[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015


2015, Salzburg, XIII

Geneviève Geffray,
em Salzburg, a amizade perfeita


[facebook, 27.01.2015]

Nunca o tinha feito já que respeito a absoluta discrição daquela que, há tantos anos, é a minha maior amiga em Salzburg. Decidi publicar esta foto porque, tantas vezes tendo falado acerca dela, justo é que, muito rapidamente, fiquem a saber de quem se trata. É, de facto, uma amiga que prezo imenso. Tenho nela um orgulho desmedido já que, a nível mundial, a Geneviève, é uma das maiores autoridades em Mozart.

Se querem saber, o evento que a foto ilustra - se bem que do mais alto gabarito, na medida em que se reposta o reconhecimento da Região de Salzburg a quem a serviu, praticamente durante 40 anos, com inexcedível grau de excelência - até nem é dos mais significativos já que a minha amiga, além da Legião e Honra da França, foi condecorada pela República Austríaca com a mais alta distinção cultural, tendo sido feita Professor 'honoris causa'.

Foi ela quem me abriu todas as portas que precisei, não só no Mozarteum, Fundação Internacional de que sou membro, mas também noutras instituições salisburguenses. Acerca dela pode falar o meu amigo André Cunha Leal que, ao serviço da RDP, aqui esteve, em 2006, por altura do 250º aniversário de Mozart e que a entrevistou na sua qualidade de especialista mozartiana e de guardiã do espólio pessoal do génio, 'o divino', como tão bem o classifica o MQI José Anes, mozartiano inveterado, cuja referência eu não poderia deixar de aqui fazer.

Desde a Mozartwoche 2014, Geneviève Geffray e eu andamos às voltas com esta produção de "Davide penitente", porque o louco por cavalos que Marc Minkowski é, grande maestro e nome cimeiro da música mundial, «soprou» a ideia de se articular com Portugal para fazer alguma coisa neste contexto. Por vezes, estas diligências levam anos até que algo se concretize e, assim sendo, sem pressas, vamos gozando a música, os cavalos, a Alta Escola Equestre, as coreografias de Bartabas e melhor programa não podemos ter...

Entretanto, já que cheguei a este ponto de devassar a nossa amizade íntima, não terminarei sem vos dizer que Geneviève fez, em crochet, as botinhas mais queridas que João, o meu neto mais novo calçou, vai para três anos. Segundo ela, é um modelo original, da sua distinta família. Só vos digo é que a encomenda me apareceu em Sintra, sem eu esperar, e ia-me dando 'uma coisinha má' com a comoção...

Uma nota curiosa. Durante as dezenas de anos de trabalho na Fundação do Mozarteum, devido à sua dedicação à «causa mozartiana», Geneviève era carinhosamente tratada por 'Frau Mozart', a Senhora Mozart. Depois de se aposentar, outro epíteto lhe passou a assentar, o de 'Mozart Witwe', a Viúva Mozart... Também destas pequenas histórias se faz a vida de uma grande Senhora, de uma instituição tão respeitada e de uma cidade como esta.

Ao longo da vida, tenho tido o enorme privilégio de contar com amigos muito distintos, figuras públicas conhecidíssimas, juntos por interesses culturais comuns, absolutamente alheios a traficância de qualquer ordem, com quem mantive e mantenho as mais bonitas relações Alguns já partiram, e até muito recentemente, conforme ficaram a saber pelos meus escritos. Sou como sou porque, também eles, me fizeram e têm feito assim. É o caso da Geneviève. Sem ela, nem Salzburg nem eu estaríamos tão bem, percebem?


http://www.ambafrance-at.org/14-11-11-Genevieve-Geffray

 
 
 
 
Conservatrice en chef de la Bibliotheca Mozartiana de la Fondation Internationale Mozarteum à Salzbourg...
ambafrance-at.org
 


2015, Salzburg XII
 

(26 de Janeiro, ao princípio da tarde) 
[At. cronologicamente anterior a Salzburg XI]
 
