sexta-feira, 7 de março de 2008
Salzburg, Festival de Inverno
(conclusão)
A nata mozartiana
Já há duas semanas vos tinha informado de que não entraria em detalhes de programação. Hoje ainda gostaria de que ficassem com uma ideia aproximada do escol de intérpretes presentes.
Como sempre, a colaboração de agrupamentos de música de câmara como os Quartetos Artemis, Hagen e Quatuor Ébène, de algumas das consideradas grandes orquestras mundiais, casos da Filarmónica de Viena, com a sua habitual residência traduzida pela concretização de vários concertos, Concentus Musicus de Viena, a Orquestra do Mozarteum de Salzburg, a Camerata Salzburg, a Orquestra Sinfónica da Universidade Mozarteum, a Kremerata Báltica, Les Musiciens du Louvre, Cappella Andrea Barca, e de dois dos mais conhecidos agrupamentos corais austríacos, o Salzburg Bach Chor e Vienna Singverein e os britânicos English Voices.
Quanto à direcção dos referidos agrupamentos, sucederam-se famosos maestros como Nikolaus Harnoncourt, Ivan Fischer, Ivor Bolton, Louis Langrée, Paul McCreesh, Sir Charles Mackerras, Ingo Metzmacher, Marc Minkowski ou Jonathan Nott, todos eles com relevantes ligações a leituras da obra de Mozart.
O artista residente foi o pianista francês Pierre-Laurent Aimard que tem vindo a cimentar uma forte ligação a Salzburg e, em especial ao universo mozartiano. E lá estiveram muitas das grandes vozes masculinas e femininas da actualidade, das quais destacarei os tenores John Mark Ainsley, James Gilchrist, Werner Güra ou Markus Schäfer, os barítonos Matthias Goerne ou Hanno Müller-Brachmann, os sopranos Eva Mei, Christiane Oelze, Miah Persson, Patricia Petibon e os meios-sopranos Vesselina Kasarova, Elisabeth von Magnus ou Anne Sofie von Otter, entre outros que faço a horrível injustiça de omitir.
Entre os vinte e muitos solistas instrumentistas, lembraria as espantosas jovens violinistas Lisa Batiashvili e Patrícia Kopatchinskaja para além dos consagrados Hilary Hahn, Leonidas Kavakos ou Gidon Kremer, os pianistas Rudolf Buchbinder, Elisabeth Leonskaja, András Schiff, Andreas Staier ou Lars Vogt e os violoncelistas Daniel Müller-Schott ou Jean-Ghien Queyras.
Se me perguntarem por alguma revelação absoluta, não terei a menor dúvida em apontar a violinista Patrícia Kopatchinskaja que, na interpretação do Concerto funebre de Karl Amadeus Hartmann, com a Orquestra do Mozarteum de Salzburg, dirigida por Louis Langrée, se revelou senhora de uma desmedida mas poderosa e contida energia, intensidade vibrante, a par de uma musicalidade singular. É um caso fenomenal de alguém que está muito voltada para a música mais recente e que, estou certo, vai dar muito que falar.
Eventos inesquecíveis, os concertos de Les Musiciens du Louvre sob a direcção de Marc Minkowski, com uma interpretação fenomenal e fidelíssima, como eu ainda estava para ouvir, do Don Juan de Gluck; uma prestação ímpar de árias de Betulia liberata, de Lucio Silla e de Ascanio in Alba de Mozart, por Vasselina Kasarova, com a Filarmónica de Viena dirigida por Ivan Fischer, com aquele timbre único, extensão e raríssimo domínio dos registos graves e, referência final ao barítono Matthias Goerne, interpretando árias de várias cantatas de J.S. Bach, entre as quais Ich habe genug, BWV 82, com a Camerata Salzburg dirigida por Paul McCreesh.
A concluir
Em Salzburg, também fiquei a saber duas novidades, que muito prazer me deram, já que se referem a artistas do panorama musical português. Primeiramente, já no próximo dia 4 de Abril, pelas 19,00 horas, no santuário da Grosse Saal do Mozarteum de Salzburg e, no âmbito da iniciativa Dialoge, Menshen Musik, promovida pela Fundação Internacional do Mozarteum, em que a nossa Misia vai apresentar o seu canto de Fado.
A outra, relaciona-se com o 23º Festival Internacional de Música Kissinger Sommer, de 12 de Junho a 13 de Julho, na conhecida estância termal de Bad Kissingen. Lawrence Foster, maestro titular da nossa Orquestra Gulbenkian, é o único entre muito conhecidos dirigentes, que terá oportunidade de conduzir, não um como os demais colegas, mas dois dos dez concertos programados, primeiro com a Orquestra Filarmónica Checa e, mais tarde, outro com a Orquestra da Rádio de Munique.
E, caros leitores, se mais espaço tivesse, o que não poderia eu contar-vos. Dos meus trabalhos na Biblioteca Mozartiana (sempre contando com o privilegiado apoio da directora e minha amiga Geneviève Geffray, que já conhecem de anos anteriores), das conferências, missas, sessões de apresentação e animação de obras literárias, dos visionamentos de gravações vídeo com interpretações de referência, do óptimo teatro que vi, das exposições de artes plásticas nos dois museus de Arte Moderna e Contemporânea, da exaustiva exposição que, no novo edifício da Universidade Mozarteum, acompanhava o simpósio em curso sobre o querido maestro Harnoncourt, das visitas à casa de música Katholnigg da minha outra amiga Astrid Rothauer, dias plenos de informação e enriquecimento espiritual.
