[sempre de acordo com a antiga ortografia]

domingo, 16 de novembro de 2014



Coro Gulbenkian,
jubileu


[facebook, 08.11.2014]

Ontem, segundo dos concertos de comemoração do cinquentenário do Coro Gulbenkian. Estive com amigos que, tal como eu, se lembram perfeitamente dos primeiros tempos em que o agrupamento vocal era dirigido pela Olga Violante e da sua apresentação, em São Vicente de Fora, em 1964, na Paixão segundo São Mateus de Telemann,

Desde o início e até à actualidade tive sempre bons amigos entre os coralistas e, durante o mais alargado período, a querida Teresa Ferreira de Almeida que, vejam lá, era minha quase vizinha, colega no Liceu D. João de Castro a partir de 1963 e na Faculdade de Letras, depois de 65. Já há bastantes anos, até lá tenho familiares.

Ontem foi tarde de memórias «gulbenkianianas» longínquas, do tempo em que, nem sequer havia o edifício da sede que, aliás, só foi inaugurado em 1969, tempo em que o bailado se apresentava no Politeama... A verdade é que os Festivais Gulbenkian aconteciam desde o fim dos anos cinquenta e eu lembro-me perfeitamente de acompanhar o meu pai nalguns célebres concertos.
Pois é, há tantos como cinquenta anos, com Ana Maria, então namorada e depois minha mulher, A Maria Adelaide Garcia Pereira e Manuel Maria Andrade Maia, um «casal» de amigos e queridos colegas, depois famosos arqueólogos, saíamos da Faculdade e lá íamos em demanda das actividades disponíveis da Gulbenkian.

Que casa esta, meu Deus! Não me canso de afirmar que não seria quem sou e como sou se a Gulbenkian não ocupasse lugar tão decisivo na minha vida. Como melómano, tenho acompanhado, cresci e envelheci à medida que o Coro Gulbenkian, tal como a Orquestra Gulbenkian, de iniciais formações de câmara se transformaram nos agrupamentos que todos conhecem.

O que lhes devo não tem preço. A partilha da Música, na dimensão que assumiu em minha casa, teve ontem uma expressão simbólica que a peça de Eurico Carrapatoso contemplou de modo ímpar. Na realidade, a grande peça em evidência no programa do concerto foi "Pequeno Poemário de Pessanha", obra encomendada pela Fundação para estas comemorações do jubileu.

Um espanto! Cito palavras do compositor: " (...) Foi-me atenciosamente disponibilizado 'orgânico coral-sinfónico que bem entendesse. Optei, a cappella', na pureza das quatro linhas vocais, matriz inicial e límpida da música que mais amo (...)". O resultado, absolutamente notável, é o de uma peça que, em termos musicais, corresponde, precisamente, aos termos do universo semântico que EC utiliza nas linhas supra.

Esperei que saíssem para os saudar. O Aníbal Coutinho, chefe de naipe dos tenores, é que aguentou com toda a carga emotiva acumulada. Nos seus olhos, ainda de sublime encantamento, a tal pureza, a subida limpidez que ali partilhámos. Um grande músico este meu sobrinho, que também já é um dos «móveis da casa»...

O "Requiem", KV 626 de Mozart e 'The King shall rejoice' e 'Allelujah' do "Messias" de Händel, também faziam parte do programa. Quanto à obra de Amadé, farei minhas as palavras do Prof. José Luís de Moura, que lá esteve na véspera. Mas faço a justiça de não comparar com incríveis momentos musicais da minha experiência de ouvinte, ao vivo, de interpretações paradigmáticas desta obra, por exemplo, dirigidas por Abbado ou Karajann. Ao vivo, repito.

