[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012



Tannhäuser,
em Lisboa

Ontem, na Gulbenkian, assisti a uma récita de Tannhäuser, de Richard Wagner, em versão de concerto, que alcançou um nível mesmo muito apreciável. Coro e Orquestra Gulbenkian, um belo conjunto de vozes wagnerianas, as mesmas que ouço «lá», no santuário de Bayreuth, tais como Falk Struckmann, baixo (Hermann, Landgrave da Turíngia), Johan Botha, tenor (Tannhäuser), ou Melanie Diener, soprano (Elisabeth, sobrinha do Landgrave), num concerto que a direcção de Bertrand de Billy soube fazer render ainda que com alguns problemas.

Fundamentalmente, ao nível instrumental, os referidos problemas ter-se-ão devido ao facto de que a orquestra da casa não é especialmente rodada no repertório wagneriano, cujas particularidades muito sofisticadas, no domínio da acústica, exigem muita frequência de interpretação. O Coro esteve em magnífica forma. Como proposta concertante, em Lisboa, constituiu um momento deveras interessante, honrando o pequeno ciclo que a temporada da Fundação reservou ao compositor.

Esta que ainda não é uma ópera da grande maturidade de Wagner, tem segmentos inspiradíssimos. É muito impressiva a sucessão de momentos de avassalador arrebatamento que tomam conta de qualquer audiência minimamente receptiva. Gostaria de vos propor um momento do III Acto, de uma famosa produção de Bayreuth, encenada por Götz Friedrich e que, sob a batuta de Sir Colin Davis, teve em Gwineth Jones, uma lendária Elizabeth. Em Bayreuth, não assisti a esta mas a uma outra produção, também com GJ de que, infelizmente, não encontrei gravação.

A Orquestra e o Coro do Festival de Bayreuth aqui estão, evidenciando a máquina absolutamente fabulosa da sua prestação. A encenação, de uma eficácia a toda a prova. A marcação de cena, impecável. Nesta pequena amostra, como verificarão, tudo concorre para ilustrar o grande projecto do compositor que encarava a sua como uma proposta de Arte Total.

Boa audição!

http://youtu.be/05LpZe_CvlM
Tannhäuser: Act 3 chorus
http://www.youtube.com/

Monte da Lua,
soma e segue...

No contexto de exemplar estratégia de comunicação coordenada por Maria do Céu Alcaparra, a Parques de Sintra Monte da Lua acaba de informar acerca de mais uma aquisição de património cujos objectivos estão devidamente esclarecidos no texto que, seguidamente, passarei a transcrever. Antes, porém, gostaria de salientar a correcção desta atitude da empresa, dando satisfação pública do que vai realizando com os recursos materiais e humanos ao seu dispor.

Naturalmente, é com o maior regozijo que partilho a notícia com os meus leitores, certo de que, na tão restrita medida das minhas possibilidades, nada mais consigo do que saudar a PSML pelos imensos benefícios com que tem cumulado Sintra, os Sintrenses e todos os que demandam esta terra, na busca de uma particular identidade que a empresa preserva e dignificar como nenhuma outra entidade.

Eis a transcrição da notícia:

"Parques de Sintra adquire Quinta da Amizade para percurso pedestre até ao Castelo dos Mouros
-Percurso pedestre até ao Castelo facilitado pelo interior da Quinta
-Vila Sassetti, no interior, será alvo de recuperação


Sintra, 16 de Janeiro 2012 – A Parques de Sintra Monte da Lua adquiriu à Câmara Municipal de Sintra, nos finais de 2011, a Quinta da Amizade, em Sintra (propriedade do município desde 2004), que inclui a Vila Sassetti e duas casas de guarda. O objectivo é estabelecer mais um percurso pedestre desde o centro histórico da Vila de Sintra até ao Castelo dos Mouros. A Quinta é já um verdadeiro caminho, pois é uma longa e íngreme faixa de terreno, que vai desde o Largo do Victor até ao sopé rochoso do Castelo (a Vila fica situada a meio desse caminho).

Insere-se no conjunto de caminhos que a empresa vem preparando para que os visitantes dos dois mais frequentados monumentos geridos pela Parques de Sintra – o Palácio da Pena e o Castelo dos Mouros – os possam alcançar a pé, sem terem que conviver, sobretudo na época alta, com carros e autocarros ao longo da Rampa da Pena. Para isso, a Parques de Sintra, após trabalhos de limpeza e recuperação da Quinta da Amizade, irá abrir este espaço à passagem de peões, instalando na Vila Sassetti um local de descanso, visita e restauração.

A Vila Sassetti, construída entre 1890 e 1894, é um chalet cujo projeto, Victor Carlos Sassetti, que foi dono dos famosos Hotéis Bragança (Lisboa), e Victor (Sintra), encomendou ao seu amigo arquiteto Luigi Manini, mais tarde autor da Quinta da Regaleira e do Palácio, hoje hotel, do Buçaco. A Vila chegou a ser, mais tarde, arrendada a Calouste Gulbenkian.

Esta interessante construção, ou castelejo de estilo Lombardo encontra-se num local sobranceiro à Vila de Sintra, - um verdadeiro miradouro - de estética romântica e oferecendo a sensação intimista de refúgio para família e amigos. Será objecto de restauro, estando previsto abrir o caminho e a Vila Sassetti ao público já no próximo Verão."


Mais uma vez, como poderão verificar, a Parques de Sintra Monte da Lua continua a dar cartas. E, como o jogo é sempre excelente, quem ganha somos nós...



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012


Helmut Schmidt,
93 anos, a voz da lucidez

À ATENÇÃO DE TODOS! ESTE DISCURSO QUE HELMUT SCHMIDT PROFERIU, HÁ CERCA DE UM MÊS, EM BERLIN, NO CONGRESSO DO SPD, É UMA DAS PEÇAS POlÍTICAS DE MAIOR ALCANCE DOS ÚLTIMOS ANOS. É LONGO. MAS, PARA BEM DE TODOS, NÃO PERCAM!