Tudo isto para além das indispensáveis caminhadas-dos-seis-quilómetros-numa-hora que, para não comprometerem a apertada sequência dos referidos trabalhos diários, eu fazia logo às seis e meia da manhã, convenientemente agasalhado, mas nunca conseguindo evitar que o ar frio nos olhos, de mais ou menos sete negativos, desencadeasse uma torrente de lágrimas, logo à saída de casa, ao chegar à margem direita do rio Salzach. Enfim, alguma agrura teria de suportar…
quinta-feira, 6 de março de 2008
Salzburg – Festival de Inverno
Em 2008, a grande proposta do Mozartwoche – o festival de Inverno de Salzburg e o mais importante a nível mundial dedicado a Mozart – que, igualmente, definia a sua estrutura, era o acesso a uma componente, uma atmosfera da criatividade do compositor que, habitualmente, não se encontra nos programas levados a efeito nas salas de concertos.
Refiro-me, muito especificamente, às denominadas obras sacras, sob a forma de missas, litanias, vésperas e oratórias que Mozart compôs em Sazburg, portanto, antes de 1781, o ano da grande viragem, em que decide seguir para Viena, farto dos caprichos e desconsiderações que entendia ser alvo, por parte do Príncipe Arcebispo Hieronymus Colloredo.
Foi naquele contexto que, por exemplo, logo na primeira noite do festival, se ouviu a Missa em Dó Maior, K. 66 composta em Outubro de 1769, quando Wolfgang ia nos seus treze anos, a Dominicus-Messe, assim designada por ter sido dedicada ao seu amigo de infância Dominicus Hagenauer que, acabado de se ordenar, ia celebrar a sua primeira missa pública.
E, com idêntico enquadramento, Litaniae de venerabili altaris sacramento, em Si bemol Maior, K. 125, para Solistas, Coro Misto, Orquestra e Órgão, de 1772, um espantoso monumento musical – nítido prenúncio da grande Missa em Dó Maior K. 427 que, dez anos mais tarde, para sempre marcaria a História da Música – ou as Vesperae solennes de Dominica em Dó Maior, K. 321, de 1779, também para vozes solistas, Coro, Orquestra e Órgão.
Destaque ou apenas exemplo?
Gostaria de destacar o singspiel sacro Die Schuldigkeit des Ersten Gebots, K. 35 (A Obrigação do Primeiro Mandamento), cujo libretto é da autoria de Ignaz Anton Weiser, que chegou a ser Burgermeister (Presidente da Câmara) de Salzburg. A composição musical data do princípio de Março de 1767, quando Amadé acabara de fazer onze anos… Mas, Santo Deus, demonstra uma tal desenvoltura na arquitectura da orquestração, com tão bem conseguidos momentos de humor, lirismo e dramaticidade que ninguém ousará contestar a ideia de se estar perante uma peça de grande maturidade, uma irrefutável prova de génio.
Um pouco mais adiante, deter-me-ei na referência à maioria dos artistas presentes no Mozartwoche 2008. Entretanto, sem pretender enaltecer o fabuloso conjunto de intérpretes deste evento – já que todos são formidáveis – tenham presente que o agrupamento musical era só o Concentus Musicus de Viena, as vozes masculinas entregues aos tenores John Mark Ainsley e Kurt Streit e as femininas aos sopranos Patrícia Petibon e Eva Mei e meio-soprano Elisabeth von Magnus, sob a direcção de Nikolaus Harnoncourt.
É preciso não deixar de ter em consideração que este, como qualquer dos outros eventos do festival, faria percorrer milhares de quilómetros a qualquer melómano que se preze. No meu caso especial, jamais perderia a oportunidade de, num tal conjunto de grandes músicos, voltar a ver e ouvir o verdadeiro fenómeno que é Patrícia Petibon, que acompanho em Salzburg, desde que ali apareceu, pela primeira vez, há oito anos. À excepcional destreza vocal, alia uma raríssima capacidade histriónica, mesmo em concerto, como era o caso. Naquela noite de 29 de Janeiro, a Petibon ouviu uma das maiores ovações deste Mozartwoche.
Estas obras sacras de Mozart ouviram-se a par de precedente e posterior música sacra de outros compositores, através de obras que evidenciam uma evidente componente espiritual sem que, em sentido restrito, possam ser consideradas música de igreja. Tais são os casos da Missa em Mi bemol Maior, D 950, de Schubert e outras peças de Bach, Haydn e Mendelssohn.
Moderna, Contemporânea & Cª Mto. Lda.
Todavia, como tive oportunidade de assinalar, na primeira parte deste artigo (JS,22.02.08), à música moderna e contemporânea coube um controverso protagonismo no programa, com uma especial atenção para a música de câmara de Anton Webern (1883-1945) – trios e quartetos de cordas, duetos para violoncelo e piano, violino e piano, bem como canções, que seriam interpretadas com as de Mozart em muitos dos concertos
Tão ou ainda mais polémica seria a inserção de peças de compositores dos nossos dias, como o Offertorium, Concerto para violino e orquestra de Sofia Gubaidulina, obra de extrema espiritualidade, de inequívoca religiosidade que, no violinista Christian Tetzlaff, teve um intérprete de tal modo excepcional que, coisa rara em Salzburg, foi autorizado a conceder um extra, interpretando um excerto de uma das Partitas de Bach.