 
[facebook, 27.01.2015]
 
 
Neste altura abriu um Sol esplendoroso em Salzburg. Ainda não tinha acontecido desde que aqui cheguei na passada quarta-feira. Tenho duas janelas no meu quarto, uma com vista para Monchsberg e outra para Kapuzinenberg, através das quais me apercebo do efeito estupendo sobre o branquíssimo da neve que se acumulou, depois de dois dias a caír, quase ininterruptamente.
...
Aceito todas as condições do tempo que faz, esteja onde estiver, não gosto muito do vento quando bate a chuva, e não sou nada o tipo de pessoa que vem para o centro e Norte da Europa queixar-se da falta que lhe faz o Sol de Portugal. E, de facto, se há coisa que aqui não venho fazer, é esperar que o Sol brilhe, como faz neste momento. Foi só por isso que registei.
 
Com imenso que fazer lá por fora, não resisti vir partilhar convosco a fortíssima impressão que me causou o recital desta manhã de Mitsuko Uchida, na Grosse Saal do Mozarteum. Faço-o, ‘saltando’ um outro evento musical, da manhã de ontem que, ‘en passant’, aludi em ‘Salzburg IX’, o concerto da Capella Andrea Barca, sob a direcção de András Schiff que fica para outra oportunidade porque, de facto, outro valor mais alto se levantou.

Uchida veio interpretar as Sonatas KV. 280, KV. 330 e KV. 576 de Mozart bem como “Quatro Impromptus” op. Post. 142 – D 935 de Schubert. Não me vou deter na descrição de detalhes da interpretação das peças, a todos os títulos absolutamente superlativa. Quando se fala ou escreve sobre Uchida e outros pianistas da mesma galáxia – escassíssimos, actualmente, chegam e sobram os dedos da mão – os adjectivos não chegam. Fiquemos pelo sublime.

Gostaria, isso sim, de vos dar um ou outro apontamento pessoal e de amigos. Depois de um tal assombro, perante o caldeamento das emoções e da torrencial de pensamentos, memórias, comparações, conotações, que são convocados, fica-se perfeitamente arrasado. Ao pé de mim, um pouco por toda a sala, era essa a atitude do público, gratíssimo, elevado pela Arte da diva, em cujas mãos as peças de Mozart e Schubert atingem o estatuto do paradigma da interpretação.

No fim do recital, depois de aplausos prolongados, gratos, cúmplices, uma atitude muito rara neste templo da música: como que impulsionado por uma mola única, o público, de pé, continuava
ovacionando. Muitas lágrimas de felicidade, sorrisos, apertos de mão, abraços, uma catarse fabulosa.

Em memória de ocasião tão especial, gostaria de partilhar convosco, a sua leitura da Sonata em Ré Maior KV 576, chamando a vossa especial atenção para o Adagio.


http://youtu.be/1jd_FDw0Au8
 
 
 
 
 
MITSUKO UCHIDA Mozart Piano Sonata in D major K.576
youtube.com
 


2015, Salzburg, XI
(27 de Janeiro)

[facebook, 27.01.2015]

Neste momento cai um grande nevão sobre Salzburg. Desde o passado sábado, o cenário tem vido a mudar radicalmente. Como sempre acontece antes que o branco se instale para ficar uns tempos, primeiro timidamente e, depois, cada vez mais fortemente, a neve marca uma presença impositiva, determinante e alteradora dos comportamentos dos cidadãos que, de qualquer modo, a esperam sempre e com ela convivem em harmonia.
...
Também é esta 'cultura de Inverno' que espero sempre encontrar quando, nesta altura do ano, aqui passo estas semanas. Nem todos gostam ou podem, tal é o caso da Ana Maria, minha mulher, que me acompanhou em Salzburg, só por altura do Festival da Páscoa, nunca por nunca em Janeiro-Fevereiro. Recusa-se, ponto final, eu respeito e venho sozinho. Confesso, aliás, que poderia faltar a todos os festivais da cidade mas nunca ao Mozartwoche.

