[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015


Sintra,
meditando
- a propósito da fachada do Central




Vem esta meditação a propósito da recente controvérsia acerca da atitude do proprietário do Hotel Central que, inopinada e inusitadamente, ergueu uma estrutura metálica para sustentar a esplanada que sonhou instalar, ali mesmo à beira do Palácio da Vila. Ainda não se percebeu se terá pedido licença à Câmara e, se assim tiver acontecido, como é que a autarquia terá autorizado…

A verdade é que, para nosso contentamento, nem há uma semana estava a estrutura montada e eis que, na sequência do protesto da Alagamares e da sua denúncia à Comissão Nacional da Unesco, anteontem, a CMS embargou a obra. De qualquer modo, ainda a procissão vai no adro.
Para todos os efeitos, os cidadãos merecem uma explicação insofismável e resposta a perguntas pertinentes. Houve ou não houve licenciamento? Se afirmativo, quem autorizou e na base de que pressupostos? Que tipo de ignorância, técnica e de decisão política, estiveram em jogo?

Porque a memória ainda não é má de todo, ocorrem outros casos cujas nefastas consequências todos estamos a suportar. A título de exemplo, peço que atentem na foto que ilustra este texto. Aí mesmo à nossa frente, sobre a esquerda média*, o grande «empreendedor» Miguel Pais do Amaral ergueu uma mansão que, aproveitando as fraquezas do «sistema», é prova acabada e cabal da nossa incapacidade de cívica intervenção contra os desmandos de quem, apenas pensando nos seus interesses pessoais, consegue passar por cima dos da colectividade.

Enfim, com o parecer favorável de entidades que era suposto pronunciarem-se, lá se construiu o monstro. Há tanto tempo quanto lá vai o ano de 2008, denunciei o caso em primeira mão, Luís Filipe Sebastião levou o assunto às páginas centrais do jornal 'Público', o assunto seguiu para o Tribunal Administrativo de Sintra...

A poucos metros do Palácio de Seteais, a uma cota mais elevada que a do próprio monumento, arrasou a legibilidade da página de 'Os Maias' em que Eça descreve o estupendo cenário que se apresenta a quem, descendo a rampa do ‘belvedere’, um pouco antes de passar sob o arco de triunfo, se lhe depara o espectáculo inolvidável.

 Sintra perdeu, todos perdemos um património que, em princípio, deveria ter sido respeitado. Mas o grande empreendedor Pais do Amaral ganhou. Levou a sua avante.

Aliás, a provar que o crime compensa mesmo e, igualmente perante a nossa incapacidade de organização cívica consequente - sem que as denúncias no 'Jornal de Sintra' ou no meu blogue sintradoavesso, cartas ao IPPAR, idas a reuniões públicas da CMS e Assembleia Municipal tivessem obtido qualquer resultado - o concessionário do hotel, outro «grande empreendedor», do grupo Espírito Santo, agora caído na maior desgraça, consumou a destruição do tanque, travestindo-o em prosaica casa de máquinas, como podem constatar sempre que passarem pelo local que era canto de lazer, profundamente radicado no espírito do lugar.

Uma perversa «lição» para os sintrenses? Não, de modo algum o creio. Processo fechado? Não, também assim não penso. Assim haja exemplar vontade política de repor a situação inicial, e, tanto no caso da mansão de Pais do Amaral como no do tanque da Quinta de Seteais, propriedade do banco bom ou do banco mau, outro poderia ser o desfecho.

Provas inequívocas de um diferente e «mais civilizado» modo de estar e de ser, daria a Câmara Municipal de Sintra se, em relação a estas ofensas ao espírito do lugar, em zona crítica e classificada, perspectivasse protagonizar a atitude de embargo, idêntica à que, tão rapidamente, cumulou o caso do Central.

Infelizmente, não creio que tenhamos essa sorte...


*A casa de Pais do Amaral não é essa tosca construção que surge na esquerda média. Olhem que vale a pena deslocarem-se até lá...


Efeméride mozartiana
1 de Janeiro de 1775
 
 
Munique, interpretação de uma peça de música sacra
 
Embora já estejamos no dia seguinte ao da comemoração da efeméride, como ontem não a assinalei, aqui estou 'cumprindo o meu dever'... Faço-o, ainda com maior e justificada razão, na medida em que a obra em apreço, a "Litaniae de venerabili altaris sacramento em Si bemol Maior", KV 125, datada de Salzburg 1772, foi ouvida em Munique três anos depois, após várias alterações, até atingir a soberba forma em que a grande capital bávara a ouviu, em tão importante ocasião como é o primeiro dia do ano litúrgico.

