[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sábado, 19 de novembro de 2011



Mozart e Messmer


O nosso amigo José Manuel Anes tem andado engripado. Ontem, num comentário suscitado por anterior referência a Cosi fan tutte, escrevia ele:

Se eu tivesse chamado este médico 'mesmérico' já estava bom há muito!!! Nota: o Mozart conheceu o Mesmer creio que em Paris quando era miúdo

Tendo-me sentido desafiado, por aquela incorrecção da referência a Paris, eis o esclarecimento que se impõe. A relação de Mozart (1756-91) com Franz Anton Mesmer (1734-1815) remonta a 1767-69, durante a longa estada do compositor em Viena, algum tempo antes de o médico ter descoberto a cura magnética que o tornaria famoso. Mesmer tinha casado com uma viúva rica, Anna Maria von Posch, vivendo o casal numa autêntica mansão, numa zona da cidade que, na altura era um subúrbio da Landstrasse.

Quem conhece a Viena actual só pode sorrir com esta alusão ao subúrbio. Mozart passou muitas horas naquela casa, durante outra estada na capital, em 1773, ali tendo tocado várias vezes. Contudo, em 1781, na altura em que o compositor se estabelece em Viena definitivamente, já Mesmer tinha deixado a família, depois da tentativa frustrada de cura da cegueira da pianista Maria Theresia von Paradis, para se instalar na sua conhecida clínica em Paris.

Consequentemente, Mozart encontrou a casa da Landstrasse muito vazia, digamos, conforme pôde testemunhar à irmã Nannerl, numa carta datada de 15 de Dezembro de 1781: “(…) No que respeita aos nossos velhos conhecidos, apenas fui uma vez visitar Frau Mesmer cuja casa não é uma sombra do que foi (…)”

Cumpre acrescentar – e, agora, são tudo suposições – que, em 1768, quem encomendou Bastien und Bastienne, K. 50, terá sido Mesmer em cuja casa, no Outono desse ano, a ópera teria sido estreada, portanto, tempos antes de se tornar famoso com a teoria que Mozart ridicularizaria em Cosi fan tutte, quando
a criada Despina recorre à estratégia da cura magnética.

Por favor, reparem no esplêndido elenco. Que fabulosas vozes mozartianas! Absolutamente irrepetível, sob a direcção de outro mozartiano, Karl Böhm. Como sou velho, ainda assisti a récitas com esta gente. Que sorte a minha, hem?





http://youtu.be/cUJGflaeExE

Agora, confiados no rápido restabelecimento de José Manuel Anes, apenas lhe desejamos não lhe passe pela cabeça insistir nesta hipótese de cura...









sexta-feira, 18 de novembro de 2011



Mozart,
a última saída


Em Novembro de 1791, esgotado quando começara a compor o Requiem, Mozart sofre de depressão e alucinações, tendo-se convencido de que fora envenenado. Anima-se com o sucesso da sua Kleine Freimauer Kantate, K. 623 (Pequena Cantatata Maçónica) que é interpretada na Loja Zur neugekrönten Hoffnung (“Esperança Coroada”) no dia 18 desse mês, faz hoje duzentos e vinte anos.

Terá sido, não só a última vez que saiu de casa, mas também a última vez que dirigiu uma obra da sua autoria. Aproveitaria a oportunidade para esclarecer que, à luz da mais recente investigação, tudo leva a concluir que, efectivamente, não será de Mozart a autoria de uma peça sobre um momento particularmente importante no final de cada reunião nas lojas maçónicas, ou seja a designada “Cadeia de União”.

A obra em questão, Lasst uns mit geschlungnen Händen, (De mãos entrelaçadas, Irmãos) figura no catálogo Köchel com o número 623 a., foi editada a pedido de Constanze, a viúva, mas não faz parte dos autógrafos de Mozart. Terá sido cantada no fim dos trabalhos daquela sessão de 18 de Novembro mas nada tem a ver com a outra que Mozart dirigiu: o tom é diferente e, muito provavelmente, terá sido composta por outro Irmão, também músico, daquela loja.

