[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 25 de outubro de 2012




Volta do Duche,
às voltas com o tempo que passa [II]


Naturalmente, quanto mais não seja para efeitos de arquivo, passo a transcrever a seguinte troca de comentários suscitados por um texto que subscrevi e ontem aqui publiquei. Como poderão verificar, introduzi parágrafos e, entre parêntesis rectos [ ], acrescentei um esclarecimento:

Ana Simão:
Boa noite João, estes Plátanos foram retirados. Os que lá estão hoje (na sua maioria) podados /torturados tinham (no projeto) um contorno de proteção das raízes igual ao diâmetro da sua copa (antes da poda) … Outra notinha nunca existiu nem foi “celebrado o protocolo de construção” mas sim um “concurso de obra”. E havia uma candidatura aprovada ao programa comunitário “Pólis para Centros Históricos” e um financiamento por parte do Fundo de Turismo, que financiavam (mais ou menos) 90% todo o projeto e construção.

João De Oliveira Cachado:

Obrigado pelos esclarecimentos. De facto, a memória traíu-me em relação ao «protocolo», assim grafado, porque tenho ideia de ter sido celebrado um documento que tal e assim mesmo designado.

Lembro-me de que, no projecto, os plátanos tinham, sim senhor, um 'contorno de protecção'. Mas tanto o Prof. Caldeira Cabral como o Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, [aderentes, amigos e consultores do então Movimento Cívico de Sintra] consideraram esse recurso como algo perfeitamente repudiável em termos da salvaguarda das espécies em questão.

Claro que conheço a história recente e remota do local, lembro-me perfeitamente de como era nos anos cinquenta, sei quais foram as árvores substituídas. E, minha cara Ana Simão, até podia haver ouro em pó ou em barras para construir a coisa. A verdade é que foi repudiada e a população, naturalmente, arcou com as consequências da actuação da sua intervenção cívica.

Todas as forças partidárias concorrentes às eleições que substituiram o executivo de Edite Estrela se comprometeram a não concretizar o projecto quando perceberam a força residual da população e dos aliados que tinha conseguido conquistar para a luta.

Não há dúvida também de que este episódio comprometeu decisivamente qualquer veleidade que Edite Estrela tivesse no sentido de permanecer mais um mandato. Uma das coisas que se evidenciou foi a evidente fragilidade da então Presidente que se afirmava agente de cultura e que, tão manifestamente, subscrevia uma atitude de lesa cultura.

Por outro lado, lembro-me perfeitamente das barbaridades afirmadas pelo então Vereador da Cultura em quem Edite Estrela terá descansado quanto à defesa das suas cores e que só a colocou mal.

Enfim, águas passadas mas, jamais, águas esquecidas porque, reafirmo-o, com a maior veemência, foi um processo paradigmático de intervenção cívica e de tanta valia que, pouco tempo depois, o semanário 'Expresso' considerava o que tinha acontecido em Sintra como perfeitamente representativo e, lá está, exemplar em termos de cidadania.

Ana Simão:
Sem dúvida opiniões e visões diferentes... fundamentadas em informações diferentes!

que lá estão hoje (na sua maioria) podados /torturados tinham (no projeto) um contorno de proteção das raízes igual ao diâmetro da sua copa (antes da poda) … Outra notinha nunca existiu nem foi “celebrado o protocolo de construção” mas sim um “concurso de obra”. E havia uma candidatura aprovada ao programa comunitário “Pólis para Centros Históricos” e um financiamento por parte do Fundo de Turismo, que financiavam ( mais ou menos) 90% todo o projeto e construção.

João De Oliveira Cachado:
Obrigado pelos esclarecimentos. De facto, a memória traíu-me em relação ao «protocolo», assim grafado, porque tenho ideia de ter sido celebrado um documento que tal e assim mesmo designado.

Lembro-me de que, no projecto, os plátanos tinham, sim senhor, um 'contorno de protecção'. Mas tanto o Prof. Caldeira Cabral como o Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, [aderentes, amigos e consultores do então Movimento Cívico de Sintra] consideraram esse recurso como algo perfeitamente repudiável em termos da salvaguarda das espécies em questão.

Claro que conheço a história recente e remota do local, lembro-me perfeitamente de como era nos anos cinquenta, sei quais foram as árvores substituídas. E, minha cara
Ana Simão, até podia haver ouro em pó ou em barras para construir a coisa. A verdade é que foi repudiada e a população, naturalmente, arcou com as consequências da actuação da sua intervenção cívica.

