sexta-feira, 29 de abril de 2011
Festival de Sintra, 2011
- a bonança, depois da tempestade...
Após alguns anos de programação muito controversa que tive oportunidade de denunciar constante e sistematicamente, posso hoje anunciar as linhas mestras do Festival de Sintra de 2011, quase com dois meses de antecedência em relação ao primeiro evento. E, desde já vos afirmo que tenho as melhores razões para ser inequivocamente encomiástico.
Se bem se lembram, os meus mais veementes reparos referiam-se à desarticulação das iniciativas, com particular destaque para os designados contrapontos que, sem a mínima coerência ou lógica internas, propunham eventos desgarrados completamente avessos à ideia de Festival, enquanto proposta integrada, propícia ao desfrute de um produto global e enriquecedor do público destinatário.
Pois bem, dissiparam-se aquelas pesadas nuvens. O que trago à vossa consideração, talvez em primeira mão - por especial deferência do Dr. Mário João Machado, Vice-Presidente do Conselho de Administração da SintraQuorum e meu prezado amigo de longa data - é um bom e diversificado repositório de eventos, em geral, de qualidade irrepreensível, todos relacionados com duas efemérides do mais alto significado para o universo musical.
No ano em que comemoramos o bicentenário do nascimento de Franz Liszt e os cem anos da morte de Gustav Mahler, eis que o Festival de Sintra, encontrou o núcleo duro a partir do qual tudo se organiza, na devida harmonia, articulação, coerência e lógica. Concertos sinfónicos, Lieder, Música de Câmara, Conferências, Cinema, etc, vão fazer aalegria de todos os interessados, podendo constituir um conjunto de momentos altamente enriquecedores.
Não deixo de ficar espantado perante aquilo que à organização do Festival de Sintra, foi possível contratar numa altura de tanto aperto financeiro. Todavia, repito, não fico surpreendido com a qualidade das propostas que, aliás, nunca esteve em causa, inclusive nestes anos mais recentes de despautério programático.
Por hoje, deixo-vos com este bouquet de promessas. Para um dos próximos dias fica, então, a minha promessa de desfolhar o ramalhete, entrando nalgum pormenor mais ou menos aliciante, de um programa que tão caro me é pela referência a compositores a quem tanto devo, que me acompanham desde miúdo.
Vão por mim e, em tempo de crise, comecem já a pensar nos bilhetes embora se saiba que, em Sintra, o investimento pessoal, mesmo para uma assinatura, é coisa mesmo muito acessível que não carece de crédito especial na banca... Agora, atentem nos detalhes e, comigo, concluam quanto à razão e ao júbilo que me assistem.
FESTIVAL de SINTRA 2011
Sexta – 24 de Junho
21:30 Horas
Centro Cultural Olga de Cadaval
Conferência de abertura
Liszt e Mahler: os construtores da “música do futuro”
Rui Vieira Nery, musicólogo
______________________________
Sábado – 25 de Junho – Quarta – 29 de Junho
Palácio Nacional de Queluz
SÉRIE FRANZ LISZT
Leslie Howard, piano
Fernando Eldoro, maestro conductor *
Coro Gulbenkian *
* Artistas participantes no último recital da série featuring in the last recital of the series
Sábado – 25 de Junho
18:00/19:00 Horas
Recital 1 – Quatro Obras-Primas de Liszt
Grande Solo de Concerto, S.176
Variações sobre o motivo de J. S. Bach «Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen», S.180
Sarabanda e Chaconne sobre temas da ópera «Almira» de Händel, S.181
Scherzo e Marcha, S.177
21:30/23:00 Horas
Recital 2 – Liszt, o Franciscano Poeta Liszt
-Harmonias poéticas e religiosas, S.173, nºs 1 a 10
-Duas Lendas, S.175
-Deux légendes (Two Legends), S.175
-1. São Francisco de Assis: A Pregação aos Pássaros
-2. São Francisco de Paula caminhando sobre as ondas
Domingo – 26 de Junho
18:00/19:00 Horas
Recital 3 – Liszt, o Viajante Liszt
Anos de Peregrinação – Terceiro Ano: Itália, S.163
Romanceiro Espanhol, S.695c
21:30/23:00 Horas
Recital 4 – Liszt, o Nobre Virtuoso
-Quatre Valses oubliées, S.215
- Doze Estudos de Execução Transcendental, S.139 – Partes I e II
Segunda – 27 de Junho
21:30/23:00 Horas
Recital 5 – Liszt em Casa e na Ópera
-Weihnachtsbaum (Árvore de Natal), S.186
-Peça de Fantasia sobre Temas da ópera «Rienzi» de Wagner, S.439
-«Aida», dança sacra e dueto final: Transcrição para piano S.436
-Les adieux: «Rêverie» sobre um motivo da ópera «Romeu e Julieta» de Charles -Gounod, S.409
-Fantasia sobre Temas das óperas «Le nozze di Figaro» e «Don Giovanni» de Mozart, S.697
Terça 28 – de Junho
21:30/23:00 Horas
Recital 6 – Liszt, Bardo e Profeta
-Balada nº 1, em Ré bemol Maior, S.170
-Balada nº 2, em Si menor, S.171
-Regis prodeunt: Hino da Procissão da Cruz, S.185
-En rêve: Nocturno, S.207
-Insónia: Pergunta e Resposta (Nocturno sobre um poema de Toni Raab), S.203
-Nuvens Cinzentas, S.199
-Bagatela Sem Tonalidade, S.216a
-Rapsódias Húngaras XVI-XIX, S.244: nºs 16 a 19
-«Adelaide» de Beethoven: Transcrição para Piano (3ª versão), S.466iii
- Seis Melodias Favoritas de «La belle meunière» de Franz Schubert, S.565
- Canções Polacas de Chopin: Transcrição para Piano, S.480
- Sonhos de Amor: Três Nocturnos, S.541
Quarta – 29 de Junho
21:30/23:00 Horas
Recital 7 – Liszt, Deus e Mefistófeles Liszt, God and Mephistopheles
Com a participação de:
Coro Gulbenkian
Fernando Eldoro, maestro
-Fantasia e Fuga sobre o Tema B-A-C-H, S.529ii
-Dois Episódios do «Fausto» de Lenau, S.513a & 514
-Mefisto-Valsa nº 2, S.515
Sonata para Piano em Si menor, S.178
-«Via Crucis», para coro misto e piano, S.53
Quinta – 30 Junho
21:30 Horas
Palácio Nacional de Sintra
Quarteto Ehrlenbusch Michael Barenboim, 1º violino 1st violin
Petra Schwieger, 2º violino Madeleine Carruzo, viola
Timothy Park, violoncelo
Matan Porat, piano
Anton Webern (1883-1954)
Seis Bagatelas
Johannes Brahms (1833-1897)
Quarteto para Cordas nº 2 em Lá menor, op. 51 nº 2
Gustav Mahler (1860-1911)
Quarteto com Piano
-1904)
Quinteto com Piano em Lá Maior, op. 81
_____________________________
Sexta - 01 Julho
21:30 Horas
Palácio Nacional de Sintra
Ana Maria Pinto, soprano
Nuno Vieira de Almeida, piano
José Viana da Mota (1868-1948)
-Guter Rat (Bom conselho)
-Umflort, gehült in Trauern (Enevoado, envolto em tristeza)
-Ein Briefelein (Uma cartinha)
-Erfüllung (Realização)
-Canção perdida
-Amores, amores
-Lavadeira e caçador
Franz Liszt (1811-1886)
-Die Lorelei, S.273
-Und wir dachten der Toten (E pensávamos nos mortos), S.338
-Ihr Glocken von Marling (Os Sinos de Marling), S.328
-Du bist wie eine Blume (És como uma flor), S.287
-Vergiftet sind meine Lieder (São veneno as minhas canções), S.289
-Die drei Zigeuner (Os Três Ciganos), S.320
-Oh quand je dors (Oh quando durmo), S.282
-Einst (Outrora), S.332
-Ich möchte hingehen (Desejaria ir), S.296
-Der König in Thule (O Rei em Tule), S.278
Sábado – 02 Julho
21:30 Horas
Centro Cultural Olga de Cadaval – Auditório Jorge Sampaio
Orquestra Sinfónica Portuguesa
Julia Jones, maestrina conductor
