[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sábado, 12 de dezembro de 2015



O 10 de Dezembro
com as Goldberg no novelo da amizade



[publicado em 10 de Dezembro de 2015]


Há muitos anos, o 10 de Dezembro assinala uma data tão especial que, provavelmente, nem sequer aqui a deveria expor. Penso eu que os nossos maiores tesouros devem manter-se sob reserva. Sem fotos, sem mundo, sem ribalta de espécie alguma. Tal é o caso do aniversário da Margarida Bénard da Costa, um 10 de Dezembro que se me cola como a mais solene data anual de celebração da amizade, da maior amizade.

Então, o Bach neste contexto? Diria que a Guidinha tem Bach nos cromossomas. A sua é uma genealogia em que muitos de nós nos incluímos, irmãos, portanto, herdeiros comuns de um legado que continua a deslumbrar como no primeiro dia da apresentação da obra fascinante que venho partilhar.

Trago-lhe o «seu» Bach, não através de uma entre as mais conhecidas e tidas como excepcionais abordagens, mas daquela que, pelas mãos de Landowska, não posso deixar de considerar como uma epifania. Aqui, também muito viva, a memória de meu pai que soube ensinar-me a grandeza daquela que ele próprio cognominou como 'la grande polonaise brillante'...

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Para que conste, passo a traduzir as intenções de J.S. Bach, em relação às "Variações Goldberg, BWV 988":

“Quarta parte dos ‘Clavier Übung’, compondo-se de uma ária com diferentes variações para o cravo com dois teclados. Composto em intenção dos amadores para o prazer dos seus espíritos (…).”
E, para que não haja a mínima dúvida a menção ’para dois teclados’, pois ela figura em cabeçalho das variações nos. 11, 13, 14, 17, 20, 23, 25, 26, 27 e 28; a menção ‘a 1 ovvero 2 Clav’ em cabeçalho das variações nos. 5, 7 e 29; as restantes trazem a menção ‘a 1 Clav’.

Quando Bach entendia precisar, muito especificamente, do instrumento para o qual compusera determinada obra, fazia-o tal qual como no caso vertente. Significa isto que, em relação às “Variações Goldberg”, o compositor não podia ter sido mais peremptório.

Por exemplo, já quanto ao “Das Wohltemperierte Clavier” [O Teclado bem Temperado, Livros I e II, BWV 846-893], a palavra ‘Clavier’ (sempre assim grafada, não com 'k') designa, sem especificação, o instrumento de teclas sem que se possa concluir, inequivocamente, se Bach terá pensado primeiro no cravo ou no clavicórdio, ou no órgão para algumas peças ou mesmo no novo pianoforte para outras…

A verdade, porém, é que os modernos pianos se adaptam muito bem aos desígnios do compositor. Daí que, hoje em dia, se tenham vulgarizado as versões para piano das “Variações Goldberg”, avultando as duas de Glenn Gould. Não serei desmancha-prazeres mas prefiro outras, por exemplo, de András Schiff ou de Angela Hewitt.

«A» interpretação

Contudo, nada me consegue desviar do propósito inicial de Bach. O Cravo, inequívoco! Daí que vos proponha a leitura absolutamente definitiva da inultrapassável – não, não tenho mais adjectivos... – Wanda Landowska.

Por favor, a última coisa em que devem reparar é na qualidade da gravação… Pois, de 1933, mas perfeitamente inteligível e concludente quanto à suprema qualidade da interpretação. Bach, nas mãos de Landowska é uma epifania.

Quanto à estrutura, enquadramento e curiosidades acerca das "Variações Goldberg" já me aturaram noutras oportunidades. E, sem mais delongas, a peça e «a» interpretação!

Boa audição!
 
 
BACH - VARIAZIONI GOLDBERG - Cembalo: Wanda Landowska (First Rec 1933)
youtube.com
 
 
 
 



10 de Dezembro de 1948
Direitos Humanos e a Alegria do Evangelho

[publicado no facebook em 10.12.2015]


Nasci em 48. Tenho os mesmos sessenta e sete anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Ocorre-me celebrar a data conjugando-a com a recente Exortação Apostólica 'Evangelii Gaudium' do Papa Francisco.

