[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013



Efemérides mozartianas


[facebook, 11.12.2013]


É de Viena e aos 11 de Dezembro de 1784 que está datada a composição do Concerto para Piano em Fá, KV 459. Três anos mais tarde, também com as mesmas referências de lugar e data, Mozart regista no seu catálogo pessoa
l a composição da canção  Die kleine Spinnerin, KV. 531.

Da primeira peça [I] seleccionei uma interpretação de Clara Haskil (1895-1960), talvez a maior mozartiana de todos os tempos, com a Orchestre de Chambre de Lausanne, sob a direcção de Victor Desarzens (1908-1986), numa gravação ao vivo datada de 1957. Certamente, indubitavelmente, a melhor proposta para este concerto. Mozart, inultrapassável.

Da segunda peça «em programa» [II], também não tenho a menor dúvida de que vos estarei propondo uma abordagem paradigmática, com a mítica Schwarzkopf, acompanhada ao piano pelo não menos galáctico Gerald Moore que, nesta gravação, faz uma eficaz introdução de apresentação da canção.

Boa audição!

http://youtu.be/uWsARuTLR-k [I]
http://youtu.be/W-H2zKQ3FXY [II]
 


10 de Dezembro de 1948
Direitos Humanos e a Alegria do Evangelho

[facebook, 10.12.2013]

Como católico, nos sessenta e cinco anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos adoptada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, ocorre-me celebrar a data conjugando-a com arecente Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco.

"(...) Prefiro uma Igreja rota, esfarrapada e suja por estar nas rua...
s actuando a uma Igreja enferma por estar confinada e agarrada à própria (sensação ilusória de) segurança", escreve o papa. "Não quero uma Igreja obcecada por estar no centro e que acaba presa numa rede de obsessões e procedimentos. (...)"

Para nós, católicos, mulheres e homens de Fé, o exercício do respeito pelos Direitos humanos, por acréscimo de argumentos, passa pela pertença a uma Igreja, com aquelas características, que Francisco nos desafia a ressuscitar dos tempos iniciais do Cristianismo.

Se é a Revolução, então é a revolução do Cristo, a Quem, de acordo com o Evangelho, mais uma vez, somos chamados a acompanhar e a seguir.
 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013



A melhor do mundo



[transcrição do artigo publicado no Jornal de Sintra, edição de 6 de Dezembro de 2013]


Em tempo que é de grande regozijo pelo evento, em primeiro lugar, gostaria de partilhar convosco dois parágrafos do texto veiculado pela própria PSML, com data do passado dia 30 de Novembro, dia em que a Parques de Sintra Monte da Lua venceu o World Travel Award para a “Melhor Empresa do Mu
ndo em Conservação”:

“(…) António Lamas, Presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra, também presente na entrega de prémios, referiu que "este é um dos prémios mais desejados por qualquer empresa na área do Turismo e a Parques de Sintra está muito orgulhosa de o ter conseguido", acrescentando ainda que "o reconhecimento internacional de um World Travel Award contribuirá garantidamente para uma maior divulgação dos parques e monumentos de Sintra, reforçando a sua visibilidade junto do público".

Este prémio vem juntar-se a vários já recebidos pela Parques de Sintra e que reconhecem a qualidade do trabalho desenvolvido, não só ao nível do acolhimento a visitantes como também da recuperação e restauro dos parques e monumentos sob a sua gestão. Um dos prémios mais recentes foi o European Garden Award que selecionou o Parque de Monserrate como melhor recuperação de um jardim histórico. Também este ano a Parques de Sintra recebeu o prémio EuropaNostra para o trabalho de recuperação e restauro do Chalet e Jardim da Condessa d'Edla, local que já antes havia também garantido o Prémio do Turismo de Portugal e do Grémio Literário. (…)”

O palmarés de prémios acumulado pela Parques de Sintra Monte da Lua é verdadeiramente impressionante e este último é dos de maior prestígio mundial. Está de parabéns o Prof. António Ressano Garcia Lamas, está de parabéns a equipa que ele lidera e estamos de parabéns todos nós, sintrenses reconhecidos pelo trabalho notabilíssimo de gestores e técnicos tão conceituados.