Lilian Akopova, piano *
* Vencedora do 1º Premio do Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta 2010
Gustav Mahler (1860-1911)
Sinfonia nº 1 em Ré Maior, «Titã»
Franz Liszt (1811-1886)
Totentanz (Dança dos Mortos): Paráfrase sobre o «Dies Irae», S. 126
______________________________
Domingo - 03 Julho
17:00 horas
Quinta da Regaleira
Trio Bamberg
Robert Benz, piano
Jevgeni Schuk, violino
Alexander Hülshoff violoncelo
Franz Liszt (1811-1886) / Camille Saint-Saëns (1835-1921)
«Orfeu», poema sinfónico, S.98: transcrição para violino, violoncelo e piano
Camille Saint-Saëns (1835-1921)
Trio nº 1 em Fá Maior, para violino, violoncelo e piano, op. 18
Franz Schubert (1797-1828)
Trio em Mi bemol Maior, para violino, violoncelo e piano, op. 100, D. 929
Quinta 07 Julho
21:30 Horas
Palácio Nacional de Sintra
Manuel Araújo, piano *
* Prémio Vianna da Motta «Melhor Pianista Português» em 2010
César Franck (1822-1890) / Aquilles Delle Vigne (n. 1946)
Prelúdio, Fuga e Variação, op. 18
Franz Schubert (1797-1828)
Fantasia em Dó Maior, op. 15 (D. 760) «Wanderer»
Richard Wagner (1813-1983)
Sonata em Lá bemol Maior, WWV 85 (1853)
Richard Wagner (1813-1883) / Franz Liszt (1811-1886)
«A Morte de Amor» da ópera «Tristão e Isolde»: transcrição para piano
Franz Liszt (1811-1886)
Après une lecture du Dante (Após uma leitura de Dante), Fantasia quasi Sonata, de «Années de Pèlérinage», Ano II: Itália
_____________________________
Sábado 09 Julho
17:00 Horas
Quinta da Piedade
Octeto de Leipzig*
Markus Petsch, tenor
Stefan Genz, barítono
* E instrumentistas convidados
Gustav Mahler (1860-1911)
A Canção da Terra
Das Lied von der Erde
Domingo 10 Julho
21:30 Horas
Palácio Nacional de Queluz
Sequeira Costa, piano
José Vianna da Motta (1868-1948)
-Balada, op.16
-Cenas Portuguesas op. 9
-Cenas Portuguesas, op. 18, nº 2
-Malhão: Canção de Aveiro
-Cenas Portuguesas, op. 15 nº 2
-Adeus minha Terra
Franz Liszt (1811-1886)
-Bênção de Deus na Solidão, de «Harmonias Poéticas e Religiosas», S.173, nº 3
Au bord d'une source (À Beira de uma Fonte), de «Années de Pèlérinage», Ano I: Suíça
-Sposalizio (Casamento da Virgem Maria), de «Années de Pèlérinage», Ano II: -Itália
-São Francisco de Paula Caminhando sobre as Ondas, de «Duas Lendas», S.175
CONTRAPONTOS
(PROGRAMA PROVISÓRIO)
30 de Junho 19h00
Palácio Nacional de Sintra
Inês Ferro – Conferência
3 Julho 19h00
Centro Cultural Olga Cadaval
Liszt - Sonho de Amor (cinema)
Com apresentação de Carlos de Pontes Leça
4 Julho 21h00
Centro Cultural Olga Cadaval
Morte em Veneza (cinema)
Com apresentação de Carlos de Pontes Leça
4 Julho 21h30
Igreja de S. Martinho
Música Sacra Portuguesa – O Romantismo
Ensemble Vocal do Sintra Estúdio de Ópera
Direcção musical: Miguel Anastácio
Programa:
FRANCISCO DE SÁ NORONHA (1820-1881)
-Missa "para a Festa do Coração de Maria"
-Missa a Quatro Vozes
Solistas a designar
5 Julho 21h30
Igreja da Ulgueira
Perspectivas
Bruno Ribeiro (viola)
Joana Barata Lígia Madeira (piano)
1.ª parte
JOHANN KASPAR MERTZ
Elegia
FRANZ LIZST (arr. Bruno Ribeiro)
Liebesträume nº 2
GIULIO REGONDI
Introdução e Capricho
Bruno Ribeiro Viola dedilhada a solo
2.ª parte
L.V. BEETHOVEN (arr. C. Czerny)
Sinfonia “Heróica” em Mib M, op.55
FRANZ LISZT (arr. compositor)
Rapsódia Húngara nº16
Joana Barata e Lígia Madeira Piano a 4 mãos
6 Julho 21h30
Adega de Colares
Nova Criação – Companhia de Dança Contemporânea de Sintra
8 & 9 Julho 21h30
Palácio Nacional de Sintra
Um Auto de Gil Vicente, de Almeida Garret – Utopia Teatro
9 Julho 10h00 & 11h30
Quinta da Piedade
Concertos para Bebés
MAHLER E LISZT: DOIS AMIGOS COM OS BEBÉS
Um projecto de Paulo Lameiro
Convidada: Cristiana Francisco
Instrumento: Flauta Transversal
10 Julho 19h00
Palácio Nacional de Queluz
Luísa Cymbron Manuel Carlos de Brito – Conferência
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Volto já!
Depois de uma pequena interrupção para férias da Páscoa, voltarei dentro de uma semana. Desde já, ficam conhecendo os dois primeiros assuntos que partilharei convosco. Um tem a ver com o Festival de Sintra que, depois de alguns anos de polémica programação, volta a propor uma série de iniciativas do maior interesse, subordinadas a uma inequívoca unidade temática. O outro relaciona-se com o Chalet da Condessa e áreas circundantes que estão a ganhar nova vida.
Em ambos os casos, está em causa a defesa do património como singular caso de amor. Em diferentes mas complementares suportes culturais, eis que se recupera o património de Sintra para o devolver a quem merecer. A quem souber merecer, repito...
Depois de uma pequena interrupção para férias da Páscoa, voltarei dentro de uma semana. Desde já, ficam conhecendo os dois primeiros assuntos que partilharei convosco. Um tem a ver com o Festival de Sintra que, depois de alguns anos de polémica programação, volta a propor uma série de iniciativas do maior interesse, subordinadas a uma inequívoca unidade temática. O outro relaciona-se com o Chalet da Condessa e áreas circundantes que estão a ganhar nova vida.
Em ambos os casos, está em causa a defesa do património como singular caso de amor. Em diferentes mas complementares suportes culturais, eis que se recupera o património de Sintra para o devolver a quem merecer. A quem souber merecer, repito...
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Monte da Lua,
responsabilidade social
Numa terra onde tão poucos são os motivos de regozijo, a verdade é que, da Parques de Sintra Monte da Lua (PSML) continua a brotar o fluxo de boas notícias. É uma constante que, de vez em quando, me leva a partilhar convosco a satisfação de nos rendermos à evidência. Vamos, então, ao que, para mim, é o facto mais recente.
Desde já, vos direi que o acesso a este meu escrito estaria altamente facilitado se, no serão do passado domingo, os leitores tivessem assistido ao programa televisivo TVI Repórter. Na realidade, apesar de ninguém me ter alertado, ao tentar ser surpreendido por algo que me interessasse, tive a sorte de, ao saltar de canal, logo identificar imagens de cenários familiares. E, muito naturalmente, já dali não saí até terminar a reportagem.
Através de um trabalho escorreito, eficaz e sem rodriguinhos, o espectador acompanhou atitudes da PSML que, ao fim e ao cabo, são suscitadas pelos termos da responsabilidade social que determinadas empresas se obrigam relativamente à prática de acolhimento de trabalhadores com os mais diversos perfis de dificuldade de integração.
Por exemplo, veio a propósito o caso do protocolo de colaboração com a Direcção Geral dos Serviços Prisionais/Estabelecimento Prisional de Sintra, celebrado em 2007, que deu origem ao denominado projecto “Património Gera Inclusão” (PGI), compreendendo a selecção de reclusos por parte do EP Sintra, a formação para reforço das suas competências e, finalmente, a integração em equipas mistas de trabalho na PSML.
