[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 12 de julho de 2011



O Carmo e a Trindade global

É tão evidente que escuso de sublinhar. De facto, recentemente, agigantaram-se de tal modo os factores negativos, endógenos e exógenos, condicionantes da situação da economia e das finanças nacionais que podem cair o Carmo e a Trindade pois, muito dificilmente, algum facto de incidência mais local, nos desviará a atenção do que está a acontecer, todos os dias, afectando decisiva e tão negativamente os nossos recursos.

Portanto, ultimamente, por mais relevante que, em Sintra, algo possa parecer evidenciar-se, nada se tem afigurado suficientemente decisivo e mobilizador que me desvie do foco em que tenho incidido as baterias. Não é que até não tivesse com que muito me entreter com os conventos do Carmo e da Trindade cá da terra, se quisesse enveredar por caminhos desviantes deste contexto político macro… Porém, perante uma tão grande e labiríntica floresta de enganos, não quero deixar-me apanhar por uma qualquer e insignificante arvorezita sintrense.

Deixemos Sintra em seu aparente remanso porque outros valores mais altos nos desassossegam. A coisa é seríssima. Este último episódio da classificação atribuída pela Moody’s à economia portuguesa, que suscitou inusitados manifestos de patriotismo nacional e europeu, emitidos por todos os quadrantes do espectro político-partidário, não passa de mais uma etapa da pressão geral sobre o Euro em que Portugal até nem é o insignificante peão que possa parecer. E, a demonstrar que assim não é, considerem-se as causas e consequências do ataque que, vindo da outra margem do Atlântico, é mais global do que, tão somente, aparenta a vertente americana.

Não se trata do cantinho lusitano, ao qual se imporia uma reacção isolada. Ainda não é desta vez que, por outro lado, poderemos assistir ao desenhar de uma estratégia conjunta e integrada das economias periféricas. Não, muito mais preocupante, é Bruxelas que não consegue contrariar as manobras predatórias das empresas de rating, através de um inequívoco manifesto da vontade geral europeia de não deixar cair qualquer dos países membros da zona Euro.

Ainda a propósito, não deixa de ser curiosa a nítida preferência dos sitiantes pelo caso irlandês – a que não serão alheios os factores do enorme e decisivo peso da comunidade irlandesa nos Estados Unidos e, apesar de se tratar de uma economia igualmente da periferia, da sua residual e importante componente anglo-saxónica – em detrimento da vertente greco-latina dos outros infelizes sitiados.

Ver-se-á, o que poderá mudar na estratégia europeia, agora que é iminente o contágio às economias italiana e espanhola. De qualquer modo, seja qual for a evolução, são de fascínio absoluto estes dias que temos o privilégio de viver. O desafio é enorme. Embora as comunidades nacional e internacional estejam tão falhas de autênticos estadistas entre os seus líderes, a resposta não deveria gorar as expectativas. É que, raramente, a própria democracia e a paz estiveram tão dependentes da lucidez dos decisores políticos.

PS:
Ah, é verdade, a manobra de boicote ao site da Moody’s não podia soar a maior infantilidade. Então cabe na cabeça de alguém anunciar, urbi et orbe com a antecedência de vários dias, um movimento como o que era proposto, concedendo ao inimigo todo o tempo para contrariar a mínima hipótese de sucesso? Mas que destempero!... Mas que ingenuidade!...


domingo, 10 de julho de 2011

Bancarrota

Não era preciso ser adivinho para perceber o que aí vinha. Só quem não quis saber ou andava muito distraído, agora se admira com a estratégia das agências de rating. Se quiserem ter a paciência de ler, venho lembrar-vos dois textos que aqui publiquei, em 25 e 30 de Abril de 2010, sim senhores, há mais de um ano, onde poderão encontrar mais matéria afim. Escrevam a palavra -bancarrota- no rectângulo do canto superior esquerdo e logo acederão.

domingo, 3 de julho de 2011



Nas escolas,
questões de limpeza


Pretendo referir-me à escola de um futuro que já é hoje, outra solução me não resta do que propor a urgente mudança do paradigma de cultura comportamental dos seus intervenientes em alguns dos contextos que, quotidianamente, se vivem em cada comunidade escolar. Para efeito da demonstração que me ocorre partilhar convosco, deixem que vos convide a pensarem, tão somente, na questão da manutenção da limpeza das instalações escolares, assunto que, parecendo pacífico, tanta controvérsia costuma gerar.


Actualmente, quando as funções afins da limpeza não são adjudicadas e atribuídas a uma empresa da especialidade, é aos assistentes operacionais que estão cometidas. Sem qualquer ponta de sofisma, cumpre perguntar porque razão assim é se, na maioria das situações, não é este pessoal de apoio educativo que, invariavelmente, mais contribui para o acumular da sujidade ao longo de cada jornada de trabalho…

Se, de facto, muito naturalmente, no âmbito das actividades desenvolvidas nos diferentes espaços de cada escola, são alunos e professores que mais sujam as instalações, como não encarar a possibilidade de os envolver na tarefa de recuperação da higiene? Pois, se assim acontece no sistema educativo de países que, geralmente, todos consideramos mais desenvolvidos, que motivo poderá levar a que não nos sintamos sequer inclinados a copiar o exemplo?