Quem, como eu, tem acompanhado de muito perto o trabalho desenvolvido pela empresa, desde o início da sua constituição, só pode rejubilar e sentir o maior orgulho. Infelizmente, nem sempre foi assim. Como não tenho memória curta, entendo o total alcance das citadas palavras do Prof. António Lamas, já que me recordo do verdadeiro pesadelo que foram os primeiros anos de actividade da PSML, sob a incompetente gestão do biólogo Serra Lopes.

Na realidade, tendo em consideração o paradoxal contraste entre o actual período de permanente júbilo e o anterior de desapontamento constante, é perfeitamente imaginável o que seria de Sintra sem o empenho que esta boa gente tem demonstrado na defesa dos nossos interesses, tendo conseguido o Prof. António Lamas, será bom não o esquecer, salvar a PSML do abismo em que a encontrou, erguendo-a e notabilizando-a a este nível absolutamente ímpar e invejável.

A melhor do mundo e o Netto

Pois bem, não deixa de ser curioso que a concessão de galardão tão importante e cobiçado em todo o mundo, relacionado com a recuperação do património, tivesse coincidido com o recente episódio afim da intenção de reabilitação de um bem patrimonial como é o Hotel Netto.

Entre o Tivoli e o Palácio da Vila – no preciso local onde, nos anos quarenta, se alojaram refugiados judeus, hotel que Ferreira de Castro procurou para as suas estadas em Sintras, onde, mais tarde, em tempo de refluxo do império, residiram retornados das colónias – jaz morto, apodrece, um edifício que, de um dia para o outro, adquire uma notoriedade interessante.

Vale a pena lembrar que tudo começou há cerca de um ano. No contexto de um trabalho levado a cabo ao longo de meses, a PSML empenhou-se, não só no diagnóstico fino da situação de prática ruína a que dezenas e dezenas de anos de abandono conduziram aquela unidade hoteleira, mas também na definição do programa de recuperação cujo objectivo seria a sua transformação e adaptação a um hostel, portanto, vocacionado para uma clientela jovem.

Naturalmente, definidos os parâmetros da reabilitação, em zona tão crítica como é o centro histórico de Sintra, praticamente paredes-meias com o Palácio da Vila, uma das jóias da coroa que lhe está afecta, a PSML também terá procedido às diligências afins do financiamento, equacionado e negociado com as entidades credoras o período de liquidação nas melhores condições, enfim, tudo preparando sem comprometer quaisquer detalhes das várias etapas a vencer.

Há precisamente um mês, no dia 6 de Novembro, em que o Rotary Clube de Sintra, tão justa e oportunamente, atribuíu ao Presidente do Conselho de Administração da PSML a distinção do Profissional do Ano, todos quantos participaram daquele jantar de homenagem no Hotel Tivoli, bem puderam verificar a satisfação do Prof. António Lamas ao anunciar como estaria para breve o começo de uma nova vida para o Netto.

Percebia-se que tal notícia – não constituindo o corolário fosse do que fosse para uma empresa de capitais públicos que já provou como, ao seu alcance, estão todos os desafios do mais alto nível – representava, afinal, a oportunidade para resolver mais um problema dentre os muitos que, em Sintra, tanta preocupação têm causado a diferentes executivos camarários em sucessivos mandatos.

Enfim, ali estava a PSML tornando pública mais uma recuperação de património, portanto, no perfeito contexto e âmbito da sua especialidade. Recuperar aquele edifício para um tempo próximo, em que a animação da zona histórica ficará indissociavelmente ligada à qualidade com que a obra for concretizada, permitindo tanto aos sintrenses como aos visitantes em geral, jovens utentes, à hotelaria e restauração e ao comércio vizinhos, uma articulação facilitada com um espaço compósito, eis um programa, eis uma carta de intenções cuja concretização, não estando ao alcance de todos, estava-o da PSML.

A melhor do mundo e a caravana

Subitamente, erguendo-se da letargia de décadas em que se mantivera relativamente a instalações que deixou apodrecer até à indecente ruína em que se encontra, a Câmara Municipal de Sintra, através do inegável direito de preferência que lhe assiste, vem anunciar não pretender desperdiçar esta oportunidade para demonstrar como, agora, é que o Hotel Netto, às suas mãos, vai ter o destino que merece.

Já que, apenas na sede do concelho, a Câmara tanto tem com que se entreter, por exemplo, com o edifício Gandarinha, cinema da Portela e outros interessantes imóveis, nas mesmas circunstâncias, igualmente abandonados há décadas, parece-me que pretenderá, isso sim, aproveitar o Netto como caso paradigmático.