Há cerca de quatro anos, que o PGI tem sido uma extraordinária experiência de Responsabilidade Social e Ambiental, envolvendo nada mais nada menos que uma centena de reclusos em Regime Aberto ao Exterior (RAE) exercendo funções na PSML no âmbito da recuperação do Património Natural e Construído. Actualmente, vinte reclusos estão ao serviço na PSML em RAE – e, por favor, tomem nota – catorze ex-reclusos já trabalham com contrato na empresa.
Em Fevereiro de 2009, no âmbito dos Prémios Europeus de Iniciativa Empresarial, nada mais natural que, perante tão manifesta prova de capacidade empresarial neste específico domínio da reinserção social, o PGI tivesse sido distinguido, na fase nacional, com o primeiro lugar na categoria Iniciativa Empresarial Responsável e Inclusiva, e seleccionado para representar Portugal na final europeia.
Em Fevereiro de 2010, continuando ainda nesta vertente abrangida pelo Protocolo com a DGSP, iniciou-se a colaboração com o Estabelecimento Prisional de Tires, através da colocação na PSML de seis reclusas em RAE, nas áreas da jardinagem e da hotelaria, contribuindo para a não menos importante estratégia da igualdade de género.
Imparável...
Uma outra componente da intervenção, Património Reabilita, consiste na integração de pessoas com deficiência que, desde Abril de 2010, levou à criação de um centro de atendimento a visitantes, acolhendo três pessoas que, discreta e eficientemente, ali desenvolvem uma actividade a qual, tal como todas as anteriormente referidas, muito orgulha a PSML e todos os sintrenses que têm os olhos postos em tudo o que por ali se passa.
Como se tudo isto já não fosse absolutamente notável, meritório e tão gratificante, pois fiquem a saber que, ainda no âmbito do Património Reabilita, foi estabelecido um protocolo com Centro de Educação para o Cidadão Deficiente de Mira-Sintra visando a colocação de pessoas com deficiência, em actividades de jardinagem, nos jardins dos Parques da Pena e de Monserrate.
Exemplo de actividade enquadrada por este instrumento de colaboração, tem-se traduzido, desde Janeiro de 2011, na manutenção do Jardim Rainha D. Amélia, no Parque da Pena, assegurada por uma equipa de quatro pessoas com deficiência. E, demonstrando a dinâmica de toda esta iniciativa tão compósita, já foram iniciados mais dois estágios para jardineiros com deficiência nos jardins que tenho vindo a referir.
A PSML pretende vir a trabalhar, cada vez mais e com maior eficiência, na acessibilidade para todos, proporcionando uma fruição mais justa e solidária dos Parques Históricos de Sintra, através da criação de percursos mais acessíveis para pessoas com deficiência. É, de algum modo, a mesma lógica, a mesma estratégia a funcionar, em espaços onde o que se pretende é a integração de todos e, jamais, a exclusão seja de quem for.
Claro que, uma vez mais, a alma mater de tudo isto é o Prof. António Lamas. Como grande trunfo do sucesso que, ao longo dos últimos anos, a sua Administração vem evidenciando, conta ele com uma equipa de jovens técnicos, que tão bem soube incentivar, entre os quais se conta o Engº Jaime Ferreira, dando a cara pela Responsabilidade Social da PSML. Ao facultar-me a documentação imprescindível, foi Jaime Ferreira que, além do visionamento do TVI Repórter, me permitiu proporcionar-vos este texto. A ele, o meu e, espero bem, também o vosso reconhecimento.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
O caminho das pedras…
Finalmente, o governo decidiu apresentar o pedido de ajuda externa para saneamento das finanças públicas nacionais. Teimosa e demasiado perigosamente, até ao limite do insustentável, o Primeiro Ministro adiou a atitude que deveria ter sido concretizada muito, muito antes. Já há meses, os mais creditados economistas, de todos os quadrantes, afirmavam e confirmavam como este desfecho era previsível e inevitável, sendo constante o conselho de acelerar a decisão só agora tomada.
Não deixa de ser sintomático que o anúncio do Governo só tivesse sido feito na sequência de um insuportável ultimato dos mais importantes banqueiros nacionais que, cirurgicamente, foram debitando as suas impressões no contexto de entrevistas absolutamente determinantes e condicionadoras. Infelizmente, como tantas vezes aconteceu durante os governos liderados pelo agora demissionário José Sócrates, estivemos perante outra das suas declaradas faltas de sentido de oportunidade. Mais uma vez, não prestou o serviço que seria de esperar.
Neste fim de ciclo de governação, seria difícil acumular mais e constantes episódios de erro, trilhando caminhos ínvios, evidenciando a mais flagrante e completa baralhação. Em aperto financeiro que, dia após dia, ainda mais se degrada, desta vez, os cidadãos vão ser obrigados ao dispêndio de mais recursos que, afinal, teriam sido evitáveis se tivesse actuado a tempo, algo demasiado penoso, que comunidade alguma merece.
Verdade e esperança
Estou em crer que, só na sequência das diligências das comissões de negociadores internacionais, prestes a desembarcar em Lisboa, poderão os portugueses tomar definitivo e cabal conhecimento da calamidade das contas da nação, através da verdade que lhes tem vindo a ser sonegada e escamoteada. Quase perversamente, poder-se-ia deduzir que, quanto mais não fosse, por isto mesmo, já teria valido a pena solicitar a denominada ajuda externa…
Só o conhecimento da verdade poderá constituir alavanca para a mobilização cívica que se impõe como indispensável à eleição dos futuros deputados. É com base nessa mesma verdade que decorrerão as subsequentes negociações para a formação do Governo. E, não menos importante, será o conhecimento da verdade da situação que levará os cidadãos a aceitar os sacrifícios que lhes serão pedidos durante muitos anos.
Vezes sem conta, a maioria dos portugueses já ouviu afirmar que a comunidade nacional tem andado a viver muito acima das suas possibilidades. Todavia, esta asserção tão lúcida e sábia, não tem tido qualquer tradução minimamente expressiva ao nível da prática quotidiana. No entanto, finalmente, e sem margem para dúvida, agora não há outra solução que não passe pela rápida assunção geral da mudança de paradigma que está prestes a acontecer.
Viver de acordo com as possibilidades implica assumir a verdade de que este país ainda está muito aquém dos índices de desenvolvimento da média europeia, dentro e fora da zona euro, e que a superação das flagrantes desigualdades da distribuição da riqueza só será alcançável em conjugação com os ganhos da literacia, comuns nesta latitude de velho mundo culto e civilizado.
Por outro lado, a crédito de tudo quanto é suposto ter esperança, também se impõe considerar as potencialidades humanas e materiais, por explorar, para gerar a riqueza necessária à sustentabilidade dos compromissos. Este percurso para o desenvolvimento não se faz na facilidade da auto-estrada, antes exige a verdade de um caminho das pedras…
Finalmente, o governo decidiu apresentar o pedido de ajuda externa para saneamento das finanças públicas nacionais. Teimosa e demasiado perigosamente, até ao limite do insustentável, o Primeiro Ministro adiou a atitude que deveria ter sido concretizada muito, muito antes. Já há meses, os mais creditados economistas, de todos os quadrantes, afirmavam e confirmavam como este desfecho era previsível e inevitável, sendo constante o conselho de acelerar a decisão só agora tomada.
Não deixa de ser sintomático que o anúncio do Governo só tivesse sido feito na sequência de um insuportável ultimato dos mais importantes banqueiros nacionais que, cirurgicamente, foram debitando as suas impressões no contexto de entrevistas absolutamente determinantes e condicionadoras. Infelizmente, como tantas vezes aconteceu durante os governos liderados pelo agora demissionário José Sócrates, estivemos perante outra das suas declaradas faltas de sentido de oportunidade. Mais uma vez, não prestou o serviço que seria de esperar.
Neste fim de ciclo de governação, seria difícil acumular mais e constantes episódios de erro, trilhando caminhos ínvios, evidenciando a mais flagrante e completa baralhação. Em aperto financeiro que, dia após dia, ainda mais se degrada, desta vez, os cidadãos vão ser obrigados ao dispêndio de mais recursos que, afinal, teriam sido evitáveis se tivesse actuado a tempo, algo demasiado penoso, que comunidade alguma merece.
