segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Ultimamente, por uma questão de higiene – e, confesso, inclusive à custa de certo esforço, até porque se trata de matéria de inequívoca importância informativa – tenho-me eximido à referência dos sinais de extrema preocupação que governo e oposição insistem em induzir na vida dos cidadãos para além do limite do suportável.
Passo a explicar. A questão de higiene decorre de um propósito muito pessoal. Na medida do possível, tento escapar minimamente afectado, quando não incólume, aos miasmas do inesgotável caneiro de trampa que, originário da Rua de São Caetano à Lapa, passa pelo Largo do Rato e São Bento, a caminho das redacções dos media que, em vez de funcionarem como estações de tratamento de águas residuais, revelam manifesta incapacidade de procederem à indispensável filtragem, fazendo desaguar tais pestilências nos noticiários radiofónicos, jornais e telejornais.
Sinais e sintomas de quadro político tão pouco saudável, tivemo-los, com documental copia, antes, durante e logo depois do debate acerca do Orçamento Geral do Estado para 2011. Qualificar o nível do debate, as atitudes comunicacionais, os comportamentos individuais como lamentáveis é muito pouco. Já que me referi a sintomas [e sintoma mais não é que especial sinal] deixem que permaneça nesta terminologia semiótica para partilhar convosco quão preocupantes eles são e, de facto, nitidamente concludentes de um novelo de patologias sociais e económicas definidor de uma vasta síndrome.
Verdade e consequências
Apesar de, momentanea e directamente, ter silenciado a intervenção a propósito destas matérias no sintradoavesso, não deixa de ser neste contexto que incluo o debate e a luta pela extinção das designadas empresas municipais, assunto que tem merecido um espaço adequado nestas páginas. Portanto, não houve nem há alheamento, menos atenção ou falta de participação nos debates que me são acessíveis.
Certamente, tal como muitos de vós, considero que o mal que nos afecta, enquanto comunidade que vive para além das suas capacidades, é coisa recentemente agravada mas que já vem de tempos muito recuados. Todavia, ao contrário de muitos observadores, julgo que o problema jamais se resolverá em meia dúzia de anos. A camisa de onze varas dos condenados pela Inquisição é metáfora que bem se nos aplica pela extrema dificuldade em que nos encontramos. Pode ser que nos livremos das labaredas da fogueira mas, certamente, não nos safaremos sem umas boas e merecidas chamuscadelas…
De qualquer modo, para que haja hipóteses de mobilização dos cidadãos, a caminho da solução do gravíssimo quadro em que todos estamos envolvidos, imprescindível se torna que o cidadão comum conheça a verdade. Os decisores políticos de topo, ao mais alto nível, só têm uma alternativa, ou seja, a de porem em comum a verdade toda, sem eufemismos, sem meias palavras.
Uma questão de consumo
Posteriormente, impõe-se que entremos num radical processo de mudança de vida, de acordo com o qual profundamente se altere o paradigma de consumo. A medíocre classe política portuguesa nada tem feito no sentido de alertar os cidadãos quanto aos limitados recursos do país que não nos permitem consumir sequer como os espanhóis, italianos, gregos ou irlandeses (cujos PIB são superiores ao nosso).
Na generalidade dos casos, os portugueses que ainda podem consumir [naturalmente, excluo os desgraçados dos nossos mais de dois milhões de compatriotas que ou são endemicamente pobres ou vivem no limiar da pobreza mais abjecta…], consomem aquilo que não podem ou não deveriam. Convém lembrar que governantes tivemos, oportunamente libertos do pântano a que tinham conduzido a nação, que obedeceram a receitas apropriadas a um país de índices socioeconómicos da média Europa que, real, infeliz e fatalmente, não é o caso do nosso…
País errado, empobrecido e…
Quase de soslaio, poderia aludir a dois casos muito significativos do sector primário, relativos à agricultura e às pescas. Na realidade, empobrecemos ao deixar que, nos termos da Política Agrícola Comum, nuns casos, fossem abandonadas práticas agrícolas que geravam riqueza e obviavam a importação de bens alimentares e, noutros, se entrasse numa aplicação ruinosa dos subsídios comunitários, em que se chegou ao escândalo de desviar os recursos dessa fonte para a compra de carros de todo o terreno, construção de boas casas, etc.
De igual modo, nos poderíamos referir às pescas. A propósito, como esquecer que, agora, o actual Presidente da República tanto fale no projecto de nos voltarmos para as potencialidades do mar? Mas, afinal, então não foi ele que, enquanto Primeiro-Ministro, cedeu a toda a sorte de medidas que a então CEE nos impôs para o desmantelamento, não só da frota pesqueira longínqua mas também das de costa e artesanal? Que paradoxo!
Cumpre e urge que o português médio se convença de que vive num país relativamente pobre e empobrecido e como tal, mas com esperança na mudança, terá de viver. Igualmente, haverá que assumir que as restrições impostas pelo OGE 2011 nada resolvem quanto à geração de riqueza e, como vão induzir a concretização da mais que previsível recessão da actividade económica, nem sequer permitirão ao país a capacidade de honrar os compromissos quanto à liquidação das dívidas e juros dos créditos contraídos.
…talvez remediado
Daí que a despesa de qualquer cêntimo tenha de ser devidamente avaliada quer a nível do cidadão particular, quer pelas empresas privadas e, muito naturalmente, por toda a máquina da administração central e local. Temos de cair na real. Em termos do consumo, significa isto uma tal mudança de comportamento individual e colectivo que, nalguns casos terá consequências dramáticas.
Neste domínio, desde já convém contar com o agravamento da taxa de desemprego de cidadãos afectos à produção e comercialização de determinados bens de consumo que, a partir de agora, entram no rol dos supérfluos e dispensáveis. Trata-se do inevitável desemprego de uma força de trabalho que terá de se converter para o enquadramento noutras actividades.