Todas as forças partidárias concorrentes às eleições que substituiram o executivo de Edite Estrela se comprometeram a não concretizar o projecto quando perceberam a força residual da população e dos aliados que tinha conseguido conquistar para a luta.

Não há dúvida também de que este episódio comprometeu decisivamente qualquer veleidade que Edite Estrela tivesse no sentido de permanecer mais um mandato. Uma das coisas que se evidenciou foi a evidente fragilidade da então Presidente que se afirmava agente de cultura e que, tão manifestamente, subscrevia uma atitude de lesa cultura.

Por outro lado, lembro-me perfeitamente das barbaridades afirmadas pelo então Vereador da Cultura em quem Edite Estrela terá descansado quanto à defesa das suas cores e que só a colocou mal.

Enfim, águas passadas mas, jamais, águas esquecidas porque, reafirmo-o, com a maior veemência, foi um processo paradigmático de intervenção cívica e de tanta valia que, pouco tempo depois, o semanário 'Expresso' considerava o que tinha acontecido em Sintra como perfeitamente representativo e, lá está, exemplar em termos de cidadania.

Ana Simão:
Sem dúvida opiniões e visões diferentes... fundamentadas em informações diferentes!

que lá estão hoje (na sua maioria) podados /torturados tinham (no projeto) um contorno de proteção das raízes igual ao diâmetro da sua copa (antes da poda) … Outra notinha nunca existiu nem foi “celebrado o protocolo de construção” mas sim um “concurso de obra”. E havia uma candidatura aprovada ao programa comunitário “Pólis para Centros Históricos” e um financiamento por parte do Fundo de Turismo, que financiavam ( mais ou menos) 90% todo o projeto e construção.

João De Oliveira Cachado:
Obrigado pelos esclarecimentos. De facto, a memória traíu-me em relação ao «protocolo», assim grafado, porque tenho ideia de ter sido celebrado um documento que tal e assim mesmo designado.

Lembro-me de que, no projecto, os plátanos tinham, sim senhor, um 'contorno de protecção'. Mas tanto o Prof. Caldeira Cabral como o Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, [aderentes, amigos e consultores do então Movimento Cívico de Sintra] consideraram esse recurso como algo perfeitamente repudiável em termos da salvaguarda das espécies em questão.

Claro que conheço a história recente e remota do local, lembro-me perfeitamente de como era nos anos cinquenta, sei quais foram as árvores substituídas. E, minha cara
Ana Simão, até podia haver ouro em pó ou em barras para construir a coisa. A verdade é que foi repudiada e a população, naturalmente, arcou com as consequências da actuação da sua intervenção cívica.

Todas as forças partidárias concorrentes às eleições que substituiram o executivo de Edite Estrela se comprometeram a não concretizar o projecto quando perceberam a força residual da população e dos aliados que tinha conseguido conquistar para a luta.

Não há dúvida também de que este episódio comprometeu decisivamente qualquer veleidade que Edite Estrela tivesse no sentido de permanecer mais um mandato. Uma das coisas que se evidenciou foi a evidente fragilidade da então Presidente que se afirmava agente de cultura e que, tão manifestamente, subscrevia uma atitude de lesa cultura.

Por outro lado, lembro-me perfeitamente das barbaridades afirmadas pelo então Vereador da Cultura em quem Edite Estrela terá descansado quanto à defesa das suas cores e que só a colocou mal.

Enfim, águas passadas mas, jamais, águas esquecidas porque, reafirmo-o, com a maior veemência, foi um processo paradigmático de intervenção cívica e de tanta valia que, pouco tempo depois, o semanário 'Expresso' considerava o que tinha acontecido em Sintra como perfeitamente representativo e, lá está, exemplar em termos de cidadania.

Ana Simão:
Sem dúvida opiniões e visões diferentes... fundamentadas em
 


Volta do Duche,
mais uma achega


Para estar como está, a Volta do Duche exigiu que muita gente se batesse contra a destruição que o executivo liderado por Edite Estrela se preparava para concretizar, à pala de um projecto assinado pelo Arquitecto Fernando Távora, um dos mais prestigiados mestres da arquitectura portuguesa.