"(...) Prefiro uma Igreja rota, esfarrapada e suja por estar nas ruas actuando, a uma Igreja enferma por estar confinada e agarrada à própria (sensação ilusória de) segurança", escreve o Papa. "Não quero uma Igreja obcecada por estar no centro e que acaba presa numa rede de obsessões e procedimentos. (...)"

Para nós, católicos, mulheres e homens de Fé, o exercício do respeito pelos Direitos humanos, por acréscimo de argumentos, passa pela pertença a uma Igreja, com aquelas características, que Francisco nos desafia a ressuscitar dos tempos iniciais do Cristianismo.

Se é a Revolução, então é a revolução do Cristo, a Quem, de acordo com o Evangelho, mais uma vez, somos chamados a acompanhar e a seguir.

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015




9 de dezembro de 1895
Nascimento de Dolores Ibárruri,
LA PASIONARIA
(m. 12.11.1989)


Dolores Ibárruri Gómez, conhecida como La Pasionaria, destacou-se como dirigente política comunista durante a Segunda República Espanhola e na Guerra Civil. Na minha família, na minha casa, onde ninguém era comunista, fui crescendo e sendo educado no respeito que havia por esta senhora.

Comunista e Católica, deixou escrito:

"Veremos se convertemos o que nos resta de vida num cântico de louvor e de acção de graças a Deus!"
 
Um espantoso hino à Vida!

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1915 - 2015
Elisabeth Schwarzkopf,
centenário


Felizmente, não faltam registos de muitas das suas prestações. Nesta comemoração tão especial, parece que terei encontrado uma gravação rara e muito interessante. Elisabeth Schwarzkopf canta "Ach ich fühl's...", a Aria de Pamina, no original Alemão. Aqui têm o texto com uma tradução para Inglês.

Ach, ich fühl's, es ist verschwunden,       
Ewig hin der Liebe Glück!                          
Nimmer kommt ihr Wonnestunde
Meinem Herzen mehr zurück!
Sieh', Tamino, diese Tränen,
Fließen, Trauter, dir allein!
Fühlst du nicht der Liebe Sehnen,

So wird Ruh' im Tode sein!



Ah, I feel it, it has disappeared
Forever gone love¹s happiness!
Nevermore will come the hour of bliss
Back to my heart!
See, Tamino, these tears,
Flowing, beloved, for you alone!
If you don't feel the longing of loveThen there will be peace in death!


Elisabeth Schwarzkopf cantou esta Aria na Rádio Turino, no dia 1 de Dezembro de 1952, sob a direcçao de Mario Rossi, num recital exclusivamente dedicado a Mozart, que incluia Arias from de "Die Zauberflöte", "Idomeneo", "Don Giovanni" e "Le Nozze di Figaro".

Schwarzkopf também gravou esta Ária em estúdio, em Julho daquele ano, com a Philharmonia Orchestra sob a direcção de Sir John [Michael] Pritchard, mas o disco nunca foi publicado.

Trata-se, de facto, de uma 'Pamina' memorável, ainda que, para nossa surpresa, se possa assinalar um ou outro deslize, provavelmente, devidos a distorção da própria gravação.

Boa Audição!


PS:

Uma célebre Ária. De amor. Eis a minha partilha de hoje, excerto de "Die Zauberflöte", o Singspiel que é marca indelével da minha filiação e condição de Iniciado da AOM, a mesma que acolheu o meu Irmão Mozart, compositor que nenhum soprano esteve mais à altura do que Schwarzkopf, razão pela qual os articulei através de peça tão simbólica.

Permitam que esta homenagem à diva ainda tenha outra destinatária, a minha filha Rita d' Avila Cachado Rita Avila Cachado, também hoje aniversariante. Não, a Rita não canta. Contudo, no seu métier de antropóloga, investigadora e professora do ISCTE, já é uma referência que muito orgulha a família e os amigos.
 
