[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014



Missa de Diabelli

[facebook, 25.12.2014]

Hoje, dia de Natal, na Catedral de Salzburg, cantou-se a "Pastoralmesse em Fá Maior", op. 147 do músico, editor e compositor austríaco Anton Dialbelli (1781-1858).

Proponho-vos a interpretação a cargo do Coro Juvenil da Catedral de Augsburg e da Orquestra de Câmara da Residenz de Munique, sob a direcção de Reinhard Kammler.

Atentem nesta peça de Diabelli. Não, a sua memória não fica apenas relacionada com o episódio em que, na sua condição de editor, e a partir duma valsa da sua autoria, solicitou as Variações aos compositores contemporâneos... A atestar que devemos olhá-lo com outros olhos, eis esta óptima Missa que, como verificarão os que a não conhecem, exige as melhores capacidades de qualquer bom agrupamento coral. 

Kyrie 00:00
Gloria 02:56
Credo 08:09
Sanctus 17:23
Benedictus 19:49
Agnus Dei 24:01



E por cá?

Felizes os meus amigos salisburguenses. Tanto na Catedral como noutras igrejas, em especial e também na dos Franciscanos, pode contar-se com a melhor música sacra ao longo do ano enquanto que, entre nós, o nível de indigência não podia ter descido mais. Por vezes é mesmo penoso.
Com um património nacional fabuloso neste domínio, parece impossível como a hierarquia da Igreja Portuguesa não põe termo a este estado de coisas. Na justa medida das minhas modestíssimas possibilidades, tentarei integrar um grupo interessado na resolução deste problema.

 
Boa audição!

http://youtu.be/-VcUVECFyRA

 
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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014



Tribschen-Idyl,
uma efeméride wagneriana



Hoje, muito em especial, dificilmente conseguiria furtar-me ao fascínio deste feliz episódio da História da Música. Naturalmente, conhecem-no bem os meus amigos do Círculo Richard Wagner de Lisboa com quem, faz hoje uma semana, tive o prazer de partilhar o óptimo fim de tarde em casa da Teresa e do Spencer. De qualquer modo, para eles, esta memória que nos é tão grata.

A primeira apresentação da peça aconteceu na escadaria interior da Villa Tribschen, na manhã do dia de Natal de 1870, por ocasião do aniversário de Cosima Liszt Wagner (Bellagio - Como, 25 de Dezembro de 1837 — Bayreuth, 1 de abril de 1930).

Acordou ela ao som da melodia de abertura e escutou aqueles vinte minutos de extrema beleza enquanto Richard Wagner, o marido, dirigia um pequeno grupo de treze músicos [dois violinos, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta, oboe, dois clarinetes, duas trompas, trompete e fagote], que tinha recrutado em Zürich. Que melhor presente poderia imaginar?

O título original da peça era “Tribschen-Idyl, com a canção dos passarinhos de Fidi e Nascer do Sol cor de laranja”. Está claro que logo percebemos tratar-se de uma obra muito pessoal para Wagner. Descodifiquemos. Tribschen é o nome da villa em Lucerna, na Suiça, onde Wagner vivia exilado com a família. Fidi era o petit nom de Siegfried, filho de Richard Wagner e de Cosima, sua mulher.

“Tribschen-Idyl” é um título certamente suscitado pelo fascínio do lugar. Quem lá vai, percebe logo… Aquilo é lindo de morrer. De tal modo assim é que, não raro, por cá, tão longe, tenho aquele cenário diante dos meus olhos. Vem a propósito lembrar o que, sobre Tribschen, Wagner escreveu ao Rei Luís II da Baviera “(…) para qualquer lado que me volte, fico no meio de um mundo mágico: não conheço outro lugar mais belo, nada mais acolhedor”

Oito anos mais tarde, com o título “Sigfried Idyl”, Wagner publicaria esta obra depois de ter acrescentado uma série de instrumentos à partitura original. Como é do conhecimento geral, algumas das melodias foram usadas pelo compositor na ópera "Siegfried", terceira jornada do "Ring".

