[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 17 de junho de 2008

Campo de Seteais,
tentativas de encerramento

(continuação)

Tentativa segunda

Foi o 3º Conde de Azambuja, D. Augusto Pedro de Mendonça Rolim de Moura Barreto quem também tentou encerrar o campo, tal como o Marquês de Marialva, seu antecessor. Em 6 de Outubro de 1897, a Acta da reunião da Câmara de Sintra regista:

“(…) que tendo no dia 3 do corrente mês de Outubro chegado ao conhecimento dos habitantes desta Villa, que o Conde de Azambuja tentava transformar a natureza e fins do Campo de Seteais, tornando-o, de passeio publico para uso e gozo do publico, n’um campo cultivado em proveito próprio, com manifesto desprezo das clausulas de aforamento, como o indicava a sorriba que em parte do mesmo campo mandou fazer, sem duvida destinada a sementeiras ou plantações, ali se apresentou no mesmo dia grande numero de pessoas, protestando contra esse facto, e por elles tinha sido nomeada a comissão que vinha à Camara pedir que desse as necessárias providencias para que o publico não fosse esbulhado nos seus direitos, fazendo cumprir integralmente todas as condições do primeiro contrato. (…)”

Anotada por António Cunha, lê-se na Cintra Pinturesca, a páginas setenta e seis, que a vereação “(…) a que presidia o Sr. Visconde da Idanha deu imediatas providencias, e no tribunal judicial por largos mezes se debateu um processo instaurado pelo Sr. Conde de Azambuja , em que nada mais conseguiu do que ficarem ratificadas as condições do primordial aforamento. (…)”

Tentativa terceira

Os herdeiros do Conde de Azambuja venderam a propriedade a José Rodrigues de Sucena, Conde de Sucena que, em 3 de Fevereiro de 1934 apresentou à Câmara um requerimento, pedindo para embelezar o campo e, ao mesmo tempo, que lhe fosse concedida a remissão do foro.
De acordo com notícia do Jornal de Sintra de 22 de Abril daquele ano, a Câmara teria despachado favoravelmente o pedido do Sr. Conde de Sucena, sob reserva de determinadas garantias para a população.

(continua)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Campo de Seteais,
tentativas de encerramento




Nota: o texto que se segue é o constante da folha de suporte à iniciativa pública desta semana na Quinta da Regaleira)


Ao longo de quase cento e cinquenta anos, entre 1801, ano do aforamento a favor do quinto Marquês de Marialva e 1946, aquando da passagem a património de Estado, o terreiro de Seteais foi objecto de três bem conhecidas e documentadas tentativas de encerramento.

Mais uma vez, com o propósito de as lembrarmos, vamos socorrer-nos do incansável labor de José Alfredo da Costa Azevedo, que todos continuamos a lembrar como um dos mais ilustres defensores das coisas de Sintra. Como não podia deixar de ser, o autor de As Velharias de Sintra (1) dedicou ao assunto o interesse que merece um dos mais emblemáticos e simbólicos lugares desta terra.

José Alfredo escreveu algumas páginas exemplares, subordinadas ao título O Campo de Seteais, através das quais transparece, não só o recorte de fino cronista que era o grande colaborador de cinco décadas do Jornal de Sintra, mas também os inequívocos traços da pessoa excelente, do cidadão exemplar e «homem livre e de bons costumes» (2) que foi. Nesta despretensiosa folhinha, mais não nos é possível do que respeitar os passos da sua investigação.

Tentativa primeira

Foi D. Diogo José Vito de Menezes Noronha Coutinho, 5º Marquês de Marialva e também 7º Conde de Cantanhede, estribeiro-mor de Sua Majestade a Rainha de D. Maria I, um grande do reino, quem, primeiramente tentou que aquele recinto da sua propriedade se fechasse ao acesso livre do povo.

Após uma série de interessantes peripécias, de que José Alfredo dá exaustiva conta, o Senhor Marquês de Marialva viu-se compelido ao respeito do seguinte rol de obrigações constantes da escritura de aforamento de 19 de Maio de 1801 que transcrevemos, obedecendo à ortografia de origem:


(…)
1ª - Que elle Exmo. Enfiteuta e seus sucessores e herdeiro, não poderão fazer outro uso algum do mesmo Campo de Seteais que não a de o paceio publico.


