[sempre de acordo com a antiga ortografia]

domingo, 10 de novembro de 2013



Efeméride mozartiana
9 de Novembro de 1789




[facebook, 9.11.2013]


É esta a data em que, no Burgtheater de Viena são estreadas duas Arias de Concerto que Mozart compusera cerca de um mês antes. Trata-se de peças para Louise Villeneuve, soprano, cujo texto é atri
buído a Lorenzo da Ponte, para a ópera de Martin y Soler  Il burbero di buon cuore.

Eis Chi sà, chi sà, qual sia [I] e Vado, ma dove? oh Dei! [II] às quais Köchel atribuirá, respectivamente, os números de catálogo KV. 582 e KV. 583.

Proponho que ouçam ambas em interpretações de Cecília Bartoli. A primeira, em Luzern num concerto dirigido por Claudio Abbado - terão um «suplemento» com Parto, parto, ma tu ben mio de "La Clemenza di Tito" (atenção à magnífica Sabine Mayer) - e a segunda em Graaz sob a direcção de Harnoncourt, em 2001.

Boa audição!

http://youtu.be/ulqiN20YAXE [I]
http://youtu.be/Vr4lHhz0qAo  [II]
 



Património de Sintra,
da necessidade de bilhete de identidade

 

[Transcrição do artigo publicado na edição de 8 de Novembro de 2013 do ‘Jornal de Sintra’. Julgo que a solução de identificação dos bens patrimoniais de Sintra, através de uma placa análoga à utilizada em tantos lugares civilizados, é solução de inequívoca premência de adopção. Inadiável. Por isso me tenho permitido, pelo menos de há oito anos a esta parte, lutar no sentido de que assim venha a suceder. Sintra merece que, desta vez, o alvitre encontre o merecido acolhimento.] 

 
Foi em 15 de Abril de 2005 que o Jornal de Sintra publicou o meu artigo ‘Um turismo às claras’ acerca do assunto que hoje pretendo revisitar. Sete anos e meio depois, em 7 de Setembro de 2012, nestas mesmas páginas, também após a abordagem da matéria nas redes sociais (1), voltei à carga, subordinado ao título ‘Sintra, legendas no património’ mas, sintomática e infelizmente, com o mesmo negativo ou, melhor, nulo resultado.

Agora, praticamente no fim de 2013, no momento em que muda de mãos a gestão da autarquia, ainda não desisti de considerar que, tanto esta minha preocupação como a subsequentes sugestão de resolução, continuam pertinentes. É por isso que, sem mais delongas, volto à matéria na esperança de que, finalmente, possam encontrar o acolhimento que, sem presunção, julgo merecerem.
Reporto-me à inequívoca obrigação de Sintra suprir toda a informação possível, de forma directa, imediata, expedita e concisa junto dos bens patrimoniais em que tão pródiga é a sede do concelho, com particular destaque para o Centro Histórico, São Pedro e Bairro da Estefânea onde, constantemente, deparam os forasteiros com peças interessantíssimas mas sem qualquer identificação.
Como a necessidade de colmatar a falha é inquestionável, a falta de resposta é inadmissível, ao longo de tanto tempo, colidindo com o quadro de referência de Sintra como destino de vocação turística. A verdade, no entanto, é que à excepção dos espaços afectos à Parques de Sintra Monte da Lua, o modo displicente como esta terra tem sido tratada logo suscita as maiores dúvidas, não tanto em relação à aludida vocação mas, isso sim, quanto a estar à altura de lugar tão sofisticado e exigente.

Casos concretos

Nada melhor do que considerar casos concretos, tão conhecidos como, por exemplo, os da Quinta da Regaleira, Quinta do Relógio e Sobreira dos Fetos, concentrados numa mesma e contígua área. Já se deram conta de que ali nada existe que, minimamente, esclareça quanto à singularidade daquelas três peças do património local? Ora bem, há que suprir essa falta, adoptando a prática que tão eficaz se tem revelado por toda a parte.

