[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 19 de junho de 2012



Mozart,
uma sátira musical
 
Datada de Viena, aos 14 de Junho de 1787, ‘Ein musikalischer Spass’, ou seja, uma brincadeira musical, eis como Mozart apelidou este seu “Sexteto em Fá, KV 522” para quarteto de cordas e duas trompas.

Trata-se
de uma sátira que tem como alvo tanto as composições desajeitadas como as interpretações desastradas, bem patente, entre outros exemplos, no final da peça, naquela «tosca» fuga inspirada num exercício de Thomas Attwood, um aluno de Mozart. Como verificarão, é uma obra mesmo muito bem disposta que deve ter dado grande gozo a conceber...

Boa audição!


http://youtu.be/wFPoRmsiFzc
 
Santo António e Gustav Mahler

Do ciclo "Des Knaben Wunderhorn", eis o 'Sermão de Santo António aos Peixes' na voz de Walton Groenroos. A Orquestra é a Filarmónica de Israel, sob a direcção de Leonard Bernstein. No sentido de vos facilitar o acesso, eis os textos, no original Alemão e numa tradução para Inglês, correspondentes à peça homónima do ciclo "Des Knaben Wunderhorn" de Gustav Mahler.

Antonius zur Predigt
Die Kirche findt ledig.
Er geht zu den Flüssen
und predigt den Fischen;

Sie schlagen mit den Schwänze
n,
Im Sonnenschein glänzen.

Die Karpfen mit Rogen
Sind [allhier gezogen]1,
Haben d'Mäuler aufrissen,
Sich Zuhörens beflissen;

Kein Predigt niemalen
Den Karpfen so g'fallen.

Spitzgoschete Hechte,
Die immerzu fechten,
Sind eilend herschwommen,
Zu hören den Frommen;

[ Kein Predigt niemalen
Den Hechten so g'fallen.]2

Auch jene Phantasten,
Die immerzu fasten;
Die Stockfisch ich meine,
Zur Predigt erscheinen;

Kein Predigt niemalen
Den Stockfisch so g'fallen.

Gut Aale und Hausen,
Die vornehme schmausen,
Die selbst sich bequemen,
Die Predigt vernehmen:

[Kein Predigt niemalen
den Aalen so g'fallen.]2

Auch Krebse, Schildkroten,
Sonst langsame Boten,
Steigen eilig vom Grund,
Zu hören diesen Mund:

Kein Predigt niemalen
den Krebsen so g'fallen.

Fisch große, Fisch kleine,
Vornehm und gemeine,
Erheben die Köpfe
Wie verständge Geschöpfe:

Auf Gottes Begehren
Die Predigt anhören.

Die Predigt geendet,
Ein jeder sich wendet,
Die Hechte bleiben Diebe,
Die Aale viel lieben.

Die Predigt hat g'fallen.
Sie bleiben wie alle.

Die Krebs gehn zurücke,
Die Stockfisch bleiben dicke,
Die Karpfen viel fressen,
die Predigt vergessen.

Die Predigt hat g'fallen.
Sie bleiben wie alle.

[Trad. Inglês]

St. Anthony arrives for his Sermon
and finds the church empty.
He goes to the rivers
to preach to the fishes;

They flick their tails,
which glisten in the sunshine.

The carp with roe
have all come here,
their mouths wide open,
listening attentively.

No sermon ever
pleased the carp so.

Sharp-mouthed pike
that are always fighting,
have come here, swimming hurriedly
to hear this pious one;

No sermon ever
pleased the pike so.

Also, those fantastic creatures
that are always fasting -
the stockfish, I mean -
they also appeared for the sermon;

No sermon ever
pleased the stockfish so.

Good eels and sturgens,
that banquet so elegantly -
even they took the trouble
to hear the sermon:

No sermon ever
pleased the eels so.

Crabs too, and turtles,
usually such slowpokes,
rise quickly from the bottom,
to hear this voice.

No sermon ever
pleased the crabs so.

Big fish, little fish,
noble fish, common fish,
all lift their heads
like sentient creatures:

At God's behest
they listen to the sermon.

The sermon having ended,
each turns himself around;
the pikes remain thieves,
the eels, great lovers.

The sermon has pleased them,
but they remain the same as before.

The crabs still walk backwards,
the stockfish stay rotund,
the carps still stuff themselves,
the sermon is forgotten!