Como nada substitui um testemunho na primeira pessoa, eis a conhecidíssima página do diário de Cosima Wagner em que, numa tradução para Inglês, dá conta do episódio:


"(...) Sunday, December 25, 1870 About this day, my children, I can tell you nothing—nothing about my feelings, nothing about my mood, nothing, nothing, nothing. I shall just tell you, dryly and plainly, what happened. When I woke up I heard a sound, it grew even louder, I could no longer imagine myself in a dream, music was sounding, and what music! After it had died away, R. came in to me with the five children and put into my hands the score of his "Symphonic Birthday Greeting." I was in tears, but so, too, was the whole household; R. had set up his orchestra on the stairs and thus consecrated our Tribschen forever! The Tribschen Idyll—thus the work is called. — At midday Dr. Sulzer arrived, surely the most important of R.'s friends! After breakfast the orchestra again assembled, and now once again the Idyll was heard in the lower apartment, moving us all profoundly (Countess B. was also there, on my invitation); after it the Lohengrin wedding procession, Beethoven's Septet, and, to end with, once more the work of which I shall never hear enough! — Now at last I understood all R.'s working in secret, also dear Richter's trumpet (he blazed out the Siegfried theme splendidly and had learned the trumpet especially to do it), which had won him many admonishments from me. "Now let me die," I exclaimed to R. "It would be easier to die for me than to live for me," he replied. — In the evening R. reads his Meistersinger to Dr. Sulzer, who did not know it; and I take as much delight in it as if it were something completely new. This makes R. say, "I wanted to read Sulzer Die Ms, and it turned into a dialogue between us two." (C. Wagner 312)"


Aqui tendes uma belíssima leitura de Sir Georg Solti dirigindo a Filarmónica de Viena. AT: São duas gravações.


Boa audição!


http://youtu.be/oFtpLhfKJ_0 [1ª parte]
http://youtu.be/N9mSlVYpsuM [2ª parte]


Pedro Tamen,
Natal, nata do tempo


Deste soneto vos digo que ficará na História da Poesia Portuguesa como um dos mais belos poemas de Natal de todos os tempos. Se puderem, leiam "Memória Indescritível", o livro onde, além deste, outros desafios lindíssimos esperam a devassa.

Pedro Tamen, que formidável oficina, a sua. Que estupenda escola!
 
 
 
 
 
 
 
Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio


nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos


por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,


e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.



Pedro Tamen



Efeméride mozartiana
25 Dezembro 1777



Aos vinte e um anos, na sua segunda deslocação a caminho de Paris - naquela que, como sabem, a vários títulos, se revelaria a desastrosa viagem em que, por exemplo, faleceria a mãe já durante a estada na capital francesa - ao passar por Mannheim, Mozart compõe a peça que hoje vos proponho, o "Quarteto com flauta em Ré", KV. 285.

E, meu Deus, como poderia eu propor-vos melhor interpretação? Reparem JEAN-PIERRE RAMPAL, flauta, ISAAC STERN, violino, SALVATORE ACCARDO, viola e MSTISLAV ROSTROPOVICH, violoncelo. Para tão ilustres artistas, só maiúsculas.
 
Trata-se de uma gravação realizada no Studio Clé d' Ut, em Paris, há já vinte e sete anos, contudo, inultrapassável. A peça em questão é a primeira de um conjunto de quatro que ficam à vossa disposição para enriquecerem o feliz Dia de Natal que vos desejo.


Boa audição!


http://youtu.be/zQjwS0XhQCM


 
 


Saudação de Natal

[facebook, 24.12.2014]

Em tempo de nos saudarmos mutuamente, com tantos e tão bons votos, abraços, beijinhos e as compras da ordem, conviria não esquecer que, por estes dias, tem havido escolas cujos refeitórios abriram para fornecer refeições aos meninos e famílias mais carenciados.

Os sinais estão por todo o lado, evidenciando a realidade que muito nos magoa de cerca de dois milhões de portugueses vivendo abaixo do limiar da pobreza e um terço das nossas crianças como das mais pobres da Europa.

Como não estou cá para dar conselhos ou lições de moral seja a quem for, com estas lembranças em consideração, façamos o que muito bem nos aprouver desde que, para todos os efeitos, as nossas atitudes caibam na saudação que trocamos de

 
Bom Natal!
ou, ainda mais comprometida,
Santo Natal


Efeméride mozartiana


24 de Dezembro de 1788
Dançar, com Mozart!


[facebook, 24.12.2014]


Hoje, na vossa festa da consoada, se houver ambiente e espaço, aproveitem para dar um pé de dança com estes Minuetes, KV 568, que deram entrada no catálogo pessoal de Mozart no dia 24 de Dezembro de 1788.

Brinquem com os miúdos, ensinem-nos a dançar o Minuete. Verão como se divertem, não deixando de acrescentar um toque de requinte à festa. Ou, então, ouçam apenas, retirando todo o benefício destas doze pequenas peças tão bem dispostas, tão prazenteiras para toda a família.
Bom Natal! Boa música!