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A rare recording where you can hear Elisabeth Schwarzkopf perform Pamina's aria in german! Please if you have anymore information on when this was recorded a...
youtube.com
 
 

 
 



Aguardado desgosto


[publicado no facebook em 8.12.2015]


Era esperada esta sua atitude. Nos últimos anos, não foram um nem dois os concertos em que, anunciados e com os bilhetes comprados com a antecedência de um ano, como é o caso da Mozartwoche, foi substituído por problemas de saúde. A propósito, terei de recordar a última das referências que se articula com este anúncio de retirada.

No final do ultimo evento da série 'Tempestade e Galanterie', no Palácio de Queluz, tive notícias do Harnoncourt. A conversa com amigos tinha-se prolongado. Depois da partilha da boa música, adoro estes momentos de informalidade, em que tanto beneficio e aprendo, Estávamos Olga Prats, Artur Pizarro, Massimo Mazzeo, Ana Margarida Oliveira Martins, a Inês Ferro e o António Nunes Pereira.

Uma semana antes, o último referido dos nossos amigos, na sua qualidade de Director do Palácio da Pena, tinha estado uns quatro ou cinco dias em Viena para a frequência de um Seminário. Pretendendo aproveitar a estada na capital austríaca, e tanto desejando assistir a um concerto da Filarmónica de Viena dirigido por Harnoncurt, não conseguiu devido ao seu cancelamento por motivo de doença.

Nesse momento, Massimo Mazzeo - grande amigo do violinista Erich Höbarth, muito próximo de Harnoncourt, membro do Quarteto Mosaïques, que também tinha estado em Queluz uns dias antes - deu a entender que soubera do estado de grande fragilidade do Maestro. Eu próprio já me tinha convencido de que, com grande probabilidade, já não o veria dirigir o concerto do dia 30 de Janeiro de 2016, no Gosses Festspielhaus, para o qual tenho bilhete.

Assim sendo, perante a notícia da sua retirada, sei agora que assisti ao seu último concerto na Mozartwoche. Foi em 24 de Janeiro deste ano de 2015, também no mesmo auditório, em que sob a sua direcção, a Filarmónica de Viena preencheu todo um pograma dedicado a Franz Schubert, com a Abertura de "Die Zauberharfe", D 644, Rosamunden-Ouvertüre; Sinfonia No. 6 em Dó Maior D 589 e Sinfonia No. 7 em Lá bemol D 759.

Inesquecível porque, também foi uma das ocasiões, em que cheio de ânimo, nos seus estupendos 85 anos, nos brindou com uma palestra de improviso, durante quase meia hora, acerca do que, para ele, consistia a novidade vienense das sinfonias de Schubert. Como costumo referir, mais um dos tesouros do meu património oculto.

Em memória dessa noite, eis "Die Zauberharfe", D 644, Rosamunden-Ouvertüre, com a Filarmónica de Viena dirigida pelo nosso querido Nikolaus Harnoncourt.

Boa Audição!


https://youtu.be/OSv6KKSk38Y
 
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In a hand-written note, copies of which were placed in the programs at Vienna concert, the conductor wrote, “My bodily strength requires me to cancel my future…
artsbeat.blogs.nytimes.com|De Michael Cooper



 



8 de Dezembro
Dia de Nossa Senhora da Conceição,
Dia da Imaculada Conceição
Dia da Mãe


[publicado no facebook em 8.12.2015]

Tenho uma memória muito bonita do dia 8 de Dezembro, em que o feriado coincidia com o Dia da Mãe. Festa grande, um dos mais estupendos almoços em todas as casas dos crentes católicos, era dia em que as mães, avós, tias, madrinhas, eram especialmente saudadas, acarinhadas, mimadas, por filhos, netos, sobrinhos e afilhados, uma grande festa da Mulher e um prenúncio de Natal que fazia todo o sentido.

