[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014





Controverso?
Quem?




[facebook, 07.01.2014]


 Se Mário Soares apenas disse o que acabei de ler no DN, não vejo como se gerou tamanha controvérsia. Fico espantado com as reacções que fui tendo conhecimento e não considero que, de algum modo, Mário Soares tivesse o
fendido a memória de Eusébio e, muito menos, que tivesse ofendido qualquer português que, como eu, tem Eusébio como paradigma do génio no seu 'métier'.

Mas alguma vez Eusébio, ou alguém por ele, reivindicou ser aquilo que se designa como «homem de cultura», no sentido de pertença ou de afinidade com o universo das Artes e das Letras, já que era nesse contexto que Mário Soares se referia? Não era Eusébio um grande futebolista? Não era um homem simples, bom e humilde? Mas não foi isto o que disse Mário Soares? Estamos todos a ler mal e a interpretar pior?

Deixem-me ainda rematar, dando-vos conta do meu espanto total perante a avaliação que, ontem mesmo, ouvi ao Eduardo Barroso - como sabem, sobrinho de Mário Soares - num programa de televisão que, por acaso, apanhei «de soslaio», já que não sou 'habitué' - alinhando na pejorativa avaliação das palavras do tio... Afinal quem é que anda a tresler? Quem é que está senil?










Mozartwoche com Gluck


[facebook, 06.01.2014]


Este ano a Mozartwoche abre, em 23 deste mês, com uma récita de «Orfeo ed Euridice», a mais célebre ópera de Gluck. Repete no dia 31. Marc Minkowski, Director Artístico deste Festival Mozart de Inverno, dirige o seu agrupamento Les Musiciens du Louvre, Grenoble, encenação de Ivan Alexandre, com Bejun Mehta, Camilla Tilling e a «nossa» Ana Quintans (Amore), como solistas. Lá estarei.

Não esqueçam que, em 2014, celebraremos Gluck e Carl Ph. E. Bach ambos nascidos há precisamente trezentos anos, pelo que, naturalmente, a Mozartwoche de Salzburg lhes concede um grande destaque.

Aqui vos deixo com a célebre Ária de Amore, Gli sguardi trattieni interpretada por Edita Gruberova, com a Philharmonia Orchestra, sob a direcção de Riccardo Muti.

Boa audição!

http://youtu.be/l5ML3uJMd2A


Die Mozartwoche steht bevor und mit "Orfeo ed Euridice" eröffnen wir das Gluckjahr!






Eusébio,
no dia da sua morte




[facebook, 05.01.2014]




Curvo-me perante a memória do grande futebolista, certo de que não haverá português que não partilhe a comoção do momento.

Até o PR. Ao contrário do que aconteceu por ocasião da morte de José Saramago, figura máxima da Cultura Portuguesa
, Prémio Nobel da Literatura, desta vez, o Prof. Cavaco Silva não tinha motivo que o levasse a arranjar qualquer desculpa - ainda se lembram, de compromisso com os netos?... - para não estar presente na homenagem fúnebre ao desportista.






Efeméride mozartiana
Viena, aos 5 de Janeiro de 1791,
Concerto em Si Maior para Piano e Orquestra, KV 595


[facebook, 05.01.2014] 


O último dos vinte e sete concertos para este instrumento, no ano em que o compositor acabaria por falecer tão precocemente. Longe
de adivinhar que seria o seu último concerto para piano, o compositor apresenta uma proposta de serenidade, tão definitiva, que não há comentador que não ceda à tentação de o considerar na acepção de testamento pianístico.

Como proposta de partilha, Rudolf Serkin, numa gravação de 1962 com a Philadelphia Orchestra, sob a direcção de Eugene Ormandy.



Boa audição!



http://youtu.be/61S3yv_Fwg8







T. S. Elliot,
morte em 4 de Janeiro de 1965 (n. 1888)


[facebook, 04.01.2014]



Foi pelos meus dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade. Aluno de Teoria da Literatura a cargo de Joaquim Fernandes Tomás Monteiro Grilo (poeta Tomaz Kim), por ele fui iniciado em T. S. Elliot, nomeadamente, em The Four Quartets, indubitavelmente, uma das peças mais geniais alguma vez escrita, longa reflexão acerca do Tempo, estruturada à volta das quatro estações e dos quatro elementos.

