[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 21 de maio de 2012



Tempo de crise,
um testemunho



(texto inicialmente publicado no facebook no dia 2 do corrente mês de Maio)

Esta preciosidade, uma canção popular cantada por 'La Argentinita', nome artístico de Encarnación Lopez Julvez (i898-1945), grande amiga de Federico Garcia Lorca que, neste caso, é quem a acompanha ao piano, ...ouvi-a na casa-museu do poeta em Fuente Vaqueros, relativamente perto de Granada, numa das minhas visitas, há pouco mais de vinte anos.

Para mim, aquela casa, ali cerca o rio Cubillas, são comoventes lugares de peregrinação. Este ingénuo testemunho, aí fica a lembrar que «ainda ontem», na minha Ibéria, tanto na Andalucia como deste lado de uma fronteira perfeitamente artificial, se viveram dias terríveis em que os poetas se silenciavam da maneira mais radical.

http://youtu.be/lj3oPKEI4Ww


1956,
duzentos anos de Mozart




(Texto inicialmente publicado no facebook no dia 30 do passado mês de Abril)
O documento que vos proponho é histórico. Trata-se de uma gravação ao vivo do Concerto para Piano em Mi bemol Maior KV 482, interpretado por Tatiana Nikolayevna e pela Orquestra Filarmónica de Viena, sob a co...ndução de Carl Schuricht.

Aconteceu no dia 26 de Janeiro de 1956, por ocasião do 200º aniversário de Mozart e, portanto, da primeira edição da Mozartwoche, o Festival de Inverno de Salzburg da iniciativa da Fundação Internacional do Mozarteum que tantas vezes trago às páginas deste meu mural.

Naturalmente, é com muito gosto que, na minha condição de membro efectivo da Fundação, vos proporciono esta pérola.



http://youtu.be/S1nhLoHDWEw




Obscenidade,
uma alteração


 
Ao enviar ao Director do 'Expresso' a transcrição do meu texto publicado nesta manhã, apercebi-me de que o seu último parágrafo carecia de inequívoca explicitação acerca da espúria conotação que suscitou a redacção de todo o escrito.

Aos meus amigos leitores do fb, eis o parágrafo alterado:

"(...) Um jornal a sério teria visto o que eu vi, ou seja, numa mesma página..., ao meio, o banco do jardim onde Miguel Portas se encontra e, ao baixo, o Banco Santander Totta em articulação mais que duvidosa. Ainda mais subliminar a mensagem se revela se nos lembrarmos, nós, os mais velhos, que, precisamente no mesmo contexto publicitário de um produto bancário, um banco de jardim já foi Banco para toda a gente... Trata-se de um aproveitamento revoltante. Miguel Portas não merece este abuso. Nada imagino que possa apagar o perverso efeito de cena tão evitável, deselegante. Cena obscena. Olhem, meus caros, se me acompanham nesta leitura, façam o favor de o expressar ao ‘Expresso’."
 
 
 
Obscenidade
 
(texto inicialmente publicado no facebook no dia 29 do passado mês de Abril)
 

 Gostaria de chamar a vossa atenção para a página 18 do primeiro caderno da edição de ontem do ‘Expresso’. Emoldurada com grossa cercadura bordeaux, sobre fundo verde escuro de densa folhagem de arbustos, três quartos do espaço são totalmente ocupados por uma foto, metade inferior da qual preenchida pela figura de Miguel Portas, em atitude meditativa, com os cotovelos sobre os joelhos ...e mãos unidas entre o queixo e a boca. Está vestido de azul e vermelho, sentado num grande banco de jardim imaculadamente branco, com os sapatos sobre a relva que prolonga, em verde mais claro, o ambiente do parque ou do jardim em que a foto foi conseguida.

Subordinada ao título ‘Miguel Portas (1958-2012)’, ocupando a metade superior da mesma foto, um texto a cinco colunas, portanto, a toda a largura, em caracteres brancos, contrastando com o já referido fundo verde escuro, assinado por Cristina Figueiredo, cujo conteúdo, muito saudavelmente, ultrapassa o carácter biográfico-necrológico-laudatório de textos redigidos em idênticas circunstâncias.