2ª - Que elle Emo. Enfiteuta seus sucessores e herdeiros serão a conservar as sobreditas arvores e vestígios antigos do mesmo Campo de Seteais e aumentalo com novas plantações e arbustos mandando gradar o seu circuito pelo lado do sul confinante com a soberdita estrada real que vai desta vila para a de Colasres para o defender dos gados.


3ª - …serão obrigados a deixar no campo pelo menos duas portas francas e publicas para por ellas poderem entrarem e sahirem livremente sem impedimento algum e sempre todas e quais quer pessoas…


4ª - Que as sobreditas portas francas e publicas do referido gradeamento do mesmo campo que derem serventia para a entrada e saída do dito paceio publico serão construídas de tal forma que sem dependência alguma possam entrar e sahir por ellas todas as pessoas que delle se quizeram servir e utilizar, sem nunca em tempo algum estarem fechadas com chave, ferrolho, cadeado ou outro fecho semelhante. (…)

A quinta obrigação refere a necessidade de deixar o campo livre para exercício da tropa que costumava acompanhar Sua Alteza Real e a sexta as sanções a que o fidalgo ficava sujeito se não cumprisse as obrigações estipuladas.


(continuação)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Centro histórico:
tratar do lixo

(conclusão)

O que hoje acontece em Monte Santos, sucederá amanhã noutro qualquer privilegiado e apetecível lugar de Sintra. Deverá redobrar a atenção para que tais manobras não passem do papel, como tem acontecido com o Vale da Raposa. Em simultâneo, contudo, urge acudir à desgraça da degradação que por aí grassa. Por outro lado, isto também «não vai lá» com rebarbativas e panfletárias palavras de ordem, à laia de um qualquer comício, como aquela do tal anel de betão prestes a cercar não sei o quê…


De facto, aquilo que há a fazer é incompatível com a descaracterização do lugar e deve concretizar-se, concertadamente, procurando abranger e envolver todos os interessados, auscultando a comunidade, ao encontro do parecer das associações representativas dos vários interesses em presença. E, com todo o sentido de realismo e não menor generosidade, apresentando o mais aliciante conjunto de incentivos. É preciso tratar do lixo sem mais adiamentos, sem mais uma fuga para a frente.


Se assim não for, continuaremos a viver a oportunidade perdida. Ora bem, não acham que já vai sendo tempo de fazer agulha noutra direcção? Não acham que já vivemos demasiada dose de lixo ? Não acham que já basta de cultura do desleixo?

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Centro histórico:
tratar do lixo

(continuação)

Salvo melhor opinião, a necessidade de construir um hotel e moradias em Monte Santos nem sequer se coloca. E equacionar a hipótese? Enfim, talvez, mas apenas se estivessem resolvidos casos como o da recuperação do Netto, em São Martinho, no coração do centro histórico, e de tantas dezenas de moradias e quintinhas, tanto na freguesia de Santa Maria como na de São Pedro Penaferrim, só para mencionar estas três, enquanto núcleo duro da sede do concelho.

Sem sinais de melhoria, preocupantemente pior, Sintra continua um concelho gigantesco e ingovernável, uma comunidade perfeitamente desorientada e à deriva, incapaz de defender o seu património civil, sempre na mira de negociatas, à espreita de mais outra manobra dilatória, como a novel SRU, que adia e mascara a proverbial incapacidade de resolução atempada de questões perfeitamente resolúveis.

Reabilitação, uma estratégia

É indesmentível a existência de um grave problema de alojamento na sede do concelho. Porém, não menos certa é a inevitabilidade de concretização de projectos nesse domínio de actividade, mas perspectivados no mundo da reabilitação do património degradado, onde cabem, não só o caso do Netto mas também o de tantas casas que, devidamente recuperadas, podem constituir alternativa muito interessante de oferta de hospedagem.

Hoje em dia, há cada vez mais viajantes, não turistas, se bem me faço entender, que procuram alojamentos de qualidade inequívoca, na casa dos trinta/quarenta Euros por dormida e bom pequeno almoço, frequentíssimos por essa Europa fora mas inexistentes em Sintra. No entanto, com adequadas medidas de incentivo à reabilitação de imóveis, é perfeitamente possível aumentar a oferta de emprego no sector e responder a muitas solicitações de alojamento, fazendo permanecer os visitantes, durante vários dias.

