sexta-feira, 17 de junho de 2011
Francisco Assis esteve de tal modo empenhado na defesa das mais contundentes asneiras do Governo cessante, que chegou ao ponto de protagonizar tristíssimas figuras, difíceis de encaixar num homem inteligente como ele é. A perspicácia que não lhe falta deveria ter-lhe ditado, neste momento, uma estratégica retirada que permitisse, logo que possível e conveniente, um regresso auspicioso ao desempenho de missões para as quais poderá estar vocacionado.
Assim não considerou Francisco Assis. Decidiu expor-se à conquista do lugar de Secretário-Geral do partido, objectivo que, muito dificilmente, alcançará. No entanto, tenha-se em consideração que, durante anos a fio, ninguém melhor do que ele poderia ter desempenhado, tão dedicada e afanosamente, aquele papel de chefe do grupo parlamentar. Contudo, em vez de um capital que, agora, poderia render dividendos, funções tão recentes, acabam por suscitar o efeito contrário.
Naquele lugar de absoluto destaque, na primeira fila do Parlamento, Assis foi a vítima sacrificial de um Sócrates sacerdote, que dele fez uso e abuso, submetendo-o a provas de fogo onde, tão flagrantemente, o queimou para além do aceitável. Pois bem, agora, em vez de lhe reconhecerem serviço tão abnegado, os camaradas, que tanto o incensaram, afastam-se, receando chamuscarem nas brasas que transporta do inferno que Sócrates atiçou. Até para que a fénix nasça das cinzas, preciso é que o tempo passe. Assis esqueceu-se e vai pagar caro o erro.
Provindo de cinzentas paragens, sabiamente e com florentinas pinças gerindo seus tempo e espaço, eis que, impoluto, surge António José que até Seguro tem o nome propício aos mais infantis e óbvios trocadilhos. O saldo de Sócrates, no partido e no país, é tão negativo que difícil não é ser substituído por quem não conheço um rasgo, uma centelha, uma ideia. Nem sequer uma peregrina ideia, por onde pegar. É a aposta no óbvio. Tudo neste sujeito é óbvio, fastidiosa, tendencial e intencionalmente óbvio.
É, obviamente, o futuro líder sem mácula, o acabado produto de uma designada terceira via – que, para todos os efeitos, nem sequer cabe na matriz definidora de que, in illo tempore, Blair se reclamava – prestes a percorrer uma via sem escolhos, sob os aplausos dos mesmíssimos militantes que, ainda noutro dia, ao som de trombetas triunfantes, elegiam José Sócrates com noventa e tal por cento dos votos, num evento que teve muito mais de comício do que de congresso.
Nunca pensei que um óbvio sentimento de orfandade pudesse afectar tantos socialistas – ou, melhor, tantos militantes do Partido Socialista, o que não é bem a mesma coisa... – ao ponto de, tão manifestamente, se envolverem numa aventura em que não há ponta de carisma, onde nem há palavras nem obras. Que mistério é este, que deserto, que miragem? Será que, no Largo do Rato, uma série de boas cabeças aceitam encolherem-se, autorizando o contento da maioria com esta indigência?
Não me parece que, tão facilmente, assim possamos concluir. Algo de muito mais profundo se passa que, aliás, é comum a todas as latitudes europeias, à esquerda, ao centro e à direita do espectro político-partidário. A mediocridade mais desalentada tomou de assalto partidos, governos nacionais e supranacionais. É o império dos Sarkozy, Berlusconi, Merkl e Barroso e está tudo dito. Está e estará, ainda por mais uns anos.
Entretanto, numa estratégica e sábia reserva, as boas cabeças esperam pelo momento de aparecerem. Compreensivelmente, trata-se de uma elite que recusa partilhar o poder com os folclóricos pacóvios que vão proliferando como cogumelos. Ora bem, é neste túnel de desmedida e negra ignorância que, por enquanto, vamos esperando a luz que, fatalmente, surgirá. Por enquanto, ainda é o tempo dos Seguro e Passos Coelho. Obviamente, pois que sejam eleitos! Um dia destes, obviamente, serão demitidos…
terça-feira, 14 de junho de 2011
Civismo ou bandalheira
Passámos por um processo eleitoral que sancionou o governo cessante afastando da ribalta o partido político que o suportava no parlamento. Tal não significa que estejam apuradas a verdade e a responsabilidade que, politicamente, devem ser imputadas e que as instâncias vocacionadas para o efeito - a nível do executivo, do Banco de Portugal, do Treibunal de Contas, etc - agora não devam preocupar-se em devolver ao povo.
A comunidade portuguesa foi abusada através de sistemáticas e sofisticadas manobras de propaganda enganosa, conduzidas ao mais alto nível pelo executivo cessante. A boa fé de muitos cidadãos foi posta em causa. Urge devolver ao povo a confiança abalada. Naturalmente, a questão da responsabilização articula-se com a do apuramento da verdade. E, neste tempo tão difícil, sem que perceba os mecanismos do logro, o povo não se mobilizará.
Para que a cidadania funcione, a única via é a da informação ao serviço da verdade que o povo tem direito. Informação é poder e o poder reside no povo que, através do voto, o delega em cidadãos que o representam no Parlamento. Como houve quebra e abuso de confiança, impôe-se recuperá-la por meio da responsabilização política de quem, perversamente, se aproveitou dos mecanismos do Estado Democrático de Direito.
