e quem a vê!...
No último sábado de Maio participei no lançamento do novo projecto da Quintinha Pedagógica de Monserrate, promovido pela Parques de Sintra Monte da Lua, um dia de intervenção do maior alcance cívico, nos domínios da responsabilidade social e ambiental, que se traduziu numa atitude de voluntariado activo de cerca de uma centena e meia de pessoas, crianças, jovens e adultos.
Dividido o grande grupo em equipas de intervenção, lá seguiram estas para os seus destinos. Uma tinha de construir talhões/caminhos e plantação de ervas aromáticas, tarefas afins daquilo que passa a ser designado como Jardim dos Aromas. Outro grupo ficou afecto à construção dos caminhos pedestres, limites e bordaduras. Mais voluntários para a que vai ser conhecida como Mata dos Castanheiros, na limpeza do terreno, corte das acácias, plantação de castanheiros, carvalhos-roble, aveleiras, loureiros e medronheiros.
Tenham ainda em consideração que era imprescindível a instalação de um cercado, delimitando a zona onde vão ficar instalados burros e outros animais. Igualmente se impunha a limpeza e recuperação da linha de água, dela se encarregando uma equipa que também procederia à plantação de salgueiros, freixos, sabugueiros e pilriteiros. Outra gente esteve às voltas com a construção de uma ponte, não sei quantos mais na recuperação do celeiro e outros tantos no arranjo paisagístico do parque das merendas e, em obras de recuperação, um grupo que procedeu ao arranjo e limpeza do tanque.
À cota mais alta, depois de ter enterrado o sapato direito na fresca lama, olhei aqueles dois hectares de dulcíssimo declive, transformado em fervilhante estaleiro. Lá em baixo, do outro lado da estrada, sobre o tranquilo espelho de água, um casal de pato real imperava magnífico, imperturbável, na manhã cinzenta e chuvosa, saudando todo aquele afã de dedicados obreiros.
Quando, no passado Outono, por ali passava nas minhas habituais caminhadas, cheguei a escrever que o cantar das moto serras era melopeia para os meus ouvidos de inveterado melómano. Finalmente, descansava porque assistia às manobras de limpeza e desbaste da floresta que durante dezenas de anos fora criminosamente abandonada. A Parques de Sintra Monte da Lua estava a fazer o que lhe compete. E, agora, mais isto, uma quinta pedagógica, que não podia ter parto mais propício.
Lá fui encontrar os membros do Conselho de Administração, o Professor António Lamas, o Dr. João Lacerda Tavares, o Engº Manuel Baptista, alguns técnicos como a Arq. Luísa Cortesão, o Engº Jaime Ferreira, o Sr. Miguel, Mestre Jardineiro. Fui testemunha deste momento emocionante e muito bonito da vida da empresa, que todos viviam empenhadamente, preparando uma minúscula parcela deste território – a jóia mais preciosa de Sintra que lhes entregámos nas mãos – para ser gozada por milhares de crianças, já a partir deste Verão.
A finalizar, e aproveitando esta deixa, ainda vale a pena chamar a atenção para um conjunto de benfeitorias, já terminadas ou em fase terminal de beneficiação: estufa quente no Parque da Pena, estufa fria no Parque de Monserrate, Casa dos Cantoneiros, Casa da lenha junto à entrada de Santa Eufémia, Casa do Pombal junto à entrada principal do Parque da Pena, cinco caminhos pedestres (entre os quais o de Santa Maria-Castelo), reposição da Cruz Alta, a ETAR de Monserrate e, pois claro, o caso do Chalé da Condessa e envolvente cuja recuperação já está a acontecer.
PSML, quem viu e quem a vê…? Presentemente, com uma média anual de quatro mil visitantes por dia, aquele que já foi ingovernável e vergonhoso sorvedouro de dinheiros públicos, passa a encarar o futuro como empresa de sucesso que até vai apresentar lucros de exploração.
(continua)
[sempre de acordo com a antiga ortografia]
quarta-feira, 4 de junho de 2008
terça-feira, 3 de junho de 2008
Quarenta e três
(conclusão)
Embora o chapéu do Romantismo seja de tal modo abrangente que nele quase tudo cabe, ainda se percebia que a vertente musical do nosso festival se relacionasse com um tempo e uma estética cujas marcas indeléveis ficaram por Sintra, nestes montes, veredas, caminhos e fontes, parques, jardins e monumentos com os quais, de facto, nos relacionamos nem sempre tão bem quanto seria de esperar…
Durante uma boa série de anos, a conotação romântica funcionou relativamente bem. Até a componente de dança, privilegiando um repertório muito afim do designado ballet clássico, se articulava harmoniosamente com a da música, integrando uma oferta global cujos contornos e perfil não punham em questão a tal temática abrangente do Romantismo.
Na realidade, muito mais fácil seria manter aquela marca se, a partir do momento em que passou a residir, não em Seteais mas no CCOC, a componente da dança se tivesse tornado independente, dando origem a uma temporada desfasada do Festival, obedecendo a outros contextos de figurino e calendário, portanto, mais liberta para assumir o perfil programático que, tão positivamente, Mestre Vasco Wellenkamp lhe tem imprimido nos últimos anos.
Como assim não sucedeu, cada vez mais problemática se revela a concretização de uma iniciativa, o Festival de Sintra, que obedeça à geral temática do Romantismo. Por outro lado, sem problema de maior, vai-se admitindo e, praticamente é já facto consumado, que a vertente de dança não tem qualquer conotação com a sua parceira da música, pelo que aparece no programa sem relações de afinidade, por conotação ou denotação.
O caso dos contrapontos
Então, no que se refere aos designados Contrapontos, me parece que a confusão é evidente. Proponho-vos um pequeno exercício de lógica. Primeiramente, tenhamos em consideração que a noção de contraponto, no contexto de um festival de música, tem uma inequívoca conotação com a linha dominante do tema a que obedece a programação geral.
Em segundo lugar, pelas razões aduzidas, não nos preocupemos com a vertente da dança do Festival de Sintra e admitamos que, tal como parece, em 2008 haveria uma linha dominante na programação, obedecendo ao tema Piano em Russo. Ora bem, assim acontecendo, então os eventos enquadrados pela designação Contrapontos –ocupando locais outros, à conquista de públicos outros, revestindo um carácter não formal ou de maior informalidade – deveriam revestir contornos e perfil inequivocamente relacionados, por denotação, com a temática Piano em Russo.
Naturalmente, não é muito fácil encontrar contrapontos a uma tal temática… Mas não é impossível. Todavia, por muita elucubração que o nosso exercício pressupusesse, dificilmente fariam parte do nosso rol o Requiem de Mozart, O Menino e o Mar, com base num texto de Sophia ou a ópera La Traviata de G. Verdi. Da nossa lista, no entanto, poderiam perfeitamente constar outras obras de Mozart, de Verdi, textos de Sophia, ou o programa a apresentar pelo Ensemble de Sopros Juvenil de Massachussetts, desde que devidamente negociado para o efeito... Ou uma peça pelo Teatrosfera. Claro que sim, sem equívocos, respeitando a definição implícita nestas considerações.
Tal como a entendo, importei e divulguei, esta invenção do Maestro Claudio Abbado, concretizada a partir do momento em que foi Director Artístico do Festival da Páscoa de Salzburg, com a feliz designação de contrapontos, não se traduz apenas numa proposta musical, que funcione por contraste com o restante festival, simplesmente por ser menos formal ou informal, ou por ir à conquista de um público outro, como julgo ter sido única intenção no caso de Sintra.
Atenção, também é isso… Mas a subtil articulação com um tema principal é indispensável. Volto a lembrar a designação contraponto que, como sabemos, tem tudo a ver com o mundo da música. A proposta de Abbado, o seu modelo, é que se me evidencia como efectivamente estimulante e desafiante para o ouvinte, assistente e participante.
Vale a pena ter em consideração que, em termos muito gerais, o contraponto é a arte de sobrepor uma melodia a outra e, em sentido mais restrito, de acordo com um conjunto de técnicas composicionais da polifonia. Também se pode entender como uma composição que obedece às regras da simultaneidade melódica. Etimologicamente, tem a ver com um tempo medieval em que a escrita musical se produzia não através de notas mas, isso sim, por ‘pontos’. A expressão cantus contra punctus, i.e., canto, música em contraponto, refere-se à sobreposição de punctus, portanto, ‘nota contra nota’ e, por extensão, ’melodia contra melodia’, ilustra muito bem o que pretendemos defender.