Não estou absolutamente certo de que algum atavismo, bem como a manutenção e reprodução de algumas práticas ancestrais, bastem para justificar a manutenção de um statu quo gerador de contundência bem conhecida de quem tem em mãos ou se debruça sobre este assunto. Todavia, não tenho a mínima dúvida de que uma radical mudança de atitude, ela própria entendida como altamente propícia à aquisição de hábitos e à adopção de práticas mais civilizadas, poderão inscrever-se na própria cultura escolar, devidamente plasmadas quer no Regulamento da escola quer no Estatuto do Aluno.

Filhos e enteados

Se, além do que actualmente só é solicitado ao pessoal não docente, também professores e alunos forem responsabilizados pela preservação da higiene na escola ao longo do dia – aliás, como, repito, sucede noutras países europeus – é o próprio processo educativo que sairá altamente beneficiado e inequivocamente dignificado.

Na abordagem deste assunto, entendamo-nos de uma vez por todas. De facto, na escola, a limpeza só não será uma tarefa laboral considerada degradante se for partilhada por todos os actores da comunidade escolar. Ainda que bem sabido, não nos esqueçamos que, entre nós, essa incumbência só afecta uma única categoria de trabalhadores da Educação, precisamente a daqueles cujo vencimento é tão diminuto que, em média, se cifra em valores rondando 20% do ordenado médio de um docente. Aliás, para mim, continua a ser mistério insondável como – sempre tão pressurosos na defesa dos seus interesses – conseguem os professores, no mesmo local de trabalho, e tão pacificamente ,conviver com uma discrepância tão injusta e escandalosa…


Sendo inadmissível que, numa escola, o leque salarial distancie docentes e não docentes de maneira tão flagrante, o fenómeno começa a ser mais entendível se, para o efeito da sua interpretação, intervier este decisivo factor de desconsideração e desqualificação social conotado com baixas exigências salariais. Por outro lado, até um passado relativamente recente, neste contexto do pessoal não docente, nomeadamente os antigos contínuos, hoje em dia abrangidos pela designação de assistentes operacionais, os baixos níveis de escolaridade eram uma constante.

Porém, a situação actual é tão radicalmente diferente e, nalguns casos tão oposta, que é frequente encontrar muitos destes funcionários já com o 12º ano, ou universitários e, inclusive, significativa quantidade de licenciados. Como a evolução das mentalidades é lentíssima e, igualmente determinante, a inércia quanto à aceitação das consequências da mudança, esta gente continua sendo encarada, perversamente, como criados de baixo estrato, fundamentalmente, como reflexo da assunção de tarefas consideradas desqualificadas – já que se alia a noção de função desqualificada a salário baixo – mantendo um estatuto ainda tão coincidente com o do designado pessoal menor vigente em tempos de desagradável memória. Mudaram os tempos mas as cabeças...

Tão simples


Quadro tão negativo pode ser modificado, tão rapidamente quanto pretendamos agir, com vantagens inequívocas para o Sistema Educativo em geral e para as comunidades escolares e educativas em particular. Afunilemos ainda mais a questão da limpeza na escola e, tão somente, detenhamo-nos no caso das salas de aula. Basta que que cada uma seja dotada de um adequado kit de limpeza – por exemplo, constituído por balde, serradura, vassouras de cabo comprido e de mão, panos, etc – à disposição de professores e alunos que, ao longo do dia, forem ocupando aquele espaço em actividades lectivas, cumprindo a norma regulamentar de deixarem aquele espaço nas condições de limpeza em que se encontrava à primeira hora da sua utilização.

Antes de abandonarem a sala onde estiveram a trabalhar, docentes e discentes passarão a verificar se alguma coisa não está conforme com o regulamento, actuando no respeito pelo que estiver determinado neste domínio e que não pode ser substancialmente diferente do que, tão sumariamente, se enuncia nestas linhas. Naturalmente, durante o dia, nas escolas de maior dimensão, a empresa encarregada do serviço de limpeza, manterá alguém adstrito à higiene das instalações sanitárias, corredores e átrios.

Não desconheço e, pelo contrário, muito me congratulo pela existência de casos em que esta já é uma prática vigente. Mas também não desconheço que se trata de casos excepcionais. Impõe-se a generalização. Só ela permitirá libertar para tarefas de inequívoca assistência educativa, todo um contingente de pessoal, que vai diminuir, embora cada vez mais qualificado, com apreciáveis níveis de escolarização, que passa por acções de formação afins das competências inerentes à sua relação preferencial com as crianças e jovens.

Mudança muito educativa

Importa ter sempre em consideração que os pais e encarregados de educação entregam à Escola os seus filhos e educandos, na presunção de que os trabalhadores da Educação, portanto, docentes e não docentes, ali exercendo a sua actividade, dedicam aos alunos o melhor do seu saber residual e capacidades humanas para rendibilização máxima do capital mais sofisticado do qual depende o futuro do país. Será com bons olhos que estes contribuintes verificarão que aqueles funcionários passarão a dedicar toda a sua atenção, exclusivamente, às necessidades dos estudantes.