ESTE É O DISCURSO DE UM ESTADISTA. ESTAS SÃO CONSIDERAÇÕES QUE NÃO ESTÃO AO ALCANCE DE MERKL, SARKOZY E, MUITO MENOS, DE UM AINDA MAIS MEDÍOCRE SÓCRATES. A ESTE NÍVEL, A POLÍTICA É TÃO DESAFIANTE COMO A MELHOR MÚSICA, COMO A GRANDE ARTE.

REPAREM-SE. DELICIEM-SE COM A LUCIDEZ.

[infelizmente, a tradução é pouco recomendável. Acabo de aceder ao original pelo que aconselho todos os que entendam o Alemão a fazerem o mesmo. As palavras ganham uma veemência, uma pertinência muito mais impressivas. Neste, como em muitas outras circunstâncias, bem se aplica a máxima tradutore, traditore...]


Discurso de Helmut Schmidt no Congresso do SPD, 4 de Dezembro de 2011,BerlimDiscurso «A Alemanha na e com a Europa», Helmut Schmidt, ex-chanceler, noCongresso ordinário do SPD, Berlim, 4 de Dezembro de 2011



- é válida a palavra dita –



Queridos Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores!


Deixai-me começar com uma nota pessoal. Quando o Sigmar Gabriel, o Frank-Walter Steinmeier e o meu Partido me pediram mais uma vez uma contribuição,gostei de recordar como há 65 anos eu e a Locki, de joelhos no chão, pintavamoscartazes para o SPD em Hamburgo-Neugraben. Na verdade tenho de confessardesde já: no que diz respeito a toda a política partidária, já estou para além do Bem e do Mal, por causa da minha idade.


Há muito que para mim, em primeiro e em segundo lugar, se encontram as tarefas e papel da nossa nação no indispensável âmbito união europeia.Simultaneamente estou satisfeito por poder partilhar esta tribuna como o nossovizinho norueguês Jens Stoltenberg, que no centro de uma profunda infelicidade dasua nação nos deu a nós e a todos os europeus um exemplo a seguir de direção liberal e democrática de um estado de direito.


Enquanto entretanto homem já muito velho, penso naturalmente em longosperíodos temporais – quer para trás na História, quer para a frente na direção dodesejado e pretendido futuro. Contudo, não pude dar há alguns dias uma respostaclara a uma pergunta muito simples. Wolfgang Thierse perguntara-me: «Quando será a Alemanha, finalmente, um país normal?» E eu respondi: num futuro próximo a Alemanha não será um país «normal».


Já que contra isso está a nossa cargahistórica enorme mas única. E além disso está contra isso a nossa posição centralpreponderante, demográfica e economicamente, no centro do nosso bastantepequeno continente mas organizado em múltiplos estados-nação.Com isto já estou no centro do complexo tema do meu discurso: a Alemanha naEuropa, com a Europa e pela Europa.


Razões e origens da integração europeiaApesar de em alguns poucos dos cerca de 40 Estados europeus a consciência de ser uma nação se ter desenvolvido tardiamente – assim em Itália, na Grécia e naAlemanha – sempre houve e em todo o lado guerras sangrentas. Pode-secompreender esta história europeia – observada da Europa Central – como umapura sequência de lutas entre a periferia e o centro e vice-versa. Sempre de novo ocentro se manteve o campo de batalha decisivo.


Quando os governantes, os estados ou os povos no centro da Europa foram fracos,então os vizinhos da periferia avançaram para o centro. A maior destruição e asrelativamente elevadas baixas humanas aconteceram na primeira guerra dos 30anos entre 1618 e 1648, que se desenrolou fundamentalmente em solo alemão. AAlemanha era, nessa época, simplesmente um conceito geográfico, definido deforma desfocada só pelo espaço da língua alemã. Mais tarde vieram os franceses, sob Luís XIV e de novo sob Napoleão. Os suecos não vieram uma segunda vez; mas sim diversas vezes os ingleses e os russos, a última vez com Staline.


Mas quando as dinastias ou os Estados eram foram fortes no centro da Europa – ouquando se sentiram fortes! – então atacaram a periferia. Isto já é válido para ascruzadas, que foram simultaneamente cruzadas de conquista não só na direção daÁsia Menor e Jerusalém, mas também na direção da Prússia Oriental e na de todosos três estados bálticos atuais. Na idade moderna é válido para as guerras contraNapoleão e é válido para as três guerras de Bismarck em 1864, 1866 e 1870/71.


O mesmo é válido principalmente para a segunda guerra dos 30 anos de 1914 a1945. É especialmente válido para os avanços de Hitler até ao Cabo Norte, até aoCáucaso, até à ilha grega de Creta, até ao sul da França e até mesmo a Tobruk, perto da fronteira líbio-egípcia. A catástrofe europeia, provocada pela Alemanha, incluiu a catástrofe dos judeus europeus e a catástrofe do estado nacional alemão.


Mas antes os polacos, as nações bálticas, os checos, os eslovacos, os austríacos, os húngaros, os eslovenos, os croatas tinham partilhado o destino dos alemães namedida em que todos eles, desde há séculos, tinham sofrido sob a sua posiçãogeopolítica central neste pequeno continente europeu. Ou dito de outra forma: diversas vezes, nós, alemães, fizemos sofrer os outros sob a nossa central posição de poder.


Hoje em dia, as reivindicações territoriais conflituais, os conflitos linguísticos efronteiriços, que ainda na primeira metade do século XX desempenharam um papelimportante na consciência das nações, tornaram-se de facto insignificantes, pelo menos para nós alemães.Enquanto na opinião pública e na opinião publicada nas nações europeias oconhecimento e a lembrança das guerras da Idade Média se encontramamplamente esquecidos, a lembrança de ambas as guerras do século XX e aocupação alemã desempenham todavia ainda um papel latente dominante.


Penso ser para nós alemães decisivo que quase todos os nossos vizinhos – e paraalém disso quase todos os judeus no mundo inteiro – se recordem do holocausto edas infâmias que aconteceram durante a ocupação alemã nos países da periferia.Não está suficientemente claro para nós alemães que provavelmente entre quasetodos os nossos vizinhos, ainda por muitas gerações, se mantém uma desconfiançacontra os alemães.