Verdade e esperança
Estou em crer que, só na sequência das diligências das comissões de negociadores internacionais, prestes a desembarcar em Lisboa, poderão os portugueses tomar definitivo e cabal conhecimento da calamidade das contas da nação, através da verdade que lhes tem vindo a ser sonegada e escamoteada. Quase perversamente, poder-se-ia deduzir que, quanto mais não fosse, por isto mesmo, já teria valido a pena solicitar a denominada ajuda externa…
Só o conhecimento da verdade poderá constituir alavanca para a mobilização cívica que se impõe como indispensável à eleição dos futuros deputados. É com base nessa mesma verdade que decorrerão as subsequentes negociações para a formação do Governo. E, não menos importante, será o conhecimento da verdade da situação que levará os cidadãos a aceitar os sacrifícios que lhes serão pedidos durante muitos anos.
Vezes sem conta, a maioria dos portugueses já ouviu afirmar que a comunidade nacional tem andado a viver muito acima das suas possibilidades. Todavia, esta asserção tão lúcida e sábia, não tem tido qualquer tradução minimamente expressiva ao nível da prática quotidiana. No entanto, finalmente, e sem margem para dúvida, agora não há outra solução que não passe pela rápida assunção geral da mudança de paradigma que está prestes a acontecer.
Viver de acordo com as possibilidades implica assumir a verdade de que este país ainda está muito aquém dos índices de desenvolvimento da média europeia, dentro e fora da zona euro, e que a superação das flagrantes desigualdades da distribuição da riqueza só será alcançável em conjugação com os ganhos da literacia, comuns nesta latitude de velho mundo culto e civilizado.
Por outro lado, a crédito de tudo quanto é suposto ter esperança, também se impõe considerar as potencialidades humanas e materiais, por explorar, para gerar a riqueza necessária à sustentabilidade dos compromissos. Este percurso para o desenvolvimento não se faz na facilidade da auto-estrada, antes exige a verdade de um caminho das pedras…
domingo, 3 de abril de 2011
Meias palavras,
meias tintas e troca-tintas
Logo que os partidos da oposição inviabilizaram a aprovação do PEC IV, o senhor Presidente da República não conseguiu ser suficientemente lesto e assertivo para impedir que se incorresse na situação que determinou a convocação de eleições legislativas antecipadas.
Não deixa de valer a pena trocar algumas impressões para confirmar - como se preciso fosse... - que o Senhor Presidente da República mantém uma atitude que não está à altura das gravíssimas circunstâncias em que a comunidade portuguesa mergulhou.
Em vez de ter sentado os líderes partidários à volta da mesa, não os deixando sair de conversações, tão longas quanto necessário, sem uma solução - ou, melhor, sem «a» solução - que mais interessaria ao país, preferiu uma atitude de estéril distanciamento.
Para todos os efeitos, este senhor não assume que é o Presidente de uma República cuja pauta constitucional é semipresidencialista. Este senhor porta-se como se o Parlamento o tivesse elegido, por via indirecta, como na Alemanha. Entre nós, o PR é eleito pelo povo, em sufrágio universal, exactamente para lhe permitir ser tão interventor quanto necessário nos momentos mais críticos.
Por outro lado, na crítica situação em que o país se encontra, na noite em que convocou eleições, não foi capaz de fazer o discurso mobilizador que o povo merece. No entanto, a verdade é que os portugueses até já perceberam que o PR, quando quer, sabe ser pertinente ou impertinente e contundente qb.
Basta lembrar o seu discurso de tomada de posse no passado dia 9 de Março... Se, naquela situação, mostrou não ser pessoa para meias palavras, que razão o determinou a não verbalizar as palavras inteiras que, ao anunciar a dissolução do Parlamento, era preciso atirar como pedras ao charco lodoso em que nos atolamos?
O PR está a sacudir a água do capote embora se encontre irremediavelmente comprometido, ele que, como órgão de soberania, tem tanta legitimidade e é tão indispensável como o Governo para encontrar a solução que se impõe. Estar à altura da situação não se compatibiliza com estas meias tintas.
Temos direito a coisa diferente. Temos direito à verdade da qual todos andam a fugir como o diabo da Cruz. E só com a verdade se pode mobilizar o povo para enfrentar os anos de sacrifício que já começaram. Entretanto, desde o Primeiro Ministro, passando pelo líder do maior partido da oposição e ao próprio Presidente da República, o que temos tido são meias palavras, meias tintas e atitudes de troca-tintas.
Estes senhores têm recusado o entendimento que a situação do país lhes exige. Infelizmente, apenas confirmam que não estão à altura de tanta exigência. Finalmente, também evidenciam - e de que maneira!... - que é demasiado tarde para ganharem a dimensão de estadistas que jamais tiveram...
meias tintas e troca-tintas
Logo que os partidos da oposição inviabilizaram a aprovação do PEC IV, o senhor Presidente da República não conseguiu ser suficientemente lesto e assertivo para impedir que se incorresse na situação que determinou a convocação de eleições legislativas antecipadas.
Não deixa de valer a pena trocar algumas impressões para confirmar - como se preciso fosse... - que o Senhor Presidente da República mantém uma atitude que não está à altura das gravíssimas circunstâncias em que a comunidade portuguesa mergulhou.
Em vez de ter sentado os líderes partidários à volta da mesa, não os deixando sair de conversações, tão longas quanto necessário, sem uma solução - ou, melhor, sem «a» solução - que mais interessaria ao país, preferiu uma atitude de estéril distanciamento.
Para todos os efeitos, este senhor não assume que é o Presidente de uma República cuja pauta constitucional é semipresidencialista. Este senhor porta-se como se o Parlamento o tivesse elegido, por via indirecta, como na Alemanha. Entre nós, o PR é eleito pelo povo, em sufrágio universal, exactamente para lhe permitir ser tão interventor quanto necessário nos momentos mais críticos.
Por outro lado, na crítica situação em que o país se encontra, na noite em que convocou eleições, não foi capaz de fazer o discurso mobilizador que o povo merece. No entanto, a verdade é que os portugueses até já perceberam que o PR, quando quer, sabe ser pertinente ou impertinente e contundente qb.
Basta lembrar o seu discurso de tomada de posse no passado dia 9 de Março... Se, naquela situação, mostrou não ser pessoa para meias palavras, que razão o determinou a não verbalizar as palavras inteiras que, ao anunciar a dissolução do Parlamento, era preciso atirar como pedras ao charco lodoso em que nos atolamos?
O PR está a sacudir a água do capote embora se encontre irremediavelmente comprometido, ele que, como órgão de soberania, tem tanta legitimidade e é tão indispensável como o Governo para encontrar a solução que se impõe. Estar à altura da situação não se compatibiliza com estas meias tintas.
Temos direito a coisa diferente. Temos direito à verdade da qual todos andam a fugir como o diabo da Cruz. E só com a verdade se pode mobilizar o povo para enfrentar os anos de sacrifício que já começaram. Entretanto, desde o Primeiro Ministro, passando pelo líder do maior partido da oposição e ao próprio Presidente da República, o que temos tido são meias palavras, meias tintas e atitudes de troca-tintas.
Estes senhores têm recusado o entendimento que a situação do país lhes exige. Infelizmente, apenas confirmam que não estão à altura de tanta exigência. Finalmente, também evidenciam - e de que maneira!... - que é demasiado tarde para ganharem a dimensão de estadistas que jamais tiveram...
quinta-feira, 31 de março de 2011
São rosas,
meus senhores…
Que espantosa tarde passei ontem em Monserrate! O pretexto – deixem-me assim referir o evento que, para Sintra, terá concitado a atenção da maioria dos media nacionais e estrangeiros – foi a visita a Monserrate de Suas Altezas Reais o Príncipe de Gales e Duquesa de Cornualha que, na sequência de um convite absolutamente genial, honrando tanto quem o formulou como os príncipes que, em tão boa hora aceitaram, vinham inaugurar um roseiral ali recentemente recuperado.