Há poucos minutos, relendo Outras Canções de Luís Filipe Castro Mendes – diplomata, excelente poeta, que tive o gosto de conhecer pessoalmente num círculo de amigos e colegas, entre os quais a sua mulher, Margarida Lages, e o saudoso Eduardo Prado Coelho – voltei a deparar com um título Every Poem is an Epitaph *, extraído de Little Gidding, última parte, precisamente, da referida obra de Elliot.

Deixem que vos cite:

“(…) And every phrase
And sentence that is right (where every word is at home
Taking its place to support the others
The word neither diffident nor ostentatious
An easy commerce of the old and the new
The common word exact without vulgarity
The formal word precise but not pedantic
The complete consort dancing together)
Every phrase and every sentence is an end and a beginning
Every poem an epitaph. And any action
Is a step to the block, to the fire, down the sea's throat
Or to an illegible stone: and that is where we start
We die with the dying:
See, they depart, and we go with them
We are born with the dead:
See, they return, and bring us with them
The moment of the rose and the moment of the yew-tree
Are of equal duration. A people without history
Is not redeemed from time, for history is a pattern
Of timeless moments (…)”

T. S. Elliot & Beethoven

Em 1931, depois de escutar uma gravação do Quarteto para Cordas em Lá menor, op. 132 de Beethoven, Elliot escreveu uma carta a um amigo, o poeta Stephen Spender, em que considerava esta peça do compositor “quite inexhaustible to study.” É o único dos últimos quartetos de Beethoven que tem a estrutura de cinco andamentos do poema. Elliot continuava: “There is a sort of heavenly, or at least more than human, gaiety about some of his later things which one imagines might come to oneself as the fruits of reconciliation and relief after immense suffering; I should like to get something of that into verse before I die.”

Quem duvida de que tenha conseguido? Naturalmente, vou rematar com o op. 132 de Beethoven que, para vosso gáudio, vos apresento numa interpreatação fabulosa do Végh Quartet, com Sándor Végh, primeiro violino, Sándor Zöldy, segundo violino, Georges Janzer, viola e Paul Szabo, violoncelo. Coloco esta leitura perfeitamente ao nível da do Quarteto Borodin.

Eis a estrutura da obra, com indicação dos tempos na mudança de andamento:

I.  Assai sostenuto — Allegro
II. Allegro ma non tanto (08:53)
III. "Heiliger Dankgesang eines Genesenen (17:45)
an die Gottheit, in der lydischen Tonart"
(A Convalescent's Holy Song of
Thanksgiving to the Divinity, in the Lydian Mode).
Molto adagio — Neue Kraft fühlend. Andante —
Molto adagio — Andante--Molto adagio.
Mit innigster Empfindung
IV. Alla Marcia, assai vivace (attacca) (32:14)
V. Allegro appassionato - Presto (34:32)

Boa audição!
http://youtu.be/NjXi4mwCGhc







 Beethoven - String Quartet No.15 in A minor, Op.132 - Végh Quartet - 1952

__________________________

* Luís Filipe Castro Mendes,

 Every Poem is an Epitaph:

Desfiz meu corpo nas vivas marés que os versos me traziam. Solidão mil vezes retomada, sombra e pó, palavras que nos doem mais de perto: tudo desfez meu corpo e neste mar um navegante encontra seu deserto.

(Outras Canções)






sexta-feira, 3 de janeiro de 2014



Sintra, dois de Janeiro,
primeiro dia de trabalho?
 



Hoje, primeiro dia de trabalho do ano de 2014, não consigo deixar de pensar nos trabalhadores de Sintra cujo último dia de trabalho ocorreu anteontem, 31 de Dezembro de 2013. Hoje, não podendo voltar aos seus postos, vão iniciar a via sacra das intermináveis filas, por um lado, do Centro de Emprego, por outro, da Segurança Social, além dos contactos com
os potenciais empregadores, envio de CVs, enfim, os costumes.

