segunda-feira, 27 de junho de 2011
em boas mãos
Na passada sexta-feira, no pequeno auditório do Centro Cultural Olga Cadaval mais ou menos meio lotado, começou o Festival de Sintra, com uma conferência de Rui Vieira Nery [RVN], subordinada ao tema Liszt e Mahler: os construtores da “música do futuro”.
Conheço Rui Vieira Nery de muitas andanças. Na Fundação Gulbenkian – cujas propostas musicais frequento há cinquenta anos, ainda antes de haver sede e auditório na Av. De Berna – a partir de determinada altura, que não saberei precisar, habituei-me a contar com o saber e dedicação de RVN, que, todos o sabem, àquela casa está indissociavelmente ligado. São incontáveis os benefícios e privilégios que lhe devem os verdadeiros melómanos portugueses, fruto do seu trabalho, de contactos internacionais, de investigação laboriosa.
Como é natural, entre preferências perfeitamente previsíveis, comungamos de algumas afinidades electivas, daquelas que, por exemplo, nos levam à frequente demanda de Bayreuth e de outros santuários onde alimentamos a insaciável necessidade de partilhar cada inovação interpretativa, a novidade que sempre espreita a hipótese de actualizar o universo apenas entreaberto pela originalidade de compositores que permanecem além e fora do tempo.
Tenho acompanhado a sua carreira, ouço-o com muita atenção, respeito a opinião de quem nos habituou a abordagens inteligentes, sempre com o cuidado de integrar qualquer temática musical, seja qual for o período histórico, na bem urdida teia dos movimentos culturais e articulando com os eventos históricos que com ela se relacionam e interagem.
Em suma, é um homem de cultura, uma das mais autorizadas vozes do universo da musicologia portuguesa, que o Festival de Sintra, na sua quadragésima sexta edição convidou – e não podia ter começado melhor – para esboçar o enquadramento da dupla efeméride dos duzentos anos do nascimento de Liszt e centenário da morte de Mahler que contempla e propõe como temática nuclear.
Ao longo de quase duas horas que passaram num ápice – querem melhor avaliação? – socorrendo-se de um bom acervo de suportes em CD e DVD, em articulação com um discurso fluente e acessível, adequados a um público de não especialistas, Rui Vieira Nery lembrou e ilustrou, tão copiosamente quanto possível, o percurso dos dois compositores.
De acordo com o propósito enunciado, o conferencista salientou os momentos mais significativos da dinâmica inovadora e renovadora das soluções musicais que os dois compositores apontaram à música do futuro. Confesso que, em determinada altura, esperei que RVN lembrasse o facto de Franz Liszt, tal como o seu genro Richard Wagner, entre outros, terem pertencido a um grupo que se reclamava da música do futuro, por oposição a Johannes Brahms e ao famoso crítico musical Eduard Hanslick.
Todavia, se o tivesse feito, RVN seria obrigado a solicitar ao público capacidades ou competências que, na realidade, e, em geral, pura e simplesmente, não tem, mas indispensáveis à compreensão de certas especificidades e recursos da escrita musical, em que radica a novidade de certa linguagem, além dos recortes de estilo, etc, que um mais ou menos longínquo futuro acabará por assumir. Por tudo isto, se confirma a justeza da sua opção de não abordar o que, numa primeira análise, me pareceu pertinente. Está de parabéns o Festival de Sintra.
PS:
Leslie Howard, certamente o pianista de grande nomeada mais votado à obra de Liszt, está a levar a cabo uma série de 7 recitais temáticos no Palácio de Queluz. Por favor, não percam esta oportunidade absolutamente excepcional (ainda 2ª, 3ª e 4ª às 21,30). Ontem, no recital das 18,00 estavam 25 pessoas... Com bilhetes a €5,00 não há crise que justifique tal escândalo.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Festival auspicioso
É já na próxima sexta-feira, dia 24 de Junho, que começará esta quadragésima sexta edição do Festival de Sintra. Raras vezes, durante a longa vida que já leva, terei experimentado tanta expectativa relativamente ao que nos espera durante as próximas semanas de concretização da sua programação recentemente anunciada. E, como sabem os que acompanham os meus escritos neste blogue, tal sensação é tanto mais justificada quanto as quatro edições precedentes me mereceram as expressivas críticas negativas que publiquei nestas páginas e na imprensa.
Sou daqueles que podem afirmar a evidente emoção de recordar todo o passado desta iniciativa na medida em que, ainda na década de cinquenta do século passado* – literalmente, ainda menino de calções – comecei a frequentar o festival, inicialmente designado como Jornadas Musicais de Sintra que, por sua vez, radicam nas comemorações, em 1956, do duplo centenário do nascimento de W. A. Mozart (1756-91) que, em Sintra, ganharam especialíssimo brilho, propiciando a embalagem para os voos que, então, ainda hesitantes, se transformariam no produto cultural mais sofisticado desta terra.
Desde criança, fui habituado a considerar qualquer evento musical e, em especial, os festivais em que, eventualmente, se enquadrem, como oportunidade de enriquecimento individual e colectivo. Daí que tanto me continue a bater pela coerência interna e lógica da grelha programática do conjunto das propostas porquanto, só obedecendo a estes princípios, um festival se poderá afirmar como particular momento de informação e formação do público que procura fidelizar.
Finalmente, depois de algumas edições de errática programação, o Festival de 2011 aposta num inequívoco núcleo temático, cuja pertinência é suscitada pelas efemérides do centenário da morte de Gustav Mahler e bicentenário do nascimento da Franz Liszt. Naturalmente, porque já me referi detalhadamente à programação, antes mesmo de ter sido oficialmente publicitada, dispenso-me de considerações suplementares.
