[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 10 de novembro de 2011



Stockhausen, Momente

Daqui a pouco, pelas nove da noite, na Gulbenkian, [repete amanhã, às sete da tarde], primeira audição em Portugal desta peça, datada de 1962, que Stockhausen considerava a sua obra máxima, "(...) praticamente. uma ópera sobre a Mãe Terra, rodeada pelos seus filhos (...)". Tem textos de diversas origens, de William Blake a Malinowski, Lutero ou Mary Bauermeister.

Conheço a obra. Recomendo o mais possível. Acho mesmo que é imperdível. Em palco, vão estar o Coro e a Orquestra Gulbenkian, a voz de soprano será de Julia Bauer, tudo sob a direcção de Peter Eötvös. Por favor, mesmo que chova a potes, saiam das pantufas. Que não aconteça o costume, isto é, casa meio lotada ou, vergonha das vergonhas, umas duzentas pessoas no máximo. Logo vos darei conta.

http://youtu.be/aZdtGa7PosMVer Stockhausen- Momente (1/2) http://www.youtube.com/
Couperin, Le grand

Hoje é dia de celebrar o aniversário de François Couperin nascido em Paris, aos 10 de Novembro de 1668, cidade onde faleceu em 11 de Setembro de 1733.

Compositor importantíssimo do período barroco francês, também ficou conhecido como organista e cravista. Como era membro de uma vasta família de músicos, para que não houvesse confusões, logo foi cognominado como
Couperin le Grand.

Proponho a audição de Les Nations, com o subtítulo Sonades et Suites de Simphonies en Trio, obra imensa, composta entre 1690 e 1725. Como introdução, aqui vos deixo com uma interpretação do Hesperion de Jordi Saval, num excerto do Nº 2: L’Espagnole, em Dó menor (com uma suite de 9 danças).

Importa referir que a estupenda passacaglia, sobre a qual termina a «sonade» de L’Espagnole, é construída sobre um tema muito trabalhado na época, por exemplo, presente no baixo das Variações Goldberg de JS Bach e na fuga final do Dixit Dominus de Vivaldi.

Boa audição. E, por favor, continuem a pesquisar e a ouvir esta obra de Couperin. Como podem entender, para os meus amigos, só quero o melhor…


http://youtu.be/jUda2Th4b
Francois Couperin L'Espagnole Jordi Savall
www.youtube.com



Mozart,
Árias de concerto, de 9 de Novembro

Mais uma efeméride mozartiana. Estreia, em 9 de Novembro de 1789, das duas árias de concerto Chi sà, chi sà, KV. 582 e Vado ma dove? oh Dei? KV. 583. Aí vos deixo com a Bartoli, no Festival de Luzern - um dos meus preferidos, de qualidade tão boa como o de Verão, de Salzburg - sob a direcção de Abbado, na interpretação da primeira citada.

Querem reparar num pormenor que bem aquilata do altíssimo nível desta orquestra do Festival de Luzern? Então reparem no som do clarinete que estão ouvindo. Na maior parte das vezes, a clarinetista está encoberta pela Bartoli. Mas há alturas em que se vê distintamente. É, nem mais nem menos, do que Sabine Mayer. Por muitos melómanos é considerada a grande intérprete deste instrumento, a melhor, a nível mundial.

Abbado consegue esta coisa extraordinária que é reunir, em Luzern, uma orquestra que apenas funciona anualmente, como apoio ao Festival, constituída por músicos que são a crème de la crème, grandes solistas, chefes de naipe das melhores orquestras europeias e não só. Naturalmente, a qualidade é espantosa.

E Luzern é uma cidade realmente fascinante, com memórias musicais únicas. Como Triebschen, a casa de Wagner, onde, escreveu ele, foi mais feliz do que nunca em toda a sua vida. Um local de eleição, com uma estupenda localização, onde compôs o Idílio de Siegfried, oferecendo-o a Cosima, como presente de anos e de Natal.

