[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Contenção de Natal




Nesta quadra tão sui generis, em que todos resolvem afivelar o melhor sorriso, na maior parte dos casos, sem a mínima sincertidade, para expressarem votos nada mais que circunstanciais, só apetece acabar, em definitivo, com aquela absolutamente mínima capa de boas maneiras que impede de devolver à procedência os cartões de Boas Festas de uma série de energúmenos que passam o ano a enfernizar-nos os dias...


Todavia, se assim fizéssemos, ainda pioraríamos a situação porquanto, rarissimamente, sabe a maioria das pessoas conviver com a clareza, a verdade, a inequívoca ausência de hipocrisia. Cortar a direito, para além de um certo limite, é procurar uma incomodidade inconsequente, porque ilegível, dentro dos quadros e práticas sociais vigentes. Daí que todos acolhamos, e bem convivamos, com uma certa dose de hipócrita condescendência que se convencionou designar como sentido das conveniências.



Lucidamente, engolamos em seco, e recebamos as manifestações que sabemos enquinadas, sem dar a entender às criancinhas - que, a seu tempo, farão a aprendizagem que mais lhes convier - como tais arremedos nos afectam mais ou menos. Pois é, as emoções obrigam a uma sofisticada gestão. E, na realidade, não há como o Natal, para pôr à prova o cabedal de investimentos de toda uma vida de aprendizagem, que nos leva à contenção, porque outros valores mais altos se levantam.
Sem a exigível pitada de contenção, impossível seria a Beleza, o verdadeiro Amor, a Caridade real da entrega ao outro, O Natal cristão que, afinal, todos andam a celebrar...



Como presente de Natal, bem ilustrativo do que, na realidade, vale a pena celebrar, gostaria de sugerir duas coisas, uma audição musical e uma leitura. Não fiquem com a ideia de que, em minha opinião, estas se posicionam nalguma hierarquia privada. Não senhor, são estas, podiam ser muitas, muitas outras as sugestões.
Então, ouçam a Oratória de Natal, BWV 248 de Johann Sebastian Bach, obra composta por seis Cantatas detentoras de diferentes dispositivos vocais e instrumentais, cada uma das quais destinada a ser executada num dia específico da quadra natalícia, e leiam Natal, de Miguel Torga, publicado em Novos Contos da Montanha. Verão como eu tenho razão. Mesmo que conheçam ambas as obras, insistam, aconselhem os miúdos, não deixem de dar lugar e de partilhar a Beleza da grande Arte nestes dias, em todos os dias.
Já sabem que votos são os meus. Sinceros.
NB:
Notas Diárias regressarão no dia 2 de Janeiro de 2008

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Nada de generalizações!

Ainda bem que só a esta hora me foi possível publicar a mensagem do dia. É que, deste modo, poderei partilhar convosco um episódio acabado de acontecer, bem evidente quanto ao conselho de não fazer generalizações, a partir dos casos menos positivos ou mesmo negativos que sucedem no âmbito dos contactos dos cidadãos com as repartições dos serviços públicos ou com os serviços administrativos das empresas privadas.
Há cerca de três meses, através de correio electrónico, enviei para sete entidades diferentes, um mesmo texto acerca de determinado assunto, cujo detalhe não interessa para o caso. Apenas uma das entidades era pública, precisamente a Câmara Municipal de Sintra. Ora bem, uma vez comunicada a matéria que me levara ao contacto daqueles destinatários, nunca mais pensei no caso que, em minha opinião, estava definitivamente arrumado.
Porém, inadvertidamente, desfiz-me da cópia do e-mail. E, para minha grande preocupação, vim a precisar do documento já na segunda semana de Dezembro. Naturalmente, fui eliminando, uma a uma, todas as entidades às quais ia solicitando o favor de me facilitarem um duplicado da mensagem que eu remetera e que me iam respondendo negativamente, invocando as razões mais plausíveis.
A última contactada foi a Câmara que, num prazo brevíssimo, facultou o documento que tanta falta me fazia. Não percebo como é que os serviços de expediente daquelas empresas privadas funcionarão para, num tão curto prazo, se libertarem de correspondência que determinaria algum cuidado de passagem pelo arquivo temporário. Atitude diferente, mais avisada e profissional tiveram os serviços administrativos da CMS.
Não tirarei qualqer conclusão mais ou menos maniqueísta. As boas e as más práticas acontecem em todos os enquadramentos, públicos ou privados. Bons, razoáveis e medíocres profissionais existem em ambos os sectores. No caso em apreço, maior peso apresenta o prato da balança desfavorável ao sector privado. Certamente que é fortuito, perfeitamente aleatório. Por isso não o diabolizarei.
Infelizmente, como todos sabemos, atitude bem diferente têm tido certos responsáveis políticos, que não hesitam em dar o seu nefasto contributo para a difusão da noção de que o funcionalismo público é a sede de todos os males que afligem este país. Cidadãos menos esclarecidos poderão tirar conclusões gerais a partir de casos isolados. O mesmo não poderá admitir-se a Directores-Gerais e membros do Governo. E isso tem acontecido.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Está de chuva...