Tratando-se de uma responsabilização de natureza política - todavia não coincidente com a sanção que o resultado das eleições evidenciou - cumpre não deixar que, numa leviana atitude de relaxamento, se apague a actuação de quem, no governo cessante, é responsável pela tomada de decisões cujas consequências são tão gravosas para a comunidade a curto, médio e longo prazos.
Temos direito a essa verdade. Não se trata de qualquer baixeza revanchista mas de civismo a funcionar. É uma questão de dignidade nacional. Afinal, somos um povo civilizado ou uns bandalhos quaisquer, para quem tanto faz que os decisores políticos, em representação dos eleitores, na gestão da coisa pública, actuem a favor ou em prejuízo dos cidadãos cujos interesses juraram defender?
quarta-feira, 8 de junho de 2011
o restauro da memória
Certo é que, esporadicamente, se fala e escreve acerca da senhora. Também é certo que, a propósito do restauro e recentíssima reabertura do chalet na Pena, se mantém o pretexto para que, ao designar a casa e o espaço envolvente, tenhamos de a nomear. Todavia, ao longo de oitenta anos, desde que morreu em 1929 até aos dias de hoje, muito discretas, diria mesmo que demasiado discretas, têm sido as demonstrações de reconhecimento que a comunidade de Sintra dispensou à memória da Condessa d’Edla.
Por outro lado, até mesmo a biografia, Condessa d’Edla a cantora de ópera quasi rainha de Portugal e Espanha, escrita por Teresa Rebelo e publicada em 2006, não escapa a evitáveis imprecisões, particularmente nos aspectos mais atinentes ao mundo musical, solicitando a maior benevolência do leitor… Isto para não entrar no campo da falta de respeito, algo que me parece ter acontecido na atribuição do nome da Condessa d’Edla a uma paupérrima, tristíssima, incaracterística e nua rotunda, passe a publicidade, entre a Norauto, Decathlon e Leroy Merlin.
O mínimo que poderei confirmar, desde logo, para não afirmar, liminarmente, que um pesadíssimo anátema se abateu sobre a figura de Elise Hensler, é que a História não tem feito justiça a esta figura tão singular. Eventualmente de ascendência nobre, nascida no seio de família da burguesia alemã mas em território suiço, naturalizada americana, cantora lírica com carreira nos Estados Unidos e na Europa, é senhora de um percurso fascinante, com uma vida sentimental algo atribulada, mesmo antes do matrimónio morganático com Fernando de Sax Coburg Gotha, príncipe consorte e rei de Portugal.
A condessa faz parte de um património de memórias que se enquadram no panorama sociocultural do último quartel do século dezanove e primeiro do vinte, com especial relevo para o envolvimento da própria família real portuguesa, memórias essas que, indubitavelmente, se articulam com o seu contributo para o enriquecimento daquilo que, habitualmente, se designa como a romântica atmosfera sintrense.
Ora bem, na sequência do texto A visita a Elise, que aqui publiquei no passado dia 23 de Maio, eis que continuo com o ciclo temático suscitado pelo feliz desfecho da campanha de obras de recuperação de um edifício que, actualmente, é possível desfrutar ao mesmo tempo que se aprende uma espantosa lição de respeito por um património tão compósito no seu romântico eclectismo. Contudo, no contexto da linha de intervenção cultural afim da luta pela reabilitação da memória desta senhora, considero ser meu dever não descansar sobre este evento e, isso sim, aproveitar a oportunidade para continuar a propor uma iniciativa que, anteriormente, já me levou a alguns contactos com a Parques de Sintra Monte da Lua (PSML), ainda que me limitando a secundar todo um trabalho prévio de Emília Reis.
Um restauro especialA reflexão que vos trago relaciona-se com um trabalho levado a cabo pela Dra. Catarina Serpa, no âmbito de um estágio na Câmara Municipal de Sintra, subordinado ao título Elise Hensler, Condessa d’Edla – Estudo Biográfico e Projecto para uma Exposição*. Uma exposição! Nem mais nem menos, exposição que a autora projectou, com o maior detalhe, considerando-a organizada em dez módulos de referência temática – por exemplo, 1. As origens, 2.O início da carreira de Elise Hensler, 3.As apresentações em Portugal, 4.O casamento com D. fernando II e o título de Condessa d’Edla, etc – que contemplam um total de cento e sessenta e uma peças, material do maior interesse, extremamente diversificado, sob o lema geral Condessa d’Edla, Flores e Lágrimas.
Reparem que iniciei o parágrafo anterior convidando-vos a uma reflexão. Mantendo o propósito, apenas gostaria que considerassem o intrigante enigma de uma exposição que esteve para se realizar em 2004, por altura do 75º aniversário da morte da Condessa, objectivo contrariado por manifesta falta de local adequado na altura. No entanto, porque esse obstáculo há muito foi ultrapassado, parece nada subsistir que possa impedir a exposição de se concretizar.
Peças do maior interesse, desde documentos de identificação, escrituras, certificados (de casamento e de baptismo), testamento (D. Fernando), fotografias, desenhos, gravuras, óleos, jornais, recortes de imprensa, partituras e libretti de ópera, livros, objectos de uso pessoal, vestuário, pratas, caixas e caixinhas, até às porcelanas, móveis, rendas, vidros, etc, etc, esperam pela ocasião de se deixarem expor enquanto conjunto orgânico e sistemático.
