sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Ontem no CCB,
«anteontem» na Salle Pleyel
Ontem à noite, no Centro Cultural de Belém, apresentou-se a Orquestra Gulbenkian, sob a direcção de Josep Pons, para um programa preenchido com obras de Maurice Ravel e Manuel de Falla. Em geral, considero que o concerto teve boa qualidade de execução quer por parte da orquestra quer do solista Javier Perianes. Já no que se refere à interpretação, parece-me que o maestro afectou todas as peças de uma leitura com exagerado ‘fuoco’.
Dentre as que tivemos oportunidade de escutar, e do último compositor mencionado, “Noches en los jardines de España”, terá sido a obra em que mais se notou esse investimento numa evitável exuberância que, em minha opinião, está algo distante de um propósito de contenção que, também me parece, terá sido objectivo do compositor na escrita desta peça tão sofisticada.
Aquilo que se segue só atingirá o efeito pretendido em relação àqueles que ontem se deslocaram ao CCB. Porque se trata de uma alternativa ao que ouvimos. É curiosa a extraordinária coincidência de me servir de uma gravação – atenção, ao vivo, como prefiro quando me meto nestes exercícios de comparação – colhida na Salle Pleyel, em 7 de Fevereiro de 1986, faz hoje precisamente 28 anos.
Estaremos muito mais perto do que Falla pretenderia? Creio bem que sim. Como executantes (e intérpretes...), ao piano, temos Martha Argerich e, ainda em tempos muito propícios como maestro, o seu amigo e cúmplice Daniel Barenboim, dirigindo a Orchestre de Paris de que foi titular durante 15 anos, entre 1975 e 1989.
Boa audição!
http://youtu.be/CYCiyNbDmRM
Sintra,
questão de civismo
questão de civismo
[facebook, 06.02.2014]
Entre outras questões, esta oportuníssima chamada de atenção de João De Mello Alvim, aflora um problema que muito tem de nos preocupar, qual seja o do fatídico exercício da designada «tolerância» por parte da autoridade policial em relação ao caótico estacionamento, não só nesta mas noutras ruas e zonas de Sintra, que se traduz em práticas de falta de civismo que bradam aos céus.
Percebe-se mal, mesmo muito mal, que seja a própria autoridade cívica, a quem os cidadãos confiam a quota parte pessoal do exercício da autoridade, que, mediante tão criticável atitude, acabe por promover os mais indesejáveis comportamentos dos cidadãos.
Sintomático que as cenas em questão se passem à porta e na proximidade de uma escola, sem que autoridade alguma, policial ou outra, dê qualquer sinal de mínima preocupação com tal estado de coisas. Felizmente, perante o escândalo e o despautério, a pena do João, do também Professor que é o homem de Teatro João de Mello Alvim, cá está na denúncia que urge protagonizar.
Questões de Educação, de Cultura, de Civismo como as que se conjugam nas entrelinhas do escrito destes "Três parágrafos" constituem um desafio perante o qual estamos ou não à altura de resolver. Tão «simples» como isto...
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Muzio Clementi,
um «génio» de mecânico?...
Então, regressado agora de uma estada de quinze dias em Salzburg, para assistir e participar na Mozartwoche, promovida pela Fundação Internacional do Mozarteum, festival que, nesta 58ª edição, concedeu especial espaço a Muzio Clementi, talvez se tenha proporcionado a oportunidade para vos propor a audição da Sinfonia No. 3, em Sol Maior WO034, cognomina...da ‘Great National’, aquela que será a mais popular obra sinfónica daquele compositor.
Tendo sido expressamente composta para a última série de concertos da Temporada da Primavera de Londres, realizada no King’s Theatre, em 1824, a sua estreia, em 19 de Março, foi um sucesso de tal modo estrondoso que, mediante muitos e insistentes pedidos, foi repetida em 25 do mesmo mês e em 2 de Abril. Mais, segundo o ‘Quaterly Musical Magazine’, este tributo de Clementi à sua pátria de adopção pertenceria a um “(…) género de composições que, de facto, honram a época em que vivemos (…)”.
Hão-de notar que as ideias melódicas do ‘Allegro com brio’, apesar de evidenciarem um recorte clássico, são trabalhadas de acordo com uma retórica posterior. Seguidamente, no ‘Andante un poco mosso’, o conhecido tema de ‘God save the King’ aparece «a torto e a direito»: inicialmente camuflados, alguns fragmentos da melodia emergem gradualmente até à máxima notoriedade, momento em que, depois de uma secção relampejante em Dó menor, todo o tema se manifesta num fortíssimo triunfante.