Afirmar esta inevitabilidade de um desemprego necessário e fatal é quase cruel e desumano. Mas não há volta a dar. E, neste contexto, quem vos escreve, apreensivo quanto ao futuro, também é sindicalista, dirigente de uma grande federação de sindicatos da Educação, sector onde tanta incerteza se equaciona para trabalhadores docentes e não docentes.
Talvez estejamos prestes a ter de recorrer ao Fundo de Emergência da União Europeia ou a uma intervenção do Fundo Monetário Internacional. Se, em última instância, a vida de verdade que a comunidade portuguesa não pode deixar de observar, tiver de passar por uma via que talvez não consigamos evitar, pois, então, que se concretize, pela segunda vez em trinta anos. Sem dramas.
Sabemos que temos de passar por muito maus bocados e, se tal tivesse de acontecer, ficar-nos-ia o amargo de boca de entregar a terceiros a resolução de problemas muito nossos. Seria uma universal declaração de incompetência mas não o fim do mundo. Seria uma derrota difícil de suportar mas a encarar com dignidade.
Finalmente, num momento tão sério da nossa vida cívica, recuso-me a engrossar o tal caneiro com a matéria infecta, que para aí continua a fluir, à procura de anzol. Agora, denunciados por um destacado membro de grupo nacionalista, estão na berlinda familiares de José Sócrates… Não, por favor, já não se aguenta! Só a muita fominha de certa comunicação social sensacionalista mantém esse esgoto activo. Haja decoro! Aqui, no sintradoavesso, não contem com isso.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
CÂMARA DE SINTRA PAGA, MAS NÃO MANDA?
Das situações que mais me marcaram neste blogue uma se destaca: A Carta Aberta de uma coligação política que se manifestava contra o facto de ter sido interpretada como viabilização aquilo que, tão somente, fora um caso de abstenção, realçando que se tinha tratado de distanciamento...
Vem isto a propósito do notório distanciamento dos responsáveis pela gestão de Sintra, no que se refere à higiene pública, à necessária limpeza urbana, ao respeito pelos munícipes e cidadãos em geral no que toca a esta matéria.
Sabemos que não é simpático meter umas cunhas na RTP para um novo trajecto de trem, desta vez pelos caminhos do Rio do Porto, ali mesmo a 100 metros dos Paços de Concelho. Fica o apelo a quem tão diligentemente possa contribuir para mais uma reportagem de fachada, onde o lixo seja debitado a Vasco da Gama ou à globalização...
A menos que as imagens que iremos mostrar façam parte do tal romantismo que se impregnou nalgumas cabeças sem grande respeito pelo turismo e turistas.
Uns destes dias, dois casais ingleses apreciavam desagradavelmente e fotografavam o Largo e a Calçada do Rio do Porto, em pleno Centro Histórico.
Confesso que tive vergonha e, ali mesmo, lhes pedi desculpa pelo facto, como se estivesse a representar o poder constituído, aquele que corta trânsito, que promove reuniões internacionais, que fala em batota por Sintra não ter sido uma das Maravilhas. Que se ufana!
Entretanto, não deixa de se colocar uma questão nuclear: A Câmara Municipal de Sintra, como pagadora que transfere milhões para uma empresa municipal que inventou, não manda ou não exige responsabilidades à HPEM para proceder em harmonia com o que, ao que julgamos, lhe foi descentralizado?
E, da parte da Câmara ou dos seus quadros, sabendo-se que tantos por ali estacionam os seus carros, não existe o zelo – até como prova de cidadania – de promover a eliminação deste estado das coisas?
Não quero correr o risco de ser o destinatário de uma carta aberta subsequente desta denúncia da notória abstenção de quem tem responsabilidades. Tratar-se-á, certamente, de mais outro caso de distanciamento.
Se Sintra a isto chegou, então acabe-se com a empresa municipal que nos custa milhões, para que não se alijem responsabilidades.
Ontem, às 16,15 horas, era assim a oferta turística:
Romantismo que se sente e espírito do Lugar
Lixo e abandono: referências da qualidade ambiental
Fernando Castelo
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Por acaso eu estava lá. Felizmente para mim e para todos vós que vão ficar a saber o que se passou. Era quase noite, cerca das cinco e meia, nas imediações da Quinta da Regaleira. Uma boa quantidade de automóveis, todos multados, estava estacionada desde a curva dos Pisões até ao portão. À medida que avançava, cada vez mais espantado, ia ouvindo, vários apitos cruzados.
Um pouco mais à frente, à distância conveniente para a desejável e conseguida operacionalidade, dois agentes regulavam o trânsito local que, em consequência da sua correcta intervenção, ia fluindo com alguma dificuldade mas com toda a segurança. Quer dizer, não se tinham limitado a autuar aquela escumalha de prevaricadores, fazendo questão de resolverem os problemas suscitados pelo comportamento lesivo dos condutores.
Abençoada a hora em que, tendo regressado do meu retiro alentejano, não quis deixar de fazer a caminhada diária que, por razões que agora não são chamadas ao caso, lá não pudera fazer pelos trilhos do monte. Que maravilha! Afinal a polícia ainda mexe. E, como tive oportunidade de constatar, continua sabendo como actuar, com o maior empenho e profissionalismo.
A cena que tive a dita de presenciar constituía a prova provada de que mantém o exercício da autoridade de que está investida, para defesa de pessoas e bens, dando sinais de que, eventualmente, poderemos começar a descansar quanto ao cumprimento do mandato constitucional que faz subordinar o interesse individual ao da comunidade que lhe compete assistir.
Será exagero invocar tais valores do Estado Democrático de Direito, tão somente, porque tive o privilégio de assistir à concretização de uma acção de agentes da Polícia Municipal de Sintra? Não, de todo que não é. Trata-se de um caso que, infelizmente, não tem sido frequente nos últimos tempos pelo que, pela sua raridade, me permito evidenciar com o merecido destaque.
