[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011


Gulbenkian,

Ciclo de Música Antiga


Ontem Balthasar Neumann Choir and Soloists, Balthasar Neumann Ensemble, sob a direcção de Thomas Engelbrock, fizeram a Missa dei filii, ZWV 20, de Jan Dismas Zelenka e o Magnificat, BWV 243a de J. S. Bach. Quem não foi jamais saberá o que perdeu. A sofisticação da Missa de Zelenka, a ingenuidade e simultânea magnificência do Magnificat de Bach, na sua expressão mais limpa, superior, sem quaisquer concessões à facilidade.

Há pouco, Michel Corboz dirigiu o Coro Gulbenkian num programa incluindo Jauchtzet de J. S. Bach, Magnificat, Beatus Vir e Justus ut palma florebit de Francisco António de Almeida e Stabat mater a dez vozes de Domenico Scarlatti. Em formação reduzida, adequada às características das obras, o coro esteve muito bem. Como cantores solistas, Charlotte Müller Perrier, soprano, que não me impressionou especialmente, e Fernando Guimarães, tenor, em grande forma.

Aqui tendes uma excelente interpretação - com os The BBC Singers, Elizabeth Poole, soprano, Neil MacKenzie, tenor, David Miller, teorba, Frances Kelly, harpa e Gary Cooper, órgão - desta última peça que o compositor escreveu em Roma, pouco tempo antes de vir para a corte de Lisboa como mestre da Princesa Maria Bárbara.

http://youtu.be/soz-nsntNQg

Domenico Scarlatti: Stabat Mater I-III www.youtube.com

Agora, atenção ao que aí vem. Um dos melhores momentos deste ciclo de Música Antiga, acontecerá no próximo dia 3 de Dezembro, quando Patricia Petibon, soprano, se apresentar com a Venice Baroque Orchestra, para interpretar peças de Händel, Stradella, A. Scarlatti, Vivaldi, Geminiani, Merula e Sartorio. Não tenho a menor dúvida de que será mesmo um grande acontecimento.

Acerca da minha opinião sobre esta cantora, gostaria de vos contar que, há uns sete ou oito anos, tendo-a já ouvido várias vezes em Salzburg, sempre em programas com o Concentus Musicus e Harnoncourt, o meu parecer já era extremamente positivo. Na altura, tendo tido hipótese de intervir num programa de rádio da RDP2, ao tempo em que Jorge Rodrigues era o responsável pelo programa do fim de tarde, interpelei o Jorge Calado - cuja opinião tenho no maior apreço -acerca do seu parecer sobre a cantora francesa.

Para meu espanto, Calado referiu-se a Petibon como coisa secundária, enfim, pouco digna de reparo. Pois, como veio a verificar-se, quem tinha razão era eu. Confirmo, aliás, que além de voz muito bem trabalhada, tecnicamente irrepreensível, com a extensão necessária ao repertório que mais se lhe adequa, Petibon, ainda acrescenta capacidades histriónicas absolutamente notáveis. É completa, em suma.

Claro que já estou numa enorme expectativa por voltar a vê-la no sábado. Mas, amanhã, noutro contexto, teremos Angela Kirchschlager, num programa completamente diferente, subordinado ao tema Viena-Paris-Broadway, interpretando von Suppé, J. Srauss, Léhar, Heuberger, Offenbach, Bernstein, K. Weill, Gershwin e C. Porter.

Desde sexta-feira passada até ao próximo sábado, terei assistido, sempre na Gulbenkian, a seis concertos absolutamente excepcionais, perfeitamente ao nível do que tenho em Salzburg, Viena ou Luzern mas a preços escandalosamente baixos se comparados com os que me pedem naqueles famosíssimos lugares. Sabem que mais, fico atónito como é possível que, em Lisboa, o auditório da Fundação registe audiências a metade, três quartos. É incrível e demonstra bem o que a casa gasta...








Sede meticulosos!


Alegrai-vos, meticulosos falantes e escreventes do Português! Ainda não se atingiu o ponto de não retorno… Ficai sabendo que, em tempos tão propensos à divulgação e, inclusive, à institucionalização do pontapé na gramática, através dos meios de comunicação social, continua havendo gente preocupada com a correcção da expressão do seu discurso falado e escrito.