Na realidade, esta data marca o princípio do fim. Já muito debilitado, no dia 20, recolhe ao leito. No princípio de Dezembro sentiria ligeiras melhoras e, a 4, até conduzirá um pequeno ensaio do Requiem, que compôs até aos célebres oito compassos do Lacrimosa. Morreria ao princípio da tarde do dia seguinte, às doze e cinquenta e cinco.

Finalmente,

ainda vos deixo com uma gravação da peça cuja autoria ressalvei. No YouTube, encontrei esta leitura da obra, que não respeita o acompanhamento a órgão, através da qual, em compensação, bem se ouvem as palavras que, na realidade, se adequam ao momento que os Irmãos Maçons partilham.

Se tiverem curiosidade, aí fica também uma tradução pessoal, para melhor acompanharem a mensagem constante da gravação.

De mãos entrelaçadas, Irmãos,/Terminemos estes trabalhos/Com expressões de júbilo./Que esta cadeia abrace firmemente a Terra inteira/Tal como acontece neste lugar sagrado.//Que o nosso primeiro dever/Sempre seja honrar a virtude e a humanidade/E ensinar o amor a nós próprios e aos outros./Então a luz não brilhará/Somente no Oriente nem só no Ocidente/Mas também no Sul e no Norte.

http://youtu.be/fAtw_SbYHjg

"Lasst uns mit geschlungnen Händen" by Mozart. The Fort Lewis College Men's Choir http://www.youtube.com/


Melómano,
eu me confesso


“(…) Mas o que está eventualmente num disco - e com maior evidência uma obra que ainda não esteja gravada num disco - nunca fechará as portas sempre abertas do devir que é o essencial da própria possibilidade da música. Muda o dia, muda a orquestra, muda o quarteto de cordas, mudo eu, muda a temperatura, muda a acústica da sala e de repente estámos perante o facto indesmentível: aquilo que pensávamos ser "a peça", foi apenas "aquela interpretação" da peça. (…)"

[O que é um melómano hoje? Quantos tipos de melómanos existem? Uma eflexão,
depois de um ensaio, sobre o mutável e o imutável. António Pinho Vargas, fb, 17.11.2011].

Em relação ao excelente texto do António Pinho Vargas, cuja obra, sempre que posso, vou acompanhando com o maior interesse, apenas posso dar o meu testemunho de melómano. De facto, a discoteca cá de casa não é especialmente rica. Se a comparar com o incomensurável tesouro da minha experiência de frequentador das salas de concerto - ao longo de dezenas de anos, desde miúdo, já que fui iniciado por pai e avô que eram músicos e grandes melómanos - então, a distância é enorme.


Sem dar muito pelo tempo que passa, a verdade é que há cinquenta anos que celebro a música constantemente, em directo, em Portugal e por essa Europa fora, especialmente, em Salzburg onde, há muito tempo, fiquei preso, perfeitamente cativo. De facto, tenho o incrível privilégio e o invejável poder de marcar a agenda da minha vida a partir dos compromissos musicais.

Em primeiro lugar, de facto, está a Música. Há quem goze comigo, por exemplo, em relação à frequência da Gulbenkian, onde me encontram em todos os eventos musicais, várias vezes por semana, já que tenho assinatura para todos os ciclos, e gozam, propondo que alugue um quartinho ali para a Av. de Berna, muito mais à mão do que ter de me deslocar de Sintra onde moro…

De facto, o meu incrível tesouro não evidencia quaisquer formas exteriores da imensa riqueza que tenho acumulado ao longo de tantos anos. Não é coisa material. Nem sequer material como o disco, que, para mim, é produto de uma estratégia de recurso. Congela um momento de música. E, se o momento não foi captado num evento em directo, então, quantas e quantas vezes não é fruto de engenhosas manigâncias que comprometem a autenticidade da peça?…

Cá por casa, há ainda centenas de discos em vinil, de 33, 45 e mesmo de 78 rpm, muitos herdados das casas dos meus avós e pais. Naturalmente, também há imensos CD, a maior parte dos quais terei ouvido apenas uma vez. Hão-de seguir para casa das minhas filhas e netos, como um património absolutamente secundário.


