudo estado de tabloidização dos quadros mentais que não reparam no que está mesmo debaixo dos olhos? Na falta de autarcas à altura da defesa destes lugares, deixam caír os braços como se isso fosse uma inevitabilidade? A sintonia dos responsáveis locais com as revistas cor de rosa, donde saem esses conhecidos fenómenos de género duvidoso, perturbaram assim tanto as gentes de Sintra que já não conseguem assestar as armas às lutas em defesa das suas riquezas culturais? Ou, muito simplesmente, será que estão nas tintas ou não sentem como seus esses mesmos bens?
Sejam quais forem as razões a montante, o mínimo que se pode afirmar é que correspondem a omissões muito comprometedoras e, por isso mesmo, nada honrosas. Aingem-nos a todos. A todos, sem excepção. Entretanto, mais cedo ou mais tarde, um dia virá em que, ainda estejamos por cá ou não, os nossos netos nos cobrarão esta atitude tão lamentável.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
que espírito para o lugar?
A mais recente ofensa ao espírito do lugar em Seteais relaciona-se com a instalação de um picadeiro. Acerca do caso, já eu me referi no texto Setais, que desassossego… [II], aqui publicado em 21 de Novembro de 2010. Ainda desconheço se, mais uma vez, o facto se deve a agressão do Grupo Espírito Santo, concessionário do hotel, continuando a profícua atitude de desrespeito que tem caracterizado a sua intervenção no espaço exterior, habituado que está a impor a vontade sem que, na defesa do interesse da comunidade, as autoridades reajam ao seu manifesto poder.
Também poderá ter sido fruto da actividade de alguma entidade à qual tenha sido outorgada autorização para o efeito através de subconcessão. De qualquer modo, muito me custa verificar que a empresa de capitais públicos Parques de Sintra Monte da Lua, representante dos interesses do Estado na relação com o concessionário, ainda não se tenha pronunciado quanto a este caso que, tão manifestamente, é razão para a perplexidade que suscita a qualquer preocupado observador.
Desta vez, o desplante chegou ao ponto de implantar um pavilhão coberto com oleado branco, cuja volumetria, em articulação com a casa das máquinas e lixo circundante, a poucas dezenas de metros do palácio, chega a impedir o avistamento do edifício classificado, em determinado ângulo de visão, junto à curva da estrada. Depois da destruição do tanque e da descaracterização de um lugar que funcionava em coerência com todo um dispositivo de lazer, agora agride-se com a montagem de um negócio cujo impacte é tão significativo.
Afirmar e marcar a propriedade
Estou em crer que, tal como já afirmei e sugeri em devido tempo, se impõe que, sem mais delongas, o Estado desenvolva uma inequívoca atitude de afirmação de propriedade daquela Quinta de Seteais e, nomeadamente, daquele estupendo terreiro arrelvado. Tal espaço, entre a estrada e a fachada do palácio, tão caro ao povo de Sintra, é nosso, desde que, há mais de duzentos anos, assim foi determinado.
Sendo nosso, justo é que o usufruamos em plenitude, sem constrangimentos e sem que tenhamos de sujeitar-nos às ofensas de quem, tão somente, não passa de um negociante autorizado a explorar o hotel durante um determinado período. Urge afirmar a propriedade do Estado numa área que – deixai passar o recurso ao pleonasmo – não estamos dispostos a conceder ao concessionário.
Para o efeito, nada de melhor me ocorre que não seja a promoção de uma atitude facilitadora do acesso à memória do lugar, ao espírito que ali se vive e à interpretação da Beleza ali suscitada. É imperioso montar um dispositivo de manifesto interesse e recorte cultural que permita ao visitante, que não é nem pretende ser hóspede do hotel, uma especial e específica relação com aquele espaço tão simbólico da ecléctica e tão sui generis atmosfera sintrense.
É assim que me permito voltar a partilhar convosco a ideia de seleccionar um significativo conjunto de textos de vária índole, cuja articulação, lógica e coerência interna, sempre respeitando o tema das afinidades implícitas e explícitas com o lugar, permitisse um convívio cúmplice e enriquecedor a quem escutasse a sua leitura. Tal leitura, a concretizar através de montagem audio, com adequado enquadramento musical, seria acessível através de gravador com auscultadores, semelhante aos disponíveis para as visitas aos museus.
Tal como, desde o início me ocorreu, continuaria a propor que se solicitasse a leitura sugestiva de tais textos a Maria de Jesus Barroso, Maria Germana Tânger e Maria Almira Medina, três mulheres de cultura, inequivocamente relacionadas com Sintra. Resta-me esperar que, uma vez de acordo com esta proposta, os leitores possam intervir, na justa medida das suas possibilidades, para que o projecto se concretize no contexto das actividades da Parques de Sintra Monte da Lua.