Hoje, quando a maioria dos homens e das mulheres da minha idade, já não têm a mãe presente, o dia só não tem as marcas mais negativas que, em princípio, uma ausência tão significativa ditaria, porque acreditamos estarmos todos a caminho de um encontro certo, que o tempo terreno se encarregará de garantir, e, nessa derradeira etapa, abrindo para uma dimensão outra de privilégio absoluto.

Ainda a propósito, importa considerar que o dia 8 de Dezembro é marcado por duas celebrações cristãs de significados distintos, porventura quase antagónicos, que se confundem devido à semelhança das designações. A evocação popular, tradicional, celebra a Nossa Senhora da Conceição (ou Concepção), isto é, celebra o arquétipo da Maternidade. Até há poucos anos, era nesta data, e não no primeiro domingo de Maio, que se celebrava o Dia da Mãe.

O conceito teológico oficial é o do dogma da Imaculada Conceição de Maria, definido pelo papa Pio IX em 1854 e, nada tendo a ver com o conceito popular, afirma que Maria, mãe de Jesus, foi imune de toda a mancha do pecado original, desde o primeiro momento da sua concepção. Esta ideia começou a surgir no século XII, tendo causado intensa polémica e sido rejeitada por importantes teólogos, incluindo São Bernardo e São Tomás de Aquino, e condenada pelo Papa Bento XIV em 1677, até ter sido aceite como dogma em 1854.

A instituição da ordem militar de Nossa Senhora da Conceição por D. João VI (*) de Portugal, que, alegadamente, sintetizaria um culto que, no nosso país, existiu muito antes de ser dogma, pelo menos na sua designação, remete para o conceito popular, não para o conceito teológico afirmado pelo dogma. De igual forma, as freguesias portuguesas anteriormente listadas adoptaram a designação "Nossa Senhora da Conceição" ou "Conceição", mas não "Imaculada Conceição"...

A propósito deste dia grande da Igreja e recordando ainda que o Papa Francisco tem o seu pontificado consagrado a Santa Maria, gostaria de partilhar convosco o "Magnificat", BWV 243, de JS Bach, numa estupenda leitura de Ton Koopmann, que passo a propor, juntamente com o texto que, convém recordar, é um excerto do Evangelho segundo S. Lucas.

Magnificat anima mea Dominum
Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo.
Quia respexit humilitatem ancillæ suæ: ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes.
Quia fecit mihi magna qui potens est, et sanctum nomen eius.
Et misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum.
Fecit potentiam in brachio suo, dispersit superbos mente cordis sui. Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles
Esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes,
Suscepit Israel puerum suum recordatus misericordiæ suæ,
Sicut locutus est ad patres nostros, Abraham et semini eius in sæcula.
Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto
Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum.
Amen.


Interpretação a cargo dos solistas Usa Larsson, soprano I, Elisabeth von Magnus, soprano II, Bogna Bartosz, contralto, Gerd Türk, tenor, Klaus Mertens, barítono, bem como The Amsterdam Baroque Orchestra & Choir, já sabem, sob a direção de Ton Koopman.

Boa audição!
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(*) A instituição data dos primeiros anos do século dezanove.É mesmo João VI e não João IV, como algumas vezes se vê confundir em relação à coroação de Nossa Senhora como rainha de Portugal, evento este, sim, da responsabilidade do 'Restaurador', cerca de duzentos anos antes.

 
 
 
 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015




Harnoncourt

[publicado no facebook em 7.12.2015]
 
 
 
Hoje, no seu mural do facebook, o Prof. Jose Luis De Moura [José Luís Carneiro de Moura] partilha connosco a sua gratidão a Johannes Nicolaus, Conde de la Fontaine und d’Harnoncourt-Unverzagt, ou seja, o maestro Nikolaus Harnoncourt, nascido em Berlin, aos 6 de Dezembro de 1929, cujo aniversário, portanto, ontem se celebrou.
 