Como acontece com tantas coisas neste país, é uma pena que, há tanto tempo, permaneça a iniciativa em banho-maria. Felizmente, trata-se de matéria que, apesar do atraso, não perde qualquer ponta de interesse. Porém, talvez possa começar a surgir um ou outro problema com certas peças de um espólio obviamente disperso por muitos proprietários, a maioria dos quais descendentes directos. Só para vos dar uma ideia acerca do que pretendo alertar, tenham em consideração que, nesta última meia dúzia de anos, faleceram três bisnetos.
Tenho enorme esperança quanto à possibilidade de concretizar este projecto no mais curto período. Confio imenso na boa vontade da PSML, em especial no alto sentido de oportunidade do Prof. António Lamas que tudo fará no sentido de que não faltem meios para o bom sucesso da exposição. Por outro lado, é imprescindível o envolvimento da Câmara Municipal de Sintra, onde a coisa nasceu, por sugestão e ordem do Presidente Fernando Seara, que incumbiu a então estagiária, Dra. Catarina Serpa, de suportar documentalmente o que não passava de mera intenção.
Ao tempo foi feito o que era suposto. Agora, melhorando o que se revelar necessário, importa estar à altura de honrar a memória de Elise – através desta exposição que também é uma sui generis forma de restauro – fazendo-a conhecer como jamais sucedeu. Convenhamos que vai sendo tempo…
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* data de Fevereiro de 2007, embora se reporte a um trabalho de estágio efectuado na CMS em 2004.
sábado, 4 de junho de 2011
Ao correr da pena
Eis alguns pequenos textos que publiquei ontem e hoje na minha página do facebook.
No domingo, o erário público vai despender 8 milhões de euros com o pagamento aos representantes dos partidos nas mesas eleitorais. Trata-se de uma atitude cívica que, normalmente, seria assegurada em regime de voluntariado. Antigamente, não se arranjava quem quisesse ser membro das mesas, agora há fila para recrutamento nas Juntas de Freguesia... É assim que, igualmente, os partidos vão arranjando mais uns indefectíveis militantes...
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Sabem porque é tão baixa (!?!) a actual taxa de desemprego em Portugal? Pois fiquem sabendo que devemos os actuais só 13% - é verdade, já!!! e não em 2013, como a troika apontava - aos 700.000 portugueses que, nos últimos dez anos, procuraram trabalho lá fora. É um número igual ao dos actuais desempregados. Pensem na taxa que se registaria não fosse esta "sangria". Ficaríamos à frente da Espanha...
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Mais atentos - porque mais causticados pela austeridade, que já começou a fazer-se sentir - será que os cidadãos vão deixar de pactuar com a desvergonha dos boys [Rui Pedro Soares, lembram-se?, foi um caso topo de gama mas há imenso peixe miúdo...] que se alimentam na babugem infecta de gabinetes ministeriais, empresas públicas, municipais, etc]? Agora vota-se, depois, sem desguarnecer a guarda, controla-se!
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Escrevi, durante anos, muitos textos contra a maneira de Sócrates fazer política, por exemplo, acerca do endividamento em que singrava, olimpicamente ignorando as características do país que (des)governava. Durante meses, resolvi parar, não bater mais no ceguinho, não provocar mais anti-corpos. Tal como José Gil, é também com alívio que pressinto o ar mais respirável de dia 6. Naturalmente, tal não significa que me tranquilize a liderança que se avizinha.
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Sócrates nunca, nunca, me enganou e, como sabem os sintrenses que me lêem há bastante tempo, tenho denunciado a prática da gestão pública deste homem, muito antes de ser Primeiro-Ministro. Sócrates deu todos os sinais que o apontavam como político «habilidoso» [não hábil], sinuoso, portuguesinho das berças, deslumbrado, convencido de que tinha chegado à urbe para conquistar o orbe.
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José Gil, o filósofo recentemente jubilado, não é propriamente um troglodita de direita... Ontem, sem tibiezas, denunciou o regime de medos implícitos que temos vivido sob a capa desta democracia perversa, nos últimos anos protagonizada por Sócrates. A mentira institucionalizada, o sufoco que se tem vivido sob a liderança de um deslumbrado, estão prestes a cessar. Diz Gil que, na 2ª feira, vai respirar-se melhor.
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Habituados à maior injustiça social, à incapacidade no combate à fraude fiscal e cobrança aos ricos e poderosos dos impostos a que se furtam através dos paraísos fiscais, à existência de índices socioeconómicos que nos envergonham (analfabetismo e iliteracia ímpares na UE), à pobreza galopante de 20% de cidadãos a viver abaixo do limiar da pobreza, como nos surpreenderemos com as medidas impopulares que se avizinham?
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A campanha da CDU, nomeadamente a conduzida pelo próprio Jerónimo de Sousa, terá sido a mais eficaz, inclusive, em termos éticos. É pena que certo atavismo ainda condicione os eleitores em relação às propostas da coligação. Veremos a razão que assiste a JS no que respeita à renegociação da dívida. É apenas um exemplo da lucidez de um lider que não se desgastou nos últimos anos e que vai manter a posição no Parlamento.
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Uma peça notável, a entrevista que José Gil acaba de conceder a Mário Crespo, na primeira parte do "Jornal das 9" de 6ª feira, dia 3 de JUnho. Se não assistiram, procurem visioná-la. É absolutamente brilhante a análise que produziu acerca destes últimos anos de Sócrates à frente do PS. Segundo o filósofo, a partir de 2ª feira, vai passar a respirar-se melhor em Portugal. Porquê? Sigam o meu conselho. Acedam à entrevista.