Entre outras coisas, as palavras também nos servem para expressar determinadas ideias e realidades... Num festival que tem uma tão forte vertente musical, a designação contrapontos não é despicienda e, portanto, não pode, não deve aplicar-se fora de um contexto que, sendo muito afim desta arte, é suficientemente abrangente mas não ao ponto de poder acolher tudo e mais alguma coisa, de qualquer maneira…
Tudo, tudo é bem possível acontecer, enquanto evento musical, abrigado à designação de contraponto, inclusive tocar com instrumentos construídos com legumes que, no fim da função, são utilizados para confeccionar uma excelente sopa. Eu assisti a coisas destas na Áustria. Mas a relação temática, a necessidade de referência a um tema principal é indissociável…
Conclusões
Só na aparência será esta uma reflexão para iniciados. Todo o público beneficiará de uma concepção programática que observe os pontos focados. Mas nada disto significa que a presente seja uma edição que não valha a pena. Estas considerações não constituem uma avaliação. Em 2008, o Festival tem todo o mérito. Eu vou lá estar sempre ou quase sempre.
Em suma e em conclusão, estou em crer que se impõe proceder a uma cuidada reflexão acerca destas questões cuja pertinência me parece relevante. Revela-se imprescindível ir ao encontro, descobrir e apresentar um Leitmotiv de grande abrangência, conceber o Festival de Sintra como lugar geométrico de confluências culturais, presentes e articuláveis em vários suportes das Artes e Letras, procurando sincronias, fazendo cortes diacrónicos, não rejeitando anacronismos.
Eis um desafio que é preciso estar à altura.
(conclusão)
Embora o chapéu do Romantismo seja de tal modo abrangente que nele quase tudo cabe, ainda se percebia que a vertente musical do nosso festival se relacionasse com um tempo e uma estética cujas marcas indeléveis ficaram por Sintra, nestes montes, veredas, caminhos e fontes, parques, jardins e monumentos com os quais, de facto, nos relacionamos nem sempre tão bem quanto seria de esperar…
Durante uma boa série de anos, a conotação romântica funcionou relativamente bem. Até a componente de dança, privilegiando um repertório muito afim do designado ballet clássico, se articulava harmoniosamente com a da música, integrando uma oferta global cujos contornos e perfil não punham em questão a tal temática abrangente do Romantismo.
Na realidade, muito mais fácil seria manter aquela marca se, a partir do momento em que passou a residir, não em Seteais mas no CCOC, a componente da dança se tivesse tornado independente, dando origem a uma temporada desfasada do Festival, obedecendo a outros contextos de figurino e calendário, portanto, mais liberta para assumir o perfil programático que, tão positivamente, Mestre Vasco Wellenkamp lhe tem imprimido nos últimos anos.
Como assim não sucedeu, cada vez mais problemática se revela a concretização de uma iniciativa, o Festival de Sintra, que obedeça à geral temática do Romantismo. Por outro lado, sem problema de maior, vai-se admitindo e, praticamente é já facto consumado, que a vertente de dança não tem qualquer conotação com a sua parceira da música, pelo que aparece no programa sem relações de afinidade, por conotação ou denotação.
O caso dos contrapontos
Então, no que se refere aos designados Contrapontos, me parece que a confusão é evidente. Proponho-vos um pequeno exercício de lógica. Primeiramente, tenhamos em consideração que a noção de contraponto, no contexto de um festival de música, tem uma inequívoca conotação com a linha dominante do tema a que obedece a programação geral.
Em segundo lugar, pelas razões aduzidas, não nos preocupemos com a vertente da dança do Festival de Sintra e admitamos que, tal como parece, em 2008 haveria uma linha dominante na programação, obedecendo ao tema Piano em Russo. Ora bem, assim acontecendo, então os eventos enquadrados pela designação Contrapontos –ocupando locais outros, à conquista de públicos outros, revestindo um carácter não formal ou de maior informalidade – deveriam revestir contornos e perfil inequivocamente relacionados, por denotação, com a temática Piano em Russo.
Naturalmente, não é muito fácil encontrar contrapontos a uma tal temática… Mas não é impossível. Todavia, por muita elucubração que o nosso exercício pressupusesse, dificilmente fariam parte do nosso rol o Requiem de Mozart, O Menino e o Mar, com base num texto de Sophia ou a ópera La Traviata de G. Verdi. Da nossa lista, no entanto, poderiam perfeitamente constar outras obras de Mozart, de Verdi, textos de Sophia, ou o programa a apresentar pelo Ensemble de Sopros Juvenil de Massachussetts, desde que devidamente negociado para o efeito... Ou uma peça pelo Teatrosfera. Claro que sim, sem equívocos, respeitando a definição implícita nestas considerações.
Tal como a entendo, importei e divulguei, esta invenção do Maestro Claudio Abbado, concretizada a partir do momento em que foi Director Artístico do Festival da Páscoa de Salzburg, com a feliz designação de contrapontos, não se traduz apenas numa proposta musical, que funcione por contraste com o restante festival, simplesmente por ser menos formal ou informal, ou por ir à conquista de um público outro, como julgo ter sido única intenção no caso de Sintra.
Atenção, também é isso… Mas a subtil articulação com um tema principal é indispensável. Volto a lembrar a designação contraponto que, como sabemos, tem tudo a ver com o mundo da música. A proposta de Abbado, o seu modelo, é que se me evidencia como efectivamente estimulante e desafiante para o ouvinte, assistente e participante.
Vale a pena ter em consideração que, em termos muito gerais, o contraponto é a arte de sobrepor uma melodia a outra e, em sentido mais restrito, de acordo com um conjunto de técnicas composicionais da polifonia. Também se pode entender como uma composição que obedece às regras da simultaneidade melódica. Etimologicamente, tem a ver com um tempo medieval em que a escrita musical se produzia não através de notas mas, isso sim, por ‘pontos’. A expressão cantus contra punctus, i.e., canto, música em contraponto, refere-se à sobreposição de punctus, portanto, ‘nota contra nota’ e, por extensão, ’melodia contra melodia’, ilustra muito bem o que pretendemos defender.
Entre outras coisas, as palavras também nos servem para expressar determinadas ideias e realidades... Num festival que tem uma tão forte vertente musical, a designação contrapontos não é despicienda e, portanto, não pode, não deve aplicar-se fora de um contexto que, sendo muito afim desta arte, é suficientemente abrangente mas não ao ponto de poder acolher tudo e mais alguma coisa, de qualquer maneira…
Tudo, tudo é bem possível acontecer, enquanto evento musical, abrigado à designação de contraponto, inclusive tocar com instrumentos construídos com legumes que, no fim da função, são utilizados para confeccionar uma excelente sopa. Eu assisti a coisas destas na Áustria. Mas a relação temática, a necessidade de referência a um tema principal é indissociável…
Conclusões
Só na aparência será esta uma reflexão para iniciados. Todo o público beneficiará de uma concepção programática que observe os pontos focados. Mas nada disto significa que a presente seja uma edição que não valha a pena. Estas considerações não constituem uma avaliação. Em 2008, o Festival tem todo o mérito. Eu vou lá estar sempre ou quase sempre.
Em suma e em conclusão, estou em crer que se impõe proceder a uma cuidada reflexão acerca destas questões cuja pertinência me parece relevante. Revela-se imprescindível ir ao encontro, descobrir e apresentar um Leitmotiv de grande abrangência, conceber o Festival de Sintra como lugar geométrico de confluências culturais, presentes e articuláveis em vários suportes das Artes e Letras, procurando sincronias, fazendo cortes diacrónicos, não rejeitando anacronismos.
Eis um desafio que é preciso estar à altura.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Quarenta e três
(cont.)
Um Senhor…
Ninguém porá em dívida que, em Portugal, a Fundação Gulbenkian é a entidade que melhor promove e sabe promover uma coerente e consequente programação de eventos musicais. Verdadeira Ilha de Cultura no todo nacional, a Gulbenkian apenas encontra parceiros da sua envergadura em mais algumas grandes instituições mundiais que podem dar-se ao luxo de apresentar propostas musicais só do mais alto nível.
Tal se deve, não só a um incomparável poder financeiro mas também à altíssima competência do seu Director Musical, Dr. Luís Pereira Leal que, ao longo de décadas, tem demonstrado como, igualmente a nível mundial, é uma das pessoas que mais sabe do meio em que se move.
O Dr. Luís Pereira Leal é um director de tal modo proeminente que, prestes a retirar-se para a aposentação, obriga a Gulbenkian a abrir concurso internacional cujo resultado possa assegurar a substituição por alguém que não ponha em causa a sua excepcional competência de colaborador com méritos tão reconhecidos.
Dou-me ao cuidado de isto mesmo escrever porquanto, em Sintra, mesmo habitué do Festival de Sintra, muito raro será quem sabe quanto vale este discretíssimo senhor dos meios culturais portugueses, um dos mais conhecidos directores mundiais de uma grande casa de música, ele que faz parte de uma rede de pares que se pautam por altíssimos padrões em cada um dos parâmetros de avaliação artística.