Gesto muto bonito aquele que eu secundo, fazendo-o muito comovidamente. Há muitos anos, não há temporada anual em Salzburg em que não assist...a a vários concertos sinfónicos, coral-sinfónicos e récitas de ópera por ele dirigidos, nomeadamente, durante a Mozartwoche, o festival de Inverno organizado pela Stiftung Mozarteum Salzburg - Fundação de que sou membro - e de lá tendo-me habituado a enviar-vos as minhas impressões.
 
Também eu lhe devo inesquecíveis eventos musicais, alguns dos quais referidos nesses meus textos, escritos a partir de Salzburg, que, durante 6 anos, também foram publicados no 'Jornal de Sintra'. Entre os muitos parágrafos de prosa sobre o querido maestro, tive oportunidade de chamar a atenção, em diversas ocasiões, para um discurso absolutamente notável que, na sua qualidade de artista convidado par todo ano jubilar, ele proferiu na cerimónia em que, oficialmente, a Áustria assinalava o 250º aniversário de Mozart, a meio da manhã do dia 27 de Janeiro de 2006.

Ao longo de tantos e seguidos anos, muitos discursos tenho ouvido a Harnoncourt. Em pleno palco do Grosses Festspielhaus, prestes a começar a dirigir determinada peça, o Maestro não resiste. Pega num microfone e dirige-se ao público que, encantado, o ouve durante os mais ou menos longos minutos que lhe apeteça para abordar determinados aspectos afins da obra.

Claro que o faz de improviso. Mas, naquele célebre 27 de Janeiro de 2006, o discurso era formal, perante as mais altas individualidades nacionais e internacionais, com palavras medidas se bem que muito corajosas em certas denúncias. Já de seguida verificarão como não há o mínimo exagero nesta minha introdução.

Religiosamente, guardo o opúsculo que a SMS publicou para a ocasião em que fui um dos poucos e privilegiados espectadores na Grosse Saal do Mozarteum. Das três línguas em que está impresso, partilhá-lo-ei em Inglês, aproveitando a publicação em que enquadro este post.

Como logo verificarão, as palavras são indissociáveis da Sinfonia No. 40 em Sol menor de Mozart. Eis que vo-la apresento, não com a Wiener Philharmoniker, tal como na ocasião, mas numa interpretação da Orquestra de Câmara da Europa, naturalmente, sob direcção de Harnoncourt.


Boa leitura!
Boa Audição!


https://youtu.be/2HbMzu1aQW8
 


 
On my desk this week is the Mozart Requiem, a piece I’m coming back to for the first time since 2002. I can scarcely think of a piece by any composer that affects me the way this one does. It is not easy music to study- it is as terrifying, as personal and as painful as music, or any other part of t…
kennethwoods
 
 
 



7 Dezembro de 1768
Efeméride mozartiana
 
 
Viena:
 
Por ocasião da consagração da Waisenhauskirche em Rennweg, apenas com 12 anos, durante a sua primeira apresentação pública na capital, Mozart dirige duas peças religiosas que havia composto para a ocasião, "Benedictus sit Deus" KV 117 [I], e a Missa Solemnis em Dó menor (Waisenhausmesse) KV 139 [II].

Proponho a partilha destas duas peças, a primeira das quais, o Ofertório da Missa KV 66, numa interpretação de barbara Bonney, Concentus Musicus Wien sob direcção de Harnoncourt. Quanto à segunda, haverá que acrescentar à do soprano Bonney, as vozes solistas de Jadwiga Rappé, contralto; Josef Protschka, tenor; Hakan Hagegard, baixo; Coro Arnold Schoenberg, mesma orquestra e maestro.

