[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 11 de outubro de 2012



Contra o efémero

[]Texto publicado no facebook em 5 de Outubro]


Ontem, pela voz de Francisco Assis, durante a discussão das moções de censura apresentadas por PCP e BE, hoje, nas palavras de António Costa, nas comemorações oficiais do 5 de Outubro, o Partido Socialista teve representantes à altura do momento que atravessamos. Finalmente!

Depois de dias e dias da mais que coleante e titubeante atitude de António José Seguro – a quem, como há anos venho dizendo e escrevendo, não se reconhece qualquer ideia digna de registo, o que, em abono da verdade, o coloca exactamente na mesma plataforma que Pedro Passos Coelho – depois das costumeiras reacções de circunstância às propostas de um governo perfeitamente despudorado, em que Seguro nada de substancial se afirmou para além do óbvio, houve quem viesse salvar a honra do convento.

Partindo do princípio de que escrevo para gente atenta, que escutou e ou leu as palavras a que me refiro, dispenso-me de os citar. Aliás, o mesmo faço em relação a Manuel Alegre cujo testemunho acabo de ouvir no âmbito dos trabalhos do Congresso Democrático das Alternativas, que também hoje decorre na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Longe de se confinarem aos limites do partido a que pertencem, são vozes às quais não é difícil reconhecer autoridade quando se pronunciam por um Socialismo que vem de longe e se projecta no futuro.

Em 17 de Junho de 2011, escrevia eu, a terminar um artigo oportunamente publicado:

“(…)Entretanto, numa estratégica e sábia reserva, as boas cabeças esperam pelo momento de aparecerem. Compreensivelmente, trata-se de uma elite que recusa partilhar o poder com os folclóricos pacóvios que vão proliferando como cogumelos. Ora bem, é neste túnel de desmedida e negra ignorância que, por enquanto, vamos esperando a luz que, fatalmente, surgirá. Por enquanto, ainda é o tempo dos Seguro e Passos Coelho. Obviamente, pois que sejam eleitos! Um dia destes, obviamente, serão demitidos…”

Embora pareça que o país não pode esperar nem mais um minuto…
 
 


A propósito

Depois da comunicação de Vitor Gaspar nos termos da qual ele próprio se referiu a um enorme aumento de impostos, também ouvi os comentários de José Gomes Ferreira na SIC e entendo mal como, de algum modo, ele acaba por acolher estas medidas sem acrimónia.

Tudo isto é indecoroso. No entanto, paulatinamente, estes Moedas, Passos Coelho, Gaspar, Borges & Cª, vão abrindo o caminho para que, no futuro, seja qual for a situação, o terreno esteja tão minado que, fundamentalmente, os baixos custos do trabalho, o medo institucionalizado, escancarem a porta a toda a perversidade decorrente do capitalismo de casino descontrolado.

Sabemos dos incompetentes que nos trouxeram a este descalabro e, passados poucos meses da bancarrota pela qual são responsáveis, também confirmámos aquilo que já prevíamos, portanto, que o actual executivo é incapaz de remediar situação tão complexa.

No contexto destes sucessivos destemperos, alguém alvitra no sentido de que o"caso" da TSU foi criado precisamente para dar problemas, com o objectivo de suscitar a ideia de haver um recuo por parte do Governo, para que este pudesse fazer passar medidas muito mais gravosas.

Não é que isto não nos tenha passado pela cabeça. Porém, é coisa demasiado sofisticada para ter sido congeminada pelo primarismo destes governantes de pacotilha. É perfeitamente plausível que, perante hipóteses tão inusitadas, como a do caso TSU, pretendamos encontrar uma justificação inteligível e, inclusive, não recuemos perante algo que se revela quase ou mesmo maquiavélico. Mas a coisa não colhe. Estes tipos são muito básicos, muito rascas, embora extremamente competentes na condução do seu programa de redução, a todo o transe, dos custos do trabalho.