Bem, num país a braços com a crise que só Deus Nosso Senhor e nós é que sabemos, vivendo esta malvada situação que consome os melhores humores, energias e empenhos, digam-me lá se não acham estupendo que uma empresa e uma associação locais, respectivamente, a Parques de Sintra Monte da Lua e os Amigos de Monserrate, se tenham abalançado à concretização de um empreendimento de recuperação de património que culminaria com uma festa tão especial como a que ontem aconteceu?
Sem tentar condicionar a vossa resposta, responderei ter sido mesmo algo de grande sabedoria e sentido de oportunidade. E, por aquelas bandas da serra, como nada acontece por capricho, tenha-se em atenção o enquadramento do 29 de Março na felicíssima campanha de beneficiação que vem contemplando a generalidade dos sofisticados bens patrimoniais geridos pela PSML. Desta vez, o roseiral, do qual apenas havia a memória e leves vestígios.
Culminando um cuidadoso labor de investigação e de trabalho de campo, iniciado em 2008, ontem houve oportunidade de ler e interpretar os resultados obtidos pela equipa de projecto em que Gerald Luckhurst, o designer, Gonçalo Simões, gestor, e os jardineiros Nuno Oliveira, Pedro Martins e Timothy Stretton, se enterraram até ao pescoço, com tanto sucesso. Percorri os caminhos, cuidadosamente, fotografei o roseiral, nas suas primícias, porque quero registar a evolução deste canteiro de Monserrate, ao longo dos anos que me sobrarem.
Desvio pela Pena
Uma vez que aludi a esta equipa de projecto, forçoso é que recorde o espantoso palmarés de actuação do formidável grupo de técnicos que, sob orientação do Prof. António Lamas, nos está a devolver tantas jóias antes agonizantes e quase irremediavelmente perdidas. Mesmo que pretendesse ser muito sucinto, teria matéria para mais dois ou três escritos, em ambas as vertentes do património natural e edificado. Eu até nem gostaria de sair de Monserrate… Mas não consigo resistir à tentação de, mais uma vez, aludir os trabalhos em curso na Pena e, em especial, no Chalé da Condessa.
Aquele ninho de amor, que tanto nos diz, é objecto de uma obra de recuperação e restauro, ela própria um acto de grande amor à causa do edifício e das memórias agarradas, entranhadas naquelas paredes que tanto têm sofrido. Justíssimo o maior encómio ao trabalho de dois homens, Arq. José Maria Lobo de Carvalho e Engº Daniel Silva, que tenho a alegria de poder considerar bons amigos, cujo envolvimento e dedicação à obra são indescritíveis.
O que eles ali têm feito! Quantos obstáculos vencidos, quantas descobertas, quantas vitórias! Ah, se os sintrenses soubessem o que já estão a dever a esta gente! Mas, com toda essa gratidão em carteira, preparem-se os munícipes, os visitantes e amigos do património para o coroar de tanto empenho. Vem aí a inauguração do Chalé da Condessa. Se a minha sugestão puder ser aceite, já em 22 de Maio, aniversário da nossa querida Elise, teríamos a alegria de ver o resultado de tamanho desvelo. Que privilégio, a casa, os jardins à volta, os caminhos, tudo devolvido à vida!
O milagre de Monserrate
Enfim, o que foi sonho, ali está, bem real. Mas, como não devo deter-me neste desvio da Pena, eis que já estou de volta a Monserrate e, de novo, à tarde de ontem. Afinal, e tão prodigamente, o que por aqui contemplo, observo e continuo a experimentar, é o resultado da mesma linguagem de sinais, valores e princípios, que animam e estão presentes em todo o trabalho da PSML. Pois bem, ao voltar eis-me na companhia de mais amigos da Monte da Lua.
O Engº Jaime Ferreira, com o «seu» Património Gera Inclusão (PGI), intervenção acerca da qual escreverei em próxima oportunidade, a Dra. Ana Oliveira Martins (que boa conversa sobre os maçons Mozart e Haydn!) e a Arq. Luísa Cortesão, animadíssimas e sempre testemunhando o privilégio enorme que é trabalhar nesta casa, os administradores Drs. Manuel Baptista e João Lacerda Távares, gentis até mais não poder ser, dando-me conta de novas ideias e projectos sempre fervilhando…
Tratado principescamente – nesta tarde, com a presença das reais pessoas, seria difícil empregar advérbio mais a propósito – percebem porque tão bem me sinto em Monserrate? Ontem, porém, para além daqueles amigos, ainda contei com a vespertina e fraternal cumplicidade de João Rodil e Fernando Morais Gomes. A Filipe Schönborn, ouvi mais uma curiosa, musical e veneziana história de amor, em que a senhora sua avó, a marquesa Dona Olga, também espreitava de soslaio.
Pela primeira vez, e, já não era sem tempo, pude trocar impressões com o Arq. António Nunes Pereira, novo Director do Palácio da Pena, que me impressionou muito especial e vivamente. Fiquei a saber que, lá no alto da Serra, continua a pensar-se na definitiva solução para todos os assuntos que nos preocupam. Claro que falámos do estacionamento, do acesso a pé, pois claro, no transporte hipomóvel que, tão bem como eu, ele conhece de Neuschwanstein, também da vocação naturalmente equestre da abegoaria e sei lá que mais. Com a corda que estávamos, ainda hoje continuaríamos de conversa…
Toda a gente estava muito entusiasmada com Suas Altezas. Com notável informalidade, humor e afabilidade, desdobraram-se em considerações, interessando-se por tudo e mais alguma coisa. Julgo poder traduzir a geral e imensa pena de não poder assistir-se à plantação das duas roseiras, no próprio roseiral, ao fundo e à direita do famoso relvado, local onde, inicialmente, era suposto que a cerimónia acontecesse. Indicações protocolares, de última hora, determinaram que a manobra de jardinagem, em dois vasos, acontecesse cá em cima, perto da porta principal do palácio.
Paciência. Nada está perdido. É só deixar que alguns meses passem. Não virá longe o dia em que, acompanhado pelo Arq. Gerald Luckhurst e jardineiro-geral Tim Stretton, debruçando-se sobre os botões prestes a despontar, o Prof. António Lamas anunciará solene e vitoriosamente: - São rosas, meus senhores! E, sabe-se lá, tal como ontem foi acontecendo, tão requintadamente, também então, talvez se ouçam as trompas, graves e nobres, sublinhando o suave milagre primaveril…
PS:
Pareceu-me que o Presidente Fernando Seara estava muito satisfeito. Não era caso para menos. Raras vezes, tão feliz e oportuna, acabou por se revelar uma visita de Estado, ao mais alto nível, que – não sei como definir, senti-o, talvez quase intuitivamente – terá contribuído para desanuviar o ambiente. Bom seria aproveitar a onda e fazer como proclamava São Francisco de Assis “(…) onde houver discórdia, que eu leve a união (…) onde houver tristeza, que eu leve a alegria (…)”
meus senhores…
Que espantosa tarde passei ontem em Monserrate! O pretexto – deixem-me assim referir o evento que, para Sintra, terá concitado a atenção da maioria dos media nacionais e estrangeiros – foi a visita a Monserrate de Suas Altezas Reais o Príncipe de Gales e Duquesa de Cornualha que, na sequência de um convite absolutamente genial, honrando tanto quem o formulou como os príncipes que, em tão boa hora aceitaram, vinham inaugurar um roseiral ali recentemente recuperado.
Bem, num país a braços com a crise que só Deus Nosso Senhor e nós é que sabemos, vivendo esta malvada situação que consome os melhores humores, energias e empenhos, digam-me lá se não acham estupendo que uma empresa e uma associação locais, respectivamente, a Parques de Sintra Monte da Lua e os Amigos de Monserrate, se tenham abalançado à concretização de um empreendimento de recuperação de património que culminaria com uma festa tão especial como a que ontem aconteceu?
Sem tentar condicionar a vossa resposta, responderei ter sido mesmo algo de grande sabedoria e sentido de oportunidade. E, por aquelas bandas da serra, como nada acontece por capricho, tenha-se em atenção o enquadramento do 29 de Março na felicíssima campanha de beneficiação que vem contemplando a generalidade dos sofisticados bens patrimoniais geridos pela PSML. Desta vez, o roseiral, do qual apenas havia a memória e leves vestígios.
