[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O lixo do centro histórico (III)

Neste pequeno percurso, em pleno centro histórico de Sintra, através dos manifestos da cultura do desleixo, se há coisa presente e constante é o motivo, suscitando a contínua atenção de quem esteja disposto a olhar detalhadamente o que se lhe oferece e a tirar as evidentes conclusões.

Assim sendo, encaminhando os nossos passos em direcção à igreja de São Martinho, já de costas voltadas ao prédio onde está instalado o Café Paris, objecto do artigo precedente, imediatamente deparamos com outro inqualificável exemplo de incúria. Já perceberam tratar-se do edifício que define o início da frente urbana que integra a Torre do Relógio e a estação dos correios.

Àquela casa só falta mostrar as tripas, cujo estado se adivinha, sob o aspecto absolutamente degradante da fachada, escandalosamente esburacada e descolorida e por trás das janelas com alguns vidros partidos. Caricatamente, e de modo algum, caso único nas redondezas, cresce abundante vegetação sobre o beiral. A propósito, noutro dia, um miúdo alemão filho do casal com quem eu estava, perguntava se aquilo era o cabelo da casa…

Aquele que poderia ali permanecer como digno representante de um património despretensioso, discreto, algo austero mas ainda perfeitamente operacional, é hoje a inqualificável imagem da generalizada incapacidade da defesa dos interesses da comunidade.

Cumpre que, ao contrário do que tão fácil e habitualmente fazemos, não atiremos as culpas e a responsabilidade, por tão flagrante despudor, ao elo mais ou menos fraco de uma cadeia em que, inequivocamente, todos estamos envolvidos. E neste todos, necessário se revela que verifiquemos se lá estamos incluídos, nós mesmos, os que nos afirmamos na luta pela defesa do património de Sintra…

Recusemos qualquer percepção redutora desta realidade. Entendamos estar perante mais um caso que não interpela só o proprietário do prédio. Também não questiona apenas quem no local prossegue uma actividade comercial. Não, não tenhamos dúvidas. O que ali está bem patente é a imagem que nos devolve o espelho da nossa – minha e vossa – colectiva e individual incapacidade de resolução de problemas cujo enquadramento está perfeitamente ao nosso alcance.

(continua)

terça-feira, 13 de maio de 2008

Os anónimos

Mais uma vez, na passada semana, me vi na necessidade de contactar com um anónimo, a propósito de um texto publicado neste blogue subordinado ao título Lixo do centro histórico (05.05.08). Porque a situação é demasiado frequente e, para mim, extremamente desagradável, decidi transcrever, para partilhar com todos, a parte útil da resposta que lhe dirigi:

"(...) Parece que, neste terreno virtual da denominada blogosfera, o anonimato é coisa tolerada. O anonimato, como opção de identidade ou como opção de encobrimento da identidade. Coisa aberrante, incrível. Custa-me muito a entender tal fenómeno, não só no nosso mas em todos os países cujos Estados se reclamam da Liberdade, da Democracia e do Direito.

Como tenho mais de sessenta anos, pertenço a uma geração que viveu, quase até aos trinta, em regime de ditadura. Foi tempo bastante para saber, na pele, o que é lutar pela Liberdade, pela Democracia e pelo Estado de Direito, como objectivos de vida, pelos quais houve quem desse a vida. E, paradoxalmente, tudo isso para que, hoje em dia, neste meu país, haja quem se sinta na necessidade de recorrer ao anonimato, por exemplo, para defender «a obra» de uma autarca. *

Não percebo. Não foi para isto que a minha geração lutou. A luta de dezenas de anos contra o fascismo, não é compatível com a posição de cidadãos, como a deste meu interlocutor, cujo anonimato, desculpará, só pode escandalizar-me.

Precisamente, uma das marcas da educação que recebi passava, por jamais dar crédito a mensagens anónimas. A palavra de ordem ia no sentido de que, mal se percebesse tratar-se de mensagem anónima, deveria ser imediatamente rejeitada. Aliás, devo confessar que, felizmente, não me lembro de receber mensagens não assinadas.

Pertenço ao grupo de pessoas que passaria sem tão desagradável experiência, não fosse o facto de me ter lançado a esta aventura do sintradoavesso. Certo é que raramente mas, de vez em quando, lá aparece um anónimo a desafiar a minha capacidade de encaixe. (...)"