Ora bem, a partir deste momento, no terceiro andamento, ‘Minuetto. Allegretto – Trio’, há que lembrar semelhanças com a Sinfonia No. 39, em Mi bemol Maior, KV. 543, de Mozart, em especial, reparem, no solo do primeiro clarinete sobre os arpeggios lancinantes do segundo clarinete.
No último andamento, ’Finale.Vivace’ não deixem de ter em consideração a Sinfonia No. 88 de Haydn, já que é o espírito do seu borbulhante final que anda por ali, naquelas pausas desafiadoras e nos golpes de fugato. E, qual cereja no cimo do bolo, mais uma vez, o God save the King que reaparece no centro do andamento, coroando toda a sinfonia num brilhante lampejo em Sol Maior.
O grande problema de Clementi - tal como afirmava Wolfgang Mozart em carta ao pai Leopold, datada de Viena aos 16 de Janeiro de 1782, após um duelo musical que mantivera com o músico italiano promovido pelo próprio Imperador José II residiria no facto de o músico italiano não passar de um «mecânico»?* Mozart, que lá saberia, tinha o gabarito máximo do divino génio para poder dizê-lo com todas as letras… A propósito, um dia destes, se puder, traduzirei tal carta que, além deste, tem mais alguns motivos de grande interesse.
Agora, a Sinfonia em questão. Para poderem acompanhar convenientemente, eis uma distribuição dos tempos de cada andamento: I: Andante sostenuto - Allegro con brio 00:00; II: Andante un poco mosso 11:12; III: Minuetto: Allegretto - Trio 19:44; IV: Finale: Vivace 24:23.
Interpretação a cargo da The Philharmonia, sob a direcção de Francesco d’ Avalos.
Boa audição!
*[Hei-de escrever-vos sobre os belíssimos pianos que este mesmo Clementi produziu. Um deles, que faz parte do acervo do Palácio de Queluz, foi recentemente recuperado, está em formidáveis condições. Ali, no próximo dia 12 de Março, no âmbito da Temporada Tempestade e Galanterie, tão sofisticado instrumento será tocado por Kristiam Bezuidenhout, o grande pianista cujos recitais na Mozartwoche deixaram a todos quantos tivemos o privilégio de o ouvir a mais favorável das impressões.]
Leilão da Christie’s,
devastadora consequência…
Fico perplexo. O bicho é a coisa mais tranquila deste mundo,
um querido. Bem, como logo vim a perceber, a boa da Ana sabia perfeitamente a
causa do fenómeno. Apenas pretendera fazer um pouco de suspense. Às tantas,
como se nada fosse com ela nem houvesse qualquer relação com a conversa,
perguntou se sabia o que se estava a passar acerca do leilão da Christie’s.
Não sabia eu outra coisa. Então, ontem, ainda em Salzburg, se
os amigos não me largavam, querendo perceber o que pensava eu da atitude do
governo português de leiloar tão importante acervo de quadros do Miró…
Quando disse o nome do pintor catalão, ela sorriu. Desvendava-se
o mistério. É que o nosso gato se chama Miró. Ora bem, nestes dois dias, à hora
dos noticiários, o gato não sabe para onde voltar-se, tantas vezes o nome é dito
e repetido. De minuto a minuto, Miró para aqui, Miró para ali. Imagina-se,
coitado, como se sentirá no meio de tal desassossego.
Até agora, sempre calmíssimo, já nos seus onze anos, o nosso
gatarrão, vulgar ‘tabby’, tigrado, muito bonito, entrou num desgraçado stress. Na
realidade, só me faltava mais esta. Esta, sim, devastadora consequência da péssima decisão de
Passos Coelho, dele, sim senhor, que além de Primeiro Ministro, não sei se já
repararam, também é o governante de quem, directamente, depende aquele senhor
da pasta da Cultura, que, ocupando umas salas do Palácio da Ajuda, até parece
nada ter a ver com ele…
Uma coisa vos garanto, se tiver de ir para um veterinário
especialista para sossegar o Miró, já sei a quem apresentar a conta!...