Pois, se querem que vos diga, acho muito bem. Trata-se de um excelente sinal do novo executivo. Aproveitando a oportunidade, sobe a fasquia a uma altura admirável e demonstra 'urbi et orbi', ou seja à cidade e ao mundo, que está ao nível da melhor empresa do mundo em conservação.

E, afinal, se as coisas correrem como é justo esperar, como a Câmara Municipal de Sintra até participa do capital social da PSML, a empresa à qual Sintra tanto deve, que até é a Melhor Empresa do mundo em Conservação, poderá mesmo envolver-se na recuperação do Netto, para a qual já contribuiu, durante tantos meses, com um inestimável trabalho de sapa. Enfim, continuando a caravana a passar, agora apenas resta estar atento ao cumprimento do cronograma.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]
 
 

domingo, 8 de dezembro de 2013



Dia da Imaculada Conceição


A propósito deste dia grande da Igreja e recordando ainda que o Papa Francisco tem o seu pontificado consagrado a Santa Maria, gostaria de partilhar convosco o Magnificat, BWV 243, de JS Bach, numa estupenda leitura de Ton Koopmann, que passo a propor, juntamente com o texto que, convém recordar, é um excerto do Evangelho segundo S. Lucas.

Magnificat anima mea Dominum
Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo.
Quia respexit humilitatem ancillæ suæ: ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes.
Quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius.
Et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum.
Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui. Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles
Esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes,
Suscepit Israel puerum suum recordatus misericordiæ suæ,
Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in sæcula.

Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto
Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum.
Amen
.

Boa audição!

http://youtu.be/r4zvjV4_sAY
 
 


Pedro Maria,
mais um cristão




[facebook, 7.12.2013]


No dia em que o meu neto Pedro Maria vai ser baptizado, com água do rio Jordão, Christ unser Herr zum Jordan kam, BWV 7, [Jesus Nosso Senhor veio ao Jordão] de Johann Sebastian Bach, é referência imediata.


Por isso, muito gostaria de partilhar convosco a audição desta peça, composta em Leipzig para o dia de São João Baptista, estreada em 24 de Junho de 1724, com base num cântico precisamente homónimo de Martinho Lutero.

Estruturada em sete partes, o texto das primeira e sétima é o original enquanto que, da segunda à sexta, temos palavras de um autor anónimo que não se refere ao Evangelho sobre o nascimento do baptista ou do baptismo de Cristo.

Trata-se de uma Cantata para ‘alto’, tenor e baixo, coro, dois oboés d’amore, dois violinos, viola e baixo contínuo, de acordo com o seguinte detalhe:

1. Coro: Christ unser Herr zum Jordan kam; 2. Aria (baixo): Merkt und hört, ihr Menschenkinder; 3. Recitativo (tenor): Dies hat Gott klar mit Worten; 4. Aria (tenor): Des Vaters Stimme ließ sich hören; 5. Recitativo (baixo): Als Jesus dort nach seinen Leiden; 6. Aria (alto): Menschen, glaubt doch dieser Gnade; 7. Coral:
Das Aug allein das Wasser sieht.


Interpretação a cargo do Coro do King's College Choir Cambridge - David Willcocks, solistas: Alto-Paul Esswood, Tenor -Kurt Equiluz, Baixo-Max van Egmond, Leonhardt-Consort, sob a direcção de Gustav Leonhardt.

[A pintura de ilustração da gravação, Baptismo de Cristo é de Jean- Baptiste Camille Corot.]

Boa audição!


http://youtu.be/XrKLoHDkKqM
 
 



Mozart,
Requiem


[facebook, 6.12.2013]
 
 
A primeira audição pública das partes do "Requiem" que Mozart compusera até deixar a obra incompleta, aos 8 compassos do Lacrymosa, terá acontecido precisamente há 222 anos, em 6 de Dezembro de 1791, numa cerimónia de exéquias na igreja de St. Michael em Viena. Outra datação, para a qual mais me inclino, remete o evento para quatro dias mais tarde.