Chove, chove razoavelmente em todo o país e é bom que assim seja. Só quem não tem a mínima ligação ao mundo rural pode regozijar, ao ouvir certos radialistas afirmarem que está mau tempo pela simples razão de estar a chover, de fazer frio ou de o vento soprar mais forte. Para tais emissores e receptores de urbanas mensagens, não convém aquilo que se considera a normal situação de invernia dum clima temperado.
Em Sintra, graças a Deus, também chove. Finalmente! Que falta, por exemplo, estava a fazer às hortaliças. No mercado, os nossos amigos da lavoura vizinha [ainda há, sim senhor...] bem se queixavam. E nós que, há tantos anos, acompanhamos as suas vidas, aqueles de nós que mantemos e sabemos como manter uma saudável relação com a ruralidade circundante, também compreendemos as suas ralações. Interagimos, gostamos de fazer parte da mesma realidade.
Mas tal falta fazia sentir-se noutros domínios igualmente importantes. Ora reparem. Recentemente, tendo andado em busca de musgos tenros, viçosos e frescos, tive grande dificuldade em encontrá-los nos locais onde tal colheita não é prejudicial. Quase ia comprometendo a montagem do presépio... Na realidade, a ausência de chuva e de humidade estava a fazer o seu pernicioso trabalho.
Com pouca água, sem a suficiente humidade, como podia apodrecer tudo quanto depois se revela naqueles fortes odores outonais de que já estávamos ávidos, tão característicos nesta Sintra-Sintra? Entre Oceano e Serra, em resultado deste auspicioso clima, destas indispensáveis chuvas e humidades, aí estão os líquenes, os musgos, os cheiros, a riquíssima paleta cromática, o manancial de satisfação para que apontam permanentes promessas de defesa e recuperação do património natural e edificado.
E onde é que vamos desaguar com esta chuva? Olhem, por mim, sempre à velha luta de que jamais desistirei. Cada vez mais animado, sabendo como sei que há por aí imensos cúmplices, todos comungando a esperança de, mais tarde ou mais cedo, podermos contribuir para cindir este monstruoso e gigantescoi concelho, pelo menos, em duas unidades, de tal modo que se torne operacional a separada gestão de ambas.
Neste penúltimo parágrafo, continuamos a desaguar no muito trabalho por fazer em Colares, São João das Lampas, São Martinho, Santa Maria e São Miguel, São Pedro, Almargem do Bispo que, na sua especificidade, nada tem a ver com o que deverá ser concretizado no triste betão de uma série de desengraçadas mas muito populosas freguesias cuja ligação administrativa a este nuclear concelho, prejudica tudo e todos.
Só corremos o risco de nos aplicarem o epíteto de elitistas militantes. Olhem, paciência. Com tanta ignorância militante por aí à solta, se não corrêssemos este risco é que muito me admiraria...

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Muito Alta tensão



Com o recurso à Justiça, foi alcançado o objectivo dos fregueses de Monte Abraão, ou seja,
os cabos deverão ser instalados no subsolo e, até à conclusão dessa obra, a REN é obrigada a suspender o envio da energia. No entanto, não deixa de ser algo paradoxal estar por demonstrar que a solução em causa resolva os problemas de doença suscitados pela passagem da energia a céu aberto...