Mozart,
Sinfonia no. 25


Depois de um interregno, que se prolonga desde o dia 20 do passado mês de Setembro, retomo a série total das sinfonias de Mozart , hoje com a Sinfonia em Sol menor, KV 183/173dB, acabada de compor em 5 de Outubro de
1773, apenas dois depois após a precedente sinfonia Nº 24, facto que não está absolutamente comprovado, e pouco tempo depois do sucesso obtido pela sua ópera “Lucio Silla”.

Chamo a vossa atenção logo para os primeiros acordes já que foi esta a peça escolhida por Milos Forman para início do “Amadeus”, filme que, como sabem, de modo algum, corresponde a uma biografia do compositor.

Mozart escreveu duas sinfonias em Sol menor, ou seja, esta – também conhecida como a ‘Sol menor Pequena’ e, muito mais tarde, em 1788, a famosíssima Nº 40, KV 550. Preciso é ter em consideração que a maioria das sinfonias do século dezoito é composta em tom maior, aparentemente, adequando-se muito mais à optimística grandeza e pomposa solenidade do que aos matizes mais escuros e sentimentos mais apaixonados afins das obras em Sol menor. É um pouco nesta linha que se move uma corrente da musicologia pretendendo ver nestas peças a marca de um pré ou proto-romantismo, coincidente com o movimento Sturm und Drang.

Em contraste com as sinfonias da década precedente, estas obras têm em comum um uso muito mais frequente do contraponto, súbitos saltos temáticos, maior utilização das síncopes – ou seja o recurso ao padrão rítmico em que um som é articulado na parte fraca do tempo ou compasso, prolongando-se pela parte forte seguinte – finais mais prolongados e ocorrência muito mais frequente de segmentos em uníssono.

Ainda a propósito, convirá ter presente que, muito antes de ter composto esta Sinfonia KV. 183, o jovem Mozart conhecia todas estas particularidades. Lembremos o que, já a propósito desta série de artigos introdutórios às sinfonias de Mozart, eu próprio referi quanto à KV. 118, datada de dois anos antes. E, ainda mais extraordinário, se recuarmos ao período da infância, nomeadamente, a 1764 (nos seus oito anos de idade, durante a estada em Londres), quando esboçou num caderninho de notas uma peça para tecla – precisamente, em Sol menor, KV 15 - em estilo quase orquestral, que já captava o carácter tempestuoso que tem sido erroneamente proclamado como original de um período posterior.

A obra desenvolve-se de acordo com a estrutura clássica de quatro andamentos ,1. Allegro con brio, 4/4 em Sol menor, 2. Andante, 2/4 em Mi bemol Maior, 3. Menuetto /Trio, 3/4 em Sol menor e Trio em Sol Maior e, finalmente, 4. Allegro, 4/4 em Sol menor. Ainda de assinalar que haverá influências da Sinfonia No. 39 de Joseph Haydn, que também obedece à tonalidade de Sol menor.

Mais uma magnífica interpretação, desta vez da Filarmónica de Viena, sob a direcção de Leonard Bernstein que, enfim, até nem é um notável mozartiano. Não disponho da data da gravação mas, apesar de já ter uns bons anos, reconheço uma série de músicos, como o omnipresente clarinetista Peter Schmidl, logo no inicial Allegro com brio.

Boa audição!
 
 
 
 
São Tiago,
uma carta contundente
 
[Texto publicado no facebook em 30 de Setembro]

Entre outras fontes essenciais, o meu catolicismo cristão radica em textos absolutamente estruturantes, não só da Fé que professo, mas também da intervenção cívica que reivindico e da cidadania que, devo confessar, gostaria de partilhar, com muito mais evidência pública e notória, com os cristãos católicos da minha comunidade. Provavelmente, outros fossem os pastores e outra, muito diferente, seria a prática quotidiana de tantos cidadãos, afinal, ávidos da palavra que é preciso animar, isto é, fazendo brilhar o ânimo que contém.