No entanto, por se tratar de uma oportunidade que me será particularmente cara, muito gostaria de evidenciar o interesse da primeira proposta desta edição que, nem mais nem menos, retoma a opção de iniciar o Festival com uma conferência. O conhecido musicólogo e professor universitário Rui Vieira Nery vem a Sintra apresentar Liszt e Mahler: os construtores da “música do futuro”, primeira de mais palestras a cargo de especialistas de outras áreas.
Em boa hora assim acontece. De facto, trata-se de retoma da prática iniciada com a conferência, também de abertura do Festival, já há alguns anos, aqui proferida pelo Professor António Damásio, a propósito de temática em que o conhecimento da neurociência se cruza com o mundo da Música. Se, na altura, a aquisição de novos saberes foi inequívoca tónica do encontro do cientista com o público, num auditório perfeitamente apinhado, não duvido que, na próxima sexta-feira, a iniciativa esteja condenada a outro sucesso.
Ainda há poucos dias, a propósito da apresentação na Fundação Gulbenkian de uma récita concertante da ópera Die drei Pintos, composição iniciada por Carl Maria von Weber e terminada, algumas décadas depois, precisamente, por Gustav Mahler, assisti a uma muito informal mas extremamente interessante conferência de Rui Vieira Nery , abordando uma temática e período que precedem estes dois génios celebrados pelo Festival de Sintra deste ano.
Estamos de parabéns porque vamos iniciar auspiciosamente. Seguem-se dias de intensa actividade, à volta da série de sete recitais que o grande pianista Leslie Howard nos traz como proposta absolutamente imperdível, interpretando significativos momentos da pianística solista Lisztiana. Sabem os leitores que sou muito poupado nos encómios. Por isso, vão mesmo por mim. Imperdível é o adjectivo e está tudo dito. Aceitem o desafio.
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Não se percam nas contas porque houve uma interrupção de oito anos subsequente ao vinte e cinco de Abril.
NB:
1.Num aparte que vem muito a propósito nos austeros dias que vivemos, deixem que lembre como é tão acessível o preço dos bilhetes. Por exemplo, quarenta euros para a assinatura daqueles sete recitais. Se querem que vos confesse, nunca vi coisa assim…
2. No arquivo do blogue, subordinados às palavras Festival de Sintra, encontrarão a maioria dos textos publicados acerca da controvérsia da programação das últimas edições.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Francisco Assis esteve de tal modo empenhado na defesa das mais contundentes asneiras do Governo cessante, que chegou ao ponto de protagonizar tristíssimas figuras, difíceis de encaixar num homem inteligente como ele é. A perspicácia que não lhe falta deveria ter-lhe ditado, neste momento, uma estratégica retirada que permitisse, logo que possível e conveniente, um regresso auspicioso ao desempenho de missões para as quais poderá estar vocacionado.
Assim não considerou Francisco Assis. Decidiu expor-se à conquista do lugar de Secretário-Geral do partido, objectivo que, muito dificilmente, alcançará. No entanto, tenha-se em consideração que, durante anos a fio, ninguém melhor do que ele poderia ter desempenhado, tão dedicada e afanosamente, aquele papel de chefe do grupo parlamentar. Contudo, em vez de um capital que, agora, poderia render dividendos, funções tão recentes, acabam por suscitar o efeito contrário.
Naquele lugar de absoluto destaque, na primeira fila do Parlamento, Assis foi a vítima sacrificial de um Sócrates sacerdote, que dele fez uso e abuso, submetendo-o a provas de fogo onde, tão flagrantemente, o queimou para além do aceitável. Pois bem, agora, em vez de lhe reconhecerem serviço tão abnegado, os camaradas, que tanto o incensaram, afastam-se, receando chamuscarem nas brasas que transporta do inferno que Sócrates atiçou. Até para que a fénix nasça das cinzas, preciso é que o tempo passe. Assis esqueceu-se e vai pagar caro o erro.
Provindo de cinzentas paragens, sabiamente e com florentinas pinças gerindo seus tempo e espaço, eis que, impoluto, surge António José que até Seguro tem o nome propício aos mais infantis e óbvios trocadilhos. O saldo de Sócrates, no partido e no país, é tão negativo que difícil não é ser substituído por quem não conheço um rasgo, uma centelha, uma ideia. Nem sequer uma peregrina ideia, por onde pegar. É a aposta no óbvio. Tudo neste sujeito é óbvio, fastidiosa, tendencial e intencionalmente óbvio.
É, obviamente, o futuro líder sem mácula, o acabado produto de uma designada terceira via – que, para todos os efeitos, nem sequer cabe na matriz definidora de que, in illo tempore, Blair se reclamava – prestes a percorrer uma via sem escolhos, sob os aplausos dos mesmíssimos militantes que, ainda noutro dia, ao som de trombetas triunfantes, elegiam José Sócrates com noventa e tal por cento dos votos, num evento que teve muito mais de comício do que de congresso.
Nunca pensei que um óbvio sentimento de orfandade pudesse afectar tantos socialistas – ou, melhor, tantos militantes do Partido Socialista, o que não é bem a mesma coisa... – ao ponto de, tão manifestamente, se envolverem numa aventura em que não há ponta de carisma, onde nem há palavras nem obras. Que mistério é este, que deserto, que miragem? Será que, no Largo do Rato, uma série de boas cabeças aceitam encolherem-se, autorizando o contento da maioria com esta indigência?
