[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Recado de Salzburg,
a pensar em Monserrate

Como sempre, é com o maior gosto que passo a divulgar a exposição que chegou ao meu conhecimento através do bom trabalho de Maria do Céu Alcaparra, da Parques de Sintra Monte da Lua. Infelizmente, não poderei estar presente porque, como sabem, por ocasião da Mozartwoche, continuo em Salzburg. Mas, logo que regressar, não vou perder esta que se me afigura uma curiosíssima proposta.

Neste momento, eu estou muito longe. Mas os meus amigos, tão perto de Monserrate, não percam a oportunidade. Não tenho a menor dúvida de que o acolhimento será o melhor, como já nos habituou o Prof. António ressano Garcia Lamas e a sua equipa de colaboradores.

Abraço a todos,

João Cachado



Exposição de fotografia em suportes alternativos

“Camilla Watson - Mistérios de Monserrate”

- Fotografias impressas em papel de algodão- Biombo e mesa com impressão direta na madeira -

Patente de 3 de fevereiro a 25 de março
Imagens em: http://62.28.132.233/1328012709.zip
(créditos Camilla Watson)

Sintra, 31 de janeiro de 2012 –

A Parques de Sintra receberá, a partir do próximo dia 3 de fevereiro (Sexta-feira), no Palácio de Monserrate (Sintra), a exposição “Camilla Watson - Mistérios de Monserrate”, integrando fotografias captadas por Camilla Watson no Parque de Monserrate durante os últimos 8 meses.

As imagens expostas encontram-se impressas em papel de algodão, e a exposição inclui também um biombo e uma mesa com impressão de fotografias diretamente sobre madeira marítima. Este trabalho marca a diferença pelo local que retrata e também pelos métodos de impressão.

Com imagens a preto e branco, impressas sobre papel de algodão através da aplicação a pincel de uma emulsão líquida de prata, as fotografias apresentadas revelam um olhar diferente sobre a beleza e a magia de Monserrate, tratando-se do primeiro trabalho de Camilla Watson sem pessoas nas fotografias.

A fotógrafa utiliza uma emulsão fotográfica gelatinosa, rica em prata, que começa por liquidificar em banho-maria. Este líquido é aplicado a pincel, no escuro, sobre a superfície escolhida: mosaico, madeira, parede, ou simplesmente papel. Após secagem com um ampliador ou um projetor de slides (para superfícies maiores) expõe a superfície a um negativo preto e branco. O processo de câmara escura completa-se com um revelador, banho de paragem e fixador.

O trabalho desta fotógrafa distingue-se pela experimentação de novos suportes, com fotografias impressas diretamente em pedra, madeira, mosaicos e mesmo nas paredes das casas, utilizando uma câmara escura móvel que ela mesma desenhou.

Camilla explica que “não tinha uma lista do que queria fotografar, fui com a mente aberta e fotografei só as coisas que me chamavam: a água, cascatas, pedras, peixes, as raízes das árvores; voltei no inverno e atraíram-me as sombras longas e as árvores sem folhas - luminosas no sol baixo de inverno”, acrescentando ainda que espera que “as pessoas sintam a magia do parque; não acho que vão sentir a falta da cor nas fotografias do jardim a preto e branco, porque apesar de as cores terem a sua beleza, também podem ser uma distração”.

Sobre Camilla Watson

Nasceu no Reino Unido em 1967 e começou a sua carreira como fotógrafa de cena de teatro, tendo-se depois dedicado à reportagem e ao retrato. Entre 2001 e 2004 viveu em São Paulo, onde foi convidada pela ONG Meninos do Morumbi para ensinar fotografia a jovens residentes nas favelas, e de cuja experiência resultou “São Paulo - Belo Horizontes”, a sua primeira exposição em Lisboa.

Posteriormente passou por S. Tomé, Moçambique, Etiópia e África do Sul, continuando o seu percurso na área da reportagem ligada a ONG's.Em Lisboa, onde vive há 5 anos, tem desenvolvido atividades com a comunidade da Mouraria, (incluindo como sócia da associação “Renovar a Mouraria”) e a Câmara Municipal de Lisboa tem apoiado alguns dos seus projetos.

Entre estes encontram-se “Tributo” e “Dentro-Fora/Passado-Presente”, integrados na iniciativa “TODOS 2010” e "TODOS 2011", que consistiram na impressão de fotografias dos moradores diretamente nas paredes das casas, utilizando uma câmara escura móvel que a fotógrafa desenhou. Estes trabalhos foram igualmente expostos no Arquivo Municipal - Núcleo Fotográfico.

domingo, 29 de janeiro de 2012



Mozartwoche, 2012
28 de Janeiro [2]

Filarmónica de Viena, Boulez, Uchida

Antes de me reportar ao evento desta noite, não resisto a contar-vos um episódio acerca das características gigantescas do Grosses Festspielhaus de Salzburg, o auditório que, a exemplo do que acontece há dezenas de anos, acolheu hoje o primeiro de vários concertos da Orquestra Filarmónica de Viena desta edição da Mozartwoche, ao qual outros se seguirão.