Enfim, o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, certamente desejoso de ver regularizada uma situação em que os cidadãos têm manifestado inflamadas posições de natural e justificado alarme, não esteve com demasias e avançou com a solução de o município arcar com as despesas da operação do enterro dos cabos. Enfim, paga o «funeral» e que seja tão rápido quanto possível.

Como eu o compreendo! Num país como o nosso, em que situações quejandas se arrastam anos e anos, em demanda de quem liquida a factura, com partes litigantes espaldadas em consultores jurídicos principescamente pagos, a manobrarem dilacções ad aeternum, ele que é homem de Direito e até sabe da poda, com a exactata noção do solo e do subsolo que pisa, lançou o isco à REN. É manobra de mestre cujo alcance estará a fugir a algumas mentes mais primárias.

Estando as coisas neste pé, será de esperar que os cidadãos, até agora afectados pela situação que o Tribunal já dirimiu a seu favor, se mantenham serenamente felizes com o desfecho da causa, tenham passado uma Consoada tão bonita quanto têm direito, comecem o Novo Ano com a lucidez que for possível e, como soe dizer-se, não tenham maiores olhos que barriga.

Como poderão calcular, não aspiro ao estatuto de pequeno ou grande estratega. No entanto, com o rabo já um bocado pelado por algumas pelejas, seria levado a aconselhar que devam aguardar pelo desenrolar da novela, evitando servir de escadote a certa gente mais inquieta, que parece ter vantagem em continuá-la, a pensar nos dividendos que possa colher no futuro...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Muito alta tensão

Creio não haver quem não se sinta mobilizado a favor dos munícipes de Sintra, residentes na Freguesia de Monte Abraão, perto de cujas casas passam uns cabos de energia eléctrica que, tudo leva a crer, estarão induzindo nefastas consequências para a saúde. Como era de prever, por um lado a comunicação social e, por outro, os oportunistas políticos, têm feito o trabalho do costume, suscitando as habituais emotivas reacções.
Quem não se sente... Há sintomas, dores, incómodos e desconforto de toda a ordem. Há síndromes. Há estudos, uns mais outros menos credíveis. E, no meio de tudo isto, também deve haver muita ignorância à mistura. Enfim, uma explosiva mistura que, não só no nosso concelho, mas também, por exemplo, em São Bartolomeu de Messines, suscitou o movimento dos cidadãos, à porta da REN, ou no átrio do Tribunal.
Só alguém muito distraído se surpreenderia com o descontentamento, a luta na rua, que era perfeitamente previsível, bastando ter tomado atenção à evolução do estatuto da EDP até à constituição da REN, que acompanha e fielmente reproduz o evoluir da situação política nacional, para bem entender o que está a acontecer.
Se quisermos encontrar a responsabilidade última deste descontentamento, não deixaremos de concluir que o poder político democrático, umas vezes afecto ao PSD e outras ao PS, deixou que um serviço como o da distribuição da energia eléctrica, inequivocamente estratégico, tivesse caído na cega lógica dos interesses de mercado, ou seja, a lógica dos interesses dos investidores.
Hoje em dia, a REN é uma empresa, cada vez mais afastada dos interesses dos consumidores de energia eléctrica que, em última instância, são os seus clientes e razão da sua existência. Era inevitável que assim viesse a a contecer uma vez que, como todos sabemos, a coincidência dos interesses do mercado com os interesses dos cidadãos anónimos é coisa rara.
Em alternância, os decisores macro, vulgo PSD e PS, vão colocando no concelho de administração os gestores portadores dos respectivos cartões de acesso. Naturalmente, muito ingénuo é quem pensa que aqueles serventuários ocupam tais lugares para defesa dos interesses dos consumidores. Estão lá para esticar o cabo, o mais possível, até que uma cegonha cause um monstruoso apagão... Estão lá também para que, com baixa, alta ou muito alta tensão, e doa a quem doer, o cabo percorra o menor espaço possível desde a central até à lâmpada...
In loco, a cena é tão edificante quanto costuma dar origem o quadro de suburbanidade, mais ou menos clandestina ou recém legalizada, em que são pródigas estas zonas mais ou menos cimentadas, de prédios a fugir atrás ou à frente dos montes... Isto é, junto às casas dos suburbanos desgraçados por onde, despudorada e avidamente passam os tais cabos do desassossego, afadigam-se os peões do nível micro...
Com inusitada sede de protagonismo, manipulando o natural descontentamento dos cidadãos, capitalizando tal investimento para futuras oportunidades, insinuando-se como imprescindíveis actores - todavia não passando eles mesmos de títeres nas mãos dos efectivamente poderosos - os decisores micro deste jogo de interesses fazem o seu imprescindível trabalho de sapa.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Arte Moderna continua