E, ainda, só para citar mais um entre outros lugares, o Hotel Schweitzerhoff onde a estada é um sonho, naquela magnífica situação sobre o Lago dos qutro Cantões, hotel onde se faz e ouve belíssima música. Ali, por exemplo, em 1981, ouvi eu, numa bela manhã de Setembro, um Barenboim, ainda na casa dos trinta, tocando duas sonatas de Schubert como nunca mais tocou, digo-vos eu que, depois disso, já o ouvi dezenas de vezes.

Enfim, não são só as memórias de uma cidade muito musical, são as memórias de anónimos, como eu, que enriquecem, em Luzern, com sinais interiores de uma riqueza que, graças a Deus, jamais será tributável... Eis as referências da gravação. Basta clicar para se deliciarem:

[http://youtu.be/PCk8Ovfb2Uc
W.A.Mozart Cecilia Bartoli Chi sà, chi sà www.youtube.com
W.A.Mozart Chi sà, chi sà, qual sia, aria per soprano & orchestra, K. 582 Cecilia Bartoli, Lucerne Festival Orchestra, direttore Claudio Abbado]

Claro que não poderia deixar de vos propor a outra peça anunciada. Esta Vado, ma dove? oh Dei, embora a intérprete não esteja identificada, posso garantir-vos tratar-se de Christiane Oelze. Conheço-a bem, de Salzburg. E também já cá tem estado na Gulbenkian. Como verificarão é muito especial. Está a fazer-se uma "mozartiana". De facto, não é coisa que aconteça rapidamente. Vai-se fazendo...
Mais uma vez, eis a gravação:

[http://youtu.be/TZvbIsfNahoMozart : Vado, ma dove oh Dei!, KV 583 www.youtube.com concerto aria for soprano and orchestra Vado, ma dove oh Dei!, KV 583]


AT: Que esta prenda das duas árias de concerto de Mozart, em comemoração da efeméride, não vos distraia do post publicado há umas horas, Surpresa, surpresa... que, esse sim, é a pièce de résistance do dia.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011



Surpresa, surpresa!...


Hoje, só ao fim da tarde, me foi possível fazer a caminhada dos seis quilómetros à hora. Escrevo assim, com este à-vontade, sobre uma prática quotidiana que muito me beneficia porque, muito para além da minha vontade, esse meu hábito é do domínio público. Ao passar pelas ruas, lojas, vou sendo saudado, há pessoas que, ao volante dos seus automóveis, me cumprimentam, gente que só reconheço depois de reconhecer o carro…

Sim, de facto, devo já ter-me transformado em mais uma das personagens da cena sintrense e, muito possivelmente, até já terei uma alcunha, do género o andarilho ou coisa parecida… Em Sintra, infinitas são as possibilidades de variar o percurso e, cada uma, sempre gratificante. Tal não significa que não depare com as irritantes situações que não me tenho cansado de denunciar, tanto aqui como na imprensa regional, ao longo dos anos.

Palmilho caminhos variados, é certo, mas mantenho-me fiel a algumas opções que, pelas suas características, contribuem para o meu bem-estar físico e mental. Não consigo passar o dia sem estas andanças. E, esteja onde estiver, em Portugal, no estrangeiro, mesmo com muita neve e temperaturas bem negativas, os seis quilómetros à hora são para cumprir. Mas não posso desviar. Voltemos a Sintra.

Uma das alternativas, que muito frequento, é a que passa pela Regaleira para, dali me encaminhar ou para a Fonte dos Amores ou para o Caminho dos Castanhaes. E, de acordo com o que tive oportunidade de convosco partilhar, foi entre os Pisões e a Regaleira que deparei com o despautério que referi, em 14 de Outubro e ontem mesmo, ou seja, a vala a toda a largura da estrada que, tão despudoradamente, se eternizava para escândalo de peões e condutores.

Ora bem, de ontem para hoje, a coisa foi arranjada. Acabou o saibro, acabaram as poças de água e, muito civilizadamente, foi aplicada a camada de alcatrão que o problema reclamava como única solução. Infelizmente, não poderei afirmar que agora está tudo impecável. De facto, não está. Na valeta, junto ao passeio, acumulou-se lama que podia ter sido e não foi removida. Acabará por desaparecer por obra e graça da água das chuvadas?