Pois é, toda a gente sabe que o Dr. Luís Pereira Leal é o Director Artístico da vertente musical do Festival de Sintra. Mas é preciso pôr os pontos nos ii e eu faço-o com o maior prazer. Ora bem, se me dão licença, uma vez terminada a merecidíssima referência, volto agora à citação com que vos deixei no parágrafo final do texto aqui publicado na passada sexta-feira. E repito:
“(…) cada concerto constitui uma proposta que vale por si mesma e uma experiência estética autónoma (…) uma estratégia de coerência que passa por construir associações temáticas entre concertos isolados, convidando o público a percursos de descoberta que encadeiam vários programas em ciclos que lhes dão sentido (…)”.
Programação do quarenta e três
Aquelas são palavras que devem nortear, sem margem para qualquer dúvida, qualquer iniciativa cultural, mais ou menos compósita, tanto se aplicando à temporada da Gulbenkian como aos Festivais de Óbidos, de Mafra, de Sintra, de Luzern ou de Salzburg. Hoje em dia, são princípios de inequívoca aceitação. E tanto assim é que a sua obediência e observância evita a promoção de eventos sem interna lógica e coerência programática.
Na primeira parte do artigo, em 30 de Maio, sublinhei quanto me parece de considerar uma quase façanha o facto de, nesta quadragésima terceira edição do Festival de Sintra, se ter conseguido não fazer concessões à qualidade, apesar do momento tão grave das restrições orçamentais que nos afectam, a nível local e nacional, em todos os domínios.
Tendo sido possível fazer a quadratura do círculo, não baixando a qualidade, seria de esperar que, de modo idêntico, a proposta geral do Festival de Sintra obedecesse a critérios de lógica e coerência inscritos nas preocupações evidentes da citação que vos propus. Tal não significa que esta edição seja um patchwork... Todavia, enquanto oferta compósita de três vertentes - musical, dança e contrapontos - não é perceptível a coerência das associações temáticas.
Esse desejável objectivo me parece não ter sido alcançado – repito, em termos da proposta global – apesar das evidentes conotações presentes à vertente musical, subordinada ao «título» Piano em Russo, que interpreto como afins de uma escola pianística que perdura no tempo, interpretação esta que também acolhe o facto de todos os pianistas nela se inserirem.
E, para que não restem dúvidas quanto ao sentido a atribuir àquelas aspas, desde já esclareço que se referem à minha hesitação quanto ao entendimento de que tal título abranja um homónimo «tema». Se o tema é aquele, deverei conjugá-lo com a ideia da pianística do Romantismo, ideia que ainda não terá sido abandonada pelo Festival de Sintra? Então, e se assim for, como entender, por exemplo, nos recitais de Lugansky, Igoshina e Sokolov, a presença de peças não incluídas naquele período, mesmo aceitando um romantismo lato sensu?
(Continua)
(cont.)
Um Senhor…
Ninguém porá em dívida que, em Portugal, a Fundação Gulbenkian é a entidade que melhor promove e sabe promover uma coerente e consequente programação de eventos musicais. Verdadeira Ilha de Cultura no todo nacional, a Gulbenkian apenas encontra parceiros da sua envergadura em mais algumas grandes instituições mundiais que podem dar-se ao luxo de apresentar propostas musicais só do mais alto nível.
Tal se deve, não só a um incomparável poder financeiro mas também à altíssima competência do seu Director Musical, Dr. Luís Pereira Leal que, ao longo de décadas, tem demonstrado como, igualmente a nível mundial, é uma das pessoas que mais sabe do meio em que se move.
O Dr. Luís Pereira Leal é um director de tal modo proeminente que, prestes a retirar-se para a aposentação, obriga a Gulbenkian a abrir concurso internacional cujo resultado possa assegurar a substituição por alguém que não ponha em causa a sua excepcional competência de colaborador com méritos tão reconhecidos.
Dou-me ao cuidado de isto mesmo escrever porquanto, em Sintra, mesmo habitué do Festival de Sintra, muito raro será quem sabe quanto vale este discretíssimo senhor dos meios culturais portugueses, um dos mais conhecidos directores mundiais de uma grande casa de música, ele que faz parte de uma rede de pares que se pautam por altíssimos padrões em cada um dos parâmetros de avaliação artística.
Pois é, toda a gente sabe que o Dr. Luís Pereira Leal é o Director Artístico da vertente musical do Festival de Sintra. Mas é preciso pôr os pontos nos ii e eu faço-o com o maior prazer. Ora bem, se me dão licença, uma vez terminada a merecidíssima referência, volto agora à citação com que vos deixei no parágrafo final do texto aqui publicado na passada sexta-feira. E repito:
“(…) cada concerto constitui uma proposta que vale por si mesma e uma experiência estética autónoma (…) uma estratégia de coerência que passa por construir associações temáticas entre concertos isolados, convidando o público a percursos de descoberta que encadeiam vários programas em ciclos que lhes dão sentido (…)”.
Programação do quarenta e três
Aquelas são palavras que devem nortear, sem margem para qualquer dúvida, qualquer iniciativa cultural, mais ou menos compósita, tanto se aplicando à temporada da Gulbenkian como aos Festivais de Óbidos, de Mafra, de Sintra, de Luzern ou de Salzburg. Hoje em dia, são princípios de inequívoca aceitação. E tanto assim é que a sua obediência e observância evita a promoção de eventos sem interna lógica e coerência programática.
Na primeira parte do artigo, em 30 de Maio, sublinhei quanto me parece de considerar uma quase façanha o facto de, nesta quadragésima terceira edição do Festival de Sintra, se ter conseguido não fazer concessões à qualidade, apesar do momento tão grave das restrições orçamentais que nos afectam, a nível local e nacional, em todos os domínios.
Tendo sido possível fazer a quadratura do círculo, não baixando a qualidade, seria de esperar que, de modo idêntico, a proposta geral do Festival de Sintra obedecesse a critérios de lógica e coerência inscritos nas preocupações evidentes da citação que vos propus. Tal não significa que esta edição seja um patchwork... Todavia, enquanto oferta compósita de três vertentes - musical, dança e contrapontos - não é perceptível a coerência das associações temáticas.
Esse desejável objectivo me parece não ter sido alcançado – repito, em termos da proposta global – apesar das evidentes conotações presentes à vertente musical, subordinada ao «título» Piano em Russo, que interpreto como afins de uma escola pianística que perdura no tempo, interpretação esta que também acolhe o facto de todos os pianistas nela se inserirem.
E, para que não restem dúvidas quanto ao sentido a atribuir àquelas aspas, desde já esclareço que se referem à minha hesitação quanto ao entendimento de que tal título abranja um homónimo «tema». Se o tema é aquele, deverei conjugá-lo com a ideia da pianística do Romantismo, ideia que ainda não terá sido abandonada pelo Festival de Sintra? Então, e se assim for, como entender, por exemplo, nos recitais de Lugansky, Igoshina e Sokolov, a presença de peças não incluídas naquele período, mesmo aceitando um romantismo lato sensu?
(Continua)
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Quarenta e três
Aí está, a 43ª edição do Festival de Sintra, que se prolongará até 13 de Julho, marcando o calendário de Verão das iniciativas culturais nesta terra. Antes de mais, em tempo de apertos orçamentais, que por toda a parte se fazem sentir, justo é que deixe uma palavra do maior apreço perante o trabalho desenvolvido pelos Directores Artísticos.
Tanto o Dr. Luís Pereira Leal como o Mestre Vasco Wellenkamp, respectivamente responsáveis pelas vertentes musical e de dança, apresentam propostas de qualidade inegável, apesar da mitigada disponibilidade financeira, o que bem atesta o alto gabarito do contributo de ambos.
E não é fácil, mesmo nada fácil, fazer algo parecido com a quadratura do círculo. Não há quem não goste de ir ver um acontecimento cultural cujo protagonista seja o melhor ou esteja entre os melhores do mundo. Durante muitos anos, o Festival de Sintra foi marcado por tais presenças. E esta edição, mesmo em difíceis condições financeiras, até nos traz gente que tal, casos do pianista Grigory Sokolov, em 11 de Julho, ou o Scapino Ballet Rotterdam, em 20/21 de Junho, para mencionar apenas dois casos.
À partida, aliás, relativamente às edições mais recentes, não descortino o mínimo indício de quebra de qualidade, em qualquer dos eventos, que pudesse suscitar alguma apreensão. Portanto, sem concessões à qualidade, aí está a presente edição daquilo que já classifiquei como o mais sofisticado produto cultural de Sintra, enquanto iniciativa anual.
Se bem que a programação continue a obedecer a um figurino que se sustenta na estrutura em vigor há uns anos a esta parte, certos detalhes oferecem excelente oportunidade para partilhar algumas considerações, cuja pertinência os leitores e, em especial, os habituais frequentadores não deixarão de ajuizar.
Todavia, convém-me que, para um melhor enquadramento das notas que se seguem, cite algumas das palavras iniciais do programa da temporada Gulbenkian de Música 2008-2009:
“(…) cada concerto constitui uma proposta que vale por si mesma e uma experiência estética autónoma (…) uma estratégia de coerência que passa por construir associações temáticas entre concertos isolados, convidando o público a percursos de descoberta que encadeiam vários programas em ciclos que lhes dão sentido (…)”.