Culminando um cuidadoso labor de investigação e de trabalho de campo, iniciado em 2008, ontem houve oportunidade de ler e interpretar os resultados obtidos pela equipa de projecto em que Gerald Luckhurst, o designer, Gonçalo Simões, gestor, e os jardineiros Nuno Oliveira, Pedro Martins e Timothy Stretton, se enterraram até ao pescoço, com tanto sucesso. Percorri os caminhos, cuidadosamente, fotografei o roseiral, nas suas primícias, porque quero registar a evolução deste canteiro de Monserrate, ao longo dos anos que me sobrarem.
Desvio pela Pena
Uma vez que aludi a esta equipa de projecto, forçoso é que recorde o espantoso palmarés de actuação do formidável grupo de técnicos que, sob orientação do Prof. António Lamas, nos está a devolver tantas jóias antes agonizantes e quase irremediavelmente perdidas. Mesmo que pretendesse ser muito sucinto, teria matéria para mais dois ou três escritos, em ambas as vertentes do património natural e edificado. Eu até nem gostaria de sair de Monserrate… Mas não consigo resistir à tentação de, mais uma vez, aludir os trabalhos em curso na Pena e, em especial, no Chalé da Condessa.
Aquele ninho de amor, que tanto nos diz, é objecto de uma obra de recuperação e restauro, ela própria um acto de grande amor à causa do edifício e das memórias agarradas, entranhadas naquelas paredes que tanto têm sofrido. Justíssimo o maior encómio ao trabalho de dois homens, Arq. José Maria Lobo de Carvalho e Engº Daniel Silva, que tenho a alegria de poder considerar bons amigos, cujo envolvimento e dedicação à obra são indescritíveis.
O que eles ali têm feito! Quantos obstáculos vencidos, quantas descobertas, quantas vitórias! Ah, se os sintrenses soubessem o que já estão a dever a esta gente! Mas, com toda essa gratidão em carteira, preparem-se os munícipes, os visitantes e amigos do património para o coroar de tanto empenho. Vem aí a inauguração do Chalé da Condessa. Se a minha sugestão puder ser aceite, já em 22 de Maio, aniversário da nossa querida Elise, teríamos a alegria de ver o resultado de tamanho desvelo. Que privilégio, a casa, os jardins à volta, os caminhos, tudo devolvido à vida!
O milagre de Monserrate
Enfim, o que foi sonho, ali está, bem real. Mas, como não devo deter-me neste desvio da Pena, eis que já estou de volta a Monserrate e, de novo, à tarde de ontem. Afinal, e tão prodigamente, o que por aqui contemplo, observo e continuo a experimentar, é o resultado da mesma linguagem de sinais, valores e princípios, que animam e estão presentes em todo o trabalho da PSML. Pois bem, ao voltar eis-me na companhia de mais amigos da Monte da Lua.
O Engº Jaime Ferreira, com o «seu» Património Gera Inclusão (PGI), intervenção acerca da qual escreverei em próxima oportunidade, a Dra. Ana Oliveira Martins (que boa conversa sobre os maçons Mozart e Haydn!) e a Arq. Luísa Cortesão, animadíssimas e sempre testemunhando o privilégio enorme que é trabalhar nesta casa, os administradores Drs. Manuel Baptista e João Lacerda Távares, gentis até mais não poder ser, dando-me conta de novas ideias e projectos sempre fervilhando…
Tratado principescamente – nesta tarde, com a presença das reais pessoas, seria difícil empregar advérbio mais a propósito – percebem porque tão bem me sinto em Monserrate? Ontem, porém, para além daqueles amigos, ainda contei com a vespertina e fraternal cumplicidade de João Rodil e Fernando Morais Gomes. A Filipe Schönborn, ouvi mais uma curiosa, musical e veneziana história de amor, em que a senhora sua avó, a marquesa Dona Olga, também espreitava de soslaio.
Pela primeira vez, e, já não era sem tempo, pude trocar impressões com o Arq. António Nunes Pereira, novo Director do Palácio da Pena, que me impressionou muito especial e vivamente. Fiquei a saber que, lá no alto da Serra, continua a pensar-se na definitiva solução para todos os assuntos que nos preocupam. Claro que falámos do estacionamento, do acesso a pé, pois claro, no transporte hipomóvel que, tão bem como eu, ele conhece de Neuschwanstein, também da vocação naturalmente equestre da abegoaria e sei lá que mais. Com a corda que estávamos, ainda hoje continuaríamos de conversa…
Toda a gente estava muito entusiasmada com Suas Altezas. Com notável informalidade, humor e afabilidade, desdobraram-se em considerações, interessando-se por tudo e mais alguma coisa. Julgo poder traduzir a geral e imensa pena de não poder assistir-se à plantação das duas roseiras, no próprio roseiral, ao fundo e à direita do famoso relvado, local onde, inicialmente, era suposto que a cerimónia acontecesse. Indicações protocolares, de última hora, determinaram que a manobra de jardinagem, em dois vasos, acontecesse cá em cima, perto da porta principal do palácio.
Paciência. Nada está perdido. É só deixar que alguns meses passem. Não virá longe o dia em que, acompanhado pelo Arq. Gerald Luckhurst e jardineiro-geral Tim Stretton, debruçando-se sobre os botões prestes a despontar, o Prof. António Lamas anunciará solene e vitoriosamente: - São rosas, meus senhores! E, sabe-se lá, tal como ontem foi acontecendo, tão requintadamente, também então, talvez se ouçam as trompas, graves e nobres, sublinhando o suave milagre primaveril…
PS:
Pareceu-me que o Presidente Fernando Seara estava muito satisfeito. Não era caso para menos. Raras vezes, tão feliz e oportuna, acabou por se revelar uma visita de Estado, ao mais alto nível, que – não sei como definir, senti-o, talvez quase intuitivamente – terá contribuído para desanuviar o ambiente. Bom seria aproveitar a onda e fazer como proclamava São Francisco de Assis “(…) onde houver discórdia, que eu leve a união (…) onde houver tristeza, que eu leve a alegria (…)”
sexta-feira, 25 de março de 2011
Sócrates,
um problema do PS,
um obstáculo nacional
Sem pretender alimentar quaisquer polémicas estéreis - muito menos, a nível local, com amigos que são militantes do PS, que bem conhecem o meu posicionamento de independente de esquerda - não poderei deixar de opinar acerca das dificuldades de equacionar soluções para a crítica situação do país, dificuldades suscitadas pelas controversas atitudes de liderança política de José Sócrates.
Considero-me entre aqueles que, neste momento tão difícil da vida política nacional, teriam preferido que o Secretário-Geral do PS fizesse uma fria análise sobre o seu próprio protagonismo na condução dos negócios da República nos últimos anos.
Em função das dificuldades que a sua própria personalidade determina ao exercício dessa reflexão, seria de esperar que algumas figuras de destaque da Comissão Política Nacional, do Secretariado, enfim, de todos os órgãos colegiais do PS, ajudassem Sócrates a concluir que os serviços por ele prestados ao partido e ao país fazem parte de um ciclo que terminou com o dealbar dos acontecimentos que se precipitaram na semana em curso.
O que me parece é que, infelizmente, José Sócrates não tem, em seu redor, amigos políticos, amigos tout court, familiares, que o ajudem no caminho para a lucidez, sempre tão necessária e determinante em momentos cruciais da vida individual de um lider. Assim sendo, perturbado com as luzes de uma ribalta às quais se habituou e que, fatalmente, hão-de acompanhá-lo até ao desenlace, próximo ou mais longínquo, que jamais será fulgurante, José Sócrates não entende as vozes de quem - em minha opinião, com justeza - o consideram como peça impeditiva da resolução mais expedita da situação criada.
O PS continua com legitimidade democrática, decorrente das últimas eleições legislativas, para ser governo e liderar alternativas de governo. Julgo não errar ao considerar que as oposições, nomeadamente à direita, não deixariam de reflectir na hipótese de acolherem favoravelmente uma alternativa de liderança PS, apontando este um outro nome como futuro PM, na sequência da questão que, inevitavelmente, o PR não deixará de colocar ao próprio PS.