Mas, nestas linhas, apenas gostaria de me referir à neve. Os meus caros amigos deverão ter em consideração que esta e todas as cidades do centro e Norte europeu têm de estar muito bem preparadas para os nevões. Nunca por nunca ouvi qualquer queixa. E já tenho apanhado nevões monumentais.

Se, em poucas horas, se acumulam milhares de toneladas de neve por todo lado, a verdade é que os serviços actuam de tal modo que nada, absolutamente nada pára. Como saio muito cedo, cerca das seis e meia da manhã, para fazer a minha caminhada, acompanho os trabalhos que estão a terminar e que se desenrolaram pela madrugada.

Servindo-se de todo o tipo de tractores e limpa-neves, desde os muito grandes aos domésticos, os cantoneiros não param. Tudo funciona. Tudo é previsível. Nada está entupido. Não há lixos abandonados. Aqui, de modo algum, se conjuga a perniciosa cultura do desleixo que tanto, tanto nos tem prejudicado em Portugal. Mesmo perante condições de clima muito exigentes, a normalidade do quotidiano não é minimamente prejudicada.

A neve continua a caír. E de que maneira! Hoje, aniversário de Mozart, tenho imensas voltas a dar. Apenas uma preocupação: cuidado com algumas superfícies geladas onde qualquer descuido pode ter consequências muito perniciosas.

De qualquer modo, a propósito, como não lembrar a queda de uma senhora no execrável pavimento da Heliodoro Salgado, há uns quinze dias, em pleno coração da sede do concelho de Sintra, em consequência da incúria sistemática da Câmara Municipal de Sintra? A mesma Europa, «climas» diferentes, e que distância, Santo Deus!


 


2015, Salzburg X
Domingo, 25 de Janeiro


[facebook, 27.01.2015]

Aqui, as minhas manhãs de domingo são sempre uma graça e, invariavelmente, obedecem a um mesmo figurino. Por ser um especial Dia do Senhor, a Missa impõe-se, não como obrigação, antes necessidade de partilhar a força da Fé e responder à Igreja que nos interpela onde quer que estejamos.

Em Salzburg, Roma do Norte, essa força sente-se sobremaneira e, meus caros amigos, em termos do culto e do seu ritual, a Música protagoniza um papel crucial e, como se sabe, a Arquidiocese de Salzburg da Igreja Católica Apostólica Romana goza o privilégio de contar com um legado inigualável de peças musicais de cunho sacro compostas por um dos maiores génios de todos os tempos.

Ora, como habitualmente se diz, ao citar o grande objectivo dos Jesuítas, através da palavra de Santo Inácio de Loyola, o seu fundador, ‘Ad maiorem Dei gloriam inque hominum salutem’, ou seja, em vernáculo, ‘para maior glória de Deus e salvação do homem’, esta Igreja da cidade dos Príncipes Arcebispos não deixa os seus créditos por mãos alheias, fazendo-o para gozo de todos, crentes e não crentes.
 
As Missas de Mozart, continuam a ser cantadas nesta cidade, durante todo o ano e, de maneira mais sistemática, tanto na Catedral como na igreja dos Franciscanos, cada uma das quais dispondo de orquestra, vozes solistas e coros. Não admira que, na Catedral, as cisas se passem com uma qualidade mais apurada. Assim manda a tradição secular de Salzburg que mantém um Kapelmeister, sempre de grande nomeada – há décadas, Janos Czifra, um queridíssimo amigo da cidade – sob a responsabilidade de quem tudo se alicerça.

Naturalmente, vindo a Salzburg, independentemente da respectiva crença religiosa, ou na sua ausência, não há melómano que dispense a possibilidade de ouvir tais obras e perceber em que medida correspondiam ou não às necessidades da função a que era suposto adequarem-se. Aliás, para que saibam, estas Missas fazem parte do programa da Mozartwoche e, portanto, constantes do grosso ‘Almanaque’ onde todos os eventos são anunciados.