[Salzburg, 04.02.2014]
Com o concerto da noite de domingo, a cargo da Orquestra do Mozarteum de Salzburgo e de Christiane Karg, soprano, sob a direcção do maestro titular Ivor Bolton, na Grosse Saal do Mozarteum, terminou a 58ª edição da Mozartwoche. Em programa, duas Sinfonias de Muzio Clementi, números dois e quatro, e árias das óperas “Il Parnaso confuso” e “Telemaco ossia L’isola di Circe”, de Gluck e “Lucio Silla” e “Il Re pastore”, de Mozart.
De algum modo, tratou-se de uma «segunda parte» do evento concretizado no passado dia 28 de Janeiro, durante o qual, se bem se lembram, a estrutura era perfeitamente idêntica. A cantora voltou a propiciar excelentes momentos de canto, tendo tido oportunidade para bem vincar as diferenças e características de peças do barroco tardio e outras já do clássico, em especial, no que concerne à demonstração da capacidade de abordagem da coloratura que, como sabem, observa forma subtilmente diferente em cada uma daquelas épocas.
A minha opinião acerca das sinfonias de Clementi coincide com o que, acerca da sua vertente sinfonista, têm afirmado conhecidos musicólogos e estudiosos. Claro que, não sendo um compositor cuja obra sinfónica, por razões diversas de forma e conteúdo, os interessados procurem ouvir frequentemente, fez muito bem a Fundação do Mozarteum incluí-lo na programação na medida em que, contemporâneo que foi de Mozart, importante se torna dá-lo a ouvir no contexto de um festival em que se procura dar cobertura a todas as articulações possíveis.
A Orquestra do Mozarteum, tanto nesta como na anterior oportunidade de 28 de Janeiro, teve um empenho absolutamente de destacar como depositária do ‘Klang’ da mozartiana Salzburg. Honrou os seus créditos, com um impecável trabalho de preparação bem evidente em todos os naipes, à prova através de obras com algumas particularidades acústicas, em especial ao nível dos metais, solicitados a vibrantes prestações que facilmente podem incorrer num ou noutro descontrolo que, sublinho, de modo algum, se verificou.
Mais uma vez, tivemos em palco uma Christiane Karg, de modo inequívoco, dominando notáveis técnica e capacidade expressiva, soprano da nova geração que tem sido devidamente apreciada em auditórios tão exigentes como os da Ópera de Frankfurt, do festival de ópera de Glyndbourne, Wigmore Hall de Londres, Musikverein e Konzerthaus de Viena, encantando e convencendo.
Não tendo este sido um concerto excepcional, confirmou uma regra, ou seja, a da excelência da Mozartwoche, como paradigma do festival. Coerência programática, definida por coordenadas do tempo, no caso de 2014, comemorando os tricentenários dos nascimentos de Christoph Willibald Gluck e de Carl Philipp Emmanuel Bach, contemporâneos de Mozart, e centésimo quinquagésimo aniversário de Richard Strauss, uma celebração de Arvo Pärt e uma série de outros atractivos de que fui dando conta.
É um festival em que tudo se ganha por poder estar do princípio ao fim. Só assim, por exemplo, foi possível assistir à apresentação total das Sonatas para Piano de Mozart, em instrumento moderno e pianoforte, bem como à da tetralogia sinfónica de Clementi, enquadradas por óptimas palestras, conferências, mesas redondas, visionamento de filmes, etc. Mozartwoche, portanto, um lugar de permanente formação.
Nota: regressando hoje a Sintra, terei oportunidade de voltar a pedir a vossa atenção para mais alguns detalhes destes meus dias de Salzburg que, como todos os anos acontece, se transformam em fonte inesgotável de temas para partilha.
[Salzburg, 03.02.2014]
Ainda hoje lá passei várias vezes. Mas, agora, quando a noite até já estava «fresca», nos seus três negativos, deu-me uma séria pancada e, em vez de ficar por casa a ler e a escrever – como vos disse, ainda tenho o diário por actualizar, embora quase em dia – fui por aí fora, Linzer Gasse abaixo até à Staatsbrücke que atravessei, para me dirigir à Universitätsplatz.
De vez em quando é isto. Um qualquer magnetismo que, à noite, me atrai àquele sítio. Há ali uma sábia iluminação nocturna, que não percebo como terá sido resolvida para surtir o efeito de que vos dou conta. Não, não pensem tratar-se de alguma e recente tecnologia porque, em mim, este fascínio tem décadas.