Não me parece que, tão facilmente, assim possamos concluir. Algo de muito mais profundo se passa que, aliás, é comum a todas as latitudes europeias, à esquerda, ao centro e à direita do espectro político-partidário. A mediocridade mais desalentada tomou de assalto partidos, governos nacionais e supranacionais. É o império dos Sarkozy, Berlusconi, Merkl e Barroso e está tudo dito. Está e estará, ainda por mais uns anos.
Entretanto, numa estratégica e sábia reserva, as boas cabeças esperam pelo momento de aparecerem. Compreensivelmente, trata-se de uma elite que recusa partilhar o poder com os folclóricos pacóvios que vão proliferando como cogumelos. Ora bem, é neste túnel de desmedida e negra ignorância que, por enquanto, vamos esperando a luz que, fatalmente, surgirá. Por enquanto, ainda é o tempo dos Seguro e Passos Coelho. Obviamente, pois que sejam eleitos! Um dia destes, obviamente, serão demitidos…
terça-feira, 14 de junho de 2011
Civismo ou bandalheira
Passámos por um processo eleitoral que sancionou o governo cessante afastando da ribalta o partido político que o suportava no parlamento. Tal não significa que estejam apuradas a verdade e a responsabilidade que, politicamente, devem ser imputadas e que as instâncias vocacionadas para o efeito - a nível do executivo, do Banco de Portugal, do Treibunal de Contas, etc - agora não devam preocupar-se em devolver ao povo.
A comunidade portuguesa foi abusada através de sistemáticas e sofisticadas manobras de propaganda enganosa, conduzidas ao mais alto nível pelo executivo cessante. A boa fé de muitos cidadãos foi posta em causa. Urge devolver ao povo a confiança abalada. Naturalmente, a questão da responsabilização articula-se com a do apuramento da verdade. E, neste tempo tão difícil, sem que perceba os mecanismos do logro, o povo não se mobilizará.
Para que a cidadania funcione, a única via é a da informação ao serviço da verdade que o povo tem direito. Informação é poder e o poder reside no povo que, através do voto, o delega em cidadãos que o representam no Parlamento. Como houve quebra e abuso de confiança, impôe-se recuperá-la por meio da responsabilização política de quem, perversamente, se aproveitou dos mecanismos do Estado Democrático de Direito.
Tratando-se de uma responsabilização de natureza política - todavia não coincidente com a sanção que o resultado das eleições evidenciou - cumpre não deixar que, numa leviana atitude de relaxamento, se apague a actuação de quem, no governo cessante, é responsável pela tomada de decisões cujas consequências são tão gravosas para a comunidade a curto, médio e longo prazos.
Temos direito a essa verdade. Não se trata de qualquer baixeza revanchista mas de civismo a funcionar. É uma questão de dignidade nacional. Afinal, somos um povo civilizado ou uns bandalhos quaisquer, para quem tanto faz que os decisores políticos, em representação dos eleitores, na gestão da coisa pública, actuem a favor ou em prejuízo dos cidadãos cujos interesses juraram defender?
quarta-feira, 8 de junho de 2011
o restauro da memória
Certo é que, esporadicamente, se fala e escreve acerca da senhora. Também é certo que, a propósito do restauro e recentíssima reabertura do chalet na Pena, se mantém o pretexto para que, ao designar a casa e o espaço envolvente, tenhamos de a nomear. Todavia, ao longo de oitenta anos, desde que morreu em 1929 até aos dias de hoje, muito discretas, diria mesmo que demasiado discretas, têm sido as demonstrações de reconhecimento que a comunidade de Sintra dispensou à memória da Condessa d’Edla.
Por outro lado, até mesmo a biografia, Condessa d’Edla a cantora de ópera quasi rainha de Portugal e Espanha, escrita por Teresa Rebelo e publicada em 2006, não escapa a evitáveis imprecisões, particularmente nos aspectos mais atinentes ao mundo musical, solicitando a maior benevolência do leitor… Isto para não entrar no campo da falta de respeito, algo que me parece ter acontecido na atribuição do nome da Condessa d’Edla a uma paupérrima, tristíssima, incaracterística e nua rotunda, passe a publicidade, entre a Norauto, Decathlon e Leroy Merlin.
O mínimo que poderei confirmar, desde logo, para não afirmar, liminarmente, que um pesadíssimo anátema se abateu sobre a figura de Elise Hensler, é que a História não tem feito justiça a esta figura tão singular. Eventualmente de ascendência nobre, nascida no seio de família da burguesia alemã mas em território suiço, naturalizada americana, cantora lírica com carreira nos Estados Unidos e na Europa, é senhora de um percurso fascinante, com uma vida sentimental algo atribulada, mesmo antes do matrimónio morganático com Fernando de Sax Coburg Gotha, príncipe consorte e rei de Portugal.
A condessa faz parte de um património de memórias que se enquadram no panorama sociocultural do último quartel do século dezanove e primeiro do vinte, com especial relevo para o envolvimento da própria família real portuguesa, memórias essas que, indubitavelmente, se articulam com o seu contributo para o enriquecimento daquilo que, habitualmente, se designa como a romântica atmosfera sintrense.
Ora bem, na sequência do texto A visita a Elise, que aqui publiquei no passado dia 23 de Maio, eis que continuo com o ciclo temático suscitado pelo feliz desfecho da campanha de obras de recuperação de um edifício que, actualmente, é possível desfrutar ao mesmo tempo que se aprende uma espantosa lição de respeito por um património tão compósito no seu romântico eclectismo. Contudo, no contexto da linha de intervenção cultural afim da luta pela reabilitação da memória desta senhora, considero ser meu dever não descansar sobre este evento e, isso sim, aproveitar a oportunidade para continuar a propor uma iniciativa que, anteriormente, já me levou a alguns contactos com a Parques de Sintra Monte da Lua (PSML), ainda que me limitando a secundar todo um trabalho prévio de Emília Reis.