Creio que haverá uma dúzia de anos, em conversa informal com Irmãos maçons, acerca das minhas vindas a Salzburg, dos concertos e das salas onde tudo se passa, naturalmente, referi o espaço mítico que, desde a década de sessenta, faz as delícias dos melómanos de todo o mundo. Como sempre faço, referi as condições acústicas, de tal ordem que, numa visita guiada, qualquer pessoa é levada à experiência de ouvir, no lugar sentado mais recôndito da sala, o som produzido pela queda de uma bolinha de papel no palco…

Seguidamente, com todos fascinados perante as histórias acerca do proverbial ouvido absoluto de Herbert von Karajan, o grande mentor do auditório, passei às dimensões. Convém dizer que a conversa ia acontecendo no interior de um automóvel em andamento cujo condutor, quando eu disse que o palco do Grosses Festspielhaus tem 100 (cem) metros de largura, já não me deixou dizer dos trinta e tal de comprimento e parou o carro.

Muito aborrecido, incomodado pelo barrete que lhe estava a enfiar, perguntava-me, muito enfaticamente, se eu sabia o que eram cem metros, exemplificando-os, grosso modo, ali mesmo, no meio da rua. Acreditem que não tive maneira de o convencer. Estou convencido de que os outros dois que, meio constrangidos, assistiam à cena, se inclinavam mais para a dúvida do que para a minha certeza. Enfim, encurtando a história, passados uns dias, pedia-me desculpa porque, efectivamente, era como eu dizia mas que compreendesse, coisa assim, era mesmo para duvidar…

Ontem, como quase sempre acontece, com a lotação esgotada dos seus dois mil e duzentos lugares, fomos assistir a momentos irrepetíveis de Arte, com os músicos daquela grande orquestra – que a maioria dos mortais apenas conhece através da transmissão televisiva do Concerto de Ano Novo, devendo ficar com a ideia de que se trata de uns tipos que tocam umas valsas muito bem – dirigidos pelo mítico maestro Pierre Boulez, na apresentação de dois concertos para piano, interpretados por Mitsuko Uchida, provavelmente, a maior mozartiana da actualidade.

Não farei como no escrito precedente, entrando em detalhes da estrutura das peças. Desta vez, apenas impressões sobre a postura da pianista. Impressionante, sempre, uma autêntica personificação da própria Música, através de uma linguagem gestual e corporal que insinua, suscita e confirma o singular diálogo que, como demiurgo, cria e recria, directamente, anti vedeta, cúmplice dos elementos da orquestra, apenas sua companheira.

Quanto a Boulez, compositor importantíssimo, investigador, filósofo, pedagogo, maestro que deixa o seu nome ligado a momentos inesquecíveis como, apenas um exemplo, o da responsabilidade conjunta com Chéreau por um Ring que ficará nos anais de Bayreuth, nos seus oitenta e seis anos, faz-me lembrar Otto Klemperer. Dirige mentalmente, económico no gesto, um caso sério…

Filarmónica de Viena, Uchida e Boulez em Concerto para Piano e Orquestra em Fá Maior, KV 459 de Mozart, Concerto para Piano e Orquestra op. 42 de Schoenberg, Acompanhamento para uma Cena Cinematográfica op. 34, também de Schönberg, e Pulcinella de Stravinsky, no assombroso privilégio daquela casa talhada para o gozo da Arte que se faz no momento, Tempo no tempo.

Finalmente, um excerto da Suite Pulcinella, dirigida por Zubin Metha.

Boa audição!

!http://youtu.be/X4KYuhfag5I
I.Stravinskij - Pulcinella Orchestral Suite - Part I/III www.youtube.com
Salzburg, 27 de Janeiro, 2012

Sasha Waltz,
Gefaltet


Ainda dia 27, às sete e meia da tarde, a iniciar o programa oficial da Mozartwoche, a proposta de um concerto coreografado por Sasha Waltz, a partir de peças de Mozart e de Marc André, jovem compositor francês contemporâneo. Pessoalmente, estava na maior expectativa já que as credenciais desta coreógrafa são de nível máximo e, em Salzburg, bem comprovadas com a óptima receptividade de Continu, estreado em Zurique em 2010 e aqui reposto no Festival do Verão passado.