Entretanto, lamentavelmente «do outro lado da barricada», acolitados por uma comunicação social de muito mau estrato, os péssimos decisores políticos – que vamos ter de suportar enquanto não formos capazes de os substituir – toldados pela cega perspectiva neoliberal, acenam com a sacrossanta solução do empreendedorismo para colmatar os malefícios do desemprego.

Ora bem, mais não fazem do que apresentar uma tão requentada quanto perversa alternativa à sua incapacidade de gerar condições para que os sectores público e privado cumpram o desígnio que lhes compete, ou seja, o de oferecer postos de trabalho correspondentes e proporcionais à procura, gerindo os recursos humanos envolvidos de tal modo que, saudavelmente, possa aumentar a riqueza nacional.

Ora bem, no restrito sentido da capacidade de avançar para a constituição da sua própria empresa, o designado empreendedorismo não é qualidade e, tão somente, característica de algumas personalidades, tal significando que, quem a não tiver, não está diminuído, não é um incapaz de fazer frente à vida.

Aos quarenta anos, ainda são jovens os tais sintrenses que hoje encaram o seu primeiro dia de desemprego. Naturalmente, têm sobejas razões para temerem o que os espera nos tempos mais próximos. Com tal idade e, eventualmente, por não serem «empreendedores», arriscam não encontrar novo posto de trabalho porque, com «tão avançada idade», já são considerados facilmente descartáveis.

O que podemos fazer? Pelo menos, ao assumir as nossas sérias responsabilidades geracionais, por não termos sabido preparar um caminho que tivesse evitado a situação em que permanecemos, oxalá saibamos estar à altura do apoio que é necessário disponibilizar.

Propor apoio é, inquestionavelmente, o que importa manifestar, formal e informalmente, apoio aos níveis individual, familiar e da comunidade civicamente organizada, para que tais desempregados sintam que os fundamentais princípios e valores da nossa cultura ainda são o seu e nosso maior recurso civilizacional. Ora bem, isto não é coisa de somenos.
 
 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014



Meditando


Aí mesmo à nossa frente, sobre a esquerda média*, o grande «empreendedor» Miguel Pais do Amaral ergueu uma mansão que, aproveitando as fraquezas do «sistema», é prova acabada e cabal da nossa incapacidade cívica de intervenção contra os desmandos de quem, apenas pensando nos seus interesses pessoais, consegue passar por cima dos da colectividade.

Enfim, com o parecer favorável de entidades que era suposto pronunciarem-se, lá se construiu o monstro. Há tanto tempo quanto lá vai o ano de 2008, denunciei o caso em primeira mão, Luís Filipe Sebastião levou o assunto às páginas centrais do jornal 'Público', o assunto seguiu para o Tribunal Administrativo de Sintra...

A poucos metros do Palácio de Seteais, a uma cota mais elevada que a do próprio monumento, arrasou a legibilidade da página de Os Maias em que Eça descreve o cenário que se apresenta a quem, descendo a rampa do belvedere, um pouco antes de passar sob o arco de triunfo, se lhe depara o espectáculo inolvidável.

Sintra perdeu, todos perdemos um património que, em princípio, deveria ter sido respeitado. Mas o grande empreendedor Pais do Amaral ganhou. Levou a sua avante. Uma lição para os sintrenses? Não, de modo algum o creio.

Aliás, a provar que o crime compensa mesmo e, igualmente perante a nossa incapacidade de organização cívica consequente - sem que as denúncias no Jornal de Sintra no meu blogue sintradoavesso, cartas ao IPPAR, idas a reuniões públicas da CMS e Assembleia Municipal tivessem obtido qualquer resultado - o concessionário do hotel, outro «grande empreendedor», do grupo Espírito Santo, consumou a destruição do tanque, travestindo-o em prosaica casa de máquinas, como podem constatar sempre que passarem pelo local que era canto de lazer, profundamente radicado no espírito do lugar.