Que receio pode levar alguém, numa sociedade livre e democrática a esconder-se sob a capa do anonimato? Serão os compromissos? Tratar-se-á de pessoas que, estando fragilizadas por terem caído na tentação de receber determinado favor, não revelam a identidade para não ferir eventuais susceptibilidades? O que levará alguém ao recurso de estratagema tão pouco saudável?

Melhor entendo aqueles que já me têm dito e escrito que, embora até gostassem de o fazer, não poderei contar com a sua intervenção, no espaço derstinado a comentários, exactamente porque se sentem constrangidos por compromissos decorrentes das funções que ocupam. Mas o anonimato? Não, custa demasiado a encaixar. Ou estarei eu a exagerar?

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* Se consultarem o texto original do tal interlocutor anónimo, verificarão que se tratava da Drª Edite Estrela.

O que era aquilo?

Os trinta e cinco festões, pendendo de igual número de suportes, mais ou menos regularmente espaçados na Volta do Duche, não deixavam margem para dúvida. Nos dias 9, 10 e 11 de Maio, naquela tão especial artéria do coração do concelho, iria acontecer Sintra em Flor.

Com tão densa profusão de anúncios, fiquei na expectativa. Pensei que, a exemplo do ano passado, haveria uma série de espaços destinados à exposição de flores e à prática da floricultura, eventualmente para venda ao público passante e visitante. Porém, como por ali circulo diariamente, muito me surpreendeu, nas vésperas do evento, o facto de não ter presenciado qualquer movimento afim da montagem dos standes.

Na passada sexta-feira, primeiro dos três dias da programada iniciativa, ainda pensei que, muito à portuguesa, a organização não tivesse conseguido ultrapassar aqueles normais inconvenientes de última hora. Deveria ter havido um atraso qualquer e, o mais tardar, nos dois dias seguintes – sábado e domingo – a coisa já estaria a funcionar em velocidade de cruzeiro e acabaria em florida beleza.

Pois então, por muito que, mesmo nesta terra, esteja habituado a ver a montanha a parir ratos, nunca imaginei que uma coisa destas pudesse acontecer. Não houvera qualquer atraso. Aquilo que se apresentou na primeira manhã manteve-se até ao fim da tarde derradeira. Era assim uma coisa confrangedora, talvez imaginável num qualquer desconsolado e descaracterizado subúrbio.

No entanto, para que não haja dúvidas, passo à sumária descrição. Do lado esquerdo de quem segue em direcção ao centro histórico, não ocupando sequer a totalidade da pequena área de estacionamento imediatamente antes do portão do Parque da Liberdade, expunha-se diminuta quantidade de flores envasadas, fruto do trabalho de associações que merecem o maior respeito. Mas olhem que era mesmo diminuta, seja qual for a escala de comparação que considerem,

Do outro lado da rua, uma boa dúzia de feirantes de domingo instalara-se no passeio empedrado com os seus tabuleiros, cavaletes e outros recursos mais ou menos improvisados, expondo e vendendo umas queijadas, e uma profusão de paninhos, moldurinhas, bijutarias e outras bugigangas de quejando e duvidoso gosto. Em destaque, a mesma metálica armação do ano passado, com umas flores ali despachadas sem ponta de empenho.

Está claro que não passa pela cabeça de ninguém fazer comparações com os pequenos e grandes mercados de flores da Holanda. Quem conheça, logo recorda Aalsmeer, por exemplo, belíssimo, o maior do mundo, único, perto do aeroporto de Schiphol e de Amsterdam. Mas, atenção, é uma realidade diferente, escala diferente, que trago a este contexto apenas com o objectivo de amenizar o quadro. Nada de confusões…

De qualquer modo, o que também não pode suceder, é que passe pela cabeça do Vereador do Pelouro do Ambiente, responsável pelo Sintra em Flor, autorizar que, através de um tal desconchavo, seja passada tão desqualificada imagem de Sintra. Provavelmente, quem tem razão é o nosso amigo Fernando Castelo quando, tão irónica como certeiramente, no passado dia 8 de Maio,* afirmava que o lixo está institucionalizado...