Esta proposta, que não envolve quaisquer custos suplementares, suscita, isso sim, a significativa melhoria de atitudes interactivas dos corpos docente, discente e não docente, que não podem deixar de se repercutir no rendimento do trabalho de todos. Só assim, definitivamente, se ultrapassará um quadro actual de referências nada abonatórias de uma escola que, cada vez mais, tem de se adequar aos exigentes desafios socioculturais que, a todo o momento, evoluem. E, muito naturalmente, num futuro tão próximo quanto desejável e possível, os vencimentos dos assistentes operacionais poderão corresponder aos níveis de dignificação que as suas tarefas pressupõem.

Futuramente, a exemplo do que já acontece no espaço alargado da União Europeia em que nos integramos, o contingente de trabalhadores da Educação adstritos à assistência educativa vai baixar de modo notório e irreversível nas escolas dos ensinos básico e secundário. Os poucos que ficarem articularão as suas funções e actividades com os colegas docentes. Previsível e naturalmente, o rácio assistente operacional/quantidade de alunos vai alterar-se dramaticamente sem que a evidência da redução signifique baixa de nível do serviço prestado mas, isso sim, a necessidade de diferentes perspectivas no enquadramento da gestão desse pessoal, cada vez mais escasso, cada vez mais qualificado.


Finalmente, como não poderão deixar de comigo concluir, é em tempo de austeridade que tudo isto se impõe com a maior pertinência. Portanto, agora!




segunda-feira, 27 de junho de 2011

Liszt e Mahler,
em boas mãos

Na passada sexta-feira, no pequeno auditório do Centro Cultural Olga Cadaval mais ou menos meio lotado, começou o Festival de Sintra, com uma conferência de Rui Vieira Nery [RVN], subordinada ao tema Liszt e Mahler: os construtores da “música do futuro”.

Conheço Rui Vieira Nery de muitas andanças. Na Fundação Gulbenkian – cujas propostas musicais frequento há cinquenta anos, ainda antes de haver sede e auditório na Av. De Berna – a partir de determinada altura, que não saberei precisar, habituei-me a contar com o saber e dedicação de RVN, que, todos o sabem, àquela casa está indissociavelmente ligado. São incontáveis os benefícios e privilégios que lhe devem os verdadeiros melómanos portugueses, fruto do seu trabalho, de contactos internacionais, de investigação laboriosa.

Como é natural, entre preferências perfeitamente previsíveis, comungamos de algumas afinidades electivas, daquelas que, por exemplo, nos levam à frequente demanda de Bayreuth e de outros santuários onde alimentamos a insaciável necessidade de partilhar cada inovação interpretativa, a novidade que sempre espreita a hipótese de actualizar o universo apenas entreaberto pela originalidade de compositores que permanecem além e fora do tempo.


Tenho acompanhado a sua carreira, ouço-o com muita atenção, respeito a opinião de quem nos habituou a abordagens inteligentes, sempre com o cuidado de integrar qualquer temática musical, seja qual for o período histórico, na bem urdida teia dos movimentos culturais e articulando com os eventos históricos que com ela se relacionam e interagem.


Em suma, é um homem de cultura, uma das mais autorizadas vozes do universo da musicologia portuguesa, que o Festival de Sintra, na sua quadragésima sexta edição convidou – e não podia ter começado melhor – para esboçar o enquadramento da dupla efeméride dos duzentos anos do nascimento de Liszt e centenário da morte de Mahler que contempla e propõe como temática nuclear.

Ao longo de quase duas horas que passaram num ápice – querem melhor avaliação? – socorrendo-se de um bom acervo de suportes em CD e DVD, em articulação com um discurso fluente e acessível, adequados a um público de não especialistas, Rui Vieira Nery lembrou e ilustrou, tão copiosamente quanto possível, o percurso dos dois compositores.

De acordo com o propósito enunciado, o conferencista salientou os momentos mais significativos da dinâmica inovadora e renovadora das soluções musicais que os dois compositores apontaram à música do futuro. Confesso que, em determinada altura, esperei que RVN lembrasse o facto de Franz Liszt, tal como o seu genro Richard Wagner, entre outros, terem pertencido a um grupo que se reclamava da música do futuro, por oposição a Johannes Brahms e ao famoso crítico musical Eduard Hanslick.

Todavia, se o tivesse feito, RVN seria obrigado a solicitar ao público capacidades ou competências que, na realidade, e, em geral, pura e simplesmente, não tem, mas indispensáveis à compreensão de certas especificidades e recursos da escrita musical, em que radica a novidade de certa linguagem, além dos recortes de estilo, etc, que um mais ou menos longínquo futuro acabará por assumir. Por tudo isto, se confirma a justeza da sua opção de não abordar o que, numa primeira análise, me pareceu pertinente. Está de parabéns o Festival de Sintra.