Vem isto a propósito da epístola da Missa de hoje, extraída do Livro de Tiago, Cap. 5 [1-6]. Num momento tão especialmente difícil da vida comunitária, em que o Governo do Estado se escusa e recusa ir buscar aos ricos e poderosos a quota parte que lhes compete para o esforço comum, eis que São Tiago profere algumas das palavras mais certeiras contra a atitude dos acima referidos, que se conduzem através da olímpica ignorância dos direitos dos mais desfavorecidos.

São palavras que qualquer revolucionário, a começar pelo próprio Jesus de Nazaré, subscreveu e continuará a assinar em todos os tempos e lugares onde for justo e oportuno. Porém, ontem, na Missa vespertina da nossa comunidade, o celebrante passou por este texto como cão por vinha vindimada. Com uma oportunidade destas para alertar consciências em patológico letargo, será que Sua Reverência assim terá decidido porque Arménio Carlos, em pleno Terreiro do Paço, já lhe teria feito o favor?

Bem, o melhor é acederem ao texto que passo a transcrever. Não tenho a menor dúvida de que, enquanto inevitáveis herdeiros da cultura judaico cristã que é a nossa, incluindo agnósticos e ateus, não deixarão de concluír como, com estas palavras, São Tiago nos fornece um tão grande motivo de orgulho.

“1.Agora, vós, ó ricos, chorai e lamentai-vos, por causa das desgraças que vão cair sobre vós.
2.As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão roídas pela traça.
3.O vosso ouro e a vossa prata estão enferrujados; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e devorará as vossas carnes como fogo. Acumulastes tesouros no fim dos tempos. 4.Fraudamente, privastes do salário trabalhadores que ceifaram os vossos campos. O seu salário clama e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhordo Universo.
5.Levastes na terra uma vida regalada e libertina, cevastes os vossos corações para o dia da matança.
6.Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste.(…)”

Foi por lembrarem verdades como esta e outras dos Evangelhos, que, por exemplo, nos anos 50 e 60, os Padres Adriano Botelho e José da Felicidade foram perseguidos pelo regime e pela própria Igreja. Conheci-os pessoalmente, devo-lhes, desde criança e jovem, uma perspectiva do entendimento da Vida que tento honrar. Mas, meu Deus, por vezes, tanto retrocesso!...
 
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012



Uma questão de tempo


[texto publicado hoje no facebook]


Tenho a perfeita noção de que, da minha parte, é um atrevimento propor a audição de um documento com as características deste, no efémero, rápido, descartável e superficial suporte como é o facebook. Neste caso, fundamentalmente, coloca-se uma questão de tempo, de dispor de tempo para aceder à obra de Arte.

Para ouvir a Missa de Santa Cecilia de Haydn, é preciso contar com cerca de uma hora e um quarto. Muito poucos são os privilegiados que podem proporcionar-se este tempo. Mas não
há duas hipóteses, o deleite é possível mas exigente.

E o Tempo, categoria essencial, o tempo, ingrediente essencial da Música, o indefinível tempo, que exige uma gestão tão sofisticada, é um bem precioso, o mais caro de todos os bens. De facto, não é para todos.

Mas, para os que puderem dar-se a este autêntico luxo, aí tendes, em interpretação de grande sabedoria e gabarito, uma obra soleníssima, de de superior espiritualidade, que, sem dúvida alguma, introduzirá notas muito especiais no vosso dia.

Boa audição!
 


 

 


[Texto publicado na edição de 21 de Setembro de 2012 do 'Jornal de Sintra']


Luta contínua


Apenas o facto de ter estado envolvido, pessoal e directamente, numa série de atitudes de denúncia de situações cujo contexto impunha uma inadiável e inquestionável intervenção cívica, impede que vá esquecendo alguns eventos que, para a maioria dos sintrenses, naturalmente, já fazem parte de um quase longínquo e esfumado passado.