Confirmando como assim acontece, eis que vos trago um exemplo colhido nas páginas do facebook, onde, geralmente, tão mal se escreve. Trata-se de alguém que se atreve à formulação de uma dúvida, e, maravilha das maravilhas, articulando aquela tão rara atitude com um pedido de conselho. Tão pouco habituado estou a tais eventos que exultou a minha alma de filólogo. No entanto, não deixei de reparar que o subscritor da dúvida é pessoa normalmente cuidadosa. Por isso, coitado, tem dúvidas…

Vamos, então, ao problema colocado. Trata-se do caso paradigmático do verbo «ter» que tanto pode reger preposição «de» como construir-se com oração introduzida pela conjunção «que». É neste contexto que, concretamente, perguntava o meu consulente(1) se deve dizer e escrever «ter que» ou «ter de». Apesar de não se tratar de questão particularmente bicuda, passo a recorrer ao tira-teimas do Sá Nogueira:

“(…) «Ter que» emprega-se como «Tenho que fazer», que é elíptica por «Tenho alguma coisa que fazer», onde o «que» é um pronome relativo, cujo antecedente é, clara ou ocultamente, «coisa». «Ter de» emprega-se em frases como «Tenho de fazer alguma coisa», onde o «de» é uma preposição que precede o substantivo verbal «fazer». Não obstante ser bem clara a distinção entre as duas expressões, há uma tendência muito acentuada para só se empregar a primeira, quer numa, quer noutra acepção. Assim, diz-se correntemente: «Tenho que fazer alguma coisa, construção que os meticulosos evitam (…)” (2)

Nestes termos, a todos, o meu que também é o implícito conselho de Sá Nogueira, ou seja, privilegiar a meticulosidade… Sempre!

____________________________


(1)Luís Miguel Correia Lavrador, há dois dias, no facebook.
(2)SÁ NOGUEIRA, Rodrigo de, Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Lisboa, Liv. Clássica Editora, 1974, p.356.

domingo, 27 de novembro de 2011


Rui Vieira Nery,
musicólogo de serviço


No dia em que o fado passou a ser considerado Património Imaterial da Humanidade, como não associar-me à comemoração? Há no fado excelente música, excelentes poemas e a alma de um povo sui generis.

A alma mater da candidatura, não esqueçam, Rui Vieira Nery, é um musicólogo de gabarito indiscutível. Filho do grande Raul Nery, tem a alma do fado nos genes. É uma autêntica enciclopédia viva do fado. Foi o homem certo no lugar certo, merece o aplauso de todos. Parabéns Rui!

Tenho a certeza de que Rui Vieira Nery concorda comigo quando proponho que os meus amigos ouçam Amália, Maria Teresa de Noronha, Teresa Tarouca - estas duas últimas algo esquecidas - interpretando fados muito especiais, com poemas de José Galhardo, Pedro Homem de Mello e da própria Amália. Eles aí estão, agora ainda com maior pertinência.

http://youtu.be/IHoeF084JDQ (Maria Teresa de Noronha)

http://youtu.be/avXeM7WsKt0 (Teresa Tarouca)

http://youtu.be/5YBS7x4jWi0 (Amália)



Com os Hagen,
Beethoven e melomania


Ainda mal refeito estou do estupendo concerto de ontem à noite na Gulbenkian. Foi mesmo sensacional. Para quem não sabe e/ou não percebe o que é o trabalho de um bom maestro, nesta récita de As Estações, teria muito a aprender. Mesmo sem assistir aos ensaios, mas conhecendo o que a casa gasta, se percebe que, a montante do que ontem e anteontem aconteceu naquele palco da Gulbenkian, McCreesh conseguiu um 'produto' verdadeiramente notável, ao nível dos melhores que me foi dado assistir com esta peça. Expressividade, ritmo, dinâmica, subtileza, tudo ao mais alto nível.

Pois, como comecei por afirmar, ainda sob o efeito do privilégio de ontem, eis que, ao fim da tarde de hoje, outro momento excepcional se avizinha com a possibilidade de assistir ao concerto de música de câmara, com o Quarteto Hagen, que vem apresentar a sua leitura daquele que não tenho a menor dúvida em considerar como o melhor segmento da música de Beethoven, precisamente, dois dos seus últimos Quartetos de cordas, op. 130 e op. 131, bem como a Grande Fuga, op. 133.