E, ainda, Streichquartett (Quarteto de Cordas) de Thomas Larcher e Werk für zwei Klaviere und Orchester (Peça para dois pianos e orquestra) de Johannes Maria Staud, obras especialmente encomendadas pela Fundação Internacional do Mozarteum de Salzburg, cuja recepção foi sublinhada com aplausos de circunstância, diria eu saudações de boa educação, que estavam sendo lidas em articulação com os cerca de vinte e cinco ou trinta lugares da Grosse Salle do Mozarteum que - como anteriormente informei, tão escandalosamente vazios, apenas nestes dois evento - comprometiam os objectivos da direcção artística do Mozartwoche. É que as salas esgotam a lotação com um ano de antecedência…
Através de entrevistas especialmente programadas, aqueles compositores tiveram oportunidade de esclarecer acerca das características das obras que ali seriam estreadas. E, naturalmente, foram momentos importantes de elucidação. Mas, igualmente, estava em causa o facto de, através de tais encomendas, o Mozarteum privilegiar uma linha de actuação que alguns observadores e críticos, entre os quais me incluo, consideram colidir com a natureza, estrutura e propósitos do próprio Mozartwoche, num país dos mais propícios ao incentivo dos jovens compositores.
quarta-feira, 5 de março de 2008
Salzburg,
Mozartwoche 2008
A lição de 2008
Mas, tal como ainda é meu propósito, volto ao Mozartwoche 2008, acerca do qual não me embrenharei no detalhe descritivo dos cerca de trinta recitais, concertos de câmara, concertos sinfónicos, coral sinfónicos, missas, conferências, exposições, visionamentos video e sei lá quantos mais eventos que rechearam este festival de Inverno.
Antes de saberem quem e o quê esteve em destaque, considero imprescindível pô-los ao corrente de um facto absolutamente determinante para a história deste festival, já na sua quinquagésima segunda volta, que também passa a constituir exemplo para outros festivais que, eventualmente, se aventurem pelos mesmos terrenos que este decidiu pisar nas últimas edições.
Há uns três anos, a Direcção Artística decidiu investir na integração sistemática de música moderna e contemporânea na programação. Não se tratava de envolver, afinal como tantas vezes fizera, apenas peças de compositores do século vinte da designada Segunda Escola de Viena, Webern ou Schonberg, por exemplo, mas também de Messiaen, Bela Bartók, Lutoslawski, Hindemith ou de autores dos nossos dias, como Jörg Widman, Johannes Maria Staud, Thomas Larcher a quem encomendou obras para estriar durante o Mozartwoche.
Se bem que, constantemente, tivesse havido o sistemático cuidado de preparar um terreno que está cheio de sofisticadas armadilhas, através do recurso aos melhores especialistas, académicos e críticos alemães e austríacos que se encarregaram de fazer palestras de introdução aos concertos – excelentes, posso confirmá-lo já que não devo ter perdido nem uma, durante estes anos – a verdade é que o melómano que procura a Mozartwoche, numa grande percentagem de casos, só com relutância aceitou este figurino.
Enquanto membro da Fundação Internacional do Mozarteum de Salzburg, também eu tive oportunidade de expressar a minha opinião que, com todo o gosto, aqui reproduzo. O que faz com que os mozartianos de todo o mundo demandem Salzburg, em especial, por altura da Mozartwoche, é a busca insaciável dos paradigmas da programação (que recorre apenas aos melhores intérpretes mundiais, concentrando-os na cidade durante quinze dias de glória) e de uma interpretação geralmente considerada como respeitadora dos cânones mais exigentes da linguagem, estilo e demais características específicas da multifacetada obra de Mozart.
Isto que Salzburg supre, há mais de cinquenta anos, isto que nos faz viajar milhares de quilómetros, que sabemos estar ali, ao nosso alcance, pressupõe um quadro mental de atitudes pessoais e de referências que o melómano mozartiano cultiva, a um nível praticamente iniciático já que lhe permite, enquanto adepto eleito e não profano, o acesso a territórios de irrepetível e bem escondida beleza.
Ora bem, a opção da Direcção Artística buliu – e de que maneira!... – com esta moldura de factos adquiridos. Em consequência, pela primeira vez em muitos anos, havia nítidas clareiras de lugares desoladoramente vazios na Grosse Salle do Mozarteum… Já alertados por quanto era previsível vir a acontecer, indícios que estavam a minar a própria coerência, tradições e credibilidade do festival, os responsáveis da Fundação arrepiaram caminho.
Como sempre acontece, já tenho em meu poder o programa do próximo ano e, naturalmente, até já tenho reservados os meus bilhetes. Posso garantir-vos que, em 2009, ano em que se comemora os duzentos anos da morte de Joseph Haydn, compositor que, tão frequentemente, cruzou os seus caminhos com os de Mozart, o Mozartwoche celebra essas afinidades sem quaisquer interferências dos domínios da música mais recente.
Num festival deste calibre, iniciativa em que tudo concorre para a exibição de todos os factores afins das noções de permanência, segurança, previsibilidade; em que o próprio logótipo do festival, os grafismos, a exploração cromática nos vários suportes escrito e audiovisual se mantém com extremo cuidado, qualquer desvio pode ser aquilo que nós costumamos designar como a morte do artista… No entanto, tal não significa que não se corra o risco sempre inerente à Arte em directo.
Aviso:
Notas Diárias dos dias 6 e 7 de Março reproduzirão o artigo que será publicado na próxima edição do Jornal de Sintra.
terça-feira, 4 de março de 2008
Aviso:
Conforme promessa anterior à minha estada em Salzburg, por ocasião da Mozartwoche em Janeiro/Fevereiro 2008, durante os restantes dias desta semana serão publicados neste blogue, sem quaisquer alterações, os textos que, em 22 de Fevereiro e 7 de Março, fazem parte das edições do Jornal de Sintra.