A riqueza essencial, substancial, neste domínio da minha vida de melómano, essa transformou-se, isso sim, na pessoa que sou, com os defeitos e virtudes que me definem e condicionam. Ah, é verdade, do meu património palpável, também consta uma boa quantidade de cadernos de 1/8, de capa dura, cheios de milhares de páginas manuscritas, sob a forma de diário, que me têm ajudado a racionalizar a experiência musical vivida.


Naquelas folhas de diário íntimo, coisa que jamais foi escrita a pensar em qualquer forma de publicação, os meus prováveis leitores talvez encontrem algum material que os ajude a entender, além do autor, muito mais, o tempo e o espaço do autor.

No meu caso pessoal, não será preciso fazer um grande esforço para perceber como o melómano se confunde com o diletante, com o viajante, e, em certos casos, com o de peregrino, como acontece com Salzburg (tão especialmente, no Inverno, por altura da Mozartwoche) ou Bayreuth, sempre em busca do instantâneo momento em que Arte, Beleza e a centelha do Divino acontecem. Claro que também podem não acontecer… Esse o sortilégio do directo.




quinta-feira, 17 de novembro de 2011



Morte,
a melhor amiga

No dia 17 de Novembro de 1785, apresentação da peça de Mozart Maurerische Trauermusik em Dó, KV 477 (Música Maçónica Fúnebre), escrita para uma cerimónia de pêsames, na Loja Zur gekrönten Hoffnung (Esperança Coroada) em honra do Conde Franz Esterházy von Galantha e do Duque Georg August von Meklenburg-Strelitz, recentemente falecidos.

A maior parte da grande componente de instrumentos de sopro foi acrescentada à última hora. Mozart incorpora o tónus peregrinus, com referência aos cantos de endoenças usados durante a Semana Santa, bem como o Miserere da cerimónia de Requiem.

A. Philippe Autexier, em 1984/5, alvitrou a hipótese de que a obra tenha sido composta em três versões sucessivas, a saber: 1. para a Iniciação de um candidato à Loja Zur Wahren Eintracht (Verdadeira Concórdia), em 12 de Agosto de 1785; 2. como versão instrumental, por ocasião de uma cerimónia de pêsames, que teve lugar em 17 de Novembro; 3. versão instrumental alargada, provavelmente apresentada em 9 de Dezembro de 1785.

Fosse como fosse, a verdade é que não é possível dissociar o carácter e a índole específica da peça daquilo que Mozart viria a confessar ao pai numa célebre carta datada de 4 de Abril de 1787: “(…) E dou graças ao meu Deus por me ter concedido a graça de aproveitar a oportunidade (o pai entende o significado destas palavras)* para me familiarizar com a ’chave’ da nossa verdadeira felicidade (…)”

É forçoso termos o teor desta carta em consideração quando escutamos a obra. Provavelmente, nunca antes, a visão da morte fora expressa e vivida com tanta sinceridade, ou seja, a concepção da Morte como a nossa verdadeira felicidade. Trazendo a morte ao seu quotidiano, Mozart acolhe-a sem angústia, trata-a com a maior simplicidade.
 
A sua crença Maçónica, aliada à Fé, transcendiam a Morte na Luz e Ressurreição que o ritual do terceiro grau de Mestre Maçon trouxeram à vida do iniciado e que o esplendoroso acorde final proclamaram na Mauerische Trauermusik.

Ouçam atentamente. Compreender os mais íntimos propósitos de Amadé passa por ouvir esta obra, tão entranhadamente voltada para o que está além desta nossa limitadíssima existência física. Mozart, o fervoroso crente católico, apostólico romano, Mozart, o Mestre Maçon, aqui unificados, numa obra sublime da literatura musical, não só do último quartel do século dezoito mas, certamente, de todos os tempos.

Morte, a melhor amiga de Mozart. E, para que conste: Morte, também a  melhor amiga de quem subscreve e convosco partilha estas palavras. Ouçam, concordem ou não connosco, portanto, com Mozart e comigo.