Aqui segue, nos seus nove andamentos, com indicação do sequencial tempo de escuta de cada um
- Coro (Allegro molto - Adagio) Kyrie eleison (0:00)
- Aria (Andante) Panis vivus, qui de coelo (3:54)
- Coro (Adagio) Verbum caro factum (9:23)
- Aria (Allegro molto) Hostia sancta calix (10:12)
- Coro (Adagio) Tremendum ac vivificum (13:45)
- Aria (Andante) Panis omnipotentia (14:58)
- Coro (Adagio) Viaticum in Domino morientum (21:12)
- Coro Pignus futurae gloriae (22:42)
- Coro (Un poco adagio) Agnus Dei (27:29)


A interpretação é de referência, a cargo de Barbara Bonney, soprano; Elisabeth von Magnus, contralto; Uwe Heilmann, tenor; Gilles Cachemaille, barítono; Arnold Schoenberg Chor; e Concentus Musicus, sob a direcção de Nikolaus Harnoncourt.


Boa audição!

http://youtu.be/FqnQeY_aV2c
 
 
 
 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015


Entre outros,
também o meu depoimento

 
 
 
O que foi 2014 e que esperar em 2015- Depoimentos 29 Dezembro, 201429 Dezembro, 2014
 
 
 


Valsas do «outro Strauss»


Com os desejos de um feliz Novo Ano, aqui têm, de "Der Rosenkavalier", ópera de Richard Strauss, duas sequências [Seq. I] e [Seq.II] das suas valsas que o próprio compositor arranjou em 1944.

Estas, como sabem, não são valsas cujo espírito coincida com o de Johan ou de Joseph (Strauss outros...) porquanto estão eivadas da agridoce nostalgia que marca a renúncia da Marschallin ao seu amante Oktavian...

Enfim, valsas que, de algum modo, mais se adequam a este tempo que nos cabe, em que a própria dança pede um travo algo amargo ao compasso de três por quatro...

Boa audição!

http://youtu.be/PxoP-lP8m7I [Seq. I]http://youtu.be/ujfQFAokpY8 [Seq.II]

PS: Um dia destes escrever-vos-ei acerca da estada de Richard Strauss em Sintra. Está por investigar mas tudo leva a crer que a Pena estará ligada à génese de "Der Rosenkavalier".

 
 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014



31 de Dezembro de 2014 / 1 de Janeiro de 2015
 
 
Amigos,
 
Oxalá, no Novo Ano, tudo possa ser melhor do que estarão desejando. Muita saúde, a alegria possível e coragem para enfrentar dias que se adivinham difíceis.
 
Sem grande originalidade, deixo-vos com um momento de boa disposição, o famoso 'Brindisi', de "La Traviata" [produção Zefirelli, MET, Stratas, Domingo, Levine], durante o qual todos se congratulam, bebem e mutuamente se saudam, Aí têm a letra para que melhor possam acompanhar.
 
À vossa!

Boa Audição!

http://youtu.be/RZUonmbtVQo


ALFREDO

Libiam ne' lieti calici
Che la bellezza infiora,
E la fuggevol ora
S'inebri a voluttà.
Libiam ne' dolci fremiti
Che suscita l'amore,
Poiché quell'occhio al core
indicando Violetta
Onnipotente va.
Libiamo, amor fra i calici
Più caldi baci avrà.

 
TUTTI

Libiamo, amor fra i calici
Più caldi baci avrà.

 
VIOLETTA
 
S'alza
Tra voi saprò dividere
Il tempo mio giocondo;
Tutto è follia nel mondo
Ciò che non è piacer.
Godiam, fugace e rapido
È il gaudio dell'amore;
È un fior che nasce e muore,
Né più si può goder.
Godiam c'invita un fervido
Accento lusinghier.


TUTTI
 
Godiam la tazza e il cantico
La notte abbella e il riso;
In questo paradiso
Ne scopra il nuovo
dì.

 
VIOLETTA
 
ad Alfredo
La vita è nel tripudio.

 
ALFREDO
 
a Violetta
Quando non s'ami ancora
.

 
VIOLETTA

ad Alfredo
Nol dite a chi l'ignora.

 
ALFREDO

a Violetta
È il mio destin così

 
TUTTI

Godiam la tazza e il cantico
La notte abbella e il riso;
In questo Paradiso
Ne scopra il nuovo dì
.