Não é coisa que toque toda a gente mas, dentre os meus amigos, há um que, condescendente, sorri dizendo que é mania minha, um casal que concorda sem a febre de exaltação que só eu evidencio e a Geneviève, a famosa Prof. Geneviève Geffray, que me dá toda a razão. Enfim, podia ter-me dado para pior. Mas, na tentativa de perceber, de desmontar o que há ali de particularmente atraente e atractivo, até tenho uma teoria.
Tal como em toda a Altstadt, ou seja, literalmente, a cidade antiga, também na Universitätsplatz, as fachadas das casas, pintadas com as cores tão caras ao barroco, nas várias gamas dos secos, vão desde os verdes, rosa, creme, azuis, aos cinzentos, atenuando estes numa tão vasta paleta que mais parece a escala do Theodor Dreyer.
À noite, este cromatismo muito denso, em resultado de as casas de quatro andares, se sucederem umas encostadas às outras, portanto, sem intervalo, dialoga com o estupendo volume, alto, espesso, elegante, branco, imenso e branco, da Kollegienkirche, pérola do barroco austríaco saída do traço de Johann Bernard Fischer von Erlach.
Pois bem, é o resultado desse jogo de difusas tonalidades que, à mistura com uma luz artificial, nada impositiva, quase fantasmagórica, suscitará o tal reboliço que, só de nele pensar, me faz saír de casa, mesmo com a maior intempérie. Talvez a minha amiga Arq. Châbeli de Castro-Camacho possa corroborar ou, pelo contrário, desfazer este complicado 'transe'...
Enfim, lá fui acalmar o desassossego em que já estava, dei mais uma breve volta, pela Residenz para voltar ao mesmo lugar, passando pelo pequeno túnel do livreiro Höllrigl, que, como saberão, é o mais antigo comércio de livros da Áustria, aberto desde 1594.
Logo tive de afastar do pensamento os casos que, inevitavelmente, ocorrem acerca de boas e antigas livrarias de Lisboa, que vão desaparecendo a ritmo preocupante, dando lugar a um qualquer ‘franchising’ de sandes, pizzas ou o diabo que leve tão insonsos negócios de comes e bebes…
Regressei a casa para tudo isto vos contar antes de me deitar, não sem que me esquecesse de ter de vos passar informação sobre o concerto de ontem à noite. Olhem, tivesse ele sido absolutamente excepcional e já o saberiam…
domingo, 2 de fevereiro de 2014
[Salzburg, 02.02.2014, (1)]
A propósito do ‘Bazar’
A propósito do ‘Bazar’
O ‘Bazar’ é o meu Café em Salzburg. Típico ambiente do tradicional Café austríaco, uma das melhores situações, à beira do rio Salzach, no coração da cidade, estou a três minutos de casa, bastando-me descer a Linzer Gasse, de St Sebastian até à Schwarzstrasse, a mesma avenida onde fica o Mozarteum, apenas uns metros mais à frente, e eis-me num dos cantos mais aconchegados da cidade. É de lá que agora venho e onde tenho ido durante estes dias.
Digo-vos quase tudo se lembrar que este era o poiso de Max Reinhardt, fundador, em 1920, do Festival de Salzburg, dono de Leoploldskron, o palácio que ainda se tornou mais famoso depois de ali terem sido rodadas cenas de ‘Sound of Music’; aqui, onde conspirava encenações com Hugo von Hoffmannstahl, ponto de encontro com Stefan Zweig, o Café em cuja esplanada Marlene Dietrich fez sensação uns anos antes de a guerra rebentar.
Como a tradição que está colada às paredes deste tipo de lugares é património intocável, é claro que, hoje em dia, no ‘Bazar’, encontremos muitos homens do Teatro, cantores de passagem por Salzburg, jornalistas, homens de Letras, músicos. É aqui que apetece, e é possível, passar horas esquecidas lendo gratuitamente a imprensa de todas as latitudes, escrevendo, pedindo agora um ‘machiato klein’, passada uma hora, uma fatia de um dos seus formidáveis bolos.
Quase ao lado, fica o ‘Sacher’, também Café, integrado no mais famoso dos hotéis austríacos. É em ambiente algo diferente do ‘Bazar’, mais formal mas nada intimidatório – aliás, só se intimida quem não está bem na sua pele ou, pura e simplesmente, não ‘sabe estar’ – onde amanhã, com a Prof. Geneviève Geffray, a minha grande amiga em Salzburg, cerca do meio dia, teremos um tête-à-tête para avaliação da Mozartwoche e abordagem de um projecto de tradução, antes de comprar a 'Sacher-Torte', em caixinha de madeira, para levar à família.
