[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011



A propósito
do Dia das Bruxas

A propósito de quem, com tanta pertinência se insurge contra esta praga do Dia das Bruxas, apetece perguntar também sobre o tão português Dia de São Valentim… Aflige-me como, com tanta falta de lucidez, o cidadão comum embarca nestes festivais do mais acéfalo comércio.


Não menos preocupante a maneira como a própria Escola colabora nesta farsa que acaba por assumir contornos de estratégia de aculturação, além de induzir práticas de consumo sempre criticáveis e, por maioria de razões, muito mais nos dias que correm. Espanta-me que a Confederação Nacional das Associações de Pais, sempre tão verborreica, não se pronuncia.

Claro que o comércio mais banal e bacoco é a mola real desta prática. E quem o põe em causa? Quem vai preocupar-se com um assunto destes, pois se as crianças gostam tanto e até ficam tão engraçadas, mascaradas de bruxas, fantasmas e quejandos? O que é preciso é vender, animar as lojas, vender, vender!

Vendem-se as emoções à mistura com objectos perfeitamente desnecessários, vendem-se os símbolos embrulhados em papel de lustro e, sem qualquer discernimento, troca-se o carácter genuíno de algumas das nossas tradições culturais pelo falsete de importações já em vigésima terceira mão...


Acham que devemos passar alegremente por cima ou ao lado de tudo isto, como cão por vinha vindimada? Lá no fundo, não há valores em jogo?


terça-feira, 1 de novembro de 2011



Mozart: porquê Wolfgang?

De repente, só hoje, um dia depois de 31 de Outubro, me lembrei de mais uma efeméride relacionada com o universo mozartiano. Como verificarão, não admira que, ao baptizar um dos seus sete filhos, os pais de Mozart tenham escolhido Wolfgang como nome próprio do que viria a ser o genial compositor. Inspiraram-se num dos mais notáveis santos da hagiografia cristã germânica, nascido em 934, no seio de uma nobre família dos condes de Pfullingen, da região da Suábia, falecido – ora cá está – em 31 de Outubro de 994 em Pupping na Áustria.

Foi bispo de Ratisbona a partir de 972 e retirou-se para uma vida de eremita perto do mosteiro de Mondsee, junto ao lago de St. Wolfgang, muito perto de Salzburg. Naturalmente, não entrarei em detalhes da sua riquíssima biografia. No que respeita à relação com Mozart, bastará ter em consideração que Mondsee – e uma boa parte da lindíssima região montanhosa de Salzkammergut, vizinha da cidade dos príncipes arcebispos – a nível da jurisdição, dependia do bispo de Ratisbona. Terá sido, numa das suas deslocações pastorais, por aquelas paragens, que St. Wolfang decidiria retirar-se do mundo.

Bem vos posso dizer que o bom do bispo, além de todas as demais qualidades de santa pessoa, também tinha um excelente gosto. É que aqueles, em qualquer altura do ano, são mesmo dos mais belos lugares a que qualquer mortal pode aspirar. Tudo aquilo é de uma beleza de estarrecer. Garanto-vos. Conheço tão bem como a Serra de Sintra. Vou lá sempre que estagio em Salzburg e, caros amigos, para ali até eu me retiraria como eremita…

Para que, ao debruçarem-se sobre estas minhas palavras, possam partir para descobertas bem mais enriquecedoras, aqui vos lembro o nome de Michael Pacher (1430-1498), o grande pintor tirolês da transição da Idade-Média para o Renascimento, nome incontornável em Salzburg, que, em honra de St. Wolfgang, no altar-mor da igreja do que o tem como patrono, deixou um tríptico absolutamente extraordinário.

Boa pesquisa.

domingo, 30 de outubro de 2011



Para mudar de vida…

É bom não esquecer. Porque a memória é curta e a tendência para tudo confundir é uma constante, cumpre ter muito presente que, a montante da situação de penúria que se vive entre nós, há um quadro de referências nada simpático, mesmo muito pouco honroso, por vezes, pavoroso, bem diferente do que se passou noutras latitudes e que não é possível deixar de ter em consideração.