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Como a oferta é o que é e, de modo algum, me agrada, só me resta a alternativa que já o bom do Saramago advogava... E, mais recentemente, também o constitucionalista Jorge Miranda. O voto em branco significa que o eleitor não se identifica com qualquer das propostas que se apresentaram a sufrágio. E, já agora, leiam Ensaio sobre a Lucidez. Lucidez, é verdade.
VOTO EM BRANCO TAMBÉM É UM VOTO VÁLIDO, LÚCIDO!
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Para comemorar o Dia Mundial da Criança em 2011, o actual e demissionário PM do Governo de Portugal, não perdeu qualquer oportunidade. Em devido tempo, tratou de cortar o abono a 640.000 famílias e tudo fez para que 2 em cada 5 crianças vivam abaixo do limiar da pobreza. Com a maior facilidade, afirma preocupações sociais. Concretamente, há demasiado tempo, demonstra a incapacidade mais flagrante...
terça-feira, 31 de maio de 2011
exercício ou demissão
O exercício da autoridade democrática apenas pressupõe uma indubitável assertividade, sem quaisquer artifícios ou paninhos quentes, instrumentos afins dos discursos passivos, agressivos e manipuladores. A autoridade democrática compreende a tolerância mas não pode continuar a admitir o nacional porreirismo cujo mais visível resultado é a horrível e perniciosa cultura do desleixo que, infelizmente, parece nada incomodar o cidadão comum.
A demissão do exercício da autoridade democrática constitui uma perversidade absoluta porque a Democracia só sobrevive quando, em todas as instâncias, se exerce a autoridade que, por definição, ela encerra. Cada vez que alguém se demite do exercício da autoridade democrática que lhe foi outorgada está a trair a própria democracia.
Na Educação, por exemplo...
Pensemos, por exemplo, numa qualquer comunidade escolar, portanto, espaço escola onde desenvolvem actividade os corpos docente e discente, para além de todo o pessoal de apoio educativo. Se, perante um problema que pode resolver – caso de quebra ou de ofensa da disciplina objecto do Regulamento da Escola – em que é suposta a sua intervenção, um cidadão professor ou assistente operacional se subtrair, de facto, ao exercício da autoridade democrática de que está investido, estará a pôr em causa os objectivos do programa sócio educativo daquela específica comunidade escolar e, também, os propósitos da comunidade educativa em que está inserida.
Na realidade, basta que algum daqueles membros da comunidade escolar, não actue, como deveria, para que, imediata e automaticamente, tudo fique em causa. Exercer a autoridade é ser autor e, em simultâneo, actor da atitude que se impõe concretizar. Se tal não acontecer, o problema detectado não será resolvido e passará a fazer parte de um acumulado de factos análogos, não resolvidos, que constituem o mais negativo património de uma casa de Educação.
...e, em geral
Este exercício de sumaríssima análise, que acabamos de aplicar ao sector onde se processam as práticas do ensino e da aprendizagem das crianças e jovens, pode alargar-se a todos os sistemas através dos quais se organiza a comunidade nacional, Saúde, Defesa, Segurança, Trânsito, etc. Daí que nos sintamos autorizados a uma conclusão muito mais abrangente., em relação ao governo resultante das próximas eleições. Ou exercerá, de facto, a autoridade democrática outorgada pela delegação de poder transferida pelos eleitores na votação ou, se assim não for, com a tendência do portuguesinho para desenrascar, comprometer-se-á o alcance dos objectivos impostos pela adversa situação em que nos encontramos.
É tão simples como isto. Não consigo concluir sem articular esta reflexão com a enorme percentagem de analfabetismo e de iliteracia, característicos da nefasta realidade lusitana que, constantemente, tenho apontado como factores primordialis afectando, tão negativamente, o resultado de todos os projectos em que nós, portugueses, nos envolvemos. Trata-se de mais elementos explosivos que teremos de saber trabalhar, com pinças, se quisermos ser capazes de exercer a autoridade democrática, no Estado Democrático de Direito que decidimos reconquistar em Abril de setenta e quatro. Caso contrário, a coisa pode mesmo explodir...
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NB: já no próximo texto voltarei ao ciclo dos artigos que estou a dedicar à Condessa d'Edla, por ocasião da reabertura do Chalet.
segunda-feira, 23 de maio de 2011

A visita a Elise
“(…) Quando convoco e vejo a Condessa no seu afã da Pena, sempre me aparece como Elise, sem o título de conveniência, apenas mulher que amou e foi amada por um homem tão excepcional como ela. Tanto tempo depois, aqueles dois continuam, para além do tempo, a habitar o nosso espaço real e mítico, a par de outras belas histórias, com amores possíveis e impossíveis, contrariados ou favorecidos, trágicos e idealizados. (…)
Neste possível Klingsor, resgata-se agora o emblemático ninho de amor à ignomínia de muitos anos de ofensa. Veja quem quiser! Eis o trabalho de recuperação que se impunha. Finalmente! Pode Elise voltar ao sossego? Creio bem que sim. De facto, tanto no chalet, como em todo o Parque, estará a terminar, terminou mesmo o ciclo das mágoas. (…)
Durante muitos anos, também esta fraca voz se juntou às de Emília Reis, Maria Almira Medina, Fernando Castelo, Fernando Morais Gomes e de tantos mais, na sistemática denúncia do escândalo sem nome que ali acontecia. Agora, porém, é tempo de festa. Pelo menos, a minha festa já começou. (…)”
São excertos de um texto publicado, neste mesmo blogue, também em 22 de Maio, mas de 2009,e, portanto, como aconteceu no passado domingo, sempre por ocasião do aniversário da Condessa d’Edla. Entretanto, aquilo que aquelas transcritas palavras prenunciavam e, declaradamente, até já anunciavam, ou seja, a reabertura do Chalet da Condessa, acabou de acontecer!