Na continuação deste texto, compreenderão porque me socorri desta citação.
(continua)
Aí está, a 43ª edição do Festival de Sintra, que se prolongará até 13 de Julho, marcando o calendário de Verão das iniciativas culturais nesta terra. Antes de mais, em tempo de apertos orçamentais, que por toda a parte se fazem sentir, justo é que deixe uma palavra do maior apreço perante o trabalho desenvolvido pelos Directores Artísticos.
Tanto o Dr. Luís Pereira Leal como o Mestre Vasco Wellenkamp, respectivamente responsáveis pelas vertentes musical e de dança, apresentam propostas de qualidade inegável, apesar da mitigada disponibilidade financeira, o que bem atesta o alto gabarito do contributo de ambos.
E não é fácil, mesmo nada fácil, fazer algo parecido com a quadratura do círculo. Não há quem não goste de ir ver um acontecimento cultural cujo protagonista seja o melhor ou esteja entre os melhores do mundo. Durante muitos anos, o Festival de Sintra foi marcado por tais presenças. E esta edição, mesmo em difíceis condições financeiras, até nos traz gente que tal, casos do pianista Grigory Sokolov, em 11 de Julho, ou o Scapino Ballet Rotterdam, em 20/21 de Junho, para mencionar apenas dois casos.
À partida, aliás, relativamente às edições mais recentes, não descortino o mínimo indício de quebra de qualidade, em qualquer dos eventos, que pudesse suscitar alguma apreensão. Portanto, sem concessões à qualidade, aí está a presente edição daquilo que já classifiquei como o mais sofisticado produto cultural de Sintra, enquanto iniciativa anual.
Se bem que a programação continue a obedecer a um figurino que se sustenta na estrutura em vigor há uns anos a esta parte, certos detalhes oferecem excelente oportunidade para partilhar algumas considerações, cuja pertinência os leitores e, em especial, os habituais frequentadores não deixarão de ajuizar.
Todavia, convém-me que, para um melhor enquadramento das notas que se seguem, cite algumas das palavras iniciais do programa da temporada Gulbenkian de Música 2008-2009:
“(…) cada concerto constitui uma proposta que vale por si mesma e uma experiência estética autónoma (…) uma estratégia de coerência que passa por construir associações temáticas entre concertos isolados, convidando o público a percursos de descoberta que encadeiam vários programas em ciclos que lhes dão sentido (…)”.
Na continuação deste texto, compreenderão porque me socorri desta citação.
(continua)
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Bartolomeu Cid dos Santos
(1931-2008)
Na passada quarta-feira, dia 21, morreu em Londres Bartolomeu Cid dos Santos. Ia nos setenta e seis anos, solto das coordenadas do tempo, um menino, é verdade, grande e gordo, amante das boas coisas da vida e preocupado com as mais sérias questões da vida. Venho contar-vosda nossa relação de amizade, indissociável do comum amor a Sintra.
Naturalmente, a outros deixo as referências biográficas deste grande nome da arte portuguesa contemporânea. Todavia, imperioso se revela abordar um ou outro aspecto da vida do homem e do artista, especialmente porque tive o privilégio de beneficiar do seu encanto, em doses inesgotáveis, na sábia sedução que imprimia às conversas pelos caminhos da Arte.
Desde logo, mencionaria o pai, o famoso médico Prof. Cid dos Santos, conhecido humanista, homem de grande cultura, a quem o filho muito viria a dever por toda uma formação e educação direccionada para as artes e humanidades. O Bartolomeu menino estudou, por exemplo, música e alemão, absolutamente determinantes para que, mais tarde se revelasse o inevitável melómano em que se tornou.
Apetecia reproduzir episódios que me contou da sua meninice, tantos e tão ilustrativos desse tempo em que, por ser filho de quem era, pôde contactar a fina flor da intelectualidade portuguesa e internacional, nas salas e à mesa da sua casa ou em viagens inesquecíveis e únicas. Como certa deslocação a Paris, com o pai, por essa estrada fora, no automóvel da família, parando em Espanha, a visitar o médico e escritor Gregorio Marañon, em cuja casa foi descobrir uma autêntica e surpreendente galeria, com obras dos mais notáveis artistas, recentes e de épocas passadas.
Um grande melómano
Comigo, Bartolomeu partilhava o gosto pela música. Quando percebeu que, tal como para ele, a língua alemã é, também na minha perspectiva, instrumento inseparável do acesso a particularidades do universo de Wagner, concluiu que podia confessar-me as suas mais remotas experiências pessoais e directas, ainda miúdo, por exemplo, com a Tetralogia do compositor de Bayreuth.
Em especial, falou de certa récita do Siegfried que assistira em São Carlos, em plena guerra, quando o mítico maestro Knappertsbusch veio a Lisboa dirigir a Filarmónica de Berlin, na mesma oportunidade em que alguns músicos desta orquestra tinham jantado em sua casa… Se isto não é privilégio, então desconheço o que isso seja. Mas compreendo que, por causa das invejas, apenas se conte aos iniciados…
Com ele, a conversa nunca era coisa gratuita e, pelo contrário, sempre estimulante e oportunidade para saber mais. Melómanos inveterados, envolvemo-nos em discussões muito vivas e interessantes. Não raro, tive de recorrer à mais diversa documentação e bibliografia, para sustentar ou corrigir alguma opinião, dele ou minha, para esclarecer qualquer dúvida pertinente.
Neste domínio, em diferentes ocasiões, cheguei ao ponto de incomodar um grande amigo, o Dr Mário Moreau que, com o seu enciclopédico conhecimento do mundo da ópera, nos ajudou a clarificar aspectos mais ou menos obscuros que, também frequentemente, se revelavam altamente desafiantes, em diálogos sem fronteiras, em que toda a Arte, desde a poesia, à pintura, à gravura, à música, em que a política e, particularmente, a participação cívica se articulavam em coerente mosaico.
Sintra, uma preocupação
Contudo, muito sintomaticamente, o que nos fez aproximar não foi a melomania. Deu ele o primeiro passo, precisamente por intermédio do Jornal de Sintra, através de um artigo que subscreveu, em simultâneo com uma carta que me dirigiu, a propósito do estado lamentável do centro histórico, coisa que ele sentia na pele, na medida em que a sua casa, nas Escadinhas da Fonte da Pipa, constituía ímpar ponto de partida para a melhor avaliação.
O Bartolomeu era homem de esquerda, senhor de fortes convicções políticas. Como alguns de nós, mas contra a opinião dos mais poderosos, acreditava na capacidade de mudar a polis, através da participação em lutas de intervenção cívica, na possibilidade de viver uma vida democrática que ultrapasse a retórica dos discursos inconsequentes e se comprometa com as pessoas, com os seus problemas reais e concretos.
Uma das causas que mais o mobilizava era a da defesa e preservação do património, questão bem real e concreta que, inequivocamente – se for perspectivada numa actuação integrada e abrangente – pode contribuir para a mudança em geral e para a melhoria da qualidade de vida em particular. Se alguma prova necessária fosse, demonstrativa do seu empenho, bastaria recordar o apoio pessoal à iniciativa da discussão dos problemas do bairro da Estefânea. Tive-o, exactamente ao meu lado, na mesa que conduziu o aceso debate daquele dia 22 de Março de 2004…
Tinha a família entranhada em Sintra há várias gerações, não estava sempre por aqui mas, quando estava, adorava. E, muito naturalmente, também sofria, como só pode quem assiste à contínua degradação desta sede de concelho que, afirmava ele constantemente, merece outro cuidado, uma gestão adequada às características, ao perfil e ao espírito do lugar.
O artista empenhado
Era um grande senhor da Cultura Portuguesa dos nossos dias. Há mais de cinquenta anos, fundara a Gravura, sociedade cooperativa de artistas gráficos que, em termos concretos e práticos, constituía uma entidade cujos objectivos eram afins da sua postura e filiação política. Como lembrava José Cutileiro, no Expresso do sábado passado, pelos seus dezassete anos, Bartolomeu era já um jovem comunista, capaz de pôr a tocar A Internacional, no ‘pick up’ aos berros, em manobra provocatória…
Mesmo em termos internacionais, Barto – como era conhecido lá por fora – é um nome incontornável da gravura, tão grande e significativo que os ingleses lhe souberam reconhecer o enorme mérito, admitindo-o como professor da célebre Slade School of Fine Arts de Londres, já no princípio dos anos sessenta, ali se mantendo até noventa e seis, altura em que se aposentou. Altamente honrosa, a sua nomeação como professor emérito de Arte da Universidade de Londres e membro da Real Sociedade Britânica de Pintores e Gráficos.