Importa que entendam que, no ano passado, precisamente no dia 27 de Janeiro, quando comprei os bilhetes para este ano, foi dado a todos os interessados um programa geral, pormenorizadíssimo, com todas as informações acerca do que, agora, está a acontecer. Aliás, nestes grandes festivais, é invariavelmente assim e, de facto, só se pode trabalhar assim. Portanto, há um ano, eu sabia tudo o que devia e, naturalmente, em função das linhas de força apresentadas, conjecturei sobre a proposta de Waltz.

Contudo, de facto, o que vim encontrar ultrapassa tudo o que imaginar se possa. Gefaltet é uma análise de Mozart, com referência ao presente, articulada com a questão de saber como trabalhar com Mozart nos nossos dias. Gefaltet [=dobrado] relacionar-se-á com o processo matemático da dobragem, segundo o qual duas funções estão ligadas uma à outra dando origem a uma terceira, como se fosse uma resposta.

Ininterruptamente, durante duas horas certas, no palco do Landestheter, oito bailarinos e quatro óptimos músicos – quem conhece Carolin Widman, violino, Guy Bem-Ziony, viola, Nicolas Altstaedt, violoncelo e Alexander Lonquich, piano, entende o nível do conjunto a que me reporto – vivenciaram, em diferentes dimensões, o Divertimento KV 563, as Sonatas KV 310 e 304, o Adagio KV 540, a Gigue KV 574, o Rondo KV 511, o Allegro do Quateto de Cordas 478, em Sol menor* e três peças de André.

Cento e vinte minutos de ‘alta estética’, espectáculo culto, desafiador, provocatório, iconoclasta, com inusitada insistência na lenta decomposição dos movimentos, no absoluto respeito da plasticidade da própria música, tudo projectado numa dimensão outra, [Gefaltet] talvez um meta-espaço, em que movimento e música se fundem na conquista do vazio.

Bailarinos jovens, muito seguros, dão tudo o que é humanamente possível exigir. Que bom poder dizer-vos que a grande estrela é um jovem moçambicano, Edivaldo Ernesto, de inesgotáveis recursos!

Verdadeiramente avassalador o ritmo das surpresas, com frequente recurso à finíssima ironia mozartiana, sem qualquer ponta de gratuitidade, pelo contrário, tudo intencional, opera aperta, aberta a todas as leituras, desde que inteligentes. Os músicos são tão coreografados como os bailarinos. Os instrumentos, todos os instrumentos, incluindo o pesadíssimo Steinway, evoluem no espaço com inaudita elegância ou se quedam, inertes, cheios de sentido, numa quietação expectante.

Estive sentado num lugar óptimo, na quinta fila da plateia, mesmo ao centro, sem hipótese de perder o mínimo detalhe, sentado, preso, cativo da proposta de Sasha Waltz. E que bem soube aquela submissão assumida!... Quando a Arte assim acontece o único risco é o de que nos percamos na confusão das coordenadas de espaço e tempo, ou seja, de que nos passemos.

Finalmente, se querem que vos diga, não sei bem se ainda continuam os aplausos, comoventes, catárticos. Mozartwoche, 2012, que começo mais auspicioso!
É por estas e por outras que não perco. Ano após ano, não tem preço o que venho encontrar.

Aqui têm uma gravação da última das peças de Mozart constante de Gefaltet. Boa audição!

* Sol menor, tonalidade frequentemente relacionada com a ideia de grande inquietação, inclusive, de morte.



http://youtu.be/fvD0ubvQvqE
Mozart Piano Quartet 1 in g minor, k. 478 (1/3) http://www.youtube.com/



sábado, 28 de janeiro de 2012



Utopia,
Thomas More, Gilbert & Sullivan
[ou o «encontro» do santo com os maçons…]


Thomas More pisou e ultrapassou os limites da humana condição pagando com a vida a dignidade com que não transigiu perante o que não podia nem devia. Que magnífico exemplo! Como ele, também Giordano Bruno. Infelizmente, longe dele, Galileo Galilei que, para salvar a pele não hesitou em negar a absoluta e radical verdade daquilo que a Ciência lhe tinha permitido descobrir…

Sabem todos os que foram e têm sido meus alunos e formandos que, enquanto professor e de formador, jamais perco a oportunidade de apontar o grande humanista como paradigma do Homem. Este fiel servidor do Rei mas de Deus em primeiro lugar, acabou por ser canonizado pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana, em 1935.* Dessa vez, andou bem a mesma Igreja que bem pode penitenciar-se de pecados e pecadilhos em conhecidos processos de beatificação e canonização…

O autor da Utopia terá contado com o testemunho de Rafael Hetloideu – fascinante personagem histórica das descobertas e explorações portuguesas –para a concepção desta obra máxima da literatura universal, mundividência radical mas possível e lugar alcançável se e quando o Homem quiser.