Temos assistido, tantas vezes dolorosamente, à impossibilidade de entendimento entre governo e oposição devido a dificuldades de entendimento pessoal. Repito e sublinho, em resultado de dificuldades de entendimento pessoal. Com outro PM, geralmente respeitado e, de si mesmo, inequivocamente respeitável, não poderia suscitar-se outra solução, inequivocamente benéfica para toda a comunidade nacional?
Não dispõe o PS de figuras respeitadas e respeitáveis, que poderiam protagonizar a liderança que se impõe e manter o partido mais votado no exercício do poder, através de soluções de compromisso com os outros partidos? Então, entre outros, António Vitorino, António Costa, Manuel Maria Carrilho, Ana Gomes, não poderiam ser indigitados para o serviço de que o país deles poderia esperar em substituição de um Sócrates tão desgastado e, infelizmente, tão pouco respeitado, tanto pela classe política como pelos cidadãos em geral?
Claro que sim. Todavia, em Portugal, este tipo de solução ainda não faz parte do leque de alternativas que, noutras latitudes, são encaradas como normais, praticáveis, equacionáveis, operacionais e, acima de tudo, civilizadas.
um problema do PS,
um obstáculo nacional
Sem pretender alimentar quaisquer polémicas estéreis - muito menos, a nível local, com amigos que são militantes do PS, que bem conhecem o meu posicionamento de independente de esquerda - não poderei deixar de opinar acerca das dificuldades de equacionar soluções para a crítica situação do país, dificuldades suscitadas pelas controversas atitudes de liderança política de José Sócrates.
Considero-me entre aqueles que, neste momento tão difícil da vida política nacional, teriam preferido que o Secretário-Geral do PS fizesse uma fria análise sobre o seu próprio protagonismo na condução dos negócios da República nos últimos anos.
Em função das dificuldades que a sua própria personalidade determina ao exercício dessa reflexão, seria de esperar que algumas figuras de destaque da Comissão Política Nacional, do Secretariado, enfim, de todos os órgãos colegiais do PS, ajudassem Sócrates a concluir que os serviços por ele prestados ao partido e ao país fazem parte de um ciclo que terminou com o dealbar dos acontecimentos que se precipitaram na semana em curso.
O que me parece é que, infelizmente, José Sócrates não tem, em seu redor, amigos políticos, amigos tout court, familiares, que o ajudem no caminho para a lucidez, sempre tão necessária e determinante em momentos cruciais da vida individual de um lider. Assim sendo, perturbado com as luzes de uma ribalta às quais se habituou e que, fatalmente, hão-de acompanhá-lo até ao desenlace, próximo ou mais longínquo, que jamais será fulgurante, José Sócrates não entende as vozes de quem - em minha opinião, com justeza - o consideram como peça impeditiva da resolução mais expedita da situação criada.
O PS continua com legitimidade democrática, decorrente das últimas eleições legislativas, para ser governo e liderar alternativas de governo. Julgo não errar ao considerar que as oposições, nomeadamente à direita, não deixariam de reflectir na hipótese de acolherem favoravelmente uma alternativa de liderança PS, apontando este um outro nome como futuro PM, na sequência da questão que, inevitavelmente, o PR não deixará de colocar ao próprio PS.
Temos assistido, tantas vezes dolorosamente, à impossibilidade de entendimento entre governo e oposição devido a dificuldades de entendimento pessoal. Repito e sublinho, em resultado de dificuldades de entendimento pessoal. Com outro PM, geralmente respeitado e, de si mesmo, inequivocamente respeitável, não poderia suscitar-se outra solução, inequivocamente benéfica para toda a comunidade nacional?
Não dispõe o PS de figuras respeitadas e respeitáveis, que poderiam protagonizar a liderança que se impõe e manter o partido mais votado no exercício do poder, através de soluções de compromisso com os outros partidos? Então, entre outros, António Vitorino, António Costa, Manuel Maria Carrilho, Ana Gomes, não poderiam ser indigitados para o serviço de que o país deles poderia esperar em substituição de um Sócrates tão desgastado e, infelizmente, tão pouco respeitado, tanto pela classe política como pelos cidadãos em geral?
Claro que sim. Todavia, em Portugal, este tipo de solução ainda não faz parte do leque de alternativas que, noutras latitudes, são encaradas como normais, praticáveis, equacionáveis, operacionais e, acima de tudo, civilizadas.
quinta-feira, 24 de março de 2011
Pela Correnteza [II]
(conclusão)
Na sequência do prometido, continuemos pela Correnteza. Do texto aqui publicado no passado dia 20, não posso deixar de recuperar a sua linha de força inicial, se bem lembrados estão, relativa à pouca higiene e ao geral descuido a que está votada tão nobre varanda. Na circunstância, a responsabilidade atribuível tanto pode remeter-se à Junta de Freguesia de Santa Maria e São Miguel como à própria Câmara Municipal de Sintra.
No entanto, apesar de tão evidente manifesto daquilo que tenho apelidado como a proverbial e bem sintrense cultura do desleixo, de tal modo a Correnteza se impõe como plataforma de lazer, propícia ao desfrute da paisagem envolvente, que, oportuna e muito naturalmente, acabou por ser escolhida como sofisticado enquadramento da Biblioteca Municipal de Sintra. O seu projecto de construção implicou na íntima articulação com o edifício inicial, a Casa Mantero, simultaneamente recuperada após longas décadas de agonia degradante.
Não vos tinha eu informado que abordaria o caso de um café por ali instalado? Pois então, é precisamente no rés-do-chão deste singular palacete que funciona o café-bar e esplanada da biblioteca. Não me detendo em rodeios, e sem a mais pequena hesitação, desde já vos afirmo que tais instalações, de atroz banalidade, estão longe de se adequar ao enorme privilégio de um dos mais exclusivos miradouros da Vila de Sintra.
Com uma situação estupenda, dali se alcançando um horizonte de estonteante beleza, constantemente renovado pelo cromatismo sazonal, suposto seria que merecesse a melhor atenção dos responsáveis autárquicos, nomeadamente do sector do turismo. Infelizmente, tal não aconteceu. Para todos os efeitos, o que ali funciona é, tão somente, um incaracterístico ponto de apoio aos utentes da biblioteca, análogo a qualquer barzito. Todavia, para evitar equívocos, gostaria de sublinhar que nada há de ofensivo.
Creio que, em suma, valerá a pena equacionar um destino perfeitamente adequado, de tal modo que o café-bar e esplanada possam operar de acordo com a dignidade do enquadramento. Ainda um reparo final relativo ao horário de funcionamento que, salvo melhor opinião, deveria ser considerado independente do regime da biblioteca. Então os formidáveis entardeceres e noites estivais? E os domingos do Senhor, ali, depois da Santa Missinha?
Dá Deus nozes a quem não tem dentes… É verdade! É o que apetece repetir e voltar a repetir. De facto, mais alguma vez, terá sido o provérbio conjugado tão a propósito?
terça-feira, 22 de março de 2011
A crise e a verdade
Não deixa de ser espantoso como a medíocre classe política portuguesa, devidamente acolitada por toda uma comunicação social deficientemente habilitada, insistem na ideia de que estamos a caminho de uma estúpida e evitável crise política que em nada beneficia e, muito pelo contrário, ainda piora o estado da nação.
Como é possível persistir na promoção de tal ideia, como se Portugal já não estivesse mergulhado numa tremenda crise política, como se Portugal não estivesse em declarada bancarrota, vivendo há não sei quanto tempo do auxílio externo o qual, em tempos mais recentes, se tem traduzido na sistemática compra de dívida pelo Banco Central Europeu...
Não percebo como, de uma vez por todas, não se assume que, em grande medida, a salvação do país passa pela adopção de uma estratégia afim da economia de guerra, nos termos da qual não há possibilidade de incurso no mínimo desperdício. Por outro lado, estou convencido de que a montante de todo este imbróglio, há uma questão de verdade oculta, que se impõe agarrar inequivocamente, verdade que ainda nos há-de surpreender com o conhecimento de horrorosos buracos orçamentais que, através de habilidades de toda a natureza e feitio, têm sido subtraídos ao controlo dos cidadãos.