Com o objectivo de ilustrar o que me ocorre partilhar hoje convosco, basta recorrer a lembranças muito vivas, por exemplo, à da luta pela preservação do património que a Volta do Duche representa para munícipes e visitantes, de altíssimo valor real e simbólico, prestes a ser totalmente desvirtuado e destruído, acabando por suscitar uma significativa movimentação cívica, cujo sucesso muito dependeu do modo sistemático como a comunicação social local e nacional cobriu o assunto em altura de campanha eleitoral autárquica.

E já lá vai uma dúzia de anos, desde o momento em que, a menos de um mês das eleições, era preciso mobilizar os cidadãos, através de uma estratégia de comunicação que, não dispondo de quaisquer meios materiais para o efeito, não só conseguiu que os media se interessassem, mas também foi ao encontro de intelectuais de todos os domínios e quadrantes, de professores universitários, de gente das de letras e das artes que, de facto, revelariam uma cumplicidade imprescindível à demonstração de que se estava na iminência de um autêntico crime de lesa cultura.

Muita gente veio para a rua demonstrar como estava contra um projecto de parque de estacionamento tão contundente. Não que não se impusesse resolver o problema do estacionamento das viaturas cujos condutores demandam o centro histórico em pleno coração da sede do concelho. Claro que sim, mas não de acordo com aquele projecto, ainda que subscrito pelo saudoso Fernando Távora, um dos mais notáveis arquitectos portugueses.

E, sem qualquer margem para dúvida, através da sua participação cívica num protesto generalizado, os munícipes demonstravam a todos e, em particular, a quem se candidatava, como era importante estar do seu lado. Eleitores e potenciais eleitos conheciam-se ou reconheceram-se através da acção, numa página de democracia vivida, que nunca será demais recordar. E, nos termos do implícito contrato que ali se jogava, os eleitos cumpriram a promessa, não levando avante um processo que até já estava em adiantada fase de compromissos.

No entanto, de sinal oposto ao deste êxito inequívoco, poderia alinhar uma série de situações em que, malgrado idêntico empenho pessoal, as coisas se passaram num ritmo muito mais lento, como no caso da Parques de Sintra Monte da Lua. Desde o início da sua instalação, quantos anos de contínuo escrutínio, apontando omissões e decisões controversas, foram necessários até à garantia da bonança trazida pela actual administração?

E o peso dos insucessos, sempre na sequência de mais ou menos longos percursos de sistemática actuação de denúncia, de casos absolutamente paradigmáticos e que jamais deveriam ter acontecido? Como a memória é curta, permitam que apenas lembre Seteais, desde o episódio do encerramento do terreiro à destruição do tanque e sua transformação em prosaica casa de máquinas e, do outro lado da estrada, na Quinta do Vale dos Anjos, como se constrói uma grande vivenda, a cota mais alta do que o edifício classificado a umas poucas dezenas de metros.

Pois é, meus amigos, perante a cupidez do individualismo à solta, nem sempre vencem o geral interesse da comunidade nem os superiores valores culturais que urge defender. Assim sendo, quem se envolve nestas lutas – sempre procurando todas as cumplicidades possíveis e desejáveis, posto que se impõe dar o braço a muita gente – também tem de contar com a força da barbárie.




Um merecido reconhecimento, por ocasião da entrega da medalha de ouro do Município de Sintra, a 28 de Setembro na Regaleira

 http://reinodeklingsor.blogspot.pt/2012/09/tributo-joao-de-oliveira-cachado.html


Escolher bem

[texto publicado no facebook em 20 de Setembro]


Mesmo nada tendo a ver com a vida do partido da São Caetano à Lapa, como vivemos num Estado Democrático de Direito, sempre que há eleições legislativas, é o Presidente do PSD que teremos de aceitar como Primeiro-Ministro se a maioria dos votos apontar nesse sentido.

Ora bem, perante o descalabro da liderança de Pedro Passos Coelho, muito bom será – e já vai sendo tempo que assim aconteça – que os militantes do PSD aproveitem a oportunidade e percebam como é vital distinguir os reais méritos de quem se perfila como candidato à presidência do seu partido.