(Continua)

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A propósito do projecto para Monte Santos

Centro histórico: tratar do lixo

(continuação)

Há dezenas de anos que o Netto ruína agravada cada dia que passa. De vez em quando vamos tendo notícia de que determinada entidade estaria interessada num negócio cujos contornos se ignora. Sabe-se, isso sim, tratar-se de um edifício que goza da mais privilegiada implantação, certo é que com alguns problemas por resolver no sentido de se tornar em mais uma moderna unidade hoteleira que Sintra não pode dispensar.

Vale a pena uma pessoa acercar-se e tentar perceber o que ali ainda está. Se, a partir da frontaria, subir a rampa a caminho das instalações ocupadas pela GNR, chegará a um elevado patamar onde, assomando ao muro, entenderá os limites do edifício, que terreno disponível ainda existe e o importante desnível que vence aquela triste e desprezada construção.

Voltando ao ponto inicial e fazendo o percurso inverso, em sentido descendente, à medida que vai dando fugaz espreitadela aos tectos de um salão onde ainda são visíveis interessantes estuques, adquire uma melhor noção das proporções, nomeadamente daquele inesperado volume de cinco andares, debruçados sobre a pacata Rua Conselheiro Segurado.

Imagino o desafio que possa constituir para bons arquitectos. Todavia, há coisas que não consigo imaginar. Por exemplo, que letargia terá perdurado ou, vá lá, que iniciativas terá desenvolvido a edilidade sintrense, ao longo de tantos anos, no sentido de cativar o interesse de promotores turísticos e hoteleiros para este espaço. Que estudo, que diagnóstico de situação, que projectos, que incentivos, que contrapartidas terão estado em jogo?

Monte Santos

Com particular acuidade se colocam estas e muitas outras interrogações, numa altura em que o actual executivo autárquico indicia preocupante afinidade com o projecto de construção do hotel e umas dezenas de moradias em Monte Santos. E é o próprio Presidente da Câmara que, preocupado com a falta de alojamento em Sintra, dá a entender a inevitabilidade de aquele reduto e quedo santuário da freguesia de Santa Maria e São Miguel se render à natural cupidez dos promotores de tão fácil empreendimento…

Porque ceder a um tal projecto? Porque aceitar a perturbação e o desassossego num ambiente de encanto que pode continuar intocável? A propósito, aposto que muitos leitores não conhecem o lugar. Aconselho o passeio. Subam, aproximem-se do notável miradouro, beneficiem da calma, da placidez e fascínio do lugar que o meu saudoso amigo Pinto Vasques tanto tinha no coração.

(continua)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A propósito do projecto para Monte Santos

Centro histórico: tratar do lixo

É tempo de concluir a pequena série de textos aqui publicada no mês passado. Não que o assunto se tenha esgotado mas, tão somente, porque considero os casos assinalados como exemplares de um estado de coisas, tão bem tipificado e conhecido da maioria dos leitores que escusado seria continuar a evidenciá-los.

Enquanto área urbana tão característica, julgo valer a pena lembrar que o centro histórico deveria ser mostrada como um conjunto, em todas as suas vertentes culturais dominantes, atravessando sucessivos e bem marcados períodos. Porém, não está devidamente assinalado e, muito menos, como exemplar peça ibérica onde, tão favoravelmente, conviviam as três religiões cristã, judaica e muçulmana.

Três religiões e três distintas culturas correspondiam a três zonas facilmente identificáveis, numa sã vizinhança, inequivocamente demonstrativa de um peculiar modo de estar e de sentir o outro, não aquilo que alguns têm interpretado como tolerância – termo que sempre conterá conotação pejorativa, denunciadora de alguma sobranceria por parte daquele que tolera e de subalternidade de quem é tolerado – mas de perfeita equidade que, fatalmente, se desfez.

Património abandonado

O desconhecimento, a ignorância destes e doutros factos, relativos às nossas judiaria e mouraria, a escassos metros do nobre terreiro, junto ao mais famoso bem patrimonial desta terra, estão a montante das causas que justificam a melhor compreensão do alcance destas despretensiosas notas. Quem não conhece bem, como pode amar um património cuja defesa e preservação se impõem a todo o transe?