Por exemplo, tanto Schubert como Stravinsky, expressaram a sua convicção de que estas obras eram monumentos musicais inultrapassáveis. Perante estas peças, diria o primeiro não ser possível escrever algo de superior, confirmando o outro ser a Grande Fuga uma daquelas raríssimas obras que permanecerá contemporânea para sempre.

Os irmãos Lukas, Clemens e Veronika Hagen, naturais de Salzburg, juntamente com Rainer Schmidt, constituem um dos conjuntos de câmara mais homogéneos e sólidos do mundo, há precisamente trinta anos. Pessoalmente, conheço Veronika, tal como os restantes, uma virtuose que também é professora no Mozarteum. Não há Festival de Salzburg, no Verão, não há Mozartwoche, no Inverno, que não conte com a presença do Quarteto Hagen.

Devo a estes músicos alguns dos melhores momentos da minha longa vida de melómano. Claro que não posso estar mais expectante em relação ao que vou ouvir dentro de umas horas. Conheço as obras, perdoem-me a vulgaridade, por dentro e por fora, soletro-as, sofro e gozo o que Beethoven quis que eu sentisse. Pela mão dos Hagen, vou reviver o que me é imprescindível.
No entanto – que bom!... – como dizem os meus mais próximos familiares e amigos, o que eu arrisco é viver noutra dimensão.

De facto, ao longo dos anos, o meu quotidiano, entre Sintra, Gulbenkian e outras salas, cá dentro e lá fora, em Salzburg, Viena, Bayreuth, Luzern, etc, onde só se faz a melhor música do mundo, mantém-me em ilhas de um arquipélago de cultura, com uma fasquia tão alta, que o melhor é mesmo nem falar muito porque a maior parte das pessoas, sem referências de comparação, nem sequer imagina o que possa ser… Depois de já me ter passado o efeito de alguma pancada com que fui brindado, por alguns invejosos da nossa praça, eu insisto nesta atitude de partilha.

NB. Não consegui encontrar uma gravação com uma das peças que os Hagen vão hoje interpretar. Por acaso, o excerto da peça que vos proponho - igalmente, de um dos últimos quartetos de cordas de Beethoven - fez parte de um concerto a que assisti. O auditório é o da Grosse Sall do Mozarteum de Salzburg. Boa audição.

http://youtu.be/t8WUJYfNBug

Beethoven String Quartet Op 135 Mvt4 Muss es sein http://www.youtube.com/


Violência doméstica:
e a coerênciazinha?...

Soube-se que, em Istambul, houve uma série de manifestações contando com a participação de muitos homens, contra o fim da violência doméstica sobre as mulheres. Segundo a notícia veiculada pelo Euronews, o facto seria tanto mais relevante quanto é a Turquia um país onde, no ano em curso, já morreram cento e duas mulheres às mãos de familiares.

Considero conveniente manter uma prudente reserva e não embandeirar em arco com alguns sinais exteriores, veiculados em manifestações, facilmente confundíveis com convicções radicadas no viver quotidiano. Manifestar esta causa, na rua, é excelente e muito cívica atitude mas forçoso é ter em consideração o reverso da medalha. Cento e tal mulheres, só este ano, assassinadas no quadro da violência doméstica, é um horror inominável.


Por outro lado, não pode confundir-se o que se passa em Istambul e Ankara – cidades onde, é bom não esquecer, florescem manifestos preocupantes de radicalismo fundamentalista – com o resto do território, em que o subdesenvolvimento anda a par com aquilo que, aos nossos olhos, são os incompreensíveis privilégios masculinos. Bem podem os homens turcos vir para a rua prenunciando que algo estará a mudar...

Fico de pé atrás. E, neste ponto do escrito, convém que me volte para a doméstica realidade portuguesa que se vive em círculos que me são próximos. Sabem, é que estou farto de hipócritas, que gritam na rua e afirmam, em reuniões de gente bem pensante, aquilo que é bem partilhar ao nível das ideias, em flagrante incoerência com a prática quotidiana.

