[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 5 de novembro de 2014


Sintra
Ricardo Duarte,
uma foto para reflexão


[facebook, 01.11.2014]

Esta foto bem pode servir como desafio ao debate para o qual nos devemos preparar na nossa condição de membros activos de associações culturais e cívicas que, na defesa do património perspectivam o fulcro da sua intervenção de cidadãos preocupados. Neste caso específico da Heliodoro Salgado, há mais do que uma alternativa cujo estudo merecerá o nosso envolvimento empenhado.
...
Não podemos autorizar que os decisores locais nos apresentem decisões como factos consumados. Essa foi uma prática do passado que não vamos deixar se repita. Actualmente, queremos obter todas as informações a que temos direito para poder partilhá-las com os munícipes que representamos, a favor de uma consciencialização cívica que deve ser visível no quotidiano. Para podermos apoiar, para podermos repudiar, consoante as circunstâncias.

Estamos preparados para todas as intervenções E, como pretendemos remediar asneiras do passado, importa que saibamos apresentar alternativas credíveis, concretizáveis e que, inequivocamente - a breve trecho, já durante o prazo de vigência do actual mandato do executivo autárquico - possam contribuir decisivamente para a melhoria da qualidade de vida dos munícipes e de quantos nos visitam.
 
 
Avenida Heliodoro Salgado - ano de 1985 por ocasião das Festas de Nossa Senhora do Cabo na freguesia de Santa Maria e São Miguel. Sem chineses e com gente a hab...itar todos os prédios. Embora aberta ao trânsito automóvel, com menos veículos do que hoje em dia. (foto do arquivo do amigo Vitor Cardoso Almeida)

 


Primeiro de Novembro

[facebook, 01.11.2014]

As raízes da Festa de Todos os Santos encontram-se em Antioquia onde, desde o séc. IV, se celebrava uma memória de todos os mártires. Em Roma, no séc. Vi, depois de ter consagrado o antigo Panteão romano à Virgem Maria e a todos os mártires, o Papa Bonifácio introduziu esta festa no mês de Maio.
 
Mais tarde, Gregório III (papado 731-741) mandou erigir um oratório a todos os santos na Basílica de São Pedro, que passou a ser celebrada em 1 de Novembro. O Im...perador Luís, o 'Piedoso' (filho de Carlos Magno, 778-840), decretou esta celebração para todo o império.

Hoje, ao pretender introduzir um momento musical que se relacione com a data, cruza-se a História da Festa de Todos os Santos com uma das maiores calamidades de todos os tempos na Europa, o Terramoto de Lisboa no dia 1 de Novembro do ano de 1755.

Pois bem, nada mais a propósito do que “Die Donner Ode” de Georg Philipp Tellemann, cantata dramática cuja composição, datada de 1756, foi directamente inspirada no evento que, como sabem, suscitou a criação de inúmeras obras em vários domínios da Arte em geral. Basta lembrar Voltaire, por exemplo, que tão impressionado se revelou.

Poderá pensar-se que, ao celebrar tanto a majestade como o poder e a força de Deus, com um tal triunfalismo, estaremos em presença de uma obra que evidencia a complacência do Iluminismo Panglossiano. Pois bem, é a mestria e o carácter persuasivo desse triunfalismo que, precisamente, contribui para o acolhimento da peça.

Deixo-vos com um excerto, numa interpretação de referência do Collegium Musicum 90, sob a direcção de Richard Hickox.

Boa audição!

http://youtu.be/6Nh8JZU7afc

 
dir.Richard Hickox
youtube.com
 

Sintra,
Aos meus amigos
do 29 de Outubro


 
[facebook, 31.10.2014]

Éramos tantos e estávamos tão felizes, irmanados no merecimento da Pena!... Fim de tarde no Parque, com queridos amigos, na partilha de momentos tão ingénuos, tão bonitos. Éramos tantos, tão felizes. Fernando e Elise? Ah, pois claro, também andaram connosco...

Agora, a memória que hoje me perseguiu. Com Liszt, nesta estupenda "Consolation No. 3". Toca Horowitz.

Boa audição!

http://youtu.be/zS5LRRsNYZk
 
 
Hoje, 29 de outubro, comemora-se o 198º aniversário do nascimento de D. Fernando II. Não podíamos perder a oportunidade de referir, mais uma vez, o seu contributo para aquilo que a Serra de Sintra é hoje.