E volto às minhas andanças, de melómano, sim senhor, de Católico e de outras coisas mais afins do que possa parecer. Saí de St. Sebastian, dirigindo-me primeiro aos Franciscanos, onde ouvi a Missa KV262 e, depois, acelerando até à Catedral, para assistir à Credomesse, KV. 257. Quem não me conheça, até seria levado a pensar num rato de sacristia e papa-missas...

Não hesito em confessar-vos a minha preferência pela segunda referida. E, no meu caso pessoal, acontece que foi, já há muitos anos, a primeira Missa de Mozart que ouvi cantada, precisamente, na Catedral de Salzburg. Por isso, é natural que me sinta particularmente ligado a esta obra, que vos deixo para uma audição que, certamente, será do vosso agrado, numa interpretação de referência absoluta.
__________________

- Kyrie (0:00)
- Gloria (2:13)
- Credo (5:28)
- Sanctus (13:36)
- Benedictus (14:55)
- Agnus Dei (19:26)


Intérpretes: Angela Maria Blasi, soprano; Elisabeth von Magnus, contralto; Deon van der Walt, tenor; Alastair Miles, barítono; Arnold Schoenberg Chor; Concentus Musicus, sob a direcção de Nikolaus Harnoncourt.
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Boa audição!

http://youtu.be/jV-8wJAl7nY

 
 
 
 
The mass is divided into the usual 6 sections: - Kyrie (0:00) - Gloria (2:13) - Credo (5:28) - Sanctus (13:36) - Benedictus (14:55) - Agnus Dei (19:26) Compo...
youtube.com
 


As perversas consequências de uma consulta democrática...

[facebook, 27.01.2015]
 
 


Oportunidade a não perder!


[facebook, 26.01.2015]

Os PIGS deveriam aproveitar a oportunidade para se unirem, e «emoldurar» o quadro grego exigindo uma estratégia de remediação comum para os estragos que a troika causou em todos os países europeus periféricos, revelando uma ignorância que há-de ser estudada pelas piores causas em todos os compêndios de Economia do futuro, ignorância que só teve o aplauso do governo de Portugal.

 
 
 
 
O Nobel da Economia Paul Krugman afirmou hoje que o novo primeiro-ministro grego "é mais realista" do que a 'troika' e defendeu que a Europa devia "dar-lhe uma...
noticiasaominuto.com
 


Sintra no seu melhor
- mais uma lição!
 
[facebook, 26.01.2015]
 
 
Primeiramente, leiam a notícia e o anexo que são deveras esclarecedores.
 
Como «amigo da casa» e membro do Conselho Científico da Parques de Sintra, tenho acompanhado as obras e, com muita alegria, aqui estou manifestando a maior satisfação. Em Salzburg, longe dos meus amigos da PSML, eles sabem como, amanhã, dia 27, a Pena lá me tem cativo...

Apenas me resta convidar todos a verificar o resultado de um trabalho de recuperação que, substancialmente, é produto do Amor com que as obras se fazem. Esta «minha gente», tão jovem, é prova provada da confiança que podemos ter no futuro. Estão a fazer o melhor que sabem e podem pelo património de Sintra. E não há vil metal que cubra tanta dedicação e empenho.

Não esqueçam que, enquanto residentes no concelho de Sintra, podem beneficiar da entrada gratuita todos os domingos de manhã. Levem os miúdos da família convosco. A História está ali, ao alcance de todos, numa concreta manhã em que decidirem gozar tal privilégio. Lembrem-se que, só assim, serão totalmente dignos da herança do Senhor D. Fernando e da Condessa d'Edla, na medida em que a vivem.

Disfrutem! De facto, meus amigos, o orgulho não pode ser maior! Longe, em Salzburg, província e cidade de tanto encanto e de tanto património, cuidadíssimo, só a Parques de Sintra consegue fazer com que não me envergonhe, compensando-me pelos desmandos do «resto» de Sintra...