Boa audição!

http://youtu.be/DyT6fEhXL9w

* Gostaria de chamar a vossa atenção para o seguinte: quando, na carta dirigida ao pai, Wolfgang Mozart faz este parêntesis, dando a entender que o pai estava no segredo de qualquer coisa, é preciso ter em consideração que Leopold Mozart entrou para a Augusta Ordem Maçónica com o patrocínio do próprio filho. O entendimentio a que Wolfgang se refere, tem a ver com o modo como se processa a relação dos Maçons com a realidade da Morte.




terça-feira, 15 de novembro de 2011



A última obra Mozart



Laut verkünde unsre Freude KV 623



Eis as palavras manuscritas pelo próprio compositor, acerca de Laut verkünde unsere Freude, no seu catálogo pessoal, faz hoje, precisamente, duzentos e vinte anos:

“No dia 15 de Novembro. Uma pequena Cantata Maçónica. Contém 1 coro, 1 ária, 2 recitativos e um dueto. Tenor, baixo. 2 violinos, viola, violoncelo, 2 oboés e duas trompas.”

E, meus caros amigos, aqui têm uma peça composta com o objectivo de integrar trabalhos maçónicos. Esta Cantata foi mesmo a última obra completa de Wolfgang Amadeus Mozart. Poucos dias depois, a 5 de Dezembro de 1791, morreria na sua casa em Viena. Muitos maçons desconhecem este pormenor da biografia do Mestre Maçon que foi Mozart mas, os que sabem, sempre muito se orgulharam deste facto.



Boa audição.

http://youtu.be/RDhhQeD85Bk
http://youtu.be/RDhhQeD85Bk http://www.youtube.com/


segunda-feira, 14 de novembro de 2011



RDP2, programa da manhã,
no Império da asneira...



E eu, que fujo destes sujeitos como o diabo da Cruz, tenho de sintonizar a estação, também a esta hora, para ir vendo como param as modas. Só por isso, acreditem, é que me dou a este penoso trabalho que, imediatamente, tento compensar, procurando bons programas, como o da Rádio Bávara que, tudo leva a crer, esta gentinha ignora olimpicamente.

O Império dos sentidos, é quase intragável. Entre as sete e as dez da manhã, Paulo Guerra, locutor e responsável, faz o que sabe, isto é, vai metendo umas músicas, à mistura com o estado do tempo e notícias mais ou menos mal comentadas. Ainda não percebeu que, na RDP2, são transmitidas peças de Arte que, na realidade, quando carecem de introdução, merecem-na feita por quem sabe da poda e não por um qualquer curioso que lê umas informações, à frente do nariz, via internet, ou disponível nas capas dos CD.

De vez em quando, é João Almeida, o director da antena, tão ou mais ignorante que o precedente, quem, como hoje aconteceu, aparece ao microfone. Palavroso, adjectivoso, exprime-se num português pouco recomendável. Hoje mesmo, entre várias incorrecções relativas ao enquadramento das peças, no meio de outras pérolas que já esqueci, o apanhei dizendo «muitos poucos anos»… ». Então, não acham que, para director de estação de rádio, as funções estão muito bem atribuídas?…

É capaz de afirmar os maiores disparates, com particularíssima desenvoltura. Se quiserem aceder a uma gaffe das boas, consultem o texto Grossa asneira, aqui publicado em 13 de Janeiro de 2009. Hão-de verificar até que ponto chega o topete do piqueno… No entanto, devo assinalar que não confundo este programa, de qualidade tão duvidosa, com outros da responsabilidade de excelentes colaboradores como Rui Vieira Nery ou Alexandre Delgado.

A ignorância é muita e a arrogância ainda maior. Para que conste, tudo quanto aqui afirmo, já o escrevi, directamente, a João Almeida. Aliás, trocámos correspondência, como imaginam, muito expressiva, através de correio electrónico. Em termos de denúncia pública, pouco conto. Mas o Prof. Mário Vieira de Carvalho, a propósito deste assunto, chegou a escrever um bom artigo no jornal Público.


Também tentei que, em devido tempo, Adelino Gomes, Provedor do Ouvinte, interviesse no sentido de pôr o dedo na ferida. Coitado, ele bem tentou mas, como é patente e notório, passados anos, João Almeida continua a pôr em causa o lugar onde se sentaram homens de Cultura como João Paes que conheço pessoalmente, muito respeito e admiro, ou o meu bom amigo João Pereira Bastos.