Sintra,
Tiradas de cidadão causticado

[facebook, 31.10.2014]


Acreditem que não posso estar mais animado, mais motivado do que estou em relação à intervenção cívica que se impõe concretizar no próximo futuro. Membro de associações cívicas e culturais nacionais e locais, é no quadro dos seus programas de actividades que pretendo continuar a partilhar as preocupações que comungo com muitos que, como eu, são militantes das causas da defesa do património.

Naturalmente, de vez em quando, oferece-se a oportunidade de avaliar atitudes. Quer pela positiva quer pela negativa. Quanto à primeira, não preciso de dar exemplos porque sabem como eu gosto de elogiar, de enaltecer o bom trabalho, de estimular, de me render perante o que de bom se vai fazendo. Poderá ser um companheiro de luta, o administrador ou técnicos da Parques de Sintra, um Vereador ou o Presidente da Câmara, um jornalista, professores, amigos, enfim, seja quem for. Elogiar é mesmo o que eu mais gosto.

Tal não significa que me retraia ou cale perante motivos susceptíveis de gerar uma qualquer perplexidade, um desconforto, uma deselegância, um desagrado provocado por uma atitude evidente e negativamente criticável. Aqui chegado, é neste contexto da avaliação do menos positivo e negativo, que me permito transcrever o excerto abaixo identificado:

"(...) A Câmara adquiriu o Hotel Netto e agora diz-se que o problema é o dinheiro que custa manter a sua fachada! Mas poderia ser de modo diferente? Não se sabia, de um saber obrigatório, que a fachada era para manter? É a Câmara que deve obrigar a manter todas as fachadas e, obviamente, obrigar-se a si própria. (...)"
["Nem tudo são rosas no paraíso ou 10 questões sobre o Património de Sintra", Blogue 'Sintra Deambulada', terça-feira, 28 de Outubro de 2014]


Já tive oportunidade de vos chamar a atenção para o estupendo texto de João Rodil do qual extraí o excerto supra. Pois a ele voltei porque me dá oportunidade de enquadrar o manifesto de inquestionável incómodo em relação à maneira como o Senhor Presidente da Câmara, na abordagem do específico caso do Netto, depois de um primeiro momento, há cerca de um ano, agora protagoniza este segundo episódio.

Mostrou-se o Senhor Presidente agastado com a exigência da manutenção dos traços mais característicos e definitivos da marca do edifício na urbe, portanto da obrigação do respeito pela estética inicial, que implicará na recuperação da fachada. Surpreendido o Senhor Presidente? Mas, pergunta-se, a quem pode surpreender tal determinação quanto a uma peça que, isoladamente, tem uma identidade que seria posta em causa se tal não sucedesse e que, por outro lado, faz parte de um conjunto cuja memória – ah, meus senhores, disso bem nos lembramos nós!... – já sofreu impensáveis tratos de polé com a destruição do Nunes e implantação do Tivoli?

Então o Senhor Presidente permitiu-se usar o direito de preferência sem se ter apercebido de todas as implicações da tomada de tal decisão? Não estudou o projecto de recuperação? Não percebeu que havia um sindicato de bancos já apostados no financiamento das obras de recuperação do património, que a Parques de Sintra Monte da Lua trabalhara durante meses e meses?
 
Será, exactamente, porque não se ter apercebido, que também não terá em conta que os financiadores não estavam absolutamente nada preocupados com a necessidade de manutenção da fachada do edifício – coisa que o Senhor Presidente, agora, avalia em um milhão e setecentos mil euros – por ser impensável que a empresa promotora do projecto, dispondo de um crédito a toda a prova no domínio técnico, não tivesse considerado tal «detalhe» na justa proporção da obra a financiar…

Não terá percebido que, para chegar àquele patamar, em que já anunciara obras praticamente iminentes, a PSML percorrera todas as etapas de um percurso que, para si, eram fruto de uma ímpar experiência adquirida, nacional e mundialmente reconhecida como uma das melhores?
O que podem e devem pensar os munícipes perante esta atitude do Senhor Presidente da Câmara? Um ano depois de anunciar a sua decisão quanto ao Netto, o que presentemente se permite afirmar é a evidente e flagrante revelação, não direi de uma certa ligeireza que sei não ser seu timbre, mas de falta de aconselhamento técnico, que se transformou em pública forma de precipitação.