Em Portugal, Q.E.D., a Parques de Sintra, que não recebe um cêntimo dos cofres do Estado e, portanto, dos contribuintes, continua a fazer belíssimas obras que, parece, a inveja e a mais despudorada dor de cotovelo, estão a gerar ondas de cobiça que nada auguram.

Pois, que passe a caravana! Os cães jamais deixarão de ladrar...
 
 
 
 
 
 
A Parques de Sintra concluiu este mês, no Parque da Pena, um conjunto de projetos de recuperação de estruturas construídas e jardins, com o objetivo de conservar os...
www.parquesdesintra.PT
 


Lembrando a Quinta da Piedade
 
[facebook, 26.01.2014]
 

Devo ao Prof. José Luis de Moura a partilha deste vídeo que, a propósito, me suscita a presença de várias memórias. Antes de namorar com Daniel Barenboim, na Quita da Piedade, Jacqueline Du Pré teve uma paixão por outro pianista, Stefan Kovacevitch, todos do mesmo grupo de 'protégés' da Senhora Marquesa de Cadaval, grupo que ainda incluía Martha Argerich e Nelson Freire.
...
Jacqueline e Daniel viriam a casar, o mesmo acontecendo com Marta e Stefan. À excepção da grande violoncelista, já falecida na sequência do tormento de horrível doença degenerativa, os outros estão bem e continuando a fazer grande música. A Senhora Dona Olga não se enganou...

Com mais amigos, hei-de fazer um 'tour de force' a ver se convencemos o Engº Luís Santos Ferro, a quem Sintra e o Festival tanto devem, íntimo da grande mecenas, a escrever a monografia da Quinta da Piedade, através da qual seja possível ter uma ideia aproximada dos grandes artistas, homens e mulheres das Letras, de todas as Artes, que a Senhora Marquesa ali recebeu.

É uma História que não se pode perder.

 
 
 
 
 
These people were on a different level from us mortals...
youtube.com
 


O voto da esperança

[facebook, 25.01.2015]

Na sequência da lúcida nota de João De Mello Alvim, partilho e assinalo que, através do seu voto, os 'nossos compatriotas' gregos, estarão hoje a fazer mais por nós do que todos os deputados dos partidos do designado «arco do poder» de há muitos anos a esta parte...

 
 
"Quando os comentadores políticos catedráticos-ó-papagaios, dizem, entre outras coisas de arrepiar o mais afoito dos eleitores, que o grande perigo do Syriza gan...har, é o de não ter experiência, querem dizer que este partido não tem experiência de andar de braço dado com o sistema financeiro, com as jogadas com os grandes interesses económicos, com as malhas envenenadas do "sistema", que levaram a Grécia ao estado em que está?"

2015, Salzburg, IX

A inveja,
também em Salzburg


[facebook, 25.01.2015]

Esta manhã, no intervalo de um concerto na Grosse Saal do Mozarteum, acerca do qual escreverei mais tarde, falava com uma amiga sobre a 'nobilitação' do grande músico que é András Schiff.

É que tem causado imensos engulhos esta de agora se antecipar o 'Sir' ao seu nome, depois de ter sido considerado 'Knight Bachelor' na sequência da distinção e louvor de que foi alvo por Sua Majestade a Rainha de Inglaterra que o incluiu no "Queen's Birthday Honours list" de 2014, por especiais serviços à Música.
 
Coitado do András Schiff e de todos quantos, por esse mundo, são louvados, distinguidos, condecorados pelas entidades que servem, pelas comunidades onde residem, pelos países onde se deslocam e desenvolvem actividades que sobressaem. Haverá sempre quem espreite para aplicar uma ferroadela, lançando o veneno que a inveja destila.

Pois, tal como a minha amiga dizia, trata-se de pura inveja. E. a propósito de inveja, logo lhe mostrei no seu 'tablet' - manobra de que ela se encarregou porque eu seria totalmente incapaz e, muito sumariamente, traduzi - um texto que publiquei no ano passado sobre o assunto. E, no fim, já sem tempo para ouvir a minha sugestão de audição, despediu-se com a promessa de ir ouvir. Oxalá que o mesmo aconteça convosco.