PS:

Leslie Howard, certamente o pianista de grande nomeada mais votado à obra de Liszt, está a levar a cabo uma série de 7 recitais temáticos no Palácio de Queluz. Por favor, não percam esta oportunidade absolutamente excepcional (ainda 2ª, 3ª e 4ª às 21,30). Ontem, no recital das 18,00 estavam 25 pessoas... Com bilhetes a €5,00 não há crise que justifique tal escândalo
.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sintra,
Festival auspicioso


É já na próxima sexta-feira, dia 24 de Junho, que começará esta quadragésima sexta edição do Festival de Sintra. Raras vezes, durante a longa vida que já leva, terei experimentado tanta expectativa relativamente ao que nos espera durante as próximas semanas de concretização da sua programação recentemente anunciada. E, como sabem os que acompanham os meus escritos neste blogue, tal sensação é tanto mais justificada quanto as quatro edições precedentes me mereceram as expressivas críticas negativas que publiquei nestas páginas e na imprensa.

Sou daqueles que podem afirmar a evidente emoção de recordar todo o passado desta iniciativa na medida em que, ainda na década de cinquenta do século passado* – literalmente, ainda menino de calções – comecei a frequentar o festival, inicialmente designado como Jornadas Musicais de Sintra que, por sua vez, radicam nas comemorações, em 1956, do duplo centenário do nascimento de W. A. Mozart (1756-91) que, em Sintra, ganharam especialíssimo brilho, propiciando a embalagem para os voos que, então, ainda hesitantes, se transformariam no produto cultural mais sofisticado desta terra.

Desde criança, fui habituado a considerar qualquer evento musical e, em especial, os festivais em que, eventualmente, se enquadrem, como oportunidade de enriquecimento individual e colectivo. Daí que tanto me continue a bater pela coerência interna e lógica da grelha programática do conjunto das propostas porquanto, só obedecendo a estes princípios, um festival se poderá afirmar como particular momento de informação e formação do público que procura fidelizar.

Finalmente, depois de algumas edições de errática programação, o Festival de 2011 aposta num inequívoco núcleo temático, cuja pertinência é suscitada pelas efemérides do centenário da morte de Gustav Mahler e bicentenário do nascimento da Franz Liszt. Naturalmente, porque já me referi detalhadamente à programação, antes mesmo de ter sido oficialmente publicitada, dispenso-me de considerações suplementares.

No entanto, por se tratar de uma oportunidade que me será particularmente cara, muito gostaria de evidenciar o interesse da primeira proposta desta edição que, nem mais nem menos, retoma a opção de iniciar o Festival com uma conferência. O conhecido musicólogo e professor universitário Rui Vieira Nery vem a Sintra apresentar Liszt e Mahler: os construtores da “música do futuro”, primeira de mais palestras a cargo de especialistas de outras áreas.

Em boa hora assim acontece. De facto, trata-se de retoma da prática iniciada com a conferência, também de abertura do Festival, já há alguns anos, aqui proferida pelo Professor António Damásio, a propósito de temática em que o conhecimento da neurociência se cruza com o mundo da Música. Se, na altura, a aquisição de novos saberes foi inequívoca tónica do encontro do cientista com o público, num auditório perfeitamente apinhado, não duvido que, na próxima sexta-feira, a iniciativa esteja condenada a outro sucesso.

Ainda há poucos dias, a propósito da apresentação na Fundação Gulbenkian de uma récita concertante da ópera Die drei Pintos, composição iniciada por Carl Maria von Weber e terminada, algumas décadas depois, precisamente, por Gustav Mahler, assisti a uma muito informal mas extremamente interessante conferência de Rui Vieira Nery , abordando uma temática e período que precedem estes dois génios celebrados pelo Festival de Sintra deste ano.

Estamos de parabéns porque vamos iniciar auspiciosamente. Seguem-se dias de intensa actividade, à volta da série de sete recitais que o grande pianista Leslie Howard nos traz como proposta absolutamente imperdível, interpretando significativos momentos da pianística solista Lisztiana. Sabem os leitores que sou muito poupado nos encómios. Por isso, vão mesmo por mim. Imperdível é o adjectivo e está tudo dito. Aceitem o desafio.

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Não se percam nas contas porque houve uma interrupção de oito anos subsequente ao vinte e cinco de Abril.

NB:

1.Num aparte que vem muito a propósito nos austeros dias que vivemos, deixem que lembre como é tão acessível o preço dos bilhetes. Por exemplo, quarenta euros para a assinatura daqueles sete recitais. Se querem que vos confesse, nunca vi coisa assim…
2. No arquivo do blogue, subordinados às palavras Festival de Sintra, encontrarão a maioria dos textos publicados acerca da controvérsia da programação das últimas edições.




sexta-feira, 17 de junho de 2011

Obviamente, sejam eleitos...

Francisco Assis esteve de tal modo empenhado na defesa das mais contundentes asneiras do Governo cessante, que chegou ao ponto de protagonizar tristíssimas figuras, difíceis de encaixar num homem inteligente como ele é. A perspicácia que não lhe falta deveria ter-lhe ditado, neste momento, uma estratégica retirada que permitisse, logo que possível e conveniente, um regresso auspicioso ao desempenho de missões para as quais poderá estar vocacionado.