Afinal, tudo se resume à instalação, junto de cada edifício, de uma placa informativa. No caso vertente, sobre a estética revivalista romântica da sua arquitectura, esclarecendo acerca dos proprietários iniciais promotores da construção, dos artistas envolvidos, das curiosidades mais notáveis tais como toda a simbologia maçónica da Regaleira, ou o facto histórico de D. Carlos e D. Amélia terem passado a lua de mel na Quinta do Relógio. Já a propósito da nobilíssima árvore, para além das referências botânicas identificativas da espécie, importaria divulgar os escritores que a ela se referiram, bem como o especial afecto que lhe dispensou a última rainha de Portugal.

Mais casos? Porque não Seteais, a pouca distância? Chegados ao portão de acesso, as únicas placas presentes são as que identificam o Palácio de Seteais apenas como hotel de luxo de determinado grupo empresarial. Ali deveria existir informação acerca deste palácio do século XVIII, dos jardins de acesso livre e gratuito, do miradouro do qual se avista uma das mais impressionantes paisagens de Portugal, daquele arco de triunfo e o acontecimento ali celebrado, etc. Isto é o mínimo que merecem os bens patrimoniais da comunidade em termos de interpretação e divulgação.


 
Pertinência da solução

Por outro lado, é impossível ignorar que muitos visitantes, turistas nacionais ou estrangeiros, se preparam muito bem, acedem à informação disponibilizada na internet, passam pelo posto do Turismo local onde lhes distribuem folhetos, mapas e  documentação de todo o tipo. É verdade. O mínimo que poderíamos ripostar é que uma coisa não invalida a outra.
Não deixa de ser curioso verificar - e eu constato-o, quotidianamente, nas minhas andanças e caminhadas – que, precisamente, são os forasteiros portugueses os menos bem apetrechados. Tenho ouvido, junto à Regaleira, pessoas dizendo que se trata de um palácio manuelino do tempo das Descobertas… E, no passado domingo, atravessando o Largo da Quinta do Relógio, alguém perguntava que casa seria aquela, tão degradada, com os caracteres árabes...

Pois sim senhor, não só todo o suporte documental, em papel impresso, mas também a informação que, in loco, deve estar disponível, através da tal placa informativa, de reduzidas dimensões, legível à curta distância de cerca de um metro, contendo apenas meia dúzia de frases imprescindíveis à localização da peça no tempo e no espaço, dando conta de qualquer episódio de interesse relevante.

Esta é matéria aliciante mas, como se pode verificar, que nada evidencia de particularmente inovador. Legendar o património, ou seja, disponibilizar uma placa que funcione como «cartão de identidade» da peça patrimonial é coisa perfeitamente corriqueira em todas as comunidades onde os responsáveis pelos sectores do turismo e do património cultural há muito se renderam a esta prática tão simples mas tão eficaz de divulgação da sua riqueza.

Circuitos e alvitres

Aqueles que, eventualmente, ainda recordem estas propostas, estarão verificando que continuo recorrendo aos meus referidos artigos, desde já, passando a outro exemplo, entre tantos referenciáveis. Desta vez, seria em pleno coração do centro histórico, bem no casco da Vila Velha, onde se justificaria a existência de informação acerca da Judiaria, junto ao arco que lhe dá acesso, à esquerda de quem sobe a rua, a caminho da Periquita.

E, em sentido contrário, outra placa ou painel referenciando a Rua do Açougue, remota reminiscência do as-soq árabe, interessante vestígio da Mouraria de Sintra, mesmo sob a esplanada do Café Paris. Estas, apenas duas das etapas de passagem de um circuito elucidativo da saudável convivência que outrora reinou entre as comunidades religiosas cristã, judaica e muçulmano, percurso a promover com outros motivos do maior interesse, naturalmente, após a requalificação que se impõe.

Como não lembrar, igualmente, entre tantas que poderíamos citar, noutra zona da sede do concelho, as obras dos Arquitectos Norte Júnior, Adães Bermudes, Raul Lino, sem qualquer identificação? Naturalmente, a informação a disponibilizar, ainda que significativamente reduzida, obedeceria sempre a um mesmo modelo padrão de painel-placa, talvez com a aposição de um pequeno símbolo cromático, identificador de certo circuito (medieval, romântico, queiroziano ou outros) em coerente articulação com a que aparece nos folhetos turísticos, tanto em termos do estilo informativo como no aspecto gráfico.