Também as gerações alemãs posteriores têm de viver com este peso histórico. E as atuais não devem esquecer: foi a desconfiança com um futuro desenvolvimento da Alemanha que justificou o início da integração europeia em 1950.Em 1946, Churchill, no seu grande discurso em Zurique, tinha duas razões paraapelar aos franceses para se entenderem com os alemães e construírem com ele os Estados Unidos da Europa: em primeiro lugar a defesa conjunta perante a UniãoSoviética, que parecia ameaçadora, mas em segundo a integração da Alemanha numa aliança ocidental alargada.


Porque Churchill previa perspicazmente arecuperação económica da Alemanha.Quando em 1950, quatro anos depois do discurso de Churchill, Robert Schuman e Jean Monnet apresentaram o plano Schuman para a integração da indústria pesadaeuropeia, a razão foi a mesma, a razão da integração alemã. Charles de Gaulle, que dez anos mais tarde propôs a Konrad Adenauer a reconciliação, agiu pelo mesmo motivo.


Tudo isto aconteceu na perspetiva realista de um possível desenvolvimento futurodo poder alemão. Não foi o idealismo de Victor Hugo, que em 1849 apelou à uniãoda Europa, nem nenhum idealismo esteve em 1950/52 no início da integraçãoeuropeia então limitada à Europa Ocidental. Os estadistas dessa época na Europa ena América (nomeio George Marshall, Eisenhower, também Kennedy, mas principalmente Churchill, Jean Monnet, Adenauer e de Gaulle ou também Gasperi eHenri Spaak) não agiram de forma nenhuma por idealismo europeu, mas sim apartir do conhecimento da história europeia até à data.


Agiram no juízo realista danecessidade de impedir uma continuação da luta entre a periferia e o centroalemão. Quem ainda não entendeu este motivo original da integração europeia, deque continua a ser um elemento fundamental, quem ainda não entendeu isto falta-lhe a condição indispensável para solucionar a presente crise altamente precáriada Europa.


Quanto mais, durante os anos 60, 70 e 80, a então República Federal ganhava empeso económico, militar e político, mais a integração europeia se tornava aos olhosdos governantes europeus o seguro contra a de novo possível tentação de poderalemã. A resistência inicial de Margaret Tatcher ou de Miterrand ou de Andreottiem 1989/90 contra a unificação dos dois estados alemães do pós-guerra estavaclaramente fundada na preocupação de uma Alemanha poderosa no centro deste pequeno continente europeu.Gostaria aqui de fazer um pequeno excurso pessoal. Ouvi Jean Monnet quandoparticipei no seu comité «Pour les États-Unis d’Europe». Foi em 1955.


Para mim Jean Monnet é um dos franceses mais perspicazes que eu conheci na minha vidaem questões de integração, também por causa do seu conceito de avançar passo apasso na integração europeia.Desde aí que, por compreender o interesse estratégico da nação alemã, me tornei e me mantive um partidário da integração europeia, um partidário da integração daAlemanha, não por idealismo. (Isto levou-me a uma controvérsia com Kurt Schumacher, o por mim muito respeitado presidente do meu partido, para eleinsignificante, para mim com 30 anos, regressado da guerra, muito séria.)


Levou-me a concordar, nos anos 50, com os planos do então Ministro dos NegóciosEstrangeiros polaco Rapacki. No início dos anos 60 escrevi então um livro contra aestratégia oficial ocidental da retaliação nuclear, com que a NATO, na qual ontemcomo hoje nos encontrávamos integrados, ameaçava a poderosa União Soviética.


A União Europeia é necessáriaDe Gaulle e Pompidou continuaram nos anos 60 e início dos anos 70 a integraçãoeuropeia, para integrar a Alemanha – mas também não queriam de maneiranenhuma integrar o seu próprio estado. Depois disso, o bom entendimento entreGiscard d’Estaing e mim, levou a um período de cooperação franco-alemão e à continuação da integração europeia, um período que depois da primavera de 1990continuou com êxito entre Miterrand e Kohl.


Ao mesmo tempo desde 1950/52 quea comunidade europeia cresceu, até 1991, passo a passo de seis para dozemembros.Graças ao amplo trabalho preparatório de Jacques Delors (na altura presidente daComissão Europeia), Miterrand e Kohl acordaram, em 1991, em Maastricht amoeda comum – o euro – que se tornou realidade dez anos mais tarde, em 2001.


De novo na sua origem a preocupação francesa de uma Alemanha demasiadopoderosa, mais exatamente de um marco demasiado poderoso.Entretanto o euro tornou-se na segunda moeda mais importante da economiamundial. Esta moeda europeia é até, quer interna, quer externamente mais estáveldo que o dólar americano e mais estável do que o marco foi nos seus últimos dezanos.


Toda a conversa sobre uma suposta «crise do euro» é conversa fiada levianados media, de jornalistas e de políticos.Mas desde Maastricht, desde 1991/92, que o mundo mudou imensamente.Assistimos à libertação das nações do leste europeu e à implosão da UniãoSoviética. Assistimos à ascensão fenomenal da China, da Índia, do Brasil e outros«estados emergentes», que antigamente chamávamos «Terceiro Mundo».


Simultaneamente, as economias reais de grande parte do mundo «globalizaram-se», em alemão: quase todos os estados no mundo dependem uns dos outros.Principalmente, os actores nos mercados financeiros globalizados apropriaram-sede um poder, por enquanto, totalmente sem controlo.Mas paralelamente, quase sem se dar por isso, a humanidade multiplicou-se deforma explosiva atingindo os 7 mil milhões.


Quando nasci eram cerca de 2 milmilhões. Todas estas enormes mudanças tiveram consequências tremendas nospovos europeus, nos seus estados, no seu bem-estar!Por outro lado, todas as nações europeias envelhecem e por todo o lado desce onúmero de cidadãos europeus. Em meados do século XXI seremos provavelmente9 mil milhões de pessoas a viver na Terra, enquanto todas as nações europeias não ultrapassarão os 7%. 7% de 9 mil milhões. Até 1950, os europeus representaram, durante mais de dois séculos, mais de 20% da população mundial.


