[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sábado, 5 de abril de 2014




Sintra,
Quarteirão das Artes [II]


[Transcrição do artigo publicado na edição de 4 de Abril de 2014 do ‘Jornal de Sintra’, concluindo o iniciado na semana passada subordinado ao mesmo título]

Quarteirão das Artes [II]

Se bem que, o objectivo do presente texto seja o da sistematização das opiniões que apresentei na passada semana, não poderia perder a oportunidade de ainda me referir ao caso da Correnteza.

Tanto quanto me parece, apesar de carecer de uma atenção especial quanto ao actual estado do lindíssimo pavimento em calçada à portuguesa, trata-se de um espaço com características únicas onde, além das feiras, desde já é possível promover alguma animação de rua.
Em especial, durante os fins de semana, conviria estimular, por exemplo, o aparecimento de iniciativas relacionadas com a prática da ginástica e de outras expressões de educação física, devidamente programadas e com calendário compatível, animadas por técnicos habilitados, provável e naturalmente, relacionados com entidades sediadas no Quarteirão.

Por outro lado, este também é um lugar que, ao ar livre, se apresenta particularmente adequado à animação com recurso às artes preformativas. Consideraria interessante equacionar certas formas de teatro e de expressão corporal, a mímica, a pantomima, o tradicional teatro de marionetas e algumas atitudes circenses.
Imediatamente, porém, nas suas mais diferentes modalidades e variados aspectos, se evidencia a prática da música. É a oportunidade para dar lugar às bandas filarmónicas, grupos de crianças e de jovens músicos das Escolas de Música do concelho, atitudes estas eventualmente subordinadas a determinadas temáticas relacionadas com a época do ano ou outras, com o propósito de que todos os envolvidos obedecessem a um programa multifacetado mas de acordo com uma grelha comum.

Prática de exercício físico, por um lado, artes do palco e animação musical, naquele específico espaço aberto, por outro, com recurso a palco coberto ou coreto desmontável, são atitudes indissociáveis do enquadramento institucional e apoio logístico autárquico, quer da União das Juntas das Freguesias de Sintra quer da Câmara Municipal cujos serviços afectos à animação cultural conhecem perfeitamente a situação.
Finalmente, a referência a um aspecto que, passe a presunção, igualmente me parece da maior pertinência, ao qual já dispensei atenção em anteriores oportunidades de escrita sobre a Correnteza. Importa e urge que, em definitivo, a Câmara saiba encarar este local como uma das mais espectaculares salas de visita de Sintra. Para o efeito, estrategicamente instalada uns metros acima, a Casa Mantero dispõe de um espaço absolutamente privilegiado.

Ali, na sua humilde e demasiado discreta expressão actual, existe e aguarda a devida atenção, uma pequena mas potencialmente sofisticada unidade de restauração, com  aquela fascinante esplanada panorâmica, concessionável entidades vocacionadas para a exploração de proposta  tão exigente. Não me anima qualquer propensão materialista mas é evidente que «aquilo» tem um alto preço. E mais não acrescento. Recuso-me aceitar tratar-se de mais um caso em que dá Deus nozes

Abrangência da Cultura

No primeiro artigo subordinado ao título Quarteirão das Artes, partilhei convosco um princípio cuja pertinência não carece de demonstração, nos termos do qual a promoção de actividades culturais numa comunidade é algo que deve acontecer no entendimento de que a Cultura não é uma realidade isolável de um todo coerente.
Mais especificamente, se bem se lembram, o vector primordial do texto a que me reporto e que hoje estou concluindo, apontava para um quadro de referência em que a prática das civilizadas atitudes culturais se articula, inequívoca e integradamente, com realidades de outros sectores de actividade numa desejável sintonia.

No contexto de tal perspectiva de abordagem, também se evidencia que, por não poder ser considerada redutora e voluntariosa, a promoção do programa implícito e constante da proposta subscrita pelos Senhores Vereadores da Câmara Municipal de Sintra Paula Neves e Luís Patrício, há-de respeitar a metodologia de intervenção coincidente com a preocupação aqui manifesta.
Seria conveniente que, precisamente neste sentido, se pronunciassem os intelectuais, mulheres e homens de Sintra afectos às Letras e às Artes, os professores, jornalistas e, em particular, os agentes culturais que trabalham no seio das entidades referidas pelos autores da proposta, de tal modo que assumissem a defesa e divulgação desta perspectiva de actuação que, estou certo, não poderão deixar de subscrever.