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Mozartwoche 2008
Depois de, em anos anteriores, tanto termos conversado acerca de Salzburg e sabendo eu quem são os meus fiéis leitores, considero poder dispensar-me do enquadramento
histórico-cultural desta belíssima cidade austríaca que tantos consideram não um dos mas o grande centro musical europeu e mundial.
A atestar esta primeira consideração, valerá a pena confirmar que não há outro caso de lugar, em qualquer continente, onde estejam sediados, nada mais nada menos, que oito festivais de música do mais alto gabarito, universalmente reconhecidos como tal. É, na realidade, uma cidade que está preparada para receber milhares de visitantes, especificamente melómanos, que ali podem permanecer durante semanas, satisfazendo todas as suas expectativas.
Neste parágrafo, passarei, de imediato, às revisões da informação veiculada em anos precedentes, sobre aquilo que poderia designar os festivais canónicos, o Mozartwoche, preenchendo a última semana de Janeiro e primeira de Fevereiro, o Osterfestspiele Salzburg, o Festival da Páscoa, nas duas semanas que precedem a Páscoa, o Salzburger Pfingfestspiele, Festival de Pentecostes, por altura desta festa religiosa e o designado Salzburger Festspiele, entre fins de Julho e fins de Agosto, o primeiro a afirmar-se em 1920.
Acrescentarei hoje Szene Salzburg, entre Junho e Julho, vocacionado para a dança contemporânea, teatro, cinema e artes visuais, o Bachfest, durante todo o mês de Outubro, celebrando a música de Bach, já na 83ª edição, o Salzburger Jazz-Herbst, Jazz em Outono, em fins de Outubro e princípios de Novembro e, finalmente, o Salzburger Adventsingen, apenas dedicado aos cantos de Natal, nas duas primeiras semanas de Dezembro.
Como imediatamente se entende, são eventos especiais que seguem o calendário, ao longo do ano. Todavia, para além destes oito festivais, haverá que acrescentar uma imensa oferta diária de espectáculos musicais de ímpar diversidade, que conferem a este lugar um posicionamento único, não só ao nível do que acontece nas salas públicas, mas também no que se refere ao estudo e à investigação, natural e igualmente, do mais alto nível.
Sintra intrometida…
Afinal, ainda no quadro do preâmbulo, passo ao assunto que me traz ao contacto convosco, isto é, dar-vos conta, em linhas muito gerais, do que aconteceu durante as duas semanas do Mozartwoche 2008, do qual acabo de regressar. No entanto, deixai-me que, desde já, vos confesse como, cada vez mais, tenho maior dificuldade em partilhar estas impressões.
Efectivamente, nada me obriga a fazê-lo e, na realidade, apenas sinto que vos devo estes recados, na medida em que o Jornal de Sintra, dá expressão a uma tradição que, exclusivamente pela minha mão, já leva uma boa meia dúzia de anos de concretização, caso único, tanto a nível regional como nacional, porque apesar de ser órgão de imprensa de pequena escala, se permite abordar, um evento cultural tão determinante que, por razões diversas, escapa à lógica dos grandes media.
Ora vamos lá a explicar a tal dificuldade acima mencionada. Ao referir-me não só a Salzburg, mas também a outros locais, por exemplo, Luzern, Bayreuth, Leipzig, Schwarzenberg, Graaz, Eisenstadt ou Munique, onde tenho o privilégio de me deslocar há dezenas de anos, para participar nos respectivos festivais, não consigo evitar a operação mental constante de compará-los com Sintra para, dolorosamente, chegar às mais tristes conclusões.
Reparem que o contexto desta minha confissão, ultrapassa a específica questão dos festivais de Música para, inequivocamente, se relacionar com o modo comum, como aquelas cidades da Áustria, Suiça e Alemanha cuidam, preservam, interpretam e apresentam o seu património natural e edificado, enquanto condição sine qua non para que tudo o resto e, portanto, também a grande Música, seja propício.
Pois, à medida que, ano após ano, todos aqueles lugares melhoram permanentemente, em Sintra os sinais são precisamente contrários, ao ponto de não ter qualquer dificuldade em escrever que, na década de sessenta, a sede do nosso concelho estava muito mais cuidada do que actualmente. Isto é muito doloroso de admitir, é algo que me fere, de tal modo e em permanência, que não consigo alhear-me.
Como não sou enviado especial do Jornal de Sintra e, tendo em consideração que se trata de colaboração sempre graciosa, posso partilhar este sentimento tão especial de frustração que, muito provavelmente, ditará a minha decisão de não continuar a fazer estas crónicas da Europa civilizada, para leitores que, estou certo, compreenderão este condicionamento que acaba por determinar um impedimento. Assim, uma tarefa de comunicação e partilha, que poderia ser tão agradável, torna-se num desassossego que nada me convém.
(continua)
segunda-feira, 3 de março de 2008
Tantas vezes vai o cântaro à fonte…
Não têm conta as vezes em que venho alertando, tanto nestas Notas Diárias como no Jornal de Sintra, apenas referindo suportes escritos, para o problema da sobrelotação dos autocarros da Scoturb, empresa concessionária dos transportes públicos que faz o circuito com destino ao Castelo dos Mouros e Palácio da Pena.
Não só na época estival mas também, durante todo o ano, nos fins de semana e feriados, ao passar pela paragem junto à igreja de São Martinho, em pleno centro histórico, rara será a pessoa que assista àquele espectáculo de encher os veículos até mais não poderem, que não se interrogue se os autocarros em questão não estão obrigados ao respeito de uma lotação limitada.