Tenho ouvido opiniões no sentido de interpretar a decisão de a CMS usar o direito de preferência como uma frustre atitude de marcação de território. Eu apenas descortino que, com um saber fazer que é a sua mais-valia de excelência, a PSML desejaria, isso sim, resolver o problema daquele cadáver adiado por décadas e décadas de letargia.

Para que mal entendido algum exista ou subsista, cumpre afirmar que nenhuma das considerações supra belisca a máxima consideração que continuo a nutrir pelo Senhor Presidente da Câmara. Não só consideração mas estima, que sei ser mútua, pois já me deu provas bastantes nesse sentido. Aqui, além das tiradas de cidadão causticado, apenas deverá ser entendido o desejo de colaboração, de partilha de preocupações cuja clarificação melhor habilitem às melhores decisões.
 
 
 


D. Fernando II
Pobre artista! Pobre rei!


[facebook, 29.10.2014]

[transcrição de um texto publicado no 'Jornal de Sintra' em 2006, com proposta final de audição de uma peça musical]

Há muitos anos que, para mim, o 29 de Outubro é subordinado à memória de Fernando de Sax-Coburg-Gotha (Coburg, 29.10.1816 - Lisboa, 15.12.1885), um dos homens que mais decisivamente marcou a segunda metade do século dezanove em Portugal, especialmente no âmbito da defesa e recuperação do património.

Muitas são as histórias e os episódios de salvaguarda de peças de valor patrimonial inestimável, in extremis resgatadas ao destino da pura e simples destruição, não fosse a sua directa intervenção. Um verdadeiro diletante, homem informado e de grande cultura, artista ele próprio, grande amante da Música, cantor, pintor de gabarito, tão impressiva foi a marca da sua atitude e actividades que ainda hoje é lembrado sob o epíteto de rei artista.

"(...) Pobre artista! Pobre rei!" É com estas exclamações que Ramalho Ortigão termina o texto subordinado ao título O Rei D. Fernando.* Estas palavras são precedidas por vinte páginas de uma homenagem que, passados que já são cento e vinte um anos sobre a sua escrita, ainda hoje continuam a funcionar como pretexto para que os portugueses melhor se reconheçam, quando lhes dá para o farisaísmo, mesquinhez, ordinarice, inveja, na acabada demonstração da incapacidade de se organizarem à volta dos seus mais autênticos interesses.

Animação da Leitura...

Quem ainda não leu aquelas estupendas linhas de "As Farpas" e julga conhecer a grande e a pequena História de Sintra, em especial no que se refere ao legado da Pena, não sabe o que tem andado a perder. Ramalho Ortigão escreveu-as, na sequência da morte do Senhor D. Fernando, a quente, reagindo à hipocrisia de uma data de ignorantes que, ao fim e ao cabo, ainda andam por aí. Ou ainda não terão notado? Verão a razão que me assiste quando as lerem.

Uma das maneiras para melhor comemorar a efeméride, não tenho a mínima dúvida, passa pela leitura de texto tão recomendável, que tanto proveito e gozo estético proporcionará a quem seguir o concelho deste humilde escriba que se atreve, não só ao beija-mão real, mas também à evocação de um escritor maior de oitocentos. Nos dias que correm, passe a presunção, não é façanha menor...

...da Música...

Mas ainda não vos deixo sem outra recomendação que, aliás é suscitada pela leitura que recomendo:

 "(...) E, instalando-se num fauteuil, ao fundo da sala de música, [D.Fernando] cantou-lhe ao piano, à mais larga expressão elegíaca da sua extensa voz de baixo cantante, A Criação, de Haydn (...)"
Ouçam essa outra obra-prima. Mesmo que já conheçam a oratória "A Criação", não deixem de repetir. Dêem-se ao luxo de participar naquele momento sublime da História da Música que cioincide com a fracção de Tempo em que, no Espaço do caos, a luz se fez. O grande Haydn, introduzido pelo próprio Mozart na Maçonaria, deixa nesta obra o seu mais alto contributo para o brilhante acervo artístico da Augusta Ordem. Ouçam. Repitam.

Ainda vos escreverei que, durante alguns anos de luto, pelo que estava a acontecer no Parque da Pena, especialmente sob a desastrada administração do biólogo Serra Lopes, pedia eu a Brahms que, com o seu "Ein Deutsches Requiem", me acompanhasse na celebração da efeméride fernandina. Como sabem, trata-se de um Requiem profano, já que não segue o cânone cristão. Mas raramente, música e textos, do Antigo e Novo Testamentos, traduzidos por Lutero, tão bem encontraram um caminho comum para celebrar a Morte das coisas e das pessoas.