Detentor de um currículo espantoso, foi professor convidado e consultor de várias universidades europeias, fez inúmeras exposições por esse mundo. A fundação Gulbenkian que, como é sabido, não dá ponto sem nó, e só mesmo aos muito grandes dá a honra da promoção de exposições retrospectivas, concretizou uma sobre a obra de Bartolomeu Cid dos Santos cuja concepção era extremamente interessante, tendo constituído assinalável sucesso.
Que homenagem?
Em cerca de três meses, deixaram-nos dois nomes máximos das Artes e Letras portuguesas. Só a sintrense universal incultura se pode permitir não dar o devido destaque à perda de Maria Gabriela Llansol e Bartolomeu Cid dos Santos. Pensar que a sua memória se honra com o minuto de silêncio da ordem, não passa de brincadeira com coisas sérias…
Aliás, depois de tão atrabiliárias concessões de medalhas de ouro do concelho, a figuras totalmente insignificantes cá do burgo, também não imagino o que poderá a Câmara fazer… Uma coisa eu sei, que várias vezes me confessou. Dar-lhe-ia muita alegria ver recuperada a casa de Mily Possoz [será que esta gente dois serviços alguma vez ouviu falar dela?...], outra grande mas esquecida artista, que morreu em Sintra em 1967. Era sua vizinha. Se for necessário, podem contar comigo para lá ir indicar onde fica.
Cá por mim, à guisa de pessoal celebração, mal acabe de escrever este texto, tenho preparado o leitor de CD para ouvir o Acto III de Götterdämmerung (Crepúsculo dos Deuses) de Richard Wagner. Vou escutar este sublime momento da ópera, sob direcção e na leitura de Sir Georg Solti, 1973, dirigindo a Filarmónica de Viena, em que Birgit Nilson, Wolfgang Windgassen, Dietrich Fischer-Dieskau, Christa Ludwig Luccia Popp, e Gwyneth Jones assumem, respectivamente, as personagens de Brünnhilde, Siegfried, Gunther, Waltraute, Woglinde e Wellgunde.
O Bartolomeu tinha esta versão em lugar altíssimo. Para mim, constitui referência máxima. Neste ramalhete das maiores estrelas, há interpretações inultrapassáveis, perfeitamente paradigmáticas, intemporais. Ah, vou acompanhar a audição bebendo um Collares que, pois claro, já está aberto, já foi provado e aprovado. E tenho a certeza de que o Bartolomeu também aprovará esta minha celebração da Vida, da Arte e da Cultura (maiúsculas, à alemã…) com um copo do nosso melhor vinho.
À nossa querida Sintra! Até já, Bartolomeu…
....................................................................................
NB:
Devido a compromissos de ordem vária, apenas poderei retomar a normal publicação diária destes textos, na próxima sexta-feira, 30 de Maio.
(1931-2008)
Na passada quarta-feira, dia 21, morreu em Londres Bartolomeu Cid dos Santos. Ia nos setenta e seis anos, solto das coordenadas do tempo, um menino, é verdade, grande e gordo, amante das boas coisas da vida e preocupado com as mais sérias questões da vida. Venho contar-vosda nossa relação de amizade, indissociável do comum amor a Sintra.
Naturalmente, a outros deixo as referências biográficas deste grande nome da arte portuguesa contemporânea. Todavia, imperioso se revela abordar um ou outro aspecto da vida do homem e do artista, especialmente porque tive o privilégio de beneficiar do seu encanto, em doses inesgotáveis, na sábia sedução que imprimia às conversas pelos caminhos da Arte.
Desde logo, mencionaria o pai, o famoso médico Prof. Cid dos Santos, conhecido humanista, homem de grande cultura, a quem o filho muito viria a dever por toda uma formação e educação direccionada para as artes e humanidades. O Bartolomeu menino estudou, por exemplo, música e alemão, absolutamente determinantes para que, mais tarde se revelasse o inevitável melómano em que se tornou.
Apetecia reproduzir episódios que me contou da sua meninice, tantos e tão ilustrativos desse tempo em que, por ser filho de quem era, pôde contactar a fina flor da intelectualidade portuguesa e internacional, nas salas e à mesa da sua casa ou em viagens inesquecíveis e únicas. Como certa deslocação a Paris, com o pai, por essa estrada fora, no automóvel da família, parando em Espanha, a visitar o médico e escritor Gregorio Marañon, em cuja casa foi descobrir uma autêntica e surpreendente galeria, com obras dos mais notáveis artistas, recentes e de épocas passadas.
Um grande melómano
Comigo, Bartolomeu partilhava o gosto pela música. Quando percebeu que, tal como para ele, a língua alemã é, também na minha perspectiva, instrumento inseparável do acesso a particularidades do universo de Wagner, concluiu que podia confessar-me as suas mais remotas experiências pessoais e directas, ainda miúdo, por exemplo, com a Tetralogia do compositor de Bayreuth.
Em especial, falou de certa récita do Siegfried que assistira em São Carlos, em plena guerra, quando o mítico maestro Knappertsbusch veio a Lisboa dirigir a Filarmónica de Berlin, na mesma oportunidade em que alguns músicos desta orquestra tinham jantado em sua casa… Se isto não é privilégio, então desconheço o que isso seja. Mas compreendo que, por causa das invejas, apenas se conte aos iniciados…
Com ele, a conversa nunca era coisa gratuita e, pelo contrário, sempre estimulante e oportunidade para saber mais. Melómanos inveterados, envolvemo-nos em discussões muito vivas e interessantes. Não raro, tive de recorrer à mais diversa documentação e bibliografia, para sustentar ou corrigir alguma opinião, dele ou minha, para esclarecer qualquer dúvida pertinente.
Neste domínio, em diferentes ocasiões, cheguei ao ponto de incomodar um grande amigo, o Dr Mário Moreau que, com o seu enciclopédico conhecimento do mundo da ópera, nos ajudou a clarificar aspectos mais ou menos obscuros que, também frequentemente, se revelavam altamente desafiantes, em diálogos sem fronteiras, em que toda a Arte, desde a poesia, à pintura, à gravura, à música, em que a política e, particularmente, a participação cívica se articulavam em coerente mosaico.
Sintra, uma preocupação
Contudo, muito sintomaticamente, o que nos fez aproximar não foi a melomania. Deu ele o primeiro passo, precisamente por intermédio do Jornal de Sintra, através de um artigo que subscreveu, em simultâneo com uma carta que me dirigiu, a propósito do estado lamentável do centro histórico, coisa que ele sentia na pele, na medida em que a sua casa, nas Escadinhas da Fonte da Pipa, constituía ímpar ponto de partida para a melhor avaliação.
O Bartolomeu era homem de esquerda, senhor de fortes convicções políticas. Como alguns de nós, mas contra a opinião dos mais poderosos, acreditava na capacidade de mudar a polis, através da participação em lutas de intervenção cívica, na possibilidade de viver uma vida democrática que ultrapasse a retórica dos discursos inconsequentes e se comprometa com as pessoas, com os seus problemas reais e concretos.
Uma das causas que mais o mobilizava era a da defesa e preservação do património, questão bem real e concreta que, inequivocamente – se for perspectivada numa actuação integrada e abrangente – pode contribuir para a mudança em geral e para a melhoria da qualidade de vida em particular. Se alguma prova necessária fosse, demonstrativa do seu empenho, bastaria recordar o apoio pessoal à iniciativa da discussão dos problemas do bairro da Estefânea. Tive-o, exactamente ao meu lado, na mesa que conduziu o aceso debate daquele dia 22 de Março de 2004…
Tinha a família entranhada em Sintra há várias gerações, não estava sempre por aqui mas, quando estava, adorava. E, muito naturalmente, também sofria, como só pode quem assiste à contínua degradação desta sede de concelho que, afirmava ele constantemente, merece outro cuidado, uma gestão adequada às características, ao perfil e ao espírito do lugar.
O artista empenhado
Era um grande senhor da Cultura Portuguesa dos nossos dias. Há mais de cinquenta anos, fundara a Gravura, sociedade cooperativa de artistas gráficos que, em termos concretos e práticos, constituía uma entidade cujos objectivos eram afins da sua postura e filiação política. Como lembrava José Cutileiro, no Expresso do sábado passado, pelos seus dezassete anos, Bartolomeu era já um jovem comunista, capaz de pôr a tocar A Internacional, no ‘pick up’ aos berros, em manobra provocatória…
Mesmo em termos internacionais, Barto – como era conhecido lá por fora – é um nome incontornável da gravura, tão grande e significativo que os ingleses lhe souberam reconhecer o enorme mérito, admitindo-o como professor da célebre Slade School of Fine Arts de Londres, já no princípio dos anos sessenta, ali se mantendo até noventa e seis, altura em que se aposentou. Altamente honrosa, a sua nomeação como professor emérito de Arte da Universidade de Londres e membro da Real Sociedade Britânica de Pintores e Gráficos.