Assim não considerou Francisco Assis. Decidiu expor-se à conquista do lugar de Secretário-Geral do partido, objectivo que, muito dificilmente, alcançará. No entanto, tenha-se em consideração que, durante anos a fio, ninguém melhor do que ele poderia ter desempenhado, tão dedicada e afanosamente, aquele papel de chefe do grupo parlamentar. Contudo, em vez de um capital que, agora, poderia render dividendos, funções tão recentes, acabam por suscitar o efeito contrário.

Naquele lugar de absoluto destaque, na primeira fila do Parlamento, Assis foi a vítima sacrificial de um Sócrates sacerdote, que dele fez uso e abuso, submetendo-o a provas de fogo onde, tão flagrantemente, o queimou para além do aceitável. Pois bem, agora, em vez de lhe reconhecerem serviço tão abnegado, os camaradas, que tanto o incensaram, afastam-se, receando chamuscarem nas brasas que transporta do inferno que Sócrates atiçou. Até para que a fénix nasça das cinzas, preciso é que o tempo passe. Assis esqueceu-se e vai pagar caro o erro.

Provindo de cinzentas paragens, sabiamente e com florentinas pinças gerindo seus tempo e espaço, eis que, impoluto, surge António José que até Seguro tem o nome propício aos mais infantis e óbvios trocadilhos. O saldo de Sócrates, no partido e no país, é tão negativo que difícil não é ser substituído por quem não conheço um rasgo, uma centelha, uma ideia. Nem sequer uma peregrina ideia, por onde pegar. É a aposta no óbvio. Tudo neste sujeito é óbvio, fastidiosa, tendencial e intencionalmente óbvio.

É, obviamente, o futuro líder sem mácula, o acabado produto de uma designada terceira via – que, para todos os efeitos, nem sequer cabe na matriz definidora de que, in illo tempore, Blair se reclamava – prestes a percorrer uma via sem escolhos, sob os aplausos dos mesmíssimos militantes que, ainda noutro dia, ao som de trombetas triunfantes, elegiam José Sócrates com noventa e tal por cento dos votos, num evento que teve muito mais de comício do que de congresso.

Nunca pensei que um óbvio sentimento de orfandade pudesse afectar tantos socialistas – ou, melhor, tantos militantes do Partido Socialista, o que não é bem a mesma coisa... – ao ponto de, tão manifestamente, se envolverem numa aventura em que não há ponta de carisma, onde nem há palavras nem obras. Que mistério é este, que deserto, que miragem? Será que, no Largo do Rato, uma série de boas cabeças aceitam encolherem-se, autorizando o contento da maioria com esta indigência?

Não me parece que, tão facilmente, assim possamos concluir. Algo de muito mais profundo se passa que, aliás, é comum a todas as latitudes europeias, à esquerda, ao centro e à direita do espectro político-partidário. A mediocridade mais desalentada tomou de assalto partidos, governos nacionais e supranacionais. É o império dos Sarkozy, Berlusconi, Merkl e Barroso e está tudo dito. Está e estará, ainda por mais uns anos.

Entretanto, numa estratégica e sábia reserva, as boas cabeças esperam pelo momento de aparecerem. Compreensivelmente, trata-se de uma elite que recusa partilhar o poder com os folclóricos pacóvios que vão proliferando como cogumelos. Ora bem, é neste túnel de desmedida e negra ignorância que, por enquanto, vamos esperando a luz que, fatalmente, surgirá. Por enquanto, ainda é o tempo dos Seguro e Passos Coelho. Obviamente, pois que sejam eleitos! Um dia destes, obviamente, serão demitidos…



terça-feira, 14 de junho de 2011



Civismo ou bandalheira


Passámos por um processo eleitoral que sancionou o governo cessante afastando da ribalta o partido político que o suportava no parlamento. Tal não significa que estejam apuradas a verdade e a responsabilidade que, politicamente, devem ser imputadas e que as instâncias vocacionadas para o efeito - a nível do executivo, do Banco de Portugal, do Treibunal de Contas, etc - agora não devam preocupar-se em devolver ao povo.

A comunidade portuguesa foi abusada através de sistemáticas e sofisticadas manobras de propaganda enganosa, conduzidas ao mais alto nível pelo executivo cessante. A boa fé de muitos cidadãos foi posta em causa. Urge devolver ao povo a confiança abalada. Naturalmente, a questão da responsabilização articula-se com a do apuramento da verdade. E, neste tempo tão difícil, sem que perceba os mecanismos do logro, o povo não se mobilizará.

Para que a cidadania funcione, a única via é a da informação ao serviço da verdade que o povo tem direito. Informação é poder e o poder reside no povo que, através do voto, o delega em cidadãos que o representam no Parlamento. Como houve quebra e abuso de confiança, impôe-se recuperá-la por meio da responsabilização política de quem, perversamente, se aproveitou dos mecanismos do Estado Democrático de Direito.