Mas desde há 50 anos que nós europeus diminuímos – não só em números absolutos, mas principalmente em relação à Ásia, África e América Latina. Da mesma forma desce a parte dos europeus no produto social global, isto é na criação de riqueza de toda a humanidade. Até 2050 descerá até aos 10%; em 1950 ainda representava 30%.Cada uma das nações europeias, em 2050, representará já só uma parte de um 1% da população mundial. Quer dizer: se queremos ter a esperança de nós europeus termos importância no mundo, então só a teremos em conjunto.


Porque enquanto Estados separados – seja a França, Itália ou Alemanha ou Polónia, Holanda ou Dinamarca ou Grécia – só nos poderão contar em milésimos e não mais em números percentuais.Daqui resulta o interesse estratégico a longo prazo dos estados europeus na suacooperação integradora. Este interesse estratégico na integração europeiaaumentará em importância cada vez mais. Até agora ainda não está amplamente consciencializado pelas nações.
Também os respetivos governos não as consciencializam.

No caso, porém de a União Europeia no decorrer do próximo decénio nãoconseguir – mesmo que limitada – uma capacidade conjunta de atuação, não é deexcluir uma marginalização auto-provocada dos estados e da civilização europeia.Do mesmo modo não se pode excluir, num caso destes, o ressuscitar de lutasconcorrenciais e de prestígio entre os estados europeus. Numa situação destas aintegração da Alemanha não poderia funcionar. O velho jogo entre centro eperiferia podia de novo tornar-se realidade.


O processo mundial de esclarecimento, de propagação dos direitos das pessoas eda sua dignidade, o direito constitucional e a democratização não receberia maisnenhum impulso eficaz da Europa. Nesta perspetiva, a comunidade europeia torna-se uma necessidade vital para os estados nacionais do nosso velho continente. Estanecessidade ultrapassa as motivações de Churchill e de Gaulle. Também ultrapassaas motivações de Monnet e os de Adenauer. E hoje também engloba as motivaçõesde Ernst Reuter, Fitz Ehler, Willy Brandt e também Helmut Kohl.


Acrescento: certamente que também se trata ainda e sempre da integração daAlemanha. Por isso, nós alemães temos de ganhar clareza sobre a nossa tarefa, onosso papel no contexto da integração europeia. A Alemanha necessita de constância e fiabilidadeSe no final de 2011 olharmos para a Alemanha com os olhos dos nossos vizinhosmais próximos e mais distantes, desde há um decénio que a Alemanha provocainquietação – recentemente também preocupação política.


Nos últimos anossurgiram dúvidas consideráveis sobre a constância da política alemã. A confiançana garantia da política alemã está abalada.Estas dúvidas e preocupações assentam também nos erros de política externa dosnossos políticos e governos. Por outro lado baseiam-se no, para o mundoinesperado, poder económico da República Federal unificada. A nossa economiatornou-se – iniciando nos anos 70, nessa época ainda dividida – na maior daEuropa. Tecnológica, financeira e socialmente é hoje uma das economias maiseficientes do mundo.


O nosso poder económico e a nossa, em comparação muitoestável, paz social desde há decénios também provocaram inveja – tanto mais quea nossa taxa de desemprego e a nossa dívida se encontram dentro da normalidadeinternacional.No entanto, não nos é suficientemente claro que a nossa economia está, querprofundamente integrada no mercado comum europeu, quer em grande medidaglobalizada e assim dependente da conjuntura mundial. Iremos assim assistircomo, no próximo ano, as nossas exportações não aumentarão significativamente.


Mas simultaneamente desenvolveu-se um grave erro, nomeadamente os enormesexcedentes da nossa balança comercial. Desde há anos que os excedentesrepresentam 5% do nosso PIB. São comparáveis aos excedentes da China. Isto nãonos é completamente claro porque os excedentes não se contabilizam em marcos, mas em euros. Mas é necessário que os nossos políticos consciencializem estacircunstância.Porque todos os nossos excedentes são, na realidade, os défices dos outros. Asexigências que temos aos outros, são as suas dívidas. Trata-se de uma violaçãoirritante do por nós elevado a ideal legal do «equilíbrio da economia externa».


Estaviolação tem de inquietar os nossos parceiros. E quando ultimamente aparecemvozes estrangeiras, na maioria dos casos vozes americanas – entretanto vêm demuitos lados – que exigem da Alemanha um papel de condução europeia, entãoisso desperta nos nossos vizinhos mais desconfiança. E acorda más recordações.Esta evolução económica e a simultânea crise da capacidade de ação dos órgãos da união europeia empurraram de novo a Alemanha para um papel central. Achanceler aceitou solícita este papel juntamente com o presidente francês.


Mas há, e novo, em muitas capitais europeias e também em muitos media uma crescentepreocupação com o domínio alemão. Desta vez não se trata de uma potênciamilitar e política central, mas sim de um potente centro económico!Aqui é necessário uma séria, cuidadosamente equilibrada advertência aos políticosalemães, aos media e à nossa opinião pública.


Se nós alemães nos deixássemos seduzir, baseados no nosso poder económico, por reivindicar um papel político dirigente na Europa ou pelo menos desempenhar opapel de primus inter pares, então um número cada vez maior dos nossos vizinhosresistiria eficazmente. A preocupação da periferia europeia com um centro daEuropa demasiado forte regressaria rapidamente. As consequências prováveis deuma tal evolução seriam atrofiadoras para a UE. E a Alemanha cairia noisolamento.


A República Federal da Alemanha, muito grande e muito eficaz, precisa – tambémpara se defender de si própria! – de se encaixar na integração europeia. Por issodesde os tempos de Helmut Kohl, desde 1992 que o artº 23º da Constituição nosobriga a colaborar «... no desenvolvimento da União Europeia». Este artº 23ºobriga-nos a esta cooperação também no «princípio da subsidiariedade...». A crise atual da capacidade de ação dos órgãos da UE não muda em nada estes princípios.

A nossa posição geopolítica central, mais o papel infeliz no decorrer da históriaeuropeia até meados do século XX, mais a nossa capacidade produtiva atual, tudoisto exige de todos os governos alemães uma grande dose de compreensão dosinteresses dos nossos parceiros na EU. E a nossa prestabilidade é indispensável.Nós, alemães, também não conseguimos sozinhos a grande reconstrução ecapacidade de produção nos últimos 6 decénios. Elas não teriam sido possíveis sem a ajuda das potências vencedoras ocidentais, sem a nossa inclusão nacomunidade europeia e na aliança atlântica, sem a ajuda dos nossos vizinhos, sem a mudança política na Europa de leste e sem o fim da ditadura comunista.