Salzburg, a sofisticada Salzburg, também é «isto», a cultura do e no Café, uma autêntica instituição por onde passa um dos mais requintados índices da qualidade de vida desta gente que se relaciona com as Artes e as Letras.
Bem, e já de seguida, tenho de me pôr a caminho do Mozarteum para o último concerto. Como tiveram oportunidade de verificar, estas duas semanas passaram num ápice. Felizmente, ainda estarei mais uns dias.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
[Salzburg, 01.02.2014 (3)]
Chego a casa depois do terceiro e último concerto da
Orquestra Filarmónica de Viena no âmbito da Mozartwoche 2014. O Grosses
Festspielhaus estava à cunha, mesmo a rebentar pelas costuras, portanto, cerca
de duas mil e trezentos espectadores no evento. Se a OFV é uma «marca» que atrai
melómanos de todas as latitudes – já que está cotada como uma das melhores do
mundo, várias vezes a melhor da Europa – então, com o absolutamente galáctico
Daniel Barenboim a dirigi-la, é um caso sério.
Já sabem que o programa era preenchido com as três últimas
sinfonias de Mozart, peças acerca das quais vos deixei informação geral de
divulgação que preparei quando realizei aquele trabalho durante o ano de 2012
sobre todas as sinfonias do compositor. Portanto, só falta mesmo fornecer-vos
algumas notas sobre a direção.
E faço apenas três reparos muito gerais, um acerca de cada
uma das obras. Em primeiro lugar, não percebi qual terá sido a intenção do
maestro em ter proposto uma leitura lentíssima para a primeira secção do
primeiro andamento ‘Adagio - Allegro’ da Sinfonia No. 39, em Mi Maior, KV. 543.
De tal ordem assim foi que aqueles famosos timbales omnipresentes soaram necessariamente
fúnebres. Parecendo que não, a entrada foi tão impositivamente fúnebre, repito,
que acabou por condicionar o estado de espírito para a recepção da obra.
Quanto à No. 40, em Sol menor, KV. 550, a mais estranha,
misteriosa, compósita, eclética das sinfonias de Amadé, tive a plena sensação
de que, pura e simplesmente, conhecendo à distância o perfil geral do público presente,
Barenboim decidiu não ir pelo caminho da máxima
exigência. Tal não significa que tivéssemos estado perante uma regência
incompetente. Nada disso. Longe disso.
Quanto à última da tríade, a No. 41, em Dó Maior KV. 551,
pareceu-me a que esteve mais de acordo com os cânones das leituras que,
principalmente Harnoncourt, introduziu e, de algum modo impôs. Aliás, é
exactamente por já ter assistido à interpretação destas sinfonias, em conjunto
ou isoladas, dirigidas por Nikolaus Harnoncourt, com esta mesma orquestra, que
me permito escrever a impressão precedente sobre a sinfonia em Sol menor.
É pena porque, com Barenboim, ficámos aquém do que a OFV
pode dar no impecável serviço a Mozart. Mas isso prepara-se nos ensaios. O
público, em geral, menos preparado, é que tem ideia de que o trabalho do
maestro é aquele que vê ali, no púlpito, em palco, de costas para si e de
frente para os músicos, com aqueles gestos cujo alcance também conhece mal… Mas
isso são contas de outro rosário.
Aplausos? Bem, frenéticos, imparáveis.
[Salzburg, 01.02.2014 (2)]
Acção de graças
Em muitos anos de Mozartwoche, portanto, sempre compreendendo um período entre a segunda quinzena de Janeiro e primeira semana de Fevereiro - como sabem, desta vez, por exemplo, estou desde 21 de Janeiro, permanecendo até 5 de Fevereiro - nunca, nunca tive um dia tão soalheiro e de temperatura tão agradável como o de hoje.
É verdade. Tenho andado de casaco aberto, sem luvas, sem gorro, totalmente despreocupado, como num bom dia de Primavera. De tal modo é invulgar que resolvi partilhar convosco esta sensação, até por contraste com o que a minha mulher me dizia do tempo chuvoso, frio, ventoso, que ontem fazia em Sintra.