Tratando-se de uma responsabilização de natureza política - todavia não coincidente com a sanção que o resultado das eleições evidenciou - cumpre não deixar que, numa leviana atitude de relaxamento, se apague a actuação de quem, no governo cessante, é responsável pela tomada de decisões cujas consequências são tão gravosas para a comunidade a curto, médio e longo prazos.

Temos direito a essa verdade. Não se trata de qualquer baixeza revanchista mas de civismo a funcionar. É uma questão de dignidade nacional. Afinal, somos um povo civilizado ou uns bandalhos quaisquer, para quem tanto faz que os decisores políticos, em representação dos eleitores, na gestão da coisa pública, actuem a favor ou em prejuízo dos cidadãos cujos interesses juraram defender?


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Elise Hensler,
o restauro da memória

Certo é que, esporadicamente, se fala e escreve acerca da senhora. Também é certo que, a propósito do restauro e recentíssima reabertura do chalet na Pena, se mantém o pretexto para que, ao designar a casa e o espaço envolvente, tenhamos de a nomear. Todavia, ao longo de oitenta anos, desde que morreu em 1929 até aos dias de hoje, muito discretas, diria mesmo que demasiado discretas, têm sido as demonstrações de reconhecimento que a comunidade de Sintra dispensou à memória da Condessa d’Edla.

Por outro lado, até mesmo a biografia, Condessa d’Edla a cantora de ópera quasi rainha de Portugal e Espanha, escrita por Teresa Rebelo e publicada em 2006, não escapa a evitáveis imprecisões, particularmente nos aspectos mais atinentes ao mundo musical, solicitando a maior benevolência do leitor… Isto para não entrar no campo da falta de respeito, algo que me parece ter acontecido na atribuição do nome da Condessa d’Edla a uma paupérrima, tristíssima, incaracterística e nua rotunda, passe a publicidade, entre a Norauto, Decathlon e Leroy Merlin.

O mínimo que poderei confirmar, desde logo, para não afirmar, liminarmente, que um pesadíssimo anátema se abateu sobre a figura de Elise Hensler, é que a História não tem feito justiça a esta figura tão singular. Eventualmente de ascendência nobre, nascida no seio de família da burguesia alemã mas em território suiço, naturalizada americana, cantora lírica com carreira nos Estados Unidos e na Europa, é senhora de um percurso fascinante, com uma vida sentimental algo atribulada, mesmo antes do matrimónio morganático com Fernando de Sax Coburg Gotha, príncipe consorte e rei de Portugal.

A condessa faz parte de um património de memórias que se enquadram no panorama sociocultural do último quartel do século dezanove e primeiro do vinte, com especial relevo para o envolvimento da própria família real portuguesa, memórias essas que, indubitavelmente, se articulam com o seu contributo para o enriquecimento daquilo que, habitualmente, se designa como a romântica atmosfera sintrense.

Ora bem, na sequência do texto A visita a Elise, que aqui publiquei no passado dia 23 de Maio, eis que continuo com o ciclo temático suscitado pelo feliz desfecho da campanha de obras de recuperação de um edifício que, actualmente, é possível desfrutar ao mesmo tempo que se aprende uma espantosa lição de respeito por um património tão compósito no seu romântico eclectismo. Contudo, no contexto da linha de intervenção cultural afim da luta pela reabilitação da memória desta senhora, considero ser meu dever não descansar sobre este evento e, isso sim, aproveitar a oportunidade para continuar a propor uma iniciativa que, anteriormente, já me levou a alguns contactos com a Parques de Sintra Monte da Lua (PSML), ainda que me limitando a secundar todo um trabalho prévio de Emília Reis.
Um restauro especialA reflexão que vos trago relaciona-se com um trabalho levado a cabo pela Dra. Catarina Serpa, no âmbito de um estágio na Câmara Municipal de Sintra, subordinado ao título Elise Hensler, Condessa d’Edla – Estudo Biográfico e Projecto para uma Exposição*. Uma exposição! Nem mais nem menos, exposição que a autora projectou, com o maior detalhe, considerando-a organizada em dez módulos de referência temática – por exemplo, 1. As origens, 2.O início da carreira de Elise Hensler, 3.As apresentações em Portugal, 4.O casamento com D. fernando II e o título de Condessa d’Edla, etc – que contemplam um total de cento e sessenta e uma peças, material do maior interesse, extremamente diversificado, sob o lema geral Condessa d’Edla, Flores e Lágrimas.
Reparem que iniciei o parágrafo anterior convidando-vos a uma reflexão. Mantendo o propósito, apenas gostaria que considerassem o intrigante enigma de uma exposição que esteve para se realizar em 2004, por altura do 75º aniversário da morte da Condessa, objectivo contrariado por manifesta falta de local adequado na altura. No entanto, porque esse obstáculo há muito foi ultrapassado, parece nada subsistir que possa impedir a exposição de se concretizar.