Mas não vos deixarei sem a grande obra que não poderia ser mais adequada à efeméride. De Telemann (1681-1767), a "Paixão segundo São Mateus". São intérpretes:

Theo Altmeyer, tenor
Horst Günter, baritono
Sena Jurinac, soprano
Franz Crass,baixo

Coro: Luzerner Festwochenchor,
Orquestra: Schweizerisches Festspielorchester, sob direcção de Kurt Redel, 1965

http://youtu.be/y89R2feZYuU - Part Ihttp://youtu.be/DnG4G1pg1Ak - Part II


Sintra,
Canaferrim,
Trabalho, convívio e convicções
 
[facebook, 08.11.2014]
Na cave da casa da Júlia e do Fernando Cunha Cunha. Depois de uma reunião da Canaferrim, Associação Cívica e Cultural, eis alguns dos amigos, à volta da mesa dos anfitriões. A Sofia Dionísio, de costas, o António Esteves, ao meu lado direito, o João Dinis, à esquerda e, à nossa frente, o Pedro Ventura e o Fernando. Por acaso, ainda que tivessem estado presentes, nesta foto não aparecem o Padre Armindo, nem Gabriel Cruz ou Ricardo Duarte, membros muito activos deste grupo, nem o Sérgio Gonçalves, o artista e, neste caso, fotógrafo de serviço.

Com a sua constituição já oficializada, através de escritura notarial, que mereceu oportuna notícia, a CACC está prestes a apresentar-se à «praça pública» numa cerimónia de tomada de posse para a qual convidaremos amigos sintrenses que nos merecem o epíteto de 'cúmplices' das causas que nos mobilizam.

Há muitos meses que não paramos. E, mesmo como movimento informal, já soubemos contribuir com propostas sobre assuntos que preocupam os fregueses e os munícipes de Sintra, no âmbito da defesa do património e de uma série de questões que, relacionadas com estacionamento, transportes e trânsito, são indissociáveis.

Muito trabalho, um invejável ambiente de amizade, eis ingredientes que, sem dúvida, hão-de manter-se. O útil, o agradável, o fazer política na sua mais nobre acepção, com o grande objectivo de melhorar a qualidade de vida, pensando na felicidade geral e no bem comum.

Tenho sempre muito presentes as palavras do nosso querido Papa Francisco, em 2 de Setembro de 2013: "(...) Envolver-se na política é obrigação de todo Cristão. Nós cristãos, não podemos lavar as mãos como Pilatos (...)". Para mim, homem de Fé, estas palavras do pontífice fazem parte do 'mandamento novo'. Amar o outro passa por aqui.

Desde jovem adolescente, membro da JEC, na Capela do Rato - que, anos mais tarde, tanto daria que falar - com o meu querido e saudoso Padre Alberto Neto como mentor, logo de imediato aderente do movimento dos designados 'católicos progressistas', na minha paróquia de origem, Santa Maria de Belém, com os Padres Felicidade Alves e Resina Rodrigues, na JUC, na Faculdade, ao lado de todos os intelectuais e académicos que comungavam os mesmos princípios e valores, a minha matriz é esta.

A Canaferrim é o «lugar geométrico» onde aplico o legado que tenho acumulado ao longo da vida. O que mais pretendo - e sei que idêntica é a sensibilidade dos meus amigos - é a concretização de uma intervenção cívica em que o melhor das nossas qualidades individuais e de grupo esteja ao serviço da comunidade, contribuindo para aliviar eventuais crispações.

Se a intervenção cívica não acontecer com ânimo e alegria, então, será outra coisa, eventualmente, coincidente com clubite aguda e disputa política no pior sentido. «Nessa» ou numa outra e tão frequente atitude de lobos solitários a destilar venenos nas redes sociais, não estamos nós. Na Canaferrim, corações ao alto!
 
 


quinta-feira, 13 de novembro de 2014



Efeméride mozartiana
6 de Novembro de 1787

[facebook, 06.11.2014]

Mais uma vez, a celebrar esta efeméride, lembrando a presença de Mozart em Praga e que, uma semana antes, a 29 de Outubro, fora a première de "Don Giovanni". Em 6 de Novembro de 1787, no seu catálogo manuscrito, o compositor dá entrada da canção, 'Es war einmal, ihr Leuchten' (Des Kleinen Friedrichs Geburtstag), em Fá Maior [KV. 529], com base no poema de Johann Eberhard Friedrich Schall (1742-1790). Porém, a última estrofe é de outro autor, Joachim Heinrich Campe (1746-1818).

O título refere-se ao Príncipe Friedrich von Anhalt-Dessau, cujo nono aniversário, a 27 de Dezembro de 1778, é celebrado pelo poema. É uma peça do período mais fecundo da grande maturidade do compositor. Não é particularmente frequente nos recitais dos nossos dias mas, sem sombra de dúvida, nunca uma canção de mera circunstância, em que, por obra e graça do divino Mozart, um obscuro principe salta para a ribalta.
 