Com a devida cautela, cumpre não embandeirar em arco, fazendo votos de que não tenha sido um acto tão esporádico como outros. Vem-me a convicção de sentido positivo pelo facto de ter decorrido aquilo que poderei entender como campanha de sensibilização [vd. Saudação à PM de Sintra, aqui publicado no passado dia 18 de Outubro] relativamente a uma nova fase em que a Polícia Municipal de Sintra pretenderá cortar a direito.
Com a maior sinceridade, espero bem não ter razão para deixar tais dúvidas em aberto.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
o esquecido…
Sintra deve-lhe tudo. E, como é natural numa terra de gente muito distraída, nenhuma comemoração oficial, cerimónia formal ou encontro mesmo informal, estão programados para o dia de hoje. Telefonei para o gabinete do Senhor Presidente da Câmara e também para a Parques de Sintra Monte da Lua, no sentido de saber se, pelo menos, no Palácio da Pena haveria alguma comemoração. Pois, tanto num como no outro lado, gentis funcionárias tiveram o cuidado de se certificarem para me poderem informar nos termos do que transmito aos leitores.
Parece impossível mas é mesmo assim. O institucional reconhecimento de Sintra a D. Fernando II concretiza-se nesta lastimável mas bem sintomática ausência. Neste caso, ignorar, não marcar a data com sinais inequívocos de gratidão e de homenagem é mesmo um crime de lesa-majestade, deixem-me usar a analogia.
Naturalmente, a pouca preparação cultural dos responsáveis autárquicos, em familiar articulação com a proverbial falta de conhecimentos ou desatenção dos técnicos dos serviços culturais acabam por resultar nestas evidências que fazem a nossa vergonha. Hoje, tenho a certeza, não sou a avis rara que se sente envergonhada pelo desrespeito institucional por quem tanto amou Sintra e a quem Sintra tudo deve. Há amigos com quem já falei que comungam deste desgosto.
Todavia, como sentir qualquer surpresa? É que, na realidade, o gabarito cultural desta gente, coitada, infelizmente muito poucochinha [mas democraticamente eleita, meu Deus, que perversidade!...] não vai muito além de iniciativas do baixíssimo nível como o da tal Sintra Romântica, campanha bacoca que promovem no desconhecimento total do que seja Sintra e movimento romântico que determinado ecletismo e sincretismo cultural suscitaram.
Esquecido? Sim, pelos videirinhos e politiqueiros cá do burgo que, embora vivendo à custa do que D. Fernando investiu, são incapazes de um gesto de mínima nobreza. Mas, aqui, no sintradoavesso, comemora-se a efeméride sem que, para o efeito, tenha de acrescentar ou subtrair seja o que for ao texto que, há três anos, escrevi e publiquei, tanto no saudoso Jornal de Sintra como neste blogue, subordinado ao título D. Fernando II, Pobre artista! Pobre rei! que me permito voltar a propor. Por facilidade de acesso, passo a transcreve-lo.
Transcrição:
D. Fernando II
Pobre artista! Pobre rei!
Há muitos anos que, para mim, o 29 de Outubro é subordinado à memória de Fernando de Sax- Coburg-Gotha (Coburg, 29.101816 - Lisboa, 15.12.1885), um dos homens que mais decisivamente marcou a segunda metade do século dezanove em Portugal, especialmente no âmbito da defesa e recuperação do património.
Muitas são as histórias e os episódios de salvaguarda de peças de valor patrimonial inestimável, in extremis resgatadas ao destino da pura e simples destruição, não fosse a sua directa intervenção. Um verdadeiro diletante, homem informado e de grande cultura, artista ele próprio, grande amante da Música, cantor, pintor de gabarito, tão impressiva foi a marca da sua atitude e actividades que ainda hoje é lembrado sob o epíteto de rei artista.
"(...) Pobre artista! Pobre rei!" É com estas exclamações que Ramalho Ortigão termina o texto subordinado ao título O Rei D. Fernando.* Estas palavras são precedidas por vinte páginas de uma homenagem que, passados que já são cento e vinte um anos sobre a sua escrita, ainda hoje continuam a funcionar como pretexto para que os portugueses melhor se reconheçam, quando lhes dá para o farisaísmo, mesquinhez, ordinarice, inveja, na acabada demonstração da incapacidade de se organizarem à volta dos seus mais autênticos interesses.
Animação da Leitura...
Quem ainda não leu aquelas estupendas linhas de As Farpas e julga conhecer a grande e a pequena História de Sintra, em especial no que se refere ao legado da Pena, não sabe o que tem andado a perder. Ramalho Ortigão escreveu-as, na sequência da morte do Senhor D. Fernando, a quente, reagindo à hipocrisia de uma data de ignorantes que, ao fim e ao cabo, ainda andam por aí. Ou ainda não terão notado? Verão a razão que me assiste quando as lerem.
Uma das maneiras para melhor comemorar a efeméride, não tenho a mínima dúvida, passa pela leitura de texto tão recomendável, que tanto proveito e gozo estético proporcionará a quem seguir o concelho deste humilde escriba que se atreve, não só ao beija-mão real, mas também à evocação de um escritor maior de oitocentos. Nos dias que correm, passe a presunção, não é façanha menor...
...da Música
Mas ainda não vos deixo sem outra recomendação que, aliás é suscitada pela leitura que recomendo: "(...) E, instalando-se num fauteuil, ao fundo da sala de música, [D.Fernando] cantou-lhe ao piano, à mais larga expressão elegíaca da sua extensa voz de baixo cantante, A Criação, de Haydn (...)"