Detentor de um currículo espantoso, foi professor convidado e consultor de várias universidades europeias, fez inúmeras exposições por esse mundo. A fundação Gulbenkian que, como é sabido, não dá ponto sem nó, e só mesmo aos muito grandes dá a honra da promoção de exposições retrospectivas, concretizou uma sobre a obra de Bartolomeu Cid dos Santos cuja concepção era extremamente interessante, tendo constituído assinalável sucesso.
Que homenagem?
Em cerca de três meses, deixaram-nos dois nomes máximos das Artes e Letras portuguesas. Só a sintrense universal incultura se pode permitir não dar o devido destaque à perda de Maria Gabriela Llansol e Bartolomeu Cid dos Santos. Pensar que a sua memória se honra com o minuto de silêncio da ordem, não passa de brincadeira com coisas sérias…
Aliás, depois de tão atrabiliárias concessões de medalhas de ouro do concelho, a figuras totalmente insignificantes cá do burgo, também não imagino o que poderá a Câmara fazer… Uma coisa eu sei, que várias vezes me confessou. Dar-lhe-ia muita alegria ver recuperada a casa de Mily Possoz [será que esta gente dois serviços alguma vez ouviu falar dela?...], outra grande mas esquecida artista, que morreu em Sintra em 1967. Era sua vizinha. Se for necessário, podem contar comigo para lá ir indicar onde fica.
Cá por mim, à guisa de pessoal celebração, mal acabe de escrever este texto, tenho preparado o leitor de CD para ouvir o Acto III de Götterdämmerung (Crepúsculo dos Deuses) de Richard Wagner. Vou escutar este sublime momento da ópera, sob direcção e na leitura de Sir Georg Solti, 1973, dirigindo a Filarmónica de Viena, em que Birgit Nilson, Wolfgang Windgassen, Dietrich Fischer-Dieskau, Christa Ludwig Luccia Popp, e Gwyneth Jones assumem, respectivamente, as personagens de Brünnhilde, Siegfried, Gunther, Waltraute, Woglinde e Wellgunde.
O Bartolomeu tinha esta versão em lugar altíssimo. Para mim, constitui referência máxima. Neste ramalhete das maiores estrelas, há interpretações inultrapassáveis, perfeitamente paradigmáticas, intemporais. Ah, vou acompanhar a audição bebendo um Collares que, pois claro, já está aberto, já foi provado e aprovado. E tenho a certeza de que o Bartolomeu também aprovará esta minha celebração da Vida, da Arte e da Cultura (maiúsculas, à alemã…) com um copo do nosso melhor vinho.
À nossa querida Sintra! Até já, Bartolomeu…
....................................................................................
NB:
Devido a compromissos de ordem vária, apenas poderei retomar a normal publicação diária destes textos, na próxima sexta-feira, 30 de Maio.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Condessa d’Edla,
22 de Maio
Embora o de ontem tivesse sido um dia carregado de efemérides, apenas me vou referir ao 22 de Maio como aniversário da Condessa d’Edla. Esta é daquelas datas que, juntamente com as do nascimento e morte do seu marido, fazem parte do calendário de grandes afectos que vou celebrando, como marcos da memória, ao longo do ano.
Porém, quando convoco e vejo a Condessa no seu afã da Pena, sempre me aparece como Elise, sem o título de conveniência, apenas a mulher que amou e foi amada por um homem tão excepcional como ela. Tanto tempo depois, aqueles dois continuam, para além do tempo, a habitar o nosso espaço real e mítico, a par de outras belas histórias, com amores possíveis e impossíveis, contrariados ou favorecidos, trágicos e idealizados.
O Parque da Pena, lugar onde os mais nobres sentimentos perduram e se derramam, é obra comum de Fernando e Elise. Só podia ser. É na Pena, onde tudo é propício, que, com eles, nos perdemos, confiantes, já libertos das cargas que ali não entram. Mas, para que tal aconteça, é preciso merecer a Pena, como dizia e escreveu o meu saudoso amigo Manuel Rio-Carvalho.
E merecer a Pena é saber lá chegar, sempre a pé, depois da dificuldade da subida. É saber que também há um caminho interior a percorrer, para ser eleito e iniciado nos mistérios do parque de artifício, qual jardim de Klingsor*, terreiro de tentações, onde cada um descobre o que há de melhor em si.
Elise e Fernando deixaram o tesouro que certos agentes da ignomínia se permitiram aviltar indecentemente. Já quase irremediavelmente degradado, o seu ninho de amor cedeu a um incêndio de cujas cinzas, finalmente, vai renascer. Parece ter terminado, estará a terminar o ciclo de horror que se abateu sobre o Parque da Pena. Será que Elise pode voltar ao seu sossego? Creio bem que sim. Hoje há quem, lá por cima na Pena, esteja a fazer o trabalho de recuperação que se impõe.
Não vos deixaria sem que aconselhasse a música mais apropriada à celebração do aniversário. Tenho a certeza que, na sua devoção por Wagner (que também nasceu num dia 22 de Maio…), Elise e Fernando terão ouvido e, provavelmente, cantado ela, as Wesendonck Lieder, de 1857.
O próprio compositor chegou a afirmar, bastante mais tarde, que não tinha feito nada de melhor… Muita da música que poderão escutar nestas canções, está plasmada na ópera Tristan und Isolde. Depois de começarem a ouvir Im Treibhaus (“Na Estufa”), tão presente no Acto III daquele drama lírico, logo dirão que estamos na atmosfera da Pena…
Pois é. Os que ainda não conhecem, passam a dever-me a epifania deste sublime momento de Beleza…
* Richard Wagner, opera Parsifal, Acto II
22 de Maio
Embora o de ontem tivesse sido um dia carregado de efemérides, apenas me vou referir ao 22 de Maio como aniversário da Condessa d’Edla. Esta é daquelas datas que, juntamente com as do nascimento e morte do seu marido, fazem parte do calendário de grandes afectos que vou celebrando, como marcos da memória, ao longo do ano.
Porém, quando convoco e vejo a Condessa no seu afã da Pena, sempre me aparece como Elise, sem o título de conveniência, apenas a mulher que amou e foi amada por um homem tão excepcional como ela. Tanto tempo depois, aqueles dois continuam, para além do tempo, a habitar o nosso espaço real e mítico, a par de outras belas histórias, com amores possíveis e impossíveis, contrariados ou favorecidos, trágicos e idealizados.
O Parque da Pena, lugar onde os mais nobres sentimentos perduram e se derramam, é obra comum de Fernando e Elise. Só podia ser. É na Pena, onde tudo é propício, que, com eles, nos perdemos, confiantes, já libertos das cargas que ali não entram. Mas, para que tal aconteça, é preciso merecer a Pena, como dizia e escreveu o meu saudoso amigo Manuel Rio-Carvalho.
E merecer a Pena é saber lá chegar, sempre a pé, depois da dificuldade da subida. É saber que também há um caminho interior a percorrer, para ser eleito e iniciado nos mistérios do parque de artifício, qual jardim de Klingsor*, terreiro de tentações, onde cada um descobre o que há de melhor em si.
Elise e Fernando deixaram o tesouro que certos agentes da ignomínia se permitiram aviltar indecentemente. Já quase irremediavelmente degradado, o seu ninho de amor cedeu a um incêndio de cujas cinzas, finalmente, vai renascer. Parece ter terminado, estará a terminar o ciclo de horror que se abateu sobre o Parque da Pena. Será que Elise pode voltar ao seu sossego? Creio bem que sim. Hoje há quem, lá por cima na Pena, esteja a fazer o trabalho de recuperação que se impõe.
Não vos deixaria sem que aconselhasse a música mais apropriada à celebração do aniversário. Tenho a certeza que, na sua devoção por Wagner (que também nasceu num dia 22 de Maio…), Elise e Fernando terão ouvido e, provavelmente, cantado ela, as Wesendonck Lieder, de 1857.
O próprio compositor chegou a afirmar, bastante mais tarde, que não tinha feito nada de melhor… Muita da música que poderão escutar nestas canções, está plasmada na ópera Tristan und Isolde. Depois de começarem a ouvir Im Treibhaus (“Na Estufa”), tão presente no Acto III daquele drama lírico, logo dirão que estamos na atmosfera da Pena…
Pois é. Os que ainda não conhecem, passam a dever-me a epifania deste sublime momento de Beleza…
* Richard Wagner, opera Parsifal, Acto II
quarta-feira, 21 de maio de 2008
A César…
[As palavras de D. Manuel Martins, no contexto da entrevista publicada no dia 17 de Maio pelo suplemento Única do semanário Expresso, suscitaram a escrita das memórias e o testemunho pessoal que hoje termino.]