The sermon has pleased them,
but they remain the same as before.
 
 
 
Haydn e Santo António

Haydn, com o seu Divertimento Nº 1 em Si bemol Maior. Trago-vos uma raríssima gravação, datada de 1956, que reúne Mason Jones (trompa), Anthony Gigliotti (clarinete), John deLancie (oboe), Sol Schoenbach (fagote), e W...
illiam Kincaid (flauta).

A peça, com quatro andamentos [1. Allegro con spirito , 2. Andante - Chorale of St. Antoni (2.03), 3. Minuetto (3:36), 4. Rondó (5:39)] é especialmente conhecida pelo Segundo que imediatamente reconhecerão.


Boa audição!


http://youtu.be/rvz1RQ_JMuE


Richard Strauss,
no seu aniversário
 


Uma preciosidade é o que hoje vos trago, na interpretação verdadeiramente histórica daquela que, de facto, é a última das canções de Richard Strauss, apenas estreada em 1985, por Kiri te Kanawa, em New York, com Martin Katz ao piano.

Esta peça já foi escrita pelo compositor depois de "As últimas quatro canções", para a cantora Maria Jeritza, soprano, a partir de um poema de Betty Wehrli-Knobel, jornalista e escritora suiça (1904-1998). Para vos facilitar o acesso à obra, segue o original em Alemão e uma tradução para Inglês.

Boa audição!

Aus Rosen, Phlox, Zinienflor,
ragen im Garten Malven empor,
duftlos und ohne des Purpurs Glut,
wie ein verweintes, blasses Gesicht
unter dem gold'nen himmlischen Licht.
Und dann verwehen leise, leise im Wind.
zärtliche Blüten Sommers Gesind.
................
Among the roses, phlox, zinnias
in the garden, mallos tower,
scentless and without a purple glow
like a tear-stained pale face
under the golden, heavenly light.
And then, solfty blowing in the wind
tender blossoms,
summer's servant
.


http://youtu.be/KpQ0lrQq2r0
 
 
Ir à Missa com Gounod

Por vezes, chego a ter vergonha da música que se ouve nas nossas igrejas como acompanhamento dos actos litúrgicos. Não consigo perceber como, dispondo de um vastíssimo repertório, da mais alta qualidade, para maior gl...
ória de Deus, a Igreja Católica se permite o escândalo de patrocinar a prática coral e instrumental das peças mais indigentes que imaginar se possa.

Para me compensar, recorro às gravações que já aqui tenho partilhado convosco. Hoje proponho este fabuloso momento do 'Sanctus' da "Missa de Santa Cecília" de Charles Gounod, peça que se inscreve num segmento de música romântica do mais alto gabarito, que julgo ser nosso dever promover com maior frequência.

Nesta gravação, Jean-Philippe Lafont, é o Tenor solista, George Prêtre dirige os Choeurs de Radio-France e a Nouvel Ochestre Philharmonique-

Boa audição!

http://youtu.be/Tgwm5ZuXWC8
 
Monteverdi,
em Veneza, no Palácio Mocenigo


“Il Combatimento di Tancredi e Clorinda” é uma cantata dramática que Claudio Monteverdi compôs a partir de libretto de Torcato Tasso, baseado nos versos 52-68 do Canto XII de “Jerusalem Libertad...
a”. Esta peça foi publicada em 1638, ou seja, quatorze anos depois de ter sido escrita para uma representação em Veneza, no palácio do seu mecenas Girolamo Mocenigo, que o compositor descreve na introdução da partitura.

Esta obra oferece-me a oportunidade de esclarecer que o referido palácio, continuando nas mãos de descendentes directos daquela família, teve como proprietária relativamente recente, nada mais nada menos do que D. Olga Maria Nicolis dei Conti di Robilant Alvares Pereira de Melo, senhora da mais alta aristocracia europeia - também parente de Frederico II da Prússia e de Catarina da Rússia, que, por casamento, se tornaria na nossa bem conhecida Marquesa de Cadaval, a quem Portugal tanto deve pelo seu desinteressado mecenato no domínio da música.

Sem entrar em quaisquer detalhes do enredo, baseando-me em indicações escritas pelo próprio Monteverdi, apenas adiantarei que enquanto o Narrador inicia o seu canto, Clorinda e Tancredi tocam ou dançam. A acção, meio bailado meio drama teatral, respeitaria escrupulosamente o ritmo imposto pelas palavras e pela música. O Narrador era suposto cantar com voz clara, firme e articular convenientemente.