Nós,alemães, temos razões para estarmos gratos. E simultaneamente temos aobrigação de nos mostramos dignos da solidariedade através da solidariedade comos nossos vizinhos!Pelo contrário, ambicionar um papel próprio na política mundial e ambicionarprestígio político mundial seria bastante inútil, provavelmente até prejudicial. Emtodo o caso, mantém-se indispensável a estreita cooperação com a França e aPolónia, com todos os nossos vizinhos e parceiros na Europa.É minha convicção que reside no interesse estratégico cardinal da Alemanha alongo prazo, não se isolar e não se deixar isolar.


Um isolamento no espaço doocidente seria perigoso. Um isolamento no espaço da EU ou da zona euro seriaainda mais perigoso. Para mim, este interesse da Alemanha ocupa um lugarinequivocamente mais importante do que qualquer interesse tático de todos ospartidos políticos.Os políticos e os media alemães têm, com mil demónios, a obrigação e o dever dedefender este conhecimento de forma duradoura na opinião pública.


Mas quando alguém dá a entender que hoje e no futuro falar-se-á alemão naEuropa; quando um ministro alemão dos negócios estrangeiros pensa queaparições adequadas às televisões em Tripoli, Cairo ou Cabul são mais importantesdo que contactos políticos com Lisboa, Madrid, Varsóvia ou Praga, Dublin, HaiaCopenhaga ou Helsínquia; quando um outro acha ter de se defender de uma «União de transferência» - então tudo isto é mera fanfarronice prejudicial.


Na verdade, a Alemanha foi durante longos decénios pagador líquido! Podíamosfazê-lo e fizemo-lo desde Adenauer. E naturalmente que Grécia, Portugal ou Irlandaforma sempre recebedores líquidos.Esta solidariedade talvez não seja hoje suficientemente clara para a classe políticaalemã. Mas até agora foi evidente. Também evidente – e para além disso desdeLisboa incluído no tratado – o princípio da subsidiariedade: aquilo que um estadonão pode ou não consegue resolver, tem de ser assumido pela UE.


Desde o plano Schuman que Konrad Adenauer aceitou, por instinto políticoacertado, a oferta francesa contra a resistência quer de Kurt Schumacher, quer de Ludwig Erhard. Adenauer avaliou corretamente o interesse estratégico de longoprazo da Alemanha – apesar da divisão da Alemanha! Todos os sucessores – assim também Brandt, Schmidt, Kohl e Schröder – prosseguiram a política de integraçãode Adenauer.Todas as táticas da ordem do dia, da política interna ou da política externa nunca questionaram o interesse estratégico alemão de longo prazo.


Por isso todos osnossos vizinhos e parceiros puderam confiar, durante decénios, na constância dapolítica europeia alemã – e na verdade independentemente de todas as mudançasde governo. Esta continuidade mantém-se conveniente também no futuro.A situação atual da EU exige energiaContribuições conceptuais alemãs foram sempre naturais. Também se deve manterassim no futuro. No entanto não devíamos antecipar o futuro longínquo. Mudanças no tratado, mesmo assim, só poderiam corrigir em parte erros e omissões narealidade criada há vinte anos em Maastricht.


As propostas atuais para asmudanças no Tratado de Lisboa em vigor não me parecem muito úteis para umfuturo próximo, se nos lembrarmos das dificuldades até agora com todas asdiversas ratificações nacionais, ou nos referendos com resultados negativos.Concordo por isso com Napolitano, o Presidente italiano, quando, num notáveldiscurso em Outubro exigiu que nós hoje nos temos de concentrar no que énecessário hoje fazer. E que para isso temos de esgotar as possibilidades que ostratados em vigor nos proporcionam – especialmente o reforço das regrasorçamentais e da política económica na zona Euro.


A atual crise da capacidade de ação dos órgãos da EU criados em Lisboa, não podecontinuar! Com a exceção do BCE, todos os órgãos – Parlamento Europeu, ConselhoEuropeu, Comissão Europeia e Conselho de Ministros – todos eles, desde asuperação da aguda crise dos bancos de 2008 e especialmente da consequentecrise da dívida soberana, contribuíram pouco para uma ajuda eficaz.Não há nenhuma receita para a superação da atual crise de liderança na EU.


Serão necessários vários passos, alguns simultâneos, outros consecutivos. Não serão só necessárias, capacidade de análise e energia, mas também paciência! Nisso ascontribuições concepcionais alemãs não se podem reduzir a chavões. Não devemser apresentadas na praça televisiva, mas em vez disso confidencialmente nosgrémios dos órgãos da EU. Os alemães não devem apresentar como exemplo oumedida de toda as coisas aos nossos parceiros europeus, nem a nossa ordemeconómica ou social, nem o nosso sistema federal, nem a nossa políticaconstitucional orçamental ou financeira, mas sim simplesmente enquanto exemploentre várias outras possibilidades.


Todos nós em conjunto somos responsáveis pelos efeitos futuros na Europa portudo o que hoje a Alemanha faz ou deixa de fazer. Precisamos de razoabilidadeeuropeia. Mas não precisamos só de razoabilidade, mas também de um coraçãocompreensivo com os nossos vizinhos e parceiros.Concordo num ponto importante com Jürgen Habermas, que recentemente referiuque – e cito - «...na realidade assistimos agora pela primeira vez na história da EU a uma desmontagem da Democracia!!» (fim da citação).


De facto: não só o Conselho Europeu, incluindo o seu Presidente, também a Comissão Europeia, incluindo o seuPresidente e os diversos Conselhos de Ministros e toda a burocracia de Bruxelasmarginalizaram em conjunto o princípio democrático! Eu caí no erro, na época emque introduzimos a eleição para o Parlamento europeu, de pensar que oParlamento conseguiria o seu peso próprio. Na verdade até agora não tevenenhuma influência reconhecível na superação da crise, já que as suas discussões e resoluções não têm até agora nenhum resultado público.