Percorrer as mais conhecidas ruas do centro histórico constitui, como não pode deixar de ser, um exercício muito desagradável. Permanecem e, com o correr do tempo, agravam-se as mazelas. O quadro não podia ser de maior desalento. Por um lado, os proprietários dos edifícios que nada fazem que sustenha a degradação e, por outro, a autarquia que, pura e simplesmente, se demitiu do papel que lhe compete.

Tal como se apresenta, tão nefasta «união de interesses» traduz-se pelo consabido conluio contra natura, disseminado por esse país fora que, em Sintra, atinge as raias do inadmissível. Apesar de tudo, seria de esperar um mínimo de decoro, uma certa vergonha em expor, tão às escâncaras, as fachadas e entranhas desfiguradas, sujas, degradadas de tantas casas, os pavimentos de ruas, os passeios e os muros desta histórica área da sede do concelho.

Infelizmente, inegável e bem patente, a situação também corresponde à perda do sentido do pudor que convive com as flagrantes provas de falta de higiene que tive oportunidade de denunciar, ainda que apenas parcialmente. Assim acontecendo, não espanta que a mais nobre zona de Sintra, nas cercanias do Palácio Nacional, se tenha transformado num inominável manifesto de cultura de desleixo.

Hotel Neto e Monte Santos

É neste contexto que permanecem certas provas de uma geracional incapacidade de resolução de questões inadiáveis que, noutras mais civilizadas latitudes, teriam conhecido o adequado desfecho em tempo útil. O Neto, por exemplo, é o paradigma da desgraçada incúria a que tem estado votada esta zona. Aliás, é um caso absolutamente flagrante porquanto, tê-lo recuperado e devolvido à sua inicial vocação de unidade hoteleira, poderia ter contribuído para a resolução de vários problemas.

(continua)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

e quem a vê...
(conclusão)


A concluão do texto ontem aqui publicado é muito breve. Na verdade, costumando ser tão prolixo, até eu próprio me surpreendo com a contenção. Todavia, a acrescentar, apenas uma pergunta cuja resposta tarda.


Ao longo dos anos da controversa gestão do biólogo Serra Lopes, tantas razões de queixa, tanto desgosto...

Valeu a pena denunciar? Sem dúvida. Todavia, como tem direito à informação, a comunidade continua à espera do resultado das investigações judiciais. Não, de facto, ninguém esqueceu, embora talvez haja quem pretenda passar uma esponja sobre a questão…



E, mais uma vez, a pergunta da ordem:


- não vai sendo tempo de a Câmara Municipal de Sintra nos dar uma satisfação a este respeito?

quarta-feira, 4 de junho de 2008

e quem a vê!...

No último sábado de Maio participei no lançamento do novo projecto da Quintinha Pedagógica de Monserrate, promovido pela Parques de Sintra Monte da Lua, um dia de intervenção do maior alcance cívico, nos domínios da responsabilidade social e ambiental, que se traduziu numa atitude de voluntariado activo de cerca de uma centena e meia de pessoas, crianças, jovens e adultos.

Dividido o grande grupo em equipas de intervenção, lá seguiram estas para os seus destinos. Uma tinha de construir talhões/caminhos e plantação de ervas aromáticas, tarefas afins daquilo que passa a ser designado como Jardim dos Aromas. Outro grupo ficou afecto à construção dos caminhos pedestres, limites e bordaduras. Mais voluntários para a que vai ser conhecida como Mata dos Castanheiros, na limpeza do terreno, corte das acácias, plantação de castanheiros, carvalhos-roble, aveleiras, loureiros e medronheiros.

Tenham ainda em consideração que era imprescindível a instalação de um cercado, delimitando a zona onde vão ficar instalados burros e outros animais. Igualmente se impunha a limpeza e recuperação da linha de água, dela se encarregando uma equipa que também procederia à plantação de salgueiros, freixos, sabugueiros e pilriteiros. Outra gente esteve às voltas com a construção de uma ponte, não sei quantos mais na recuperação do celeiro e outros tantos no arranjo paisagístico do parque das merendas e, em obras de recuperação, um grupo que procedeu ao arranjo e limpeza do tanque.