Entre outras pinceladas de tal quadro, recorde-se que Portugal se fartou de chafurdar na gamela europeia de iniquidades mal cheirosas, pelo que não podia deixar de integrar o grupo dos PIGS. É horrível, ninguém gosta da conotação com o animal – afinal, um bicho porreiro, bonacheirão, algo desconfiado, é certo – mas quem não quer ser porco não lhe veste a pele…

Sem pretender ser exaustivo, outra das referências do mesmo quadro tem a ver com a gestão errática, incompetente, indutora de não poucos e bem conhecidos crimes e casos de polícia, protagonizada por políticos do mais baixo calibre, aldrabões, ignorantes arrogantes.


O resultado de décadas do profícuo labor desta desqualificada gente ultrapassa o da generalizada mediocridade da classe política europeia. Não surpreende, nestes termos, que se evidencie a mais absoluta fragilidade da economia e finanças nacionais, bem espelhada na tremenda borrasca que sobre nós se abateu.


É um horror. Tem sido um horror, que os mais lúcidos de nós, temos vindo a tentar denunciar, clamando num deserto de cegos e surdos. E ainda mal acordámos do pesadelo. Contudo, se pretendemos que o nosso despertar constitua ponto de partida para a mudança, não haja a menor dúvida – e já o tenho escrito em várias ocasiões – é imprescindível que a comunidade nacional entenda a responsabilidade dos muitos autores do descalabro, a partir de que momento, durante quanto tempo e de que modo actuaram.


Avançar? Sem perceber?...

Estão indignados os cidadãos? Ou seja, sentem os cidadãos que uma cambada de energúmenos feriram a sua dignidade? Sentem os cidadãos que, no entanto, há que continuar a ser Portugal, mas sem cometer erros idênticos? Então urge perceber muito bem o que aconteceu. Alguém, neste caso, muita gente, fez alguma coisa muito errada, em determinados lugares, durante um certo período de tempo, com objectivos mais ou menos claros ou obscuros que resultaram no desastre que vivemos.

O horror tem, formas, caras, contornos definidos. É absolutamente crucial esclarecê-los para que, uma vez satisfeita essa necessidade de verdade, possa acontecer toda uma participação cívica que nunca foi vivida em Portugal. Só acontecerá a mobilização dos cidadãos para a mudança que importa concretizar, a caminho de outro paradigma, de outros modelos de vida mais verdadeira e consentânea com os recursos disponíveis e gerados, só acontecerá essa mobilização, repito, se soubermos ir tão longe quanto necessário à descoberta desses miasmas do horror.

Não se trata de procura mórbida dos culpados. Trata-se, isso sim, também como já tenho afirmado, de uma questão de dignidade, que se confunde com a inevitável resultante de pedagogia social de que todos os cidadãos lucrarão, em especial, as crianças e jovens. Não há outra solução ou, melhor, até haverá mas desperdiçar a oportunidade também seria a confissão de não ter estado à altura do momento.

De facto, aos mais novos, é preciso deixar a mensagem de que errámos mas soubemos despistar os erros e com eles aprender a ser melhores, para evitar a corrupção, o compadrio, a ignomínia, a fraude, a economia informal, a fuga aos impostos e todas essas chagas que temos agarradas à pele de um corpo social que, aparentemente, até muito bem com elas tem convivido…


quarta-feira, 26 de outubro de 2011


Efeméride mozartiana

Salzburg, domingo de 26 de Outubro de 1783. Primeira apresentação, na igreja St Peters, da Missa em Dó menor, KV 427. Esta data coincidiu com a ocasião em que Mozart – na altura, já instalado em Viena e casado com Constanze Weber – levou a mulher pela primeira vez a Salzburg, aproveitando para a apresentar aos seus amigos da cidade.


Na ocasião, a própria Constanze interpretou uma das partes de soprano da referida Missa. É interessante entender que a escolha de St Peters não é fruto do acaso. Trata-se de uma abadia, não dependente do arcebispado e, portanto do Príncipe-Arcebispo, conde de Coloredo com quem o compositor se incompatibilizara cerca de ano e meio antes.