Simples? Dispendioso? Sabemos que não é coisa simples de concretizar, pressupondo o envolvimento de saberes afins da História, divulgação cultural, comunicação, da semiótica, do design gráfico, do marketing. Quanto às verbas a envolver, mesmo em tempo de crise tão grave, trata-se de investimento que, não sendo muito significativo, e a concretizar faseadamente, suscitará inequívoco e positivo retorno.

Até ouso alvitrar o envolvimento da Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra que, além das competências trabalhadas nas disciplinas de Português e de História, dispõe de meios afins da concretização de tal projecto, para concepção das placas de identificação, por exemplo, nas especialidades de Azulejaria e Metais se, para tal efeito, se optasse por suportes azulejares.

Será difícil pôr em marcha semelhante plano de identificação e divulgação de todos os bens de interesse patrimonial de Sintra? Será difícil de entender que este tipo de informação é, pelo menos, tão essencial como o dos folhetos e mapas distribuídos pelo Turismo?
E, não tão despiciendo quanto possa parecer, não se perceberá que esta também é uma forma de promover a autoestima dos residentes, em especial dos menos esclarecidos, possibilitando-lhes uma informação sucinta e rápida sobre um património que os forasteiros procuram por razões nem sempre compreensíveis? Muito trabalho? Mas tão aliciante, tão útil, urgente e necessário!
 

(1) www.sintradoavesso@blogspot.com

http://www.facebook.com/#!/profile.php?id=1119134294


[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]



A grande utopia
 
 
[facebook, 8.11.2013]


O comunismo que, por excelência, é o objectivo máximo da grande utopia - quem leu Utopia de Thomas More sabe da mestria como o autor trata o tema... - continua com a pertinência de sempre.

A forma como, ao longo de dezenas de anos, os PCs de todas as latitudes, concretizaram e continuam tentando concretizar essa grande utopia, com os conhecidos resultados de tais empenhos e desempenhos, não retira uma vírgula à espantosa grandiosidade da proposta.
 
Sugestão de leitura

A propósito, leiam ou releiam "Utopia". E, deixem-se encantar pelo relato do navegador e explorador português Rafael Hitlodeu cujas informações foram determinantes para a concepção da obra. O livro teria um título bem mais longo, "Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha Utopia". Foi publicado em 1516. A edição fac-similada da Gulbenkian, com estudo do Prof. Pina Martins é outro monumento do saber. Se puderem, vão por aí.
 
 

Tudo o que temíamos acerca do comunismo – que perderíamos as nossas casas e poupanças e nos obrigariam a trabalhar eternamente por escassos salários e sem ter voz no sistema – converteu-se em realidade sob o capitalismo
 
 Jeff Sparrow
 
 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013



Antoine Joseph Sax
6 de novembro de 1814
 


 
Quando se faz qualquer conversa sobre peças para instrumentos de sopro, muito raros são os apreciadores da boa música que conhecem a obra que hoje vos proponho. E, muito especialmente, porque o saxofone não é instrumento que mereça o favor dos grandes compositores.

Várias razões o justificam mas, hoje, não vou entrar por tais domínios. No entanto, gostaria de recordar que tenho partilhado excelentes momentos musicais com peças para saxofone compostas, entre outros, por Claude Debussy, Alexandre Glazunov, Jacques Ibert, Darius Milhaud, ou Heitor Villa-Lobos.

Mas, afinal, porquê o saxofone nesta data? Basta reparar no título supra. Celebra-se hoje o aniversário do belga Antoine Joseph Sax, mais conhecido como Adolphe Sax, precisamente, o construtor de instrumentos que inventou o saxofone em 1840.

Em princípio, tratava-se de um instrumento destinado ao uso nas bandas militares, dotado de palheta de madeira, análoga à do clarinete. Com uma «família» que se estende desde o soprano ao contrabaixo, acaba por ser adoptado por muitas formações de jazz.