Se quaisquer dúvidas subsistissem, esta actual e tão grave crise em que estamos mergulhados, suscitada por tanta incompetência pessoal, em todos os domínios, vem demonstrar aos portugueses, em geral e aos militantes do PSD, em particular, que saber escolher um presidente de partido não é bem a mesma coisa que decidir por este ou aquele detergente.

Fez muito mal o PSD que teve oportunidade mas decidiu não considerar a hipótese de ser liderado por alguém com muito melhores créditos e evidente gabarito. Naturalmente, refiro-me a Paulo Rangel.
 

Conheci o professor João de Oliveira Cachado a 17 de Novembro de 2006, quando a ainda jovem Alagamares entendeu empreender uma campanha pelo restauro do então abandonado Chalé da Condessa d’Edla, no Parque da Pena. Técnico de educação e pedagogo, ligado anteriormente também à Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra, dele pudemos então escutar valiosas informações sobre o trabalho de campo já executado por essa escola em prol da reabilitação do local, e as suas ponderadas e fundamentadas palavras denotadoras dum vasto conhecimento das patologias e carências na recuperação da jóia da coroa, sangrando esfaqueada por supostos guardiães usurpadores e acossada pela incúria, para muitos provavelmente “romântica” até.
Desde essa noite, nasceu e consolidou-se um sentimento de respeito e consideração que nos aproximou civica e intelectualmente, tendo desde então mantido contactos regulares que se traduziram no acompanhamento das iniciativas tendentes ao restauro do chalé (e de que destaco, entre várias, a jornada cívica de 4 de Março de 2008, com a visita não autorizada de um punhado de sintrenses ao local ainda em ruínas, à cabeça dos quais se destacou Maria Almira Medina, foto abaixo) e posteriormente as denúncias em torno da usurpação dos jardins de Seteais durante o período de obras que afrontou a carta de aforamento de 1801, entre outras causas.
Presença frequente na imprensa local e na blogosfera, dele se ouviram e ouvem avisadas palavras e opiniões denunciando ou contestando a perpretação de atentados ou desatenções do poder em temas como o tanque de Seteais e as construções ali erigidas em zona sensível, a frustrada aquisição da Quinta do Relógio, o caravanismo selvagem no Rio do Porto, a falta de legendas explicativas em muitos dos locais simbólicos de Sintra ou a limpeza e falta de civismo que a consciência de todos convoca, como cidadãos, munícipes e sintrenses.
Melómano inveterado, entusiasta militante da Mozartwoche de Salzburgo, que nunca perde, perdendo-se no perfume inebriante da sua música, pedonal caminheiro dos “seis quilómetros à hora”, como a si próprio se define, Sintra habitou-se há muito à sua voz independente, construtiva, e acima de tudo, cidadã, duma estirpe que hoje vai rareando e nos relembra emocionados um José Alfredo ou um Francisco Costa, guerreiros da pena e príncipes da palavra, D.Fernando ou o Carvalho da Pena, os jardineiros de Deus.
No próximo dia 28 de Setembro, no momento em que a brisa da tarde e um derradeiro ressoar de cascos de cavalo quebrar o torpor e os silêncios da serra sagrada, regressando à vila, os homens, finitos e tangíveis, tratarão de se reconciliar exorcizando o Silêncio e saudando o Homem, momento em que a edilidade de Sintra irá homenageá-lo na Quinta da Regaleira, num merecido acto simbólico, felizmente certeiro, no espaço e no tempo. Escreveu ele de si próprio:
“Sem dar muito pelo tempo que passa, a verdade é que há cinquenta anos que celebro a música constantemente, em directo, em Portugal e por essa Europa fora, especialmente, em Salzburg onde, há muito tempo, fiquei preso, perfeitamente cativo. De facto, tenho o incrível privilégio e o invejável poder de marcar a agenda da minha vida a partir dos compromissos musicais.
(…)No meu caso pessoal, não será preciso fazer um grande esforço para perceber como o melómano se confunde com o diletante, com o viajante, e, em certos casos, com o de peregrino, como acontece com Salzburg (tão especialmente, no Inverno, por altura da Mozartwoche) ou Bayreuth, sempre em busca do instantâneo momento em que Arte, Beleza e a centelha do Divino acontecem”.