Desde Outubro que o edifício onde está instalado o Museu de Arte Moderna de Sintra-Colecção Berardo tem estado encerrado para inadiáveis obras de beneficiação geral. Era tempo de as concretizar já que o degradado estado de conservação do antigo Casino assim o exigia. De facto, se as fachadas, mais visíveis, pediam intervenção de limpeza, muito mais grave eram as abundantes infiltrações de águas pluviais, a deficiente climatização, e outros preocupantes factores totalmente incompatíveis com o desempenho daquelas instalações.


Sintra decidiu ter um Museu de Arte Moderna. E decidiu muito bem na medida em que, inquestionavelmente, se colocou num circuito de referência, atraindo um específico tipo de público que não pode ignorar o que aqui se passa. Constitui, portanto, um importante factor de dinamização cultural local, um foco de atenção dos potenciais interessados, de muitos nacionais e estrangeiros.


Um museu, qualquer museu, é um lugar especialíssimo de elevação espiritual, de sofisticação, de cultivo do Belo. As questões de ordem estética afins do usufruto do público - muito para além das obras expostas e dos cuidados de preparação, a montante do espectáculo único que toda a exposição constitui - ficam decisivamente comprometidas se o espaço onde tudo isto acontece não estiver dotado de inequívocas condições de acolhimento.
Há uns anos que se atingira, se não um ponto de ruptura, pelo menos uma situação limite, em que se jogava uma já evidente cartada de dignidade, na compatibilização da necessidade de mostrar com o receio de danificar as obras que, pura e simplesmente, só podem aparecer aos nossos olhos se estiverem asseguradas todas as condições.
Acompanhei as notícias que vieram a público, por altura da renegociação do protocolo entre a Câmara Municipal de Sintra e o Comendador Joe Berardo, documento que, muito avisadamente, compreenderia a concretização das obras que refiro. Também li, a propósito, excertos das intervenções de alguns senhores Vereadores que, tendo sido registadas na Acta da respectiva reunião do executivo, vão ficar para a História como manifesto da preparação cultural de tais intervenientes...
Seja como for, decorreu uma campanha de obras cuja qualidade se espera tivesse sido devidamente controlada, no sentido de que não venham a verificar-se os nefastos efeitos posteriores às primeiras obras de adaptação do edifício, há cerca de dez anos. Houve um inequívoco empenho e investimento por parte da autarquia que não o podia adiar por força do protocolo e pela necessidade de preservar o bem patrimonial que Norte Júnior traçou. Aqui estou a saudá-lo.
O Comendador Berardo, por seu turno, evidencia exuberantemente o interesse na continuidade da parceria. Assinalando esta nova fase de colkaboração, fez implantar duas monumentais peças de escultura de Fernando Botero e Pablo Atchugarry que, enriquecendo o acervo permanente da colecção afecta a Sintra, constituirão mais dois polos de atenção em pleno coração da sede do concelho.
Foi oportunamente inaugurada e ficará patente, até final de Abril, a exposição Arte Latino-americana na Colecção Berardo. Mais uma vez, justo é destacar o incansável labor da directora do Museu, Dra. Maria Nobre Franco e da sua equipa, na montagem de mais esta oferta cultural.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O Tratado e o comércio livreiro