...e da Arte, em geral

Mas, por favor, nada de misturas. Em primeiro lugar, leiam. Depois, escutem as músicas. Não façam como tanta e tão boa gente, que afirma precisar da Música como fundo para a concretização de outras actividades culturais, como a leitura da Literatura, por exemplo. Se querem saber, eu sou completamente contra. É que tanto a Literatura como a Música são tão exigentes de concentração, que o leitor-simultaneamente-ouvinte, mesmo de obras literárias e musicasis afins, com certeza, perderá inúmeros aspectos de uma e outra obras de Arte.

Hoje, em memória de um pobre rei, em memória de um pobre artista, saibamos conceder-nos o benefício da Arte e, muito a propósito, lembremos o horaciano 'carpe diem' que, ao contrário do que alguns consideram bem interpretar, nada tem de aconselhamento à facilidade. E facilidade foi coisa que D. Fernando jamais promoveu embora tivesse sabido muito bem aproveitar os dias da sua passagem por aqui.

(*)Ramalho Ortigão, José Duarte, O Rei D. Fernando, in As Farpas, Obras Completas de Ramalho Ortigão, tomo III, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1969
______________________


Fim de citação.

Apenas uma proposta final para vos pôr a vibrar comigo e com o senhor D. Fernando II. Como não podia deixar de ser, de acordo com a preferência do homenageado, aqui vos deixo com os momentos "A Criação" de Joseph Haydn, na estupenda leitura de Harnoncourt, com o Concentus Musicus. Ficam com a obra integral, uma das mais fabulosas realizações não só da Música mas também da Arte de todos os tempos, que bem atesta o sofisticado gosto do homem de cultura que era D. Fernando. Não se fiquem pelos momentos iniciais e, por aquela célebre explosão que, nesta gravação ocorre aos 8' e 09"...


Boa audição|


http://youtu.be/B42kFiPBy6Y

 
Franz Joseph Haydn (1732-1809) Die Schöpfung Hob.XXI-2 Nikolaus Harnoncourt Concentus Musicus Wien Graz, 7/2010
 
 


Efeméride mozartiana

Nannerl

[facebook, 29.10.2014]

Não há dúvida, hoje as efemérides multiplicam-se. Esta, a da morte de irmã de Mozart, [31.07.1751 - 29.10.1829]. Outra tivesse sido a época e, dúvidas não subsistem, Maria Anna Mozart, teria todas as qualidades para se tornar numa compositora de primeira grandeza. Emparceirou com o mano no mais famoso par de meninos-prodígio da História da Música mas, a partir de determinada altura, pelos seus quinze anos, o pai Leopold investiu tudo no filho rapaz, ficando Nannerl na sombra, como professora de piano, ela que também era exímia no violino.

Há episódios interessantes na sua longa vida, alguns dos quais já partilhei convosco oportunamente. Talvez os repita porque há sempre gente nova por estas minhas bandas do facebook. Aqui vos deixo uma foto da campa que partilha com Johann Michael Haydn, um bom compositor e irmão do mais conhecido e famoso Franz Joseph Haydn, no lindíssimo cemitério St Peters, a pequena capela já no acesso às catacumbas tão singelas.
 

Sintra,
Um texto de João Rodil

[facebook, 29.10.2014]
 
Excelente! Aí estão os pontos nos ii, com uma pertinência e saber que raramente podemos partilhar. O João Rodil é um homem com especiais responsabilidades no «corpo da militância» pela defesa do património de Sintra. Tê-lo como amigo e companheiro de luta é um privilégio e, se persistisse alguma dúvida a tal respeito, aí está um mais-que-perfeito manifesto de denúncia do «Estado do Concelho» no que ao património edificado e natural diz respeito.

Que seja devidamente lido! Nas linhas e nas entrelinhas. Muitos são os chamados a pronunciarem-se sobre estas questões mas muito, muito pouco os escolhidos, capazes de produzirem algo de idêntico, e com esta qualidade de escrita. Saúdo este contributo o mais efusivamente possível, com a relevante possibilidade de o fazer neste dia em que comemoramos o aniversário de D. Fernando II, o patrono da intervenção cívica em defesa do património.
 