Sintra em Flor? Mas o que era aquilo? Em plena Volta do Duche? Que falta de decoro!


*Comentário ao texto O lixo do centro histórico (II)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Seteais: incentivo à acção

Como estão lembrados, na passada sexta-feira, dia 9, dei a palavra a Emília Reis que, na sua qualidade de repórter da memória, nos trouxe o testemunho de José Alfredo acerca da luta, de mais de duzentos anos do povo de Sintra, pela manutenção do acesso público ao jardim de Seteais.

Na sequência daquela atitude, quero hoje trazer-vos uma autêntica pérola, com mais de um século. Para melhor poderem saboreá-la, conserva-se a grafia original. A transcrição inclui algumas palavras de introdução e de conclusão de José Ribeiro e Cunha, neto do seu autor, que devem fazer envergonhar os mais timoratos… De minha lavra, apenas os destaques.

Ora apreciem:

Só há um modo de marcar o sentir da população. Ir até lá e exigir que se visite o jardim e se vá ao penedo! Meu avô paterno escreveu em 1898 uma peça que integra o seu livro Crónicas Saloias, editado em 1917, acerca de "O dia de ámanhã":

"(...) se da parte de todas as estações oficiais não ha boa vontade; se do governo ao minicipio, e dêste à paróquia, nada se faz por falta de iniciativa; ergamo-nos todos os que aqui temos interesses, se não movidos pelo amôr a este torrão, berço de muitos, pelo amôr egoísta, - que nêste caso é virtude,- à algibeira de todos, e imponhamos a nossa vontade, que ha de prevalecer ainda que custe; e, se nos falta a iniciativa, porque não temos cerebros que pensem, tenhamos ao menos olhos para vêr, e tino para imitar o que em outras terras de inferiores recursos, dia a dia se vai fazendo pelo seu presente, e, o que é mais, pelo seu futuro. Se não podemos inventar, imitemos ao menos. Já que não o pensar de homens, tenhamos a esperteza do macaco. É preferível a sermos burros! Abril de 1898.(…)”


Penso ser este trecho actual pois refere-se à preocupação de Sintra como era, como é e como será... Já então havia pessoas a pretenderem retirar proveitos de Sintra impedindo o desfrute do belo que atrai o visitante ainda hoje! é que se não forem os de Sintra a pugnar pela terra...

Seteais nos seus Jardins e no Penedo são património de Sintra, dos seus habitantes e dos seus visitantes!Obrigado por me ter alertado para esta tentativa de "golpada".

J.Cunha
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Quem agradece somos nós que, deste modo, beneficiamos de tão belo encorajamento à tomada de uma atitude que honre a voz de tantos antepassados que, na outra dimensão, já devem desesperar por tanta hesitação da nossa parte... Felizmente, não só a este blogue, mas também a outros destinatários preocupados com o que está a passar-se em Seteais, estão a chegar testemunhos congéneres, de gente inconformada, desejosa de intervir com a correcção cívica que se impõe.

Esta é uma causa nobre que, como já se verificou, ninguém ousa apoucar porque tem uma inequívoca carga simbólica. Felizmente, ainda há por aí muita gente com a dignidade de José Ribeiro e Cunha, que não se acobarda. Há muita gente, como ele e como nós, todos os que não temos compromissos, que não devemos quaisquer favores a qualquer camarilha, cidadãos livres, capazes e desejosos de dar o exemplo indispensável às crianças e jovens de Sintra.

Apenas mais uma nota final, extremamente saborosa. Não deixa de ser interessante e muito curioso, o flagrante modo como o tiro saíu pela culatra ao concessionário do Palácio de Seteais, precisamente o mesmo que convidou Bob Geldof a discursar numa conferência do Expresso/BES.

Geldof partiu a louça toda, chamou corruptos e criminosos aos governantes de Angola, país onde o Banco Espírito Santo tem os interesses que, mais ou menos, todos conhecemos. Ora bem, o convidante que não precisava de se justificar, perante os terceiros directamente ofendidos pelo convidado, apressou-se a comunicar que não tinha nada a ver com o facto de o outro ter dito que o rei vai nu...