Por isso quero apelar a Martin Schulz: é tempo de o senhor e os seus colegasdemocratas-cristãos, socialistas, liberais e verdes, em conjunto mas de formadrástica, conseguirem ser ouvidos publicamente. Provavelmente o campo datotalmente insuficiente fiscalização sobre os bancos, bolsas e os seus instrumentosfinanceiros, desde o G20 em 2008, adequa-se na perfeição para um tallevantamento do Parlamento Europeu.


Realmente alguns milhares de brookers nos EUA e na Europa, mais algumasagências de notação tornaram reféns os governos politicamente responsáveis na Europa. Não é de esperar que Barack Obama possa vir fazer muito contra isso. Omesmo é válido para o governo britânico. Realmente, os governos do mundointeiro salvaram, na verdade, os bancos em 2008/09 com as garantias e o dinheirodos impostos dos cidadãos. Mas já em 2010, esta manada de executivosfinanceiros, altamente inteligentes e simultaneamente propensos à psicose, jogava,de novo, o seu velho jogo do lucro e das bonificações. Um jogo de azar e emprejuízo dos que não são jogadores, que eu e Marion Dönhoff já nos anos 90criticámos como muito perigoso.


Já que ninguém quer agir, então os participantes da zona Euro têm de o fazer. Paraisso o caminho pode ser o do artº 20º do Tratado de Lisboa em vigor. Aí prevê-seexpressamente, que Estados-membros sós ou em conjunto «estabeleçam entre eles uma cooperação reforçada». Em todo o caso, os Estados membros da zona euro deveriam impor uma regulação enérgica do seu mercado financeiro comum.

Desde a separação entre por um lado os normais bancos de negócios e por outro, os bancos de investimento e bancos sombra até à proibição da venda de derivados,desde que não autorizados pela fiscalização oficial da Bolsa - até à restrição eficazdos negócios das, por enquanto, não fiscalizadas agências de notação no espaço dazona euro. Não quero, minhas senhoras e meus senhores, aborrecê-los com maisdetalhes.


Naturalmente que o globalizado lobby dos banqueiros iria empregar todos osmeios contra. Já conseguiu até agora impedir toda a regulamentação eficaz.Possibilitou para si mesmo que a manada dos seus brookers tenha colocado osgovernos europeus na situação difícil de ter de inventar sempre novos «fundos deestabilização» e alargá-los através de «alavancas». É tempo de se resistir. Se oseuropeus conseguirem ter a coragem e a força para uma regulação eficaz dosmercados financeiros, então podemos no médio prazo tornarmo-nos numa zona deestabilidade.

Mas se falharmos, então o peso da Europa continuará a diminuir – e omundo evolui na direção de um Duovirato entre Washington e Pequim.Seguramente que para o futuro próximo da zona euro todos os passos anunciadose pensados até agora são necessários. Deles fazem parte os fundos de estabilização, o limite máximo de endividamento e o seu controlo, uma política económica e fiscal comum, deles fazem parte uma série de reformas nacionais na política fiscal, de despesa, na política social e na política laboral. Mas forçosamente, também uma dívida comum será inevitável. Nós, alemães, não nos devemos recusar por razõesnacionais e egoístas.


Mas de forma nenhuma devemos propagar para toda a Europa uma políticaextrema de deflação. Mais razão tem Jacques Delors quando exige, em conjuntocom o saneamento do orçamento, a introdução e financiamento de projetos quefomentem o crescimento. Sem crescimento, sem novos postos de trabalho, nenhum Estado pode sanear o seu orçamento. Quem acredita que a Europa pode, só através de poupanças orçamentais, recompor-se faça o favor de estudar o resultado fatal da política de deflação de Heinrich Brüning em 1930/32. Provocou uma depressão e um desemprego de uma tal dimensão que deu início à queda da primeira democracia alemã.


Aos meus amigosTerminemos, queridos amigos! No fundo, não é preciso pregar solidariedadeinternacional aos sociais-democratas. A social-democracia é desde há século emeio internacionalista – em muito maior medida do que gerações de liberais, deconservadores ou de nacionalistas alemães. Nós, sociais-democratas, nãoabdicámos da liberdade e da dignidade de cada ser humano. Simultaneamente nãoabdicámos da democracia representativa, da democracia parlamentar. Estesprincípios obrigam-nos hoje à solidariedade europeia.


Decerto que a Europa, também no século XXI, será constituída por estadosnacionais, cada um com a sua língua e a sua própria história. Por isso a Europa nãose tornará de certeza num Estado Federal. Mas a UE também não pode degenerarnuma mera aliança de estados. A UE tem de se manter uma aliança dinâmica, emevolução. Não há em toda a história da humanidade nenhum exemplo. Nós, social-democratas, temos de contribuir para a evolução passo a passo desta aliança.


Quanto mais envelhecemos, mais pensamos em períodos longos. Tambémenquanto homem velho me mantenho fiel aos três princípios do Programa deGodesberg: liberdade, justiça, solidariedade. Penso, a propósito, que hoje a justiçaexige antes de mais igualdade de oportunidades para as crianças, para estudantese jovens.Quando olho para trás, para 1945 ou posso olhar para 1933 – tinha acabado defazer 14 anos – o progresso que fizemos até hoje parece-me quase inacreditável.


O progresso que os europeus alcançaram desde o Plano Marshall, 1948, desde o Plano Schuman, 1950, graças a Lech Walesa e ao Solidarnosz, graças a Vaclav Havel e à Charta 77, que agradecemos àqueles alemães em Leipzig e Berlim Oriental desde a grande mudança em 1989/91.Não podíamos imaginar nem em 1918, nem em 1933, nem em 1945 que hoje umagrande parte da Europa se regozija pelos Direitos Humanos e pela paz. Por isso mesmo trabalhemos e lutemos para que a UE, historicamente única, saia firme eautoconfiante da sua presente fraqueza.


SPD 2011



terça-feira, 10 de janeiro de 2012





[AT: O texto precedente, Richard Wagner, alguns passos maçónicos, deveria ter ocupado o lugar deste]



Tannhäuser,
Bayreuth, 2011

Eis uma gravação vídeo do Acto III de Tannhäuser, do famoso Coro dos Peregrinos. Sempre que, de vez em quando, vos escrevo acerca do que procuro em Bayreuth, tento dar-vos uma percepção que se aproxime da que poderão aceder através da audição deste excerto.