A geral incultura, a impreparação, a todos os níveis e títulos, não reside apenas nos gabinetes ministeriais. É patologia que grassa e, preocupantemente, se transmite através de hierárquicas cadeias de natureza política, económica e, naturalmente, também cultural. Aconteceu em Portugal, infelizmente, o que de pior pode acontecer a um país, ou seja, ter deixado de contar com elites esclarecidas, cuja opinião e conselhos sejam acolhidos pelos decisores políticos. O resultado está à vista.

Assim sendo, bom é não perder a perspectiva global das coisas e perceber que o Império dos Sentidos, na RDP2, entre as sete e as dez da manhã, não passa de sintoma de síndrome muito mais abrangente desta lusa terra, que distinta gente qualificou como choldra ingovernável e piolheira. Enfim, império por império, permitam que acrescente o epíteto de império da asneira...





domingo, 13 de novembro de 2011


Jaroussky,

uma voz dos deuses

Hoje à tarde, Grigory Sokolov. Amanhã à tarde, Philippe Jaroussky. De facto, só a Gulbenkian pode arcar com uma programação de temporada musical propondo esta catadupa de galácticos. O contratenor que se apresenta no Grande Auditório na próxima segunda-feira, vem acompanhado pelo Appolo’s Fire Ensemble, sob a direcção da maestrina Jeanette Sorell para a interpretação de um programa subordinado ao título Fireworks, com peças de Antonio Vivaldi e Georg Friedrich Händel.

Bem, este ‘piqueno’ é um dos mais sérios casos de voz de contratenor que tenho presenciado, perfeitamente da craveira de Schöll ou Mena. Assisti, este ano, em 28 de Janeiro, durante a Mozartwoche, a um seu recital no Mozarteum de Salzburg, acompanhado por Les Musiciens du Louvre. Naquela altura interpretou a Ária de Idamante Non ho colpa, Nr. 2 de Idomeneo KV 366 de Mozart, a Ária Fra l’orrore di tanto spavento, de Carattaco de Johann Christian Bach e, novamente de Mozart, o Rondo de Sesto, Deh per questo istante solo, Nr. 19 de La Clemenza di Tito KV 621.

Tratou-se de um recital de canto, eminentemente clássico, exigindo diferentes recursos técnicos e expressivos deste de Lisboa, em que dará voz a peças do período barroco, reportório em que se revela particularmente exímio. Claro que é imperdível.

PS - Creio que a lotação estará esgotada. No entanto, se estiverem mesmo interessados, não deixem de contactar a Sra. D. Faustina da bilheteira, não pelo telefone mas presencialmente. Há sempre desistências e, com um pouco de sorte, acedem a um recital que só se ouve nos melhores auditórios mundiais. E sabem quanto, no meu caso, de assinatura, paguei pelo bilhete? Onze euros e quarenta e três cêntimos…

Aqui vo-lo deixo com o excerto do Rinaldo de Händel:

http://youtu.be/5TQrbei8Z-4
Philippe Jaroussky - Haendel http://www.youtube.com/





Corte ou imposto?


1.Uma coisa é a imperiosa necessidade de o Governo proceder aos cortes significativos na despesa de funcionamento do Estado, com o objectivo de que aos contribuintes não sejam lesados quanto à utilização dos recursos que disponibilizam através das contribuições e impostos que liquidam periodicamente. Naturalmente, tal propósito só será alcançado num prazo adequado à concretização de uma série de medidas de reorganização estrutural cujo efeito está longe de ser imediato.

2.Por outro lado, não menos imperiosa e intimamente conjugável com a supra formulada, é a necessidade de obter a curtíssimo prazo, uma verba imprescindível ao cumprimento de compromissos do Estado com os credores internacionais, nos termos do designado Memorandum da Troika.

3.De tal modo que, em 2012, possa atingir o objectivo constante do número anterior, pretende o Governo que o Orçamento do Estado imponha o corte dos subsídios a pensionistas e funcionários públicos que representa a eliminação de 2.016,5 mil milhões de Euros (já descontando o IRS e contribuições sociais que o Estado deixa de receber).

4.Segundo a opinião de ilustres constitucionalistas e, também de acordo com o parecer do próprio Supremo Magistrado da Nação que é o Presidente da República, tal operação, a concretizar-se, estaria ferida de constitucionalidade já que colidiria com o princípio da universalidade da equidade fiscal, na medida em que apenas uma parte dos cidadãos contribuintes – pensionistas e funcionários públicos – ficariam obrigados a esforço tão significativo.