Boa audição!


http://youtu.be/LFUplKrpD3o [I]
https://youtu.be/vnxH8M31F3g [II]
 
 
 
The mass is divided into 6 sections: - Kyrie (0:00) - Gloria (7:44) - Credo (19:39) - Sanctus (33:04) -…
youtube.com
 


"Presépio, lição de despojamento"
 
 
É o título do artigo que subscrevi para a edição do passado dia 4 do 'Jornal de Sintra'. Notas muito sumárias que também enquadram a exposição de presépios do escultor Luís Alenquer, a inaugurar amanhã na Galeria Real Antiguidades em São Pedro de Sintra.
 
"(...) Na realidade, como não ter bem presente a realidade dos fugitivos da guerra e deoutros horrores que, procurando refúgio, constroem comoventes presépios às portas desta Europa, a um tem...po, tão civilizada, desorganizada e impotente? Vivemos, sim, dias de presépios vivos, os presépios de sempre, que continuam a desafiar as nossas incapacidades flagrantes, insuportáveis.
 
É neste contexto que, em Sintra, a Canaferrim, Associação Cívica e Cultural, promove uma exposição de presépios de Luís Alenquer, conjunto de peças sinalizadas por declarado pendor de despojamento, subordinada ao tema O Presépio – A devoção da Hu-manidade. A aposta do escultor incide nos valores, tão franciscanos, que tal estética suscita. (...)"

Acessível em www.jornaldesintra.com acionando o comando 'Edições' e, seguidamente, 4.12.2015
 
 
Jornal de Sintra | Semanário Regionalista Independente
A funcionar desde 2008, na Rua Serra de Baixo (junto à Estação da CP), a Casa Benfica em Algueirão-Mem Martins foi [...]
jornaldesintra.com
 

O Funeral de Mozart - Conclusão

[Eis a última parte do texto em que, uma a uma, são desconstruídas as ideias que prevalecem acerca do assunto que aqui trouxe há apenas algumas horas. Indispensável a quem não queira continuar a acolher, como verdadeiros, episódios em que a biografia foi ficcionada, romanceada].

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Depois da introdução, no primeiro dos artigos desta pequena série em que, à guisa de revisão da matéria, voltei a pôr em comum alguns dos conhecimentos que já tinha tido oportunidade de partilhar com os leitores em anteriores ocasiões, começaria por acrescentar que não é estranho nem problemático que a morte de um grande artista tenha suscitado um tal interesse, ao ponto de estar na génese de outras obras, desde o fim do século dezoito até à actualidade.

A verdade, os factos e os artefactos

A Arte – e nela incluída literatura, o teatro, a música, o drama lírico, o cinema - sempre produziu artefactos, total ou parcialmente inspirados em factos reais e ficcionados.O único e substancial problema é que o grande público, especialmente a partir do filme de Forman, passou a consumir como facto – real, verdadeiro, biográfico – aquilo que não passa de artefacto.

Daí, ter-se-me imposto o grato dever de esclarecer os meus leitores dos artigos de cultura musical, acerca da verdade dos factos uma vez que, segundo Nicolas Boileau (1636-1711), "(...) rien est beau que le vrai / le vrai seul est aimable / il doit reigner partout / et même dans la fable… (...)"

Em resultado de investigações, mais ou menos recentes, vai sendo possível fazer a tal desconstrução que referi, para reconstruir o que é forçoso seja por todos partilhado, isto é, a biografia limpa de contributos romanceados, que só têm prejudicado o entendimento do homem e do artista absolutamente fascinante que Mozart foi enquanto paradigma do génio.

O caso do funeral deu origem à fantasia que mais flagrantemente entra pela porta da verdade e, de tal modo se entranhou nesse sagrado território, que passou a ser considerada efectivamente verdadeira, ainda que possa ser desmistificada com a maior facilidade. É esse o objectivo deste artigo que, para o efeito, se socorre de uma espalda histórica, cerca de dez anos anterior à morte do compositor.

Entremos, pois, na análise de factos concretos. De todos os decretos publicados no tempo do Imperador José II, aqueles que provocaram reacções mais violentas por parte da população - cujos costumes e tradições foram pura e simplesmente ignorados – terão sido os referentes à vida religiosa e aos novos regulamentos para os funerais.
 