Por acaso, quanto à imagem que se mantém ao longo da peça, deixem-me confessar-vos que até é pouco ilustrativa da grandiosidade do momento da ópera ao qual se reporta. A cena que se vive no palco é perfeitamente avassaladora.

Aquilo que ouvem – a componente instrumental e as vozes, produzidas por intérpretes do mais alto gabarito em qualquer parte do Mundo – isso sim, é inequivocamente grandioso e sublime. Como já vi esta mesma produção, posso partilhar convosco a opinião de que me desagrada a encenação, muito controversa, para não variar em relação ao que vem acontecendo em Bayreuth nos últimos anos…

Contudo, poder lá estar e viver momentos absolutamente inesquecíveis como este, constitui um privilégio quase indescritível.A propósito da estridente e desafinadíssima polémica dos últimos dias, gostaria ainda de lembrar que Richard Wagner, o supremo obreiro desta sublime beleza, pretendeu entrar na Maçonaria. E, apesar de várias tentativas informais foi liminarmente dissuadido.

É uma história muito interessante que bem dava pano para algumas mangas… Assim, sem entrar em detalhes, fiquem sabendo que, para ser admitido na Augusta Ordem Maçónica, preciso é que o candidato seja considerado «livre e de bons costumes». E, de facto, Richard Wagner não reunia essa condição sine qua non.

Boa audição!

http://youtu.be/H_IOgXH5po8

Bayreuther Festspiele 2011: Tannhäuser: Akt 3 Pilgrim's Chorus




[AT: Este texto deveria ter ocupado o lugar do que está publicado acima]



Richard Wagner,
alguns passos maçónicos


Provavelmente, acicatados pela referência à Maçonaria, no texto publicado há minutos, acerca da vontade que Richard Wagner manifestou no sentido de ingressar na Augusta Ordem, gostariam os meus amigos de saber que, de facto, o compositor esteve sempre muito próximo.

E não é que, de repente, me lembrei ter sido nos primeiros dias de Janeiro de determinado ano da década de trinta, quando Wagner andaria pelos seus vinte e poucos anos, que participara em determinado concerto promovido por uma Loja Maçónica? Pois, apesar de certas falhas muito incómodas, a memória ainda não me atraiçoa completamente.

Consultando apontamentos na papelada que vou acumulando quando estou em Bayreuth e por lá ando a vasculhar, acabei por encontrar o que me suscitara o vislumbre referido.A surpresa maior foi quando verifiquei que o evento coincide com a data de hoje!

Mais uma das coincidências em que a minha vida é farta. Permitam-me um parêntesis para convosco partilhar o facto de, cá por casa, ser vítima de todas as brincadeiras que possam imaginar devido à ocorrência de coincidências deste género…

Pois, então, foi num dia 10 de Janeiro de 1835, data em que Richard Wagner ainda não tinha feito vinte e dois anos – o seu aniversário é a 22 de Maio – faz hoje, precisamente, cento e setenta e seis anos, que o compositor dirigiu a Abertura da sua ópera Die Feen, no âmbito de um concerto organizado por um tal senhor Lafont, promovido pela Loja Maçónica Ferdinand zur Glückseligkeit de Magdeburg, cidade onde o jovem Wagner manteve um posto de trabalho.

Já que entrei neste pormenor, então ainda faltará acrescentar que, três dias passados, lá foi tocada a Abertura que Wagner compusera para uma peça de Wilhelm Schmale, escrita para assinalar o Novo Ano.

Cumpre ainda assinalar que Ludwig Geyer, padrasto de RW (que alguns biógrafos consideram poder ser, afinal, o verdadeiro pai do grande mestre), tinha sido iniciado, em 1804, na acima referida Loja que, juntamente com outra oficina maçónica, a Harpokrates, desempenhavam destacado papel na vida musical daquela cidade.Fica desde já prometido que, muito brevemente, vos proporei um texto acerca das relações de óperas de Richard Wagner com o universo maçónico, nomeadamente Lohengrin e Parsifal. Esta última, aliás, inclui referências interessantíssimas de coincidência com Die Zauberföte de Mozart.

Portanto, para já, aí têm a Abertura de “Die Feen”. Boa audição!

Richard Wagner - Die Feen, Ouvertüre 2/2 http://www.youtube.com/

Die Feen, Ouverture, german opera in three acts. Music and text by Richard Wagner (1813-1883). Conductor: Wolfgang Sawallisch & Bavaria State Orchestra.



sábado, 7 de janeiro de 2012



Dia de Reis

Este é o coro inicial da parte da Oratória de Natal de J. S. Bach que se relaciona com a data que hoje celebramos. A proposta de audição que vos trago é de altísssima qualidade. E até o cenário da Frauenkirche da cidade de Dresden é verdadeiramente assombroso. Tudo para maior glória de Deus e para benefício de todos, mesmo dos ateus e agnósticos. Ouçamos e rejubilemos!


http://youtu.be/ojAjYfafyjk
Frauenkirche Dresden J.S.Bach WO BWV 248 Teil 6 Nr. 54 Chor

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012




[Por favor, não avancem já para a cantata maçónica cuja audição vos proponho. Não, primeiramente, leiam o texto. Depois, escutem a peça composta pelo Mestre Maçon mais famoso da História da Cultura Ocidental. E, para que dúvida alguma subsista, tenham a certeza de que a matéria suscitada pelo meu texto e a peça musical do divino Mozart são tão indissociáveis como dois Irmãos Maçons o deveriam ser...]




Maçonaria, na berlinda



A propósito das notícias ontem e hoje divulgadas por toda a comunicação social, acerca da actividade mais ou menos controversa de determinados maçons, no contexto do serviço que prestam ou prestaram a entidades da Administração Pública, revela-se absolutamente imperioso que as duas principais obediências da Maçonaria, nomeadamente, o Grande Oriente Lusitano Maçonaria Portuguesa (GOL) e a Grande Loja Regular de Portugal (GLRP) desencadeiem as medidas indispensáveis ao esclarecimento.