A propósito, recomendaria a edição fac simil da Utopia, com uma Introdução brilhante do saudoso Prof. Doutor José Vitorino de Pina Martins, tradução e notas do Prof. Doutor Aires A. Nascimento, meu amigo e companheiro da ACLUS, publicada pela Fundação Gulbenkian em 2006, que qualquer boa biblioteca doméstica não pode dispensar.

E, porque, raramente, consigo alinhar umas frases sem as articular com o mundo da música, logo relacionei a Utopia do More com Utopia, Limited or the Flowers of Progress, engraçadíssima ópera de Gilbert & Sullivan, que levou George Bernard Shaw a afirmar que se tratava da ópera do Savoy de que mais tinha gostado. Exige recursos avultadíssimos de montagem, não será uma obra-prima mas é muitíssimo bem disposta.

Não por acaso, já que a utopia é lugar geométrico por excelência da Augusta Ordem Maçónica, eis que Sir Arthur Sullivan e Sir William Schwenck Gilbert, da famosa dupla Gilbert & Sullivan, foram conhecidos maçons. E eu, no meio destes três, cristão católico, como o primeiro e Irmão dos outros dois… Pois fiquem sabendo que não há qualquer incompatibilidade – veja-se, por exemplo, o famoso caso do Irmão Mozart que toda a gente tem na ponta da língua – e como todos coabitamos em paz e harmonia.

E agora, em face da seriedade da matéria precedente, sem cometer sacrilégio algum, vos deixo com um momento muito bem disposto da citada ópera. Ouvirão uma ária cuja letra é a única coisa que se vê no écran. Estejam atentos e reparem como se adequa aos tempos de crise por que passamos. Como sempre, crise, enfim, só para alguns…


*Aos católicos que, como eu, têm More na maior consideração, será bom lembrar que a sua festa passa a 22 de Junho.


http://youtu.be/H4euNhxbGWs UTOPIA LIMITED Mr. Goldbury's Song (Gilbert & Sullivan) www.youtube.com
Mozart,
27 de Janeiro, em Salzburg



Como há muitos anos acontece em 27 de Janeiro, estando sempre m Salzburg para assistir à Mozartwoche, passo o aniversário de Amadé cumprindo um certo ritual que compreende três momentos matinais e um vespertino. Já agora, porque não é segredo entre dois irmãos maçons, um que passou ao Oriente Eterno há duzentos e vinte anos e outro, este humilde escriba que ainda por cá andará por mais algum tempo até se lhe juntar, ficam a saber o detalhe.

Primeiramente, vou comprar dois ramos de flores, sempre aos mesmos floristas ambulantes da Praça da Universidade, junto à grande igreja da Colegiada. Depois, dirijo-me à casa-museu onde nasceu o compositor para ir colocar um dos ramos junto ao retrato de Mozart que o seu cunhado Joseph Lang deixou inacabado. Finalmente, avanço para o Mozarteum onde entrego o outro ramo à Prof. Geneviève Geffray que, até Maio do ano passado, foi a Directora da célebre Biblioteca Mozartiana e principal guardiã dos tesouros dos Mozart.

Esta grande senhora é minha amiga de longa data. Jamais teria a minha vida tão facilitada em Salzburg não fora a sua interferência. Ela é uma verdadeira instituição. O mundo mozartiano deve-lhe imenso. Tem tido alguns reconhecimentos nacionais como a Legião de Honra da França, nomeadamente por ter sido ela a primeira grande investigadora a fazer a tradução para o Francês de todas as cartas da família Mozart. E, aqui, na Áustria, a concessão do título de Prof, análogo ao que, entre nós, é o doutoramento honoris causa.


Hoje mesmo nos fartámos de brincar a propósito de uma piada que ela própria assume a respeito da sua relação de trabalho com Amadé, ou seja, a relação de uma vida inteira dedicada à nobilíssima tarefa de o dar a conhecer em múltiplos aspectos e de preservar a sua herança. Assume a minha amiga a dupla condição de «Frau Mozart» e de «Mozats Witwe» ou seja, de Senhora Mozart e de viúva de Mozart…


Temos cumplicidades várias e, inclusive, o facto de tal como a minha mulher, ter atravessado um difícil problema de saúde, felizmente, ultrapassado com o maior sucesso, já lá vão treze anos. Com o seu exemplo, foi uma fonte de motivação e ânimo em minha casa.