E, na realidade, igualmente se não percebe como é que pessoas civilizadas, na maior parte dos casos turistas estrangeiros, admitem serem transportadas em condições que tais, perfeitamente à trouxe-mouxe. Hoje em dia, aliás, nem assim é permitido transportar gado... Enfim, devem pensar que, num país atrasado e exótico como Portugal, mais ou menos a resvalar para a América latina, o regime vigente é o do até rebentar…
A autoridade, apenas a uns trinta metros, faz vista grossa. Custa a perceber porquê, mas é assim mesmo, toda a gente o sabe, toda a gente o vê. Uma coisa destas, sistematicamente repetida, pondo em risco a vida de dezenas de pessoas, no sinuoso trajecto da Rampa da Pena, não deixa de constituir um perigoso jogo com a sorte. E, um dia, pode dar para azar…
Longe vá o agouro! Todavia, tal qual aqui o trago, este não passa de mais um dos imensos e famigerados casos de cultura de desleixo que, por vezes, têm trágicas consequências. É que, como diz o ditado, tantas vezes vai o cântaro à fonte…
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Maria Nobre Franco,
amiga de Sintra
Há cerca de dois meses, tão discretamente quanto, dez anos atrás, tinha chegado ao edifício da Heliodoro Salgado, para assumir o cargo de Directora do que ali ficou instalado como Museu de Arte Moderna de Sintra-Colecção Berardo, deixou Maria Nobre Franco de exercer tais funções, após inauguração da exposição Arte Latino-Americana na Colecção Berardo.
Sempre com a máxima discrição. Há pessoas assim. Diletante, na melhor acepção do termo, não é que faça grandes coisas sem perceber que as está fazendo. Não, faz grandes coisas, percebe a sua importância, porque é lúcida, mas fá-las como se não tivessem importância alguma. Envolve-se ao máximo nos projectos, mas sempre com um elegante distanciamento, com eles mantendo uma sui generis aristocrática relação.
Num momento em que pululam os videirinhos, metendo-se como piolho por costura à conquista de qualquer vantagem, em que raro é quem não se ponha em bicos dos pés, esbracejando uma presença que, na maior parte dos casos, seria perfeitamente dispensável, continua a ser alto o privilégio de encontrar e privar com pessoas como Maria Nobre Franco.
Soube-se que a Maria ia aposentar-se. Mas não acreditem. Alguém que vive com a Arte uma art de vivre, cujos sinais também deixou cá por Sintra, alguém que passou a vida a reformar coisas que precisavam de reforma, não vai nada para a reforma, ainda que, teimosamente, mas em vão, o calendário e as lindíssimas rugas o afirmem…
Créditos e palmarés
Mulher de Cultura, licenciada em Clássicas - no tempo em que uma licenciatura nas várias Filologias, imediatamente remetia para um universo de referências e abrangências culturais de nível absolutamente superior, sem a mínima comparação com o que actualmente acontece - é pessoa de muitos talentos que bem sabe gerir, desde professora, tradutora, jornalista da ORTF em Paris, onde permaneceu largos períodos, aí convivendo com conhecidos artistas e intelectuais locais e também portugueses, até ter fundado e dirigido a Galeria Valentim de Carvalho entre 1984 e 1995, etc.
Passou uma inteira década que, em Sintra, pela sua mão, afirma e confirma um percurso bem presente e prenhe de realizações que permanecerão como marca indelével da transição entre dois séculos de Arte. Falo da pintura, da escultura, também da fotografia ou dos media mistos que, na maioria dos casos, através das propostas de Maria Nobre Franco, souberam espreitar e lançar pontes, consoante as mais evidentes ou sofisticadas conotações, para abordagem de outras expressões como a literatura, a música ou o cinema.
Seria fastidioso lembrar o enorme palmarés de dezenas de exposições e de outros eventos a que o seu nome ficou ligado, alguns dos quais autênticos sucessos a nível nacional. Muito resumidamente, cumpre assinalar as periódicas e invariavelmente interessantes apresentações de diferentes componentes e novas aquisições da Colecção Berardo, com pontos do mais alto interesse na Pop Art, Arte Cinética e Op Art, no Surrealismo, no Minimal, Fotografia, Art Deco.
Na memória de quem anda convenientemente atento e, a crédito desta grande amiga de Sintra, ficarão ainda «Living Site, Specific Wall Paintigs de Michael Craig Martin», «O Vício da Liberdade, Arte e Desenhos Publicitários», «Pomar – Autobiografia», «Geração Esquecida – Erich Kahn», «Fernando Lemos e o Surrealismo», «Sedução, Cinema e Pintura» para além de outras.
Podia ser melhor…
Tive oportunidade de, nestas mesmas páginas do Jornal de Sintra, ter escrito acerca de algumas destas iniciativas, razão pela qual, naturalmente, muito bem recordo alguns factos e até curiosos episódios com elas relacionados. Não é altura para entrar em pormenores que poderão aceder através da leitura desses artigos mas, tão somente, de trazer à colação apenas dois, de emocional sinal contrário.
Lembro, por exemplo, com alguma tristeza, a circunstância de haver pouquíssimos espectadores num concerto, no vizinho Centro Cultural Olga Cadaval, promovido por altura da exposição à volta de Erich Kahn, expressionista alemão, judeu sobrevivente dos campos de concentração. Música do maior interesse que passou totalmente ignorada. Ou, noutra onda muito mais favorável, o pintor Júlio Pomar que enriqueceu o património artístico de Sintra ao pintar duas portas dos sanitários do restaurante da D. Joana…
Justo é mencionar que, no contexto do protocolo vigente, o município ofereceu muitos bilhetes de acesso às Juntas de Freguesia do concelho, facilitando a vinda de muita gente que, de outro modo, jamais teria visitado um Museu de Arte Moderna. E também as crianças e jovens que enriqueceram a sua formação e experiência, ganhando um maior interesse por expressões artísticas que Sintra cultiva naquele lugar.