Já tudo tinha sido decidido, já tinha sido celebrado o protocolo de construção, tudo estava encaminhado, aprovado e consumado. E, mesmo assim, conseguimos reverter o processo de tal modo que a Volta do Duche permanecesse incólume, livre do sarcófago do parque de estacionamento subterrâneo que a iria destruir e para sempre desfigurar.

Um punhado de cidadãos de Sintra conseguiu opor-se à indiscutível e aparentemente inexpugnável força de uma máquina autárquica bem oleada. Foi uma autêntica luta de David contra Golias. Mas a nossa fisga, contra a barbárie que ali vinha, mascarada de belíssimas intenções, acertou no alvo. Tínhamos por nós a força da razão e, sem partidarismo que nos tolhesse o movimento, conseguimos suster a iniquidade.

Passada uma dúzia de anos parece mentira que tamanha asneira estivesse tão prestes a acontecer. É preciso manter bem viva a memória dessa luta, em defesa de um lugar muito especial, que é parte indissociável do património cultural de Sintra. Por ali, embalados em carrinho de bébé, fomos passeados por nossos pais e avós. Mais tarde, por ali, namorámos. Ciclicamente, repetimos os gestos, de mão dada aos nossos filhos e netos.

Todos os dias nos encantamos sob aqueles plátanos que a Maria Gabriela Llansol tanto prezava. Ela, sim – como esquecê-lo? – que igualmente participou na luta, escrevendo, acompanhando-nos em todo o processo, ela que antes de enviar ao jornal ‘Público’ um texto que acabara de redigir, em defesa daquele espaço, mo lia, emocionada, ao telefone, deixando-me sem palavras, totalmente rendido ao seu testemunho, ao seu civismo e à sua arte.

Lutámos. Na rua, é verdade, mas se nos tivéssemos limitado a ir para a rua, se a nossa fisga tivesse sido apenas a rua, nada tínhamos conseguido. Não, na rua, apenas demos o sinal do nosso desconforto, da nossa indignação. Montámos um dispositivo muito sério, verdadeiramente ‘profissional,’ em que nada foi deixado ao acaso, com vertentes de luta na comunicação social – os quatro canais de tv cobriram o evento bem como todos os jornais diários nacionais – nos meios intelectuais, nas várias Faculdades, concebemos dossiês exaustivos, comunicámos com todos os poderes, nacionais e instâncias culturais internacionais.

Se a Volta do Duche está como está não é coisa de somenos. É preciso dizê-lo nas escolas, hoje, tal como, na altura, quando contámos com o envolvimento de tantos estudantes. A defesa do património teve ali uma jornada muitíssimo honrosa e verdadeiramente exemplar já que, se ainda fosse necessário demonstrar, essa defesa não é restrita ao património natural e edificado, em que Sintra tão pródiga é, antes contempla também os lugares significativos que têm memórias aderentes à pele das pedras dos passeios e das ruas.

 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012



A estratégia da rua

Como não podia deixar de suceder, já que estive totalmente envolvido no processo, sempre me ocorre lembrar o episódio da iminente destruição da Volta do Duche quando vem a propósito escrever ou falar acerca de manifestações de rua.
Quando o movimento cívico se começou a organizar, havia uma série de pessoas pensando na organização de uma manifestação de rua que percorresse aquela artéria, entre o Palácio da Vila e os Paços do Concelho, em que os cidadãos aderentes transportariam determinados cartazes com slôganes adequados à circunstância, dizendo as palavras de ordem combinadas.
Pois, hoje em dia, passados doze anos, permitam que confirme o que, acerca da manifestação de rua, dizia eu aos companheiros que se iam juntando à causa da defesa do lugar que era e, em consequência da nossa luta, continua sendo património emblemático de Sintra. Pois, nem mais nem menos, que só devíamos ir para a rua se tal atitude fosse apenas um dos elementos da estratégia da luta que estávamos equacionando.