É uma senhora queridíssima com quem, na minha dupla condição de membro do Mozarteum e também de maçon, tudo tinha combinado mas não consegui levar a cabo no sentido de, no Museu do Grande Oriente Lusitano, expor peças originais de Mozart e falar acerca desse espólio. A nossa obediência afirmava não dispor de verba para o efeito e, apesar dos meus esforços e dos do Venerável da minha Loja, não conseguimos fazer vencer o argumento de que a própria exposição constituiria uma séria fonte de receita. E ainda dizem que os maçons são terríveis para o negócio…


Continuemos, então, com o meu ritual, na sua componente vespertina. A coisa acontece na igreja de São Pedro onde se sabe que Mozart passou alguns momentos muito agradáveis. É curioso que, tanto para mim como para a minha amiga G. Geffray, este templo recatado, na maior parte do tempo até bastante sombrio, tem uma especiaslíssima carga do nosso Amadé. Não, não é coisa que se explique mas anda no ar…


É ali que vou ouvir uma gravação da Missa em Dó menor, KV 427 que lá mesmo foi cantada pela primeira vez em 26 de Outubro de 1783, tendo Constanze como intérprete de uma das partes de soprano. Se me perguntarem como faço, nenhum problema terei em dizer-vos que, praticamente, é em versão artesanal, com um CD player portátil. Pois, sim senhor, tenho um desses aparelhos mais recentes MP qualquer coisa mas não me entendo. E estou tão habituado ao outro que o esforço de adaptação não vale a pena. E assim faço a minha celebração, convindo lembrar que celebrações oficiais não há.


Então, a cerimónia

Não é frequente que a Mozartwoche se inicie no dia de aniversário do compositor, como este ano acontece. Hoje, 27 de Janeiro, nos duzentos e cinquenta e seis anos do nascimento de Amadé – já ontem vo-lo tinha anunciado – começa o Festival de Inverno mais famoso do mundo, com uma abertura solene, de acesso por convite e reservada aos membros do Mozarteum, entre os quais tenho a honra de me incluir.


Sem entrar em grandes detalhes, dir-vos-ei que estava apinhada a Wiener Saal do Mozarteum onde decorreu a cerimónia, singela mas tão sofisticada, como só aqui sabem fazer quando pretendem honrar a Música e os Músicos. Começou, com o Adagio do Quinteto KV 593 que, também ontem, já vos dei a ouvir. Continuou com discursos mais ou menos de circunstância, aqui e ali salpicados de genuína emoção, sempre quando se referiam ao homenageado.


Falaram o Presidente da Fundação, o Bürgermeister (Presidente da Câmara) de Salzburg, o presidente da Região, o representante da Ministra da Cultura, o Director artístico da Mozartwoche que fez a laudatio de András Schif. Foi concedida a medalha e, então, falou o pianista. Lentamente, muito emocionado, comovida e empenhadamente envolvido com os difíceis momentos que se vivem na sua Hungria natal, disse o que deve a Salzburg e ao Mozarteum e, principalmente, ao próprio Mozart.

Sublinhou aquilo que, tantas vezes, eu tenho dito e repetido – algo que me faz vir a Salzburg todos os anos, em especial, durante a Mozartwoche – isto é, como está grato por a Fundação continuar a proporcionar programas contra a lógica comercial, do marketing das grandes companhias discográficas. Falou de si, naturalmente, para se apoucar perante a notoriedade excepcional de quem o precedeu nesta excepcional distinção, tais como Karl Böhm, Bruno Walter, Paumgartner, Nikolaus Harnoncourt…

Naturalmente, aplaudindo vibrantemente e de pé, todos o saudámos com a maior sinceridade e emoção, gratos por tantos e excelentes momentos musicais de serviço a Mozart. Seguidamente, o mesmo conjunto de músicos – entre os quais se incluía a violinita Yuuko Shiokawa, mulher de András Schiff, também presença constante enquanto membro da Cappella Andrea Barca – interpretou o Menuett da mesma e já referida peça.


Só para que tenham uma pequena ideia do savoire faire desta boa gente, pois fiquem sabendo que a cerimónia de Abertura da Mozartwoche que começou cerca das cinco da tarde, teve aqueles discursos todos, mais dois momentos musicais do mais alto gabarito, seguindo-se um beberete estupendo e quando faltava um quarto para as sete já toda a gente saía. É verdade, hora e meia é quanto basta e ninguém se maça.


Até porque não podia ser de outra maneira já que, às sete e meia, no Landestheter, a cerca de cinquenta metros, seria apresentado o primeiro espectáculo do programa oficial da Mozartwoche sobre o qual, mais logo, vos apresentarei outro texto.


E, a finalizar, a peça completa, da qual a Fundação Internacional do Mozarteum de Salzburg seleccionou o Adagio e o Minuetto para audição na cerimónia de lançamento do Festival. Não deixem de reparar nos intérpretes desta gravação.



Boa audição!


v_qXHMzCXzs Mozart -

String Quintet No. 5 in D major, K. 593 http://www.youtube.com/

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012



Mozartwoche, 2012
primeiro evento

Esta será a primeira peça que se escutará amanhã, durante uma cerimónia de Abertura da Mozartwoche e de atribuição da Medalha de Ouro da Fundação Internacional do Mozarteum de Salzburg ao pianista András Sciff, para a qual fui convidado na qualidade de membro da instituição.