5.Por outro lado, com a maior pertinência, no caso dos pensionistas, se coloca a questão de, ao proceder como propõe o Governo, o Estado ir abusar de recursos resultantes de prestações pecuniárias objecto de descontos efectuados durante uma longa carreira contributiva, de dezenas de anos de trabalho, verbas constantes de reservas matemáticas com rendimentos próprios, que merecem um tratamento adequado à sofisticação do seu enquadramento.


6.Não ponho em causa que, nos termos do que lembro no ponto 3., o Estado tenha de dispor daquele montante. No entanto, tendo em consideração as ponderáveis razões referidas, não sendo possível nem sequer recomendável prosseguir a solução dos cortes, avançada pelo Governo na sua proposta de Orçamento para 2012, urge encontrar a alternativa consentânea com a excepcionalidade da situação que o país atravessa, de tal modo que o esforço seja repartido por todos os cidadãos contribuintes.

7. Nestes termos, outra solução não vislumbro que não passe por um imposto sobre trabalhadores e pensionistas semelhante à sobretaxa a cobrar já este ano de 2011. Tal qual tenho visto apontada por alguns especialistas, a saída para o problema estaria em fazer uma sobretaxa que retirasse todo o subsídio que excedesse o salário mínimo. Assim se atingiria uma verba rondando os 1.700 milhões de Euros.


8.Poder-se-á replicar que, além de faltar algo como 300 milhões, não se trataria de um corte de despesa. Contudo, contra factos não há argumentos: a concretizar-se, este corte na despesa, seria uma vergonha, um horror. Trata-se de algo iníquo, indigno de um Estado Democrático de Direito, uma proposta de roubo, mascarado pela perversão dos mecanismos democráticos, com o aval do Parlamento.


9.Contra a facilidade da única solução que um Governo destituído de discernimento pretende concretizar, urge e impõe-se lutar pela justiça da adopção da medida mais adequada e eficaz. Assim sendo, não deixa de ser paradoxal que, neste caso, em última instância, os cidadãos tenham de clamar no sentido de que se lhes aplique mais um imposto. A este ponto chegámos!...



sábado, 12 de novembro de 2011


Mais uma vez,

a estrela Sokolov



[Domingo, 13 Nov 2011, 19:00, Grande Auditório da Fundação Gulbenkian- Johann Sebastian Bach, Concerto Italiano, BWV 971; Abertura Francesa, BWV 831- Johannes Brahms, Variações sobre um tema de Händel, op. 24, Três Intermezzi, op. 117]

Amanhã à tarde, teremos Sokolov, novamente, na Gulbenkian. Em Portugal, jamais perdi algum dos seus recitais ou concertos, informação esta que talvez vos baste para confirmar como, em minha opinião, são acertados todos os adjectivos, no grau superlativo, com que têm sido qualificadas as suas prestações. Não significa isto que sempre concorde com as suas interpretações. Contudo, o que não posso deixar de reconhecer é que todas as propostas de leitura são informadas pelo génio.

Difícil, talvez mesmo impossível, será encontrar outro pianista, da sua craveira, que, tão bem como ele, conheça os segredos dos pianos Steinway com os quais luta, sacando o melhor que têm para dar. Como não há dois iguais, o desafio é particularíssimo. São lendárias as histórias que se contam deste Sokolov que, nas vésperas e horas antes de enfrentar as audiências, se entende e desentende com o piano, montando e desmontando, afinando, conhecendo-lhe os detalhes que lhe permitirão obter este ou aquele efeito…


Quando se abre a porta de acesso aos palcos onde se apresenta, o pianista já vem de tal modo concentrado que, mal saudando o público, se senta e ataca a peça, para não mais se dissociar daquele casulo negro e branco que forma com o instrumento. É um fascínio. Muito poucos, como ele, verdadeiros demiurgos, conseguem levar-nos para onde pretendeu o compositor. Com ele, é frequente dar o salto para uma dimensão outra, perdendo o fio que me liga à realidade do auditório. Acreditem que, não raro, chega a ser perigoso. Só a grande Arte, nas mãos do intérprete de eleição, faz tal percurso de autêntica epifania.