E assim foi. Na realidade, até concretizámos a manifestação. Porém, em relação a tudo o resto que também realizámos, a manifestação de rua foi coisa de importância relativa. Tínhamos preparado dossiês de documentação com exemplares disponíveis no terreiro em frente ao Palácio da Vila, com fotocópias muito aumentadas do projecto, havia abaixo-assinados a circular, alguns especificamente dirigidos a académicos, intelectuais de todas as áreas, cartas remetidas a uma série de entidades entre as quais o Director-Geral da Unesco, etc.
Por outro lado, a estratégia junto da comunicação social surtiu totalmente o efeito desejado,  conseguindo a cobertura de todos os jornais diários nacionais e de todas as estações de televisão, tendo entrado em directo nalguns programas, inclusive com entrevistas/debate entre autarcas defensores do projecto e nós, os opositores. Houve distribuição de milhares de exemplares do manifesto do movimento nas ruas mais movimentadas de todas as sedes das várias freguesias, afixação de cartazes em lugares estratégicos.
Algo de muito importante foi o apontar soluções alternativas ao projecto de ali construir um parque de estacionamento subterrâneo, propondo medidas concretas. Pode afirmar-se que, dificilmente, alguma coisa terá sido deixada ao acaso. E, de tal modo assim foi, ou seja, as coisas correram tão de feição, que resultaram no abandono do projecto que já estava protocolado, um inequívoco sucesso que levou o semanário ‘Expresso’ a considerar o caso da defesa do património da Volta do Duche como exemplar.
Em conclusão muito simples, bem poderia considerar-se que tivéssemos nós programado apenas a manifestação de rua e nada teríamos conseguido. Foi perante o peso de toda um pacote de iniciativas bem equacionadas que vergou toda uma máquina autárquica, incapaz de contrapor atitudes mais originais e mais convincentes que anulassem a capacidade de mobilização dos munícipes altamente motivados perante um processo muito dinâmico.
Será que poderíamos extrapolar estas conclusões para outros quadros de movimentação cívica como, por exemplo, o que tem levado para a rua os cidadãos escandalizados com as medidas que o Governo tem vindo a anunciar, em especial, no campo fiscal? Duvido na medida em que se trata de um processo muito diferente e numa escala incomparável.  Mas tem sido à rua, no exercício de um direito especialmente protegido no artº 45º da Constituição da República Portuguesa, sistematicamente à rua, que os cidadãos têm descido para a manifestação do seu sentir.
Porém, uma coisa é certa: ir para a rua não resolve absolutamente nada. Nada! Ir para a rua apenas sinaliza o desconforto das massas populares em protesto, avisa os decisores políticos que, neste caso, os cidadãos chegaram ao limite das suas possibilidades e que, em muitas circunstâncias, já foi ultrapassado o limiar da dignidade. Isto, que não é pouco, não passa de um aviso. Porque a decisão, mesmo que passe por uma eventual inflexão da estratégia fiscal a inscrever no Orçamento de Estado, a decisão, repito, cabe ao Governo, nos termos do que acontece nos Estados Democráticos de Direito.

Aliás, foi de acordo com este princípio que, em Fátima, há uns dias, se manifestava o Cardeal Patriarca de Lisboa, falando à imprensa, na sua condição de Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. De facto, a rua nada resolve, apenas envia sinais a quem deve estar atento, portanto, a quem, em última instância, cabe decidir. Não deixando de constituir um sério alerta cívico, a rua é uma forma rudimentar do exercício da cidadania. E, em sentido contrário, quem pensar que a rua é o máximo ou que esgota a intervenção cívica está redondamente enganado.
Volto ao início. Volto ao processo da luta pela defesa do património da Volta do Duche, de reduzidíssima dimensão, para confirmar como o movimento cívico de Sintra soube equacionar a medida em que a rua podia servir o seu objectivo último. Oxalá, sejam quais forem as circunstâncias, seja qual for a sua escala, que os movimentos cívicos de cidadãos com uma estratégia de recurso à rua para manifesto de um protesto, tenham sempre a precisa noção do valor da rua para a prossecução dos seus objectivos.


sábado, 13 de outubro de 2012




A Paz, os alhos e os bugalhos [II]


Acabo de ler, subordinado ao título "Nobel da Paz, a oportunidade de um prémio" o artigo que Teresa de Sousa subscreveu e que o jornal 'Público' apresenta na página 10 da sua edição de hoje.

Teresa de Sousa coincide totalmente comigo. Estou satisfeito, deveras satisfeito, na medida em que, tendo sido objecto de tanta reacção negativa, quase duvidei da razão que julgava assistir-me desde o momento em que tomei conhecimento da decisão do Comité Nobel.