Tocarão alguns dos elementos dos naipes de cordas da Cappella Andrea Barca. Já agora explicarei que esta famosa e estupenda orquestra, que András Schiff constituiu com músicos provenientes de outras grandes orquestras, deve o seu nome ao próprio András Schiff. Reparem: András=Andrea e Schiff=Barca portanto, a tradução para Italiano, também para Português, do substantivo alemão das Schiff, barco.

András Schiff que, na passada temporada da Gulbenkian, foi interpretar as Variações Goldberg de J.S. Bach, numa estupenda e entusiasmante leitura, é figura sacramental em todas as Mozartwoche de há uns bons anos a esta parte. Ainda pairam na memória de todos os mozartianos, indefectíveis da Mozartwoche, as suas versões dos concertos e das sonatas de Amadé.

Como poderão verificar, a minha explicação acerca da designação da orquestra também o remete para o bom lugar dos cultores da fina ironia. Pois, ele já sabia que o nome originaria celeuma. Então não é que houve uns sabichões afirmando patranhas acerca da inexistente biografia de Andrea Barca?...

Gente desta há por todo o lado e todos devem ter frequentado a mesma escola de música onde o Pedro Santana Lopes aprendeu que o bom do Chopin tinha composto concertos de violino... Enfim, voltemos a coisas sérias. Ouçam este andamento, um Adagio lindíssimo, do Quinteto em Ré Maior KV 593. A interpretação é muito correcta.

Boa audição!

!http://youtu.be/qQhr8bv05Qg
W. A. Mozart - String Quintet in D, K593; 2) Adagio


Uchida,
mozartiana inspiração...


Eu assisti a esta maravilha. Foi ha seis anos, aqui em salzburg, na Grosse Saal do Mozarteum. Uchida, acerca de quem vos tenho escrito. Há quem afirme ser ela uma encarnação do próprio Mozart... Eu adoro-a. E vou ter o privilégio de voltar a estar com a pianista dentro de dias, em várias oportunidades. Desses momentos vos darei conta, estejam descansados. Agora, deixem-me partilhar convosco estes momentos tão especiais.

Boa audição!

http://youtu.be/iARNzSLxK0c
MITSUKO UCHIDA MOZART PIANO CONCERTO No.20 http://www.youtube.com/

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012



Wagner e a Maçonaria (II)
(concl)


Já em Salzburg, até parece que estou em Bayreuth, preocupado com a segunda parte do meu artigo "Richard Wagner e a Maçonaria". A verdade é que me atrasei, com uma série de questões pendentes que, felizmente, consegui resolver antes de viajar para aqui. E, como compreenderão, preocupado que estava com o Wagner, não podia começar a debitar sobre Mozart e Salzburg antes de despachar o assunto. Depois de me ter situado, já posso deixar esta pequena introdução para retomar a matéria.


Continuando a vasculhar a biografia de Richard Wagner, provou-se que, efectivamente, o pai do compositor foi maçon e que, depois da sua morte, os seus Irmãos Pedreiros-Livres de Dresden passaram a proteger a família, assumindo as despesas da escolarização de um dos irmãos de Richard que frequentaria uma escola patrocinada pela Maçonaria local.

Mais tarde, num dia 10 de Janeiro de 1835, data em que Richard Wagner ainda não tinha feito vinte e dois anos – o aniversário é a 22 de Maio – dirigiu a Abertura da sua ópera “Die Feen”, no âmbito de um concerto organizado por um tal senhor Lafont, promovido pela Loja Maçónica “Ferdinand zur Glückseligkeit” de Magdeburg, cidade onde o jovem Wagner manteve um posto de trabalho. Já que entrei neste pormenor, então ainda faltará acrescentar que, três dias passados, lá foi tocada a Abertura que Wagner compusera para uma peça de Wilhelm Schmale, escrita para assinalar o Novo Ano.

Cumpre ainda referir que Ludwig Geyer, padrasto de RW (que alguns biógrafos consideram poder ser, afinal, o verdadeiro pai do grande mestre…), tinha sido iniciado, em 1804, na acima referida Loja que, juntamente com outra oficina maçónica, a “Harpokrates”, desempenhavam destacado papel na vida musical daquela cidade.Já depois de conquistada a notoriedade, conhecem-se-lhe várias tentativas no sentido de se aproximar da Maçonaria tentando que aceitassem a sua Iniciação.

Às impressões da infância e juventude ter-se-ão juntado as influências dos mais notáveis artistas contemporâneos, entre os quais o seu próprio sogro, Franz Liszt, e outros altamente colocados na hierarquia maçónica.Remonta a 1841 – curiosamente, pouco tempo antes da sua vinda a Portugal – a admissão e Iniciação de Liszt na Loja “Zur Einigkeit” de Frankfurt, ainda que tenha sido posteriormente, em Berlin, que ascendeu aos graus de Companheiro e Mestre, na Loja “Zur Eintracht”.