À vossa consideração, o Concerto em Mi bemol Maior para Saxofone contralto e Orquestra de Cordas Op. 109, escrito por Alexander Glazunov em 1934.

No que respeita à estrutura, cumpre considerar a Exposição: Allegro Moderato, em compasso 4/4, terminando em Sol menor. Segue-se um breve desenvolvimento e a Transição: um Andante em Dó bemol Maior, em compasso 3/4, enveredando por uma pequena cadenza até à Conclusão: Fugato, Dó menor em 12/8. Naturalmente, repetição até à coda (Mi bemol Maior).

Dei-me ao detalhe do registo supra já que se trata de peça raramente ouvida, que lucra com a atenção dispensada à sucessão das componentes em presença, com as características apontadas. O menos que posso confessar é o meu fascínio por esta obra que ouço, recorrentemente, sempre rendido à arte do compositor que, em Evgeny Novikov, encontra um intérprete solista de eleição. Recomendo vivamente.

Boa audição!



http://youtu.be/Zq9aY79B_oQ
 
 



Efeméride mozartiana
5 de Novembro de 1785



[Facebook, 5.11.2013]



Datado de Viena, Mozart dá entrada no seu catálogo do Quarteto, Dite almeno in che mancai para Soprano, Tenor, dois barítonos e Orquestra, escrita para a ópera cómica em dois actos  La villanella rapita do compositor Francesco Bianchi.
Pelo seu próprio punho Mozart escreve a distribuição das vozes: Signora Coltellini, Signore Calvesi, Signore Mandini and Bußani. Quanto ao acompanhamento, estava assegurado por: 2 violinos, 2 violas, 2 oboes, 2 clarinetes, 2 fagotes, 2 trompas e contrabaixo.

Esta a peça, à qual Köchel atribuirá a referência KV. 479, [I] tem texto de Giovanni Bertati (1735-1815), cujo libretto mais famoso é o da ópera Il Matrimonio segreto de Domenico Cimarosa. É também autor de La donna di genio volubile (1796) de Marcos António Portugal.

Para que conste, destinado à mesma récita de La villanella rapita Mozart contribuiria ainda com mais um terceto vocal intitulado Mandina amabile KV. 480. Aqui vos proponho as duas peças.

Boa audição
!

http://youtu.be/GjWN3TG1a_E [I]
http://youtu.be/k6HtPma83Cc    [II]

 
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013



Esotérico, exotérico, isotérico
[com fim musical]


 
Na semana passada, ao ler um texto que já não consigo identificar, porque não o registei devidamente, verifiquei que o autor fazia uma confusão cuja frequência me impõe a necessidade de a esclarecer. Para o efeito, recorro ao Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, permanente e eficaz muleta nestas andanças à volta das palavras.

Pois, então, tratava-se do adjectivo  esotérico. Do verbete do dicionário, passo a citar: “(…) 1 diz-se do ensino que, em certas escolas da Grécia antiga, destinado a discípulos particularmente qualificados, completava e aprofundava a doutrina (…) 2 diz-se de todo o ensinamento ministrado a círculo restrito e fechado de ouvintes (…) 4 compreensível apenas por poucos, hermético.

Provindo do grego esoterikós, em suma, significa oculto, misterioso, em relação íntima com esoterismo, ou seja, uma doutrina à qual têm acesso os iniciados. Eis um exemplo de correcto uso do adjectivo: Na Maçonaria, os Irmãos acedem a um saber esotérico.

Agora, no que respeita a outro adjectivo exotérico teremos: “(…) 1 possível de ser ministrado ao grande público e não somente a um grupo selecto de alunos (…) 3 diz-se dos ensinamentos e doutrinas que, nas escolas da antiguidade grega, eram transmitidos em público 3.1 p. ext. comum, vulgar, trivial. Portanto, com aquele prefixo «ex» inicial (movimento para fora), significa o que é do conhecimento geral, acessível, aberto ao público.

Finalmente isotérico, termo que não aparece registado no Houaiss. Perante a surpresa, pego no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. “(…) diz-se da linha que une pontos em que a densidade do ar é a mesma”. Portanto, ainda que possa suscitar e confusão com as anteriores, nada tem a ver com elas já que, muito especificamente, apenas se confina aos domínios da Física e da Meteorologia.