Estou em crer que muita da atitude de recusa formal em solicitar a ajuda externa mais consentânea com a situação das finanças nacionais se relaciona, precisamente, com a necessidade de ocultar a geral incompetência e, inclusive, algumas barbaridades de gestão, declaradamente criminosa, que conduziram à situação em que se encontra o país.
A mentira também tem um limite. Geralmente apáticos, habituados a tanta iniquidade, os cidadãos só se mobilizarão para os ainda mais dolorosos desafios que têm de enfrentar e superar se, finalmente, olhos nos olhos e sem subterfúgios, entenderem quem estiver disposto a dizer toda a verdade, doa a quem doer. E, por favor, entendam bem que não estou sequer a insinuar tratar-se do chefe do partido da oposição.
Sofrer pela verdade
A verdade, a decência e a ética, que são indissociáveis da vida política, determinam que não mais se adie o que é imperioso seja feito de imediato, ou seja, devolver ao povo a palavra determinante que lhe assiste no sentido de decidir o modo como pretende ver assegurado o governo da República, com que protagonistas e com que objectivos.
A grande maioria dos portugueses, que não milita em partidos mas está atenta à gestão da coisa pública e anseia pela possibilidade de contribuir para uma vida cívica de qualidade - numa polis despoluída de politiqueiros de terceira categoria - só pode congratular-se com a hipótese de poder denunciar e, pelo menos, de ver denunciadada alguma da porcaria infecta que aflige o país, através de uma campanha eleitoral que constitua uma verdadeira barrela.
Vale a pena! Tudo pela verdade, tendo como absolutamente certa a necessidade de passar pela tal crise política que, tão paternalista e pressurosamente, há quem tanto insista em evitar… Vai doer? E de que maneira! Economia de guerra não contempla eufemismos. Não se recordam do sangue, suor e lágrimas do discurso do Churchil? Pois vai ser assim e não por pouco tempo. O melhor é prepararem-se mesmo muito a sério.
domingo, 20 de março de 2011
Pela Correnteza,
novamente... [1]
Moro na Estefânea, numa zona em que, como edifícios vizinhos, tenho o Sintra Museu de Arte Moderna-Colecção Bernardo, o Centro Cultural Olga Cadaval, ambos mesmo defronte de minha casa. A Biblioteca Municipal também fica a escassas dezenas de metros, na Correnteza, designação toponímica comum da Alameda dos Combatentes da Grande Guerra. Entre outros assuntos, pretendo chamar a atenção para as instalações onde, em situação soberba, ali funcionam um café, restaurante e esplanada.
Antes, porém, impõe-se tratar do enquadramento. Tão perto de casa, raro é o dia em que não passo por esta grande e estupenda varanda, donde se alcança um dos mais belos panoramas de Sintra. Todavia, com horizonte tão privilegiado, entre a serra e o Atlântico, a Correnteza está longe de ser um miradouro irrepreensível. Pena é que assim suceda já que, à partida, tem sobejas condições que permitiriam atribuir-lhe os maiores encómios.
Se, logo no título, dou a entender que este é um escrito de revisitação, tal se deve ao facto de, neste mesmo blogue,* já ter abordado as questões objecto do texto que hoje inicio. Não é bom sinal que, passados quase quatro anos, nada, absolutamente nada, se tenha alterado que pudesse dignificar esta herança que foi obra da edilidade liderada por Francisco Craveiro Lopes, oficial da Força Aérea que, na sequência da morte do Marechal Carmona, lhe sucedeu na Presidência da República.
Começo pelo singular pavimento, em calçada à portuguesa, dotado de profusos, simples mas extremamente eficazes motivos de negro ondular, conferindo ao lugar uma tal dinâmica que, paradoxalmente, em articulação com outros elementos cenográficos, acaba por promover uma atmosfera deveras repousante. As pérgulas, propondo assentos e parapeitos convidativos à contemplação – com lindas latadas de glicínias, suportadas por espessa e sólida estrutura de madeirame – constituirão, porventura, a imagem de marca do local.
Porém, infeliz e habitualmente descuidado, trata-se de um espaço que, em determinadas circunstâncias, resultado da falta de higiene, por ausência de lavagem, chega a ser perigosamente escorregadio, verdadeiro caso de desleixo, impeditivo do desfrute por crianças que, acompanhadas por familiares, todo o direito teriam ao sossego que cumpre à autarquia assegurar.
Se, de facto, o local é varrido todos os dias, tal operação não basta. Aliás não parece razoável que, dispondo de equipamento à altura, não se proceda adequadamente. Por se tratar de um problema de higiene pública, vão permitir que, a propósito, insira este parêntesis para lembrar como, no caso vertente, bem se aplica a controvérsia acerca da pertinência de manutenção em actividade de empresas municipais, como a HPEM, cuja actuação e actividade, em vez de beneficiar, acabam por, manifestamente, prejudicar os interesses mais evidentes de munícipes e visitantes.
[continua]
*1. A Caminho da Correnteza,2. Na Correnteza, 3. Ainda na Correnteza, 4. Na Casa Mantero (todos datados de 27.09.2007); 5. O IIM da Correnteza (26.02.2009); 6. HP…o quê? (19.10.2010)
novamente... [1]
Moro na Estefânea, numa zona em que, como edifícios vizinhos, tenho o Sintra Museu de Arte Moderna-Colecção Bernardo, o Centro Cultural Olga Cadaval, ambos mesmo defronte de minha casa. A Biblioteca Municipal também fica a escassas dezenas de metros, na Correnteza, designação toponímica comum da Alameda dos Combatentes da Grande Guerra. Entre outros assuntos, pretendo chamar a atenção para as instalações onde, em situação soberba, ali funcionam um café, restaurante e esplanada.
Antes, porém, impõe-se tratar do enquadramento. Tão perto de casa, raro é o dia em que não passo por esta grande e estupenda varanda, donde se alcança um dos mais belos panoramas de Sintra. Todavia, com horizonte tão privilegiado, entre a serra e o Atlântico, a Correnteza está longe de ser um miradouro irrepreensível. Pena é que assim suceda já que, à partida, tem sobejas condições que permitiriam atribuir-lhe os maiores encómios.
Se, logo no título, dou a entender que este é um escrito de revisitação, tal se deve ao facto de, neste mesmo blogue,* já ter abordado as questões objecto do texto que hoje inicio. Não é bom sinal que, passados quase quatro anos, nada, absolutamente nada, se tenha alterado que pudesse dignificar esta herança que foi obra da edilidade liderada por Francisco Craveiro Lopes, oficial da Força Aérea que, na sequência da morte do Marechal Carmona, lhe sucedeu na Presidência da República.
Começo pelo singular pavimento, em calçada à portuguesa, dotado de profusos, simples mas extremamente eficazes motivos de negro ondular, conferindo ao lugar uma tal dinâmica que, paradoxalmente, em articulação com outros elementos cenográficos, acaba por promover uma atmosfera deveras repousante. As pérgulas, propondo assentos e parapeitos convidativos à contemplação – com lindas latadas de glicínias, suportadas por espessa e sólida estrutura de madeirame – constituirão, porventura, a imagem de marca do local.
Porém, infeliz e habitualmente descuidado, trata-se de um espaço que, em determinadas circunstâncias, resultado da falta de higiene, por ausência de lavagem, chega a ser perigosamente escorregadio, verdadeiro caso de desleixo, impeditivo do desfrute por crianças que, acompanhadas por familiares, todo o direito teriam ao sossego que cumpre à autarquia assegurar.
Se, de facto, o local é varrido todos os dias, tal operação não basta. Aliás não parece razoável que, dispondo de equipamento à altura, não se proceda adequadamente. Por se tratar de um problema de higiene pública, vão permitir que, a propósito, insira este parêntesis para lembrar como, no caso vertente, bem se aplica a controvérsia acerca da pertinência de manutenção em actividade de empresas municipais, como a HPEM, cuja actuação e actividade, em vez de beneficiar, acabam por, manifestamente, prejudicar os interesses mais evidentes de munícipes e visitantes.
[continua]
*1. A Caminho da Correnteza,2. Na Correnteza, 3. Ainda na Correnteza, 4. Na Casa Mantero (todos datados de 27.09.2007); 5. O IIM da Correnteza (26.02.2009); 6. HP…o quê? (19.10.2010)
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