Já agora vos digo que, em Salzburg, é um dos meus poisos favoritos. O ambiente de recolhimento é especialíssimo, algo que vários dos meus amigos católicos da cidade também partilham. A própria situação, de algum modo, recuada em relação à catedral e à igreja dos franciscanos, muito mais cosmopolitas, contribui para esse efeito.

Do mesmo perímetro, faz parte o famosíssimo cemitério de St Peters, com jazigos lindíssimos, estupendos trabalhos em ferro forjado. Paredes meias ficam as catacumbas, perto das quais, junto ao caminho que lhes dá acesso, numa mesma sepultura, estão depositados os restos mortais de Nannerl, a irmã prodígio de Wolfgang, bem como os de Johann Michael Haydn, compositor, tal como o irmão Joseph.


Muito mais poderia dizer-vos acerca deste lugar que prezo tão particularmente. Às tantas, uma efeméride musical arriscava-se a descambar em informação turística… Por isso, vos deixo com este maravilhoso excerto do Gloria da Missa em Dó menor que, temos a certeza, foi cantado, pela primeira vez, em público,também pela querida Constanze.*

*Para a audição, ou vão,directamente, ao YouTube – onde aconselho que seleccionem a gravação em que Leonard Bernstein dirige a Orquestra e Coros da Rádio Bávara – ou, então, visitam a minha página do facebook, com o bom acolhimento habitual...


terça-feira, 25 de outubro de 2011



Impressões musicais [IX]



Como verificam, estou um pouco atrasado. Depois do dia 18, já ocorreram outros eventos na Gulbenkian acerca dos quais vos darei nota. Por isso, desde ontem e nos próximos dias, aparecem umas impressões de enfiada. Não se espantem porque, depois, entraremos no ritmo certo.

3ª Feira, 18 de Outubro, 19,00 h – Arcadi Volodos, Recital de Piano. Grande Auditório da Fundação Gulbenkian.

Arcadi Volodos é um dotadíssimo pianista, acabado de entrar na casa dos quarenta, cuja carreira já acompanho há anos, umas vezes na Gulbenkian, outras em Sintra - enquanto a organização do Festival ainda tinha dinheiro para lhe pagar o caché... - e também em Salzburg, onde tais problemas de falta de dinheiro não se colocam com tanta premência até porque os nossos amigos austríacos fazem mesmo reflectir no preço dos bilhetes o real valor dos encargos.

De qualquer modo não deixa de ser interessante assinalar que, só na Gulbenkian, será possível assistir a um recital por um destes galácticos, como Volodos, por doze euros e meio… Mas vamos ao que interessa, senão lá se vai a meia dúzia de parágrafos que me pediram por cada evento. Já sabem que não entrarei em detalhes biográficos, que encontrarão na net, pelo que passo já às peças e a umas notas acerca da sua interpretação.


Escolheu um reportório eminentemente romântico, começando por nos propor a Sonata para piano em Lá menor, D.784 de Franz Schubert (1797-1828). Datada de 1823, emparceira com outras peças da maturidade do compositor, tais como as famosas Fantasia Wanderer ou Sinfonia nº 8, Incompleta e, ainda que tenha recebido o epíteto de ‘Grande Sonate’ não tem a dimensão das de quatro andamentos, como a D 959, em Lá Maior, por exemplo.

Volodos foi pródigo na transmissão de toda a carga emocional da peça, nos mais variados registos do primeiro andamento, Allegro giusto, em que prevalece uma introspectiva melancolia. Seguidamente, no Andante, soube pôr em evidência toda a intrincada rede de melodias, recorrendo a pausas profundíssimas, quase no limite do suportável, para que no Allegro vivace final concedesse a sensação de ansiedade, a caminho do recolhimento e da interiorização de impressões suscitadas por eventuais estímulos e desafios poéticos.

Seguidamente, abordou os três Intermezzi, op. 117 de Johannes Brahms (1833-97), obra dominada por um cariz bucólico, contemplativo, nostálgico, num ambiente que, por vezes, raia o universo de uma certa tristeza, algo dolorosa, servida por uma linguagem tradicional. De facto, continuamos no romantismo, já finissecular, pós wagneriano. Contudo, este mundo de Brahms nada deve ao demiurgo de Bayreuth, aqui referido como pólo de outro germanismo, ainda que coevo.