 
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Tudo o que há a saber
sobre a Augusta Ordem Maçónica


Na primeira pessoa, este testemunho, absolutamente notável, data de 7 de Janeiro de 2012. Em entrevista à RTP, António Arnaut, Meu Querido Irmão, ex Grão-Mestre do Crande Oriente Lusitano, diz tudo, esclarece todas as questões que um qualquer cidadão possa ter curiosidade acerca da Maçonaria. É com o mais veemente aplauso que vos aconselho o acesso ao documento.

 
 
 
 
O ex-grão mestre do Grande Oriente Lusitano, António Arnaut, falou ontem à RTP Informação e defendeu que os maçons não devem ter medo de tornar públicas as...
rtp.pt|De RTP, Rádio e Televisão de Portugal -
 


A EFÉMERA PASSAGEM DOS DIAS E O IMPERATIVO DO DESPOJAMENTO
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Porque toda a carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva.
A erva seca e a flor cai.

1. São Pedro 1, 24
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Pedro Maria e João,
meus netos, o pretexto do princípio e do fim e do resto

Os meus netos, Pedro Maria e João, respectivamente, com dez e dois anos e meio, ainda não compreendem a plenitude destas que são palavras sábias e perenes. De algum modo, no entanto, por via dos valores e princípios que, à sua volta, vão sendo observados, tanto pela família mais próxima como alargada, têm vivido e, espero bem, pela vida fora, continuarão a viver no respaldo e ao abrigo daquelas ideias-chave, em epígrafe.

A transitoriedade e o carácter efémero da vida constituem matizes de um mesmo quadro de referência, nos termos do qual o apelo ao lúcido e inevitável despojamento da matéria é coisa absolutamente decisiva, para ser atendida e posta em prática em todos os tempos, de tal modo que prevaleça o espírito e que, liberto este das amarras dos bens tangíveis, possa aceder à Arte, à Beleza, ao Conhecimento, como sublimes atributos da própria ideia da divindade.

Em dia de celebrar o futuro, penso nos meninos que, aqui perto e em todas as latitudes, também hoje, vivem e morrem a anos luz destas preocupações. E, de facto, assim é porque nos vamos esquecendo de que “(…) a glória do homem é como a flor da erva (…)” Pedro, santo homónimo do meu neto, bem deixou este pensamento à posteridade mas os tempos não vão propícios à sua assunção…

A propósito, sim

Por uma série de afinidades e conotações, não consigo deixar de relacionar a reflexão que convosco partilho com uma peça fundamental do romantismo alemão musical tardio. Trata-se de “Ein deutsches Requiem”, op. 45 de Johannes Brahms (Hamburg, 1833-Wien, 1897) obra datada de 1868, que, apesar do título, não reveste a forma da canónica missa que, muito naturalmente, se associa ao conceito de requiem.

Neste caso, Brahms procedeu a uma tão livre como criteriosa selecção de estratos da Bíblia, traduzidos para alemão, que, nada tendo a ver com o latino ordinário da missa de defuntos, nos remetem para uma visão despojada, necessariamente mais serena da existência humana, talvez mais próxima da mundividência cristã protestante, ainda que o compositor não fosse crente.

Hoje, dia especial de celebração da Vida – que, com a minha marca, apesar de mim, continua no Pedro Maria e no João – em mim, o são convívio com a Morte, outra face da dicotomia. O homem crente que sou, conjuga-as no trilho de uma hegeliana síntese triádica, em que ambas se articulam com a Música, a Arte que me é mais próxima e que, como toda a Arte, mais me aproxima do sublime.

Se puderem, acompanhem-me numa audição de “Ein deutsches Requiem”. Pode não ser hoje mas não deixem de o fazer. Hão-de compreender, estou certo, a razão de vo-lo aconselhar, como mais uma peça do puzzle que muitos de nós vamos jogando ao longo da vida, na tentativa de nos libertarmos do acessório. Se conseguirem chegar onde é possível, também lá estarão o Pedro Maria, o João e todos os principezinhos deste mundo e do outro…

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Deixo-vos com uma gravação de absoluta referência. Eis as suas coordenadas:


Barítono -- Dietrich Fischer-Dieskau
Soprano -- Elisabeth Schwarzkopf
Coro -- Philharmonia Chorus London
Maestro -- Otto Klemperer
Orquestra -- Philharmonia Orchestra London
Orgão -- Ralph Downes


I. "Selig sind, die da Leid tragen"
II. "Denn alles Fleisch, es ist wie Gras"
III. "Herr, lehre doch mich"
IV. "Wie lieblich sind diene Wohnungen"
V. "Ihr habt nun Traurigkeit"
VI. "Denn wir haben hier kleine bleibende Statt"
VII. "Selig sind die Toten


Boa audição!

http://youtu.be/5j5Z_oxSz5w


Que boa notícia!