Peças do maior interesse, desde documentos de identificação, escrituras, certificados (de casamento e de baptismo), testamento (D. Fernando), fotografias, desenhos, gravuras, óleos, jornais, recortes de imprensa, partituras e libretti de ópera, livros, objectos de uso pessoal, vestuário, pratas, caixas e caixinhas, até às porcelanas, móveis, rendas, vidros, etc, etc, esperam pela ocasião de se deixarem expor enquanto conjunto orgânico e sistemático.

Como acontece com tantas coisas neste país, é uma pena que, há tanto tempo, permaneça a iniciativa em banho-maria. Felizmente, trata-se de matéria que, apesar do atraso, não perde qualquer ponta de interesse. Porém, talvez possa começar a surgir um ou outro problema com certas peças de um espólio obviamente disperso por muitos proprietários, a maioria dos quais descendentes directos. Só para vos dar uma ideia acerca do que pretendo alertar, tenham em consideração que, nesta última meia dúzia de anos, faleceram três bisnetos.

Tenho enorme esperança quanto à possibilidade de concretizar este projecto no mais curto período. Confio imenso na boa vontade da PSML, em especial no alto sentido de oportunidade do Prof. António Lamas que tudo fará no sentido de que não faltem meios para o bom sucesso da exposição. Por outro lado, é imprescindível o envolvimento da Câmara Municipal de Sintra, onde a coisa nasceu, por sugestão e ordem do Presidente Fernando Seara, que incumbiu a então estagiária, Dra. Catarina Serpa, de suportar documentalmente o que não passava de mera intenção.

Ao tempo foi feito o que era suposto. Agora, melhorando o que se revelar necessário, importa estar à altura de honrar a memória de Elise – através desta exposição que também é uma sui generis forma de restauro – fazendo-a conhecer como jamais sucedeu. Convenhamos que vai sendo tempo…

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* data de Fevereiro de 2007, embora se reporte a um trabalho de estágio efectuado na CMS em 2004.



sábado, 4 de junho de 2011


Ao correr da pena

Eis alguns pequenos textos que publiquei ontem e hoje na minha página do facebook.

No domingo, o erário público vai despender 8 milhões de euros com o pagamento aos representantes dos partidos nas mesas eleitorais. Trata-se de uma atitude cívica que, normalmente, seria assegurada em regime de voluntariado. Antigamente, não se arranjava quem quisesse ser membro das mesas, agora há fila para recrutamento nas Juntas de Freguesia... É assim que, igualmente, os partidos vão arranjando mais uns indefectíveis militantes...
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Sabem porque é tão baixa (!?!) a actual taxa de desemprego em Portugal? Pois fiquem sabendo que devemos os actuais só 13% - é verdade, já!!! e não em 2013, como a troika apontava - aos 700.000 portugueses que, nos últimos dez anos, procuraram trabalho lá fora. É um número igual ao dos actuais desempregados. Pensem na taxa que se registaria não fosse esta "sangria". Ficaríamos à frente da Espanha...
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Mais atentos - porque mais causticados pela austeridade, que já começou a fazer-se sentir - será que os cidadãos vão deixar de pactuar com a desvergonha dos boys [Rui Pedro Soares, lembram-se?, foi um caso topo de gama mas há imenso peixe miúdo...] que se alimentam na babugem infecta de gabinetes ministeriais, empresas públicas, municipais, etc]? Agora vota-se, depois, sem desguarnecer a guarda, controla-se!
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Escrevi, durante anos, muitos textos contra a maneira de Sócrates fazer política, por exemplo, acerca do endividamento em que singrava, olimpicamente ignorando as características do país que (des)governava. Durante meses, resolvi parar, não bater mais no ceguinho, não provocar mais anti-corpos. Tal como José Gil, é também com alívio que pressinto o ar mais respirável de dia 6. Naturalmente, tal não significa que me tranquilize a liderança que se avizinha.
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Sócrates nunca, nunca, me enganou e, como sabem os sintrenses que me lêem há bastante tempo, tenho denunciado a prática da gestão pública deste homem, muito antes de ser Primeiro-Ministro. Sócrates deu todos os sinais que o apontavam como político «habilidoso» [não hábil], sinuoso, portuguesinho das berças, deslumbrado, convencido de que tinha chegado à urbe para conquistar o orbe.
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José Gil, o filósofo recentemente jubilado, não é propriamente um troglodita de direita... Ontem, sem tibiezas, denunciou o regime de medos implícitos que temos vivido sob a capa desta democracia perversa, nos últimos anos protagonizada por Sócrates. A mentira institucionalizada, o sufoco que se tem vivido sob a liderança de um deslumbrado, estão prestes a cessar. Diz Gil que, na 2ª feira, vai respirar-se melhor.
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Habituados à maior injustiça social, à incapacidade no combate à fraude fiscal e cobrança aos ricos e poderosos dos impostos a que se furtam através dos paraísos fiscais, à existência de índices socioeconómicos que nos envergonham (analfabetismo e iliteracia ímpares na UE), à pobreza galopante de 20% de cidadãos a viver abaixo do limiar da pobreza, como nos surpreenderemos com as medidas impopulares que se avizinham?
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A campanha da CDU, nomeadamente a conduzida pelo próprio Jerónimo de Sousa, terá sido a mais eficaz, inclusive, em termos éticos. É pena que certo atavismo ainda condicione os eleitores em relação às propostas da coligação. Veremos a razão que assiste a JS no que respeita à renegociação da dívida. É apenas um exemplo da lucidez de um lider que não se desgastou nos últimos anos e que vai manter a posição no Parlamento.
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Uma peça notável, a entrevista que José Gil acaba de conceder a Mário Crespo, na primeira parte do "Jornal das 9" de 6ª feira, dia 3 de JUnho. Se não assistiram, procurem visioná-la. É absolutamente brilhante a análise que produziu acerca destes últimos anos de Sócrates à frente do PS. Segundo o filósofo, a partir de 2ª feira, vai passar a respirar-se melhor em Portugal. Porquê? Sigam o meu conselho. Acedam à
entrevista.
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Como a oferta é o que é e, de modo algum, me agrada, só me resta a alternativa que já o bom do Saramago advogava... E, mais recentemente, também o constitucionalista Jorge Miranda. O voto em branco significa que o eleitor não se identifica com qualquer das propostas que se apresentaram a sufrágio. E, já agora, leiam Ensaio sobre a Lucidez. Lucidez, é verdade.