Eis o texto, primeiramente, em Alemão e, logo de seguida, numa versão para Inglês, para quem não possa seguir o original. No entanto, de facto, só acompanhando o original, se percebe a mestria da proposta musical de Mozart.

Es war einmal, ihr Leutchen,
Ein Knäblein jung und zart,
Hieß Friedrich, war daneben
Recht gut von Sinnes art.
War freundlich und bescheiden,
Nicht zänkisch und nicht wild,
War sanft wie kleine Schäfchen,
Und wie ein Täubchen mild.
Drum gab auch Gott Gedeihen,
Das Knäblein wuchs heran,
Und seine Eltern hatten
Recht ihre Freude dran.
Zu Schul’ und Gotteshause
Sah man es fleißig geh’n,
Und Jedem, der es grüßte,
Gar freundlich Rede steh’n.
Auch war ihm in der Schule
Ein Jeder herzlich gut,
Denn Allen macht es Freude,
Und Allen war es gut.
Einst hieß es: Brüder, morgen
Fällt sein Geburtstag ein!
Gleich riefen All’ und Jede:
Der muß gefeiert sein.
Da war des Wohl behagens
Und jeder Freude viel,
Und wo man sah und hörte,
War Sang und Tanz und Spiel.

Denn Alle, Alle freuten
Des frohen Tages sich,
Und Alle, Alle sangen:
Heil unserm Freiderich!
Und Gott im Himmel oben
Erhörte ihr Gebet.
Sein Segen folgt dem Knaben,
Da wo er geht und steht.

[Versão para IngLês]
Once there was, good people,
a young chap bright and kind.
His name was Frederick, and his
heart was full of gold.
He was friendly and modest,
not quarrelsome or wild;
as meek as a little lamb,
or a gentle dove.
And God, too, helped him thrive.
The young boy grew in grace
and his parents
were rightly joyful.
To school and church
he went with diligence;
and each one that he greeted
heard friendly words from him.
And in the school
all loved him,
for he gave joy to all,
and kindness.
One day came the announcement:
Brothers, tomorrow is his birthday!
One and all then did exclaim:
We’ll celebrate together!
Then there was fun
and laughter in abundance,
and wherever you turned
was singing, dancing and games.

Then everyone rejoiced
through this happy day,
and all sang with gusto:
Hail to our Frederick!
And God above in heaven
heard their acclaim.
His blessings followed the lad
wherever he might be.


Boa audição!

http://youtu.be/ALH_63Rzpes

 
Ruth Ziesak (Soprano), Ulrich Eisenlohr (Piano)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014





Padre Manuel Antunes,
3 de Novembro de 1918


[facebook, 03.11.2014]

Mais uma vez, a comemorar uma efeméride que me é muito cara. Como, entretanto, nada se alterou, eis o texto que aqui publiquei há precisamente um ano.

Não posso deixar passar o dia sem lembrar o académico que, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi o meu mestre mais notável. Afirmá-lo assim, sem mais cuidados, não deixa de constituir certa ousadia. Tive professores excelentes, desde Vitorino Nemésio a Luís Filipe Lindley Cintra e Pais da Silva, Erwin Theodor Rosenthal, Fernando Moser, Jacinto do Prado Coelho, Maria de Lourdes Belchior, João de Almeida Flor e outros que muito notabilizaram a Faculdade. A verdade, contudo, é que todos os citados reconheciam em Manuel Antunes a excepcionalidade que comecei por destacar.


Na efeméride dos noventa e seis anos do seu nascimento, gostaria de vos propor a reprodução de dois textos oportunamente publicados.

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I.

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011
Padre Manuel Antunes,
o portento


No passado domingo, na última edição do programa Ponto Contraponto, do canal televisivo Sic Notícias, José Pacheco Pereira chamou a atenção para um curso, sobre a Grécia Antiga, ministrado pelo historiador americano, Prof. Donald Kagan, da Universidade de Yale. E, para o efeito, passou um excerto da aula de introdução em que o académico fala sobre os motivos pelos quais é suposto que o cidadão comum se interesse pelos antigos gregos, não só em função dos imensos contributos para a Civilização Ocidental, por exemplo, no domínio da Ciência, Direito e Política, mas também devido à sua concepção única da Humanidade.