A não ser esta pequena discrepância de datas, sabe-se todo o detalhe, incluindo a certeza de que os músicos tocaram graciosamente durante o serviço religioso. E, certamente, não poderão ter tocado além dos referidos compassos já que, embora tivesse deixado instruções preciosas para o completamento da obra, tal só aconteceria mais tarde, como sabem, depois de uma série de vicissitudes, pela mão de Franz-Xaver Süssmayr.

Gostaria de vos propor uma interpretação da obra que foi gravada na Catedral de Salzburg, no contexto de uma memorial em honra de Herbert von Karajan, com a Orquestra Filarmónica de Berlin, Coro da Rádio Sueca, Vozes de Karita Mattila, Sara Mingardo, Michael Schade e Bryn Terfel, sob a direcção de Abbado. [Inicia-se aos 11' e 40"]

Esta obra é precedida por mais duas obras, também de Mozart, "Grabmusik" KV. 42 e 'Laudate Dominum' das "Vesperae Solenes de Confessore" KV. 339, em interpretações absolutamente sublimes de Rachel Harnisch.

Como verificarão, a gravação também regista a natural comoção da viúva Eliette Mouret von Karajan.

Boa audição!

http://youtu.be/kAURk6sm_Jc
 
 


Parques de Sintra Monte da Lua,
surpresas constantes
 
[facebook, 06.12.2013]
 
Trabalho competente, profícuo e sempre a favor do enriquecimento de Sintra. O «grande problema» é que protagonismo tão saudável, inesgotável e exuberante, em vez de suscitar o maior apreço e orgulho, em Sintra, acaba por causar muitos engulhos...
 
 
Durante os trabalhos de recuperação das linhas de água do Parque da Pena descobrimos, soterrado, um lago em forma de trevo. Situa-se no final da linha de água da Feteira da Condessa e neste momento já está a descoberto e visível ao público. No entanto, ainda estamos a restaurá-lo para que possa voltar a ter água e ser mais um ponto de interesse no parque.
 
 
Mais informações:
 
 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013



Chaby Pinheiro


Para que houvesse homenagem, como tão justamente sugere Fernando Morais Gomes, suposto seria que determinadas entidades informadas, cultas, desejosas de partilhar o apreço pelo grande artista, se dispusessem para o efeito.

Estamos perante o caso de um grande actor mas podemos generalizar a outros casos. Infelizmente, o mais habitual é que tais entidades atribuam os nomes dos notáveis às ruas, às escolas e edifícios públicos que tais, esquecendo ser necessário alimentar a memória e formar as novas e sucessivas gerações.
 
 
Passam hoje 80 anos da morte do actor Chaby Pinheiro, no Algueirão, depois de se ter sentido mal no local onde durante anos funcionou o cinema com o seu nome. Alguma homenagem prevista? Huuuummm.... [Fernando Morais Gomes, facebook, 06.12.2013]
 
 
 


Em Salzburg,
Comemoração da Morte de Mozart
 
[facebook, 05.12.2013]

Mozart morreu pelas 23.45 na noite de 4 para 5 de Dezembro de 1791. Em Salzburg, a comemoração mais evidente acontecerá esta noite, na Kollegienkirche, em que a Orquestra 1756 interpretará o "Requiem", de acordo com os pormenores constantes do anúncio que passo a partilhar.
 
Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart verstarb in der Nacht vom 4. auf 5. Dezember 1791. Zum Gedenken daran wird in #Salzburg heute um 23:45 Uhr das Requiem zu Mozarts Todesstunde aufgeführt – heuer erstmals wieder in der Salzb...urger Kollegienkirche, die nach der Renovierung in neuem Glanz erstrahlt. Das Orchester 1756 spielt auf Originalinstrumenten und ergänzt den Chor cantus XVII aus Wien sowie Natalia Kawalek (Sopran), Iwona Sakowicz (Alt), Wilhelm Spuller (Tenor) und Einar Gudmundsson (Bass). Die Leitung hat Konstantin Hiller. Karten ab 29 Euro sind noch an der Abendkasse erhältlich – oder telefonisch unter +43 (0)0662-828695 Mehr Infos: http://www.salzburg.info/de/kunst_kultur/musik/tipps/orchester_1756

Tonight at 11:45 p.m., at the hour of Wolfgang Amadé Mozart´s death, the Mozart Requiem will be performed on original music instruments – for the first time again in the beautifully renovated Kollegienkirche Salzburg! For those who are as grateful to Mozart as we are: Tickets from 29 Euro are still available at the evening box office! More information:
www.skg.co.at.
 