Aqui passo a reproduzir o texto na esperança vã de que nenhum leitor se sinta atingido...
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Nobre admiração e torpe inveja

Quem acompanha os textos que aqui gosto de partilhar, sabe da profunda admiração que nutro por Soren Kierkgard, filósofo e teólogo dinamarquês (1813-1855). Acerca da inveja, na sua obra "O Desespero Humano", Kierkgard terá escrito uma das mais certeiras considerações que conheço. Permitam que a transcreva:

"(...) A inveja é uma admiração que se dissimula. O admirador que sente a impossibilidade de ser feliz cedendo à sua admiração, toma o partido de invejar. Usa então duma linguagem diferente, segundo a qual o que no fundo admira deixa de ter importância, não é mais do que patetice insípida, extravagância. A admiração é um abandono de nós próprios penetrado de felicidade, a inveja, uma reivindicação infeliz do eu. (...)"

Curiosamente, na mesma sintonia, também o filósofo, matemático, crítico social britânico Bertrand Russel (1872-1970), na bem conhecida "A Conquista da Felicidade", aborda o tema, nos seguintes termos:
 
"(...) De todas as características que são vulgares na natureza humana a inveja é a mais desgraçada; o invejoso não só deseja provocar o infortúnio e o provoca sempre que o pode fazer impunemente, como também se torna infeliz por causa da sua inveja. (...) Afortunadamente, porém, há na natureza humana um sentimento compensador, chamado admiração. Todos os que desejam aumentar a felicidade humana devem procurar aumentar a admiração e diminuir a inveja. (...)"

Às palavras de Bertrand Russel que, tão naturalmente, enaltece o sentimento da admiração que, afinal, só os generosos conseguem conjugar, eu acrescentaria que todos os que desejam aumentar a felicidade humana e, em particular, a sua própria felicidade, devem prosseguir por aquela via.

Permitam um enquadramento pessoal. Ao longo da vida, enquanto profissional da Educação, sempre à espreita de reconhecer os talentos de cada um, fazendo todo o possível por que rendessem o máximo, me vi constantemente na situação de manifestar a minha admiração pelo «outro», fosse o meu colega, o aluno, um funcionário subordinado ou o director.

Dentre os que acedem aos meus escritos, há quem, conhecendo-me há dezenas de anos, sabe que sempre foi esta a minha atitude. Tenho de dar graças a Deus por jamais ter tido qualquer problema em louvar, em enaltecer, em elogiar o melhor trabalho fosse de quem fosse.

Porém, não raro, nos contextos profissionais onde exerci actividade, me deparei com algumas pessoas que chegaram a duvidar da sinceridade desta postura que, felizmente, é partilhada por muita gente de bem. Desgraçada e invariavelmente, aqueles descrentes tinham todas as marcas, exibiam as feridas da vida, orgulhavam-se das chagas das lutas - que, na sua perspectiva, tinham vencido - incapazes de nelas reconhecerem o perverso efeito da inveja em que haviam sido geradas.

A inveja. O perfeito horror da inveja. A inveja, a mesma inveja que tem sido mote para tantas, tantas obras de Arte, de todos os tempos, em todos os domínios, das plásticas, à Literatura, à Música.
E, a propósito. depois destas impressões, não vos deixaria sem o consolo de uma peça da Arte de Johann Sebastian Bach, Cantata "Herr Gott, wir die alle loben dich" BWV 130, onde uma famosa passagem sobre a inveja nos aguarda em 'Der alte Drache brennt vor Neid' [O velho dragão arde em inveja]. A interpretação está confiada à voz do barítono Dominik Wörner, e aos Bach Collegium Japan chorus & orchestra Masaaki Suzuki.


Boa audição!

http://youtu.be/8QUnAVbAqTI

 
 
 
 
Kantate zum Michælis (29. September 1725) Tromba I, II, III, Timpani, Flauto traverso, Oboe I, II, III,...
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