Finalmente, a pièce de résistance, deste recital de Volodos, a célebre Sonata em Si menor, de Franz Liszt (1811-1886) por muitos considerada a obra-prima deste compositor e, inequivocamente, uma das mais importantes e exigentes, da pianística de todas as eras, peça monumental, com cerca de meia hora, num só andamento, embora com seis indicações de tempo, um sucessivo cardápio de todos os recursos do virtuosismo ao serviço de um conteúdo que não se afasta do ambiente das outras obras interpretadas neste fim de tarde.

Felizmente, posso comparar com outras ocasiões em que Volodos interpretou esta obra, de 1853, meio do século e meio da vida do compositor. Desta vez, se possível é afirmá-lo, ainda conseguiu cavar mais no terreno fértil de Liszt, foi mais fundo, mas sempre muito refinado, com pinças em cada nota, especialmente nos lento assai inicial e final, um verdadeiro tratado, sempre em suspenso do efeito que conseguiria arrancar de certas notas, ou acordes, que todos conhecemos, mas à espera da surpresa.


Com todos estes tão subjectivos parâmetros de apreciação, claro que é muito alta a minha avaliação do recital de Volodos. Sabiamente, proporcionou-nos três momentos muito distintos de uma estética, a romântica, riquíssima, praticamente inesgotável, nos seus inúmeros matizes.

A satisfação plena só não aconteceu devido a tosses, pigarros e quejandos efeitos do tabaco e da idade, perfeitamente incompatíveis com a Música. Como sabem ou calculam, acontece sempre. Mas nem sempre acontece que tenhamos a mesma condescendência… Enfim, atribulações de quem privilegia este contacto directo com a Arte.

PS:

1. Na edição do facebook, este mesmo texto termina com a proposta de audição da Sonata em Si menor de Liszt, interpretada por Volodos, em Bruxelas, uma semana antes de se ter apresentado em Lisboa no recital que comentei. Trata-se de uma gravação clandestina que está disponível no YouTube. Se quiserem acreditar, na Gulbenkian ele ainda esteve melhor... Vale mesmo a pena ouvir.

2. Só agora me dei conta de não ter reparado que, antes do recital ao qual hoje me refiro, deveria ter escrito sobre a récita de ópera em São Carlos. Fá-lo-ei da próxima vez, desobedecendo à ordem cronológica.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A pedido de várias famílias

Confiantes na minha opinião, alguns amigos e conhecidos sugeriram que publicasse umas pequenas notas de divulgação e impressões, acerca da música que vou ouvindo nos auditórios onde passo uma boa parte da minha vida. Não pretendem o tipo de crítica que, durante anos, semanalmente, produzi em centenas de páginas do Jornal de Sintra – especialmente com textos exclusivos sobre o que acontecia em Salzburg – mas apenas três ou quatro parágrafos, tão ligeiros quanto possível.

Sugerem-me, em suma, que não perca tempo com referências biográficas, nem dos compositores nem dos maestros e solistas, sem me preocupar com os curricula das orquestras e outras notas a que, hoje em dia, se pode aceder na internet. Ainda me convenceram com a ideia de que, eventualmente, os meus escritos poderão ter a vantagem de serem completamente descomprometidos em relação à clique musical da capital. Pois bem, se têm estado com atenção, até já dei início.

Muito informalmente, comecei esse tipo de trabalho que, sem qualquer intuito de sistematização, apareceu nos meus meios de comunicação, portanto, no blogue sintradoavesso e no facebook. Assim sendo, recordarão que, tão somente acerca de programação musical da Gulbenkian, a partir do fim do mês passado, já publiquei textos acerca de Die Schöpfung / A Criação, Hob.XXI:2, de Joseph Haydn (29.09.11); La finta giardiniera, K.196 de Wolfgang Mozart (02.10.11) e, ainda, acerca da Integral dos Quartetos para Cordas de Dmitri Chostakovitch, (9, 11, 12, 16 e 17.10.11).