Vem a propósito ainda referir que este seu período de direcção não foi isento de algumas sérias dificuldades cujos contornos soube enquadrar, com um contributo decisivo para o objectivo de encontrar as melhores soluções. Tais foram, por exemplo, os casos das obras que o edifício da Heliodoro Salgado exigia, para além do sempre melindroso problema da renegociação do protocolo entre a Câmara Municipal de Sintra e o mecenas fundador da colecção.
Não tenho a menor dúvida em afirmar que não fossem os constrangimentos decorrentes, por um lado, da sistemática falta de ou deficiente divulgação das actividades do Museu, e, por outro, a incapacidade de resposta à questão do estacionamento - factores flagrantemente negativos, permanentemente apontados na avaliação dos visitantes nacionais e estrangeiros, cuja resolução, em ambos os casos, compete à Câmara Municipal de Sintra - o saldo deste período ainda seria mais significativo. Mas, enfim, esta é a moldura geral da realidade nacional. Contra «isto», pelos vistos, nem a Maria nem o mais pintado…
Pagar dívida
Pessoa de cativante personalidade, promotora de tão multifacetadas actividades, Maria Nobre Franco é exigente com os membros das equipas que coordena. E ainda bem porque, só assim, se justifica a obra asseada que para trás fica, com a certeza de que as aprendizagens adquiridas sob sua orientação hão-de plasmar-se no futuro, já que permanecem no Museu aqueles que, durante anos, mais de perto com ela trabalharam.
Inequivocamente, repito, trata-se de uma grande amiga a quem esta terra deve uma atitude de gratidão. Na minha modesta opinião, não pode nem deve tardar. Estas homenagens públicas, perante personalidades deste calibre, ou se fazem de imediato ou não se fazem. Bem, muito bem, actuou o nosso vizinho Jorge Sampaio que, enquanto Presidente da República, a agraciou como uma das mais notáveis mulheres deste país.
Aguardemos.
PS:
Querem saber um segredo? Para além da partilha coincidente de muitas opiniões sobre Arte, a Maria e eu ainda temos uma paixão comum. É a pianista Clara Haskil, que nasceu em 1895 e não morreu em 1960, contra o que afirmam as biografias da ordem. Conforme atestam as gravações que deixou, é a mais notável intérprete de Mozart, de todos os tempos. O também imortal Mozart, reconheceu em Haskil um espiritual émulo interpretativo, quase demiurgo, permitindo-lhe o acesso à sua mais recôndita harmonia. A Maria e eu apenas o descobrimos em tempo oportuno. Mais nada.
E, a terminar, a sugestão de adquirirem uma gravação ao vivo, de um concerto de Haskil, no dia 1 de Agosto de 1957, no Festival de Salzburg. Entre outras peças, ouvirão a Sonata em Dó Maior, KV 330 de Mozart. Se, ao escutarem o Andante Cantabile, não subirem no céu, logo ficam a saber que nem são dignos de Haskil nem de Mozart. Portanto, vejam lá no que se metem…
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
- o que o luto não cala
Neste nosso desgraçado país que continua sendo tão manifestamente afectado pela enraizada cultura de desleixo - também fruto dos mais altos índices de analfabetismo e iliteracia da União Europeia - até que ponto será necessário lutar, no sentido de tornar eficazes os efeitos da intervenção cívica de denúncia, contra cada evidente caso que ponha em risco a segurança de pessoas, ao ponto de lhes causar a morte?
É uma questão que sistematicamente se me coloca e para a qual continuo sem resposta. Recentemente, Loures, Camarate, o horror das inundações, a morte em Belas. Por analogia, ocorre-nos o caso de Entre-os-Rios, que tanta e natural consternação causou, para que nos perguntemos se seria de esperar que o colossal processo de mediatização decorrente, em vez de acicatar a sempre latente atitude de voyeurismo, poderia desencadear a reacção cívica que se impunha.Esperava eu que afirmativa fosse a resposta àquela questão. E assim pensava, tendo em consideração aquilo que, sem presunção, julgo ser o meu profundo conhecimento da realidade nacional, em consequência da actividade como técnico superior do Ministério da Educação, durante anos e anos envolvido em projectos de intervenção integrada, em Trás-os-Montes e Alto Douro, Douro Litoral, Minho, Beiras, Alentejo e Açores, para além da zona metropolitana de Lisboa, em contacto directo com uma imensa diversidade de realidades locais.
Previa que uma calamidade, com a dimensão de Entre-os-Rios, não só acabasse por constituir um sério ponto de viragem, um definitivo alerta contra a chaga nacional que é a sistemática falta de manutenção de todo o tipo de infra-estruturas, mas também contribuísse para favorecer o fermento de uma atitude cívica inconformada e exigente, que não se satisfizesse apenas com o ressarcimento decorrente da recepção de indemnizações.
A verdade é que, num momento então propício e num terreno que era preciso ter explorado convenientemente, não apareceram as associações cívicas de diferentes perfis, fazendo o trabalho de mobilização afim da motivação e consciencialização para o envolvimento das populações, cuja concretização permanece totalmente pertinente, agora, na sequência deste infeliz episódio da intempérie dos passados dias 10 e 11 de Fevereiro.