 Photo: Wolfgang Amadé Mozart © Internationale Stiftung Mozarteum
 


Mozart,
a morte há 222 anos
 


Precisamente hoje, pelas 23.45, se lembra a morte do divino Amadé. Para comemoração da efeméride das efemérides, poderia propor-vos o sempre a propósito “Requiem”, cuja mitologia composicional tem romantizado
uma obra que bem merece uma atitude de maior «reserva» em todos os domínios.

Mas não. Eis que, precisamente hoje, a Fundação Gulbenkian propõe a audição das suas três últimas sinfonias num concerto, pelas 21.00, no Centro Cultural de Belém, em que o maestro titular, Paul McCreesh, dirigirá a orquestra da casa. Assim sendo, ao mesmo tempo que farei o enquadramento do concerto, comemoro o génio dos génios.

Tendo em consideração o excelente trabalho que a Orquestra Gulbenkian apresentou, igual e exclusivamente dedicado a Mozart – dois concertos para Violino KV. 218 e 219 e a Sinfonia Concertante KV. 364 - também sob a direcção de McCreesh, tenho bons motivos para prever que se tratará de uma excelente oportunidade para aceder a este fabuloso conjunto de peças de toda a História da Música.

Se me permitirem, regresso a textos que vos apresentei no fim do ano passado de 2012, na altura em que terminei o meu trabalho de divulgação de toda a obra sinfónica de Mozart. Trata-se de quatro textos, o primeiro dos quais, introdutório, “Mozart, o milagroso tríptico sinfónico” e mais três, relativos a cada uma destas três derradeiras obras-primas com as respectivas propostas de audição.

Ainda uma pequena nota para lembrar a última vez em que assisti a um concerto com o mesmo programa. Foi na Mozartwoche 2013, no dia 25 de Janeiro, com Sir Simon Rattle dirigindo a Orchestra of the Age of the Enlightenment. De acordo com o que, na altura, convosco partilhei a partir de Salzburg, foi uma noite perfeitamente luminosa no Grosses Festspielhaus.


Boa leitura e boa audição!

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Mozart,
o milagroso tríptico sinfónico


 O cúmulo canónico absoluto da sua obra sinfónica, KV. 543, 550 e 551 – obras que, inequivocamente, figuram entre as mais importantes e influentes compostas em todo o século dezoito – foram escritas num curtíssimo período de seis semanas ou pouco mais, durante o Varão de 1788, circunstância concludente a partir das entradas no catálogo pessoal de Mozart, respectivamente, datadas de 26 de Junho, 25 de Julho e 10 de Agosto.

Tradicionalmente, tem-se partido do princípio de que Mozart nunca tocou estas sinfonias. No entanto, tal não parece sustentável já que não só essa convicção é totalmente contrária à prática habitual do compositor, como também a rápida divulgação das obras, em especial das KV. 550 e 551, e o facto de ele ter revisto a KV. 550, juntando clarinetes à orquestração, sugerem que, de facto, foram apresentadas publicamente.

E não terão faltado oportunidades para o efeito. Lembremos a nota numa carta datada de Junho de 1788, por altura da composição da KV. 543, dando a entender que Mozart estava a planear uma série de concertos no futuro imediato, para além do facto de que concertos, em Leipzig em 1789, Frankfurt em 1790 e Viena em 1791, todos incluíam sinfonias.

Ainda que não deixe de ser tentador descartar a ideia romântica de que as derradeiras sinfonias representam uma súmula e o culminar da arte sinfónica de Mozart – é perfeitamente absurdo pensar que ele teria consciência de que estas seriam as suas últimas peças do género – no entanto, tipificam algumas características essenciais do seu estilo sinfónico que, sem dúvida, constituem o grande contributo para a sinfonia.

Naquele contexto, gostaria de salientar a perfeita noção da proporção e do equilíbrio estrutural, um vocabulário harmónico riquíssimo, o delinear da função através de material temático distintivo e característico e uma especial preocupação com as texturas orquestrais que, muito particularmente, manifestou na escrita extensa e idiomática para os instrumentos de sopro.