Deixem-me confessar a impressão pessoal de que esta composição resulta muito bem. Cromaticamente é fortíssima, não conseguindo eu alhear-me do facto, certamente fortuito, da figura daquele homem, a azul e vermelho, se conjugar às mil maravilhas com o grande, comprido, impositivo branco daquele banco de jardim. É a tricolor serena mas imediata imagem da Liberdade, Igualdade, Fraternidade que Miguel Portas conjugou durante toda a sua vida de cidadão interveniente. Se esta leitura ultrapassa os objectivos iniciais da foto, paciência. Subliminarmente, ela lá está proposta.

Ora bem, para outras leituras implícitas e explícitas, agora vos tenho de convocar. E, de facto, com tristeza o faço porque não me passa pela cabeça ser fruto dum ataque de perversidade galopante, que ontem me teria afectado, o que passarei a dar conta. Pois, então, continuem a acompanhar-me nesta proposta de descrição da página 18 da última edição do ‘Expresso’.

Até este momento, cumpre lembrar, tinham acedido aos três quartos da página, a toda a largura. Pois o espaço restante, também a toda a largura deste quarto inferior, aparece sobre fundo vermelho. Todas as mensagens se evidenciam em contrastante branco. Trata-se de um grande anúncio publicitário. Os caracteres de corpo maior vão para a mensagem inequívoca BANCO MAIS SÓLIDO encimada por outra que reza ‘O que somos no dia-a-dia, o mercado reconhece ano após ano. E, mesmo quase no canto inferior direito, afinal, de toda a página, destacando-se sobre a já aludida mancha vermelha, num quadrado de fundo branco, a única mensagem em caracteres a negro O VALOR DAS IDEIAS.

A publicidade é ao Banco Santander Totta. É um facto indesmentível. Mas, meus caros leitores e amigos, o espaço da página é do ‘Expresso’ que, ao deixar passar esta paginação, presta um péssimo serviço aos leitores e à memória de Miguel Portas, ele que sempre denunciou a fancaria ordinária que subjaz a qualquer manobras de compromisso congénere. Neste caso, trata-se de cena promíscua entre uma empresa de comunicação social – cuja componente escrita é fortemente liderada por este semanário de referência nacional – e uma entidade bancária que, provavelmente, precisaria desta boleia inqualificável.

Um jornal a sério teria visto o que eu vi. Trata-se de um aproveitamento revoltante. Miguel Portas não merece este abuso. Nada imagino que possa apagar o perverso efeito de cena tão evitável, deselegante. Cena obscena. Olhem, meus caros, se me acompanham nesta leitura, façam o favor de o expressar ao ‘Expresso’.
 
 
 

Missa em tempo de guerra




Mais uma lindíssima peça de música sacra. Nestas e noutras páginas das Missas, continuo a encontrar das melhores propostas de Joseph Haydn. Na partilha desta música superlativa tenho vivido dos mais sublimes momen...tos, com um indizível orgulho na Cultura à qual pertenço.

Cumpre chamar a atenção para a presença de um evidente ar marcial. Na altura em que é composta esta obra, vivia a Áustria tempos de guerra, de invasão napoleónica que progrediu até Graz. Tal como acontece também com a 'Nelsonmesse', é evidente que Haydn não podia subtrair-se ao que acontecia à sua volta.

Neste contexto, não é difícil adivinhar a forte impressão suscitada pelo solo dos tímbales no 'Agnus Dei', acabando mesmo por justificar o epíteto 'Paukenmesse' [Missa dos tímbales], como subtítulo de uma Missa que o compositor designou 'in tempore belli', ou seja, em tempo de guerra.

Sob a direcção de Leonard Bernstein, esta é, sem dúvida, uma interpretação que não deixará de merecer a vossa atenção.

Boa audição!


(texto inicialmente publicado no dia 28 do passado mês de Abril)


http://youtu.be/5soJzc3xmLo

 
Outra gente!
 
 
Isto, meus amigos, de facto, é outra gente. Esta é a minha gente. É também por estas e por outras coincidências de identidade que também me afirmo e confirmo, cada vez mais, profundamente ibérico. E iberista!
 