Enfim, a hipocrisia do costume. Ou seja, perante os poderosos, acusados de criminosos e corruptos, o BES não hesitou em alinhar com eles, demarcando-se do ofensor. Todavia, em Seteais, o mesmo BES, que só foi convidado para concessionário do Palácio, não hesita vestir a pele do ofensor, agredindo toda uma comunidade que, aparentemente, está desguarnecida. Aparentemente.

Em Seteais, que ninguém duvide, mais tarde ou mais cedo do que espera o BES, também o tiro lhe sairá pela culatra...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Emília Reis,
repórter da memória

Já hoje, mas como comentário ao texto que anteontem aqui publiquei, Emília Reis - uma das mais conhecidas e dedicadas militantes da causa da defesa do património de Sintra - subscreveu as palavras que, apenas com alguns destaques que me permiti introduzir, passo a transcrever integralmente:


Eu penso que o Dr.Fernando Seara vai ter que responder às pessoas que o interpelaram, por escrito, sobre o assunto do Campo de Seteais.Para o caso de isso não acontecer brevemente, poderemos, aqueles que se têm envolvido na denúncia, pedir ao senhor Presidente da Câmara que nos receba. Um ano é muito tempo.

Que diligências efectuou a Câmara junto da Sociedade concessionária do Hotel para que seja cumprida a obrigação 4ª. da escritura de aforamento de 1801 que diz expressamente que: “as sobreditas portas francas e publicas do referido gradeamento do mesmo campo que derem serventia para a entrada e sahida do dito paceio publico serão construidas de tal forma que sem dependência alguma possam entrar e sahir por ellas todas as pessoas que delle se quizerem servir e utilizar, sem nunca em tempo algum estarem fechadas com chave, ferrolho, cadeado ou outro fecho semelhante”,- perfeitamente conciliável com uma estratégia de segurança das pessoas que visitam aquele espaço?

Foi para que este direito lhes não fosse negado que se bateram os habitantes da Vila de Sintra em 1801, 1897 e 1934, apoiados pelos respectivos presidentes da Câmara da altura. Não se trata de um capricho ou de uma embirração. Trata-se de honrar, também, a vontade daqueles que nos precederam. Só como curiosidade adianto que, através da acta da reunião da Câmara de 6 de Outubro de 1897 ficamos a saber que, a Comissão que representou os habitantes da Vila que se insurgiram contra a tentativa desse ano foi constituida por alguns dos mais importantes comerciantes da altura, entre eles o fundador da Papelaria Camélia e, também, o dono do Hotel Nunes, um dos fundadores da Sociedade União Sintrense e, até, o que era nesse tempo o administrador do Palácio da Pena - (José Alfredo da Costa Azevedo cita-os todos pelos seus nomes nas Velharias de Sintra II ). Em 1934 o próprio José Alfredo interveio e conta que chegaram a tocar o sino a rebate só por ter constado que o acesso ao Penedo da Saudade estava vedado com uma cancela.

Ora, o acesso ao Penedo da Saudade já o perdemos na década de noventa - por ocasião de obras, também efectuadas pelo actual concessionário do Hotel, nas traseiras do palácio. O espaço foi, nessa altura, ajardinado e fechado com portão e grades.Quanto à fraca participação e apatia dos cidadãos, também isso me deixa muito triste. Mas, só se pode defender aquilo que se CONHECE e se AMA... A Alagamares escreveu no seu blogue em 4 de Maio, a propósito da pouca participação dos portugueses em associações cívicas ou outras, o seguinte: “Democracia não pode ser só formal. Depois não se queixem! O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo”. Eu estou de acordo.

emília reis


E, muito naturalmente, concordamos todos quantos nos empenhamos nestas causas. Convém lembrar aos mais distraídos que a Alagamares já demonstrou, na sua curta existência, ser a única e verdadeira associação de defesa do património de Sintra. Ao contrário dos que, sintomática mas nada surpreendentemente, se mantêm num silêncio tão comprometedor, a Alagamares, também neste caso de Seteais, já tomou a bandeira do nosso descontentamento.

Daqui lhe lanço o repto de nos representar, a todos os que comungamos um mesmo sentimento de repúdio em relação à atitude do hoteleiro concessionário do Palácio de Seteais. Tenho a certeza de partilharmos a convicção de que, também no caso vertente, só há vantagem em que nos apoiemos numa entidade com o perfil associativo da Alagamares.