No tal texto a que aludi inicialmente, o autor acabou por escrever isotérico embora pretendesse esotérico. Como, em termos ortográficos, isotérico estava correctamente escrito, o corrector do programa do computador, muito naturalmente, nada lhe assinalou. E, como os jornais deixaram de ter homens, profissionais, desempenhando tal tarefa de controlo de qualidade, o resultado é o que se vê…

A propósito de esotérico, conhecem esta versão que vos proponho de um tema de Gilberto Gil? Gal Costa e Maria Bethânia cantam. E o próprio Gilberto Gil está no violão. Primeiro, o poema:

Não adianta nem me abandonar
Porque mistério sempre há de pintar por aí
Pessoas até muito mais vão lhe amar
Até muito mais difíceis que eu prá você
Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais
Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí
Não adianta nem me abandonar (não adianta não)
Nem ficar tão apaixonada, que nada
Que não sabe nadar
Que morre afogada por mim

e, por fim, a peça.

Boa audição!
 
 
 
 
 

 
 

 
 

 
 
 

 

domingo, 3 de novembro de 2013



Sintra,
passeio outonal,
convite ao Presidente



[Transcrição do artigo publicado na edição de 1 de Novembro de 2013 do 'Jornal de Sintra'. Embora dirigido ao actual Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dr. Basílio Horta, este convite é extensivo a todos os leitores. Se me permitem, em especial, a todos os sintrenses, incluindo os muitos residentes na sede do concelho, que desconhecem a maravilha a que me reporto] 


Ainda o Senhor Presidente da Câmara andará em preparos das lides para os próximos quatro anos e, alheio a tal azáfama, eis que já o venho desencaminhar para um passeio. Desencaminhar? Paro e reparo no verbo. Bem, o melhor é afirmar a certeza de que nem o Dr. Basílio Horta autorizaria, nem eu me atreveria à perversidade de o desviar dos seus propósitos…

No entanto, venho mesmo propor uma caminhada em Sintra. Tenho absoluta certeza de que lhe proporcionará ímpar comunhão com o ambiente bem real que todos fantasiam quando pensam nesta terra tão singular, sede do concelho que lhe cabe gerir e, em simultâneo, um especial enriquecimento pessoal. Será um passeio a pé, por caminhos muito próximos do centro histórico, paradoxalmente tão pouco conhecidos dos próprios sintrenses.

Contamos com um tempo já bonançoso, depois das grossas bátegas da semana passada. Vai estupendo este Outono. Em Sintra é época de excelência. Incomparável, a luz desce as faldas da Serra até ao casario da urbe, jamais conseguindo desfazer o sortilégio de sombras perenes e magníficas da Serra. Aqui tão diferentes, os odores da terra mesclam-se em telúrica promessa de renovação, à medida que se afirma o geral concerto da natureza, com dispensa de partitura. Os sentidos, em contida exaltação, confirmam como tudo está certo. E perfeito.

Errada e imperfeita, pelo contrário, a mão do homem que, há muitos anos, não tem estado à altura do alto privilégio de Sintra. Entretanto, Senhor Presidente, em Sintra, conjuguemos o belíssimo Outono com a menos feliz realidade de Sintra, exercício algo difícil mas, inevitavelmente necessário para que não caiamos em depressivo estado de ânimo...

Com uma ténue pista quanto ao destino do passeio, já sabe que não o desafiei para grande afastamento. Tudo se passa, afinal, no perímetro da Vila Velha, numa volta em que a beleza espreita a todo o instante. Primeiramente, contudo, aconselharia o horário da tarde, cerca das quatro, de tal modo que, lá mais para o fim da passeata, aproveitemos a tão especial luz rasante crepuscular.

Comecemos, então, na Praça da República, junto ao edifício do Turismo, tomando o caminho da Regaleira. Ah, é verdade, talvez convenha munir-se de um caderno de apontamentos já que não faltarão pormenores para registar como, por exemplo, o estado dos passeios e bermas, a degradação dos lancis que põe em risco a segurança de tanta gente passante.