É nestes termos que, naturalmente, em articulação com a proposta, se impõe a reabilitação do espaço urbano que integra o designado Quarteirão das Artes. De facto, infelizmente, não faltam edifícios por recuperar, alguns, aliás, património municipal. Mas a natural evidência e imposição dessa necessidade e subsequente procedimento hão-de conduzir, não à intimação mas ao incentivo dos proprietários à concretização das obras, através de medidas verdadeiramente encorajadoras, desburocratizadas, dinâmicas, atentas ao interesse geral da comunidade, enfim, atitudes cultas, de uma administração local civilizada.

Crucial

Mais uma vez, insistirei na inquestionável pertinência dos trabalhos a efectuar na Heliodoro Salgado, o principal eixo de circulação de peões e de viaturas na zona da Estefânea. Seria essa a altura ideal para a concretização do projecto de prolongamento da linha do Eléctrico de Sintra, desde a Vila Alda até à estação terminal da CP e Vila Velha, resolução que implicará na adopção de outras medidas relacionadas com o acesso de residentes e comerciantes a certos pontos críticos, encerramento de segmentos de algumas vias, o respeito escrupuloso de um regime muito exigente de cargas e descargas, etc.
Questões de ordem estética servidas por adequadas soluções técnicas, aplicadas com a desejável eficácia – items que foram manifestamente descurados aquando da concretização da pedonalização da via – é o que, actualmente, será justo esperar de um executivo autárquico que, ao aprovar por unanimidade a proposta do designado Quarteirão das Artes, está condenado a estas civilizadas atitudes.

Ainda integrada neste quadro de medidas, a requalificação da bolsa de estacionamento na área circundante ao edifício sede do Departamento de Urbanismo – indispensável às viaturas cujos ocupantes pretendam aceder aos eventos culturais – inseparável da reinstalação da passagem-ponte pedonal, que tanto tarda e prejuízo causa a todos quantos precisam circular a pé entre a Portela e a Estefânea.

Num pequeno parêntesis, permitir-me-ia afirmar que, nesta concreta e crítica situação, em que toda a comunidade dos dois bairros da sede do concelho é negativamente atectada, há demasiado tempo, está mesmo em jogo a demonstração cabal da capacidade de intervenção dos actuais autarcas. Sabemos que a estrutura já foi recuperada nas oficinas da Câmara pelo que resta desejar o maior sucesso para as difíceis negociações em curso.

Também crucial para a vivência cultural das iniciativas do Quarteirão das Artes, a instalação dos parques periféricos de estacionamento, medida incontornável, insuportavelmente adiada, que importa concretizar no mais curto período possível, ainda que faseadamente, sem fazer qualquer concessão à qualidade que tal solução pressupõe. Nada arrisco nesta que é a minha mensagem mais recorrente, cuja inevitabilidade de materialização também é condição sine qua non para a melhoria da qualidade de vida no coração do município.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]


Efeméride Mozartiana


 4 Abril de 1770


Os Mozart, pai e filho, estavam de passagem por Floreça. Numa visita a Corilla Olimpica, pseudónimo arcádico de Maddalena Morelli-Fernandez, encontram-se com o jovem violinista Inglês Thomas Linley (1756- 1778).

Na ocasião a Signora Morelli compõe um soneto alusivo à partida de Florença do jovem Wolfgang, poema que, no dia 21 do mesmo mês, Leopold remete para Salzburg, incluído numa carta em que também escreve:

"(...) Em Florença também nos encontrámos com um jovem Inglês que foi aluno do famoso violinista Nardini. Este rapaz, que toca maravilhosamente e tem a mesma idade e estatura de Wolfgang, veio a casa da poeta Signora Corilla que estávamos visitando na sequência de uma recomendação do Senhor Laugier. Durante toda a tarde os rapazes foram tocando alternadamente, sempre muito elogiados. (…) No dia seguinte, jantámos com o senhor Gavard, o Ministro das Finanças do Grão Duque, tendo ambos os rapazes tocado alternadamente não como garotos mas como adultos! Tomaso acompanhou-nos a casa, chorando amargamente porque tínhamos de partir no dia seguinte. (…)”

Thomas Linley também se revelou um interessante compositor. De sua autoria "Arise! ye spirits of the storm", peça cuja audição vos proponho na interpretação da Orquestra de Câmara Pratum Integrum e do grupo vocal Intrada, da música para “The Tempest”, numa gravação obtida durante o Festival Noites de Dezembro no Museu Pushkin de Belas Artes de Moscovo, em 15 de Dezembro de 2011. Dirige Ekaterina Antonenko.