Para a comemoração do evento, preparei um pequeno ciclo de três textos. No primeiro, que hoje vos deixo, para além da querida Elise, também pretendo homenagear a pessoa que – nesta terra de Sintra, tão avessa ao reconhecimento de quem por ela o melhor faz – singela, discretamente, tem sabido manter uma memória de especial carinho e afecto à Condessa d’Edla, ao longo de anos e anos de exemplar e insuspeita dedicação.
Naturalmente, refiro-me a Emília Reis. E, no sentido de aquilatarem a justeza das minhas palavras que, certa e naturalmente, não podem deixar de denunciar a imensa estima que por ela nutro, trago um testemunho inequívoco. Trata-se de um documento que por si fala, relativo a uma atitude de animação cultural do melhor recorte e gabarito que esta amiga de Sintra recentemente protagonizou.
Reparem que Emília Reis não tem quaisquer ligações institucionais nem a move o mínimo objectivo material. Apenas a motiva o respeito pela singular figura de uma mulher, que teve a dita de ser muito amada por um homem que a soube merecer e a desdita que a história desse amor tivesse acontecido num país em que histórias de amor, longínquas no tempo, como a de Pedro e Inês, ou mais recentes, tal o caso de Francisco e Snu, acabam sempre nas malhas de hipócritas e invejosos…
Respeito pela memória e, no caso pessoal de Emília Reis, igualmente uma sua especialíssima relação pessoal com o lugar. Mas, de facto, o melhor é passar ao caso. No passado dia 7 deste mês de Maio, a nossa boa amiga resolveu acolher, como visitantes do Chalet da Condessa, não um, nem dois, nem três mas, nada mais nada menos do que cinquenta e duas pessoas, sócias do Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes do Porto. Única e exclusivamente de sua própria iniciativa, sem qualquer enquadramento oficial, sem qualquer suporte institucional, por amor à causa e à coisa.
Estão muito enganados se, desconhecendo o calibre de animadora de Emília Reis, tiveram a ousadia de imaginar que se limitaria a conduzir aquela meia centena de curiosos visitantes até ao Chalet e jardins adjacentes, proferindo umas palavras de circunstância, à laia de cicerone contratado para o efeito. Pois, não senhores. Como bem atestam as provas apensas, os textos e as imagens que distribuiu, contradizem qualquer solução de facilidade, significando uma cuidadosa preparação. que foi ao ponto de avançar com dois inéditos.
Portanto, como vertentes indissociáveis da atitude cultural que promoveu, tenham em consideração os três suportes seguintes: 1.o texto de sua autoria, “ D. Fernando II e Elise Hensler – Breve Apontamento”, 2. um poema de Maria Almira Medina, que a própria autora assinou, constituindo ambos trabalhos inéditos, e 3.o desenho do Senhor D. Fernando, fazendo jus ao epíteto de Rei Artista que, ainda hoje, tão bem lhe quadra.
1.D.Fernando II e Elise Hensler - Breve Apontamento
Tudo começou em Sintra…. Esta frase escreveu-a D. Fernando II num desenho datado de 1863, em que o próprio Reise fez representar com Elise Hensler, rodeados por arvoredo, no Parque da Pena, - local que terá sido, certamente, o palco privilegiado da vivência mais íntima de D. Fernando II com a sua segunda mulher, a Condessa d’Edla.
Foi ao Palácio da Pena que regressaram no dia do seu casamento, celebrado em Lisboa em 10 de Junho de 1869 e foi,na chamada Feteira da Condessa, que plantaram, nessa data, o eucalipto oblíqua, a árvore que seria, até há cerca de um ano - (envelheceu e, num dia de temporal caiu sobre o regato que durante cento e quarenta anos lhe tinha
alimentado as raízes)- a única testemunha viva deste acontecimento.
Era, também, no Palácio da Pena que permaneciam desde a Primavera até ao Outono e mesmo no Inverno, não deixavam de lá passar alguns dias onde, frequentemente, D. Fernando era visto a passear pelo Parque com traje que levava a confundi-lo com um caçador bávaro. Usufruía nesses tempos de um merecido repouso, depois de ter cumprido, com esmero, os seus deveres familiares e políticos e de ter sofrido os desgostos da morte, de sua primeira
mulher, a Rainha D. Maria II, em 15 de Novembro de 1853 e de três dos seus filhos já adultos.
Como curiosidade sabemos, também, que a Condessa d’Edla, quando dirigia os trabalhos, sobretudo no jardim do seu Chalet, vestia calças e montava a cavalo, trazendo permanentemente pendurado no cinto um apito com que chamava os seus cães – o Liró, por exemplo, que lhe era muito afeiçoado – e que gratificava o seu jardineiro Morgado,
para que ele, de tempos a tempos, fumasse debaixo das árvores mais débeis, atacadas por alguma doença - talvez as mesmas que o Rei, pacientemente, adubava com a cinza do seu charuto.