Na realidade, já passou muito tempo depois do início da afronta. E a afronta continua. A nível individual, já todos fizemos o que era suposto para demonstrar a nossa indignação. Agora, a estratégia só pode ser outra. Sem excessos, educada, civilizada e pedagogicamente - há muitos jovens estudantes cujo envolvimento seria bonito garantir - urge manifestar quanto e como pretendemos honrar a memória de todos os que nos precederam nesta luta pelo manutenção do acesso público a Seteais.

A propósito, não deixem de ler o texto de José Alfredo da Costa Azevedo que tanto nos anima a que sejamos consequentes no pensamento e na acção. Homenagear o querido e saudoso José Alfredo, na passagem do centenário do seu nascimento, não pode apenas passar por aquela sessão do Palácio Valenças, formal, bem compostinha, que muito se terá adequado apenas a quem vive as coisas pela rama e, por vezes, tão hipocritamente.

Com este caso do encerramento intempestivo dos portões de Seteais, temos oportunidade de, pública e civicamente, demonstrar que homenagear aquele homem, honrar a sua memória, é ser digno da sua luta. Afinal, hoje mesmo, continuamos uma luta que, José Alfredo e os seus contemporâneos, ouvindo o sino tocar a rebate, também já continuavam...

Os nossos filhos, os nossos netos, os miúdos das escolas de Sintra, têm de perceber isto mesmo. Estamos a viver mais um episódio da História de Sintra. Cabe-nos demonstrar que somos dignos do momento e que estamos à altura das circunstâncias.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Lixo do centro histórico (II)


Na passada segunda-feira, dia 5, subordinado a este mesmo título, publiquei um texto cujo tema tinha a ver com o lixo, propriamente dito, em sentido restrito, texto aquele cuja abrangência, no entanto, é bastante mais vasta. Exactamente por isso, na edição do Jornal de Sintra que sairá amanhã, dia 9, lixo é palavra que aparece em itálico. Porque, na verdade, se trata de outro o lixo que, a partir daquele primeiro artigo, referirei neste e nos seguintes escritos, sempre a propósito do mesmo local.

Começo por onde mais me convém. Vindo da Volta do Duche, quem chegar à esquina definida pela Igreja da Misericórdia e, aí mesmo, antes de atravessar o largo, olhar para o telhado do prédio onde está instalado o Café Paris, logo começará a entender a que outro lixo eu me refiro. Aquela coisa periclitante, afavelada, é um verdadeiro desafio à incúria e à pouca vergonha…

Quer dizer, tanto a nível nacional como internacional, será muito difícil que, no enquadramento de centros históricos congéneres, a incúria, o despudor ou pouca vergonha, alguma vez tenham alcançado um nível tão degradante. Porém, na continuação da aproximação ao nosso Terreiro do Paço, se observar bem as fachadas frontal e lateral desse mesmo edifício, certamente que não deixará de se aperceber de outros pormenores inquietantes.

Muitos dos vidros que deviam estar naquelas janelas estão partidos ou foram substituídos por película plástica negra, mais ou menos encarquilhada, acinzentada pela poeira. Tanto quanto julgo saber, trata-se de um produto que passa por boa solução, quando utilizada em estufins, como estratagema para evitar o crescimento de ervas infestantes. Ali aplicada, é um completo desatino, confundindo-se com coisa própria de bairro de lata.

Por muita volta que dê às meninges, não consigo perceber como, naquele nobre local de Sintra, se pode oferecer espectáculo tão indecente. Pergunto como se consegue compatibilizar a tão patente degradação deste prédio, discreto mas interessante, com a cafetaria, pretensamente sofisticada, que ali abre portas, acolhida à protecção daquelas duas árvores que, estrategicamente implantadas, tanta miséria ajudam a cobrir…

Estou convencido de que, a habitualmente cosmopolita e descuidada clientela, em gozo de merecido lazer, mal lhe passa pela cabeça a possibilidade da existência de semelhante realidade turística, num dos locais de Portugal de maior fama no estrangeiro. Ah, coitados, se soubessem o que a casa gasta!... Se soubessem como a cultura do desleixo, à portuguesa, é tão pródiga nestes manifestos de dona de casa relaxada e porcalhona, que esconde debaixo do tapete a sujidade que dá mais trabalho a limpar…