Boa audição!

http://youtu.be/2Uk9sNQAt4s
 
 
 


Monserrate,
Hans Christian Andersen



Claro que, tendo visitado Sintra em 1866, HCA esteve em Monserrate. É sobre tal efeméride que a Parques de Sintra Monte da Lua faz esta pequena apresentação. Gostaria de chamar a vossa atenção para a foto cujo autor, o Arquitecto paisagista Gerald Kuchurst, bem prova o amor que tem ao lugar.




Ontem comemorou-se o aniversário do nascimento de Hans Christian Andersen, reconhecido escritor dinamarquês de histórias infantis como O Patinho Feio, A Princesa e a Ervilha, entre outros. Christian Andersen visitou Sintra em 1866, nomeadam...ente vários dos espaços geridos agora pela Parques de Sintra. Dessa viagem nasceu a obra “Uma Viagem a Portugal em 1866” onde escreveu o seguinte sobre o Parque de Monserrate: “(…) e fomos até Monserrate, propriedade dum inglês riquíssimo que aí apenas reside dois meses na Primavera. No jardim cresce livremente uma imensidade de plantas tropicais. Vi um bosquete com as mais notáveis espécies de fetos, desde os mais pequenos aos mais desenvolvidos em viço e grandeza, lado a lado com palmeiras. Grandes campaínhas brancas pendiam de uma árvore, bagas perladas cor-de-rosa de outra. Frutos sumarentos que não conhecia e flores de vivo colorido exibiam-se em cima, e em baixo sobre um belo relvado de verde-veludo murmurava a água cristalina da fonte, para aí canalizada a fim de que não faltasse frescura à erva.” Os excertos relativos aos monumentos encontram-se na nossa publicação “Escrever sobre Sintra”
 
 
 



Alessandro Stradella

3 de Abril de 1639

Assinalando o seu nascimento (m.1682) proponho esta Sonata em Lá menor para Violino e Baixo Contínuo (tema e 24 variações) na interpretação de Paul O'Dette, no arquialaúde, Mary Springfels, viola da gamba, Ingrid Matthews, violino e Barbara Weiss, cravo e órgão
.

http://youtu.be/o6SxHLgL99Q
 


Efeméride mozartiana

2 Abril 1781

Mozart estava há muito pouco tempo instalado em Viena na altura em que compõe este Rondo em Dó Maior para Violino e Orquestra KV. 373.

Na gravação que vos proponho, o solista é Renaud Capuçon que toca com a
National Japan Philarmonic Orchestra, sob a direcção de Christian Arming.
 
 

quarta-feira, 2 de abril de 2014




Sintra, Pena
- transporte ecológico


Já me tinha congratulado com esta boa notícia que, naturalmente, partilho no meu mural. Para quem não possa deslocar-se a pé - que, no dizer e escrever de Manuel Rio-Carvalho, meu saudoso amigo, é a única maneira
de «merecer» o privilégio da Pena - eis o mais conveniente meio de transporte. Parabéns pela solução, que bem demonstra como a PSML está à altura das mais altas distinções que não cessam de chegar de toda a parte.

Não deixa de ser sintomático como a Pena é o monumento do país que mais visitantes atrai, vindos de todas as latitudes e, naturalmente, também de Portugal. No meu caso, como profissional da Educação, nada me pode dar maior satisfação do que saber como as crianças e jovens de todas as escolas do país ali são acolhidas.

Aliás, não só no Palácio e Parque da Pena, mas em todos os outros locais dependentes da PSML, onde os alunos são desafiados por atitudes de animação do maior interesse, que os levam a passar dias absolutamente inesquecíveis, no âmbito de actividades programadas entre os serviços da PSML e os responsáveis dos respectivos estabelecimentos de ensino, em condições de acesso muito vantajosas.

E os parques dissuasores?
A resposta à Câmara Municipal de Sintra

Na Pena, desde a entrada do Parque e até ao Palácio, através da disponibilização daquele transporte agora inaugurado, logo se começa a receber uma lição de defesa do ambiente. Oxalá que, no mais curto período possível, neste contexto de preocupações de carácter ecológico, a Câmara Municipal de Sintra consiga instalar os cada vez mais inadiáveis parques periféricos de estacionamento, dissuasores do acesso aos centro histórico e aos pontos altos da Serra de Sintra.