Em dia de tanta Europa, em que o regozijo dos portugueses chegou ao ponto de franquearem as portas dos museus de Lisboa, dependentes do Instituto Português dos Museus - e, ousadia das ousadias, de promoverem o transporte gratuito na deficitária Carris e no Metro, assim se associando à assinatura do Tratado de Lisboa - mal ficaria se este humilíssimo blog apenas se ativesse à restritiva e comezinha matéria sintrense.
Como imaginam, o meu conhecimento das linhas e entrelinhas do Tratado de Lisboa, deve ser igual ao vosso e ao de noventa e nove vírgula noventa e oito por cento dos cidadãos europeus. Enfim, os zero vírgula dois deve chegar para abranger todos quantos, coitados, não têm outro remédio senão dominar um pouco mais do que os grandes chavões, ou seja, mais ou menos o que está ao alcance da restante imensa maioria.
Uma vez conversados acerca do Tratado e, em função da nossa manifesta e confessada ignorância, então, para além da humilde realidade da nossa querida terra sintrense, habitual objecto das nossas preocupações nestas Notas Diárias, que mais nos resta considerar em dia de tanto júbilo paneuropeu?
Pois então lhes direi: vamos hoje considerar, nem mais nem menos, do que a próxima atitude pública da inefável Ministra da Cultura do Governo que temos. Num canal da rádio pública, foi anunciado que, ao fim da tarde, Sua Excelência abrilhantará com a sua presença, a inauguração da cibernética Livraria Biblos, lá para os lados das Amoreiras, em Lisboa, pois claro, a nossa , a do sobredito Tratado.
Se, em tão assinalável data para o futuro da Europa, a Ministra da Cultura de Portugal dá este mote cultural, então estamos realmente muito mal. Reparem que esta é precisamente a mesma governante que se permitiu estar ausente, tanto da homenagem a Miguel Torga em Coimbra, como da inauguração da exposição que homenageia Saramago em Lanzarote.
Independentemente do maior ou menor apego afectivo que possamos sentir em relação a qualquer destes dois autores, não deixa é de ser inequívoco que são nomes grandes da Literatura Portuguesa contemporânea. Sua Excelência permitiu-se não honrar aquelas iniciativas culturais, através de uma presença que mais não constituiria do que a representação dos cidadãos portugueses mas, sintomaticamente, fá-lo-á por ocasião da abertura de uma loja.
Bem sei que é uma loja de livros. Comércio mais bonito não deve haver, bem sei. E se eu gosto de livrarias, de boas livrarias, onde me perco horas esquecidas. Mas é comércio, não esqueçam. E lembrem-se também que estou a articular esta actividade de negócio com uma atitude, por omissão, em relação a criadores de Literatura, de Arte que a livraria venderá...
Não é de ficar perplexo? Então, Sua Excelência, em data tão simbólica para o futuro da Europa, dá o flanco, através deste sinal tão comercial? Vendo bem as coisas, a perplexidade não é, mesmo nada, para aqui chamada. Sua Excelência, aliás, tem-nos habituado a bem mais nefastas atitudes como, por exemplo, a de ter patrocinado o fim da Festa da Música no CCB. Mas, respondam-me com toda a franqueza se, das bandas da Ajuda, estavam à espera de algo, mais substancialmente cultural...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007


O caso do pilar inestético


Há cerca de duas semanas, falava eu com uma técnica da Câmara Municipal de Sintra acerca da necessidade de dotar determinada via com dispositivos dissuasores do estacionamento de viaturas em cima dos passeios. Colocando a possibilidade de aplicar certo modelo de pilares metálicos, fui confrontado com a impossibilidade de concretização devido a questões de segurança.

Pois, muito bem, em caso de incêndio, por exemplo, as viaturas de ataque ao sinistro poderiam ter de recorrer à utilização dos passeios para assegurarem o acesso ao local onde seria preciso actuar. Todavia, a instalação dos pilares em questão impediria tal recurso. Nestes termos, aconselha a prudência que sejam estudados meios de dissuasão que, em situação limite de desastre, não constituam obstáculo.

Seguidamente, ainda com o mesmo propósito, apresentava eu a alternativa dos pilares longitudinais que, normalmente pintados de amarelo, marcam eficaz presença em certas ruas de Sintra. Colocados a estratégica distância uns dos outros, constituem solução muito acessível, se comparada com a dos pilares cilíndricos que, no entanto, são incomparavelmente mais dispendiosos.