VOTO EM BRANCO TAMBÉM É UM VOTO VÁLIDO, LÚCIDO!
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Para comemorar o Dia Mundial da Criança em 2011, o actual e demissionário PM do Governo de Portugal, não perdeu qualquer oportunidade. Em devido tempo, tratou de cortar o abono a 640.000 famílias e tudo fez para que 2 em cada 5 crianças vivam abaixo do limiar da pobreza. Com a maior facilidade, afirma preocupações sociais. Concretamente, há demasiado tempo, demonstra a incapacidade mais flagrante...


terça-feira, 31 de maio de 2011

Autoridade democrática,
exercício ou demissão


O exercício da autoridade democrática apenas pressupõe uma indubitável assertividade, sem quaisquer artifícios ou paninhos quentes, instrumentos afins dos discursos passivos, agressivos e manipuladores. A autoridade democrática compreende a tolerância mas não pode continuar a admitir o nacional porreirismo cujo mais visível resultado é a horrível e perniciosa cultura do desleixo que, infelizmente, parece nada incomodar o cidadão comum.

A demissão do exercício da autoridade democrática constitui uma perversidade absoluta porque a Democracia só sobrevive quando, em todas as instâncias, se exerce a autoridade que, por definição, ela encerra. Cada vez que alguém se demite do exercício da autoridade democrática que lhe foi outorgada está a trair a própria democracia.


Na Educação, por exemplo...


Pensemos, por exemplo, numa qualquer comunidade escolar, portanto, espaço escola onde desenvolvem actividade os corpos docente e discente, para além de todo o pessoal de apoio educativo. Se, perante um problema que pode resolver – caso de quebra ou de ofensa da disciplina objecto do Regulamento da Escola – em que é suposta a sua intervenção, um cidadão professor ou assistente operacional se subtrair, de facto, ao exercício da autoridade democrática de que está investido, estará a pôr em causa os objectivos do programa sócio educativo daquela específica comunidade escolar e, também, os propósitos da comunidade educativa em que está inserida.

Na realidade, basta que algum daqueles membros da comunidade escolar, não actue, como deveria, para que, imediata e automaticamente, tudo fique em causa. Exercer a autoridade é ser autor e, em simultâneo, actor da atitude que se impõe concretizar. Se tal não acontecer, o problema detectado não será resolvido e passará a fazer parte de um acumulado de factos análogos, não resolvidos, que constituem o mais negativo património de uma casa de Educação.

...e, em geral

Este exercício de sumaríssima análise, que acabamos de aplicar ao sector onde se processam as práticas do ensino e da aprendizagem das crianças e jovens, pode alargar-se a todos os sistemas através dos quais se organiza a comunidade nacional, Saúde, Defesa, Segurança, Trânsito, etc. Daí que nos sintamos autorizados a uma conclusão muito mais abrangente., em relação ao governo resultante das próximas eleições. Ou exercerá, de facto, a autoridade democrática outorgada pela delegação de poder transferida pelos eleitores na votação ou, se assim não for, com a tendência do portuguesinho para desenrascar, comprometer-se-á o alcance dos objectivos impostos pela adversa situação em que nos encontramos.

É tão simples como isto. Não consigo concluir sem articular esta reflexão com a enorme percentagem de analfabetismo e de iliteracia, característicos da nefasta realidade lusitana que, constantemente, tenho apontado como factores primordialis afectando, tão negativamente, o resultado de todos os projectos em que nós, portugueses, nos envolvemos. Trata-se de mais elementos explosivos que teremos de saber trabalhar, com pinças, se quisermos ser capazes de exercer a autoridade democrática, no Estado Democrático de Direito que decidimos reconquistar em Abril de setenta e quatro. Caso contrário, a coisa pode mesmo explodir...

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NB: já no próximo texto voltarei ao ciclo dos artigos que estou a dedicar à Condessa d'Edla, por ocasião da reabertura do Chalet.