À cota mais alta, depois de ter enterrado o sapato direito na fresca lama, olhei aqueles dois hectares de dulcíssimo declive, transformado em fervilhante estaleiro. Lá em baixo, do outro lado da estrada, sobre o tranquilo espelho de água, um casal de pato real imperava magnífico, imperturbável, na manhã cinzenta e chuvosa, saudando todo aquele afã de dedicados obreiros.

Quando, no passado Outono, por ali passava nas minhas habituais caminhadas, cheguei a escrever que o cantar das moto serras era melopeia para os meus ouvidos de inveterado melómano. Finalmente, descansava porque assistia às manobras de limpeza e desbaste da floresta que durante dezenas de anos fora criminosamente abandonada. A Parques de Sintra Monte da Lua estava a fazer o que lhe compete. E, agora, mais isto, uma quinta pedagógica, que não podia ter parto mais propício.

Lá fui encontrar os membros do Conselho de Administração, o Professor António Lamas, o Dr. João Lacerda Tavares, o Engº Manuel Baptista, alguns técnicos como a Arq. Luísa Cortesão, o Engº Jaime Ferreira, o Sr. Miguel, Mestre Jardineiro. Fui testemunha deste momento emocionante e muito bonito da vida da empresa, que todos viviam empenhadamente, preparando uma minúscula parcela deste território – a jóia mais preciosa de Sintra que lhes entregámos nas mãos – para ser gozada por milhares de crianças, já a partir deste Verão.

A finalizar, e aproveitando esta deixa, ainda vale a pena chamar a atenção para um conjunto de benfeitorias, já terminadas ou em fase terminal de beneficiação: estufa quente no Parque da Pena, estufa fria no Parque de Monserrate, Casa dos Cantoneiros, Casa da lenha junto à entrada de Santa Eufémia, Casa do Pombal junto à entrada principal do Parque da Pena, cinco caminhos pedestres (entre os quais o de Santa Maria-Castelo), reposição da Cruz Alta, a ETAR de Monserrate e, pois claro, o caso do Chalé da Condessa e envolvente cuja recuperação já está a acontecer.

PSML, quem viu e quem a vê…? Presentemente, com uma média anual de quatro mil visitantes por dia, aquele que já foi ingovernável e vergonhoso sorvedouro de dinheiros públicos, passa a encarar o futuro como empresa de sucesso que até vai apresentar lucros de exploração.

(continua)

terça-feira, 3 de junho de 2008

Quarenta e três

(conclusão)

Embora o chapéu do Romantismo seja de tal modo abrangente que nele quase tudo cabe, ainda se percebia que a vertente musical do nosso festival se relacionasse com um tempo e uma estética cujas marcas indeléveis ficaram por Sintra, nestes montes, veredas, caminhos e fontes, parques, jardins e monumentos com os quais, de facto, nos relacionamos nem sempre tão bem quanto seria de esperar…

Durante uma boa série de anos, a conotação romântica funcionou relativamente bem. Até a componente de dança, privilegiando um repertório muito afim do designado ballet clássico, se articulava harmoniosamente com a da música, integrando uma oferta global cujos contornos e perfil não punham em questão a tal temática abrangente do Romantismo.

Na realidade, muito mais fácil seria manter aquela marca se, a partir do momento em que passou a residir, não em Seteais mas no CCOC, a componente da dança se tivesse tornado independente, dando origem a uma temporada desfasada do Festival, obedecendo a outros contextos de figurino e calendário, portanto, mais liberta para assumir o perfil programático que, tão positivamente, Mestre Vasco Wellenkamp lhe tem imprimido nos últimos anos.

Como assim não sucedeu, cada vez mais problemática se revela a concretização de uma iniciativa, o Festival de Sintra, que obedeça à geral temática do Romantismo. Por outro lado, sem problema de maior, vai-se admitindo e, praticamente é já facto consumado, que a vertente de dança não tem qualquer conotação com a sua parceira da música, pelo que aparece no programa sem relações de afinidade, por conotação ou denotação.

O caso dos contrapontos

Então, no que se refere aos designados Contrapontos, me parece que a confusão é evidente. Proponho-vos um pequeno exercício de lógica. Primeiramente, tenhamos em consideração que a noção de contraponto, no contexto de um festival de música, tem uma inequívoca conotação com a linha dominante do tema a que obedece a programação geral.