Adiantou mais uma ou outra generalidade e, santo Deus, tudo aquilo me soube imenso a muito pouco… Imediatamente, a minha mulher, que comigo assistia, me tirou da boca as palavras que eu estava prestes a dizer: ”Coitado do Pacheco Pereira, não teve a nossa sorte…” Lembrava as «nossas» aulas de História da Cultura Clássica, em 1965, na Faculdade de Letras de Lisboa, comparando com aquela amostra da prestação de Kagan. Que diferença entre estas quase banalidades do professor americano e o rigor, a profundidade científica das extraordinárias lições do Padre Manuel Antunes!
 
Felizmente há centenas de jovens da nossa geração, muitos e conhecidos intelectuais, artistas e homens de letras, tal como nós, também seus antigos alunos, que podem e têm dado testemunho inequívoco do altíssimo gabarito de Manuel Antunes, por muitos considerado o maior erudito e intelectual português do século vinte. Assim sendo, se a minha opinião por alguma coisa peca, é por manifesto defeito.
 
Bem imagino que opinião seria a do exigentíssimo Manuel Antunes acerca da wikipedia, essa bíblia da informação mastigada, qual espécie de Reader’s Digest... No entanto, sabendo que a maioria dos leitores não dispensa este fácil recurso, cometo o sacrilégio de aconselhar a consulta. Lá irão encontrar dois curiosos depoimentos de dois queridos e saudosos companheiros, Eduardo Prado Coelho e João Bénard da Costa, que vale a pena ter em consideração acerca da personalidade de Manuel Antunes.
 
Permitir-me-ia deixar um conselho a José Pacheco Pereira e a quem estiver interessado no estudo da herança grega, em particular, e dos clássicos, em geral. A Fundação Calouste Gulbenkian (Serviço de Educação e Bolsas) publica a Obra Completa do Padre Manuel Antunes. No Tomo I, Volume II, Parte I, pode aceder-se à famosa Sebenta da História da Cultura Clássica, numa Edição Crítica extremamente escrupulosa cuja coordenação científica foi confiada ao Prof. Doutor Arnaldo Espírito Santo.

Trata-se de obra absolutamente fundamental, lições de uma Academia que só está acessível por esta via, em que cada página é o deslumbramento perante a concretizada ideia de que o conhecimento é o maior bem. Se quiserem acreditar na humilde opinião de um aluno, eternamente grato pelo privilégio que foi o seu, pois fiquem com a certeza de Manuel Antunes ser o paradigma do professor que, constantemente, desafia os talentos de cada um, arruma, sistematiza conceitos, para abrir todas as portas possíveis. Um espanto, uma surpresa, ainda hoje, quase cinquenta anos depois…

Finalmente, ainda mais uma nota que não deixa de ser outro conselho. Interessem-se pelas actividades do Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes. Verão como tenho razão em vo-lo aconselhar.

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II.
A propósito do Padre Manuel Antunes, também gostaria de transcrever o comentário que, acerca do texto inicial, escrevi no facebook:

"Os de germânicas apanhavam Manuel Antunes logo no primeiro ano, em Cultura Clássica. Que maravilha, o seu Latim restaurado... O magistério de MA, (...) , não acontecia apenas nas aulas. Também não me lembro de ele falar de Kierkegard nas aulas mas, isso sim, em conversas com a JUC, a que eu pertencia - nesse contexto conheci o Ruy Belo, uns bons anos mais velho - malta que se juntava à volta do jornal 'Encontro', em conversas com gente afecta a 'O Tempo e o Modo', em especial com o Alçada Baptista e João Bénard da Costa.

Se quiser ter a paciência de ler os meus textos sobre o João Bénard da Costa no blogue sintradoavesso, lá encontrará referências a Manuel Antunes. Aproveito a oportunidade para lhe aconselhar, o mais vivamente possível, um texto de João Bénard da Costa sobre o Padre Manuel Antunes, onde ele cita Kierkegard e a sua 'Alternativa', texto esse subordinado ao título "A casa encantada. O Padre Manuel Antunes: o lugar do saber" que, na minha modesta opinião, é só o melhor «retrato» desse grande senhor da Cultura Portuguesa.
 