Portanto…
Nos últimos trinta anos tem sido difícil, muito difícil, a minha integração na Igreja que D. Manuel Martins denuncia e acusa de ter deixado de ser evangelizadora. Depois de uma vivência cristã muito empenhada na paróquia de origem, no Liceu e na Faculdade – sempre na vanguarda progressista duma Igreja que tive a grande sorte de conhecer e sentir palpitar pelas grandes causas, a mesma que o bispo resignatário de Setúbal continua a pretender – é doloroso perceber como se tem resvalado e caído neste marasmo farisaico de onzeneiros transformados em figuras de referência.
Muito a propósito, não deixem de entender como esta é a mesma Igreja portuguesa, cujos bispos o actual Papa recebeu recentemente em Roma, chamando-lhes a atenção para a fundamental necessidade de actualização de estratégias e métodos capazes de darem resposta à evangelização nos nossos dias, respondendo às questões do nosso tempo.
Na realidade, Bento XVI, injusta e ignorantemente acusado de reaccionário, pôs o dedo na mesma ferida. Por outras palavras, mais formais e institucionais, o Papa fala a mesma linguagem que D. Manuel Martins… Não, o actual Papa não é uma estrela da comunicação. A sua agenda não é a da comunicação social, na maior parte dos casos, mal preparada e sempre na peugada do que é efémero.
Na sua reserva de estudioso, de teólogo, este é o mesmo homem de sempre, que antes de se tornar cardeal, já fora discreto colaborador de SS João XXIII, e, portanto, não esqueçam, o grande mentor do tão progressista Concílio Ecuménico Vaticano II. Estou em crer que ainda vai surpreender o mundo pelas melhores razões, ele que não vai ter um longo pontificado.
Termino, justificando o título destas linhas. Uma coisa que o lúcido cristão mais facilmente entende que, por outro lado, suscita maior dificuldade de concretização, é a destrinça daquilo que, no viver quotidiano, se deve a César e a Deus. Contudo, ao contrário do que tantos fazem e julgam mais correcto, há zonas de actuação em que é preciso trabalhar para César e para Deus, em simultâneo.
Entenderá sempre mal quem não o perceber, que é para ambos os mundos, de Deus e de César, que são convocados os cristãos católicos, através das palavras finais da entrevista de D. Manuel Martins, que me permito repetir: “(…) Toda esta descoberta da dignidade funda-se na democracia, que passa pela vivência e pelo testemunho de uma descoberta de valores. E estamos muito longe de qualquer coisa a que se possa chamar de democracia”.
Se assim não for, essa coisa que designamos como democracia, continuará a evidenciar mais perversidade do que virtude.
[As palavras de D. Manuel Martins, no contexto da entrevista publicada no dia 17 de Maio pelo suplemento Única do semanário Expresso, suscitaram a escrita das memórias e o testemunho pessoal que hoje termino.]
Portanto…
Nos últimos trinta anos tem sido difícil, muito difícil, a minha integração na Igreja que D. Manuel Martins denuncia e acusa de ter deixado de ser evangelizadora. Depois de uma vivência cristã muito empenhada na paróquia de origem, no Liceu e na Faculdade – sempre na vanguarda progressista duma Igreja que tive a grande sorte de conhecer e sentir palpitar pelas grandes causas, a mesma que o bispo resignatário de Setúbal continua a pretender – é doloroso perceber como se tem resvalado e caído neste marasmo farisaico de onzeneiros transformados em figuras de referência.
Muito a propósito, não deixem de entender como esta é a mesma Igreja portuguesa, cujos bispos o actual Papa recebeu recentemente em Roma, chamando-lhes a atenção para a fundamental necessidade de actualização de estratégias e métodos capazes de darem resposta à evangelização nos nossos dias, respondendo às questões do nosso tempo.
Na realidade, Bento XVI, injusta e ignorantemente acusado de reaccionário, pôs o dedo na mesma ferida. Por outras palavras, mais formais e institucionais, o Papa fala a mesma linguagem que D. Manuel Martins… Não, o actual Papa não é uma estrela da comunicação. A sua agenda não é a da comunicação social, na maior parte dos casos, mal preparada e sempre na peugada do que é efémero.
Na sua reserva de estudioso, de teólogo, este é o mesmo homem de sempre, que antes de se tornar cardeal, já fora discreto colaborador de SS João XXIII, e, portanto, não esqueçam, o grande mentor do tão progressista Concílio Ecuménico Vaticano II. Estou em crer que ainda vai surpreender o mundo pelas melhores razões, ele que não vai ter um longo pontificado.
Termino, justificando o título destas linhas. Uma coisa que o lúcido cristão mais facilmente entende que, por outro lado, suscita maior dificuldade de concretização, é a destrinça daquilo que, no viver quotidiano, se deve a César e a Deus. Contudo, ao contrário do que tantos fazem e julgam mais correcto, há zonas de actuação em que é preciso trabalhar para César e para Deus, em simultâneo.
Entenderá sempre mal quem não o perceber, que é para ambos os mundos, de Deus e de César, que são convocados os cristãos católicos, através das palavras finais da entrevista de D. Manuel Martins, que me permito repetir: “(…) Toda esta descoberta da dignidade funda-se na democracia, que passa pela vivência e pelo testemunho de uma descoberta de valores. E estamos muito longe de qualquer coisa a que se possa chamar de democracia”.
Se assim não for, essa coisa que designamos como democracia, continuará a evidenciar mais perversidade do que virtude.
terça-feira, 20 de maio de 2008
A César…
Um parêntesis ainda mais pessoal
Seria desperdício andar à volta desta história, falar da importância de Belém, e não me deter um pouco noutro importante pólo eclesial da Lisboa de então, a Capela do Rato. Trata-se de um pequeno templo, na Calçada Bento da Rocha Cabral, uma das ruas que, saindo do largo, dá acesso ao Jardim das Amoreiras (o encantado jardim da minha mais remota infância, já que nasci na Rua das Amoreiras, mesmo defronte da Mãe d’Água).
Para trazer a capela a esta página, preciso é que a lembre e considere parte integrante de um palácio, hoje sede do Partido Socialista, que foi residência dos Marqueses da Praia. E lá vem um parêntesis. Desculparão, se puderem, mas não consigo ir escrevendo estas linhas, sem que se insinuem, vindas de memórias cada vez mais vivas, lugares e pessoas que, tão impressivamente me marcaram.
Por uns momentos, deixem que vos recorde o Dr. Duarte Borges Coutinho. Logo em criança, tive o privilégio de conhecer este grande amigo de meu pai – lá em casa era o Praia – economista, director da General Electric Portuguesa e presidente do Benfica (do tempo em que o Benfica foi dirigido por gente culta e educada…), quarto Marquês da Praia, que não morria de amores pelo regime, dono do palácio cuja capela franqueou à Juventude Escolar Católica (JEC), coordenada pelo Padre Alberto.
Mal sabia eu que, àquela mesma casa do Praia, ao Largo do Rato, ficaria ligada uma história de vivência religiosa, de afectos e de cidadania que, em mim e tantos conhecidos e amigos, cimentou os alicerces de uma geração que continua a pautar-se pelos valores que ali se promoviam, não como parte de uma liturgia mas na certeza de que eram essenciais para a vida que pretendíamos, como gente interveniente na polis, portanto como políticos.
Semanalmente, durante toda a minha adolescência e juventude, frequentei a Capela do Rato, verdadeira Casa de Cultura e de partilha dos grandes valores que todos prezamos, espaço de encontro e de convívio de muitos estudantes, que ali procuravam a âncora espiritual de uma Igreja que, ao tempo, não se demitiu do papel que lhe cabia. Todavia, como sabem, não foi este trabalho de sapa, com centenas e centenas de jovens, durante a década de sessenta, que fez a fama da Capela do Rato e isso sim, a célebre vigília que abalou a ditadura.
(continua)
Um parêntesis ainda mais pessoal
Seria desperdício andar à volta desta história, falar da importância de Belém, e não me deter um pouco noutro importante pólo eclesial da Lisboa de então, a Capela do Rato. Trata-se de um pequeno templo, na Calçada Bento da Rocha Cabral, uma das ruas que, saindo do largo, dá acesso ao Jardim das Amoreiras (o encantado jardim da minha mais remota infância, já que nasci na Rua das Amoreiras, mesmo defronte da Mãe d’Água).
Para trazer a capela a esta página, preciso é que a lembre e considere parte integrante de um palácio, hoje sede do Partido Socialista, que foi residência dos Marqueses da Praia. E lá vem um parêntesis. Desculparão, se puderem, mas não consigo ir escrevendo estas linhas, sem que se insinuem, vindas de memórias cada vez mais vivas, lugares e pessoas que, tão impressivamente me marcaram.
Por uns momentos, deixem que vos recorde o Dr. Duarte Borges Coutinho. Logo em criança, tive o privilégio de conhecer este grande amigo de meu pai – lá em casa era o Praia – economista, director da General Electric Portuguesa e presidente do Benfica (do tempo em que o Benfica foi dirigido por gente culta e educada…), quarto Marquês da Praia, que não morria de amores pelo regime, dono do palácio cuja capela franqueou à Juventude Escolar Católica (JEC), coordenada pelo Padre Alberto.