Lágrimas de indignação
Conhecidas, lamentáveie e evitáveis causas, no âmbito da proverbial e fatídica cultura do desleixo, estão a montante das trágicas consequências do acidente de Belas. Naturalmente, não há entidade disposta a assumir a mínima responsabilidade e, muito pelo contrário, ao vislumbrar qualquer hipótese de que tal possa acontecer, logo trata de sacudir a água do capote...
Veja-se o caso da Câmara Municipal de Sintra. No dia 27 do mês passado, por ocasião da primeira reunião pública após a tragédia, o executivo municipal expressou pesar pelas duas mortes, fez um minuto de silêncio e o Senhor Presidente lembrou que aquela via é uma estrada nacional. Para bom entendedor... O Senhor Vice-Presidente enalteceu o empenho dos serviços municipais nas tarefas de remediação e o Senhor Vereador João Soares congratulou-se com o facto de a JF de Monte Abraão ter suportado os encargos com o funeral, esperando que o município tudo faça no sentido de minorar o sofrimento das crianças filhas das vítimas.
E pronto. Tudo resolvido. Como sempre, toda a gente de consciência tranquila. Entretanto, a família das duas jovens irmãs – que, duma assentada, perderam a vida em Belas - já anunciou a intenção de processar a Câmara Municipal de Sintra e a empresa Estradas de Portugal EP por homicídio por negligência, contando com o testemunho de pessoas que já se tinham queixado quanto ao péssimo estado em que o muro se encontrava.
Indignação consequente
No âmbito de uma tragédia que, assim, para sempre destroçou e enlutou uma família que podia ser a minha ou a vossa, quero manifestar a mais profunda admiração pela decisão que tomaram. Contudo, no dificílimo momento que estarão atravessando, adivinho como estas pessoas enlutadas gostariam de sentir a solidariedade consequente de todos os cidadãos que se indignaram perante a evitável perda destas duas vidas e não se conformam com expressões de pesar que não passam de formalidade de circunstância.
Com isto, e, através deste meu singelo contributo, apenas pretendo dizer da necessidade de dar público manifesto dos sinais de desconforto e de mal estar, suscitados por todas as ausências e omissões de atempada actuação dos serviços da administração central e local, que suscitaram os efeitos acumulados na origem do infausto acidente.
Estou em crer que, só deste modo, transformando em atitude cívica, responsável e consequente – aquilo que, assim não sendo, apenas entendo como lágrimas de crocodilo – estaremos à altura do momento de luto, incapazes de admitir atitudes que, escandalosamente, como no caso de Entre-os-Rios, acabem por ilibar os eventuais responsáveis.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Já o tenho referido e, de vez em quando, é um prazer renovado poder confirmar. Algumas notícias que nos chegam da Parques de Sintra Monte da Lua, constituem verdadeiro lenitivo contra os desagradáveis episódios com que, não raro, nos confrontamos em Sintra-Sintra, ou seja, a parte do concelho que, sabem os leitores, costumo considerar inequivocamente conotada com as ideias e imagens de uma terra que nada tem a ver com alguns adjacentes subúrbios incaracterísticos e betonados.
Muito recentemente, ficámos a saber que a administração da empresa está a preparar a possibilidade de os visitantes acompanharem as obras de restauro do Chalé da Condessa. Esta é uma atitude que me é tão mais atraente e cara quanto sinto que, provavelmente, terei contribuído ao insistir nesse sentido e, inclusive, apresentando exemplos de situações congéneres no estrangeiro, em que o público acede, com toda a segurança, às obras em curso.
Como diz o povo, as coisas estão a entrar nos eixos. Alargando o âmbito destas considerações, por exemplo, também a Monserrate, é sabido que a campanha de obras de recuperação não é coisa a concretizar em um ou dois mas, certamente, para uma faseada intervenção, ao longo de muito mais anos, que os sintrenses e a comunidade em geral não podem deixar de encarar.
Todos sabemos quão escassos são os recursos financeiros. Daí que deva insistir-se e esgotar todas as possibilidades decorrentes da Lei do Mecenato, através da sempre sofisticada e morosa negociação de contrapartidas em que radiquem e, de parte a parte, se justifiquem os compromissos a alcançar para a salvaguarda de um património absolutamente inestimável, exigindo que todos estejamos à sua altura.
Com a maior informalidade, tenho conversado não só com o Dr. João Lacerda Tavares mas também com técnicos da PSML que, muito profissional e simpaticamente, me têm posto ao corrente dos trabalhos actuais e dos projectos. É muito gratificante manifestar a opinião de que podemos confiar naquela gente, independentemente do cuidado e da permanente atenção que a área de jurisdição da empresa nos deve solicitar em termos de intervenção cívica.
PS:
Bem sei que, durante vários anos, fomos tão desrespeitados pela controversa gestão do biólogo Serra Lopes que não é fácil deixar de desconfiar… Aliás, a este propósito, também tenho repetido que ainda não está esquecida a necessidade de saber, afinal, qual o resultado das averiguações levadas a efeito pela Polícia Judiciária, na sequência das auditorias às práticas administrativas consideradas irregulares, durante tão conturbado período.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Ontem, dia de Prós e Contras na RTP Um, enorme era a expectativa relativamente ao teor do debate que poderia acontecer. Com o Sistema Educativo em grande ebulição, natural seria que a abordagem de temas como a avaliação dos docentes e regime de gestão dos estabelecimentos de educação e de ensino de nível não superior, suscitasse inusitada apetência.