Depois de ter tido o privilégio de ser seu aluno, bem posso dizê-lo, passei a ser outra pessoa, a minha cabeça passou a exigir uma outra 'arrumação' dos fenómenos culturais, incompreensíveis se não pressupuserem a semiogonia e semiologia, marcos essenciais da abordagem antuniana. (...) Para aceder ao texto que aconselhei, entre outras alternativas, poderá ir ao google, escrever o título que ele aparecerá no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura."



Efeméride mozartiana
5 de Novembro de 1785



Datado de Viena, Mozart dá entrada no seu catálogo do Quarteto,
„Dite almeno in che mancai” para Soprano, Tenor, dois barítonos e Orquestra, escrita para a ópera cómica em dois actos "La villanella rapita" do compositor Francesco Bianchi.


Pelo seu próprio punho Mozart escreve a distribuição das vozes: Signora Coltellini, Signore Calvesi, Signore Mandini and Bußani. Quanto ao acompanhamento, estava assegurado por: 2 violinos, 2 violas, 2 oboes, 2 clarinetes, 2 fagotes, 2 trompas e contrabaixo.

Esta a peça, à qual Köchel atribuirá a referência KV. 479, [I] tem texto de Giovanni Bertati (1735-1815), cujo libretto mais famoso é o da ópera "Il Matrimonio segreto" de Domenico Cimarosa. É também autor de "La donna di genio volubile (1796) de Marcos António Portugal.

Para que conste, destinado à mesma récita de "La villanella rapita" Mozart contribuiria ainda com mais um terceto vocal intitulado 'Mandina amabile' KV. 480. Aqui vos proponho as duas peças.
Boa audição!

http://youtu.be/GjWN3TG1a_E [I] - Dite almeno...
http://youtu.be/k6HtPma83Cc [II] - Mandina...
 



Efeméride mozartiana
4 Novembro 1786

[facebook, 04.11.2014]

Viena: Data em que Amadé dá entrada no seu catálogo pessoal das Variações para Piano a Quatro Mãos, em Sol Maior [mais tarde catalogadas como KV 501].

A interpretação, de nível excepcional, revelando uma articulação raramente conseguida, é do ex-casal Martha Argerich & Stephen Kovacevich, no contexto do "Martha Argerich and Friends", ao vivo, Festival de Lugano, 2008.

00:00 Theme-Andante
01:09 Variation-1
02:11 Variation-2
03:05 Variation-3
03:58 Variation-4
05:15 Variation-5


Boa audição!

http://youtu.be/RA4M28J_NZM

 
 
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) Andante with Variations for Piano four hands in G major, K501 Martha Argerich & Stephen Kovacevich (piano) Martha Argeric...
 
 
 
 


Director do Museu de Arte Antiga
refere-se à experiência da
Parques de Sintra

[facebook, 03.11.2014]


O “Público” de domingo, 2 de Novembro, entrevista António F. Pimental, reconduzido nas funções de Director do Museu Nacional de Arte Antiga - o primeiro Museu português a passar a barreira dos 200.000 visitantes - na mesma semana em que foi anunciado um novo plano para a gestão de museus e monumentos no eixo Belém-Ajuda, com base no modelo da Parques de Sintra, cujo grande protagonista será, precis...amente, o Prof. António Lamas.

Entre outros, eis apenas dois momentos da entrevista em que Pimentel se refere à experiência de Sintra:


“(…) O que a Parques de Sintra conseguiu demonstrar é que, com uma gestão integrada, é possível criar a suficiente base económica para começar a olhar para estes monumentos a sério. Há uma obra em Sintra que é absolutamente inegável: Monserrate, o Chalet da Condessa, os restauros no Palácio da Pena, Queluz vai começar com obras na fachada. Isto é um ritmo de conservação que nunca existiu. Não tenho a menor dúvida em defender a obra que Lamas fez em Sintra. (…)

Voltando a Sintra, bilhetes a 14 euros não são um problema?