Como escreveu Oscar Wilde, “Chamamos Ética ao conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão a olhar. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém olha ou repara, chamamos Carácter”.
Parabéns e continue, João Cachado! Sintra ainda tem Memória!
Conheci o professor João de Oliveira Cachado a 17 de Novembro de 2006, quando a ainda jovem Alagamares entendeu empreender uma campanha pelo restauro do então abandonado Chalé da Condessa d’Edla, no Parque da Pena. Técnico de educação e pedagogo, ligado anteriormente também à Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra, dele pudemos então escutar valiosas informações sobre o trabalho de campo já executado por essa escola em prol da reabilitação do local, e as suas ponderadas e fundamentadas palavras denotadoras dum vasto conhecimento das patologias e carências na recuperação da jóia da coroa, sangrando esfaqueada por supostos guardiães usurpadores e acossada pela incúria, para muitos provavelmente “romântica” até.
Desde essa noite, nasceu e consolidou-se um sentimento de respeito e consideração que nos aproximou civica e intelectualmente, tendo desde então mantido contactos regulares que se traduziram no acompanhamento das iniciativas tendentes ao restauro do chalé (e de que destaco, entre várias, a jornada cívica de 4 de Março de 2008, com a visita não autorizada de um punhado de sintrenses ao local ainda em ruínas, à cabeça dos quais se destacou Maria Almira Medina, foto abaixo) e posteriormente as denúncias em torno da usurpação dos jardins de Seteais durante o período de obras que afrontou a carta de aforamento de 1801, entre outras causas.
Presença frequente na imprensa local e na blogosfera, dele se ouviram e ouvem avisadas palavras e opiniões denunciando ou contestando a perpretação de atentados ou desatenções do poder em temas como o tanque de Seteais e as construções ali erigidas em zona sensível, a frustrada aquisição da Quinta do Relógio, o caravanismo selvagem no Rio do Porto, a falta de legendas explicativas em muitos dos locais simbólicos de Sintra ou a limpeza e falta de civismo que a consciência de todos convoca, como cidadãos, munícipes e sintrenses.
Melómano inveterado, entusiasta militante da Mozartwoche de Salzburgo, que nunca perde, perdendo-se no perfume inebriante da sua música, pedonal caminheiro dos “seis quilómetros à hora”, como a si próprio se define, Sintra habitou-se há muito à sua voz independente, construtiva, e acima de tudo, cidadã, duma estirpe que hoje vai rareando e nos relembra emocionados um José Alfredo ou um Francisco Costa, guerreiros da pena e príncipes da palavra, D.Fernando ou o Carvalho da Pena, os jardineiros de Deus.
No próximo dia 28 de Setembro, no momento em que a brisa da tarde e um derradeiro ressoar de cascos de cavalo quebrar o torpor e os silêncios da serra sagrada, regressando à vila, os homens, finitos e tangíveis, tratarão de se reconciliar exorcizando o Silêncio e saudando o Homem, momento em que a edilidade de Sintra irá homenageá-lo na Quinta da Regaleira, num merecido acto simbólico, felizmente certeiro, no espaço e no tempo. Escreveu ele de si próprio:
“Sem dar muito pelo tempo que passa, a verdade é que há cinquenta anos que celebro a música constantemente, em directo, em Portugal e por essa Europa fora, especialmente, em Salzburg onde, há muito tempo, fiquei preso, perfeitamente cativo. De facto, tenho o incrível privilégio e o invejável poder de marcar a agenda da minha vida a partir dos compromissos musicais.
(…)No meu caso pessoal, não será preciso fazer um grande esforço para perceber como o melómano se confunde com o diletante, com o viajante, e, em certos casos, com o de peregrino, como acontece com Salzburg (tão especialmente, no Inverno, por altura da Mozartwoche) ou Bayreuth, sempre em busca do instantâneo momento em que Arte, Beleza e a centelha do Divino acontecem”.
Como escreveu Oscar Wilde, “Chamamos Ética ao conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão a olhar. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém olha ou repara, chamamos Carácter”.
Parabéns e continue, João Cachado! Sintra ainda tem Memória!
 