(continua)


PS:

Façam o favor de ler a pergunta que me formulou um anónimo, na sequência do mencionado texto do dia 5 e, naturalmente, a resposta que lhe devolvi. Obrigado.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Seteais, tristes dias

O Grupo Espírito Santo, integra a rede dos hotéis Tivoli da qual faz parte a unidade de Seteais de que é concessionário. Muito naturalmente, por estar a beneficiar de uma campanha de obras que decorrerá até Janeiro ou Fevereiro de 2009, foi encerrado o Palácio.

Em inúmeras oportunidades, já tive oportunidade de lembrar, neste mesmo blogue, não sei quantas vezes no Jornal de Sintra, na Assembleia Municipal, através de várias mensagens dirigidas aos Senhores Presidente e Vereador do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Sintra, como é inadmissível a decisão do hoteleiro de impedir o acesso ao recinto que não faz parte da concessão.

Trata-se de atitude de manifesta prepotência que, não só ofende um direito consuetudinário pelo qual o povo de Sintra tem lutado desde os primeiros anos do século dezanove, como também agride a nossa própria inteligência, na medida em que se espalda no esfarrapado pretexto de não arriscar a segurança de pessoas alheias a uma obra que pode decorrer, perfeitamente compatível com a continuidade das visitas.

Fracos resultados

Desconheço o resultado alcançado pela minha sugestão de envio de mensagens de repúdio aos autarcas, sugestão oportunamente secundada pela associação Alagamares e Jornal de Sintra. Se bem entenderam, a intenção era dar a força bastante aos edis para melhor se sustentarem nas negociações com o abusador. Aliás, mal se compreende que seja necessário negociar aquilo que, afinal, apenas se reduz à reposição da situação vigente até ao encerramento…

Apesar do desconhecimento daquela iniciativa, pode concluir-se, depois de um já tão longo período de encerramento, a grande dificuldade da autarquia em fazer cumprir a promessa do Senhor Vereador da Cultura quando, no dia 28 de Março, data da minha intervenção na Assembleia Municipal de Sintra, anunciou ter avocado o assunto. Presumia-se uma rapidez de actuação e resultados imediatos. Infelizmente, como é patente e notório, assim não aconteceu.

Tendo em consideração que, para alcançar o efeito desejado, forçoso é que nos socorramos de todas as instâncias, directa ou indirectamente relacionadas com o assunto, gostaria de informar que, em contacto com os gabinetes do Ministro da Cultura, do qual depende o IGESPAR (entidade envolvida no acompanhamento da obra em curso) e do da Educação, na medida em que os estudantes do Ensino Secundário constituem a maioria dos visitantes de Seteais, solicitei a intervenção dos respectivos titulares.

Lições evitáveis

Pequeno parêntesis para dar conta de um episódio ocorrido no passado dia 30 de Abril, junto aos encerrados portões de Seteais. Estavam cerca de duzentos jovens, cento e quarenta dos quais provenientes de Gondomar, acompanhados pelas respectivas professoras, que se tinham deslocado expressamente para visita a Seteais e à Regaleira. Manifestamente descontentes, afirmavam não compreender as invocadas razões de segurança, pois estava bem à vista de todos como a visita era perfeitamente compatível com os trabalhos em curso.

Como ali passo todos os dias, posso testemunhar que cenas congéneres se repetem constantemente ainda que não seja frequente um tão grande ajuntamento. Alunos e professores, ali mesmo, antes do meu contacto, lamentando o que está a passar-se em Sintra, já tinham decidido apresentar o devido protesto. Por todas as razões e mais esta, é lamentável que Sintra esteja a proporcionar uma imagem tão desagradável.

Estes jovens e todos os cidadãos que ali se deslocam, são confrontados com uma triste lição de incapacidade do exercício da autoridade democrática. Pelos vistos, como se ainda fosse necessário prová-lo, um poderoso grupo financeiro, em pleno século vinte e um, consegue provocar esta situação de manifesta ofensa a toda uma comunidade, num Estado que se afirma Democrático de Direito.