Ouçam essa outra obra-prima. Mesmo que já conheçam a oratória A Criação, não deixem de repetir. Dêem-se ao luxo de participar naquele momento sublime da História da Música que cioincide com a fracção de Tempo em que, no Espaço do caos, a luz se fez. O grande Haydn, introduzido pelo próprio Mozart na Maçonaria, deixa nesta obra o seu mais alto contributo para o brilhante acervo artístico da Augusta Ordem. Ouçam. Repitam.
Ainda vos escreverei que, durante alguns anos de luto, pelo que estava a acontecer no Parque da Pena, especialmente sob a desastrada administração do biólogo Serra Lopes, pedia eu a Brahms que com o seu Ein Deutsches Requiem me acompanhasse na celebração da efeméride fernandina. Como sabem, trata-se de um Requiem profano, já que não segue o cânone cristão. Mas raramente, música e textos, do Antigo e Novo Testamentos, traduzidos por Lutero, tão bem encontraram um caminho comum para celebrar a Morte das coisas e
das pessoas.
...e da Arte, em geral
Mas, por favor, nada de misturas. Em primeiro lugar, leiam. Depois, escutem as músicas. Não façam como tanta e tão boa gente, que afirma precisar da Música como fundo para a concretização de outras actividades culturais, como a leitura da Literatura, por exemplo. Se querem saber, eu sou completamente contra. É que tanto a Literatura como a Música são tão exigentes de concentração, que o leitor-simultaneamente-ouvinte, mesmo de obras literárias e musicasis afins, com certeza, perderá inúmeros aspectos de uma e outra obras de Arte.
Hoje, em memória de um pobre rei, em memória de um pobre artista, saibamos conceder-nos o benefício da Arte e, muito a propósito, lembremos o horaciano carpe diem que, ao contrário do que alguns consideram bem interpretar, nada tem de aconselhamento à facilidade. E facilidade foi coisa que D. Fernando jamais promoveu embora tivesse sabido muito bem aproveitar os dias da sua passagem por aqui.
_______________________
(*)Ramalho Ortigão, José Duarte, O Rei D. Fernando, in As Farpas, Obras Completas de Ramalho Ortigão, tomo III, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1969
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
[2]
Na continuação do escrito anterior e, à guisa de sumário, lembremos que a SintraQuorum não é uma república autónoma, isolada do todo que é o contexto da comunidade em que se encontra indissociavelmente inserida. Pelo contrário, nos mais diferentes domínios, aquela que ainda é empresa municipal, articula-se com Sintra através de traços de união de tal ordem estreitos que constituem razões mais do que suficientes para resultarem numa enorme preocupação com o que se passa à sua volta.
O caos do estacionamento nas ruas perto do Centro Cultural Olga Cadaval é coisa que, como a água, a empresa não pode sacudir do capote. De facto, em termos da responsabilidade pela situação, a SintraQuorum é apenas conivente, uma dentre as entidades que, ao longo de anos e anos, nada fizeram contra a ausência de medidas afins de um estacionamento, sem qualquer problema, absolutamente legal, a escassos trezentos metros do auditório. Causa escândalo como, tão facilmente, poderiam os condutores, devida e civilizadamente orientados, não ser induzidos à prevaricação…
Saudoso Festival
Completamente diferente se manifesta o caso da quebra de qualidade do Festival de Sintra. Como é inegável, as culpas no cartório só têm um destinatário, ou seja, nem mais nem menos do que a própria empresa municipal. E tudo isto é tanto mais evidente quanto os seus directores artísticos, na vertente musical o Dr. Luís Pereira Leal e, na dança, Mestre Vasco Wellenkamp, são personalidades do mais alto gabarito que, apesar das restrições orçamentais, foram capazes de propor alternativas de inequívoca qualidade.
Como tenho tido oportunidade de largamente demonstrar, responsável pelo descalabro foi a introdução dos designados contrapontos [que, preciso é sublinhar, nada têm a ver com o figurino do Maestro Cláudio Abbado que, há uns anos, sugeri fosse adoptado (não adaptado, e, muito menos, desta maneira...) a partir dos Kontrapunkte do Festival da Páscoa de Salzburg]. Através de tão descabelada componente, a SintraQuorum transformou a programação do Festival de Sintra num saco de gatos à bulha onde, sem ponta de lógica, sem a mínima coerência nem consistência, tudo passou a caber.
Os leitores deste blogue – e, nomeadamente, aqueles que, antes do advento dos tais contrapontos, estavam habituados a uma superior qualidade-padrão das propostas do Festival de Sintra – têm contribuído, muito generosamente, com uma enorme quantidade de comentários acerca deste assunto. Vale a pena introduzir as palavras ‘Festival de Sintra’ no rectângulo superior esquerdo do painel para consultar o arquivo e verificar o bom nível das críticas ali registadas.
Quem pretender ficar ainda mais esclarecido há-de predispor-se a um exercício que, certo é, nem a todos será acessível. Refiro-me à comparação dos programas do festival, não só de antes e depois dos contrapontos mas também de antes e depois de a iniciativa deixar de ser da responsabilidade da Câmara Municipal de Sintra para passar à da empresa municipal. Muito interessante, ler nas linhas e entrelinhas das respectivas equipas técnicas, perceber quem é quem, quem deixou de ser, que créditos de competência têm sido malbaratados e a favor ou contra quem…
De facto, só assim, e, com maior propriedade, poderá concluir-se pela adequação, também a este caso, de tudo quanto aqui tenho escrito sobre a necessidade de extinção das empresas municipais. De facto, no que em especial se refere ao notável e saudoso Festival de Sintra, nada se ganhou e tudo está prestes a perder-se irremediavelmente.
Se há coisa com a qual não pode brincar-se é a reputação de um festival. É algo de muito precioso, custa imenso a conquistar. E toda a minha mágoa reside na circunstância de que o Festival de Sintra tinha uma reputação absolutamente irrepreensível que uma certa gentinha da novel empresa municipal deitou a perder. Sem que, até hoje, apesar das queixas, tivesse agido quem poderia e deveria obviar tal estado de coisas.