Em tão pouco tempo, já me referi a sete (VII) eventos, i.e., recapitulando, uma Oratória de Haydn, uma ópera de Mozart e cinco concertos de música de câmara de Chostakovitch, em interpretações do mais alto gabarito. No entanto, até ao presente, já assisti a mais quatro concertos e a uma récita de ópera, sobre os quais me apresso a dar conta, para bom cumprimento da encomenda referida no primeiro parágrafo. O melhor, nestas coisas, é seguir a ordem cronológica.

Impressões Musicais [VIII]*

5ª Feira, 13 de Outubro, Orquestra Gulbenkian, Sol Gabetta, violoncelo, Lawrence Foster, maestro. Auditório a três quartos da lotação. Naquela noite, a primeira obra interpretada – que, para todos os efeitos, costuma funcionar como introdução ao concerto e para aquecimento da orquestra – foi a Valsa-fantasia, para orquestra, em Si menor de Glinka (1804-57). Trata-se de uma peça curta, originariamente escrita (1839), com referências a alguma música sacra ortodoxa, melodias de recorte orientalizante e de manifesta sensualidade. Interpretação escorreita.

Numa semana toda dedicada aos seus Quartetos para Cordas, Chostakovitch também estaria presente com o Concerto para Violoncelo e Orquestra nº 2, op. 126, estreado em Moscovo em 25 de Setembro de 1966, dedicado ao mítico violoncelista Mstislav Rostropovitch (que eu tive a felicidade de ver e ouvir interpretar este mesmo concerto, em Salzburg). Julgo que, nesta obra, o maior contributo do compositor se traduz ao nível da enorme paleta da grelha rítmica e na articulação e integração dos recursos harmónicos, em especial nos andamentos médio e final.

É um concerto que exige ao solista um empenho absolutamente sem tréguas, com imensas explosões de ânimo violento, ressonâncias à música popular de pendor cigano, referências militaristas e marciais, bem como motivos de lirismo inexcedível a que Sol Gabetta, a violoncelista argentina, correspondeu de forma comovente, numa interpretação dionisíaca, muito mais exuberante que a de Rostropovitch a que já me referi, ou à de Janos Starker a que também assisti. Aplausos muito vibrantes.

Finalmente, a Sinfonia nº 4, em Fá menor, op. 36 de Tchaikovsky. Sem me internar em detalhes de ordem biográfica, é fundamental ter em consideração que esta obra, composta entre 1877-78, coincide com um período muito sombrio da vida do compositor, durante o qual se casou com Antonina Milyukova, em 18 de Julho de 1877, dela se tendo separado apenas umas semanas depois. Foi na música, precisamente nesta sinfonia, que Tchaikovsky deixou as marcas mais profundas desse tempo.

Há um tema, o do destino, que permanece ao longo dos quatro andamentos, concretizado pelas trompas e fagotes, logo no Andante sostenuto inicial. O ambiente sempre reinante é de uma evidente melancolia introspectiva, que o compositor tenta compensar com o recurso a vislumbres de melodias da tradição popular. Porém, nunca é superado um certo reduto de autocomiseração. No meio de tudo isto, que não é pouco como caldo de enquadramento, Tchaikovsky propõe melodias avassaladoras, com fortissimi, tutti vibranti que, para qualquer orquestra, são prova de fogo.

A propósito de fogo, deixem que me refira ao andamento final, Allegro com fuoco que, por manifesta responsabilidade do Maestro, resultou numa quase amálgama do som produzido pelas percussões e metais dos registos mais graves. Àquilo que ouvi chama-se, meus caros amigos, falta de subtileza. E, sem margem para qualquer dúvida, a responsabilidade é do dirigente, que pediu aos músicos o que não devia e que, certamente, o compositor não pretendia.


*A numeração corresponde, portanto, ao oitavo evento da temporada que tenho vindo a comentar. Os textos que se seguirem obedecerão à ordem agora enunciada.