E o funicular?

Bem, trata-se «só» do mais ecológico dos meios de transporte, absolutamente indicado em locais onde é determinante a necessidade de vencer desníveis muito consideráveis, cómoda e seguramente, com tecnologia conhecida e extremamente acessível. A instalação dos carris, adoçados ao perfil do relevo, não causa qualquer impacto visual e, não havendo envolvimento de quaisquer motores de combustão, o ideal acontece.

Não pressupondo significativos investimentos de capital e assegurado o rendimento, custa-me a perceber como não aparecem interessados. Numa altura em que tanto se fala de empreendedorismo, não haverá quem queira abalançar-se a um negócio de dinheiro em caixa?...
 
 


Começaram hoje a circular, no Parque da Pena, três novos autocarros híbridos que a Parques de Sintra encomendou para transportar os visitantes, respeitando o ambiente, entre o portão do Parque e a entrada do Palácio. Será agora possível cir...cular entre estes dois pontos-chave num veículo com vistas panorâmicas e um mínimo de ruído e emissão de gases!
Os novos autocarros, de tecnologia híbrida de última geração, vêm substituir os antigos, que eram pouco amigos do ambiente e não se adaptavam ao perfil dos caminhos existentes no interior do Parque da Pena.
 
 
 
 
 
 
 
Foto: Começaram hoje a circular, no Parque da Pena, três novos autocarros híbridos que a Parques de Sintra encomendou para transportar os visitantes, respeitando o ambiente, entre o portão do Parque e a entrada do Palácio. Será agora possível circular entre estes dois pontos-chave num veículo com vistas panorâmicas e um mínimo de ruído e emissão de gases! 
Os novos autocarros, de tecnologia híbrida de última geração, vêm substituir os antigos, que eram pouco amigos do ambiente e não se adaptavam ao perfil dos caminhos existentes no interior do Parque da Pena. Mais informações www.parquesdesintra.pt/noticias/autocarros-hibridos-no-parque-da-pena/.

Credits_ PSML_MJS


 

1 de Abril, 1873

Sergei Rachmaninov (m. 1943)

Nascido no primeiro de Abril de 1873, Sergei Rachmaninoff, compositor, pianista e maestro russo é o autor da ópera cuja audição hoje vos proponho. Nesta circunstância, também homenageio o meu pai, a quem devo o primeiro acesso a Francesca da Rimini, não só como personagem deste drama lírico mas também da homónima obra de Tchaikovsky.

Francesca da Rimini (Francesca da Polenta), (Ravena, 1255 – Gradara, 1285), famosa pela sua bel...
eza, terá nascido em Ravena. O pai, Guido da Polenta, governador da cidade, estava em guerra com a família Malatesta, de Rimini.

Quando as famílias negociaram um acordo de paz, a conveniência ditou que Francesca casaria com Giovanni Malatesta (Gianciotto), homem instruído mas fisicamente deformado, filho mais velho de Malatesta da Verucchio, senhor de Rimini.

No casamento, por procuração, interveio Paolo Malatesta, homem belo, irmão mais novo de Giovanni. Francesca e Paolo, que se apaixonam, mais tarde, foram surpreendidos e assassinados por Giovanni.

De acordo com Dante, o episódio de amor entre Francesca e Paolo foi influenciado pela leitura da história de Lancelote e Guinevere, tendo integrado o Canto V, 'O inferno', da "Divina Comédia".

Boa audição!

http://youtu.be/wx8DiszmAtA
Sintra,
Quarteirão das Artes [I]
 
 

Quarteirão das artes [I]

Primeiramente, se me permitem, uma breve referência à designação 'Quarteirão das Artes, Uma Proposta para ...
a Estefânea', tais os título e subtítulo de uma interessante proposta de animação cultural que os senhores Vereadores do PSD Paula Neves e Luís Patrício apresentaram a sessão de Câmara do passado dia 13, unanimemente aprovada pelos seus pares.

A verdade, caros leitores, é que logo se me impôs a relação com outro, talvez o mais famoso quarteirão das artes europeu, o 'Museumsquartier' de Viena. Ora bem, salvaguardadas que sejam as coordenadas de escala, em todos os possíveis contextos de análise comparativa, tal conotação, nos seus meandros mais gerais, só remete para aspectos positivos.