Esperemos que sim. Desconheço e pouco interessa se a minha chamada de atenção pesou alguma coisa para o desfecho da questão. A intervenção cívica de alguns sintrenses, entre os quais me incluo, de denúncia de situações como a do caso vertente, não se concretiza por qualquer vontade de protagonismo. Acontece, por bem e por amor a Sintra. Por vezes, os autarcas distraem-se. O nosso dever é não permitir que sosseguem…

Não fazem mais do que o seu dever? Não são pagos para isso? É caso para agradecer? Eu acho que sim. Não só por uma questão de boas maneiras, no quadro da elegância que deve pautar as relações entre munícipes preocupados e os eleitos, mas também porque, fundamentalmente, é Sintra que agradece. E, se há coisa que me dá gozo, é assumir a voz de uma Sintra reconhecida por um carinho que lhe é feito.

Hoje, ao fim da tarde, já com alguns candeeiros de iluminação pública a acender, tive o gratíssimo prazer de ver remediado uma daquelas irritantes situações. Foi um benefício suplementar da caminhada. Por isto, então, muito obrigado, Senhor Presidente. Olhe, já agora, replique a mesma atitude tantas quantas as vezes necessárias!...


terça-feira, 8 de novembro de 2011


O buraquinho de Sintra
e as crateras nacionais


"(…) Eu vi quando e como a coisa começou, na passada sexta-feira, dia 14, a meio da manhã, peldoisas mãos de um piquete dos SMAS de Sintra. Nada me surpreendeu por o trabalho estar a ser feito à touxe-mouxe, na altura, sem qualquer sinalização, quando, repare-se, era preciso romper uma vala atravessando o alcatrão da estrada e, do outro lado, abrir a tal referida caixa… Enfim, bem à portuguesa, na variedade sintrense… O que não me passava pela cabeça, apesar de muito causticado por desmandos similares, é que, em primeiro lugar, a coisa fosse assim dada por concluída e que, cinco dias passados, ainda permaneça na mesma.


É uma vergonha! Como verifica, não estou a exagerar seja o que for. Mas os SMAS de Sintra dão-se ao luxo de nos cobrar tarifas absolutamente milionárias, perfeitamente incompatíveis com o cenário em presença. Vergonha seria para quem ainda tenha um pingo da dita. No caso vertente, não sei a quem me queixe. Estou farto de incomodar o Presidente da Câmara que, em última instância… Depois, tenho maior consideração pelo Vereador, Engº Baptista Alves, que também tem as costas muito largas… (…)”

[excerto do texto Sintra, entre Pisões e Regaleira, publicado no sintradoavesso em 21 de Outubro de 2011]


Dentro de dias, passará um mês sobre o caso. Entretanto, como ali passo todos os dias, tenho dado conta dos lamentáveis benefícios que os serviços autárquicos acrescentaram ao despautério. Não pensem tratar-se de total ironia porque, de facto, sucederam duas intervenções que passarei a detalhar.

Numa primeira, limitaram-se a atirar com umas pazadas de saibro, preenchendo o buraco que rasgou o alcatrão da via. No entanto, assinale-se que continuaram a deixar as pedras e desperdícios sobrantes da obra inicial, de um lado e do outro da estrada. Naturalmente, depois das primeiras chuvadas, os veículos passantes encarregaram-se de tudo esburacar e, mais uma vez, de pôr bem às claras, a referida vala.

Na segunda e última tentativa de atamancar a coisa atiraram com mais saibro, dando-se ao cuidado de remover as pedras e desperdícios. Novamente, como seria de esperar, lá está a vala esburacada, com água a espirrar e salpicar, de cada vez que passa um veículo. E, como sabem, tratando-se de um dos mais turísticos trechos de Sintra, de trânsito obrigatório para quem se desloca entre a Vila Velha, a Regaleira, Seteais, Monserrate, etc, há mesmo muitos carros por ali.