Não é pelo preço dos bilhetes que os portugueses não consomem cultura – não o fazem porque não são cultos. Ninguém regateia o preço de um bilhete de futebol ou de um gin no Bairro Alto. (…)”

Enfim, não deixa de ser consolador quando percebemos que as nossas opiniões são espaldadas pelas de quem tem opinião sustentada em reconhecida autoridade pública nacional… Pimentel dá uma entrevista notável. Este detalhe sobre Sintra - repito, entre outros, em que o caso da PSML é chamado à colação em diferentes momentos - é apenas um dos motivos de interesse.

 


2 de Novembro,
a propósito do Dies Irae



[Por ser hoje o Dia de Fiéis Defuntos, resolvi tornar a propor um texto escrito em Salzburg e, no mesmo dia 29 de Janeiro de 2013]


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Na cripta da Catedral de de Salzburg

“(…) Mors stupebit et natura,
cum resurget creatura,
judicanti responsura.


Recordare, Jesu pie,
quod sum causa tuæ viæ:

ne me perdas illa die. (…)”

Catedral de Salzburg. Quantas e quantas vezes, ao longo de tantos anos, tenho descido a esta cripta, durante uns momentos, para me recolher na capela circular, muito pequena, em cuja parede, junto ao tecto, e a toda a volta, estão gravadas aquelas que são algumas das mais impressivas palavras do ‘Dies irae’ que bem deviam estar presentes no espírito de todos os crentes cristãos!...

De facto, está no subsolo do grande templo que a aparente (ou manifesta?...) megalomania do Príncipe Arcebispo Wolf Dietrich pretendia fosse maior do que São Pedro de Roma. Na realidade, embora ocupando um espaço físico e concreto, nos momentos em que ali estou, a capela da cripta deixa de ser um lugar na cidade e da cidade, tornando-se espaço sem amarras, sem coordenadas concretas.

Mors stupebit et natura,
cum resurget creatura,
judicanti responsura.


Recordare, Jesu pie,
quod sum causa tuæ viæ:
ne me perdas illa die.


Para ler estas palavras, a toda a volta da capela, sou obrigado a rodar, a assumir o eixo do movimento helicoidal que daqui me liberta de quaisquer referências. Deixo, por agora, a sempre difícil tarefa do registo escrito dos momentos em que a Fé manda mais que tudo, e volto ao ‘Dies Irae’.

Na maior parte dos casos – e, nesses especiais momentos, articulando com alguns dos temas musicais mais célebres e belos - aquela mensagem só evidencia todo o esplendor escatológico, quando ouvida e entendida como suporte textual do Requiem, Missa dos Mortos, por exemplo, de Mozart ou de Verdi, para não referir outros igualmente belíssimos, como os de Fauré, Britten ou Penderecki.

Ontem mesmo aqui se celebrou o nascimento de Mozart. Eu lembrei a morte de Verdi. Nascimento e morte, tanto dos génios, como foram aqueles compositores, como de nós, cristãos, homens comuns que somos, constituem apenas os primeiro e segundo termos ou momentos de uma tríade que continua noutra plataforma de vida. Aliás, é neste preciso sentido que só podemos concordar com Amadé, católico e maçon, quando, extremamente inspirado, em carta dirigida ao pai, Leopold Mozart, qualificou “(…) a Morte como a nossa melhor amiga (…)”.

Muita gente se espanta com o clima de exuberante esperança da Missa de Requiem de Mozart. Para já, importa não esquecer tratar-se de uma Missa. É uma Missa, escrita por um genial compositor católico que, no fim de vida breve, acolhe a Morte, precisamente, como a melhor amiga que lhe abria a porta da Eternidade. Tal como ele, católico e maçon, tenho o privilégio de crer profundamente nesta verdade, privilégio que se conjuga com a frequência da Arte, Arte que tão próxima está do divino.

Naturalmente, universal como é, o objecto de Arte, não carece do atributo da Fé para que qualquer mortal aceda à sua essência. No entanto, no caso da Música Sacra, composta por sinceros, veementes e grandes crentes, como foram Mozart, Bach, ou Poulenc, julgo que uma sintonia outra acontecerá quando os destinatários das obras, os ouvintes, também estiverem animados pela mesma Fé que presidiu à concepção da peça.