É por isso que, com manifesto agrado, passo à transcrição do último parágrafo do mencionado artigo:

"(...) É por isso que a decisão do Comité Nobel de Oslo não poderia ser mais oportuna. Kohl classificou-a de "sábia e arrojada". Porque ela surge num momento, porventura o primeiro desde a sua fundação, em que a própria ideia da Europa está a ser rudemente posta à prova, e em que a possibilidade da desintegração nunca foi tão grande. O prémio convida a olhar para trás e a lembrar o que a Europa conseguiu de extraordinário nas últimas décadas. E é, ao mesmo tempo, um aviso a quem a dirige sobre a responsabilidade que tem em não destruir esse legado."

Deixem que rejubile com a opinião supra, do ex-chanceler Kohl, já que, eu próprio escrevi:

"(...) Aliás, com a sua decisão e à sua medida, o Comité Nobel faz uma inteligentíssima chamada de atenção, até estimulando e promovendo uma significativa quota parte de ânimo, mobilizando-nos a todos, decisores políticos e cidadãos em geral, para que nos empenhemos decisivamente nas soluções que, cada vez mais, apontem em direcção ao grande objectivo referido. (...)"

Repito, por um lado, as palavras do grande estadista - sábia e arrojada - e, por outro, as minhas, de modesto escriba - inteligentíssima chamada de atenção - para concluir que seria uma oportunidade perdida não acolher este prémio como um inequívoco estímulo para continuar em direcção ao grande objectivo da construção da Federação dos Estados Unidos da Europa.

Como federalista convicto, como europeu dos quatro costados, como ibérico e iberista e como português estou perfeitamente convencido de que «só» falta mesmo fazer o resto da caminhada...
 
 


A Paz, os alhos e os bugalhos*


O Comité do Nobel fala e escreve sobre alhos, ou seja, enaltece o caminho percorrido, desde os tempos da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço até aos nossos dias, evitando a beligerância entre países que tinham empurrado os seus filhos para dezenas e dezenas de anos de guerras fratricidas e fomentando a paz no continente por um período tão alargado como jamais aconteceu.

Porém, as reacções que tenho encontrado respondem bugalhos. E os «bugalhos» com que deparo são de um tal primarismo que aflige. Claro que é facílimo conotar as justíssimas reacções dos cidadãos europeus - nomeadamente portugueses, irlandeses, gregos, italianos e espanhóis, perante políticas nacionais e globais que estão a minar o Estado Social e a sua qualidade de vida - com estes acontecimentos recentes, circunstanciais, muito importantes de cidadãos gritando que não aguentam a violência de soluções mal equacionadas.

De facto, estamos todos a passar um péssimo momento, incapazes de trilhar a via do federalismo, para a qual apontaram Monet, Spaak, Adenauer e os outros pais fundadores. É verdade. Estamos em risco de não conseguir percorrer esse caminho para a Federação dos Estados Unidos da Europa e de não honrar o fabuloso património das conquistas alcançadas em setenta anos de paz.

Mas, por favor, nada de confusões. Não deixemos que a árvore nos impeça de olhar a floresta… Aliás, com a sua decisão e à sua medida, o Comité Nobel faz uma inteligentíssima chamada de atenção, até estimulando e promovendo uma significativa quota parte de ânimo, mobilizando-nos a todos, decisores políticos e cidadãos em geral, para que nos empenhemos decisivamente nas soluções que, cada vez mais, apontem em direcção ao grande objectivo referido.
 
*texto também publicado hoje no facebook
 
 


Uma questão de exemplo

[Texto publicado no facebook em 12 de Outubro]


Ao contrário do que algumas pessoas pretendem, o interesse dos cidadãos que discutem a aquisição dos quatro automóveis topo de gama pelo grupo parlamentar do Partido Socialista, com verbas disponibilizadas pelos contribuintes, não se enquadra em qualquer manobra de diversão, com o objectivo de desfocar a atenção de matérias que, supostamente, os deveriam preocupar em exclus
ivo.

Compreende-se que, muito naturalmente, ao Partido Socialista conviesse propalar tal ideia. Porém, é de tal modo paradigmática a atitude do referido grupo parlamentar que, por mais voltas e reviravoltas que dêem, nunca sairão bem do retrato.

Se não, vejamos. Completamente exaurido, julgava o povo não poder mais com a carga de impostos que tem vindo a suportar e eis que se avizinha um ano inimaginável. Ora bem, é precisamente numa altura como a que estamos a atravessar, com os cidadãos causticado por tantos sacrifícios, que os senhores deputados arranjaram maneira de escandalizar quem está cada vez menos disponível a aturar-lhes a bizarria de quaisquer mordomias.