Em segundo lugar, pelas razões aduzidas, não nos preocupemos com a vertente da dança do Festival de Sintra e admitamos que, tal como parece, em 2008 haveria uma linha dominante na programação, obedecendo ao tema Piano em Russo. Ora bem, assim acontecendo, então os eventos enquadrados pela designação Contrapontos –ocupando locais outros, à conquista de públicos outros, revestindo um carácter não formal ou de maior informalidade – deveriam revestir contornos e perfil inequivocamente relacionados, por denotação, com a temática Piano em Russo.

Naturalmente, não é muito fácil encontrar contrapontos a uma tal temática… Mas não é impossível. Todavia, por muita elucubração que o nosso exercício pressupusesse, dificilmente fariam parte do nosso rol o Requiem de Mozart, O Menino e o Mar, com base num texto de Sophia ou a ópera La Traviata de G. Verdi. Da nossa lista, no entanto, poderiam perfeitamente constar outras obras de Mozart, de Verdi, textos de Sophia, ou o programa a apresentar pelo Ensemble de Sopros Juvenil de Massachussetts, desde que devidamente negociado para o efeito... Ou uma peça pelo Teatrosfera. Claro que sim, sem equívocos, respeitando a definição implícita nestas considerações.

Tal como a entendo, importei e divulguei, esta invenção do Maestro Claudio Abbado, concretizada a partir do momento em que foi Director Artístico do Festival da Páscoa de Salzburg, com a feliz designação de contrapontos, não se traduz apenas numa proposta musical, que funcione por contraste com o restante festival, simplesmente por ser menos formal ou informal, ou por ir à conquista de um público outro, como julgo ter sido única intenção no caso de Sintra.

Atenção, também é isso… Mas a subtil articulação com um tema principal é indispensável. Volto a lembrar a designação contraponto que, como sabemos, tem tudo a ver com o mundo da música. A proposta de Abbado, o seu modelo, é que se me evidencia como efectivamente estimulante e desafiante para o ouvinte, assistente e participante.

Vale a pena ter em consideração que, em termos muito gerais, o contraponto é a arte de sobrepor uma melodia a outra e, em sentido mais restrito, de acordo com um conjunto de técnicas composicionais da polifonia. Também se pode entender como uma composição que obedece às regras da simultaneidade melódica. Etimologicamente, tem a ver com um tempo medieval em que a escrita musical se produzia não através de notas mas, isso sim, por ‘pontos’. A expressão cantus contra punctus, i.e., canto, música em contraponto, refere-se à sobreposição de punctus, portanto, ‘nota contra nota’ e, por extensão, ’melodia contra melodia’, ilustra muito bem o que pretendemos defender.

Entre outras coisas, as palavras também nos servem para expressar determinadas ideias e realidades... Num festival que tem uma tão forte vertente musical, a designação contrapontos não é despicienda e, portanto, não pode, não deve aplicar-se fora de um contexto que, sendo muito afim desta arte, é suficientemente abrangente mas não ao ponto de poder acolher tudo e mais alguma coisa, de qualquer maneira

Tudo, tudo é bem possível acontecer, enquanto evento musical, abrigado à designação de contraponto, inclusive tocar com instrumentos construídos com legumes que, no fim da função, são utilizados para confeccionar uma excelente sopa. Eu assisti a coisas destas na Áustria. Mas a relação temática, a necessidade de referência a um tema principal é indissociável…

Conclusões

Só na aparência será esta uma reflexão para iniciados. Todo o público beneficiará de uma concepção programática que observe os pontos focados. Mas nada disto significa que a presente seja uma edição que não valha a pena. Estas considerações não constituem uma avaliação. Em 2008, o Festival tem todo o mérito. Eu vou lá estar sempre ou quase sempre.

Em suma e em conclusão, estou em crer que se impõe proceder a uma cuidada reflexão acerca destas questões cuja pertinência me parece relevante. Revela-se imprescindível ir ao encontro, descobrir e apresentar um Leitmotiv de grande abrangência, conceber o Festival de Sintra como lugar geométrico de confluências culturais, presentes e articuláveis em vários suportes das Artes e Letras, procurando sincronias, fazendo cortes diacrónicos, não rejeitando anacronismos.

Eis um desafio que é preciso estar à altura.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Quarenta e três

(cont.)