Kadafi, Sócrates, Amado & Cª



Perante aquelas imagens tão degradantes do fim do ditador líbio, muito gostaria eu de saber o que, por estes dias, pensam e sentem uns certos figurões da nossa praça, decisores políticos, ao mais alto nível da hierarquia do Estado, nomeadamente, os anteriores Primeiro-Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros que, por várias vezes, ultrapassaram o que, para efeito das relações entre Estados, pode ser considerado como a bitola da conveniência, para se encontrarem formal e informalmente com um político tão controverso.

Em nome de Portugal – é bom não esquecer – aqueles senhores aceitaram o convite, sentaram-se à mesa e banquetearam-se na companhia de um sujeito que, dificilmente, alguém apertaria a mão por uma questão meramente protocolar. E, tanto quanto me recordo, na altura, só Ana Gomes, embaixadora de carreira, teve a coragem de dizer e escrever, preto no branco, o que pensava da atitude de Luís Amado, quando foi comemorar já não sei quantos aniversários – se não me engano, seria o quadragésimo – da «revolução» líbia, sob a tenda do farsante.

A circunstância de haver outros governantes internacionais que tiveram idêntico comportamento não atenua, de modo algum, a decisão dos referidos membros do Governo de Portugal. Aliás, se alguma coisa significa tanto dislate é que reina a maior falta de nível entre os líderes mundiais que, paradoxalmente, foram eleitos, por povos soberanos e considerados esclarecidos, em Estados Democráticos de Direito. Dá que pensar e não deixa de ser altamente perverso.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Natureza-morta,
outras faces da realidade


Ontem, na Galeria de Exposições Temporárias da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, houve inauguração da exposição A Perspectiva das Coisas, A Natureza-Morta na Europa, Séculos XIX-XX (1840-1955), tratando-se da segunda parte da iniciativa que, entre Fevereiro e Maio de 2010, se subordinou ao mesmo título, abrangendo os séculos XVII e XVIII.

Estamos perante uma organização exemplar, nos termos da qual a exposição funciona mesmo como privilegiado lugar de formação, como gostava de afirmar o meu amigo Christian Carrière, da Peuple et Culture de Paris que, há trinta anos, eu trouxe a Lisboa, ao Museu do Traje, para proferir uma conferência que tinha como tema aquela expressão.

Neste dispositivo, não constitui novidade que haja vários núcleos temáticos, enquadrando um determinado conjunto de peças, que jogam diálogos do maior interesse, cuja lógica interna faz parte do processo de acesso às obras e ao entendimento da proposta dos seus autores, enquanto estetas, manipuladores, transformadores da realidade.

A designação daqueles núcleos logo suscita a vontade de entrar no jogo. Deixo-vos, a título de exemplo, algumas das sugestões. Negociar a tradição: dádivas da natureza e artifícios. Jogos de relações: a natureza-morta enquanto forma. Exílios e outros: política, primitivismo e o eu interior. A essência das coisas: materialidade e imaterialidade. A crise do objecto: sonhos e pesadelos. Da cena de caça ao horror. Da perspectiva das coisas.

Ali se propõe um circuito no tempo, no espaço e, não menos importante, um percurso pelos meandros que cada visitante consigo transporta. É impossível que, no fim da viagem, alguém permaneça igual ao momento em que a iniciou. E, meus senhores, o principal desta mensagem, a raríssima possibilidade de apreciar obras-primas da pintura deste período, vindas das mais prestigiadas colecções, de Manet, Monet, Renoir, Van Gogh, Gauguin, Cezanne, Braque, Picasso, Juan Gris, Dali, Magritte, Matisse.

A exposição abrange um período que termina em 1955, o ano da morte de Calouste Gulbenkian, assinalado por uma natureza-morta de Giorgio Morandi, datada daquele ano. É uma data artificial que, nos termos do prospecto de apresentação, os organizadores consideram “(…) simbólica da sua missão de reflectir e dar a ver a produção artística que interessou ao Coleccionador ou foi sua contemporânea (…)”.