No seu prefácio, admite o compositor que há três espécies principais de paixão humana: cólera [ira], a temperança [temperenza] e a humildade [humilità o supplicazione]. Escreve ele que a música representou a doçura, ‘molle’ e a temperança, mas não a excitação, ‘concitato’. Esperava ele compensar tal insuficiência através da sua invenção, o ‘tremolo’ de cordas, aplicando-o a um texto apropriado. Pela primeira vez, o novo recurso está associado ao ‘pizzicato’ que, hoje em dia, é tão vulgar como o próprio ‘tremolo’.

Só uma nota final para confirmar, sempre de acordo com o testemunho de Monteverdi que, por fim, a assistência estava perfeitamente rendida à emoção, em lágrimas, aplaudindo este novo tipo de divertimento.

A gravação que vos proponho consta de uma leitura, de excelente recorte, de Emmanuelle Haïm, na condução de Le Concert d’ Astrée, com as vozes de Patrizia Ciofi ,Topi Lehtipuu, Rolando Villazón.

Boa audição!



http://youtu.be/efNbLsLNQGw


Efeméride mozartiana

Datado de Viena, aos 8 de Junho de 1785, o Lied "Das Veilchen" KV 476 dá entrada no catálogo pessoal de Mozart. Tem poema de Goethe e, para vosso acesso mais conveniente seguem os textos do original em Alemão e uma tra...dução para Inglês.

Estupendamente, marcando um paradigma, canta Elisabeth Schwarzkopf.

Boa audição!


"Das Veilchen"

Ein Veilchen auf der Wiese stand,
gebückt in sich und unbekannt;
es war ein herzigs Veilchen.
Da kam ein' junge Schäferin
mit leichtem Schritt und munterm Sinn
daher, daher,
die Wiese her und sang.

Ach! denkt das Veilchen, wär' ich nur
die schönste Blume der Natur,
ach, nur ein kleines Weilchen,
bis mich das Liebchen abgepflückt
und an dem Busen matt gedrückt,
ach, nur, ach nur
ein Viertelstündchen lang!

Ach, aber ach! Das Mädchen kam
und nicht in acht das Veilchen nahm,
ertrat das arme Veilchen.
Es sank und starb, und freut' sich noch:
und sterb' ich denn, so sterb' ich doch
durch sie, durch sie,
zu ihren Füßen doch!

Das arme Veilchen! es war ein herzigs Veilchen.—

[Tradução]

A violet in the meadow stood,
with humble brow, demure and good,
it was the sweetes violet.
There came along a shepherdess
with youthful step and happiness,
who sang, who sang
along the way this song.

Oh! thought the violet, how I pine
for nature's beauty to be mine,
if only for a moment.
for then my love might notice me
and on her bosom fasten me,
I wish, I wish
if but a moment long.

But, cruel fate! The maiden came,
without a glance or care for him,
she trampled down the violet.
He sank and died, but happily:
and so I die then let me die
for her, for her,
beneath her darling feet.

Poor little violet! It was the sweetest violet.


http://youtu.be/89L7vd8dx-I

sexta-feira, 8 de junho de 2012





O elo mais fraco*



[Como «contínuos», já fizeram parte do «pessoal menor», foram «assistentes de acção ducativa» e, agora, são «assistentes operacionais». Para estes Trabalhadores da Educação, só a designação tem mudado…]


Sabiam que, actualmente, a direcção das escolas dos ensinos básico e secundário, pode recrutar qualquer trabalhador, por mais indiferenciado que seja, para o integrar em actividades cujo desempenho é determinante para o sucesso escolar das crianças e jovens que a comunidade entrega ao Sistema Educativo?

Em Portugal, isto é possível. E é possível, não só de facto mas também de jure, já que a legislação vigente assim o permite. Foi preciso que tal regime de recrutamento se concretizasse para desmascarar a hipocrisia das entidades ditas responsáveis. É uma vergonha. Não há outro termo, não há eufemismo que possa cobrir uma tal farsa.