Boa audição!


http://youtu.be/FYaApsOHIBY


 


Francisco,
troppo difficile !!!



[facebook, 23.12.2014]

Acabo de assistir, num dos canais de televisão, ao resumo da prédica que SS Francisco hoje dirigiu aos seus companheiros mais próximos, os Cardeais da Curia Romana, muitos dos que o elegeram para protagonizar um dos pontificados mais determinantes da História da Igreja.
 
As palavras que lhes disse foram muito mais longe do que as de Maomé ao toucinho... Que desassombro, Santo Deus! Se «aquilo» não foi inspiração do Divino Espírito Santo, então, ainda desconheço o que possa ser... Que estupenda organização esta Igreja Católica Apostólica Romana, cujo chefe máximo é capaz de designar pelos nomes mais assertivos, «inconvenientes» e insólitos, os 'pecados', as obras, as palavras e as omissões mais frequentes dos eminentes purpurados.
 
Tudo foram obrigados a ouvir. Acusados de mexeriqueiros, de megalómanos, ouviram, inclusive, os sintomas da doença que o Papa designou como 'Alzeimer espiritual'!...

Que lição dá Francisco ao Mundo, às outras Igrejas Cristãs, às outras Religiões!. E também a algumas obediências da Augusta Ordem Maçónica - em especial a do GOL, presentemente dirigida por um Grão-Mestre cheio de equívocos - sempre tão pressurosas nos ataques a Roma. Melhor será que ali ponham os olhos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014



Serão magnífico

[facebook, 23.12.2014]

O meu amigo Mazzeo é a 'alma mater' desta iniciativa do Ciclo de Serões Musicais no Salão Nobre do Palácio da Pena, que se iniciou no passado domingo, em que contámos com notas de abertura por Luísa Cymbron, pequena mas elucidativa palestra a propósito do enquadramento geral e do programa que passaríamos a assistir.

O 'Trio Aeternus', integrando Alexander Stewart, violino, Varoujan Bartikian, violoncelo e Lucjan Luc ao piano, apresentou-se num programa extremamente sugestivo - "Trio No. 2 em Si bemol Op. 100", D898, de F. Schubert, "Abertura da ópera “Der Freischutz” (versão para trio com piano), de C. M. von Weber e, de Bedrich Smetana, o "Trio Op.15 em Sol menor".

Estupendos momentos de música de câmara, vividos em ambiente extremamente propício. Todos fomos recebidos de modo exemplar pelos anfitriões, com uma recepção festiva onde não faltaram as gulosas especialidades sintrenses e o espumante da ordem, «sob a batuta» do amigo e grande entusiasta melómano Dr. Manuel Baptista.

Entre outros, também contei com a grata companhia do Prof. António Lamas, com quem tive oportunidade de trocar impressões, que muito me beneficiaram para reflexão acerca dos dias que estamos a viver em Sintra. A sua grande experiência, os trunfos do seu sucesso, continuam a merecer-me a maior consideração e oportunidade para recolha de proveitosos ensinamentos. Além da excelente música, é ímpar esta possibilidade de viver momentos de partilha, de amizade e de cúmplice camaradagem.

Aceitem o meu conselho de não faltarem aos próximos serões. Finalmente, como memória daqueles momentos sumptuosos, gostaria de partilhar convosco mencionada peça de Schubert. Atenção ao famosíssimo 'Andante' Não tenho a mais pequena dúvida de que vos estarei proporcionando um belíssimo presente de Natal. Tocam os lendários, Pablo Casals, Mieczyslaw Horszowski e Alexander Schneider.

Boa audição!

http://youtu.be/rlx8T09Ndno
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Parques de Sintra adicionou 9 fotos novas ao álbum Concerto Cintra's Glorious Eden.
 
Imagens do primeiro serão do ciclo “Serões Musicais no Palácio Nacional da Pena”, intitulado “Cintra’s Glorious Eden”, com um concerto do Trio Aeternus, precedi...do de uma conferência. De 21 de dezembro a 14 de fevereiro, a Parques de Sintra apresenta o ciclo “Serões Musicais no Palácio da Pena”, a decorrer no Salão Nobre. Mais informações: http://www.parquesdesintra.pt/…/seroes-musicais-no-palacio…/
 


22 de Dezembro de 1858

[facebook, 22.12.2014]

Nascimento de Giacomo Puccini em Lucca (M. Bruxelas, 29 de novembro de 1924)
Proponho a partilha de "Suor Angelica", libreto de Giovacchino Forzano, que, juntamente com "Il tabarro" e "Gianni Schicchi", constituem 'Il trittico'. "Suor Angelica", ópera só de vozes femininas já que as masculinas aparecem apenas no final, no coro de anjos que levam Suor Angelica para o céu.
...
Facto biográfico conhecido é o de Puccini ter uma irmã freira Iginia, Madre Superiora do Convento de Vicepelago, com quem mantinha relação de enorme afecto. Logo que terá terminado de compor a obra, Puccini visitou a irmã no convento, tocando e cantand excertos ao piano, deixando as freiras muito comovidas.