Aliás, é à luz da verdadeira fraternidade maçónica que deve ser entendida a sua protecção a vários artistas, entre os quais Wagner, que foi um dos principais beneficiados. Prosseguindo, veremos que, ao tempo, um dos mais conhecidos maçons alemães, o professor Oswald Marbach, casou com Rosalie, nem mais nem menos do que irmã de Wagner. Durante trinta anos foi Venerável da Loja “Balduin zur Linde” em Leipzig, tendo sido distinguido como membro de honra por mais de cinquenta Lojas.

A partir de certa altura, Wagner aproximou-se mesmo bastante do cunhado.Um outro contacto pessoal da maior relevância foi com o banqueiro Friedrich Feustel, alguém que se revelou perfeitamente imprescindível para a concretização do projecto do Festival de Bayreuth. Este maçon, figura das mais importantes da Maçonaria alemã, pertencia à Loja “Eleusis, zur Verschwiegenheit” de Bayreuth na qual Richard Wagner pretendeu ser admitido.

Ora bem, tamanho desafio, ao contrário de todos os outros aos quais o compositor se lançou – alguns dos quais, como sabemos, bem megalómanos… – acabou por não ser concretizado. A vida amorosa de Wagner era complicada, algo escandalosa, como o escabroso episódio da ligação com Cosima Liszt, mulher do seu amigo, o maestro Hans von Bülow.

O mínimo que poderá afirmar-se é que tais evidências não são nada compagináveis com os bons costumes que a moralidade maçónica exige a quem pretenda candidatar-se à condição de membro. Por outro lado, igualmente, muito terão pesado os ataques que Wagner sofreu pela influência que exercia sobre o Rei Luís II que conduziram a gastos, na altura, considerados gigantescos e incomportáveis para o erário do reino da Baviera.

Nestas circunstâncias, Friedrich Feustel tudo fez para que não se concretizasse o intento e, de acordo com testemunhos consultados, Richard Wagner mais não teve do que conformar-se com a indisponibilidade da Maçonaria para o convidar a ingressar no seu seio. Será interessante lembrar ter sido este mesmo Feustel que, junto ao caixão do compositor, proferiu as seguintes palavras: “A posteridade há-de entender mal como foi possível tornar tão difícil a concretização dos seus objectivos a um homem de tamanha grandeza”.

João de Freitas Branco, no artigo já citado, pergunta se o orador estaria a pensar num ‘Richard-Parsifal’ sem acesso à Loja-castelo do Graal, por vingança de algum Klingsor* ou se, antes, se trataria duma seita de Beckmessers...**

Julgo que me acompanharão na conclusão de que não poderia ter escolhido melhor remate para estas considerações. Ah, como fazem falta o João de Freitas Branco e homens da sua geração, cultos, lúcidos, empenhados, tais como o Joly Braga Santos, Nuno Barreiros, Maria Helena de Freitas, João Paes de Freitas Branco e o meu próprio pai, que pertencia ao mesmo grupo, a quem tudo deve a minha melomania na procura de ser o mais possível esclarecida.

Lembrar-se-ão de que, no artigo anterior, referi uma passagem de Fidelio. Resolvi hoje proporcionar-vos o visionamento de uma boa proposta do MET de Nova Iorque, sob a direcção de James Levine, que, além de um excelente elenco (em que, no papel de Pizarro está Falk Struckmann, há dias presente numa versão concertante de Tannhäuser na Gulbenkian) tem a vantagem de apresentar legendas em Inglês. Portanto, toca a descobrir onde se encontra a tal citação. Bom visionamento! Boa audição!

http://youtu.be/T7QXkNILErg
Beethoven - Fidelio (Levine).
http://www.youtube.com/

* personagem de Parsifal
**personagem de Os Mestres Cantores de Nuremberga



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012


Gustav Leonahrdt
(1928-2012)


Morreu anteontem aquele que, sem dúvida alguma, foi o grande mestre cravista dos últimos sessenta anos. Este holandês austero, perfeita anti vedeta, veio tocar a Portugal várias vezes pelo que, se bem consigo lembrar-me, pude beneficiar da sua arte em Lisboa, na Gulbenkian, na igreja convento da Graça, em Mateus e em Póvoa de Varzim.

O que devemos a Leonhardt é, não só a interpretação fidedigna de um repertório barroco que ajudou a estabelecer, mas também uma actividade pedagógica que marcou gerações de músicos e que, em definitivo, devido a múltiplas gravações e estudos em que esteve envolvido, há-de continuar a constituir um marco de absoluta referência.