Como já dei a entender, habitualmente, também aqui procuro a tal cultura de Inverno que, só por estas paragens do centro e Norte da Europa, encontro com aquela exuberância que me fascina, a muita neve já instalada, os nevões que caem, o frio seco e cortante, tantas vezes entre os dez e treze negativos, que me faz rebentar em lágrimas quando, cerca das seis e meia da manhã, saio para a minha caminhada dos tais seis quilómetros à hora...
Desta vez, só tive dois dias assim. Mas, tudo bem. Nada tenho perdido e, como os meus amigos locais andam contentíssimos, eu acompanho-os nos seus descarados sorrisos perante um Sol que chega a perturbar com tanta luz a bater. Até fiz algumas fotografias. Mas como não sei «passá-las» para o computador, não posso partilhar.
Mas posso fazer algo «em compensação» da ausência de fotos... Olhem, como o que me apetece é dar graças a Deus, pelo privilégio do dia, por estes dias que aqui tenho passado, pela Beleza que vou partilhando, pelo espanto da Arte que me vai tocando cada vez mais entranhadamente, o que me apetece e posso é propor-vos que escutem uma das últimas peças de Mozart, o 'Ave Verum Corpus', precisamente, de reconhecimento da graça de Deus em tudo!
No altar-mor da Catedral de Salzburg, cantam o Coro da Catedral de de Salzburg, o Seattle Girls' Choir, e o the New England Youth Ensemble, sob a direcção do nosso famoso Kappelmeister, Janos Czifra, ele que é uma verdadeira «instituição» de Salzburg.
Boa audição!
http://youtu.be/-fE6iUea2SI
[Salzburg, 01.02.2014 (1)]
Hoje é dia de termos novo e último concerto com a Orquestra Filarmónica de Viena. Desta vez será Daniel Barenboim quem dirigirá o extraordinário programa que compreende, nem mais nem menos, do que a interpretação das três últimas sinfonias de Mozart. A propósito, não deixarei de lembrar que, muito recentemente, tivemos idêntica proposta por parte da Orquestra Gulbenkian que, com o Maestro Paul McCreesh, tão boa prova evidenciou da sua capacidade para se abalançar a tão desafiante iniciativa.
Na Mozartwoche de 2013, também Sir Simon Rattle se apresentou com a Orchestra of the Age of Enlightenment para o mesmo programa. Lembrar-se-ão, aqueles que me costumam seguir nestas andanças, de que colhi a melhor das impressões, em especial da Sinfonia em Sol menor, KV. 550ª, a celebérrima no. 40.
Para hoje, se quiserem fazer uma preparação mínima das audições que, não podendo estar aqui comigo, também vos proporei, pois deixo-vos com textos que, se bem se lembram, escrevi e publiquei durante o ano de 2012 sobre o legado sinfónico completo de Wolfgang Mozart. Primeiramente, uma introdução à tríade, e, logo de seguida, uma «folha de sala» para cada sinfonia.
Boa leitura e boa audição!
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Mozart,
o milagroso tríptico sinfónico
O cúmulo canónico absoluto da sua obra sinfónica, KV. 543, 550 e 551 – obras que, inequivocamente, figuram entre as mais importantes e influentes compostas em todo o século dezoito – foram escritas num curtíssimo período de seis semanas ou pouco mais, durante o Varão de 1788, circunstância concludente a partir das entradas no catálogo pessoal de Mozart, respectivamente, datadas de 26 de Junho, 25 de Julho e 10 de Agosto.
Tradicionalmente, tem-se partido do princípio de que Mozart nunca tocou estas sinfonias. No entanto, tal não parece sustentável já que não só essa convicção é totalmente contrária à prática habitual do compositor, como também a rápida divulgação das obras, em especial das KV. 550 e 551, e o facto de ele ter revisto a KV. 550, juntando clarinetes à orquestração, sugerem que, de facto, foram apresentadas publicamente.
E não terão faltado oportunidades para o efeito. Lembremos a nota numa carta datada de Junho de 1788, por altura da composição da KV. 543, dando a entender que Mozart estava a planear uma série de concertos no futuro imediato, para além do facto de que concertos, em Leipzig em 1789, Frankfurt em 1790 e Viena em 1791, todos incluíam sinfonias.
Ainda que não deixe de ser tentador descartar a ideia romântica de que as derradeiras sinfonias representam uma súmula e o culminar da arte sinfónica de Mozart – é perfeitamente absurdo pensar que ele teria consciência de que estas seriam as suas últimas peças do género – no entanto, tipificam algumas características essenciais do seu estilo sinfónico que, sem dúvida, constituem o grande contributo para a sinfonia.