Caminhemos a passo conveniente, sem pressas, a cascata da Regaleira à nossa direita, o parque da Quinta do Relógio e já o palacete arabizante do lado oposto. Chegados ao esplendoroso monumento arbóreo que é a sobreira dos fetos, junto ao gradeamento, continuemos, atravessando largo, para entrar na Rua Trindade Coelho. Mal começamos a descer, A Villa Roma, à cota alta, deixa que lhe descubramos as traseiras, aspecto do discreto edifício, raro para quem apenas esteja habituado a ver-lhe a fachada, quando sobe a pequena rampa para Seteais.

Apesar de nos mantermos na mesma zona, a opção por este caminho vai permitir que nos embrenhemos num dos mais sossegados e sofisticados percursos que Sintra pode oferecer. Estamos numa rua entre quintas, de um e outro lado, da Bela Vista, Schindler e, ao fundo, depois de passar a embocadura do Caminho da Fonte dos Amores – também um espanto de beleza, com as quintas da Boiça e do Pombal – já na íngreme descida do Caminho dos Frades, primeiro a Casa do Fauno, depois a do Castanheiro, com aquela tão imponente e carcomida árvore que, já com cinco séculos de vida, nos fala do tempo dos Descobrimentos…

Prevejo que não se contenha. Sei que lhe apetecerá espreitar a paisagem além dos muros. Acontece com todos os meus convidados. A verdade é que há sempre maneira de empoleirar, de debruçar, afinal, de dar espaço à criança que nos habita. No termo da descida, eis a bifurcação da Quinta dos Alfinetes. Aí voltamos à direita pelo Caminho dos Castanhais.

Caminho dos Castanhais

Estamos a entrar em terra batida e continuamos a beneficiar de um panorama magnífico. À nossa esquerda, depois do eucaliptal, sobre as trazeiras da Vila, baloiçam-nos os olhos entre as paredes sempre verdes de um minúsculo vale, cheio de mimos. É por aqui, não faltando um bucólico tanque e água, a romper por todo o lado, que mais coincidimos com os passos de Eça de Queiroz em Sintra, aqui sim, nas suas idas e vindas, no acesso à Quinta dos Castanhais onde, com a família passou temporadas a que alude na correspondência com sua mulher, D. Emília de Castro (Resende).

Neste momento do trajecto, como soe dizer-se, já teremos a alma lavada. Em nós, já o Outono deixou as marcas do habitual feitiço e consequente fascínio. Porém, se já estávamos, então assumamos que continuamos numa esquecida zona de Sintra. É verdade, Senhor Presidente, esquecidos caminhos são estes, perigosos, escalavrados, embora a poucos metros do centro histórico. Como e porque nos espantaríamos? Então, se o próprio casco da mais nobre Sintra não está esquecido há décadas? Pois é, estamos a caír na real…

Aqui, para bom entendedor, esquecimento significa incúria. Significa aquela cultura do desleixo de que fala Jorge Sampaio ao referir-se a uma certa maneira de estar e de ser português. Cruel, por outro lado, que tenhamos de recuar dezenas de anos para vislumbrar o que era um lugar limpo e com carácter, igual a tantos outros, nacionais e estrangeiros que, apesar do progresso, não se descaracterizaram, não se degradaram e até estão em melhor estado.

Sim, não tenhamos a menor dúvida, a actual situação do Caminho dos Castanhais é algo que, em lugar classificado como Paisagem Cultural da Humanidade, noutros países europeus, seria perfeitamente impensável. Porém, o passeio continua belíssimo. É Sintra que resiste, Sintra que está e continua doída de imerecidas feridas e ofensas. Um dia virá em que tudo isto se vai alterar. Preciso é que alguma coisa se faça à altura das circunstâncias. Agora melhor, entende o Senhor Presidente o meu oculto objectivo quando o convidei para este passeio?