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Sinfonia No. 39

[também no facebook]

Sinfonia em Mi bemol Maior obedece a uma orquestração em que os oboés estão ausentes, circunstância que condiz com solução idêntica do anterior Concerto para Piano KV. 482. A tonalidade é uma das favoritas do compositor a qual tem sido interpretada como assumindo, a um tempo, a dupla perspectiva de suficiência e terna nostalgia, para além de ser a mais presente na música maçónica de Mozart.

Esta é uma daquelas sinfonias que remonta ao padrão mais habitual dos quatro andamentos com o restabelecimento da solução Menuetto/Trio na terceira secção. O ‘Allegro’ inicial é um ‘Adagio-allegro’, portanto, novamente precedido por uma lenta introdução, especialmente notável pelo seu tema cantante legato. O andamento lento é o ‘Andante com moto’, em Lá bemol, um movimento lírico perturbado por grandes e súbitas manifestações em tonalidades afins.

Quanto ao ‘Menuetto/Trio’, parece-me evidente afirmar uma «tendência» para soar a Schubert, com a evidente proeminência das partes de clarinete na secção do Trio. Termina com um ‘Allegro’ que não podia ser mais complexo e complicado, especialmente original e inoivador na escrita para a secção das trompas.

A interpretação que vos proponho – não só desta mas também das outras duas sinfonias do tríptico – é a do Maestro Harnoncourt com a Filarmónica de Viena. Por razões muito pessoais, fiquei particularmente ligado a estas leituras cuja pertinência tive oportunidade de confirmar por ocasião do ano jubilar mozartiano de 2006, em que Nikolaus Harnoncourt foi o convidado de honra do Mozarteum para as comemorações dos 250 anos do nascimento de Mozart.

Tive o raríssimo privilégio de assistir à gala matinal – abertura oficial muito restrita, no Mozarteum, apenas por convite, que é preciso não confundir com a gala da noite no Grosses Festspielhaus – em que Harnoncourt, num discurso absolutamente espantoso e memorável, explicou porque estas e, em especial, a KV. 550, era a sinfonia da sua vida. Já publiquei esse testemunho interessantíssimo pelo que basta procura-lo no arquivo.

Boa audição!
http://youtu.be/9CpA7tlVqN4
W. A. Mozart - Symphony No. 39 in E-flat major (Harnoncourt


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Mozart,
Sinfonia No. 40


Sem dúvida que foi com duas orquestras em perspectiva que Mozart compôs as duas versões da sua Sinfonia em Sol menor KV. 550, obra cheia de neurose, intelectual e tematicamente a mais erudita de todas as suas grandes sinfonias. Não há uma única nota a mais, ou seja, a contenção é máxima, absolutamente nenhuma concessão à facilidade ou ao ânimo leve.

Muito frequentemente, é nítida a sensação de um violento e notório desespero que nos remete para o Romantismo. A primeira versão da peça, além dos habituais naipes de cordas, foi escrita para 1 flauta, 2 oboés, 2 fagotes, 2 trompas, uma versão em que – façam o favor de reparar bem – são precisamente as trompas que contribuem para um tom particularmente agressivo da música.

Em relação à versão inicial, na revisão da orquestração a que procede em Abril de 1791, Mozart introduz clarinetes na textura e reformula as partes de oboé, conferindo à obra um cariz mais nostálgico. De qualquer modo, quer numa quer noutra, o que ressalta é a economia do material.

Esta é uma obra em que todos os cânones vigentes são postos em causa. É uma obra em que é enorme o salto para o futuro. Ela é um marco na História da Música em geral e na História da Sinfonia em particular. Com a KV. 550, o compositor perturba as consciências formatadas para uma ordem que ele vem abanar como um terramoto. Perante este quadro de tantas evidências que apenas pedem atenção na escuta, parece impossível como a obra continua a ser lida e ouvida com a ligeireza com que, não raro, ainda reparamos e contra a qual Harnoncourt se rebelou.*

A partir de então, nunca mais o género sinfónico terá qualquer espartilho. Nesta sinfonia, Mozart protagonizou um salto para a Liberdade, abrindo a porta aos grandes sinfonistas do futuro, em especial, a Beethoven que ainda conheceu e acerca de quem tinha a melhor das impressões. Ouvir a KV. 550 continua a constituir um desafio à inteligência, um convite ao enriquecimento do espírito. E, se quiserem, no contexto da tríade em que figura como segundo momento – depois da Sinfonia No. 39 e a caminho da ‘Júpiter’ – representa um território sombrio, um momento em que tudo é posto em causa, até à resolução que a Sinfonia No. 41 vem anunciar.