Por isso mesmo, no quadro de alguns comentários seguidamente partilhados, se entenderá que, de modo algum, me será permitido elevar a fasquia ao nível do que acontece na capital austríaca. Tal não impedirá que deixe de fazer reparos relativos a alguns dos factores que, na zona de Sintra em apreço, se revelam menos positivos no contexto da avaliação tão sumária da proposta em apreço e que, se não forem colmatados, comprometem o êxito que merece.

A Cultura, integradamente

À partida, é indiscutível que, no Bairro da Estefânea se concentra um muito apreciável potencial de oferta cultural da sede do concelho de Sintra. Perante tal evidência, a aparente tentação dos autores terá sido a de considerarem o aspecto cultural, sticto sensu, se bem que, por exemplo e significativamente, não tenham poupado referências à necessidade inerentes da requalificação do espaço.

No entanto, tê-lo-ão feito à revelia de uma concepção mais abrangente, nos termos da qual as actividades, atitudes e iniciativas de animação cultural, quer as mais institucionais quer as menos formais, se devem enquadrar e apresentar à comunidade num quadro de oferta geral de qualidade do espaço urbano, indissociável da qualidade de vida, quadro aquele integradamente propício à vivência, usufruto e benefício da Cultura sob todos os aspectos.

Mas afinal a que me refiro eu? Muito simplesmente, por exemplo, num primeiro tempo, ao aspecto do estacionamento e ao facto de não poder render-me à evidência de ir assistir à representação de uma peça de teatro na Casa de Teatro de Sintra, na Rua Veiga da Cunha, a um concerto ou recital no Centro Cultural Olga Cadaval, na Praça Dr. Francisco Sá Carneiro, ver uma exposição no Casino de Sintra, na Avenida Heliodoro Salgado ou na Vila Alda, ali à Rotunda Nunes Carvalho, e não ter à disposição uma solução civilizada para estacionar o carro.

Como admitir que a viatura fique de qualquer maneira, em cima do passeio, a atravancar a saída de prédios e garagens, quiçá, perigosamente, constituindo obstáculo à segurança de pessoas e bens? E que, a poucos metros de distância, na zona de implantação do edifício do Departamento do Urbanismo, todas as noites dos dias úteis e aos fins de semana, permaneça vazio um parque de estacionamento que, para efeitos de utilização, carece de requalificação, nomeadamente, nos aspectos da iluminação, vigilância e segurança?

Será admissível que, em Sintra, ainda se não tenha assumido – afinal e invariavelmente, como sucede nas latitudes civilizadas às quais, tão justamente, reclama pertencer – que qualquer acto cultural começa por e integra o modo como se acede aos lugares onde a Cultura acontece? Ou seja, que os transportes e o estacionamento, apenas referindo dois items de um quadro muito compósito, só podem ser civilizados, operacionais, fiáveis?

Heliodoro Salgado

Será possível pensar em actividade cultural numa zona que, tão manifestamente, é servida por uma das mais desqualificadas artérias de Sintra? Será de qualquer interesse, sequer conveniente e seguro, promover animação de rua na sua parte pedonal, a descaracterizada e actual «chinatown», que perdeu a maior parte do comércio tradicional, espaço físico inestético, cinzentão, tecnicamente mal resolvido, cuja impermeabilização o transforma em ribeira em dias de chuva?

E na via transitável? Aquele perfil ondulado, aos altos e baixos, onde automóveis e autocarros, com os amortecedores à prova, não raro batem com o chassis, lançando faíscas perante o olhar dos basbaques? Pois, também não é por ali que, ao volante, circulam e hão-de circular os destinatários dos programas culturais subordinados à sofisticada marca promotora do Quarteirão das Artes? Então, não é isto um paradoxo inconciliável com a promoção de eventos culturais?

No meu caso, não é fácil, mesmo nada fácil, escrever acerca deste assunto. E, como não compreensível se, ao longo de tantos anos, tenho apontado estes e outros negativos aspectos sem que tal denúncia cívica – aliás, minha e também alheia – tenha resultado em qualquer concreta atitude da obra que se impõe incontornável e inevitável? E não deve ela acontecer previamente e em articulação com os aspectos da animação cultural e do comércio locais, em prol da tranquilidade e da qualidade de vida dos residentes e forasteiros?

Por exemplo, na sequência das Jornadas de reflexão sobre a Estefânea, levadas a cabo no dia 22 de Março de 2004, na organização das quais estive envolvido, foi prometida a abertura da via à circulação dos eléctricos, a caminho da estação terminal da CP e da Vila Velha, como antigamente acontecia. Essa animação da via, tão desejada e consabidamente eficaz, a exemplo do que sucede noutros lugares, compatível com a montagem de esplanadas e com a circulação de peões, pura e simplesmente foi esquecida, não aconteceu, mas é indissociável de qualquer requalificação consentânea com esta proposta .