Que credibilidade pode revestir esta atitude dos decisores políticos que propuseram e introduziram prática tão nociva à prossecução dos objectivos gerais e específicos do Sistema Educativo? Já repararam que, para todos os efeitos, o que o Estado acaba por dizer é que, para o desempenho das funções que lhes  estão confiadas, havendo necessidade de reforçar o número de assistentes operacionais, qualquer um serve?

E, a propósito, num rápido parêntesis, como deixar de referir o facto de os professores, desempenhando funções precisamente ao lado destes trabalhadores da Educação, jamais tenham tomado uma posição de manifesta defesa dos interesses dos seus colegas neste domínio? No local de trabalho que a Escola é, onde tudo é pedagógico e a solidariedade, como atitude cívica, devia imperar, tamanho silêncio não deixa de ser sintomático… 

Manuais escolares? Recrutamento e avaliação dos docentes? Encerramento de escolas? Obras megalómanas da Parque Escolar? Pois muito bem, sem dúvida que são  questões pertinentes. Mas alguém conhece as dificuldades que enfrentam estes trabalhadores de apoio educativo? A disciplina que é preciso assegurar, a limpeza e manutenção das instalações, o apoio logístico à acção educativa, a gestão de conflitos, a necessidade de uma atitude assertiva num contexto laboral tão sui generis e tanto, tanto mais…

 Com vencimentos degradados e degradantes, boa parte das razões que justificam a manutenção da sua situação articula-se, importa não esquecer e sublinhar, com o facto de estar atribuída, precisamente aos assistentes operacionais, a competência da limpeza das salas de aula, uma actividade cuja conotação social é extremamente desconsiderada.

Aliás, estamos convictos de que, neste domínio, nada se resolverá enquanto não se verificar uma mudança de paradigma da cultura da Escola, nos termos da qual –como  acontece noutros países da União Europeia que nos habituámos a considerar como modelos – a  limpeza das salas de aula não for repartida por professores, alunos e pessoal de apoio educativo. É um assunto basilar ainda que, com imensa frequência, não seja equacionado nos termos que merece e, inclusive, encarado como despiciendo. 

Comunicar, comunicar, comunicar

É necessário e urgente que a grande comunidade educativa nacional entenda que os problemas do Sistema Educativo em Portugal não se esgotam nas matérias que os media elegem, ao fim e ao cabo, de acordo com os interesses dos  , com todo o sentido de oportunidade, se movimentam tão adequadamente quanto julgam saber promover a divulgação dos seus objectivos.

Neste torvelinho de contradições do Sistema Educativo há um elo mais fraco, ou seja, o dos assistentes operacionais. E, afinal, fora das salas de aula, são eles quem mais acompanham as crianças e jovens, são eles os confidentes privilegiados dos filhos e educandos dos contribuintes que entregam à Escola o seu bem mais precioso, na presunção deque, efectivamente, estes Trabalhadores da Educação são tão qualificados quanto têm direito a presumir. Ora bem, nos termos em que a actual recrutamento se está a processar isto deixou de ser pertinente, é mentira.

 A verdade é que os assistentes operacionais estão e continuam sempre em perda e, simultaneamente, objecto de um inqualificável desrespeito por parte da Administração. Para que se saiba e conheça a justa dimensão da importância destes trabalhadores para o sucesso do Sistema Educativo, é absolutamente determinante que os media se interessem. É incompreensível e insuportável que, há tanto tempo, assuntos tão importantes permaneçam numa sombra que a ninguém convém.


*publicado na edição do dia 08.06.12 do 'Jornal de Sintra'






quinta-feira, 7 de junho de 2012


Haydn,
Sonata mistério



Mais uma vez, no ciclo de piano da nova temporada Gulbenkian, poderemos contar, em 18 de Outubro, com mais um recital de Evgeny Kissin que, entre outras peças, virá interpretara Sonata Nº 59 em Mi Maior, Hob. 49 u...ma das mais interessantes compostas por Joseph Haydn que bem merece o destaque de hoje.

A peça, composta entre 1789-1790, foi dedicada a Mariana von Genzinger, cantora muito dotada, mulher de um médico da corte do Príncipe Esterházy e, a atestar pela frequência e teor da correspondência trocada entre ambos, uma boa amiga do compositor.

A primeira constatação de que gostaria dar-vos conta é de que se trata de uma grande sonata, de escrita nada complicada e de recorte nitidamente mozartiano. O primeiro andamento, ‘Allegro’, que obedece ao modelo da forma sonata, é longo, muito desenvolvido, extremamente sugestivo, cheio de insinuações, de discursos que ficam em suspenso.