Protótipo do déspota iluminado, o monarca governava na presunção de que decidia bem e, naturalmente, para benefício dos súbditos. Em 25 de Janeiro de 1782, José II fizera publicar uma nova tabela de preços dos ofícios religiosos, para as classes média e baixa de Viena e das circunscrições administrativas dos subúrbios. Vamos deter-nos um pouco nesta legislação para tentar que verdade subjaz à lenda.

O vil metal

A tabela em questão tinha sido inspirada num decreto análogo, destinado ao Arquiducado da Baixa Áustria, nos termos do qual um cidadão com bens, independentemente da sua classe social, poderia optar, entre as diferentes categorias de preço, conforme lhe aprouvesse, “(…) de tal modo que ninguém fosse obrigado a pagar despesas superiores às que, livremente, tinha escolhido (…)”.

Os pobres, cuja situação podia ser documentalmente atestada, por declaração ajuramentada ou por um juiz, não tinham de pagar quaisquer despesas. Por outro lado, as classes altas eram obrigadas a despender o dobro do total dos preços estabelecidos. Por altura da morte do compositor ainda vigorava a tabela em questão. Foi Gottfried van Swieten quem se encarregou de tratar do enterro de terceira classe que importou em oito Florins e cinquenta e seis Cruzados.

Se tivermos em consideração que cada Florim tinha sessenta Cruzados, pode afirmar-se que as despesas foram de quase nove Florins. Por outro lado, para que se fique com uma ideia aproximada da equivalência actual dos valores em causa, cada Florim valia cerca de trinta e cinco Euros. Portanto, o enterro teria custado trezentos e quinze Euros, ou seja, apenas um pouco menos que o ordenado anual pago por Wolfgang Mozart e sua mulher Constanze à criada Liserl Schwemmer, em 1784.

Avanço com estes pormenores porque correspondem a matéria investigada, absolutamente inequívoca. Mas não introduzirei mais valores e equivalências à moeda hoje em circulação porque sempre haverá grandes discrepâncias. No entanto, reparem. Se o vencimento da empregada fosse actualizado, mesmo em termos do ordenado mínimo nacional (português…), para se estabelecer o termo de comparação com o enterro, teríamos 450,00 Euros/mês x (apenas) 12 meses = 5.400,00 Euros!...

A propósito, um pequeno aparte para perceber como, em Viena, os grandes artistas eram apreciados e bem pagos. Por exemplo, um soprano tão conhecido como Nancy Storace - a quem Mozart dedicou a famosíssima ária de concerto Ch’io mi scordi di te?... Non temer, amato bene, K. 505 - recebia quatro mil e quinhentos Florins, em 1787. Num único evento, um bom solista podia ganhar tanto como quatrocentos e cinquenta Florins!

Cortejo fúnebre e cerimónias religiosas

Voltemos ao cerne da questão. Tendo em consideração as normas da praxe, é perfeitamente possível reconstituir o cortejo fúnebre da tarde de 6 de Dezembro, no percurso entre a casa da Rauhensteingasse onde Mozart morreu e a Catedral de Santo Estêvão. À cabeça, o porta crucifixo seguido pelos quatro homens com o caixão, coberto por tecido negro do cerimonial, flanqueados por mais quatro acólitos transportando lanternas.

Constanze estaria acompanhada por outros membros da sua família (Weber). É dada como certa a presença de Johann Georg Albrechtsberger e dos alunos do compositor, Franz Jacob Freystädtler e Otto Harwig que, assim o confirmaram. Anselm Huttenbrenner, aluno de António Salieri, afiançou que o seu mestre participou na cerimónia. Finalmente, como não podia deixar de ser, Franz Xaver Sussmayr, o aluno de Mozart que terminou o Requiem após a morte do compositor, também se incorporou.