A sua gravação das Variações Goldberg, datada de 1978, acompanha-me para todo o lado. Ouço-a e tenho dificuldade em dela descolar para ouvir outras fabulosas interpretações. Padronizou e nada mais há a fazer que altere a minha capacidade de percepção. Constantemente «encostado» a J.S. Bach, também ficará para a História da Música o seu estudo A Arte da Fuga de J.S. Bach onde tudo ficou dito sobre o assunto.

Quem não dispensar essa coisa efémera que é a física imagem de alguém, pois que veja ou reveja o filme de Jean Marie Straub Crónica de Anna Magdalena Bach, datado de 1967 que, em Gustav Leonhardt, tem um assumido protagonista do grande compositor do período barroco. Deixo-vos essa oportunidade. Bom visionamento.

http://youtu.be/8Au2_df1n4A

Anna Magdalena Bach-en Kronikea.avi http://www.youtube.com/

Richard Wagner e a Maçonaria
[1ª parte]



É em Parsifal, sua derradeira ópera, que Richard Wagner evidencia sinais de reaproximação do misticismo cristão e, em particular de formas rituais do catolicismo que, por exemplo, aflorara em Tannhäuser. E, curiosamente, também naquela ópera, não é difícil reconhecer a influência de certas soluções que designaríamos como maçónicas, de algum modo, articuláveis com tentativas do compositor no sentido de ser iniciado na Augusta Ordem.

Quando se entra neste fascinante território em que Música e Maçonaria se cruzam em diferentes plataformas, é fatal que logo ocorra o nome de Wolfgang Amadeus Mozart. No entanto, em abono da verdade, outros grandes e ilustres criadores musicais como Haydn, Liszt ou Beethoven também foram membros ou estiveram muito próximos da Maçonaria.

A propósito, por uns instantes, detenhamo-nos no caso de Beethoven, que Wagner admirava acima de qualquer outro músico compositor, para lembrar que deixou testemunhos inequívocos de proposições maçónicas, como no verso «Alle Menschen werden Brüder» , da Ode à Alegria, o poema de Friedrich Schiller que é suporte do último Andamento da sua 9ª Sinfonia, ou à passagem «Es sucht der Bruder seine Brüder» na ópera Fidelio, com libreto de Ferdinand Sonnleithner.

Entrando na matéria mais específica e afim do objectivo deste escrito, cumpre lembrar que tanto em Lohengrin como no Parsifal subjaz uma noção de templo de virtudes cujo acesso só é possível uma vez vencidas várias provas. Aliás, no caso da última referida, não tão flagrante como acontece em Die Zauberflöte, este «caminho» é análogo ao da ópera de Mozart.

No artigo Unbekanntes von Richard Wagner. Wie der berühmte Komponist Freimaurer werden wollte, incluído na sua obra Die wiener Oper, Max Graf considera que “(…) Parsifal, o puro idiota introduzido no templo do Graal pelo velho e sábio Gurnmanz, é um segundo Tamino, para quem Sarastro se torna um esclarecido condutor. O mesmo Gurnmanz é uma grandiosa amplificação da figura de Sarastro (…)”.

Sempre apoiados em Max Graf, que tem o cuidado de lembrar não estarem os símbolos maçónicos apenas presentes no libreto mas também na própria música de Die Zauberflöte, pois o mesmo se poderá considerar acerca do ritmo da música que leva Gurnmanz e Parsifal na subida de ambos em direcção ao castelo. E, se assim é, então o ágape do I Acto e as exéquias do III pressupõem uma morfologia maçónica.

Aliás, como muito bem recorda o saudoso João de Freitas Branco*, assim melhor se entende que, ao filmar Die Zauberflöte, Igmar Bergman tenha focado o intérprete da figura de Sarastro, ou seja, o baixo Hans Sotin, folheando uma partitura do Parsifal, numa cena de intervalo entre o primeiro e segundo actos. Igualmente, no início do cortejo fúnebre de Titurel, as intervenções dos cavaleiros do Graal, sob a forma alternante de perguntas e respostas, coincidem com passos do ritual maçónico.

Não deixa de ser sintomático, por outro lado, que as cerimónias acima aludidas comecem precisamente ao meio-dia, a mesma hora em que se inicia o julgamento em Lohengrin. Como é sabido, e aqui se recorda, o meio-dia é a altura em que, simbolicamente, se iniciam os trabalhos nas lojas maçónicas. Estas coincidências, longe de fortuitas, acabam por se articularem com significativos momentos da vida do próprio Richard Wagner.

(cont.)

A título de ilustração do texto cuja primeira parte acabei de publicar, proponho-vos este excerto de uma famosa produçao do Festival de Bayreuth cujas coordenadas estão bem identificadas na informação fornecida pela gravação. Boa audição!

http://youtu.be/iHbwPe5QDYg
Parsifal (ACT II) 05