Naquele contexto, gostaria de salientar a perfeita noção da proporção e do equilíbrio estrutural, um vocabulário harmónico riquíssimo, o delinear da função através de material temático distintivo e característico e uma especial preocupação com as texturas orquestrais que, muito particularmente, manifestou na escrita extensa e idiomática para os instrumentos de sopro.
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Sinfonia No. 39
Sinfonia em Mi bemol Maior obedece a uma orquestração em que os oboés estão ausentes, circunstância que condiz com solução idêntica do anterior Concerto para Piano KV. 482. A tonalidade é uma das favoritas do compositor a qual tem sido interpretada como assumindo, a um tempo, a dupla perspectiva de suficiência e terna nostalgia, para além de ser a mais presente na música maçónica de Mozart.
Esta é uma daquelas sinfonias que remonta ao padrão mais habitual dos quatro andamentos com o restabelecimento da solução Menuetto/Trio na terceira secção. O ‘Allegro’ inicial é um ‘Adagio-allegro’, portanto, novamente precedido por uma lenta introdução, especialmente notável pelo seu tema cantante legato. O andamento lento é o ‘Andante com moto’, em Lá bemol, um movimento lírico perturbado por grandes e súbitas manifestações em tonalidades afins.
Quanto ao ‘Menuetto/Trio’, parece-me evidente afirmar uma «tendência» para soar a Schubert, com a evidente proeminência das partes de clarinete na secção do Trio. Termina com um ‘Allegro’ que não podia ser mais complexo e complicado, especialmente original e inoivador na escrita para a secção das trompas.
A interpretação que vos proponho – não só desta mas também da No. 40 é a do Maestro Harnoncourt com a Filarmónica de Viena. A última também sob direcção de Harnoncourt é com a Orquestra de Câmara da Europa. Por razões muito pessoais, fiquei particularmente ligado a estas leituras cuja pertinência tive oportunidade de confirmar por ocasião do ano jubilar mozartiano de 2006, em que Nikolaus Harnoncourt foi o convidado de honra do Mozarteum para as comemorações dos 250 anos do nascimento de Mozart.*
Tive o raríssimo privilégio de assistir à gala matinal – abertura oficial muito restrita, no Mozarteum, apenas por convite, que é preciso não confundir com a gala da noite no Grosses Festspielhaus – em que Harnoncourt, num discurso absolutamente espantoso e memorável, explicou porque estas e, em especial, a KV. 550, era a sinfonia da sua vida. Já publiquei esse testemunho interessantíssimo pelo que basta procura-lo no arquivo.
Boa audição!
http://youtu.be/9CpA7tlVqN4
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Sinfonia No. 40
Sem dúvida que foi com duas orquestras em perspectiva que Mozart compôs as duas versões da sua Sinfonia em Sol menor KV. 550, obra cheia de neurose, intelectual e tematicamente a mais erudita de todas as suas grandes sinfonias. Não há uma única nota a mais, ou seja, a contenção é máxima, absolutamente nenhuma concessão à facilidade ou ao ânimo leve.
Muito frequentemente, é nítida a sensação de um violento e notório desespero que nos remete para o Romantismo. A primeira versão da peça, além dos habituais naipes de cordas, foi escrita para 1 flauta, 2 oboés, 2 fagotes, 2 trompas, uma versão em que – façam o favor de reparar bem – são precisamente as trompas que contribuem para um tom particularmente agressivo da música.
Em relação à versão inicial, na revisão da orquestração a que procede em Abril de 1791, Mozart introduz clarinetes na textura e reformula as partes de oboé, conferindo à obra um cariz mais nostálgico. De qualquer modo, quer numa quer noutra, o que ressalta é a economia do material.