Perguntarão porque me dou eu ao trabalho de continuar a denunciar a existência de um simples buraquinho quando, também no concelho de Sintra e em todo o país, muito mais preocupantes são os medonhos buracões onde vimos caindo, em consequência de péssimas decisões de políticos, a nível local e central, ao longo de anos e anos de fartar vilanagem.

À laia de resposta, lembraria que, tanto a montante do buraquinho de Sintra como das crateras nacionais, há um mesmo tipo de mentalidade, indutor da designada cultura do desleixo que, de forma tão decisiva, prejudica o nosso rendimento individual e colectivo. Por outro lado, estas coisas não acontecem sem que alguém tenha de ser responsabilizado.

Ora bem, aquele é outro seríssimo problema porquanto, quem se atreve a exercer a autoridade democrática que detém, muito raramente, verá resolvida, em tempo útil, a questão que desencadeou com o objectivo de rectificar algo de errado. Claro que tudo isto resulta num desânimo, numa desmobilização sem nome, minando qualquer hipótese de recuperação das localidades, das regiões e do país em geral…

PS

E ainda há quem se admire quando, perante o quadro de desânimo suscitado pela existência de muitos milhares de situações congéneres, tantos jovens qualificados estão a sair do país? A propósito, soube ontem que dois irmãos, entre os vinte e cinco e trinta anos, engenheiro um e enfermeiro o outro, filhos de um meu ex-colega, desencantados com o que por aqui se passa, irão brevemente para Inglaterra, onde já têm emprego assegurado. Como não?




sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Seara,
nacional e local

“(…) Sabemos que temos em Vossa Excelência um porto de abrigo e uma muralha segura (...). O Guardião das expectativas de muitos de nós. Guardião contra aventuras insensatas ou medidas cegas e injustas (…)

Fernando Seara, 3 de Novembro de 2011, em Sintra, dirigindo-se ao Presidente da República.

Depois destas palavras do Prof. Fernando Seara, o Presidente da República ainda ficou mais encostado à parede do que já se havia colocado quando, referindo-se à supressão dos subsídios de Natal e de férias aos funcionários públicos e pensionistas, alertou para o facto de estarem feridas de falta de equidade fiscal as medidas constantes da proposta do Orçamento de Estado de 2012.

Ontem, circunstancialmente investido na função de anfitrião, Fernando Seara soube aproveitar a sua autoridade e notoriedade públicas, para lembrar ao PR como ficou e está amarrado ao compromisso que, formal e implicitamente, assumiu ao criticar a opção do executivo de discriminar um grupo de cidadãos, imputando-lhes a possibilidade de os afectar com uma carga insuportável de sacrifícios.

Ao inquilino de Belém ainda faltava vir a Sintra ouvir os mais directos e distintos ecos da caixa de Pandora que abriu. Nesse sentido, Fernando Seara não podia ter sido mais certeiro e pertinente. Ali, para além do autarca de um dos concelhos mais difíceis e populosos do país, falava o porta-voz de milhões de contribuintes portugueses que, maximamente indignados, ainda não saíram do torpor e do choque do anúncio das referidas medidas.

Portanto, desde já, é para agradecer. Por outro lado, não é preciso ser particularmente perspicaz para perceber que o alcance das palavras do Presidente da Câmara Municipal de Sintra ultrapassa este importante episódio que precedeu a discussão do Orçamento de Estado. De facto, sob a designação de aventuras insensatas e medidas cegas e injustas, o que está sob a mira do discurso de Seara, é todo um perigoso rol de intenções do Governo, em desenfreada fuga, à frente dos compromissos com a troika.

PS

Ontem, numa intervenção de carácter nacional, o autarca de Sintra distinguiu-se, de modo particularmente honroso. Uma especial e cordial saudação, com os meus sinceros parabéns. Entretanto, permita-me recordar-lhe que, em Sintra, mesmo em tempo de economia de guerra, adoptando soluções da maior austeridade, é imperioso acudir à resolução de problemas que o Prof. Fernando Seara bem conhece.




quinta-feira, 3 de novembro de 2011



Miguel Sousa Távares,
ao pontapé na gramática


Desta vez, não me contenho. E não vos tomo muito tempo. Ontem, em diálogo com Rodrigo Guedes de Carvalho, durante o noticiário das oito da noite da SIC, alto e bom som, MST disse quaisqueres – como plural do pronome indefinido qualquer – e aplicou o termo perca, ao pretender referir-se à perda de alguma coisa.