De baixa altura, conseguem dissuadir qualquer condutor de veículo ligeiro ao seu assalto mas, por outro lado, são facilmente transponíveis por um carro de bombeiros, cujas características permitem tal manobra, sem afectar qualquer componente mecânica. Aparentemente, ali estava a solução ideal, perfeitamente adequada.

Isso era o que eu julgava. Bem podia eu acrescentar que, inclusive, é algo que tenho visto um pouco por todo o lado, tanto em Portugal como no estrangeiro, que a referida técnica se mostraria irredutível. Mas, então, por que motivo? Tão somente, por uma questão de estética. São feios, percebem? Baratos, praticamente inócuos, eficazes, sim senhor, mas declaradamente feios.

Bem, uma lástima que a senhora alvitrava poder resolver através da instalação de floreiras, cujo volume, tanto quanto sou levado a concluir, não é nada compatível com as invocadas razões de segurança que, lembrem-se, não podem dificultar o recurso às expeditas medidas que mencionei...

Não há dúvida que, sendo caricato, não chega a constituir problema intransponível. Não deixa é de revelar uma atitude técnica que dá que pensar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Heliodoro Salgado,
que remédio?

No artigo precedente, acerca do assunto que o título prenuncia, em Notas Diárias do passado dia 7, não especifiquei - e devia tê-lo feito - que a solução da abertura ao trânsito da Heliodoro Salgado, apenas num sentido, poderia funcionar com a ressalva dos condicionamentos habituais às vias que compatibilizam uma forte componente pedonal com a circulação de veículos.
Em primeiro lugar, a hipótese de, novamente, trazer o eléctrico àquela via, vindo das praias a caminho da estação dos comboios e Vila Velha, poderia constituir inquestionável mais-valia de animação e, em simultâneo, obra tão importante de recuperação do património de Sintra como as de outros bens que tanto prezamos. As memórias que, ainda hoje, temos coladas aos deslumbrados olhos dos meninos que fomos há mais de cinquenta anos, dão-nos razões de sobra para insistir nesta nota.
Espero bem que não conotem esta vertente daquilo que denominei como recuperação de património de Sintra com o patológico saudosismo de caquéctico senil... Aliás, são tantos e bem conhecidos os casos em que, por esse mundo fora, vigora esta solução que me dispenso de maior detença. O que não devo é deixar de continuar a explicitar como a circulação do eléctrico joga com um cenário complementar.
Assim sendo, prossigamos. Em simultâneo, tendo em consideração a viabilidade desta proposta que continuo a considerar muito aliciante, naturalmente se me impôs a articulação com outra medida pertinente e civilizada, qual seja a possibilidade de ali condicionar, apenas num sentido, o trânsito de determinados veículos ligeiros, normalmente autorizados nas tais situações alheias mas congéneres e afins.
Como será de prever, a exequibilidade desta proposta só se compatibiliza com a estrita observância de regras que os cidadãos estão longe de terem interiorizado. Restrições absolutamente determinantes para o sucesso de tal iniciativa como, por exemplo, a concretização de um rígido regime horário de cargas e descargas ou são assumidas para cumprir e fazer cumprir ou, então, nada mais suscitarão do que o agravamento do actual statu quo.
Aliás, a propósito de situação actual, continuo a não compreender como possa defender-se a manutenção de um cenário que, na Heliodoro Salgado, se apresenta totalmente à revelia de tudo quanto constitui a padronizada oferta de qualquer zona pedonal. Os veículos ligeiros particulares, os de aluguer, os ligeiros e alguns pesados de carga, circulam a qualquer hora, a insegurança é o que se sabe, a animação inexistente.
Se alguém considerar que estarei enganado, faça o favor de me indicar onde ali existe a possibilidade do usufruto desta área da Estefânea em que estética, segurança, animação, ócio e negócio andem de braço dado, para satisfação dos cidadãos que a procuram, antecipada e absolutamente certos de que não vão deparar com desconforto, incomodidade e fealdade...
Será que, por osmose, com as freguesias do cimento, estarão a instalar-se, bem no coração de Sintra, as soluções que nem esses subúrbios betonizados do concelho deveriam admitir? Sim, que a actual Heliodoro Salgado não passa disso mesmo, já que se transformou num desengraçado troço urbano, tão desqualificado como qualquer área clandestina ou a sair da situação de clandestinidade.
Continuo a pensar que a Heliodoro Salgado é o lugar geométrico da precipitação de decisores políticos inábeis, impreparados, pouco informados, afectados de provincianismo bacoco que ali deixaram a inequívoca marca de uma incapacidade que só precisava de mais aquele atestado. Porque não estiveram à altura das circunstâncias, ali está o resultado, bem patente, com todas as consequências adjacentes, já aludidas no texto anterior.
Como advogo soluções adquiridas a partir da análise sistémica, convirá reafirmar que as ideias afins de soluções para a Heliodoro Salgado são comuns e afins das que, inapelavelmente, devem ser equacionadas para toda a área urbana compreendida pela tríade Estefânea, Vila Velha e São Pedro. Se assim não for pensado, apenas resultarão medidas desgarradas, desarticuladas, alheias à perspectiva de actuação integrada que tudo isto pressupõe.
Naturalmente que, a propósito, convirá ter em consideração tudo quanto temos tido oportunidade de avançar para debate, em relação ao problema dos transportes particulares e colectivos, ao estacionamento, ao acesso aos lugares onde estão implantados bens patrimoniais naturais e edificados, enfim, um conjunto de ideias que, não constituindo a mínima novidade, não
têm feito parte da preocupação da edilidade nem dos deputados municipais que é suposto controlarem o exercício daquela.
Para terminar estas duas Notas Diárias sobre a Heliodoro Salgado, muito gostaria de propor um franco debate de ideias, por exemplo, no âmbito de um Círculo de Estudos sobre a questão, cujos resultado pudessem ser entregues à autarquia como contributo dos cidadãos. Bem sei que é coisa nada habitual entre nós mas, tendo em mente que as soluções dos países nórdicos tanto são do agrado geral, então avenham-se com esta do Círculo, tão comum na Suécia. O problema é que exige disponibilidade para o estudo, muita reunião, trabalho sistemático e disciplinado. Se estiverem para isso, inscrevam-se neste blogue.
Os contributos dos comentaristas de serviço têm sido preciosos. A propósito deste tema, permitam que, pela coincidência de opiniões, destaque o que escreveu Spirale. Como compreenderão, depois de acederem à sua mensagem, foi preciso muito atrvimento da minha parte para acrescentar os parágrafos que acabam de ler...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O Blogue em balanço