Esta é uma obra em que todos os cânones vigentes são postos em causa. É uma obra em que é enorme o salto para o futuro. Ela é um marco na História da Música em geral e na História da Sinfonia em particular. Com a KV. 550, o compositor perturba as consciências formatadas para uma ordem que ele vem abanar como um terramoto. Perante este quadro de tantas evidências que apenas pedem atenção na escuta, parece impossível como a obra continua a ser lida e ouvida com a ligeireza com que, não raro, ainda reparamos e contra a qual Harnoncourt se rebelou.*
A partir de então, nunca mais o género sinfónico terá qualquer espartilho. Nesta sinfonia, Mozart protagonizou um salto para a Liberdade, abrindo a porta aos grandes sinfonistas do futuro, em especial, a Beethoven que ainda conheceu e acerca de quem tinha a melhor das impressões. Ouvir a KV. 550 continua a constituir um desafio à inteligência, um convite ao enriquecimento do espírito. E, se quiserem, no contexto da tríade em que figura como segundo momento – depois da Sinfonia No. 39 e a caminho da ‘Júpiter’ – representa um território sombrio, um momento em que tudo é posto em causa, até à resolução que a Sinfonia No. 41 vem anunciar.
Vou deixá-los, tal como já tinha anunciado no artigo precedente, com a leitura de Harnoncourt à frente da Filarmónica de Viena. É, de facto, uma abordagem impecável. Assim saibam entender-lhe a diferença relativamente a outras propostas.
Boa audição!
*Depois da publicação do próximo texto, com o qual terminarei este trabalho de divulgação das quarenta (quem esteve atento, sabe que não são quarenta e uma…) sinfonias de Mozart, acrescentarei umas nota sobre o que o Maestro afirmou acerca da KV. 550, considerando-a a sinfonia que mudou a sua vida.
http://youtu.be/AP3lJy9rVOc
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Sinfonia No. 41
Desde o seu primeiro andamento, esta sinfonia é a continuação da precedente e, tal como já dei a entender, «resolve» as preocupações que a outra tinha expressado. O pathos e a ansiedade são agora ultrapassados. Trata-se de uma sinfonia de equilíbrio e ordem, de uma autêntica arquitectura que Mozart cria baseado nas suas convicções e em si próprio, uma obra cuja grandeza apenas reflecte um ideal, uma sinfonia «de realização», não de especulação.
O tranquilo diálogo do segundo andamento, um ‘Andante cantabile’ é deliberadamente diferente do segundo andamento da Sinfonia No. 40. Nenhuma ansiedade nem sombra de qualquer espécie. Sem pausas mas sem tensão, a partitura empurra o ouvinte em direcção à plena luz, como Tamino fará em relação à luz da sua iniciação.
Insisto na necessidade de sempre ter presente que Mozart compõe as três sinfonias num curtíssimo período, em pleno Verão de 1788, um tempo durante o qual mal sai de casa que importa relacionar com o texto da carta ao seu Irmão Maçon Puchberg . Neste contexto, para tentar entender a unidade de pensamento da trilogia, preciso é que relacionemos o último movimento desta ‘Jupiter’ com o primeiro andamento da Sinfonia No. 39 já que, assim procedendo conseguimos imaginar como, na sua oposição, mutuamente se complementam.
Para rematar a obra, Mozart regressa ao símbolo da dualidade e da oposição. Começando no caos inicial dos ritmos quebrados, na violência dos batimentos – numa palavra, em tudo o que o princípio deste tríptico tem a ver com escuridão, ansiedade e desordem – Mozart vai guiar-nos para a luz, força e beleza.
Em conclusão, não é difícil que, neste compósito e complexo dispositivo sinfónico, possamos ler um percurso maçónico em que, entre outros, tivemos um vislumbre da claridade da esperança através da transparência do primeiro tema da Sinfonia No. 39, seguindo-se a escuridão da No. 40, num combate sem tréguas, escorregando pelo desânimo, até à estonteante luz da última sinfonia.
Finalmente!
Cheguei ao fim do trabalho que me propus. É o fim de uma caminhada fascinante. Em determinados momentos, a circunstância de sermos tão gratificados por verdadeiras epifanias musicais, quase fazemos um esforço para não esquecer a evidência de todo um percurso composicional que só pode ser plenamente entendido se, constantemente, o formos relacionando com as obras, de todos os géneros que, entretanto, Mozart ia compondo.
Humilíssimo, curvo-me perante o génio. Ousei ler algumas entrelinhas do divino Mozart. Lá do Oriente Eterno onde repousa, perdoará ele o atrevimento, mesmo tendo em conta o propósito da divulgação que me pareceu pertinente nestas ligeiras páginas do facebook?
Enfim, eis a última gravação proposta que, como já estava anunciado, continua com a Filarmónica de Viena sob a condução de Nikolaus Harnoncourt.
Boa audição!
http://youtu.be/zK5295yEQMQ
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