A verdade é que as coisas não correram bem. E tal não sucedeu, na medida em que, mesmo de acordo com as características de risco do programa em questão, Fátima Campos Ferreira esteve muito aquém da capacidade de que já deu sobejas provas na condução de debates, pelo menos, tão ou mais espinhosos quanto este se perspectivava.
O que mais me custa admitir, é que, durante horas de emissão, se tenha perdido uma evidente oportunidade para esclarecer questões muito específicas, não raro, dificilmente assimiláveis, em detrimento de participações avulsas, mal preparadas, repetitivas, dando voz a entidades de contornos difusos que, nem sequer ainda tiveram tempo para chegarem à definição dos seus próprios objectivos, afinal:
- não deixando transmitir – caso do Prof. João Formosinho, da Universidade do Minho – uma informação técnico-científica um pouco mais afinada, que seria capaz de muito melhor circunstanciar do que a pivô lhe permitiu, com a qual, tanto os presentes como os telespectadores, com evidentes vantagens, perspectivariam as suas posições como cidadãos, pais e encarregados de educação e educadores;
- impedindo o sublinhar, ainda que, muito sucintamente, de alguns pormenores das pertinentes considerações do professor Arsélio, por vezes tão recortadas e eivadas de profundidade didáctica e pedagógica - à mistura com uma poesia dos trabalhos e dos dias de quem, na qualidade de docente, estava ali por direito próprio – assim contribuindo no sentido de que o programa não se tivesse transformado naquele desassossegado vórtice;
- não concedendo à ministra a oportunidade de, mais copiosamente, explanar as medidas que ela e a sua equipa, sob a égide do chefe do governo, insistem em impor ao Sistema Educativo, atabalhoadamente, sem qualquer perspectiva sistémica, apenas em articulação com o calendário político, portanto, em conjugação com a legislatura e o período eleitoral.
De qualquer modo, apesar dos óbices que, tão sucinta e incompletamente, acabo de apontar, foi flagrante o divórcio entre a decisora política e os agentes educativos e patente a impossibilidade de continuar a constante luta, no recinto de combate em que se transformaram as escolas, que já perderam a capacidade de acolher, perceber, estudar as propostas da Cinco de Outubro.
PS
A quem possa interessar:
Qualquer razoável professor o sabe. Um debate não é coisa cuja preparação e posterior concretização se possa aligeirar. Pressupõe uma táctica e várias estratégias, de acordo com figurinos mais ou menos racionalistas, bem radicados em conhecidos métodos, dentre os quais o muito cartesiano Treino Mental, da autoria de Benigno Cacerès e Joffre Dumazedier, é dos mais eficazes que conheço.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Quando, nestas páginas de Notas Diárias, me refiro aos preocupantes níveis de analfabetismo pleno, analfabetismo funcional e à iliteracia no nosso país, faço-o com a permanente intenção de que sejam conjugados e articulados com os evidentes manifestos das incorrectas e condenáveis práticas quotidianas dos cidadãos que, naturalmente, são consequência do estado de coisas reflectido pelas mais insuspeitas estatísticas.
Alguém duvidará de que há uma subtil relação entre aqueles índices e o facto de acontecer entre nós o maior fosso europeu na distribuição da riqueza, a maior diferença entre os salários dos administradores e o mínimo nacional, uma preocupante fraude fiscal, economia paralela descontrolada, fabulosos lucros da banca, corrupção galopante atentados contra o ambiente, caos urbanístico e, infelizmente, mais, muito mais?
Em Portugal que, invariavelmente, não consegue descolar do fim da tabela, devia pontificar o maior pudor em falar de excelência ou de ilhas de excelência, na medida em que tais noções apenas funcionam relativamente às nações que, há mais ou menos tempo, resolveram as questões que permanecem no nosso quadro da vergonha.
Não é preciso ir mais longe do que a Espanha para mencionar um país – que, não esqueçamos, já é a oitava potência económica mundial! – para lembrar que aí já se atingiu o patamar de uma normalidade económico-financeira e social que, sendo motivo para natural orgulho, até justifica uma alta auto-estima. Por estas e por outras é que, em Espanha, se pode falar em excelência, em ilhas de excelência e que, em Portugal, apenas se pode falar de excepções que confirmam a regra.
Mas as crianças, senhor…
Mais uma vez, confirmando a regra, aí está o relatório que a União Europeia hoje vai divulgar, afirmando que Portugal se encontra entre os piores oito países em que se registam níveis mais elevados de pobreza nas crianças, uma em cada cinco, portanto, vinte por cento (correspondendo à média geral nacional, que inclui todos os cidadãos independentemente da idade).
No que respeita ao factor escolaridade dos pais, afirma-se ser o pior nível de desqualificação da União Europeia, em que quase 70% das crianças portuguesas vivem com pais que não terminaram o secundário. Reparem que a média Europeia é de 16%! Tão ou ainda mais preocupante o facto de o risco de pobreza ter aumentado de 23 para 24% entre 2004 e 2005.
Recolocaria, com outros parâmetros, mas afins, a pergunta do segundo parágrafo: alguém duvida que estas marcas de terceiro mundo se relacionam com os resultados da intempérie da semana passada? Se forem pela negativa, o melhor é acenderem uma velinha, a ver se lhes concede maior lucidez...
Claro que é possível dar a volta a isto. Não com os óculos cor de rosa dos senhores primeiro e demais ministros, que vão passar por estas notícias como cão por vinha vindimada. Pudera! Suas Excelências governam outra realidade, como se este fosse um país da média europeia, ou que, como a Espanha, já tivesse ultrapassado tal fasquia.