Não é difícil imaginar e mesmo acreditar que, ambos terão cantado em dueto, muitas vezes, dentro do Chalet e pelas veredas do Parque, as áreas de ópera suas preferidas e, as suas vidas, seguramente, terão continuado ligadas para além da morte, pelas muitas afinidades que os uniram e que, Maria Almira Medina, no seu belo poema “O Chalet da Condessa numa Manhã de Março”, tão bem evoca.
Sugerindo que D. Fernando, homem culto do seu tempo, seria conhecedor da obra de Goethe, seu contemporâneo,cuja inspiração literária se tornou marcante no séc. XIX, também ao nível da arquitectura dos parques românticos de que o Parque da Pena é uma referência, a Arq. Paisagista Prof. Teresa Andresen em “O Parque da Pena: O Significado de uma Intervenção”, sugere um sem número de paralelismos entre o ambiente em que se passa o argumento da obra de Goethe, Afinidades Electivas e o Parque da Pena. Escreve assim:
Os cenários predilectos dos sucessivos acontecimentos são a residência, o parque e dois pequenos edifícios do parque o pavilhão e a cabana de musgo. Eduard e Chalotte (os protagonistas de Goethe) rodeiam-se de profissionais: o Capitão – um engenheiro topógrafo – arquitecto, o jardineiro …
Em Sintra temos, o Palácio, o Parque da Pena e a Casa do Regalo, nome por que era designado o Chalet, como elementos de eleição num cenário em que, o Rei-Artista, D. Fernando II com Elise Hensler – Condessa d’Edla,assumiram ser, eles próprios, os protagonistas de uma história verdadeira, romântica, e de que nos ficou ESTE ADMIRÁVEL LUGAR, no todo do seu conjunto.
Sem eles não O teríamos hoje aqui.
Emília Reis
Notas recolhidas de:
- D. Fernando II - Rei-Artista Artista-Rei (Fundação da Casa de Bragança)
- Informação verbal de familiares da Condessa d’Edla
2. Poema de Maria Almira Medina e 3. Desenho de D. Fernando


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Em amena conversa, Emma Gilbert, acolhe Camilla, Duquesa da Cornualha
Um secreto convite
Passou cerca de um mês e meio sobre aquela magnífica tarde de fins de Março* em que Sintra recebeu Carlos, Príncipe de Gales, herdeiro do trono britânico, e sua mulher, Camilla, Duquesa da Cornualha, a pretexto da inauguração do Roseiral de Monserrate. Posteriormente, todos assistimos ao galáctico casamento de Guilherme e Catarina que, como não podia deixar de suceder, ainda mais veio avivar a lembrança da presença do par real que nos marcou com tão grata impressão.
Como, até hoje, apenas continuei a encontrar pessoas que, de todos os quadrantes, muito gostaram de acolher Suas Altezas em Monserrate, parto do princípio de que se mantém o interesse em saber mais alguma coisa acerca do misterioso convite que resultou nesta visita que perdurará na memória de todos. Na realidade, acabou por constituir mais um episódio a somar àqueles em que, há mais de seiscentos anos, Sintra tem estado à altura dos pergaminhos da arte de bem receber reis, príncipes e princesas da doce Albion, que até aqui têm descido em demanda da sua tão cantada e decantada singularidade.
Antes, porém, convém não esquecer ter-se tratado de uma importante visita de Estado que, como se imagina, foi preparada com o cuidado inerente ao mais alto nível das pessoas que tivemos o privilégio de acolher. Questões de segurança cuja minúcia nem sequer concebemos, detalhes de protocolo que nenhum manual regista, particularíssimos nas deslocações de membros desta família real, constituem matéria específica e tão cara à prática diplomática, absolutamente determinante para que as coisas tivessem corrido tão bem.
Assim sendo e, naturalmente, sem que ninguém conteste a linearidade destas palavras preambulares, impõe-se que vos convoque para uma pequena reflexão acerca do mais importante de todos os assuntos que preocuparam quem se incumbiu, em Portugal e no Reino Unido, da preparação da visita real, ou seja, do seu programa.
Em casos que tais, tão complexa e complicada se revela a equação em presença que bem pode falar-se de quadratura do círculo. De facto, com tão pouco tempo útil disponível, como preencher uma agenda que sempre seria mais sobrecarregada do que o admissível, sem resvalar para um terreno em que, por mais meritórias que pudessem ser as iniciativas objecto da visita, passariam o limite da elegância, da sofisticação e do conforto que é suposto enquadrar?
Diplomacia informal
Como bem sabem, é em casos desta bicuda natureza que costumam intervir os senhores embaixadores. No caso em questão, ao tempo em que se colocou a necessidade de conceber um programa para a visita oficial de tão alto calibre, o representante diplomático de Sua Majestade Britânica era Alexander Ellis, um homem que conhece este país como poucos portugueses conhecem a sua própria terra, alguém que, no fim de 2010, vem a propósito referir, deixou tais funções para assumir as de Director de Estratégia do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Londres.
Casado como uma senhora portuguesa, o Embaixador Ellis, que domina fluentemente a nossa língua e se interessa pelos mais diversos aspectos da cultura portuguesa, mantém no nosso país uma rede de contactos que, em muitas circunstâncias, coincidem com amizades. Pois, muito bem, meus caros amigos e leitores, é neste contexto que, com sua expressa autorização, estou em posição de vos apresentar quem acabou por ser protagonista neste episódio de tão boa memória.