É evidente que só poderia terminar de uma maneira, ou seja, propor-vos a audição do momento do ‘Dies irae’ do Requiem de Mozart composto a partir das duas primeiras estrofes do texto latino, a seguir apresentadas, enquanto que as transcritas na capela da cripta da catedral de Salzburg se referem às quarta e nona.
1
Dies iræ! dies illa
Solvet sæclum in favilla
Teste David cum Sibylla!

2
Quantus tremor est futurus,
quando judex est venturus,
cuncta stricte discussurus!


Trata-se de uma gravação ao vivo, na catedral de Sto. Estêvão, em Viena, no dia 15 de Setembro de 1991, por ocasião do 200º aniversário da morte de Mozart, Orquestra Filarmónica de Viena dirigida pelo saudoso Sir Georg Solti, Coro da Ópera Estatal de Viena e solistas Arleen Auger, Cecilia Bartoli, Vinson Cole e René Pape.

[Seguem duas gravações, a primeira só do ‘Dies irae’ e a segunda da obra completa mas numa leitura de Karl Böhm.]

Boa audição!

http://youtu.be/qZTd9jXQLMU
http://youtu.be/-1DsJ5YQr5s

 
 

Sintra,
Jornal da Região,
leitura obrigatória

[Facebook, 02.11.2014]


Que o 'Jornal da Região' está em grande forma já toda a gente se apercebeu. Através da nova Série IV, cada vez mais se confirma que a sua leitura se vai revelando imprescindível. Como peixe na água, Paulo Parracho lidera uma equipa em que o Chefe de Redacção João Carlos Sebastião [JCS], também nos contempla com um semanal prato de sustância de interesse inequívoco. Por tudo isto, que tão bons prenúncios de bom jornalismo nos traz, desde... já, os mais calorosos parabéns.

Comprovando o que, com tanto gosto, todos temos constatado, colhi os melhores ecos do artigo publicado a págs. 2 e 3 da edição do passado dia 29 de Outubro, subordinado ao título "Silos automóveis estão em estudo". JCS, ouviu opiniões do Vereador Luís Patrício, responsável pelo trânsito, que, num registo aparentemente inócuo, confirma medidas já anunciadas pelo Presidente da Câmara relativas à instalação de parques de estacionamento, mudanças de sinalética, etc.

São de tal modo interessantes, quer pela natureza quer pelo teor que valerá a pena comentar as declarações do Senhor Vereador. Fica para um dia destes.

 


Sintra,
manifesto para o civismo


[Transcrição do artigo publicado na edição do 'Jornal de Sintra' do passado dia 31 de Outubro]

Defender o património, nos tempos que correm, é mais que nunca um dever cívico, porque, avaras, as verbas encolhem, e o interesse público também. Para os militantes dessa causa, este deve porém ser um momento de vigília, e de não deixar que a frágil árvore desapareça na floresta densa de dificuldades, cortes e silêncios motivados pela ditadura da dívida, ou abocanhada por um qualquer Leviathan.

Defender o património, nestes dias dum Portugal cinzento, é estimular a cidadania, e as boas práticas; é pugnar pela educação escolar como plataforma para o seu conhecimento e propagação; é descolonizar a memória de imaginários estafados, acolhendo visões de património, que incluam o imaterial e o das vivências, amanhã seguramente tradições; é resgatar a auto-estima e o “sentimento de nós”, num tempo de cerrar fileiras, e estimular a identidade que constrói a nossa idiossincrasia e peculiar forma de estar no mundo; é lançar pontes e massa crítica, mediar entre o poder público e as comunidades, num trajecto virtuoso que acentue o pathos de ser português, e sê-lo de modo universalista. (…)

[“Defender o património de Sintra é…”, Fernando Morais Gomes, blogue No Reino de Klingsor, 25.10.2014]

Este excerto inicial de um texto subscrito por um bom amigo e conhecido militante da defesa do património, texto denso e pleno de actualidade, não só funciona como um verdadeiro manifesto mas também, para muitos de nós, é a confirmação de uma atitude de vida, por vezes, de dezenas de anos de intervenção cívica que, por muito nos honrar, não estamos dispostos a dar de barato.

Em quaisquer circunstâncias, é suposto que todos os que nos revemos nestas palavras, possamos e devamos dar público manifesto de uma saudável e desejável comunhão de interesses. Então, neste preciso momento, em que a Câmara Municipal de Sintra, na sessão da Assembleia Municipal datada de 20 do corrente, acaba de apresentar aos munícipes o seu entendimento do Estado do Concelho, é-nos lançado um desafio.