Mal sabia eu que, àquela mesma casa do Praia, ao Largo do Rato, ficaria ligada uma história de vivência religiosa, de afectos e de cidadania que, em mim e tantos conhecidos e amigos, cimentou os alicerces de uma geração que continua a pautar-se pelos valores que ali se promoviam, não como parte de uma liturgia mas na certeza de que eram essenciais para a vida que pretendíamos, como gente interveniente na polis, portanto como políticos.
Semanalmente, durante toda a minha adolescência e juventude, frequentei a Capela do Rato, verdadeira Casa de Cultura e de partilha dos grandes valores que todos prezamos, espaço de encontro e de convívio de muitos estudantes, que ali procuravam a âncora espiritual de uma Igreja que, ao tempo, não se demitiu do papel que lhe cabia. Todavia, como sabem, não foi este trabalho de sapa, com centenas e centenas de jovens, durante a década de sessenta, que fez a fama da Capela do Rato e isso sim, a célebre vigília que abalou a ditadura.
(continua)
segunda-feira, 19 de maio de 2008
A César…
“(…)
Em Setúbal, quando dizia ao fim da missa: «Ide em paz…», apetecia-me dizer: «Ide em guerra…» Ou seja: ide enfrentar as questões da vida, os ordenados em atraso, a fome de tantas famílias, as falências provocadas… Era necessário denunciar corajosamente as agressões à dignidade humana. Instigar as pessoas a tomar atitudes perante as injustiças.(…)
Hoje, a nossa Igreja é um arquipélago. Vive-se para a liturgia, não é evangelizadora. Acho que a Igreja não está a «funcionar», a comportar-se como Jesus quer. Já ninguém sai da missa «incomodado», na sua consciência, com a liturgia. A Igreja perdeu a capacidade de «sujar» as mãos com a vida dos homens. A Igreja deveria manifestar-se mais. Por vezes, acredita mais no Belmiro de Azevedo e outros, anda penduradas em dependências… A Igreja evangeliza por sinais e a nossa, em Portugal, não tem dado sinais. (…)
Preferimos andar «nisto», que não incomoda ninguém… As pessoas da Igreja já perderam capacidade de protesto. Por exemplo: perante a lei do trabalho que querem colocar em vigor, não percebo como é que a Igreja se cala, diante de uma agressão tão grande aos direitos da pessoa humana! É iníquo a Igreja calar-se. Dói-me que a Igreja ande entretida com coisa outras e não se empenhe numa questão tão importante para a vida da população, do país, (…) Tem de sair para a rua para o povo notar que está ao serviço do Homem. Toda esta descoberta da dignidade funda-se na democracia, que passa pela vivência e pelo testemunho de uma descoberta de valores. E estamos muito longe de qualquer coisa que se possa chamar de democracia.”
[D. Manuel Martins, bispo resignatário de Setúbal, em entrevista ao suplemento Única do semanário Expresso, 17 de Maio de 2008].
Leio estas palavras de D. Manuel Martins e, como católico que sou, logo se confirma e renasce a esperança. Sendo esta a voz do difícil tempo que vivemos – e, já repararam que, para cada geração, o seu tempo nunca foi fácil… – também não deixa de ser a da lucidez que se projecta no futuro. Porque esta voz de D. Manuel Martins, vem do princípio do tempo, e não mais se calará.
Em termos pessoais, aberta e directamente, apenas posso falar do tempo que tenho vivido. Do passado falarei, como tributo às fantásticas pessoas que, para sempre, determinaram o perfil de quem, diariamente, convosco partilha preocupações de ordem cultural, social, cívica, inequivocamente enquadradas pelos valores da Igreja que D. Manuel Martins pretende.
Nasci na década de quarenta. Nos anos cinquenta, enquanto aluno do Liceu Don João de Castro, tive como professor de Religião e Moral, Monsenhor Adriano Botelho. Era aristocrata, Visconde de Botelho, o grande senhor que nada tinha de seu – dava tudo, tudo o que recebia – esse padre que me ensinou a existência de presépios vivos, na zona do Rio Seco, entre Monsanto e Alcântara, onde famílias viviam em cavernas e cabanas.
Por essas e por outras foi desterrado para a Patagónia… A década de sessenta, atravessei-a sempre como membro desta Igreja que D. Manuel Martins proclama e reclama. A minha paróquia era a de Santa Maria de Belém, com sede no mosteiro dos Jerónimos, cujo prior era, nem mais nem menos, José da Felicidade Alves, o padre que viria a ser suspenso a divinis, por SS Paulo VI, porque teve a coragem de anunciar o Evangelho como é suposto que a Igreja Católica Apostólica Romana o faça, sem temores, ao lado dos pobres e dos desfavorecidos.
E seus companheiros, por exemplo e entre outros, os padres João Resina Rodrigues, engenheiro e professor no Instituto Superior Técnico, António Emílio, capelão da Casa Pia (que viria a ser prior de Colares) e o mais famoso, Alberto Neto, grande pedagogo, meu querido e pessoal amigo, todos eles homens envolvidíssimos nas denúncias dos excessos da ditadura de então, paredes meias com o bairro do Restelo, onde vivia a mais poderosa legião de notáveis do regime.
(continua)
sexta-feira, 16 de maio de 2008
As florinhas da Volta do Duche
Fernando Castelo, conhecido militante da defesa do património de Sintra, assíduo colaborador do Jornal de Sintra e do sintradoavesso, subscreveu um delicioso comentário ao post de ontem Lixo do Centro histórico (III). Como pretendo que não passe desapercebido e seja lido com o destaque merecido, passarei imediatamente à sua transcrição:
Meu caro João Cachado,
Vejo-me obrigado a dizer-lhe "Alto Lá!!!".
Permite-se dizer "(...) os que nos afirmamos na luta pela defesa do património de Sintra(...)". Que despautério, meu caro, já alguma vez mereceu que qualquer alta figura cá do burgo atravessasse a rua apenas - e só - para o cumprimentar com toda a respeitabilidade? Ná, algo fervilha na sua mente que o leva a enquadrar-se no núcleo quase secreto dos defensores do património.
Na verdade o telhado que refere até já tem apresentado umas florinhas, pequenas é certo, mas a dar mais cor ambiental. Cortá-las ainda vai merecer algum reparo e depois, meu amigo, fuja para a caixa postal que fugir, vai ser apanhado, o que é fácil. Além do mais, na eminência de uma qualquer derrocada, algumas pessoas que lá fiquem soterradas virão a beneficiar de um discurso adequado, louvando o facto de ter trazido Sintra para os ouvidos do Mundo.
O marketing também estuda estas nuances, com objectivos de imagem. É fácil deduzir-se que está proibido de entrar nos Jardins de Seteais, ficando ao portão a ver aqueles carritos todos que os donos, potenciais masoquistas, lá conseguem estacionar perante o perigo invocado e que nos corta o acesso pedonal.
Depois é o lixo, ali mesmo junto dos olhos, do nariz e do queixo do Senhor Vereador do Turismo (tem gabinete mesmo para esse lado!!!), mas essa falta de consideração por ele é ilusória, pois o mesmo é oferecido a quantos turistas aguardam pela chegada de um autocarro que os leve até à Pena. Desconfio, até, que alguns deles inventam não ter lugar - nem de pé - no veiculo, só para aspirarem mais uns bons minutos aquela ar património da humanidade.
Só lhe lembro mais uma coisa, para completar a minha opinião (tinha algumas mais, mas...) sobre os seus exageros na defesa do património. Alguma vez se metia na cabeça de alguém a criação de parques periféricos, para evitar filas intermináveis de carros no centro da Vila, que se fala em ser histórico? Só o meu amigo. A poluição que daí resulta, os milhares de veículos que assim nem chegam a parar em Sintra, apenas o pára/arranca, gratificante e por certo aplaudido por gente local que assim não terão incómodos passeantes.
Não leve a mal este meu reparo, mas é altura de agradecer o facto de ter uma garagem quase em derrocada, bombas de gasolina aos pedaços, carros sobre tudo o que é sítio quando há espectáculos no Olga Cadaval, falta de sinalização que nos dá o gosto de vermos camiões TIR articulados até ao Palácio Nacional e depois não se saber como vão voltar para trás.
Admito que agora ficou convencido de qualquer coisa, mas - desculpar-me-á - eu também tive culpa. Mas estou consigo. Um abraço,
15-05-2008 14:38
É, na realidade, uma peça inteligente, suculenta de ironia, de bom humor, em que Fernando Castelo faz rápida mas incisiva caricatura da situação de desgaste a que chegou a causa da defesa do património em Sintra. Naturalmente, o entendimento total deste texto só é possível àqueles que souberem ler nas linhas e nas entrelinhas. Todavia, como não é um criptograma, não é difícil. Por isso, posso confirmar que, para além de inteligente, é perfeitamente inteligível...
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