É coisa duplamente triste, porquanto, neste país em que tão poucos são os consumos de bens culturais, ainda há que contar com tal tipo de manigâncias. Dizem os mais descrentes que, no final das obras em curso, o Grupo Espírito Santo acabará por apresentar, como facto consumado, o definitivo encerramento do terreiro de Seteais. Quero e continuo a acreditar que não vamos deixar que isso aconteça realmente.

Mas, só por uma questão de orientação, relativamente ao futuro imediato, gostava de perceber até que ponto estão dispostos a manifestar o vosso direito à indignação e, portanto, a lutar por causa tão simbólica como evidentemente justa. Digam e escrevam de vossa justiça!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Argumento falacioso

Já a caminho do Verão, passou a ser tão frequente, que rara é a noite em que, no parque de estacionamento do Rio do Porto, não pernoitem turistas instalados nas suas auto-caravanas. Hoje de manhã, bem cedo, atestando a veracidade destas palavras, lá estavam cinco daqueles veículos.

Em pleno período estival é fácil ali encontrar número substancialmente mais elevado, transformando o recinto em parque de campismo improvisado, com todas as consequências decorrentes, de ordem sanitária e de segurança, por exemplo. O Jornal de Sintra tem acolhido as minhas denúncias, acompanhadas por fotografias bem ilustrativas da situação sem que as autoridades responsáveis, camarárias ou policiais, tenham feito algo de concreto que impeça tal prática ilegal.

Em conversas mais ou menos informais, deparo com uma opinião, sem pés nem cabeça, de alguns notáveis sintrenses que não hesitam em afirmar como compreendem e não podem condenar a atitude dos auto-caravanistas e das autoridades na medida em que Sintra não disponibiliza uma alternativa capaz.

Parece incrível mas, de facto, é isto o que, normalmente, ouço como resposta às minhas tentativas de busca de cúmplices para as análogas causas em que me empenho. Portanto, para todos os efeitos, na ausência da solução adequada, admitem que se acolha toda e qualquer ilegalidade, desde que, naturalmente, não vão estacionar tão volumosas viaturas nos seus quintais…

Consideram-se tais pessoas cidadãos correctos, convencidos de que lhes assiste inequívoca razão. E, na realidade, mesmo sem as nomear – era o que faltava!... – confirmo até algumas delas como estimáveis e amigas. Sempre que lhes replico, chamando a atenção para a incompatibilidade do factor da correcção cívica com o beneplácito de atitudes ilegais, sou invariavelmente contemplado com um desvio da conversa.

Tão enviesada perspectiva é resultante de uma evidente falha de lucidez. Por muito inconsequente, incoerente e incompatível com os propósitos que afirmam defender, é essa a mentalidade que prevalece, a que se adequa à permanência do statu quo, por mais desagradável que seja.

Veja-se os automóveis ocupando os passeios destinados a peões. Pois se não há alternativa!... Aqui d´el-rei que o pobre esfomeado roubou uma peça de fruta. Mas, então, porque não, pois se o desgraçado não tinha alternativa!… Ou o casal com uma filhinha bebé, que ocupou uma casa abandonada (embora com dono) e é levado a tribunal. Mas porquê, se não tinha alternativa?!...

Ah, não, não brinquemos, pedem, isso já é outra coisa… Porque será que tão lógicos argumentos já não são convenientes a essa gente bem alinhada, disposta a fechar os olhos a certas irregularidades, embora ferindo interesses afectos aos direitos gerais de cidadania, e acabam por dar cobertura a pequenas e grandes ilegalidades? E porque será que se mostram tão radicalmente intransigentes quando estão em jogo casos de ofensa à propriedade? Pois é, o primarismo tem muitos matizes…

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O lixo do centro histórico


Mais uma vez, a consternação e o escândalo. São sacos, embalagens de cartão e de madeira, de maior e menor volume, lixo a granel sobre o passeio, acumulados à volta dos contentores instalados junto às vetustas paredes da igreja de São Martinho, em pleno coração do centro histórico de Sintra, em dia de enorme movimento de pessoas.

Consternação, escândalo. E despudor. Não há aqui ponta de sensacionalismo nem o mínimo exagero. As palavras são o que são e, nesta situação, não podem ser outras. E fico-me pela descrição pois, como compreenderão, por minha manifesta insuficiência, para estas linhas não consigo transferir o fedor. A verdade é que, simultaneamente, a temperatura da manhã quase estival já tinha feito o trabalho do costume, atraindo o mosquedo da ordem.