Foi em 10 de Janeiro deste ano prestes a terminar que decidi pôr a funcionar um blogue com as características que os visitantes e comentaristas se habituaram. No entanto, desse momento inicial, apenas subsiste aquilo que poderá considerar-se a carta de intenções relativa à linha editorial das mensagens que tencionava publicar.


E nada mais dei à estampa. Aquele texto, que intitulei Quase um manifesto, foi ficando suspenso no tempo, para introduzir, já em 12 de Setembro, as Notas Diárias cuja periodicidade deu origem a um conjunto de sessenta e cinco artigos, que contam com a fidelização de muitos leitores, num total de quase quatro mil visitas, ultrapassando as minhas expectativas mais optimistas.

É lamentável que, hoje em dia, pelo simples facto de protestar, o cidadão se sujeita a incómodos que pouco diferem do que se passa nos regimes não democraticos. Assim sendo, numa conjuntura que não é mesmo nada propícia à intervenção cívica, também não deixa de ser significativo que o referido total das mensagens publicadas tenha recebido quase duas centenas de comentários. Alguns desses textos de retorno são de tal qualidade, tão interessantes, que acalentam a minha disposição de prosseguir.

A título de exemplo do que acabo de afirmar, acerca da qualidade dos comentários, permito-me chamar a atenção para o teor do texto (assinado por Saloio), subsequente ao meu do passado dia 7, subordinado ao título Heliodoro Salgado, remédio qb. Por me parecer que merece maior visibilidade, amanhã darei continuidade à abordagem do assunto como mensagem principal.