Um restauro especialA reflexão que vos trago relaciona-se com um trabalho levado a cabo pela Dra. Catarina Serpa, no âmbito de um estágio na Câmara Municipal de Sintra, subordinado ao título Elise Hensler, Condessa d’Edla – Estudo Biográfico e Projecto para uma Exposição*. Uma exposição! Nem mais nem menos, exposição que a autora projectou, com o maior detalhe, considerando-a organizada em dez módulos de referência temática – por exemplo, 1. As origens, 2.O início da carreira de Elise Hensler, 3.As apresentações em Portugal, 4.O casamento com D. fernando II e o título de Condessa d’Edla, etc – que contemplam um total de cento e sessenta e uma peças, material do maior interesse, extremamente diversificado, sob o lema geral Condessa d’Edla, Flores e Lágrimas.
Reparem que iniciei o parágrafo anterior convidando-vos a uma reflexão. Mantendo o propósito, apenas gostaria que considerassem o intrigante enigma de uma exposição que esteve para se realizar em 2004, por altura do 75º aniversário da morte da Condessa, objectivo contrariado por manifesta falta de local adequado na altura. No entanto, porque esse obstáculo há muito foi ultrapassado, parece nada subsistir que possa impedir a exposição de se concretizar.
Peças do maior interesse, desde documentos de identificação, escrituras, certificados (de casamento e de baptismo), testamento (D. Fernando), fotografias, desenhos, gravuras, óleos, jornais, recortes de imprensa, partituras e libretti de ópera, livros, objectos de uso pessoal, vestuário, pratas, caixas e caixinhas, até às porcelanas, móveis, rendas, vidros, etc, etc, esperam pela ocasião de se deixarem expor enquanto conjunto orgânico e sistemático.
Como acontece com tantas coisas neste país, é uma pena que, há tanto tempo, permaneça a iniciativa em banho-maria. Felizmente, trata-se de matéria que, apesar do atraso, não perde qualquer ponta de interesse. Porém, talvez possa começar a surgir um ou outro problema com certas peças de um espólio obviamente disperso por muitos proprietários, a maioria dos quais descendentes directos. Só para vos dar uma ideia acerca do que pretendo alertar, tenham em consideração que, nesta última meia dúzia de anos, faleceram três bisnetos.
Tenho enorme esperança quanto à possibilidade de concretizar este projecto no mais curto período. Confio imenso na boa vontade da PSML, em especial no alto sentido de oportunidade do Prof. António Lamas que tudo fará no sentido de que não faltem meios para o bom sucesso da exposição. Por outro lado, é imprescindível o envolvimento da Câmara Municipal de Sintra, onde a coisa nasceu, por sugestão e ordem do Presidente Fernando Seara, que incumbiu a então estagiária, Dra. Catarina Serpa, de suportar documentalmente o que não passava de mera intenção.
Ao tempo foi feito o que era suposto. Agora, melhorando o que se revelar necessário, importa estar à altura de honrar a memória de Elise – através desta exposição que também é uma sui generis forma de restauro – fazendo-a conhecer como jamais sucedeu. Convenhamos que vai sendo tempo…
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* data de Fevereiro de 2007, embora se reporte a um trabalho de estágio efectuado na CMS em 2004.
sábado, 4 de junho de 2011
Ao correr da pena
Eis alguns pequenos textos que publiquei ontem e hoje na minha página do facebook.
No domingo, o erário público vai despender 8 milhões de euros com o pagamento aos representantes dos partidos nas mesas eleitorais. Trata-se de uma atitude cívica que, normalmente, seria assegurada em regime de voluntariado. Antigamente, não se arranjava quem quisesse ser membro das mesas, agora há fila para recrutamento nas Juntas de Freguesia... É assim que, igualmente, os partidos vão arranjando mais uns indefectíveis militantes...
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Sabem porque é tão baixa (!?!) a actual taxa de desemprego em Portugal? Pois fiquem sabendo que devemos os actuais só 13% - é verdade, já!!! e não em 2013, como a troika apontava - aos 700.000 portugueses que, nos últimos dez anos, procuraram trabalho lá fora. É um número igual ao dos actuais desempregados. Pensem na taxa que se registaria não fosse esta "sangria". Ficaríamos à frente da Espanha...
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Mais atentos - porque mais causticados pela austeridade, que já começou a fazer-se sentir - será que os cidadãos vão deixar de pactuar com a desvergonha dos boys [Rui Pedro Soares, lembram-se?, foi um caso topo de gama mas há imenso peixe miúdo...] que se alimentam na babugem infecta de gabinetes ministeriais, empresas públicas, municipais, etc]? Agora vota-se, depois, sem desguarnecer a guarda, controla-se!
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Escrevi, durante anos, muitos textos contra a maneira de Sócrates fazer política, por exemplo, acerca do endividamento em que singrava, olimpicamente ignorando as características do país que (des)governava. Durante meses, resolvi parar, não bater mais no ceguinho, não provocar mais anti-corpos. Tal como José Gil, é também com alívio que pressinto o ar mais respirável de dia 6. Naturalmente, tal não significa que me tranquilize a liderança que se avizinha.
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Sócrates nunca, nunca, me enganou e, como sabem os sintrenses que me lêem há bastante tempo, tenho denunciado a prática da gestão pública deste homem, muito antes de ser Primeiro-Ministro. Sócrates deu todos os sinais que o apontavam como político «habilidoso» [não hábil], sinuoso, portuguesinho das berças, deslumbrado, convencido de que tinha chegado à urbe para conquistar o orbe.