Contradições & saídas em tempo de crise

Mas, continuemos. Ainda estamos no Caminho dos Castanhais. Não é preciso muito chover para que fique praticamente intransitável, como aconteceu há dias. As marcas estão por aí. Em tudo isto, a imagem do desleixo. Um segmento em terra batida, outro empedrado e ainda pedaços de irregularíssima calçada, borrifada por uns salpicos de alcatrão, antes de, no termo da caminhada, voltarmos à esquerda, pela Rua Fresca, a caminho das Escadinhas da Pendoa, nas traseiras dos hotéis Tivoli e Central. Por um lado, belíssimo, por outro, a prova da nossa gritante incapacidade.

Que embaraço, não é senhor Presidente? Como podemos dar-nos ao luxo de ter esta pérola abandonada, este percurso excepcional, mas tão desprezado? E sempre apregoando que Sintra é capital do Romantismo! Verdade é que as jóias da coroa, tanto as do período romântico, tout court, como as de outras épocas, que compõem o eclético quadro sintrense, não podem estar em melhores mãos que as da Parques de Sintra Monte da Lua. De qualquer modo, além desse, há todo um património outro, de idêntico pendor e valia, que, fazendo o género de Sintra, como o Caminho dos Castanhais, não pode continuar neste estado, de inqualificável desgosto.

Em tempo de crise, apesar da crise, compete à autarquia a recuperação deste e doutros inestimáveis bens congéneres. Não venho falar-lhe de faraónicos projectos de regime mas, tão somente, de obras modestas, praticáveis, concretizáveis. Para resolução do problema em presença – afinal, apenas um entre dezenas de outros – será imprescindível o envolvimento de uma série de serviços camarários cuja dificuldade de articulação é proverbial. É imperioso conquistar o interesse dos proprietários das quintas, conceder-lhes facilidades muito expeditas para que possam cumprir o que a eles compete na concretização de obras de reabilitação, por exemplo, dos muros laterais, drenagens a montante, etc. Há que trabalhar numa perspectiva de actuação integrada, infelizmente, tão estranha à nossa cultura.

Eis umas centenas de metros, que percorremos amarrados à preocupação das melhorias e da mudança que se impõe e não pode tardar. Desde já, agradeço ao Senhor Presidente por se ter disposto a acompanhar-me nesta prova de campo. Depois das eleições, oxalá possa o passeio contribuir, ainda mais, para a motivação que lhe vamos notando nestes primeiros dias da sua abordagem aos concretos problemas de Sintra. Muito obrigado.

Entretanto, pouco mais podendo fazer, continuo a sonhar com este percurso, palmilhado pelas famílias, quando for possível virem as crianças e os mais velhos, com toda a segurança; quando, por entre a animação dos quiosques, os tilburies, as charrettes e galeras, como no tempo de Eça de Queiroz, por aqui puderem trilhar, transportando gente encantada, enquanto outros, descansando nos bancos, se deleitam em conversas, leituras ou simples contemplação. Tudo no sossego do civilizado lugar a que têm direito.

Finalmente, a esclarecer que, além da prosa nova, para compor este Passeio de Outono, Convite ao Presidente, recorri, nuns casos, à transcrição parcial e, noutros, a adaptações de textos que publiquei, quer no Jornal de Sintra quer no sintradoavesso.blogspot.com e nos últimos anos. Como nada mudou, com isto confirmo a inexorabilidade do tempo, de facto, como a sua passagem, pode deixar marcas que se vão sobrepondo, em estratos que nada nos dignificam.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

 
 

sábado, 2 de novembro de 2013


2 de Novembro,
dia dos fiéis defuntos



Venho propor-vos a audição de uma peça belíssima, no dia em que a Igreja nos convida a reflectir sobre a Morte, com o objectivo de que assumamos a vida como fugaz e efémera passagem, o mais possível libertos da matéria, libertos do «ter» e a caminho do «ser». Sabe o crente que a Morte é «a grande amiga» – como afirmava Mozart – que abre a porta a uma dimensão de vida outra.

Dos compositores que conhecemos, nenhum ignora esta perspectiva na sua Missa dos Mortos. Naturalmente, também isso se passa com a obra que vos trago, a terceira versão do Requiem em Ré menor, op. 48 de Gabriel Fauré (1845-1924), datada de Paris, em 12 de Julho de 1900, uma reorquestração para grande orquestra que, contudo, preserva uma sobriedade notável e absoluta «limpidez».