Fico de pé atrás porque, entre esses casos da mais abjecta incoerência, conheço homens que pregam os mais dignos valores civilizacionais, da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade e que, portas adentro das suas domésticas vidinhas, tratam as mulheres abaixo de cão, não só através de «simples» agressões verbais mas, por vezes, chegando à mais vil agressão física. É bom não esquecer que se trata de crime público pelo que, só não apresento queixa contra esses biltres, porque não estou de posse de todas as informações.

PS

Proporcionalmente ao total da população, as consequências trágicas da violência doméstica em Portugal revelam números tão ou mais escandalosos do que na Turquia. Infelizmente, de modo algum, podemos estar mais ou menos tranquilos relativamente ao que, neste domínio, se passa em qualquer latitude. Inclusive, mais preocupados deveríamos estar porque, vivendo uma crise com as características daquela em que estamos mergulhados, sabido é que se agravam estes fenómenos de instabilidade social.

sábado, 26 de novembro de 2011


Joseph Haydn,
Die Jahreszeiten [As Estações]

Ontem e hoje na Gulbenkian, Die Jahreszeiten, [As Estações], oratória em quatro partes, Hob.XXI, 3 de Joseph Haydn, com libreto do Barão Gottfried van Switten, segundo um poema de James Thomson, traduzido por Brockes. A obra foi composta entre 1799-1801 e, apesar de o autógrafo ter desaparecido, existe em Viena uma cópia corrigida pelo próprio compositor.

A primeira apresentação aconteceu em privado, no palácio Schwarzenberg, em 24 de Maio de 1801 e a estreia pouco mais de um mês depois, em 29 de Maio, no Burgtheater, ambas em Viena.
Os solistas encarnam três camponeses, Hanne, Lukas e Simon que vivem o desenvolvimento das quatro estações, através das quatro componentes concebidas por Haydn, cada uma das quais precedida por uma introdução sinfónica. Van Switten não foi particularmente feliz com o texto, um mero encadeamento de quatro poemas de cantatas que o compositor considerou «uma vulgaridade à francesa».

Fosse como fosse, Haydn compôs uma peça esplêndida, com uma unidade e um cunho dramático verdadeiramente notáveis, numa sofisticada articulação entre temas populares e eruditos, de canções tradicionais, coro de pastores e de fiadeiras, um compósito mosaico servido por uma partitura ainda mais brilhante que a da Criação, muito embora se tivesse esgotado, com risco da própria saúde.

Sucedem-se os momentos de especial efeito, com grandes frescos corais, como a fuga final da Primavera, a divertida fuga dos vindimadores no Outono ou a grande fuga final do Inverno, considerada por vários musicólogos como uma das mais belas páginas de toda a obra de Haydn. Mas, ainda outras passagens, como a cavatina de Lukasdem druck erliegt die Natur” no Verão, a canção de Hanne, lembrando Papageno, no Inverno ou ainda as grandes peças descritivas, tais como o nascer do Sol e tempestado no erão, hino ao trabalho, caça e vindima no Outono são marcos indeléveis.

Na cena de caça, Haydn introduz fanfarras austríacas e francesas - Le Débuché, Le Vol-ce-l’est, L’Hallali sur pied. Igualmente, insere o tema do segundo andamento da sua Sinfonia no. 94, A Surpresa, sob a forma de ária – Schon eilet froh der Ackersmann.*

Bem pode afirmar-se que As Estações fecham com chave de ouro a carreira de Haydn. Mesmo no início de oitocentos, há quem nela veja a primeira grande obra romântica do século dezanove, prenunciando Freischütz e O Navio Fantasma. Parece-me que afirmá-lo não é grande ousadia.




* Aí tendes uma belíssima interpretação. Boa audição.



Die Jahreszeiten, Aria de Simon da Primavera, direcção de Nikolaus Harnoncourt, Concentus Musicus, Coro Arnold Schönberg, baritono : Christian Gerhaher.

http://youtu.be/JT1Y9s4P6UY







sexta-feira, 25 de novembro de 2011


Congresso certo
em lugar certo


Começou no passado dia 22 e termina hoje, em Sintra, um encontro internacional que me interpelou de modo muito especial. Território vasto, com tantos problemas por resolver no âmbito da defesa e preservação de um património natural e edificado riquíssimos, Sintra tem todas as características, mais e menos positivas, para acolher uma iniciativa com o alcance deste XI Congresso Mundial da Organização das Cidades Património Mundial.