Um Senhor…

Ninguém porá em dívida que, em Portugal, a Fundação Gulbenkian é a entidade que melhor promove e sabe promover uma coerente e consequente programação de eventos musicais. Verdadeira Ilha de Cultura no todo nacional, a Gulbenkian apenas encontra parceiros da sua envergadura em mais algumas grandes instituições mundiais que podem dar-se ao luxo de apresentar propostas musicais só do mais alto nível.

Tal se deve, não só a um incomparável poder financeiro mas também à altíssima competência do seu Director Musical, Dr. Luís Pereira Leal que, ao longo de décadas, tem demonstrado como, igualmente a nível mundial, é uma das pessoas que mais sabe do meio em que se move.

O Dr. Luís Pereira Leal é um director de tal modo proeminente que, prestes a retirar-se para a aposentação, obriga a Gulbenkian a abrir concurso internacional cujo resultado possa assegurar a substituição por alguém que não ponha em causa a sua excepcional competência de colaborador com méritos tão reconhecidos.

Dou-me ao cuidado de isto mesmo escrever porquanto, em Sintra, mesmo habitué do Festival de Sintra, muito raro será quem sabe quanto vale este discretíssimo senhor dos meios culturais portugueses, um dos mais conhecidos directores mundiais de uma grande casa de música, ele que faz parte de uma rede de pares que se pautam por altíssimos padrões em cada um dos parâmetros de avaliação artística.

Pois é, toda a gente sabe que o Dr. Luís Pereira Leal é o Director Artístico da vertente musical do Festival de Sintra. Mas é preciso pôr os pontos nos ii e eu faço-o com o maior prazer. Ora bem, se me dão licença, uma vez terminada a merecidíssima referência, volto agora à citação com que vos deixei no parágrafo final do texto aqui publicado na passada sexta-feira. E repito:

“(…) cada concerto constitui uma proposta que vale por si mesma e uma experiência estética autónoma (…) uma estratégia de coerência que passa por construir associações temáticas entre concertos isolados, convidando o público a percursos de descoberta que encadeiam vários programas em ciclos que lhes dão sentido (…)”.

Programação do quarenta e três

Aquelas são palavras que devem nortear, sem margem para qualquer dúvida, qualquer iniciativa cultural, mais ou menos compósita, tanto se aplicando à temporada da Gulbenkian como aos Festivais de Óbidos, de Mafra, de Sintra, de Luzern ou de Salzburg. Hoje em dia, são princípios de inequívoca aceitação. E tanto assim é que a sua obediência e observância evita a promoção de eventos sem interna lógica e coerência programática.

Na primeira parte do artigo, em 30 de Maio, sublinhei quanto me parece de considerar uma quase façanha o facto de, nesta quadragésima terceira edição do Festival de Sintra, se ter conseguido não fazer concessões à qualidade, apesar do momento tão grave das restrições orçamentais que nos afectam, a nível local e nacional, em todos os domínios.

Tendo sido possível fazer a quadratura do círculo, não baixando a qualidade, seria de esperar que, de modo idêntico, a proposta geral do Festival de Sintra obedecesse a critérios de lógica e coerência inscritos nas preocupações evidentes da citação que vos propus. Tal não significa que esta edição seja um patchwork... Todavia, enquanto oferta compósita de três vertentes - musical, dança e contrapontos - não é perceptível a coerência das associações temáticas.

Esse desejável objectivo me parece não ter sido alcançado – repito, em termos da proposta global – apesar das evidentes conotações presentes à vertente musical, subordinada ao «título» Piano em Russo, que interpreto como afins de uma escola pianística que perdura no tempo, interpretação esta que também acolhe o facto de todos os pianistas nela se inserirem.

E, para que não restem dúvidas quanto ao sentido a atribuir àquelas aspas, desde já esclareço que se referem à minha hesitação quanto ao entendimento de que tal título abranja um homónimo «tema». Se o tema é aquele, deverei conjugá-lo com a ideia da pianística do Romantismo, ideia que ainda não terá sido abandonada pelo Festival de Sintra? Então, e se assim for, como entender, por exemplo, nos recitais de Lugansky, Igoshina e Sokolov, a presença de peças não incluídas naquele período, mesmo aceitando um romantismo lato sensu?

(Continua)