Muito bom sintoma é este. Muito nos deve animar a circunstância de verificar que o povo se insurge contra tais testemunhos de abuso, que não encontram paralelo em países ricos, como os escandinavos, onde tudo se pauta com uma cuidadosa contenção nos gastos dos dinheiros públicos, exactamente no respeito pelo esforço dos cidadãos na disponibilização das verbas e no sentido de não ferir a sua susceptibilidade.

Se esses senhores – hoje, do grupo parlamentar do PS mas que, amanhã, não tenhamos a mínima dúvida, poderiam ser do PSD – pretendem fazer-se deslocar em viaturas que, enfim, ultrapassem a classe das utilitárias, pois, então, que as adquiram com os seus dinheiros pessoais. Não fariam mais do que, nos tempos da «outra senhora», fazia, por exemplo, o Dr. José Gonçalo Correia de Oliveira, Ministro da Economia e delfim de Salazar, que tinha a mania dos mais sofisticados automóveis, chegando a ter um Aston Regina Marti Evaldin DB6, vários Jaguar de diferentes modelos, Alfa Romeo, Facel Veja e eu sei lá que mais. Mas, atenção, eram pagos com o seu dinheiro, dele que era um homem rico, nascido numa família rica, com suficientes cabedais para sustentar tão requintados gostos.

Nos tempos que correm, como assim não podem fazer, isto é, como não têm de seu para pagar o luxo que julgam ter direito, muitos dos actuais políticos apenas se dão ares… E, portanto, com o dinheiro dos contribuintes, fazem ridículas figuras de papalvos, de pacóvios, protagonizando a atitude dos deslumbrados que, nunca tendo tido acesso a certos meios e a certos bens, se convenceram de que, ao volante dos automóveis em questão, as suas medíocres pessoas beneficiarão do estatuto a que aspiram…

O grande problema é que é gente deste baixo calibre e tanta falta de nível que acaba por ocupar os cargos do poder, delegado pelos eleitores, subvertendo os mecanismos da democracia. Urge não lhes dar descanso, urge desmascará-los, desacreditá-los, ridicularizá-los agora e quando tiverem o descaramento de se apresentarem ao eleitorado.

Não há como não conversar acerca deste assunto com os nossos miúdos, nas escolas, em casa, evidenciando o péssimo exemplo de quem mina a cidadania. Só assim, ajudando a entender e a descodificar comportamentos tão desviantes, talvez possamos ter a dita de nos livrarmos destes videirinhos ordinários.


Despudor sem limite

[Texto publicado no facebook em 11 de Setembro]


Através da TVI, acabamos de saber que o grupo parlamentar do Partido Socialista adquiriu quatro automóveis novos, de topo de gama, VW Passat e Audi A5, recorrendo ao orçamento da Assembleia da República, isto é, usufruindo de verbas disponibilizadas por todos os contribuintes.

Mais se soube que qualquer dos outros grupos parlamentares dispõe de viaturas que, para todos os efeitos, ou são menos espampanantes, mais económicas, mais antigas ou, no caso do BE, nem sequer as adquiriram, preferindo alugar quando necessário. Disse o leader parlamentar do PS que, deste modo, poupam mais de 100.000 Euros/ano em relação à frota que substituíram.

A propósito, logo nos lembramos de várias empresas públicas - não se recordam do caso da Companhia das Águas? - cujos gestores também pretendiam iludir o povo, exactamente com o mesmo argumento, para, despudoradamente, se fazerem passear em automóveis de luxo quando nem condições havia para se transportarem de carroça.

No mesmo país que, inadvertida e irresponsavelmente, o Partido Socialista conduziu à bancarrota, melhor seria que os membros do seu grupo parlamentar tivessem um pingo de vergonha e nos poupassem estas lamentáveis cenas de pacóvios deslumbrados com mordomias que custam o sangue, o suor e as lágrimas de um povo sofrido e exaurido. Não haverá quem os contenha?

Claro que o «arco do poder» é tão medíocre que, actualmente, em substituição de tão maus governantes, estamos sendo governados pela equipa dos mais incompetentes desde o Vinte e Cinco de Abril. São péssimos, é verdade, continuam perfeitamente às aranhas, com a troika de permeio, fazendo-nos pagar juros de agiota por empréstimos incomportáveis, no quadro de uma economia que nem sequer gera a riqueza necessária ao serviço da dívida.