A primeira analogia que imediatamente ocorre é com a Igreja Católica Apostólica Romana. Não tão raro quanto se julga, nos termos do Direito Canónico, chega a Igreja ao ponto de suspender e ou excomungar leigos ou membros do clero que, por palavras, actos e omissões se tenham colocado fora do cânone. Trata-se de um mecanismo de defesa daquilo que, ao nível do respeito pelos valores e princípios essenciais, a hierarquia considera ser imprescindível assegurar.

E, após a referência à analogia, volto à carga inicial. Ainda que não pretendendo referir casos específicos, cumpre lembrar que a Maçonaria dispõe de instâncias de Justiça que lhe permitem analisar e decidir se o comportamento de alguns dos seus membros é passível da aplicação de determinadas sanções. Nestes termos, julgo impor-se que, através dos meios que forem considerados mais convenientes, tais entidades satisfaçam a necessidade de separar o trigo do joio.

Com o acumular de episódios e casos mais ou menos lamentáveis, mais ou menos polémicos e controversos, neste momento, embora privilegiando uma linha de actuação discreta, a Maçonaria já não pode eximir-se a algumas satisfações ao mundo profano, ou seja, à sociedade em geral. Se não o fizer, a tempo e horas, preferindo ignorar o que é manifesto, continuará a fornecer a matéria inflamável de que a comunicação social está ávida.

Ora bem, os desígnios da atitude de discrição – que jamais podem autorizar se instale uma confusão como a que reina actualmente – são totalmente avessos a esta permanência na berlinda da Maçonaria que, ao fim e ao cabo, é a primeira e principal vítima de comportamentos que não a dignificam.

No entanto, se me demonstrarem que, muito pelo contrário, estarei totalmente enganado e que a estratégia há anos em vigor, portanto, de que a manutenção do statu quo é benéfica ao percurso maçónico dos membros da Augusta Ordem, então retiro tudo o que acabo de escrever e remeto-me ao silêncio donde saí apenas para manifestar esta opinião.



http://youtu.be/scSHRaIYv5A

http://www.youtube.com/
Wolfgang A. Mozart (1756-1791) Werner Hollweg, tenor, Ambrosian Singers and New Philharmonia Orchestra conducted by Edo de Waart

terça-feira, 3 de janeiro de 2012



Mozart, KV 533,
interpretação excepcional


A Sonata para Piano KV 533 em Fá Maior, faz hoje anos. Deu entrada no catálogo manuscrito de Mozart, datada de Viena, aos 3 de Janeiro de 1788. Daquela peça vos proponho o Andante, na especialíssima interpretação de Mitsuko Uchida, talvez a grande pianista mozartiana dos nossos dias. O seu touché, a sofisticada noção do tempo justo e certo, o fraseado, são inultrapassáveis.

Vou estar com ela nos próximos dias na Mozartwoche em Salzburg onde, mais uma vez, permanecerá como artista residente. Não calculam o que com ela se aprende nas suas masterclasses, desvendando alguns dos mais insondáveis caminhos de Amadé.

Sempre que puderem, procurem as interpretações de Uchida. Mas comparem com as de outros pianistas que, sem grande critério, a publicidade das discográficas promovem. Actualmente, ao serviço de Mozart, ao mesmo nível que Uchida, apenas Brendel e Pollini.

Boa audição!


http://youtu.be/hWu62hOj2U4
Mozart- Piano Sonata in F major, K. 533 & 494- 2nd mov. Andante [K. 533]


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


O costume…

Para começar o ano numa disposição de contínua intervenção cívica que, em função das circunstâncias, seja o mais possível construtiva, gostaria de chamar a atenção dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento de Sintra, a Câmara Municipal de Sintra e a Junta de Freguesia de São Martinho de Sintra – entidades às quais, para todos os efeitos, remeterei cópia deste pequeno texto – para uma perda de água que, já há semanas, acontece.

Passa-se o caso a uns metros das instalações da EDP, no largo fronteiro à Quinta do Relógio. O precioso líquido brota do subsolo para correr pela berma do lardo esquerdo da Rua Trindade Coelho, em direcção à entrada da quinta cujo portão tem o número três, umas dezenas de metros abaixo. Perante tão significativa perda, espero que os serviços actuem rapidamente.

Além dos seus consumos domésticos, os munícipes liquidam taxas tão altas, com o objectivo de cobrir a necessidade de intervenções congéneres, que não podem nem devem ser confrontados com um escândalo que tal. Não é coisa de pouca monta e reflecte um tal estado de desleixo que não pode passar sem referência. Os SMAS, a CMS, a JF dispõem de meios bastantes para poderem acorrer. Por favor não demorem.

Se os descuidos não são aceitáveis seja em que circunstancias for, a austeridade em curso ainda menos o consente. Aliás, se a austeridade não for aproveitada como alavanca para melhorar a qualidade, a todos os níveis, não estaremos à altura do momento. Quem dera que tivéssemos políticos capazes de verbalizar esta pedagogia!

domingo, 1 de janeiro de 2012

Negócio da China*

Perante manifestações de júbilo que apanharam políticos, banqueiros e gestores de copo de espumante na mão, celebrando o negócio da China, porque será que só consigo pensar nos milhões de crianças que, na China, não têm qualquer motivo para sorrir e cantar?

A ninguém responsável convirá lembrar que o dinheiro com que a Three Gorges vem pagar a parte do capital da EDP que acabou de comprar, provém de um país que se permite financiar-se e capitalizar através de muitos milhares de milhões de horas de exploração de trabalho infantil, da mais gritante e escandalosa privação dos direitos humanos e de monumentais atentados contra o equilíbrio da natureza?

São realidades que parece não perturbarem a digestão de ministros e banqueiros da treta que, despudoradamente, 'passam por cima'. Corre o espumante, fazem-se negócios que tais porque, afirmam, se agarrou aquilo que designam como «abertura de uma janela de oportunidade única». E, pronto, toca a banda!...

Quando o governo português resolveu dar esta vantagem aos chineses, esqueceu que podia ter dado uma «lição europeia» ao velho continente e esteve nas tintas para a ética que deve imperar na decisão política. Ética? Neste e noutros quejandos casos? Bem, no último dia do ano, o que eu devo é não estar bom da cabeça...

*Texto publicado no facebook em 31.12.11