Conhecem-se todos os pormenores da encomendação da alma, através da compilação dos rituais do ano de 1791, da autoria de Johann Schwerding, sabendo-se que, de acordo com a designação de então, o caixão foi deixado a descansar numa capela mortuária da catedral de Sto Estêvão, aguardando o transporte, em carreta fúnebre puxada por dois cavalos, para o cemitério de São Marcos, cujo aluguer custou mais três Florins.
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Mozart foi enterrado numa campa individual vulgar (allgemeines einfaches Grab), designação segundo a qual, a palavra vulgar (allgemein), nos termos da prática na era Josefina, não equivale a comum ou comunal (gemeinschaftlich). Não se tratava de uma campa de pobre no sentido da vala comum. Era, isso sim, uma campa simples que, ao contrário do jazigo, não concedia o direito de propriedade, podendo ser removida e reocupada após dez anos. Esta a verdade.
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Acresce o facto de nenhum dos regulamentos, vigentes ao tempo, impedir a colocação de uma cruz ou lápide. O decreto imperial de 12 de Agosto de 1788 estabelecia que “(…) cada pessoa é autorizada a ter sobre a campa o símbolo adequado à sua religião (…)”. Sem qualquer margem para dúvida, os contemporâneos de Mozart consideraram apropriada a colocação de uma lápide tumular cujo epitáfio [simplesmente assinado “K”, provavelmente Leopold Kozeluch], publicado nos jornais Wiener Zeitung, de 31 de Dezembro de 1791, e Grazer Burgerzeitung, de 3 de Janeiro de 1792, assim rezava:

MOZARDI
TUMULO INSCRIBENDUM.


Qui jacet hic,
Chordis Infans Miracula Mundi
Auxit;
et Orpheum Vir superavit.
Abi !
Et animae ejus bene precare!


portanto, um texto exaltando as qualidades daquele que ali jazia, Não só como menino-prodígio mas também como tendo suplantado o próprio Apolo, e, finalmente, pedindo orações pela sua alma.

O funeral de terceira classe nada tinha a ver com um Armenbegrabniss, isto é, um enterro de pobre. Na realidade, correspondia à categoria de ritual habitual na classe média, que o próprio Barão Gottfried van Swieten, grande amigo e Irmão maçon do próprio Mozart, completamente integrado na etiqueta da Corte, considerou adequado à condição do compositor. Não foram, portanto, razões de dinheiro que dominaram os arranjos para este funeral mas preconceitos ainda muito enraizados contra os que levavam vida de artista. Até na morte, Mozart era despachado pelos lacaios imperiais a quem julgava ter escapado ao deixar Salzburg dez anos antes.

Ainda que, neste domínio, haja mesmo muito mais informação a disponibilizar, terminaria com uma referência às duas grandes homenagens, na semana seguinte ao enterro, em especial as exéquias levadas a cabo na igreja de São Miguel, junto ao Hofburg, em Viena, no dia 10 de Dezembro de 1791 – com elevadas despesas de serviço religioso, sem mais encargos porque os músicos não cobraram - e, quatro dias depois, em Praga, com um brilho absolutamente invulgar, contando com grande orquestra, três coros, perante uma audiência de mais de quatro mil pessoas.
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Não esqueçam os leitores o que nos trouxe até aqui: apagar a ideia, fabricada durante o período romântico, posteriormente aproveitada e divulgada como verdade adquirida, segundo a qual a Mozart só convém a aura do pobre artista sofredor, sempre infeliz, explorado por tudo e por todos, desgraçado na morte e, até no próprio enterro, um indigente que teria ido parar à vala comum.

Nada mais falso!

Quod erat demonstrandum!
____________

Bibliografia:
-Dickson, P.G.M., " Finance and Government under Maria Theresia 1740-1780", Oxford, 1987;
-Steptoe, A., "Mozart, Joseph II and Social Sensitivity, Music Revue, 43 /1982);
-Schenk, E., "Wolfgang Amadeus Mozart, Eine Biographie, Zurich, 1955;
-Röhrig, F., "Das Religiöse Leben Wiens zwischen Barock und Aufklärung"