Contudo, cumpre não esquecer que, na aflitiva situação que o país atravessa, os mesmos senhores que nos trouxeram à bancarrota, não hesitaram em comprar, com o nosso dinheiro, bens perfeitamente dispensáveis. Não, meus senhores, ao contrário do que possa sugerir-se, isto não é um episódio insignificante, onde estão em jogo «só» umas centenas de milhar de euros, coisa desgarrada, inconsequente.

Inadmissível seria que se confundisse este e outros comentários congéneres com qualquer ponta de demagogia. Nem por sombras! Tenho, temos, isso sim, o direito a concluir, perante as evidências, que prevalece a mesma mentalidade de sempre. É a mesma gente. É o mesmo escândalo. É, sem qualquer hipérbole, o horror institucionalizado a minar os frágeis alicerces de um Estado Democrático de Direito servido pelos piores dos piores. Que lástima!


 


 


quinta-feira, 11 de outubro de 2012




Assembleia Municipal de Sintra,
10 de Outubro de 2012, o essencial

 

Ontem à noite, 10 de Outubro, sessão extraordinária da Assembleia Municipal de Sintra no Auditório Acácio Barreiros do Centro Cultural Olga Cadaval. Estive naquela reunião do Parlamento local mas não venho contar-vos detalhes acerca do andamento do processo relativo à supressão de freguesias. Certamente, qualquer dos órgãos de comunicação social presentes se encarregará de informar e circunstanciar, muito melhor do que eu faria.
O que me traz é outra matéria, lateral quanto ao cerne da questão que lá se aflorava, ainda que suscitada pela discussão. Primeiramente, sem perder mais tempo na introdução, desde já o meu frontal repúdio pelo modo evidentemente descortês, como um (embora ainda pudesse referir outro) elemento da bancada socialista – faço a justiça de não confundir nem o Partido Socialista nacional, nem mesmo o local, onde conto com amigos, com a inqualificável prestação de um deputado municipal – que desrespeitou a própria Assembleia e o Presidente da Câmara Municipal. A propósito, cumpre esclarecer que, nem a CDU nem o Bloco de Esquerda, as outras duas organizações partidárias da oposição local, pisaram o risco da decência que, a todo o transe, deveria ter prevalecido.

Naturalmente, não tenho procuração do Prof. Fernando Seara, nem ele precisaria de defesa e, muito menos, de tão impreparado advogado como eu. Mas, de facto, escandalizou-me que, directamente, um senhor deputado tivesse chegado ao ponto de o acusar de cobardia. Nem mais nem menos, cobardia! Hão-de concordar que só uma grande capacidade de encaixe permite que, publicamente, o visado não perdesse as estribeiras…
Neste e noutros enquadramentos em que é suposto imperar a urbanidade, de tal modo que se possa participar numa reunião congénere sem qualquer sentimento de desconforto consequente da falta de maneiras, bom seria que a educação do berço – que nem tem a ver com os maiores ou menores recursos da família nem com apelidos com mais «de» ou «e» – a todos permitisse a prática da civilidade e o exercício da elegância. Enfim, infelizmente, assim não é.

Todos sabemos que a discussão e o debate de ideias, em Liberdade, numa assembleia democrática, pode e deve acolher momentos de grande vivacidade e até de contundência. É bom que assim seja e para isso todos estamos preparados, nomeadamente, os que ainda vivemos algumas décadas sob um regime em que o sagrado princípio da liberdade de expressão estava arredado e amordaçado. Mas há limites que cumpre observar no sentido de evitar a ofensa pessoal.
O que, tão energicamente, ontem feriu a minha susceptibilidade foi o modo absolutamente blasé como aquele senhor ofendeu pessoalmente o Presidente da Câmara, afinal, um seu colega autarca que, tal como ele, jurou defender os interesses dos cidadãos que os elegeram, numa plataforma de convivência democrática em que atacar e defender ideias é um inquestionável e nobre exercício. Que isso se confunda com ataque e ofensa pessoal será sempre absolutamente lamentável.