Em Sintra, com certeza, não estranharão que assunto de conotação tão intrinsecamente britânica, não pressupusesse o natural envolvimento de Emma Gilbert, pois claro… Todavia, que presunção a minha! Então, como apresentar-vos quem não carece de apresentação? Tão somente, aproveitando a ocasião, isso sim, para confirmar como esta grande Amiga de Sintra acabou por prestar mais um duplo serviço, portanto a Sintra e a Sua Majestade Britânica…
A história remonta a Setembro do ano passado, altura em que o Embaixador Ellis, seu amigo pessoal, lhe telefonou, perguntando se tinha alguma ideia para incluir no apertado programa da visita. Claro está que Alexander Ellis sabia perfeitamente com quem partilhava aquela preocupação. Emma Gilbert conhece o príncipe Carlos, os gostos e interesses deste célebre e destacado militante da defesa e recuperação do património natural e edificado pelo que, de imediato, sem pestanejar, lhe ocorreu a espantosa ideia da inauguração do Roseiral de Monserrate.
Pudor e gratidão
Não é este o momento nem a ocasião se presta à entrada em pormenores acerca da ressurreição daquela peça de jardim de remota reminiscência. Emma Gilbert, juntamente com o Arq. Gerald Lukhurst, andavam às voltas com o projecto de reabilitação desde o ano 2000. Passaram pela celebração de um Protocolo, em 2004, e por muito, muito trabalho até que, depois de heróicas semanas, em tempos mais recentes, tudo estava a postos para a visita e cerimonial festivo.
E lá está, em local de absoluto favor, o Roseiral cuja inauguração foi objecto das secretas negociações cujos contornos fui autorizado a desvendar. Foi tarefa que me permitiu este prazer imenso de vos contar como, também pelo seu envolvimento neste caso tão paradigmático da promoção de Sintra, Emma Gilbert merece o subido epíteto de Amiga de Sintra, distinção que costumo atribuir apenas aos pouquíssimos cidadãos que mais se notabilizam na causa da defesa dos interesses desta terra.
Portanto, eis desvendado o segredo do convite que tão sofisticado considerei. Finalmente, porque a comunidade local tem maneira apropriada de retribuir, a nível institucional – não por esta lembrança e sugestão, coisa pouca no longo currículo de afecto por estes lugares que permanecem no seu coração – mas por tanto empenho e constante dedicação, fica o meu voto no sentido de que Sintra saiba agradecer tudo o que deve a Emma Gilbert.
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*vd. Sintradoavesso, São rosas, meus senhores (31.03.2011)
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Analfabetismo,
português, real, insofismável…
Na gestão da coisa pública, o que deveremos nós pensar dos políticos que, para além do analfabetismo puro e duro de cerca de dez por cento da população portuguesa, também não consideram o designado analfabetismo regressivo que, em muitas circunstâncias, não é coincidente com a iliteracia? Tão surpreendente como ignorantemente, Portugal tem sido governado como se esta condicionante da realidade sociológica em presença fosse dispicienda. Claro está que o resultado não podia ser mais elucidativo...
Por exemplo, muitos pais e avós dos actuais licenciados portugueses são analfabetos ou iletrados. Não há qualquer semelhança entre as famílias médias de crianças portuguesas e finlandesas ou austríacas frequentando o Ensino Básico ou Secundário, sempre com desvantagem para os nossos índices constantes das estatísticas oficiais. Está muito enganado quem pensa que tão insofismáveis realidades - sem expressão no designado Memorando da troika - não tem importância para resolução dos problemas do país.
A propósito, quando se fala em analfabetismo e iliteracia, deve lembrar-se que há vários milhões de portugueses cujas famílias há uma, duas gerações, eram analfabetas. Importantíssima a noção a reter de que o analfabetismo de um cidadão é como mancha de óleo que alastra, afectando, de um ou outro modo, pelo menos, dois, três familiares próximos, quer vivam ou não no mesmo agregado. Por outro lado, a nossa literacia é tão fraca quanto recente. Cumpre questionar como ignorar esta grelha sociológica ao analisar, por exemplo, o resultado de uma sondagem.
Finalmente, por outro lado, já assumiram os leitores que é com este nosso povo, com tão significativas franjas de analfabetismo e iliteracia - incomparáveis na zona Euro e em toda a UE - que o país vai ter de contar para concretizar as medidas constantes do referido Memorandum? Imaginam até que ponto factores tão negativos vão condicionar o alcance dos objectivos implícitos?
quarta-feira, 4 de maio de 2011
figurantes e figurões
Verdadeiramente digno e adequado à patusca personagem que encarna na cena da política nacional, ontem à noite, o PM soube capitalizar o efeito do anúncio das medidas que não estão no acordo com os credores internacionais, retirando campo de manobra aos intervenientes que terão de subscrever o documento de compromisso nacional.
Claro que se trata de mais um baratíssimo episódio da sua proverbial esperteza saloia. Claro que o afirmo sem pretender apoucar ou ofender os saloios sintrenses entre os quais, aliás, darão licença para que me considere incluído… De facto, sem qualquer hipótese, sem o mínimo de características, mas aspirando à subida condição de estadista, fica condenado, isso sim, a estas pífias atitudes apenas suscitando comentários como aquele que, neste momento, subscrevo.
Perfeitamente à altura de quadro tão lamentável, logo apareceu o Prof. Eduardo Catroga que, para todos os efeitos, é ele e muito mais do que ele, já que protagoniza o papel que o Presidente da República lhe terá atribuído, ou seja, o da voz de Belém. Em vez de, prudentemente, se eximir a comentários antes de conhecer os completos detalhes da proposta do acordo, não entrando no jogo que José Sócrates acabara de suscitar, escorregou para um terreno que, de modo algum, é o que interessa aos cidadãos.