Na Tapada de Mafra

[facebook, 29.10.2014]

Histórias não me faltariam se quisesse encher páginas e páginas de prosa acerca da Tapada de Mafra. Começaria por episódios contados pelo meu sogro, Mário d’ Ávila – que foi Vereador da Câmara Municipal de Lisboa, tendo como colega o Engº D. Segismundo da Câmara de Saldanha, alguém que, por sua vez, ainda hoje é recordado como alma mater da gestão moderna da Tapada. E, acabando na primeira pessoa, relativos a um «larguíssimo» período de seis meses, teriam flagrantes da minha passagem pela Escola Prática de Infantaria e Tapada anexa, onde decorreram recruta e especialidade do Curso de Oficiais Milicianos.

Trata-se de matéria que daria para um avultado número de crónicas cuja escrita, eventualmente, ainda serei capaz de encarar. Hoje, no entanto, não gostaria de deixar de partilhar um episódio cujo protagonista não foi D. Segismundo nem eu próprio, mas o meu neto mais velho, que fez dez anos no passado dia 25, cabendo-lhe como um dos presentes, passar o dia na Tapada de Mafra.

Depois de um piquenique muito agradável, começámos a fase da visita em que, passando a fazer parte de um grupo mais alargado, fomos transportados num «comboio» muito idêntico àquele que, todos os dias, atravessa as ruas do centro histórico de Sintra. Como a temperatura era propícia a calmas praticamente estivais, a bicharada que era suposto avistar estava demasiado recolhida para a expectativa reinante. Enfim, uns gamos fugidios, um ou outro veado de imponentes armações, mas nem um javali…

De qualquer modo, ao nível da flora local, motivos de interesse não faltam. E a funcionária que nos guiava, de um profissionalismo relevante, durante quase hora e meia de percurso, foi incansável, fornecendo um manancial de informação que escaparia à maioria dos visitantes não fosse a sua permanente atitude de chamar a atenção para todo o tipo de detalhes relativos a um património natural extremamente rico.

Pouco depois, a caminho do Alto da Tojeira, numa íngreme subida em que a locomotiva teve de mostrar o que ainda valia, a guia apontou-nos o voo de uma águia de asa redonda, explicando o que lhe pareceu de maior pertinência. Na fila de bancos à frente da minha, depois de ouvir as considerações sobre a rapina, o Pedro Maria voltou-se para trás e perguntou-me, mas de modo a ser ouvido por todos à volta, se eu sabia o que era uma harpia.

Perante a minha negativa, bem como os gestos e olhares concludentes dos circunstantes, o rapaz disse que vinha a propósito porque também era uma ave da mesma espécie. Enfim, novos sinais de desconhecimento, aos quais acrescentei que, provavelmente, estaria a fazer uma qualquer confusão.

A deslocação continuou e veio a terminar num caminho que dá acesso a um improvisado mas operacional anfiteatro destinado a assistir a um espectáculo em que, precisamente, evoluem aves de rapina. Informalmente instalados, enquanto não começava a função, como a guia se tivesse deslocado até junto de nós, o bom do Pedro não perdeu a oportunidade e atacou com a pergunta sobre a harpia, à qual também ela não soube responder.

Pois se pensam que, perante as sucessivas negativas, o Pedro Maria estaria vencido mas não convencido, estão muito enganados. Nem vencido nem convencido. Quando, finalmente, se apresentou aquele que o garoto entendeu ser o perito de serviço, ou seja, o biólogo animador do espectáculo que as aves vedetas propiciam, percebendo que ainda dispunha de tempo para mais uma tentativa, uma vez que ainda aguardávamos a chegada de mais algum público, muito afoito, o Pedro lá pergunta pela harpia.

Bem, sucesso imediato! Eis que o jovem, já armado de microfone e amplificador, muito prazenteiro, responde que, sim senhor, nem mais nem menos, tratar-se da maior e mais pesada águia do mundo, originária da América do Sul, entre outros lugares, também da Amazónia, etc, etc, etc. Olhado com interesse por toda a assistência, o Pedro Maria, sem demonstrar qualquer especial triunfalismo, veio novamente até junto de nós.
 
Disse-me que teve de confirmar porque tinha a certeza, já tinha lido e, inclusive, assistido a um qualquer documentário na televisão em que fora vedeta a famosa harpia, da minha e geral ignorância. Visivelmente satisfeito, tenho a certeza de que, naquela tarde de visita à Tapada de Mafra, terá tido um dos melhores presentes de aniversário. O gozo do conhecimento, a satisfação do saber que, diz o povo, não ocupa lugar!