As grandes Mirella Freni, Renata Scotto, Katia Ricciarelli, Renata Tebaldi, Lucia Popp, Joan Sutherland, Victoria de los Angeles protagonizaram esta personagem, papel muito difícil. Considero que a Scotto dá uma lição de canto, absolutamente inesquecível, neste registo do MET, em 1981.

Se fosse viva, minha mãe - que adorava Puccini - faria hoje 90 anos. Em São Carlos, durante sucessivas temporadas, assistiu às interpretações das maiores, como Tebaldi, Scotto e Callas. Em sua memória, este portento absoluto.

Ainda não há muito tempo, criticava eu a Mattila que, no último recital na Gulbenkian, interpretando 'Ebben! Ne andrò lontana', não consegui perceber patavina, de tão deficiente que foi a sua dicção. Aqui têm, com Scotto, o exemplo acabado do que é articular bem cada palavra. Tudo se entende. Sem truques. Aqui, a verdade da Arte a que todos temos direito.

Boa audição!

http://youtu.be/BJ5FlzR97-I

 


Efeméride mozartiana,
um quinteto para a eternidade


[facebook, 22.12.2014]


Em Viena, no dia 22 Dezembro de 1789, durante um concerto da Wiener Tonkünstlersocietät (Associação dos Músicos Vienenses), acontecia a estreia do ‘Quinteto para Clarinete em Lá, KV. 581’, que Mozart terminara em 29 de Setembro daquele ano, tendo-o dedicado a Anton Stadler, seu Irmão Maçon, afamado clarinetista, que também o interpretou na ocasião.
 
Estamos perante uma das obras mais sofisticadas da fase da grande maturidade do compositor. E, infelizmente, hoje em dia, não podemos aceder à plenitude da peça, inicialmente composta para um instrumento especialmente construído para o grande músico que Stadler era, que permitia a emissão de notas de registo mais grave do que os instrumentos que se enquadravam no padrão da época.
 
O famoso clarinetista, sempre muito «curto» de dinheiro, terá vendido a partitura autógrafa durante uma sua tournée europeia, entre 1791 e 1796, partitura essa que, lamentavelmente, se perdeu. É por isso que as edições subsequentes tiveram de se subordinar à edição André de 1802, adequada, isso sim, ao instrumento «normal». De qualquer modo, modernas «reconstruções» do Quinteto bem como o Concerto KV. 622, demonstram até que ponto chegou a mestria do compositor na exploração das capacidades do clarinete.

A propósito desta peça, como não lembrar que, há cerca de uma dúzia de anos, assisti a um dos mais espantosos eventos musicais da minha vida, no pequeno e humilde auditório da Sociedade de Recreio ‘Os Pimpões’ das Caldas da Rainha, onde Sabine Meyer - talvez a mais conhecida intérprete clarinetista, a nível mundial, a diva ou die Göttin, [a deusa], o seu mais famoso epíteto - ali tocou com o estupendo Quarteto Tokyo, o Quinteto KV. 581 de Mozart, perante a total ausência dos «melómanos», qual paradoxo, na medida em que, por definição, o melómano sabe onde acontece o evento que não pode perder...

Como a estreia da obra se reporta a um dia 22 de Dezembro, por favor, não imaginem que Mozart a terminou em perfeito espírito natalício - seja lá o que isso for, tanto hoje como há 225 anos - porque, reparem logo no primeiro parágrafo deste texto, tinha sido terminada quase três meses antes…
Finalmente, a paradigmática interpretação do Quarteto Hagen, precisamente, com Sabine Meyer e Quarteto Hagen, objecto da gravação que vos proponho [só a primeira parte, de cerca de trinta e três minutos], foi obtida ao vivo na Grosse Saal do Mozarteum, durante uma edição da Mozartwoche a que, naturalmente, tive o privilégio de assistir.


Boa audição!

http://youtu.be/4k1fuAuwnJA