Foi o compositor quem selecionou os textos. O Benedictus é substituído pelo Pie Jesu, enquanto que os dois últimos versículos da Sequência dos Mortos e a antífona In Paradisum bem como o responso Libera me pertencem à liturgia da Sepultura.

Não podemos deixar de ter em conta que Fauré escreve esta obra entre crises de depressão, na sequência da morte do pai e da iminente morte da mãe. Não conheço outro Requiem que suscite uma consolação mais serena, nenhum que apresente assim a morte, como desfecho muito mais feliz do que doloroso.

Nesta gravação, colhida ao vivo na sala do Concertgebouw de Amsterdam em 23 10/1997, as vozes solistas são de Sibylla Rubens (soprano) e Detlef Roth (barítono), canta o Netherlands Kamerkoor e toca a Royal Concertgebouw Orchestra, sob a direcção de Philippe Herreweghe.

Boa audição!


http://youtu.be/Rv8oOIV7QEw
 
 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013



Nicolas Boileau
1 de Novembro de 1636
 





Muitos dos meus amigos, mulheres e homens da minha idade, são pessoas para quem a segunda língua continua sendo o Francês. É, especialmente para eles, que passo a transcrever, do Recueil: Épîtres IX de Nicolas Boilea (m.1711), um poema dedicado À M. Le Marquis de Seinelay, "Rien n'est plus beau que le vrai".
Trata-se de uma longa peça, ao melhor estilo da época e das melhores páginas do autor. De vez em quando releio, sempre com o melhor proveito. Há segmentos que sei de cor. De facto, um em particular, que tenho muito presente, aparece logo naqueles quatro últimos versos da primeira parte, aliás, como extensão do mote titular.

Aqui fica o poema. Oxalá nele encontrem a matéria de reflexão que, dirigido ao Marquês - Jean-Baptiste Antoine Colbert, Marquês de Seignelay, curisamente, também nascido no dia 1 de Novembro de 1651 (não confundir com o célebre Ministro das Finanças de Louis XIV, Jean-Baptiste Colbert, 1619-1683, seu pai) - é um verdadeiro testamento para a Humanidade.

Boa leitura!
 


Primeiro de Novembro


As raízes da Festa de Todos os Santos encontram-se em Antioquia onde, desde o séc. IV, se celebrava uma memória de todos os mártires. Em Roma, no séc. VI, depois de ter consagrado o antigo Panteão romano à Virgem Maria
e a todos os mártires, o Papa Bonifácio introduziu esta festa no mês de Maio.

Mais tarde, Gregório III (papado 731-741) mandou erigir um oratório a todos os santos na Basílica de São Pedro, que passou a ser celebrada em 1 de Novembro. O Imperador Luís, o Piedoso (filho de Carlos Magno, 778-840), decretou esta celebração para todo o império.

Hoje, ao pretender introduzir um momento musical que se relacione com a data, cruza-se a História da Festa de Todos os Santos com uma das maiores calamidades de todos os tempos na Europa, o Terramoto de Lisboa no dia 1 de Novembro do ano de 1755.

Pois bem, nada mais a propósito do que Die Donner Ode de Georg Philipp Tellemann, cantata dramática cuja composição, datada de 1756, foi directamente inspirada no evento que, como sabem, suscitou a criação de inúmeras obras em vários domínios da Arte em geral. Basta lembrar Voltaire, por exemplo, que tão impressionado se revelou.

Poderá pensar-se que, ao celebrar tanto a majestade como o poder e a força de Deus, com um tal triunfalismo, estaremos em presença de uma obra que evidencia a complacência do Iluminismo Panglossiano. Pois bem, é a mestria e o carácter persuasivo desse triunfalismo que, precisamente, contribui para o acolhimento da peça.

Deixo-vos com um excerto, numa interpretação de referência do Collegium Musicum 90, sob a direcção de Richard Hickox.

Boa audição!


http://youtu.be/6Nh8JZU7afc