Vou deixá-los, tal como já tinha anunciado no artigo precedente, com a leitura de Harnoncourt à frente da Filarmónica de Viena. É, de facto, uma abordagem impecável. Assim saibam entender-lhe a diferença relativamente a outras propostas.

Boa audição!

*Depois da publicação do próximo texto, com o qual terminarei este trabalho de divulgação das quarenta (quem esteve atento, sabe que não são quarenta e uma…) sinfonias de Mozart, acrescentarei umas nota sobre o que o Maestro afirmou acerca da KV. 550, considerando-a a sinfonia que mudou a sua vida.

 http://youtu.be/AP3lJy9rVOc

  Mozart Symphony No 40 G minor N Harnoncourt Wiener Philarmoniker


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Mozart,
Sinfonia No. 41
Desde o seu primeiro andamento, esta sinfonia é a continuação da precedente e, tal como já dei a entender, «resolve» as preocupações que a outra tinha expressado. O pathos e a ansiedade são agora ultrapassados. Trata-se de uma sinfonia de equilíbrio e ordem, de uma autêntica arquitectura que Mozart cria baseado nas suas convicções e em si próprio, uma obra cuja grandeza apenas reflecte um ideal, uma sinfonia «de realização», não de especulação.

O tranquilo diálogo do segundo andamento, um ‘Andante cantabile’ é deliberadamente diferente do segundo andamento da Sinfonia No. 40. Nenhuma ansiedade nem sombra de qualquer espécie. Sem pausas mas sem tensão, a partitura empurra o ouvinte em direcção à plena luz, como Tamino fará em relação à luz da sua iniciação.

Insisto na necessidade de sempre ter presente que Mozart compõe as três sinfonias num curtíssimo período, em pleno Verão de 1788, um tempo durante o qual mal sai de casa que importa relacionar com o texto da carta ao seu Irmão Maçon Puchberg . Neste contexto, para tentar entender a unidade de pensamento da trilogia, preciso é que relacionemos o último movimento desta ‘Jupiter’ com o primeiro andamento da Sinfonia No. 39 já que, assim procedendo conseguimos imaginar como, na sua oposição, mutuamente se complementam.

Para rematar a obra, Mozart regressa ao símbolo da dualidade e da oposição. Começando no caos inicial dos ritmos quebrados, na violência dos batimentos – numa palavra, em tudo o que o princípio deste tríptico tem a ver com escuridão, ansiedade e desordem – Mozart vai guiar-nos para a luz, força e beleza.

Em conclusão, não é difícil que, neste compósito e complexo dispositivo sinfónico, possamos ler um percurso maçónico em que, entre outros, tivemos um vislumbre da claridade da esperança através da transparência do primeiro tema da Sinfonia No. 39, seguindo-se a escuridão da No. 40, num combate sem tréguas, escorregando pelo desânimo, até à estonteante luz da última sinfonia.

Finalmente!

Cheguei ao fim do trabalho que me propus. É o fim de uma caminhada fascinante. Em determinados momentos, a circunstância de sermos tão gratificados por verdadeiras epifanias musicais, quase fazemos um esforço para não esquecer a evidência de todo um percurso composicional que só pode ser plenamente entendido se, constantemente, o formos relacionando com as obras, de todos os géneros que, entretanto, Mozart ia compondo.

Humilíssimo, curvo-me perante o génio. Ousei ler algumas entrelinhas do divino Mozart. Lá do Oriente Eterno onde repousa, perdoará ele o atrevimento, mesmo tendo em conta o propósito da divulgação que me pareceu pertinente nestas ligeiras páginas do facebook?

Enfim, eis a última gravação proposta que, como já estava anunciado, continua com a Filarmónica de Viena sob a condução de Nikolaus Harnoncourt.

Boa audição!


Mozart Symphony No 41 C major 'Jupiter' N Harnoncourt Wiener Philarmoniker


W. A. Mozart - Symphony No. 39 in E-flat major (Harnoncourt)

W. A. Mozart - Symphony No. 39 in E-flat major, K. 543 (1788): 1. Adagio, cut time -- Allegro 2. Andante con moto 3. Menuetto: Trio 4. Allegro The Chamber Or...