Para que se não perca a memória ou, se preferirem, para memória futura. E, aproveitando a sugestão de meditação, detenhamo-nos na escuta de Im Treibhaus, uma peça excelente, terceira canção do ciclo Wesendonck Lieder de Richard Wagner, aqui numa gravação datada de 1962, interpretada por Christa Ludwig sob a direcção de Otto Klemperer.

Boa audição!

*At. Não me refiro à pequena construção que se vê na foto.
http://youtu.be/FwZlPGQZ6Fc
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014



 
Valsas do outro Strauss


Com os desejos de um feliz Novo Ano, aqui têm, de Der Rosenkavalier, ópera de Richard Strauss, duas sequências [Seq. I] e [Seq.II] das suas valsas que o próprio compositor arranjou em 1944.

Estas, como sabem,
não são valsas cujo espírito coincida com o de Johan ou de Joseph (Strauss outros...) já que estão eivadas da agridoce nostalgia que marca a renúncia da Marschällin ao seu amante Oktavian...

Enfim, valsas que, de algum modo, mais se adequam a este tempo que nos cabe, em que a própria dança pede um travo algo amargo ao compasso de três por quatro...

Boa audição!


http://youtu.be/PxoP-lP8m7I   [Seq. I]
http://youtu.be/ujfQFAokpY8 [Seq.II]
 


31 de Dezembro de 2013 /
1 de Janeiro de 2014
 
[facebook, 31.12.2013]
 
 
Amigos,

Oxalá, no Novo Ano, tudo possa ser melhor do que estarão desejando. Muita saúde, a alegria possível e coragem para enfrentar dias que se adivinham difíceis.


Sem grande originalidade, deixo-vos com um momento de boa disposição, o famoso 'Brindisi', de "La Traviata" durante o qual todos se congratulam, bebem e mutuamente se saudam, momento que também tem a ver com o Ano Verdi que está a terminar.

Brindemos!


http://youtu.be/3dKSJ2aH1BQ



András Schiff,
Medalha de Ouro da
Royal Philharmonic Society
 
 
[facebook, 31.12.2013]
 

É verdade, um grande pianista e maestro. Um dos grandes mozartianos, dos poucos galardoados com uma outra medalha de ouro, igualmente do maior prestígio, atribuída pela Fundação do Mozarteum. Todos os anos, tenho o privilégio de beneficiar do seu saber, da sua simpatia, pelo que, também em 2014, durante a Mozartwoche, lá estarei em Salzburg, com ele e com sua mulher, a partir de dia 22 de Janeiro.

Com a «sua» orquestra Cappella Andrea Barca - [formação cuja designação é inspirada no próprio nome do artista, Andrea (de András) e Barca (Schiff, 'barco')], formada por excelentes músicos provenientes de outras orquestras, permanentemente convidados da Mozarteum - interpretará, num primeiro evento, em 24.01, os Concertos para Piano KV. 449, 450 e 451; numa segunda oportunidade, em 25.01, o Quinteto em Mi Maior KV. 452, o Concerto para piano KV. 453, a Sonata para Piano em Si Maior KV. 454, 10 Variações em Sol Maior KV. 455 e o Concerto para piano KV. 456; finalmente, em 26.01, a Sonata para Piano em Dó menor, KV. 457, o Quarteto em Si Maior KV. 458 e o Concerto para Piano KV. 459.

Como se poderá verificar, dentro do grande festival Mozart que é a Mozartwoche, só a participação de András Schiff e da Cappella Andrea Barca, constituem um pequeno festival... É por estas e por outras que, em nenhuma outra latitude, é possível concentrar 31 eventos, do mais alto gabarito, com música de Mozart ou de outros compositores mas sempre com uma relação ao universo mozartiano.

Nesta próxima edição, por exemplo, uma grande presença será a da música de Arvo Pärt, com o próprio compositor in loco, e também Carl Philipp Emanuel Bach, Gluck, Beethoven, Schubert, Richard Strauss, Johannes Brahms e Muzio Clementi.

Eis uma gravação do Concerto para Piano e Orquestra em Sol Maior, KV. 453, datada de 1984, com a Camerata Salzburg sob a direcção do saudoso Sandor Végh.

Boa audição!


http://youtu.be/qCGmpFbWAUU