E, ao fim e ao cabo, na opinião de tão douto tribuno, representante do PS, cobarde, porque o Prof. Fernando Seara, antes de se pronunciar, em definitivo, quanto ao processo em curso sobre a supressão de freguesias, se permitiu – coisa inaudita! – estudar exaustivamente a Lei  vigente e propor aos seus pares do executivo municipal que  suscitassem  a intervenção da instância parlamentar de São Bento que, para o efeito, está prevista e disponível. E, de facto, toda a vereação concordou com tal iniciativa.
Ele próprio, aliás, teve ocasião de o sublinhar com a maior veemência. Fê-lo, puxando pelos galões académicos, lembrando como, quando necessária, é importante a atitude que conduz ao estudo aturado, consequente, exaustivo, cansativo como tantas vezes acontece. Mas, ironia das ironias, num país em que impera a ligeireza, a rapidez da decisão [?!?], num país de gente tão proverbialmente «despachadinha», dos Relvas e quejandos, no reino dos Acácios de garantido sucesso, quem ousa estudar e, subsequentemente, perguntar e esperar pela resposta, arrisca-se a levar em cima com o labéu de cobarde e oportunista…

Eis o que, fundamental e essencialmente, se me oferece reportar-vos acerca da sessão extraordinária da Assembleia Municipal de Sintra de 10 de Outubro de 2012. Quanto à reorganização administrativa do concelho, aqueles que há anos acompanham o que tenho vindo a publicar acerca do assunto, sabem que não advogo qualquer supressão ao total das vinte freguesias do actual e ingovernável concelho e, a contrario senso do main stream, que privilegiaria a constituição de mais um ou dois concelhos, equacionados a partir de coerências socioeconómicas, culturais e geográficas das freguesias, que determinariam as afinidades dos agrupamentos. E, como também não desconhecem, sempre o fui propondo sem ofender fosse quem fosse e  com o objectivo de contribuir, com o meu modesto testemunho, para a promoção da qualidade de vida dos meus concidadãos.           


Doutora Hildegarde

[Texto publicado no facebook em 8 de Outubro]
 
Por decisão de SS Bento XVI, Santa Hildegarde von Bingen (1098-1179), passou a emparceirar com os doutores da Igreja Católica Apostólica Romana. Em boa verdade, ontem foi dia grande porque idêntica decisão recaiu sobre outra figura máxima da hagiografia cristã, o místico espanhol São João da Cruz que, nestes preparos de tão ilustre doutoramento, vai emparceirar com a sua conterrânea Santa Teresa de Ávila.

Naturalmente, para todos quantos se reclamam dos benefícios do Conhecimento, estas são personagens que ultrapassam as fronteiras da Fé para se agigantarem no mundo profano como referências indeléveis da Cultura de todos os tempos.

Hoje, no entanto, a nossa especial atenção, apenas para Santa Hildegarde. Médica de vanguarda, visionária, poeta e compositora, mas igualmente empenhada em variadíssimos domínios do saber, não surpreendendo que, novecentos anos depois da morte, o seu magistério permaneça incrivelmente actualizado.

Trago-vos uma gravação altamente recomendável de um excerto da "Symphonia harmoniae ecclaestium revelationum", do Liber Divinorum opernum, pela Accademia San Felice, com a belíssima voz do soprano Barbara Zanichelli como solista. Foi registada no Mosteiro de San Mininiato al Monte (quem conhece Firenze, sabe a que imprescindível espaço me refiro), em 2006.

Boa audição!
 



Mozart,
Sinfonia No. 26


Há um qualquer efeito de cascata no que se refere à produção sinfónica de Mozart durante o ano de 1773, em que escreveu nada mais nada menos do que sete sinfonias, antes de um lapso de quatro anos. Três destas obras
são compostas no quadro do designado «estilo italiano» como Aberturas.

Tal é o caso da No. 26, KV. 184, em Mi bemol Maior, uma pequena obra-prima, instrumentada para uma orquestra mais dilatada, 2 flautas, 2 oboes, 2 fagotes, 2 trompas, dois two trompetes a e cordas. Estruturada em três andamentos, o ’Molto presto’, 4/4, inicial insinua-se à laia de concerto, seguindo-se um ’Andante’, 2/4, em Dó menor que, tão nitidamente, contrasta com a tonalidade geral e, finalmente, um ’Allegro’, 3/8.

Continuamos fiéis à interpretação da Mozart Akademie Amsterdam, sob a direcção de Jaap Ter Linden.

Boa audição!