É imperdoável! Tenham paciência, não posso nem devo calar-me enquanto a situação se mantiver, para prejuízo da Cultura em geral e da Cultura em Sintra, em particular. Relaciono-me ou sou mesmo amigo de certas pessoas – algumas bem conhecidas no meio musical, outras ligadas à própria realização do Festival durante muitos anos – que, estando em silêncio, partilham totalmente desta minha indignação.
Mesmo antes da extinção da empresa municipal importa acudir ao festival. E, para já, se o figurino é assim tão bom, privatizem-no! Os seus mentores que vão com ele para outro lado. E, se pretenderem manter o actual modelo, com a inclusão dos contrapontos, sigam a estratégia que aplicaram àquela coisa que aconteceu há quinze dias, ao apropriarem-se do adjectivo inglês misty.
Ao actual descalabro chamem mix. Mix qualquer coisa, ou qualquer coisa mix. Talvez counterpoints mix, que aquelas cabecinhas pequeninas, para fugirem aos pontapés na gramática do português, devem ser incapazes de sobreviver sem uma coisita em inglês. Mas, por favor, sem referência ao nome da nossa querida Sintra. É que, para o efeito da ofensa à terra, até temos uma provinciana e bacoca campanha Sintra Romântica que já pede meças à noção de disparate…
Basta de ofensas! E, em especial, de ofensas à inteligência dos munícipes. Para que fique bem claro, repito que me permito subscrever estas considerações na medida em que tudo isto se passa no contexto de uma empresa que vive e sobrevive à custa de dinheiros públicos. Directa e indirectamente, nesta e, a nível nacional, noutras 343 (é verdade, trezentas e quarenta e três!) quejandas empresas municipais, o dinheiro que circula é proveniente de impostos e de derramas que liquidamos na presunção de que o destino de tais verbas é o melhor possível…
Manifestamente, não é isto que se passa!
terça-feira, 26 de outubro de 2010
A erva seca e a flor cai.
1. São Pedro 1, 24
Pedro Maria,
meu neto e pretexto
Hoje, dia em que faz seis anos, o Pedro Maria ainda não compreende estas que são palavras sábias e perenes. De algum modo, no entanto, por via dos valores e princípios que, à sua volta, vão sendo observados, tanto pela família mais próxima como alargada, sempre tem ele vivido e, espero bem, pela vida fora, continuará a viver no respaldo e ao abrigo daquelas ideias-chave, em epígrafe.
A transitoriedade e o carácter efémero da vida constituem matizes de um mesmo quadro de referência, nos termos do qual o apelo ao lúcido e inevitável despojamento da matéria é coisa absolutamente decisiva, para ser atendida e posta em prática em todos os tempos, de tal modo que prevaleça o espírito e que, liberto este das amarras dos bens tangíveis, possa aceder à Arte, à Beleza, ao Conhecimento, como sublimes atributos da própria ideia da divindade.
No aniversário de um menino que me é tão querido, em dia de celebrar o futuro, penso nos meninos que, aqui perto e em todas as latitudes, também hoje, vivem e morrem a anos luz destas preocupações. E, de facto, assim é porque nos vamos esquecendo de que “(…) a glória do homem é como a flor da erva (…)” O santo homónimo do meu neto bem deixou este pensamento à posteridade mas os tempos não vão propícios à sua assunção…
A propósito, sim
Por uma série de afinidades e conotações, não consigo deixar de relacionar a reflexão que convosco partilho com uma peça fundamental do romantismo alemão musical tardio. Trata-se de Ein deutsches Requiem, op. 45 de Johannes Brahms (Hamburg, 1833-Wien, 1897) obra datada de 1868 que, apesar do título, não reveste a forma da canónica missa que, muito naturalmente, se associa ao conceito de requiem.
Neste caso, Brahms procedeu a uma tão livre como criteriosa selecção de estratos da Bíblia, traduzidos para alemão, que, nada tendo a ver com o latino ordinário da missa de defuntos, nos remetem para uma visão despojada, necessariamente mais serena da existência humana, talvez mais próxima da mundividência cristã protestante, ainda que o compositor não fosse crente.
Hoje, dia especial de celebração da Vida – que, com a minha marca, apesar de mim, continua no Pedro Maria – em mim, o são convívio com a Morte, outra face da dicotomia. O homem crente que sou, conjuga-as no trilho de uma síntese triádica, em que ambas se articulam com a Música, a Arte que me é mais próxima e que, como toda a Arte, mais me aproxima do sublime.
Se puderem, acompanhem-me numa audição de Ein deutsches Requiem. Pode não ser hoje mas não deixem de o fazer. Hão-de compreender, estou certo, a razão de vo-lo aconselhar, como mais uma peça do puzzle que muitos de nós vamos jogando ao longo da vida, na tentativa de nos libertarmos do acessório. Se conseguirem chegar onde é possível, também lá estarão o Pedro Maria e todos os principezinhos deste mundo e do outro…
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
[1]
Continuo o assunto que, nestas páginas, tem dominado as últimas intervenções. E, de acordo com o compromisso anterior, aqui trago uma questão relativa a outra empresa municipal. Infelizmente, o facto de, nos últimos dez anos, já a ter abordado vezes sem conta, tanto neste blogue como no saudoso Jornal de Sintra, não contribuiu para a sua resolução. É relativa à SintraQuorum e não tenho a mínima dúvida em afirmar ser um seríssimo problema de estacionamento, dos mais graves da sede do concelho.
A partir de um imóvel a vários títulos degradado e vítima de incêndio, cujas estruturas e proposta estética geral inicial tinham a dignidade de um projecto assinado por Norte Júnior, um dos mais prestigiados arquitectos portugueses do século vinte, o executivo municipal liderado por Edite Estrela, dotou Sintra de um complexo de instalações que, muito justamente, constituem um dos seus orgulhos, ou seja, o Centro Cultural Olga Cadaval, em honra da mecenas que não poderia ter sido escolhida com maior justeza e inequívoca pertinência.