Contactem a PSML, lembrem ao Prof. António Ressano Garcia Lamas, seu Presidente do Conselho de Administração, a conveniência de promover a afirmação da propriedade. Não é que ele não o saiba e não esteja sensibilizado. Mas, como sabem, a visibilidade da vossa atitude de defesa dos interesses que ali se jogam só pode acrescentar razão à causa.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
ave de asa ferida?
A candidatura de Cavaco Silva seria assunto que, em princípio, jamais me mobilizaria para qualquer trabalho de reflexão. É, de facto, pessoa muito pouco interessante ainda que, logo como Ministro das Finanças de Sá Carneiro, mais tarde Primeiro Ministro e Presidente da República, se trate da figura institucional da vida política nacional mais responsável pelos caminhos ínvios que a democracia portuguesa passou a trilhar desde meados dos anos oitenta.
Parece algo paradoxal, como uma figura apagada, tão falha de carisma, desinteressante e inculta – ainda se lembram que revelou desconhecer quantos cantos tem Os Lusíadas e confundir Thomas More com Thomas Mann? – terá adquirido tal notoriedade. Muito provavelmente, a ignorância, a iliteracia, o geral atraso popular e do país acabarão por justificar esta saliência que jamais alcançaria noutra latitude mais desenvolvida.
De facto, foi a anunciada atitude do actual candidato, de se recusar responder a perguntas pertinentes relativas ao seu comportamento no passado recente, nomeadamente em relação à aquisição e venda das acções da SLN, que me deixou perplexo e até escandalizado, determinando-me à escrita destas linhas.
Na realidade, o que este senhor mais tem a fazer é explicar tudo muito bem explicadinho. Porque, meus amigos, o que este senhor pretende é continuar a representar-nos ao mais alto nível, a nós que lhe conferimos o poder bastante para o efeito, um poder que não é pouco na medida em que pode dissolver o Parlamento, ser o supremo magistrado da Nação e comandante supremo das Forças Armadas.
Se o que este senhor pretende é a continuação de um protagonismo político para o qual julga estar à altura, então, com toda a humildade democrática, o que tem a fazer é explicar aquilo que suscita dúvida aos eleitores. À partida para uma campanha eleitoral, num Estado Democrático de Direito, um candidato tem de ser tão impoluto como qualquer cidadão anónimo que nele poderá votar.
Voltemos ao negócio que carece de esclarecimento. Remonta ele a um período antes da eleição para o primeiro mandato como Presidente e, portanto, já nessa altura, se teria imposto que o Doutor Cavaco Silva tivesse esclarecido o que continua por elucidar. Reparem que, em relação a qualquer dos outros candidatos, nada de semelhante ocorre exigir. Todos se apresentam ao eleitorado com um passado impoluto, aliás como deve acontecer a quem tão alto aspira.
E, por outro lado, meus amigos, não basta ao Doutor Cavaco Silva dizer-se honesto. Agora, é preciso prová-lo inequivocamente. Portanto, provar que, ao comprar as acções, não beneficiou de um preço de favor e que, ao vende-las, não foi privilegiado por informação reservada. Tal como a Pompeia, mulher de César, não bastava ser honesta, já que também devia parecer, assim acontece com o candidato. E, já que invoco o que se passou em Roma cerca do ano 60 a.C., não esclarecerei se desejo ao candidato o ostracismo a que foi condenada a mulher do imperador…
Portanto, para já, e até evidência em contrário, só o Doutor Cavaco Silva tem um rabo de palha deste calibre. No entanto, nada me impede de admitir a reeleição do actual Presidente da República. Mas não deixa de ser curioso que, depois de toda esta controvérsia, isso já é algo que não tenho como tão certo como há umas semanas. Se os eleitores o obrigarem a uma segunda volta, tudo pode ficar em aberto, e até pode acontecer a vitória de Manuel Alegre.
De qualquer modo, seja ele reeleito, ficará sempre refém das palavras por dizer. Sobra-nos o direito a ouvir e que ele pretende calar. Manuel Alegre compara a eventualidade da reeleição com a ave de asa ferida que, portanto, jamais poderia voltar a voar normalmente. Eu acho que, neste caso, a comparação não foi feliz. É que o Doutor Cavaco Silva – e agora uso metáfora, não a comparação – nunca foi ave voadora. Quanto muito, de asas rudimentaríssimas, é uma pernalta, deselegante mas hábil no salto das barreiras que se lhe atravessarem à frente, mesmo que, para tanto, tenha de se ferir ligeiramente…