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José Gil, o filósofo recentemente jubilado, não é propriamente um troglodita de direita... Ontem, sem tibiezas, denunciou o regime de medos implícitos que temos vivido sob a capa desta democracia perversa, nos últimos anos protagonizada por Sócrates. A mentira institucionalizada, o sufoco que se tem vivido sob a liderança de um deslumbrado, estão prestes a cessar. Diz Gil que, na 2ª feira, vai respirar-se melhor.
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Habituados à maior injustiça social, à incapacidade no combate à fraude fiscal e cobrança aos ricos e poderosos dos impostos a que se furtam através dos paraísos fiscais, à existência de índices socioeconómicos que nos envergonham (analfabetismo e iliteracia ímpares na UE), à pobreza galopante de 20% de cidadãos a viver abaixo do limiar da pobreza, como nos surpreenderemos com as medidas impopulares que se avizinham?
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A campanha da CDU, nomeadamente a conduzida pelo próprio Jerónimo de Sousa, terá sido a mais eficaz, inclusive, em termos éticos. É pena que certo atavismo ainda condicione os eleitores em relação às propostas da coligação. Veremos a razão que assiste a JS no que respeita à renegociação da dívida. É apenas um exemplo da lucidez de um lider que não se desgastou nos últimos anos e que vai manter a posição no Parlamento.
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Uma peça notável, a entrevista que José Gil acaba de conceder a Mário Crespo, na primeira parte do "Jornal das 9" de 6ª feira, dia 3 de JUnho. Se não assistiram, procurem visioná-la. É absolutamente brilhante a análise que produziu acerca destes últimos anos de Sócrates à frente do PS. Segundo o filósofo, a partir de 2ª feira, vai passar a respirar-se melhor em Portugal. Porquê? Sigam o meu conselho. Acedam à entrevista.
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Como a oferta é o que é e, de modo algum, me agrada, só me resta a alternativa que já o bom do Saramago advogava... E, mais recentemente, também o constitucionalista Jorge Miranda. O voto em branco significa que o eleitor não se identifica com qualquer das propostas que se apresentaram a sufrágio. E, já agora, leiam Ensaio sobre a Lucidez. Lucidez, é verdade.
VOTO EM BRANCO TAMBÉM É UM VOTO VÁLIDO, LÚCIDO!
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Para comemorar o Dia Mundial da Criança em 2011, o actual e demissionário PM do Governo de Portugal, não perdeu qualquer oportunidade. Em devido tempo, tratou de cortar o abono a 640.000 famílias e tudo fez para que 2 em cada 5 crianças vivam abaixo do limiar da pobreza. Com a maior facilidade, afirma preocupações sociais. Concretamente, há demasiado tempo, demonstra a incapacidade mais flagrante...
terça-feira, 31 de maio de 2011
exercício ou demissão
O exercício da autoridade democrática apenas pressupõe uma indubitável assertividade, sem quaisquer artifícios ou paninhos quentes, instrumentos afins dos discursos passivos, agressivos e manipuladores. A autoridade democrática compreende a tolerância mas não pode continuar a admitir o nacional porreirismo cujo mais visível resultado é a horrível e perniciosa cultura do desleixo que, infelizmente, parece nada incomodar o cidadão comum.
A demissão do exercício da autoridade democrática constitui uma perversidade absoluta porque a Democracia só sobrevive quando, em todas as instâncias, se exerce a autoridade que, por definição, ela encerra. Cada vez que alguém se demite do exercício da autoridade democrática que lhe foi outorgada está a trair a própria democracia.
Na Educação, por exemplo...
Pensemos, por exemplo, numa qualquer comunidade escolar, portanto, espaço escola onde desenvolvem actividade os corpos docente e discente, para além de todo o pessoal de apoio educativo. Se, perante um problema que pode resolver – caso de quebra ou de ofensa da disciplina objecto do Regulamento da Escola – em que é suposta a sua intervenção, um cidadão professor ou assistente operacional se subtrair, de facto, ao exercício da autoridade democrática de que está investido, estará a pôr em causa os objectivos do programa sócio educativo daquela específica comunidade escolar e, também, os propósitos da comunidade educativa em que está inserida.
Na realidade, basta que algum daqueles membros da comunidade escolar, não actue, como deveria, para que, imediata e automaticamente, tudo fique em causa. Exercer a autoridade é ser autor e, em simultâneo, actor da atitude que se impõe concretizar. Se tal não acontecer, o problema detectado não será resolvido e passará a fazer parte de um acumulado de factos análogos, não resolvidos, que constituem o mais negativo património de uma casa de Educação.
...e, em geral
Este exercício de sumaríssima análise, que acabamos de aplicar ao sector onde se processam as práticas do ensino e da aprendizagem das crianças e jovens, pode alargar-se a todos os sistemas através dos quais se organiza a comunidade nacional, Saúde, Defesa, Segurança, Trânsito, etc. Daí que nos sintamos autorizados a uma conclusão muito mais abrangente., em relação ao governo resultante das próximas eleições. Ou exercerá, de facto, a autoridade democrática outorgada pela delegação de poder transferida pelos eleitores na votação ou, se assim não for, com a tendência do portuguesinho para desenrascar, comprometer-se-á o alcance dos objectivos impostos pela adversa situação em que nos encontramos.