Bem, não sei como a missão poderia ter sido mais bem cumprida… A grande Gulbenkian, de facto, não deixa os créditos por mãos alheias. O que ali está é mesmo do melhor do mundo e vai lá ficar até 8 de Janeiro de 2012, sendo esta uma daquelas exposições que bem merece se faça umas centenas de quilómetros para não perder. Vão por mim...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


Chostakovitch,
na Gulbenkian, epifania dos quartetos

Como tive oportunidade de anunciar, a Gulbenkian proporcionou ao público português, nos passados dias 9, 11, 12, 16 e 17 deste mês, a oportunidade de aceder à integral dos quartetos de Dmitri Chostakovitch, na interpretação do Quarteto Borodin, considerado o mais qualificado do mundo neste reportório.


É de propósito que acabo de escrever público português e não público da capital, já que esta proposta é de tal modo rara que, de facto, deveria ter suscitado interesse nacional, reclamando deslocações até Lisboa dos verdadeiros melómanos de todo o país. Seria assim em qualquer latitude civilizada desta nossa Europa. Infelizmente, e, como é habitual acontecer no Grande Auditório da Av. De Berna, o público acorreu muito escassamente e, apenas no último dia, compôs a sala.

É, inquestionavelmente, nestes quinze quartetos, que somam algumas das mais densas seis horas de toda a História da Música ocidental, que o compositor russo dá a conhecer a profundidade mais autêntica da sua personalidade, declaradamente, nos seus aspectos mais compósitos, eclécticos e controversos.

Naqueles excepcionais fins de tarde de glória, quem não veio até à Gulbenkian dir-me-á que pode aceder a este incomparável núcleo de peças da música contemporânea através das gravações disponíveis. Não contradirei. Claro que eu também as tenho. Mas, alguma vez, me passaria pela cabeça não estar presente, no preciso e irrepetível momento em que esta Arte se refaz, na verdade do directo, que jamais alguma gravação proporcionará?

Os quartetos abrangem quase quatro décadas, entre 1938 e 1974. Nestas peças está plasmada toda uma série de momentos da rica e biografia do grande artista e cidadão, que viveu constantemente na corda bamba, fazendo um percurso pessoal conturbadíssimo, com três casamentos, ao longo de um período em que, a nível político, tão determinante para a sua carreira, pontificaram Estalin, Khruschev e Brejnev.

Quem conhece a obra de Chostakovitch percebe o que pretendo partilhar. É que nas outras componentes da sua obra, nunca o compositor foi tão ao fundo de si próprio, atingindo esta seriedade e tanta verdade. Foi esta proposta de convívio na Arte que nos trouxeram os Borodin, agrupamento ao qual o autor confiou informações determinantes para a interpretação destas composições, que têm sido escrupulosamente transmitidas durante os sessenta anos de vida deste conjunto de câmara.

Ainda vamos no princípio da temporada 2011/12 e a Gulbenkian já averbou este tão marcante sucesso. Por muito tempo, vão ressoar os efeitos destas audições. Se querem saber, passada esta semana, sou um homem algo diferente. Estou muito mais rico, facto nada despiciendo neste período de austeridade e de recessão…


NB:
Se quiserem aceder a uma gravação, só têm de ir à minha página do facebook. Subordinada a este mesmo texto, lá encontrarão o primeiro andamento do Quarteto no. 15, precisamente pelo mesmo agrupamento. É uma verdadeira maravilha.

terça-feira, 18 de outubro de 2011



Sintra,
entre Pisões e Regaleira


Quero chamar a sua atenção para o despautério que ocorre a meio caminho, no percurso entre as Quintas dos Pisões e da Regaleira. Acompanhe-me até lá e não se deixe impressionar pelos primeiros passos que, de facto, são muito agradáveis.

Já deixou para trás o Lawrence´s, seguindo pelo passeio da direita, para alcançar a zona do gradeamento. Infelizmente, o empedrado, desnivelado, esburacado, não está melhor do que noutras tão aprazíveis como esta zona de Sintra. Dê-se por muito contente já que, nos últimos tempos, não tem havido mosquedo à volta dos imponentes contentores que, de vez em quando, estão a abarrotar, com embalagens e outro lixo à volta.