Casino de Sintra

Continuarei na próxima semana. No entanto, desde já, cumpre corrigir um enormíssimo «detalhe», qual seja o da situação actual do Casino de Sintra, referido na proposta como “(…) espaço multiusos, hoje claramente desaproveitado (…)”. De facto, actualmente vazio, o edifício não está desaproveitado mas, isso sim, comprometido para acolher a Colecção Bartolomeu Cid dos Santos cujo valor ronda os cinco milhões de Euros.

Tenhamos em consideração que, nos termos do Protocolo de Cedência, oportunamente celebrado entre a Câmara Municipal de Sintra e a cedente, Sra. D. Maria Fernanda dos Santos, viúva do artista, além das obras de Barto, ainda está incluído um valioso espólio de valiosíssimas peças de seus amigos, tais como Paula Rego, Júlio Pomar, Vieira da Silva e até algumas do galáctico Francis Bacon!!! E, que, publicamente, o executivo liderado pelo Presidente da Câmara Dr. Basílio Horta, do qual fazem parte os Senhores Vereadores proponentes do documento objecto destas linhas, já confirmou tratar-se de um compromisso anterior cuja concretização apenas está pendente da clarificação de aspectos jurídicos do referido Protocolo.

Portanto, indubitavelmente, não se tratando de promessa, é já certeza confirmada da mais significativa mais-valia de dispositivo de animação cultural da zona da Estefânea, adivinhando-se como polo catalisador de atracção de visitantes nacionais e estrangeiros.

(Continua)

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]
 


A Tebaldi num novelo de memórias


Há pouco, chegaram-me, muito fortes, memórias de há cinquenta e tal, sessenta anos. Dei por mim lembrando os meus pais nas suas idas a São Carlos. Antes de saírem de casa, a mãe, muito bonita - todas as mã
es são muito bonitas mas a minha ainda mais - fazendo-se esperar, connosco ao rubro, para a ver na toilette daquela noite...

Há sessenta anos, a minha mãe tinha trinta. E o meu pai mais dois. Eram jovens e lindos, meu Deus! Era o tempo em que, ao São Carlos, por exemplo, vinha a Tebaldi, é verdade, entre outros e outras da mesma estatura.

A Tebaldi tinha a idade dos meus pais. Jovem como eles, era admirada, numa atitude que, lá em casa, se cultivava vendo os programas das récitas, falando dos seus êxitos, o pai comparando com outras vozes de lirico spinto mas, invariavelmente, colocando-a nos píncaros.

Pois bem, como não podia deixar de acontecer, enovelada nestas memórias, a sua voz, hoje, não me larga. Vou aliviar esta tensão pedindo que me acompanhem no visionamento de um documento perfeitamente esclarecedor.

Aí está ela, numa incomparável Leanora, de La Forza del destino, registada pela RAI [Telecast (C) RAI 1958], numa récita no Teatro San Carlo de Nápoles, em 1958.

E, por favor, não façam comparações. Apesar de tanto gostar de fazer e propor exercícios que tais, julgo que não vale a pena. A não ser que, tão somente, pretendam confirmar como a Tebaldi é absolutamente incomparável...

Bom visionamento e boa audição!

http://youtu.be/CGH8R7KbdBo


Helen Keller


O optimismo é a Fé em acção. Nada se pode levar a efeito sem optimismo


Há três anos, desde que iniciou funções, o desqualificado governo português tem-se permitido concretizar, de forma diligente e constante, a maior operação de subtracção de recursos à Educação especial e, em particular, ao projecto da Escola Inclusa.

Numa altura em que, contra a evidência das mais concretas e tristes situações, o Ministro da Educação insiste na ideia de que, pelo contrá
rio, os apoios até aumentaram, quando apetece deixar caír os braços perante tanta falta de dignidade e de sentido de Estado, eis que se me impôs* aquela frase de Helen Keller, epígrafe deste pequeno texto.

E, a propósito, num documento video datado de 1930, o testemunho da própria Helen Keller, que respira optimismo a cada sílaba, palavra, gesto.


http://youtu.be/Gv1uLfF35Uw
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*citação usada pelo Prof. Fernando Roboredo Seara num seu artigo publicado no jornal 'A Bola' do passado dia 23