É tão simples como isto. Não consigo concluir sem articular esta reflexão com a enorme percentagem de analfabetismo e de iliteracia, característicos da nefasta realidade lusitana que, constantemente, tenho apontado como factores primordialis afectando, tão negativamente, o resultado de todos os projectos em que nós, portugueses, nos envolvemos. Trata-se de mais elementos explosivos que teremos de saber trabalhar, com pinças, se quisermos ser capazes de exercer a autoridade democrática, no Estado Democrático de Direito que decidimos reconquistar em Abril de setenta e quatro. Caso contrário, a coisa pode mesmo explodir...
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NB: já no próximo texto voltarei ao ciclo dos artigos que estou a dedicar à Condessa d'Edla, por ocasião da reabertura do Chalet.
segunda-feira, 23 de maio de 2011

A visita a Elise
“(…) Quando convoco e vejo a Condessa no seu afã da Pena, sempre me aparece como Elise, sem o título de conveniência, apenas mulher que amou e foi amada por um homem tão excepcional como ela. Tanto tempo depois, aqueles dois continuam, para além do tempo, a habitar o nosso espaço real e mítico, a par de outras belas histórias, com amores possíveis e impossíveis, contrariados ou favorecidos, trágicos e idealizados. (…)
Neste possível Klingsor, resgata-se agora o emblemático ninho de amor à ignomínia de muitos anos de ofensa. Veja quem quiser! Eis o trabalho de recuperação que se impunha. Finalmente! Pode Elise voltar ao sossego? Creio bem que sim. De facto, tanto no chalet, como em todo o Parque, estará a terminar, terminou mesmo o ciclo das mágoas. (…)
Durante muitos anos, também esta fraca voz se juntou às de Emília Reis, Maria Almira Medina, Fernando Castelo, Fernando Morais Gomes e de tantos mais, na sistemática denúncia do escândalo sem nome que ali acontecia. Agora, porém, é tempo de festa. Pelo menos, a minha festa já começou. (…)”
São excertos de um texto publicado, neste mesmo blogue, também em 22 de Maio, mas de 2009,e, portanto, como aconteceu no passado domingo, sempre por ocasião do aniversário da Condessa d’Edla. Entretanto, aquilo que aquelas transcritas palavras prenunciavam e, declaradamente, até já anunciavam, ou seja, a reabertura do Chalet da Condessa, acabou de acontecer!
Para a comemoração do evento, preparei um pequeno ciclo de três textos. No primeiro, que hoje vos deixo, para além da querida Elise, também pretendo homenagear a pessoa que – nesta terra de Sintra, tão avessa ao reconhecimento de quem por ela o melhor faz – singela, discretamente, tem sabido manter uma memória de especial carinho e afecto à Condessa d’Edla, ao longo de anos e anos de exemplar e insuspeita dedicação.
Naturalmente, refiro-me a Emília Reis. E, no sentido de aquilatarem a justeza das minhas palavras que, certa e naturalmente, não podem deixar de denunciar a imensa estima que por ela nutro, trago um testemunho inequívoco. Trata-se de um documento que por si fala, relativo a uma atitude de animação cultural do melhor recorte e gabarito que esta amiga de Sintra recentemente protagonizou.
Reparem que Emília Reis não tem quaisquer ligações institucionais nem a move o mínimo objectivo material. Apenas a motiva o respeito pela singular figura de uma mulher, que teve a dita de ser muito amada por um homem que a soube merecer e a desdita que a história desse amor tivesse acontecido num país em que histórias de amor, longínquas no tempo, como a de Pedro e Inês, ou mais recentes, tal o caso de Francisco e Snu, acabam sempre nas malhas de hipócritas e invejosos…
Respeito pela memória e, no caso pessoal de Emília Reis, igualmente uma sua especialíssima relação pessoal com o lugar. Mas, de facto, o melhor é passar ao caso. No passado dia 7 deste mês de Maio, a nossa boa amiga resolveu acolher, como visitantes do Chalet da Condessa, não um, nem dois, nem três mas, nada mais nada menos do que cinquenta e duas pessoas, sócias do Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes do Porto. Única e exclusivamente de sua própria iniciativa, sem qualquer enquadramento oficial, sem qualquer suporte institucional, por amor à causa e à coisa.
Estão muito enganados se, desconhecendo o calibre de animadora de Emília Reis, tiveram a ousadia de imaginar que se limitaria a conduzir aquela meia centena de curiosos visitantes até ao Chalet e jardins adjacentes, proferindo umas palavras de circunstância, à laia de cicerone contratado para o efeito. Pois, não senhores. Como bem atestam as provas apensas, os textos e as imagens que distribuiu, contradizem qualquer solução de facilidade, significando uma cuidadosa preparação. que foi ao ponto de avançar com dois inéditos.
Portanto, como vertentes indissociáveis da atitude cultural que promoveu, tenham em consideração os três suportes seguintes: 1.o texto de sua autoria, “ D. Fernando II e Elise Hensler – Breve Apontamento”, 2. um poema de Maria Almira Medina, que a própria autora assinou, constituindo ambos trabalhos inéditos, e 3.o desenho do Senhor D. Fernando, fazendo jus ao epíteto de Rei Artista que, ainda hoje, tão bem lhe quadra.
1.D.Fernando II e Elise Hensler - Breve Apontamento
Tudo começou em Sintra…. Esta frase escreveu-a D. Fernando II num desenho datado de 1863, em que o próprio Reise fez representar com Elise Hensler, rodeados por arvoredo, no Parque da Pena, - local que terá sido, certamente, o palco privilegiado da vivência mais íntima de D. Fernando II com a sua segunda mulher, a Condessa d’Edla.
Foi ao Palácio da Pena que regressaram no dia do seu casamento, celebrado em Lisboa em 10 de Junho de 1869 e foi,na chamada Feteira da Condessa, que plantaram, nessa data, o eucalipto oblíqua, a árvore que seria, até há cerca de um ano - (envelheceu e, num dia de temporal caiu sobre o regato que durante cento e quarenta anos lhe tinha
alimentado as raízes)- a única testemunha viva deste acontecimento.