De cine teatro de âmbito local, onde, durante décadas, se acedeu sem quaisquer problemas, fosse a pé, em transporte público ou em viatura própria, passou-se à dimensão de algo cuja polivalência residual permite a realização de congressos, seminários ou simpósios bem como, naturalmente, a promoção das mais diversas iniciativas de índole performativa.
No entanto, aquele que se transformou num edifício que até poderíamos considerar interessante – não fora a atrocidade do pórtico desconforme, adossado à fachada da construção primitiva – acabaria por se revelar uma inequívoca fonte de problemas de solução nada fácil no domínio do estacionamento.
Afinal, tudo resulta da sua implantação em malha urbana sem que, oportuna e tão naturalmente quanto o exigem as normas de segurança de pessoas e bens em latitudes civilizadas, se tivesse pensado na resolução das várias questões relativas ao parqueamento das centenas de viaturas dos interessados que demandam o local e as imediações em dias e noites de eventos.
Deixo a questão do encravamento do edifício, praticamente sem capacidade de manobra nas traseiras, sem uma adequada plataforma de encosto ao nível do estrado dos camions, que permita a expedita saída e entrada de mercadorias, circunstância que, de uma penada, acabou por inviabilizar uma vertente da rentabilização financeira.
De facto, assim acontecendo, é impraticável a recepção de produções de espectáculos que circulam pela Europa a bons preços. Não há espaço para os grandes TIR acederem, encostarem, etc. Parece impossível mas é verdade. Quando a obra ainda decorria e me apercebi do que iria acontecer, alertei para o facto. Mas ninguém me ouviu, acabando por ficar prejudicada a própria vocação do edifício.
O caso do dia
Por fim, o que mais me interessa focar é, pois claro, o problema do estacionamento que, escandalosamente, desde a inauguração há dez anos, continua por resolver. Não há que ter receio das palavras. É inadmissível! Tendo nascido para agilizar a gestão, face aos constrangimentos provocados pelos circuitos da administração pública, causa revolta que, tanto tempo passado, ainda não tenha sido possível concretizar a solução alternativa ao caos que, habitualmente, ali se instala.
Actualmente, a coisa suscita maior perplexidade já que o Presidente do Conselho de Administração da SintraQuorum é o próprio Presidente da Câmara Municipal de Sintra, alguém que não poderia estar mais bem colocado no sentido de promover a actuação integrada das forças da ordem em articulação com a SintraQuorum e Emes. É incrível como não tem sido possível concretizar algo que não é particularmente sofisticado.
A propósito, convém-me recorrer a alguns parágrafos do texto aqui publicado no passado dia 18 do corrente que passo a transcrever:
“(…) Como tenho tido oportunidade de demonstrar, neste específico caso das imediações do CCOC, transformadas em terreno de intervenção prioritária quando há espectáculos, até há alternativa. Pressupõe a intervenção articulada das forças de segurança, Câmara Municipal de Sintra e empresas municipais Emes e SintraQuorum. Por favor, entendam-se!
A propósito, não posso deixar de recordar que tenho uma carta em meu poder, assinada pelo Chefe do Gabinete do Senhor Presidente da CMS em 14 de Março de 2006, através da qual fui informado de que o Senhor Vereador Luís Duque tinha sido incumbido desta missão de coordenação afim da solução constante do parágrafo seguinte. Sublinho, em 14 de Março de 2006.
De facto, o parque de estacionamento adjacente ao Departamento de Urbanismo, fica a escassos três minutos a pé. Para o efeito da sua sistemática e imperiosa utilização, basta informar devidamente – por exemplo, também através de indicações nos próprios bilhetes, avisos na comunicação social, placares de sinalização, etc – e encaminhar os condutores para o local onde, civilizadamente, poderão deixar as suas viaturas. Esperemos que, desta vez, o Senhor Vereador seja mais lesto para que o resultado não demore outros quatro anos... “
Estão em jogo princípios de gestão que se perspectivam sistemicamente, num quadro de actuação tão caro ao Senhor Presidente da Câmara. Estamos em presença de valores tão evidentes como a segurança de pessoas e de bens e a qualidade de vida de munícipes que, directa e indirectamente, fazem chegar aos cofres municipais os recursos bastantes que proporcionem a resolução do assunto. Continuar o statu quo, fazendo ouvidos moucos à razão, constitui manifesta declaração de incompetência pessoal e institucional de todos os envolvidos.
Tem-se olhado para este como se fosse um caso de somenos. De modo algum o é! A propósito do acesso à Regaleira, também já o escrevi, e repito, que o próprio modo como se acede ao local onde é suposto assistir a uma qualquer oferta cultural, já é, em si, um acto cultural. Dificilmente se aceita que, não entendendo este princípio, se possa dirigir, administrar ou gerir equipamentos culturais como os que estão em presença.
Enfim, ele há gente para tudo e até para conviver com um quadro de referência que, tão degradantemente, se lhe cola à pele. Mais uma vez, espero que haja a decência de resolver a contento. Independentemente da prova de estar esgotado o estatuto de empresa municipal e do piedoso dever se lhe rezar por alma, impõe-se que, no caso vertente, as duas ainda EM e as restantes entidades não nos envergonhem por mais tempo.
[SintraQuorum continua]
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Não são poucos os textos que, nos últimos anos, aqui tenho publicado acerca da necessidade de extinguir as empresas municipais. Para o efeito, tenho-me louvado das muitas razões que assistem à minha posição e que, à discrição de quem se der ao trabalho de as compulsar, circulam em diferentes instâncias que, com maior crédito público, nas esferas da economia e finanças ou da justiça, se têm dedicado à avaliação da pertinência deste modelo.