Na sua qualidade de anfitrião, ao dirigir-se a todos os interessados, através de sucinta introdução publicada no impresso geral deste Congresso, que se subordina ao grande tema das Cidades Património Mundial e as Alterações Climáticas, muito bem soube o Presidente Fernando Seara posicionar-se entre o júbilo e uma justificadíssima apreensão.

Muito naturalmente, por um lado, era a satisfação de poder abrir as portas, mostrando o que se tem feito em Sintra, no âmbito da defesa do património em articulação com as preocupações ambientais, dando as boas vindas a centenas de autarcas participantes, representando cidades de muitos países dos vários continentes, bem como aos peritos nas matérias em apreço. Por outro, citando as suas palavras, uma pertinente dúvida quanto ao “(…) legado que vamos transmitir às gerações vindouras e quais as medidas que iremos ou poderemos tomar para proteger um património que é, afinal, de todos nós (…)”

Enquanto Património Mundial, na condição de Paisagem Cultural da Humanidade, que articula e integra elementos urbanos, Sintra bem pode fornecer elementos preciosos de estudo que contribuam para a correcta compreensão das consequências resultantes das alterações climáticas. Multifacetada, entre a montanha e o oceano, ainda com assinalável actividade agrícola, igualmente marcada por nefastos efeitos de indústrias indisciplinadas, Sintra é um espantoso mosaico que, a céu aberto, escancara os interstícios a quem os souber ler e interpretar.

Estou perfeitamente convencido de que, nesta ocasião ímpar, em que pode evidenciar o que de muito bom por cá acontece, nomeadamente sob a responsabilidade da empresa Parques de Sintra Monte da Lua, ou a acção pedagógica da Escola Profissional de Recuperação do Património, Sintra também saberá evidenciar erros clamorosos que, em abono da verdade, se cometem em todas as latitudes – deixai que apenas cite um entre os vários que, certamente, serão abordados – como o da construção em leito de cheia, prática que, a montante e a jusante, compromete a gestão de factores essenciais a uma eficaz defesa e preservação do património natural e edificado.

Enfim, muito trabalho para estas jornadas. Sem dúvida, mais um cartão de apresentação para Sintra que, deste modo, através do trabalho desenvolvido, ficará conotada com uma preocupação global, inequivocamente definidora dos conturbados tempos que tivemos a sorte de viver. Todos desejamos que o trabalho destes dias contribua, decisivamente, para o apontar de soluções que as conclusões do Congresso não deixarão de registar. Aguardemos as notícias.



quinta-feira, 24 de novembro de 2011



Greve geral,
atitude global


A greve geral que, neste início da manhã, já vai num terço do total das horas de protesto nacional, acabará por revelar o mais sério avisos no sentido de que o governo não pode e não deve mesmo puxar mais a corda. A capacidade de resistência dos trabalhadores e do povo em geral tem limites. Os sacrifícios não foram pedidos a todos. Os objectivos do esforço solicitado, sempre aos mesmos, não foram claros. Está longe de se saber que resultado se obterá com tantas renúncias.

De facto, é perfeitamente inadmissível que o esforço mais desmesurado esteja concentrado, precisamente, no mais fragilizado dos segmentos populares, por exemplo, nos pensionistas. Por outro lado, apesar da farsa protagonizada pelo Ministro das Finanças, anteontem, no Parlamento, é flagrante o espectáculo de diabolização dos trabalhadores da Função Pública, agora transformados em bestas de carga de decisores políticos com falta de rasgo.

Até agora, é enorme a dimensão do protesto e, sejam quais forem as manobras na manipulação dos números, os factos são indesmentíveis. Hoje, o trânsito a mais ou a menos, escolas e hospitais parados, repartições públicas e fábricas reduzidas à mínima expressão de funcionamento, aviões que não partem nem chegam, barcos que não atracam, em suma, a desorganização de um quotidiano que, em Portugal, nunca é fácil, são sinais evidentes da esgotada paciência do povo.