(inicialmente publicado no facebook, no dia 27 do passado mês de Abril) 
 
 
 
 
 

Em tempos de perturbação


(Texto inicialmente publicado no facebook no dia 27 do passado mês de Abril)


Esta “Missa in Angustiis” ou “Missa para Tempos de Perturbação” que foi composta por Joseph Haydn no Verão de 1798, período muito atribulado para a Áustria, acabou por ficar conhecida como “Missa de Nelson” porqu...e, provável e precisamente, no dia da sua primeira apresentação, em 15 de Setembro de 1798, o próprio compositor e o público de Eisenstadt terão sabido da derrota infligida por Lord Nelson à frota napoleónica na Batalha do Nilo e o subtítulo passou a vingar.

O Kyrie inicial é tremendo, desde logo construindo e comunicando um ambiente de terror e de perturbação. A interpretação está a cargo de Det Norske Blåsseensemble & Solistkor sob a direcção de Grete Pedersen.

Estará ao vosso critério a eventual conotação da audição desta obra - que Robbins Landon, o grande biógrafo de Haydn, qualificou como "(...) arguably Haydn's greatest single composition (...)" - com os perturbados dias que atravessamos...

Boa audição!

http://youtu.be/_YxuE7ZsOKY


Um trio de grande luxo


(Texto inicialmente publicado no facebook no dia 25 do passado mês de Abril)


No final de "Der Rosenkavalier" de Richard Strauss, o trio é um dos momentos mais famosos da ópera de todos os tempos. Tanto assim é que, ao pensar num famoso trio, logo este nos ocorre. É de uma tal exigência que s...ó admite a perfeição. Porque, caso contrário, se alguma coisa falha, não há salvação possível.

Por isso, ao propor-vos esse estupendo momento da História da Música, trago o melhor. Elisabeth Schwarzkopf, Christa Ludwig, Teresa Stich-Randall, a Philharmonia Orchestra sob direcção de Herbert von Karajan.

Deixem-me acrescentar a convicção de não ser provável que, em qualquer futuro, se consiga reunir vozes tão especiais como estas da 'Feldmarschallin', do 'Octavian' e da 'Sophie'. É o que pode designar-se, sem margem para qualquer dúvida como «o» autêntico trio de luxo.

Boa audição!

http://youtu.be/qLrPE2fqxPM
 


 

Miguel Portas,
à volta da sua morte 



(Texto inicialmente publicado no facebook no dia 24 do passado mês de Abril) 

Não me lembro que a morte de um outro político tenha suscitado um tão sintomático fenómeno de adesão nos pêsames. Bom seria que a avassaladora simpatia que se está a gerar à volta da morte deste homem pudesse constituir momento para a reflexão que se impõe.

Sem querer adiantar-me a esse processo, não posso deixar de concluir que, para já, parece indiciar uma implícita necessidade colectiva, qual seja a de apontar um caso excepcional mas paradigmático do que se espera do cidadão eleito, em contraponto aos medíocres políticos que, perversamente, temos vindo a eleger em processos eleitorais que tanto têm de legítimos como, afinal, de perversos...
 
Mozart,
mais outra efeméride  (1)
 
Em 24 de Abril de 1788, no seu catálogo manuscrito [mais tarde KV 540a] Mozart dá entrada, da Ária ‘Dalla sua pace’, cujo texto é atribuído a Lorenzo da Ponte, para a récita vienense de “Don Giovanni”. Na alt...
ura, Francesco Morella foi o dedicatário tenor e intérprete da peça.

Na proposta de audição que hoje vos apresento, Anton Dermota, um tenor de origem eslovena, mozartiano por excelência, é quem interpreta esta Ária, numa gravação com a Wiener Philharmoniker sob a direcção de Joseph Krips.

Reparem na clareza da dicção. A perfeição, além de muitos outros items, também pressupõe a emissão correcta de cada sílaba, para que não seja minimamente beliscada a percepção de cada palavra cantada.

Cantar Mozart? É isto! O paradigma é este.
Boa audição!

(1) Texto inicialmente publicado no facebook no dia 24 do passado mês de Abril