Mais frequentemente, tanto se põe em causa a sua adequação ao Direito Público - a exemplo do Dr. Fernando Seara, em 1 de Março de 2002, na tomada de posse dos conselhos de administração das EM - como a consequente duplicação de serviços, ou o nepotismo que desencadearam, bem como o alegado despesismo que suscitam e, ainda, acrescento eu, a possibilidade que as EM oferecem aos autarcas de se escudarem na cadeia de sucessivas plataformas de intermediação, furtando-se ao directo escrutínio dos munícipes.
Todavia, pelo menos tão pertinentes como estes, se evidencia o argumento da real quebra de qualidade dos serviços prestados à comunidade por tais empresas, cuja declarada origem radica na pretensa necessidade de agilizarem os circuitos administrativos da Administração Pública, acabando, isso sim, por se subtraírem aos seus mecanismos de controlo.
Em Sintra, à excepção dos próprios envolvidos e interessados, não haverá munícipe que possa afirmar ter a sua qualidade de vida melhorado com o advento e manutenção das empresas municipais. Faça-se o esforço que se fizer, sem quaisquer preconceitos, e, provavelmente, não se encontrará caso algum que sustente a continuidade da operação de tais entidades. A propósito, não deixarei de lembrar que, há uns anos, eu próprio me convenci da possibilidade de subsistência de uma ou outra das empresas municipais de Sintra. Contudo, o tempo se encarregou de me retirar a razão.
O caso do dia
Infelizmente, não é difícil documentar como a referida falta de qualidade se manifesta, com cópia de casos, por toda a comunidade. Tentando não me dispersar, só na sede do concelho, assinalarei alguns factos contra os quais não há argumentos. As fotos que se seguem ao texto testemunham situações concretas da manifesta falta de qualidade do serviço prestado pela HPEM, a empresa que, além do lindo trabalho que as cenas documentam, ainda se permite brindar os residentes e visitantes com outros desacatos.
No bairro da Estefânea, a lindíssima calçada à portuguesa da Correnteza acumula trampa e gordura que as varredelas não conseguem remover. Como o pavimento nunca é lavado, basta haver alguma humidade para se tornar extremamente escorregadio e mesmo perigoso. Trata-se de uma zona espectacular, de nítida vocação para o lazer, onde as famílias cuidadosas evitam levar as crianças a brincar pela inconveniência da falta de higiene.
Ainda neste contexto de periculosidade do pavimento, por manifesta falta de lavagem, idêntica situação se verifica na Volta do Duche, sempre que a humidade marca presença e, em especial, pela fresca matinal. Não exagero. Nem isto escrevo porque me contaram. Na realidade, todos os dias circulo por estes caminhos e, por isso mesmo, o testemunho é não só directo e inequívoco mas também de enorme desgosto.
Outros casos poderia ainda trazer à colação. No entanto, circunscrevendo-me apenas às freguesias da sede do concelho, não resisto a contar o que aconteceu, há precisamente um mês, no dia 20 de Setembro, cerca das onze da manhã, junto à Quinta da Regaleira, em consequência do funcionamento de um veículo que ia na sua faina de aspirador da sujidade acumulada nas bermas do caminho.
Além da poluição sonora que ia causando, o ar ficou irrespirável, afugentando uma série de forasteiros, tal como eu incomodados pelo despautério, defendendo olhos, nariz e boca das agressões. Claro que, ao operador do equipamento, faltaria formação adequada. Mas o que dizer dos senhores administrador da HP e Vereador responsável? O que lhes faltará? Não faço acusações torpes, não me move a animosidade de qualquer processo de intenção. Perplexo e inconformado apenas questiono, civicamente interessado no melhor quadro de serviço à comunidade.
Concluindo…
Ontem à noite, durante o programa Prós e Contras do canal um da RTP, falando acerca do dificílimo momento que atravessam as finanças nacionais e locais, e da consequente necessidade de cortes na despesa pública a todos os níveis, o Presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha dizia, alto e bom som, da necessidade de acabar com as empresas municipais.
Por todo o país há aliados desta causa a favor da extinção das EM. Basta estar atento aos debates que a comunicação social vai proporcionando para constatar que, entre eles, estão autarcas dos vários partidos com representação parlamentar. Renderam-se! Eles próprios concordam em acabar com algo que, ao fim e ao cabo, lhes saiu como o tiro pela culatra. A todos,munícipes contribuintes, nos sai do bolso.
Se nos insurgimos, razões não faltam. Temos todo o direito porque se trata não de entidades privadas mas de empresas em que cada centavo gasto sai dos impostos que liquidamos com enorme sacrifício. Em tempo de tanta míngua de recursos podemos dar-nos ao luxo de autorizar a continuidade de uma situação tão controversa?
Haja decência e resolva-se o que não pode deixar de ser! Entretanto, irei trazendo ao sintradoavesso outros casos do dia relacionados com outras empresas municipais. Como sabem e calculam, matéria é coisa que não falta... Por agora, fiquem-se com estas imagens.
18.10.2010, 16,00 horas, São Pedro,
a caminho do Ramalhão
18.10.2010, 15,50 horas, Largo de São Pedro
18.10.2010, 15,40 horas, perto da Casa dos
Avellares, Santa Maria
18.10.2010, 15,30, igreja de São Martinho
18.10.2010, 15,20, Rua Dr. Alfredo da Costa
15.10.2010, 14,30, Av. Heliodoro Salgado
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
“(…) A ocupação indevida e abusiva do estacionamento dificulta directamente a mobilidade do nosso concelho. A partir do próximo mês de Outubro, será missão da EMES e da Polícia Municipal não só a verificação do cumprimento nas zonas tarifadas, como também o cumprimento das regras de estacionamento, com a possibilidade de bloqueamento e remoção dos veículos indevida ou abusivamente estacionados. (…)”
É assim – e, naturalmente, muito bem! – num folheto profusamente distribuído e colocado nos pára-brisas dos automóveis, que a Polícia Municipal e a Emes anunciaram os gerais objectivos da operação articulada nos termos da qual vão tomar as medidas que se impõem para acabar com o descalabro do estacionamento em locais onde é manifestamente proibido.