Era, também, no Palácio da Pena que permaneciam desde a Primavera até ao Outono e mesmo no Inverno, não deixavam de lá passar alguns dias onde, frequentemente, D. Fernando era visto a passear pelo Parque com traje que levava a confundi-lo com um caçador bávaro. Usufruía nesses tempos de um merecido repouso, depois de ter cumprido, com esmero, os seus deveres familiares e políticos e de ter sofrido os desgostos da morte, de sua primeira
mulher, a Rainha D. Maria II, em 15 de Novembro de 1853 e de três dos seus filhos já adultos.
Como curiosidade sabemos, também, que a Condessa d’Edla, quando dirigia os trabalhos, sobretudo no jardim do seu Chalet, vestia calças e montava a cavalo, trazendo permanentemente pendurado no cinto um apito com que chamava os seus cães – o Liró, por exemplo, que lhe era muito afeiçoado – e que gratificava o seu jardineiro Morgado,
para que ele, de tempos a tempos, fumasse debaixo das árvores mais débeis, atacadas por alguma doença - talvez as mesmas que o Rei, pacientemente, adubava com a cinza do seu charuto.
Não é difícil imaginar e mesmo acreditar que, ambos terão cantado em dueto, muitas vezes, dentro do Chalet e pelas veredas do Parque, as áreas de ópera suas preferidas e, as suas vidas, seguramente, terão continuado ligadas para além da morte, pelas muitas afinidades que os uniram e que, Maria Almira Medina, no seu belo poema “O Chalet da Condessa numa Manhã de Março”, tão bem evoca.
Sugerindo que D. Fernando, homem culto do seu tempo, seria conhecedor da obra de Goethe, seu contemporâneo,cuja inspiração literária se tornou marcante no séc. XIX, também ao nível da arquitectura dos parques românticos de que o Parque da Pena é uma referência, a Arq. Paisagista Prof. Teresa Andresen em “O Parque da Pena: O Significado de uma Intervenção”, sugere um sem número de paralelismos entre o ambiente em que se passa o argumento da obra de Goethe, Afinidades Electivas e o Parque da Pena. Escreve assim:
Os cenários predilectos dos sucessivos acontecimentos são a residência, o parque e dois pequenos edifícios do parque o pavilhão e a cabana de musgo. Eduard e Chalotte (os protagonistas de Goethe) rodeiam-se de profissionais: o Capitão – um engenheiro topógrafo – arquitecto, o jardineiro …
Em Sintra temos, o Palácio, o Parque da Pena e a Casa do Regalo, nome por que era designado o Chalet, como elementos de eleição num cenário em que, o Rei-Artista, D. Fernando II com Elise Hensler – Condessa d’Edla,assumiram ser, eles próprios, os protagonistas de uma história verdadeira, romântica, e de que nos ficou ESTE ADMIRÁVEL LUGAR, no todo do seu conjunto.
Sem eles não O teríamos hoje aqui.
Emília Reis
Notas recolhidas de:
- D. Fernando II - Rei-Artista Artista-Rei (Fundação da Casa de Bragança)
- Informação verbal de familiares da Condessa d’Edla
2. Poema de Maria Almira Medina e 3. Desenho de D. Fernando


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Em amena conversa, Emma Gilbert, acolhe Camilla, Duquesa da Cornualha
Um secreto convite
Passou cerca de um mês e meio sobre aquela magnífica tarde de fins de Março* em que Sintra recebeu Carlos, Príncipe de Gales, herdeiro do trono britânico, e sua mulher, Camilla, Duquesa da Cornualha, a pretexto da inauguração do Roseiral de Monserrate. Posteriormente, todos assistimos ao galáctico casamento de Guilherme e Catarina que, como não podia deixar de suceder, ainda mais veio avivar a lembrança da presença do par real que nos marcou com tão grata impressão.
Como, até hoje, apenas continuei a encontrar pessoas que, de todos os quadrantes, muito gostaram de acolher Suas Altezas em Monserrate, parto do princípio de que se mantém o interesse em saber mais alguma coisa acerca do misterioso convite que resultou nesta visita que perdurará na memória de todos. Na realidade, acabou por constituir mais um episódio a somar àqueles em que, há mais de seiscentos anos, Sintra tem estado à altura dos pergaminhos da arte de bem receber reis, príncipes e princesas da doce Albion, que até aqui têm descido em demanda da sua tão cantada e decantada singularidade.
Antes, porém, convém não esquecer ter-se tratado de uma importante visita de Estado que, como se imagina, foi preparada com o cuidado inerente ao mais alto nível das pessoas que tivemos o privilégio de acolher. Questões de segurança cuja minúcia nem sequer concebemos, detalhes de protocolo que nenhum manual regista, particularíssimos nas deslocações de membros desta família real, constituem matéria específica e tão cara à prática diplomática, absolutamente determinante para que as coisas tivessem corrido tão bem.
Assim sendo e, naturalmente, sem que ninguém conteste a linearidade destas palavras preambulares, impõe-se que vos convoque para uma pequena reflexão acerca do mais importante de todos os assuntos que preocuparam quem se incumbiu, em Portugal e no Reino Unido, da preparação da visita real, ou seja, do seu programa.
Em casos que tais, tão complexa e complicada se revela a equação em presença que bem pode falar-se de quadratura do círculo. De facto, com tão pouco tempo útil disponível, como preencher uma agenda que sempre seria mais sobrecarregada do que o admissível, sem resvalar para um terreno em que, por mais meritórias que pudessem ser as iniciativas objecto da visita, passariam o limite da elegância, da sofisticação e do conforto que é suposto enquadrar?