Sokolov é de uma generosidade absolutamente ímpar. Certa ocasião, em Sintra, ofereceu dez peças extra. Mas cinco, seis, é perfeitamente habitual. No entanto, não posso deixar de partilhar convosco um episódio ocorrido num concerto no Mozarteum de Salzburg. Fui consultar o meu ficheiro para não me enganar. Em 30 de Janeiro de 2005, depois de ter interpretado o Concerto em Lá Maior KV 488, de Mozart, com a Orquestra de Câmara Mahler, dirigida por Trevor Pinnock, desentendeu-se com o maestro.

A coisa era muito simples. Sokolov considerava e, nesse sentido, deu a entender a Pinnock, que devia destacar a prestação do clarinetista. Porém, apesar de o pianista ter feito a menção por três vezes, o outro não correspondeu. Entretanto, sem que, na generalidade, o público se apercebesse do que estava a suceder, continuava a aplaudir freneticamente, esperando ter a sorte de um encore. Pois bem, o homem amuou mesmo e não houve mais nada para ninguém. Foi esta a única vez em que presenciei tal atitude por parte do extraordinário artista.



Amanhã, como se trata de recital, cena semelhante não será possível. A menos que se desentenda com o próprio público, aliás, como aconteceu, por exemplo, com Alfred Brendel, também na Gulbenkian, que suspendeu a execução de uma das Bagatelas de Beethoven devido ao barulho que se fazia no auditório… Uma vergonha célebre que veio acrescentar-se a outras a que tenho assistido. Aí está um tema interessante para outro artigo.

Do programa anunciado, proponho que ouçamos o Andante do Concerto Italiano de J.S. Bach, precisamente, por Grigory Sokolov, numa gravação captada num seu recital em 23 de Abril deste ano, em Sanpetersburg.



http://youtu.be/QUKlSBqIG5A
Grigory Sokolov - Bach Italian Concerto - II. Andante http://www.youtube.com/




sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Stockhausen, Momente [2]


Não escrevia eu ontem que, previsivelmente, o público iria borregar na Gulbenkian? Primeiramente, ao perceber que a assistência iria ser pouca, o meu amigo Ferreira, a exemplo do que costuma acertadamente fazer, mandou encerrar o balcão de maneira que o público desta zona, ao espalhar-se pela plateia, mais ou menos, comporia o aspecto da sala.

Enfim, a coisa ficou apresentável. Talvez tivesse ficado a meio da lotação, ou seja, umas quatrocentas pessoas. O pior é que, depois do intervalo, metade desta gente pirou-se. É absolutamente inqualificável e incompreensível. Como é possível alguém sair a meio da apresentação, pela primeira vez em Portugal, de uma obra excelente e quase mítica, com uma fortíssimas componentes biográfica e cénica, produto da criatividade de um dos mais extraordinários músicos do século vinte?

E, normalmente, esta gentinha é apresentada como uma elite, a elite da capital… Melómanos? Por amor de Deus!... Estou mais que habituado a cenas quejandas para me surpreender com o caso. Porém, lamento, continuarei a lamentar, inconsolável. É que, sabem, a Música que se faz em qualquer auditório é, também e sempre, a celebração da Arte e da Beleza. Assim sendo, custa muito perceber que, na esclarecida capital do país, a Música continue a ser assumida e consumida desta maneira, por gente tão ignorante e desqualificada.

A minha esperança é que, hoje, na repetição do programa, Momente, de Stockhausen, seja recebida de maneira diferente pelo público da tarde que, igualmente, conheço e reconheço como mais jovem, aberto e disponível. Enfim, além da minha pequena apresentação no texto de ontem, gostaria de assinalar o alto nível da prestação do coro e orquestra Gulbenkian, da solista soprano Julia Bauer e da direcção de Peter Eötvös, em articulação com Jorge Mata e Pedro Amaral.

Momento muito alto da programação da Gulbenkian. Momento de grande enriquecimento estético. Momento, mais uma vez, de me render a Stokhausen, por esta sofisticadíssima obra-prima, das mais incríveis e geniais celebrações do Amor, uma apoteose da saída do caos.