Esta é uma greve geral diferente de outras que a sociedade portuguesa já viveu. Esta inscreve-se num mal de viver que ultrapassa os limites das fronteiras nacionais internas de uma Europa esgotada, para se inscrever num quadro mais global de repúdio dos cidadãos. Na realidade, não são só os portugueses que, em particular, estão confrontados com soluções decididas por poderosíssimas forças que transformam os políticos eleitos em títeres sem qualquer gabarito, pervertendo, ainda mais, os mecanismos de uma democracia europeia enfraquecida.

Hoje, os portugueses dão este grito de inequívoco desespero. É um sinal de civismo, já no limite da sua tão reduzida capacidade de intervenção. Porém, imprescindível se torna entender que esta jornada cívica se inscreve num movimento muito mais global. Há meses, os gregos, há semanas, os italianos e, em contínuo, o movimento dos indignados, um pouco por toda a Europa e América, ocupando as grandes praças e ruas mais simbólicas das capitais, são outros sintomas de uma síndrome global de grande incomodidade que, ensina a História, costuma ser o lastro de desgraças que os europeus bem conhecem.

Hoje, de facto, o alerta é nosso. Há imensas e importantes mensagens a circular nas ruas de Portugal. Façamos votos no sentido de que os destinatários das mensagens as entendam em toda a sua intencionalidade. É tão urgente quanto vital.




domingo, 20 de novembro de 2011



Poder local,
concelho adiado


Concelho adiado era o título de uma rubrica que, durante anos, mantive no saudoso 'Jornal de Sintra', justificado pela minha convicção de que este será sempre um município por resolver enquanto se mantiver tão ilógica concentração de freguesias, tornando radical e perfeitamente ingovernável um território que, teimosamente, continua a apregoar Sintra como sede.

Durante os últimos dez anos, não terá havido outro munícipe que mais se tivesse pronunciado, por escrito, acerca deste tema. Basta consultar o arquivo dos jornais regionais para confirmar a publicação dos inúmeros artigos que subscrevi acerca da matéria. Naturalmente, também neste blogue há textos abordando o problema.

Sempre advoguei que o concelho se deveria cindir, pelo menos, em duas unidades – preferencialmente, em três – portanto, dando origem a dois, três novos concelhos, agregando freguesias que, pelas afinidades múltiplas de algumas das suas características, suscitassem a constituição de tais novos conjuntos, resultantes dos agrupamentos sugeridos. Como, há muitos anos, considero que o concelho é ingovernável – e também justifiquei esta opinião através de argumentos razoáveis – escrevi imenso acerca da conveniência de agregação das freguesias, de acordo com o figurino que mais operacional sempre se me evidenciou.

Em relação à reunião que ontem se realizou no Palácio Valenças, promovida pela Alagamares, resolvi não comparecer, não porque subestime os organizadores ou a iniciativa mas, tão somente, porque, à partida, o jogo está viciado. Repare-se que, numa altura em que se devia aproveitar para introduzir as mudanças indispensáveis à operacionalidade do Poder Local, tudo se comprometeu com a determinação de, liminarmente, a todo o transe, suprimir freguesias e concelhos.

Quem pode afirmar que tal é a única solução? Eu não tenho a menor dúvida de que, em Sintra, por exemplo, a solução não passa por suprimir freguesias e, ao contrário do que é advogado pelo Governo – no quadro do designado Memorando da Troika – este mastodôntico concelho, que não passa de manta de retalhos desarticulados, até deveria dar origem a mais um ou dois...

Decidi não aparecer porque esta minha perspectiva e consequente proposta não tem a mínima hipótese de vingar, numa terra em que os mais lúcidos – portanto, todos quantos se reivindicam de mais luz – já se submeteram a imposições exteriores, pouco ou nada consentâneas com a realidade que o terreno aponta, reduzindo-se à condição de cegos para que um qualquer reizito possa vir a reinar…

Tenho idade e experiência bastantes para já poder ter chegado à conclusão de que as lutas só devem ser encaradas desde que haja o mínimo de viabilidade de pôr em comum uma alternativa que, seriamente, possa ser equacionada. Caso contrário, quem tenha opinião radicalmente oposta àquela que a onda do momento suscita e sugere, como é o meu caso, o melhor é reservar-se, não arriscando o protagonismo de uma luta quixotesca, nada mais do que desgastante para o próprio.