Diplomacia informal
Como bem sabem, é em casos desta bicuda natureza que costumam intervir os senhores embaixadores. No caso em questão, ao tempo em que se colocou a necessidade de conceber um programa para a visita oficial de tão alto calibre, o representante diplomático de Sua Majestade Britânica era Alexander Ellis, um homem que conhece este país como poucos portugueses conhecem a sua própria terra, alguém que, no fim de 2010, vem a propósito referir, deixou tais funções para assumir as de Director de Estratégia do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Londres.
Casado como uma senhora portuguesa, o Embaixador Ellis, que domina fluentemente a nossa língua e se interessa pelos mais diversos aspectos da cultura portuguesa, mantém no nosso país uma rede de contactos que, em muitas circunstâncias, coincidem com amizades. Pois, muito bem, meus caros amigos e leitores, é neste contexto que, com sua expressa autorização, estou em posição de vos apresentar quem acabou por ser protagonista neste episódio de tão boa memória.
Em Sintra, com certeza, não estranharão que assunto de conotação tão intrinsecamente britânica, não pressupusesse o natural envolvimento de Emma Gilbert, pois claro… Todavia, que presunção a minha! Então, como apresentar-vos quem não carece de apresentação? Tão somente, aproveitando a ocasião, isso sim, para confirmar como esta grande Amiga de Sintra acabou por prestar mais um duplo serviço, portanto a Sintra e a Sua Majestade Britânica…
A história remonta a Setembro do ano passado, altura em que o Embaixador Ellis, seu amigo pessoal, lhe telefonou, perguntando se tinha alguma ideia para incluir no apertado programa da visita. Claro está que Alexander Ellis sabia perfeitamente com quem partilhava aquela preocupação. Emma Gilbert conhece o príncipe Carlos, os gostos e interesses deste célebre e destacado militante da defesa e recuperação do património natural e edificado pelo que, de imediato, sem pestanejar, lhe ocorreu a espantosa ideia da inauguração do Roseiral de Monserrate.
Pudor e gratidão
Não é este o momento nem a ocasião se presta à entrada em pormenores acerca da ressurreição daquela peça de jardim de remota reminiscência. Emma Gilbert, juntamente com o Arq. Gerald Lukhurst, andavam às voltas com o projecto de reabilitação desde o ano 2000. Passaram pela celebração de um Protocolo, em 2004, e por muito, muito trabalho até que, depois de heróicas semanas, em tempos mais recentes, tudo estava a postos para a visita e cerimonial festivo.
E lá está, em local de absoluto favor, o Roseiral cuja inauguração foi objecto das secretas negociações cujos contornos fui autorizado a desvendar. Foi tarefa que me permitiu este prazer imenso de vos contar como, também pelo seu envolvimento neste caso tão paradigmático da promoção de Sintra, Emma Gilbert merece o subido epíteto de Amiga de Sintra, distinção que costumo atribuir apenas aos pouquíssimos cidadãos que mais se notabilizam na causa da defesa dos interesses desta terra.
Portanto, eis desvendado o segredo do convite que tão sofisticado considerei. Finalmente, porque a comunidade local tem maneira apropriada de retribuir, a nível institucional – não por esta lembrança e sugestão, coisa pouca no longo currículo de afecto por estes lugares que permanecem no seu coração – mas por tanto empenho e constante dedicação, fica o meu voto no sentido de que Sintra saiba agradecer tudo o que deve a Emma Gilbert.
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*vd. Sintradoavesso, São rosas, meus senhores (31.03.2011)
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Analfabetismo,
português, real, insofismável…
Na gestão da coisa pública, o que deveremos nós pensar dos políticos que, para além do analfabetismo puro e duro de cerca de dez por cento da população portuguesa, também não consideram o designado analfabetismo regressivo que, em muitas circunstâncias, não é coincidente com a iliteracia? Tão surpreendente como ignorantemente, Portugal tem sido governado como se esta condicionante da realidade sociológica em presença fosse dispicienda. Claro está que o resultado não podia ser mais elucidativo...
Por exemplo, muitos pais e avós dos actuais licenciados portugueses são analfabetos ou iletrados. Não há qualquer semelhança entre as famílias médias de crianças portuguesas e finlandesas ou austríacas frequentando o Ensino Básico ou Secundário, sempre com desvantagem para os nossos índices constantes das estatísticas oficiais. Está muito enganado quem pensa que tão insofismáveis realidades - sem expressão no designado Memorando da troika - não tem importância para resolução dos problemas do país.
A propósito, quando se fala em analfabetismo e iliteracia, deve lembrar-se que há vários milhões de portugueses cujas famílias há uma, duas gerações, eram analfabetas. Importantíssima a noção a reter de que o analfabetismo de um cidadão é como mancha de óleo que alastra, afectando, de um ou outro modo, pelo menos, dois, três familiares próximos, quer vivam ou não no mesmo agregado. Por outro lado, a nossa literacia é tão fraca quanto recente. Cumpre questionar como ignorar esta grelha sociológica ao analisar, por exemplo, o resultado de uma sondagem.
Finalmente, por outro lado, já assumiram os leitores que é com este nosso povo, com tão significativas franjas de analfabetismo e iliteracia - incomparáveis na zona Euro e em toda a UE - que o país vai ter de contar para concretizar as medidas constantes do referido Memorandum? Imaginam até que ponto factores tão negativos vão condicionar o alcance dos objectivos implícitos?