Vamos lá a ver se, afinal, Sintra não é o terreno conquistado de uma série de senhores que, imunes e impunes, se permitem intervir em zonas críticas como os DDT, ou seja «Donos Disto Tudo» locais. Como bem sabemos, não se trata apenas deste senhor, dono do Central, do Paris, da esplanada debruçada sobre a praça de táxis onde os clientes apanham com fumo dos escapes enquanto bebericam ou manducam, da loja dos vinhos e de não sei que mais...

Detenhamo-nos, por... exemplo, «só» no caso de Seteais. Ali, desde 2008, Miguel Pais do Amaral está a construir uma casa - se for à mesma velocidade no negócio da TAP, de certeza que os aviões nem levantam voo... - que, escandalosamente, foi licenciada para uma cota mais elevada que a do Palácio mesmo em frente. E, a poucos metros, o concessionário do hotel (Tivoli, grupo Espírito Santo) destruiu o tanque com aquele belíssimo enquadramento de zona de lazer, transformando-o numa prosaica casa de máquinas com o beneplácito do próprio IGESPAR...

Vamos lá a ver se esta decisão de embargo da descaracterização da fachada do Central por parte da CMS é mesmo algo de consequente. Vai sendo tempo.

 
 
A Câmara de Sintra embargou a montagem de uma estrutura metálica na fachada do Hotel Central, na sequência de protestos da associação cultural Alagamares contra...
publico.pt
 


30 de Dezembro de 1904

Nascimento do compositor russo
Dmitriy Borisovich Kabalevskiy (m. 1987)

[facebook, 30.12.2014]


Comemorando o aniversário, ouçamos o seu Concerto para Violoncelo No. 2, op. 77 (1964). É solista Raphael Wallfisch e Bryden Thomson o maestro.

1- Allegro molto e energico (13.29)
2- Presto marcato (8.15)
3- Andante con moto (8.06)



Boa audição!


http://youtu.be/O-Ic8QWT5gk…

 
Dmitri Kabalevsky (1904-1987) (Russie) Cello Concerto No. 2 (1964) Violoncelliste : Raphael Wallfisch Dir : Bryden Thomson 1- Allegro molto e energico (13.29...
youtube.com


Efeméride mozartiana
 
30 de Dezembro de 1771
Sinfonia No. 14
 
 
[facebook, 30.12.2014]
 
 
No penúltimo dia do ano, recupero, parcialmente, um dos textos que, em 2012, escrevi sobre todas as sinfonias de Mozart, para me referir àquela que o compositor, então com quinze anos, dava por terminada aos 30 de Dezembro de 1771, a primeira que compôs depois da morte do Príncipe Arcebispo Sigismund Christoph [Conde] von Schrattenbach que ocorrera quinze dias antes.

Tal não significa que, oficialmente, seja esta a primeira que escreve ao serviço do novo Príncipe Arcebispo Hieronymus Joseph Franz de Paula [Conde] Colloredo von Wallsee und Melz, já que a sua eleição apenas será reconhecida em 14 de Março do ano seguinte.

Impõe-se ter presente que, independentemente do modo como as coisas evoluiriam, até conhecerem o desfecho de 1781 que todos sabemos, a relação inicial entre o compositor e o seu novo patrono não podiam ter sido mais promissora.

E tanto assim foi que, apenas em oito meses, portanto, até Agosto de 1772, altura em que deixa Salzburg para se dirigir novamente a Itália, à capital da Lombardia, para se concentrar na sua nova ópera “Lucio Silla”, Mozart compõe para Colloredo nada mais nada menos do que oito sinfonias e, tão impressionado este ficou, que anunciou ao jovem compositor novas e melhoradas condições salariais.

Muito sofisticada, a Sinfonia em Lá Maior, KV. 114, estrutura-se nos habituais quatro andamentos, 1. Allegro moderato, 2. Andante, 3. Menuetto/ Trio e 4. Molto allegro, para uma instrumentação que compreende 2 flautas, 2 oboés, 2 trompas, além dos habituais naipes de cordas.
A interpretação que vos proponho é a da Mozart Akademie Amsterdam sob a direcção de Jaap Ter Linden.


Boa audição!


http://youtu.be/-GlYCO5TI7o
 
 
 
 
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