A propósito da decisão que tomei, lembro o Dr. Amílcar Ramada Curto, bom amigo do meu pai, advogado, político, jornalista e dramaturgo que, como todos sabem, foi um grande democrata e oposicionista ao regime instaurado pelo Estado Novo. Uma das frases que dele herdei e que, cada vez mais, vou degustando, é aquela em que afirmava ser preferível, em muitas circunstâncias, a ausência de físico pela presença de espírito…

Raras vezes, como ontem, me senti tão bem representado pelas palavras que dão substância a tal opinião. Enfim, fica-me o consolo de saber que, não tendo estado ontem presente no Palácio Valenças , não deixei – como acima referi – de registar a minha opinião, em tempo oportuno, copiosamente, em dezenas e dezenas de páginas de jornais regionais e no blogue, acerca da matéria em apreço. A minha participação, portanto, já estava civicamente assegurada. Quem estiver interessado, não terá a mínima dificuldade de consulta.

Nestes termos, creio que compreenderão as razões da minha ausência. De qualquer modo, não posso deixar de confessar a pena que sinto porquanto, num período que foi anunciado como de reforma do Poder Local, tudo está inquinado à partida. Pena, na realidade, por se estar a perder mais uma oportunidade. E, talvez, ainda pior, por mais um manifesto de falta de capacidade.



sábado, 19 de novembro de 2011



Mozart e Messmer


O nosso amigo José Manuel Anes tem andado engripado. Ontem, num comentário suscitado por anterior referência a Cosi fan tutte, escrevia ele:

Se eu tivesse chamado este médico 'mesmérico' já estava bom há muito!!! Nota: o Mozart conheceu o Mesmer creio que em Paris quando era miúdo

Tendo-me sentido desafiado, por aquela incorrecção da referência a Paris, eis o esclarecimento que se impõe. A relação de Mozart (1756-91) com Franz Anton Mesmer (1734-1815) remonta a 1767-69, durante a longa estada do compositor em Viena, algum tempo antes de o médico ter descoberto a cura magnética que o tornaria famoso. Mesmer tinha casado com uma viúva rica, Anna Maria von Posch, vivendo o casal numa autêntica mansão, numa zona da cidade que, na altura era um subúrbio da Landstrasse.

Quem conhece a Viena actual só pode sorrir com esta alusão ao subúrbio. Mozart passou muitas horas naquela casa, durante outra estada na capital, em 1773, ali tendo tocado várias vezes. Contudo, em 1781, na altura em que o compositor se estabelece em Viena definitivamente, já Mesmer tinha deixado a família, depois da tentativa frustrada de cura da cegueira da pianista Maria Theresia von Paradis, para se instalar na sua conhecida clínica em Paris.

Consequentemente, Mozart encontrou a casa da Landstrasse muito vazia, digamos, conforme pôde testemunhar à irmã Nannerl, numa carta datada de 15 de Dezembro de 1781: “(…) No que respeita aos nossos velhos conhecidos, apenas fui uma vez visitar Frau Mesmer cuja casa não é uma sombra do que foi (…)”

Cumpre acrescentar – e, agora, são tudo suposições – que, em 1768, quem encomendou Bastien und Bastienne, K. 50, terá sido Mesmer em cuja casa, no Outono desse ano, a ópera teria sido estreada, portanto, tempos antes de se tornar famoso com a teoria que Mozart ridicularizaria em Cosi fan tutte, quando
a criada Despina recorre à estratégia da cura magnética.

Por favor, reparem no esplêndido elenco. Que fabulosas vozes mozartianas! Absolutamente irrepetível, sob a direcção de outro mozartiano, Karl Böhm. Como sou velho, ainda assisti a récitas com esta gente. Que sorte a minha, hem?





http://youtu.be/cUJGflaeExE

Agora, confiados no rápido restabelecimento de José Manuel Anes, apenas lhe desejamos não lhe passe pela cabeça insistir nesta hipótese de cura...