Neste domínio do estacionamento, habituado a assistir ao quotidiano desrespeito da Lei em toda a sede do concelho – e, em particular, na zona da Estefânea, junto ao Centro Cultural Olga Cadaval, onde o problema é muito grave – já quase não tinha esperança na reposição da legalidade. Pois bem, a surpresa desta iniciativa devolveu-me argumentos para não desistir da denúncia da situação.
Portanto, aqui o dever de assinalar tão significativa mudança de atitude, contra a cultura do desleixo, contra a perniciosa prática da famigerada tolerância que sempre atropela os direitos da maioria. Neste e noutros contextos, é tempo de não vingar a tese segundo a qual, não havendo alternativa,* a polícia deve transigir… Isto não vai ser fácil mas impõe-se a luta contra a falta de civismo.
Como se verifica pelo teor do texto transcrito, trata-se de actuação conjunta de duas entidades, uma das quais é empresa municipal. Independentemente da opinião que tenho manifestado quanto à necessidade de dispensar tal tipo de empresas, limito-me a esperar que, no desempenho das tarefas ainda de sua atribuição, a Emes assegure a articulação em apreço.
Porém, como soe dizer-se, em relação à PM, a coisa fia mais fino… Na realidade, não é frequente um discurso tão inequívoco afim do exercício da autoridade que assiste à Polícia para defesa dos interesses dos cidadãos. Assim sendo, na pessoa da Sra. Comissária Neri Correia, dirijo ao Comando da força a saudação mais expressiva, com votos do maior êxito.
Uma vez que já se entrou na segunda quinzena de Outubro, é com a maior expectativa que aguardo a impossibilidade de voltar a registar os vergonhosos quadros da mais flagrante ilegalidade, análogos aos deste último fim de semana, em que houve uns espectáculos aqui no CCOC. Não estava muita gente mas foi o suficiente para armar o sarrabulho que a PM pretende combater.
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Como tenho tido oportunidade de demonstrar, neste específico caso das imediações do CCOC, transformadas em terreno de intervenção prioritária quando há espectáculos, até há alternativa. Pressupõe a intervenção articulada das forças de segurança, Câmara Municipal de Sintra e empresas municipais Emes e SintraQuorum. Por favor, entendam-se!
A propósito, não posso deixar de recordar que tenho uma carta em meu poder, assinada pelo Chefe do Gabinete do Senhor Presidente da CMS em 14 de Março de 2006, através da qual fui informado de que o Senhor Vereador Luís Duque tinha sido incumbido desta missão de coordenação afim da solução constante do parágrafo seguinte. Sublinho, em 14 de Março de 2006.
De facto, o parque de estacionamento adjacente ao Departamento de Urbanismo, fica a escassos três minutos a pé. Para o efeito da sua sistemática e imperiosa utilização, basta informar devidamente – por exemplo, também através de indicações nos próprios bilhetes, avisos na comunicação social, placares de sinalização, etc – e encaminhar os condutores para o local onde, civilizadamente, poderão deixar as suas viaturas. Esperemos que, desta vez, o Senhor Vereador seja mais lesto para que o resultado não demore outros quatro anos...
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Eu, devedor, me confesso…
Segundo fontes usadas para papaguear desgraças, devo a incertos qualquer coisa como 14.000 euros, valor que não pára de crescer. Para sossegar, dizem que mais uns largos milhões de portugueses são vítimas da mesma maquinação.
Só a nível local, à nossa conta de devedores, têm viajado equipas de futebol masculinas e femininas, em vez de bibliotecas para a cultura pagaram-se relvados para futebol, e tudo isto enquanto as viaturas autárquicas servem para os mais variados fins particulares. E o que dizer das luzes, ribaltas, promoções disto e daquilo ou do compromisso de jornais e jornalistas?
Políticos mais patriotas do que eu e tantos outros cidadãos, ao aceitarem lugares em administrações e mordomias complementares, fazem-no, certamente, para minar por dentro os inimigos de classe e recorrem a carros de status, exactamente, só para os destruir...
Teremos, pois, gestores a viver num silêncio angustiante, nada dizendo sobre o inevitável fim de tais empresas, mas talvez preocupados com o seu próprio interesse partidário.
Como compreendo aquele pedaço de prosa numa frase do actual Presidente da Câmara de Sintra: “(…) hoje em dia o silêncio vale muito dinheiro (...)”.
À nossa custa, os dinheiros públicos têm servido os mais escondidos objectivos.
Na desenfreada caça a votos, pagaram-se estudos que nada resolveram mas justificaram elevados honorários, protocolos, contratos-programa, Assinaturas disto e daquilo, Promessas de ontem, que não foram cumpridas, mais não sei quantas de hoje, que vão ficar pelo caminho…Que azar o nosso? Não, que sina a nossa!!!
De calças rotas, cheios de dívidas, vemo-nos ao espelho na Quinta do Relógio e quejandas, nos mecenas de duvidoso oportunismo, no atrofiamento de uma sociedade cheia de habilidosos.
Bem reais são os milhões que, a vários títulos, têm sido distribuídos. Em contrapartida, na evolução da sociedade e do bem-estar colectivo, as estrelas que cintilam são tão virtuais que nem para a árvore de Natal servem.
A isto chegámos e piores dias se avizinham, sem que se vislumbrem quaisquer intenções de arrepiar caminho. Tanta cumplicidade escondida nos bastidores! Porque, na prática, o satisfazer a pedinchice é que está a dar…votos. Mas sempre, sempre com o nosso dinheiro!
Ao menos escutem-nos!!!
Fernando Castelo