Era o dia primeiro de Maio, feriado nacional, feriado internacional, Dia do Trabalhador, tudo o que quiserem. No entanto, mesmo tendo em consideração a natureza da efeméride em questão, nada – definitivamente nada! – autorizaria que, mais uma vez, assim se tivesse mostrado tão eloquente manifesto de incapacidade e de cultura do desleixo. Porém, com estes contornos de terceiro mundo, é demais. Infelizmente, demais do mesmo.

Como sabem, este não é um cenário raro. A atestá-lo, um conhecidíssimo comerciante da zona, costuma mostrar volumoso álbum de fotografias a quem pretende ficar completamente identificado com o despautério. Também eu já tive oportunidade de denunciar a situação (v.g., JS 01.09.06), todavia sem qualquer resultado. Já sabem, é o que a casa gasta…

E não é preciso ser adivinho para perceber como, na medíocre perspectiva dos responsáveis do turismo, mesmo ali ao lado, o problema da higiene urbana não é nada com eles... Aliás, na ocasião em que tive o topete de me dirigir ao balcão dos referidos serviços, tentando perceber o que se passava, para poder redigir o artigo supra referido, responderam-me que desconheciam completamente a situação. Poderia eu esperar outra coisa?...

Em pleno centro histórico, este lixo não é mais que a ponta visível de um quadro bem mais profundo e extenso. Há muito mais lixo, com cheiro e sem cheiro, sempre pernicioso, numa zona tão sui generis quanto crítica, que a autarquia já provou desconhecer como gerir com a dignidade que merece.

Certo é que, de quando em quando, a excepção confirma a regra. Sem pretender politizar o assunto, a verdade é que só a CDU parece estar atenta ao que se passa. Veja-se o caso da Bristol, onde foi sustido a tempo o lixo que se impunha…


PS:

Recentemente, em Nápoles, uma questão extremamente bicuda de gestão de resíduos urbanos, atingiu uma escala inadmissível em qualquer latitude dita civilizada, resultando na acumulação de muitas centenas de toneladas de lixo. Afirmou-se que a Máfia comandou todos os cordelinhos da operação. Como em Portugal não há vestígios de um tal polvo, que bicho horroroso estará por aí a minar e a fazer das suas?

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Vinte e Cinco de Abril
À moda de Sintra

(conclusão)



Portanto, a Câmara Municipal de Sintra, não podia ter sido mais infeliz na semana em que se comemorou o Vinte e Cinco de Abril. Primeiramente, ainda não foi capaz de devolver ao povo de Sintra a liberdade de acesso ao recinto de Seteais. Depois, na zona da Estefânea, atamancou uma intervenção de obras que não podia ter sido mais ordinária. Finalmente, muito comprometida, celebrou a data tão à pressa que parecia não querer estar na cena…

…Sempre!

O Vinte e Cinco de Abril ficou conhecido pelo famoso programa dos três D. Para além do descolonizar e, ao contrário do que muitos julgam ou tentam escamotear – como se este fosse um país sequer próximo da média europeia – estão por cumprir democratizar e desenvolver. Preciso é continuar a regar este tão difícil terreno com um fertilizante abundante noutro D, o de denúncia, que implica descomprometimento, coragem e desassombro.

Convém não esquecer que o Vinte e Cinco de Abril não é coisa acabada, comemorável como, por exemplo, a data do armistício que pôs fim às guerras mundiais, através de rituais de circunstância. O nosso Vinte e Cinco de Abril antes é obra aberta, a celebrar como acto inicial de um caminho que, ouso afirmar, apenas começámos a percorrer.

Para tanto, sem discursos grandiloquentes, forçoso é que nos impliquemos, denunciando as situações, não autorizando os eleitos ao incurso em práticas de desleixo na resolução de assuntos, não permitindo sistemáticas omissões que tanto escândalo causam, exigindo a máxima dignidade na resolução de todos os casos de desconforto das populações. Se celebrar Abril não pressupuser este cardápio de objectivos, então não passa de hipócrita farsa.