Não se adiante. Conceda-se o tempo bastante. A grade convida-o a debruçar-se. Faça-o que não se arrependerá. Durante o tempo que precisar, a vista vai descansar sobre aquele profundo anfiteatro verde, um tanto ou quanto caótico mas muito aprazível. Não raro, com alguma sorte, ouvirá o cantar de uns garnisés que, por ali, são useiros e vezeiros. A passarada é muita pelo que não lhe será difícil ser testemunha de algum recital. Será que o merece?...

Depois da pausa, poderá continuar. Vai passar ao portão de moldura renascentista da Quinta dos Pisões. Quando observar o trabalho de cantaria, não deixe de reparar, à sua esquerda, a média altura, na data de 1533. Este Palácio dos Pisões pertenceu aos Duques de Aveiro, constando que ali se terão reunido alguns dos conspiradores que pretenderam atentar contra o Rei D. José. Mais tarde, veio a fazer parte do vastíssimo património de Miguel David Gallway, o tal que se gabava de poder ir de Sintra a Mafra sempre pisando propriedade sua…

Do outro lado da estrada, a Fonte dos Pisões, ali instalada em 1930, e que nada tem a ver com a primitiva, idêntica à que hoje ainda existe junto ao Convento da Trindade, entre Santa Maria e São Pedro. Como vê, está desbotadíssima, com aquele ocre infestado de líquenes, escurecendo toda uma superfície que teria direito a outro estado se tivesse sido capazmente executada a última obra de limpeza e manutenção. Mas esse é outro peditório para o qual já contribuí devidamente…*

Ora bem, é uns metros mais adiante, mesmo junto a um pequeno portão verde, imediatamente anterior ao recinto da cascata da Regaleira, que pode deparar com o tristíssimo espectáculo que tive o cuidado de avisar logo no primeiro parágrafo deste escrito. Bem lhe disse que a primeira parte, esta que percorreu até agora, até era agradável.

Contudo, como vê, sem qualquer disfarce, essas pedras, aí deixadas de qualquer maneira, com desperdícios outros, a vala que atravessa a estrada, o horror da caixa que foi aberta e depois apenas coberta com saibro, um metro quadrado donde brota água, escorrendo rente ao passeio, são ingredientes de uma cena de terceiro mundo que parece não susceptibilizar seja quem for, tão habituada está a gente a coisas que tais.


Eu vi quando e como a coisa começou, na passada sexta-feira, dia 14, a meio da manhã, pelas mãos de um piquete dos SMAS de Sintra. Nada me surpreendeu por o trabalho estar a ser feito à touxe-mouxe, na altura, sem qualquer sinalização, quando, repare-se, era preciso romper uma vala atravessando o alcatrão da estrada e, do outro lado, abrir a tal referida caixa… Enfim, bem à portuguesa, na variedade sintrense… O que não me passava pela cabeça, apesar de muito causticado por desmandos similares, é que, em primeiro lugar, a coisa fosse assim dada por concluída e que, cinco dias passados, ainda permaneça na mesma.

É uma vergonha! Como verifica, não estou a exagerar seja o que for. Mas os SMAS de Sintra dão-se ao luxo de nos cobrar tarifas absolutamente milionárias, perfeitamente incompatíveis com o cenário em presença. Vergonha seria para quem ainda tenha um pingo da dita. No caso vertente, não sei a quem me queixe. Estou farto de incomodar o Presidente da Câmara que, em última instância… Depois, tenho maior consideração pelo Vereador, Engº Baptista Alves, que também tem as costas muito largas…

Bem, para já, o primeiro manifesto da minha indignação já está apresentado. E você, que foi destinatário e cúmplice deste texto, já pensou a quem vai dirigir-se? Ou vai fazer como sempre, esperando que este ou outros escribas, armados em Don Quixote, tomem as suas dores e o representem nestas instâncias? Não acha que vai sendo tempo de participar nas denúncias e de pôr a funcionar a cidadania? Mexa-se! Valha-o Deus!...


* Ler o texto aqui publicado, em 27 de Agosto de 2009, Às fontes, às fontes, numa pressa...