Na realidade, implícita e explicitamente, somos chamados à afirmação de uma presença atenta e activa, cooperante e decidida ao maior envolvimento cívico, para que as soluções, longe de apresentadas como factos consumados, pelo contrário, sejam o corolário de exemplar forma de trabalho entre os decisores políticos locais e os cidadãos que representam.

Momento crucial

Assim vindo a suceder, perante a evidência de que está prestes a apresentar propostas que os diferentes gabinetes terão preparado, chegada é, portanto, a altura de a autarquia concretizar as consultas formais às associações cívicas e culturais representativas dos cidadãos, consulta esta que tem afirmado ser sua inequívoca opção para o governo local, que melhor a habilite à resolução dos problemas graves que estão a afectar muito seriamente a qualidade de vida das populações.

Naturalmente, todas as previsíveis diligências, consultas, partilha de informação entre os representantes das associações, autarcas e técnicos da Câmara Municipal, deverão decorrer com a maior cordialidade, abertura de espírito e inequívoca vontade, não só de corrigir o que, durante anos tão mal tem estado, mas também de concretizar as novas e melhores medidas possíveis. As circunstâncias reais determinarão quando manifestar total acordo ou, eventualmente, assumir frontal oposição se a defesa dos princípios e valores que nos animam não nos autorizarem outra alternativa.

Importa valorizar um facto essencial. Felizmente, tudo está em aberto. A título de exemplo, o caso do estacionamento. Como ainda não há quaisquer factos consumados e, de acordo com o anúncio do próprio Senhor Presidente da Câmara na referida sessão da Assembleia Municipal, tão somente, uma vaga indicação relativa à possibilidade de instalar um silo na zona da Estefânea, a expectativa é total, não podendo ser maior a vontade de ouvir, estudar e colaborar.

A propósito, jamais se deverá perder a noção de que, numa perspectiva integrada da intervenção municipal – em especial, num enquadramento tão crítico e exigente como é o de Sintra, objecto da classificação da Unesco como Paisagem Cultural da Humanidade – a defesa e recuperação do património natural e edificado é indissociável da normalização do tráfego, regularização da sinalética, instalação de parques dissuasores de estacionamento periférico em articulação com adequada rede de transportes públicos, rigoroso regime de cargas e descargas, acesso ao centro histórico e pontos altos da Serra e outros itens de perfil afim.

Finalmente, na expectativa de podermos enriquecer a prática da democracia participativa, matriz de toda a intervenção cívica, não deixaremos de sublinhar ser este o momento em que aos autarcas compete suprir o máximo de esclarecimento de tal modo que, ao partilhá-lo com os cidadãos que integram as nossas associações cívicas, todos nos sintamos devidamente apetrechados para o trabalho da representação e satisfação dos interesses da comunidade.

PS:

O Prof. António Lamas acaba de deixar a Administração da Parques de Sintra Monte da Lua. Sabem todos os habituais leitores do apreço em que tenho a administração do Prof. António Lamas ao longo dos seus anos à frente da empresa. A obra que deixa é verdadeiramente espectacular e, tanto mais positiva quanto, em contraponto, sucede a um descalabro que, francamente, não posso nem devo misturar com estas palavras.

Com a sua liderança de cerca de nove anos, o Prof. António Lamas deixa, à Parques de Sintra, aos sintrenses e aos portugueses em geral, um legado de extraordinárias realizações e o paradigma de uma actividade que, infelizmente, é muito raro encontrar entre nós.

Ali, as coisas não correram bem por acaso. Ali, funciona uma equipa de colaboradores, com as características que lhe conhecemos, porque a administração encabeçada pelo Prof. Lamas a soube motivar de forma excepcional.

O Prof. Lamas levantou a fasquia a uma tal altura que não vai ser mesmo nada fácil substituí-lo. Para já, a tutela não podia ter dado melhor sinal ao nomear o Dr. Manuel Baptista que, durante todos estes anos foi o mais activo companheiro no caminho do sucesso que também obra sua. Solução de continuidade, é sem dúvida, e muito bem! Oxalá pudesse ser inequivocamente definitiva…