Com natural alegria, as celebrações da sua tão rápida primeira década ainda vão continuar no próximo fim de semana, em especial, com actividades para a miudagem. E, como é mesmo só para crianças, não estarei por perto. Vou celebrar os Santos no Alentejo. Desta vez, já sei que tenho muita romã para colher e ainda trazer para Sintra uns bons quilos de marmelos, daquela espécie «domesticada», com exemplares enormes, para assar no forno. De outro género, umas criancices em que me vou perder...


Ainda o empréstimo de ontem...

[facebook, 28.10.2014]

Ainda se devem lembrar da notícia que ontem partilhei convosco acerca do excepcional empréstimo do clavicórdio do acervo da casa onde Mozart nasceu. Pois aí têm o instrumento, cedido pela Fundação Internacional do Mozarteum de Salzburg, já no seu destino provisório, na Mozarthaus de Viena.

Não, não anda em bolandas. Está tudo controladíssimo, quinze dias e nada mais. No local de origem, são extremamente ciosos das «suas» preciosidades... E, se querem que vos diga, também não acho particular piada a estas cedências de cortesia.

Na realidade, nem no Mozarteum nem em parte alguma, onde tudo seja tratado com extremo cuidado, é possível evitar a ocorrência de episódios absolutamente imprevisíveis, pondo em causa a integridade das peças que, depois de certas vicissitudes, muito dificilmente voltarão a estar tão bem como quando saíram «para arejar»...
 

 


Parabéns,
parabéns Prof. António Lamas


[facebook, 29.10.2014]


Confirmando-se o que soubera há alguns dias, tenho-me preparado para este momento da saída do Prof. António Ressano Garcia Lamas do seu posto de Presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra. Manda a amizade que a ele me liga, em especial, neste momento em que atravessa a porta grande, que seja sóbrio no elogio.

Sabem todos os meus amigos, em especial os que por aqui mais aparecem na defesa do património de Sintra, do apreço que, constantemente, lhe manifestei ao longo dos seus anos à frente da empresa. A obra que deixa é verdadeiramente espectacular e, tanto mais positiva quanto, em contraponto, sucede a um descalabro que, francamente, não posso nem devo misturar com estas palavras.

Com a sua liderança de cerca de nove anos, o Prof. António Lamas deixa, à Parques de Sintra, aos sintrenses e aos portugueses em geral, um legado extraordinário de extraordinárias realizações e o paradigma de uma actividade que, infelizmente, é muito raro encontrar entre nós.

Ali, as coisas não correram bem por acaso. Ali, funciona uma equipa de colaboradores, com as características que lhe conhecemos, porque a administração encabeçada pelo Prof. Lamas a soube motivar de forma excepcional.

O Prof. Lamas levantou a fasquia a uma tal altura que não vai ser mesmo nada fácil substituí-lo. Para já, a tutela não podia ter dado melhor sinal ao nomear o Dr. Manuel Baptista que, durante todos estes anos foi o mais activo companheiro no caminho do sucesso que também obra sua. Solução de continuidade, é sem dúvida, e muito bem! Oxalá pudesse ser inequivocamente definitiva…

”PARABÉNS, PARABÉNS PROF. LAMAS"

Título deste meu pequeno escrito, também pretende revestir, neste dia 29 de Outubro, uma especial forma de saudação no aniversário do meu querido amigo. É verdade! Faz hoje anos e, como sabem «os mais devotos», em data coincidente com o aniversário do Senhor D. Fernando II…
É fantástica a coincidência, não é?! É fantástico como, no Prof. António Lamas, o Rei teve quem tão bem soubesse honrar a sua herança, devolvendo-no-la para o gozo que, certamente, animou o seu projecto da Pena. Um grande, sincero e fraternal abraço com os votos das maiores felicidades pessoais e de sucesso no cargo que vai assumir.

Como nada ou muito pouca coisa sei fazer que não envolva uma sugestão, conotação musical mais ou menos a propósito, eis que proponho a partilha de um momento crucial do início da Oratória “Die Schöpfung” [A Criação] de Joseph Haydn, que sei estar na mais alta estima do Prof. Lamas, obra que D. Fernando apreciava sobremaneira e que também cantava na sua voz de barítono…

Boa audição!

http://youtu.be/99vS5s8p6ZM