Quem está a capitalizar todo este núcleo duro da asneira institucionalizada é o CDS e Paulo Portas. Com uma postura de reserva calculista, de estudada discrição, está o partido mais à direita do arco governativo a tirar dividendos da falta de capacidade de investimento dos dois partidos à sua esquerda.
Se o PS não conseguir apresentar uma alternativa de liderança a José Sócrates – que, em termos do futuro governo, possa emparceirar com os outros dois ou um dos partidos à sua direita – o país encontrar-se-á numa encruzilhada perante a qual é imprevisível se o Presidente da República terá capacidade bastante para impor a solução que mais interessa.
Bem, como se vê, estamos num embrulho muito complicado de desfazer. E, infelizmente, ainda desconhecendo se, finalmente, é a partir deste momento que se vai atacar a sério a economia paralela, que representa um quarto da riqueza nacional e, por outro lado, que estratégia vai ser seguida para proceder ao famoso emagrecimento da pesada e cara máquina do Estado que tantos recursos subtrai para além daqueles que seria justo esperar.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Há dois ou três dias, o Prof. Eduardo Catroga sugeriu que, nomeadamente, os jovens portugueses deveriam responsabilizar José Sócrates, em tribunal, por um conjunto de erros, de ocultações e por ter faltado à verdade aos portugueses. Vindas do coordenador do programa eleitoral do PSD, tais palavras valem o que valem...
O mesmo não direi das declarações, de algum modo, coincidentes com as anteriores, proferidas por Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal, que, na semana passada, veio direccionar a culpa pelo actual estado de desgraça das finanças públicas nacionais a quem, de facto e concretamente, deve responder em todas as instâncias eleitorais, legais, etc.
Apontou ele o dedo aos decisores políticos e aos administradores públicos que, nos últimos doze anos, conduziram o país, considerando mesmo que deveriam ser responsabilizados. Aparentemente dispicienda, aquela preocupação de delimitação temporal à dúzia de anos precedente, permite incluir, para além da do PS, também a responsabilidade dos governos Barroso e Santana Lopes que, para todos os efeitos, não podem subtrair-se ao «julgamento» implícito.
Considero ser uma opinião a ter em conta quando, tantas e tantas vezes, se afirma que culpados somos todos nós... Neste contexto, vai sendo tempo de abandonar a atitude de sistemática desresponsabilização, tão cara à cultura lusa, e que tão perniciosa se tem revelado para o alcance e satisfação dos objectivos que mais interessam aos cidadãos portugueses.
No horizonte...
Quando é que aprendemos e saberemos atribuir, a seu dono, o ónus dos actos cujas consequências acabam por abranger toda uma comunidade desprovida de instrumentos de sanção? Ou será que nos satisfaz a capacidade eleitoral? Bastar-nos-á que, através do voto, deleguemos o poder que detemos em cidadãos alinhados numas listas cozinhadas pelas cliques partidárias, ao fim e ao cabo, lideradas pelos tais responsáveis a quem nos estamos a referir?
Estou em crer que deveríamos aproveitar este tempo, em que urge mudar de paradigma, a todos os títulos da vida quotidiana e da intervenção cívica, para promover a discussão e, posteriormente, a adopção dos dispositivos legislativos a introduzir na própria Constituição da República, que permitam aos cidadãos pronunciarem-se adequadamente em relação à avaliação e responsabilização dos detentores de cargos públicos.
Se, em democracia, a ocupação dos lugares na gestão da coisa pública, decorre dos próprios mecanismos democráticos, em que os cidadãos delegam competências noutros cidadãos, imperioso se revela, por exemplo, modificar, melhorar e apurar a Lei Eleitoral de tal modo que, através de círculos nominais inequívocos, cada um saiba em quem está a votar e possa proceder ao correcto escrutínio das atitudes e actividades dos eleitos. Enquanto assim não acontecer, não creio que seja possível falar em responsabilização seja de quem for.
Convém não esquecer que, sem a vertente do sistemático controlo e avaliação das atitudes dos decisores políticos, por parte dos eleitores, a Democracia é um regime que suscita grandes perversidades. Cada vez mais lucidamente, quem se preocupa com estas questões chega à conclusão de que, no quadro da democracia representativa, se o cidadão comum se limitar, tão somente, à atitude cívica da votação nas eleições legislalativas e locais, nada de substantivamente eficaz acontece. Ou seja, a Democracia pressupõe a representação decorrente do voto mas tem de ser completada pela participação cívica.
Responsabilização dos eleitos? Sim senhor, mas só se os cidadãos se incomodarem e preocuparem civicamente. E como pode isso suceder se a iliteracia é o que é em Portugal, se o analfabetismo pleno e funcional continua a apresentar os mais vergonhosos índices da União Europeia, em geral?
Pois é, só com muito, muito trabalho e na partilha da convicção de que, ao contrário do que a classe política tem dado a entender, este não é um país sequer análogo aos outros da zona euro. Se não houver assunção destas verdades inequívocas que, tão negativamente, nos caracterizam jamais conseguiremos definir as estratégias adequadas à especificidade portuguesa.
Por enquanto, os objectivos que têm sido formulados, por muito justos que se afigurem, apenas são contempláveis no horizonte. Ah, como tudo isto está tão indissociavelmente ligado!...
*parcialmente publicado no facebook