O plural de qualquer é quaisquer. Qualquer miúdo do primeiro ciclo do básico o deveria saber. Ao meu neto, nos seus sete anos – vá lá, condescendam neste registo de avô babado – ninguém apanha em tal erro. Perca é o substantivo que designa um peixe do rio, não podendo ser usado no sentido de perda. A possível confusão derivará da coincidência da forma verbal da primeira e terceira pessoa do singular do presente do conjuntivo do verbo perder [que eu perca, que ele/a perca].


E estamos entendidos. Porém, entre outros deslizes, não sei se já repararam que, também erradamente, a exemplo de muitos falantes portugueses, MST diz am[a]ricano e núm[â]ro*. Confesso que não percebo. Ainda se tivesse nascido nalguma caverna de trogloditas… Mas, santo Deus!, filho de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Francisco de Sousa Távares, ambos cultores do melhor português escrito e falado…

MST não é um qualquer anónimo. Pelo contrário, é um comunicador de referência. Em especial, no discurso falado, não pode deixar de ser irrepreensível. Acreditem que não tenho qualquer gosto em apanhá-lo nestas faltas. Respeito-o imenso pelo desassombro, pela coragem na assunção de causas que exigem uma verdade de ser e estar na vida, qualidades máximas de que MST bem pode orgulhar-se. É um cidadão de mão-cheia cujo exemplo de civismo militante é altamente inspirador.

Perto dele, não haverá alguém que lhe chame a atenção? Seria um grande favor, em especial, nos meios de comunicação social, a bem do correcto uso da Língua Portuguesa.

*Bem sei que não é assim que se faz transcrição fonética. Provavelmente, se a fizesse com correcção, muitos leitores não a entenderiam.




Um 'Sabat' muito especial

Um dos casos mais interessantes de concepção de uma peça sinfónica foi protagonizado por Hector Berlioz (1803-1869) na sua Sinfonia Fantástica, op. 14. De facto, apresentada no dia 5 de Dezembro de 1830, esta peça é considerada como a primeira sinfonia autobiográfica, relacionando-se, de forma inequívoca, com a assolapada paixão que uniu o compositor e a actriz irlandesa Harriet Smithon (1800-1854), bem como com a leitura do Faust de Johann Wolfgang von Goethe.

De acordo com uma espécie de roteiro que apresentou em 1831, Berlioz dava a entender o que o protagonista, sob o efeito do ópio, imaginava em cada movimento da obra - que titulara como 'Épisode de la vie d’un artiste, symphonie fantastique en cinq parties'– experimentando uma série de alucinações que coincidem com os cinco andamentos da obra sinfónica, a saber: 1. Visões e Paixões - Largo; Allegro Agitato e Appassionato Assai; 2. Um Baile - Valse: Allegro Ma Non Troppo; 3. Cena Campestre – Adagio; 4. Marcha para o Cadafalso - Allegretto Non Troppo; 5. Sonho de uma Noite de Sabat - Larghetto; Allegro Assai.

É a audição daquele último andamento que eu gostaria de vos propor, ainda a propósito do ambiente de bruxaria, que me suscitou a publicação do texto de ontem. No segmento final da sinfonia, é o próprio corpo do jovem apaixonado que é atirado de um lado para o outro, num sabat de bruxas, durante o qual a sua donzela morta reaparece sob a forma de vampiro, enquanto o ressoam as notas do Dies Irae.

Tenham muito bom proveito. A versão objecto da gravação é bastante interessante*. Mas, entre as muito boas a que já assisti, não consigo esquecer uma interpretação pela Orquestra Filarmónica de Berlin, dirigida por Sir Roger Norrington, em Salzburg no dia 23 de Abril de 2000, por ocasião do Festival da Páscoa daquele ano. Dessa vez 'passei-me' completamente, e, por artes mágicas, também participei do Sabat... Um espanto!