O ‘Adagio’ seguinte é, certamente, um dos mais belos que Haydn compôs. Curioso lembrar que, numa das suas cartas, o compositor confessou a Mariana ter este andamento teria um «misterioso significado» que explicaria à sua amiga quando tivesse ocasião. O ‘Finale: tempo di minueto’ é um natural corolário que remata a tríade ao pretender resolver o que, anteriormente, terá ficado menos evidente.

De algum modo, de facto, esta é uma obra carregada de mistério, mesmo algo patética, uma das raras composições em que Haydn se atreve à expressão dos seus próprios sentimentos. Objecto de frequentes menções na sua correspondência, sabe-se que Mariana pretendia que o amigo modificasse uma pasagem do referido ‘Adagio’ em que as mãos se cruzam, pedido que não surtiu o efeito desejado…

Tenho a certeza de que Kissin, a atravessar um excelente período de grande maturidade interpretativa, conseguirá transmitir-nos os matizes tão insinuantes desta peça. Para já, deixo-vos com esta leitura, perfeitamente paradigmática, do grande Alfred Brendel.

Muita atenção ao seu fraseado magistral, à sua capacidade de servir uma ‘história’ que o compositor verteu em páginas de um diálogo que está bem patente. Ouçam as vozes dessa conversa e, por favor, não compliquem o que é tão simples…

Boa audição!


http://youtu.be/H-nC7AeiksQ

sexta-feira, 1 de junho de 2012



Obviamente, grego*



Neste sudoeste atlântico à esquina do Mediterrâneo, sou directo herdeiro de um legado que, há milhares de anos, está colado à grega radicalidade de conceitos que se verteram em palavras inculcadas na nossa matriz comum de homens, de cidadãos nacionais e europeus. Senhor deste património, vivo dias de perplexidade, perante a desfaçatez com que são postos em causa os elos perenes que nos prendem à Grécia. E, desolado, passeio-me entre os estilhaços da nossa vinculação ao ideal da Europa unida.

Por enquanto, o que prevalece é a palavra de desqualificada dos governantes afirmando que «nós» não somos gregos. Vítima deste tremendo disparate, reconhecendo   quem nos  pretende roubar a evidente  pertença helénica, percebo-lhes  a manobra do  tirar a água do capote na tentativa de salvar a pele de um contágio de aparente praga alheia que, afinal, é bem nossa, qual endemia  que alastra e afecta tantos milhões de europeus.

Tão grego como português e espanhol  ou também francês, inglês e alemão, na profunda e sincera partilha do estupendo programa proposto  por  Maurice Schumann, Konrad Adenauer, Paul Henry Spaak, os grandes  construtores da nova Europa – que, desde muito miúdo, me habituei a admirar pela mão dos meus pais e avós – eis o meu privilégio de europeu, a braços com uma inquietação impossível de calar.

 Grego, sim, grego. Provavelmente, nunca como hoje, tenho mais que suficientes razões para me confessar, confirmar e sentir tão helénico como qualquer cidadão de Atenas ou de Tessalónica. Estou e ando por lá, plasmado naquela raiva que alastra pelas ruas para desaguar em frente ao Parlamento. Eu também atiro pedras, recuso esta fornada de humilhações impostas por quem pretende sufocar tanta indignação com as receitas da incultura e da ignorância mais gritante.

 De qualquer modo, jamais trocarei a inteireza da revolta do ‘politikós’, meu irmão helénico, que sofre o que não deve, pela ordinária moleza de uma conversa de medíocres ministros de finanças, em que a lusa e gasparina submissão se apouca perante a sobranceria tolerante de um Wolfgang Schäuble, a caminho do inevitável e já visível descalabro, sem conseguir, porém,  dobrar nem descaracterizar a dignidade de um povo.

Ao discurso da indignidade, à verborreia da ignorância, à falta de lucidez, como contrapor a honrada luta pelo ideal europeu e o caminho  em direcção à União, à Democracia, sob os auspícios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, a magnífica tríade cultural que nos define e que tanto deve à herança helénica? Este o desafio maior ao qual cumpre responder nos atribulados tempos que nos coube partilhar.

* texto publicado na edição de hoje do Jornal de Sintra