*Eis as referências:

http://youtu.be/IrezpUWIY98
Berlioz: Symphonie Fantastique- 5th Movement www.youtube.com
Berlioz: Symphonie Fantastique 5th movement:Songe d'une Nuit de Sabbat NHK Symphony Orchestra, Tokyo Conducted by Pinchas Steinberg




quarta-feira, 2 de novembro de 2011



A propósito
do Dia das Bruxas

A propósito de quem, com tanta pertinência se insurge contra esta praga do Dia das Bruxas, apetece perguntar também sobre o tão português Dia de São Valentim… Aflige-me como, com tanta falta de lucidez, o cidadão comum embarca nestes festivais do mais acéfalo comércio.


Não menos preocupante a maneira como a própria Escola colabora nesta farsa que acaba por assumir contornos de estratégia de aculturação, além de induzir práticas de consumo sempre criticáveis e, por maioria de razões, muito mais nos dias que correm. Espanta-me que a Confederação Nacional das Associações de Pais, sempre tão verborreica, não se pronuncia.

Claro que o comércio mais banal e bacoco é a mola real desta prática. E quem o põe em causa? Quem vai preocupar-se com um assunto destes, pois se as crianças gostam tanto e até ficam tão engraçadas, mascaradas de bruxas, fantasmas e quejandos? O que é preciso é vender, animar as lojas, vender, vender!

Vendem-se as emoções à mistura com objectos perfeitamente desnecessários, vendem-se os símbolos embrulhados em papel de lustro e, sem qualquer discernimento, troca-se o carácter genuíno de algumas das nossas tradições culturais pelo falsete de importações já em vigésima terceira mão...


Acham que devemos passar alegremente por cima ou ao lado de tudo isto, como cão por vinha vindimada? Lá no fundo, não há valores em jogo?


terça-feira, 1 de novembro de 2011



Mozart: porquê Wolfgang?

De repente, só hoje, um dia depois de 31 de Outubro, me lembrei de mais uma efeméride relacionada com o universo mozartiano. Como verificarão, não admira que, ao baptizar um dos seus sete filhos, os pais de Mozart tenham escolhido Wolfgang como nome próprio do que viria a ser o genial compositor. Inspiraram-se num dos mais notáveis santos da hagiografia cristã germânica, nascido em 934, no seio de uma nobre família dos condes de Pfullingen, da região da Suábia, falecido – ora cá está – em 31 de Outubro de 994 em Pupping na Áustria.

Foi bispo de Ratisbona a partir de 972 e retirou-se para uma vida de eremita perto do mosteiro de Mondsee, junto ao lago de St. Wolfgang, muito perto de Salzburg. Naturalmente, não entrarei em detalhes da sua riquíssima biografia. No que respeita à relação com Mozart, bastará ter em consideração que Mondsee – e uma boa parte da lindíssima região montanhosa de Salzkammergut, vizinha da cidade dos príncipes arcebispos – a nível da jurisdição, dependia do bispo de Ratisbona. Terá sido, numa das suas deslocações pastorais, por aquelas paragens, que St. Wolfang decidiria retirar-se do mundo.

Bem vos posso dizer que o bom do bispo, além de todas as demais qualidades de santa pessoa, também tinha um excelente gosto. É que aqueles, em qualquer altura do ano, são mesmo dos mais belos lugares a que qualquer mortal pode aspirar. Tudo aquilo é de uma beleza de estarrecer. Garanto-vos. Conheço tão bem como a Serra de Sintra. Vou lá sempre que estagio em Salzburg e, caros amigos, para ali até eu me retiraria como eremita…

Para que, ao debruçarem-se sobre estas minhas palavras, possam partir para descobertas bem mais enriquecedoras, aqui vos lembro o nome de Michael Pacher (1430-1498), o grande pintor tirolês da transição da Idade-Média para o Renascimento, nome incontornável em Salzburg, que, em honra de St. Wolfgang, no altar-mor da igreja do que o tem como patrono, deixou um tríptico absolutamente extraordinário.

Boa pesquisa.