terça-feira, 25 de setembro de 2012




[Texto publicado no 'Jornal de Sintra' em 14 de Setembro de 2012]

12/13, novo ano lectivo


Sob a aparência da regularidade de funcionamento, o Sistema Educativo fechou o ano lectivo anterior, e fervilhando de actividade durante os «meses de defeso» em que as aulas estão suspensas, foi concretizando as últimas operações preparatórias do recomeço da actividade lectiva. Entretanto, como sempre acontece, multiplicaram-se negociações sindicais e, em função dos recursos materiais cada vez mais escassos, as soluções encontradas são cada vez mais contundentes.

E aí estamos, no início de mais um ano lectivo, altura que, invariavelmente, costumamos relacionar com a maioria dos rituais de renovação cíclica, com todos os habituais e positivos sinais de esperança que acolhe e propicia, sempre constituindo momento de particular interesse, em função do muito significativo envolvimento de milhões de cidadãos e mobilização simultânea quer das famílias, pais e encarregados de educação, crianças e jovens estudantes, quer das escolas, professores e de todo o pessoal de apoio educativo.

1.Entre imensas, abordarei apenas três questões. No primeiro ciclo do básico, prosseguindo uma política extremamente controversa, concretizou-se o encerramento de mais de duzentas escolas. Sem entrar em detalhes, convém confirmar que, de modo algum, está provado que tal medida conduza a melhores rendimentos escolares. Só no que respeita à socialização, reparem que, obrigatoriamente, em idade muito precoce, as crianças são transportadas e mantidas, fora das suas pequenas comunidades de origem, durante dias inteiros, privando-se da proximidade da família e da vizinhança, numa altura das suas vidas em que tal factor é determinante e alicerce radical da sua personalidade.

2.Outro aspecto, igualmente nada pacífico, é o da introdução sistemática de momentos de avaliação externa, contribuindo para uma contraproducente hipervalorização das provas de exame e desnecessária perturbação. Tanto quanto consegui entender ao longo de todo o processo que resultou na indução desta solução, os seus objectivos gerais e específicos podem e devem alcançar-se através de outras medidas inerentes à pedagogia, à didáctica e à docimologia(1). A avaliação externa é inequivocamente indispensável mas, como em todos os domínios, sem exagero. Ridículo é, depois do mal feito, que o Ministro Crato se desdobre em declarações de desdramatização dos exames…

3.Muito problemático e sempre desafiante num país com as características do nosso, eis o caso do ensino profissional. Como sabem os meus habituais leitores, trata-se de tema que, por várias vezes, tenho trazido às páginas do Jornal de Sintra, em sucessivas e diferentes abordagens resultantes da minha actividade quer como Técnico Superior do Ministério da Educação quer como docente da Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra.

Parece que, finalmente, pretendendo que o ensino profissional abranja cerca de 50% das opções do Ensino secundário, o Governo teria acordado para esta fundamental vertente do Sistema educativo. No entanto, a forma lamentavelmente atabalhoada como o fez – uns dias mais tarde ainda exponencialmente agravada por uma carga punitiva relativa às vias vocacionais, mais precoces – acabou por gerar a maior confusão.

Por um lado, a ineficácia e a evidente incapacidade de comunicação dos actuais decisores políticos da 5 de Outubro, por outro, a pressa, a ligeireza e a proverbial impreparação dos trabalhadores da comunicação social, eis os ingredientes da mistura explosiva que põe em polvorosa a comunidade em geral, as famílias, os agentes educativos envolvidos e os alunos destinatários das medidas. Urge, de facto, que circule rápida e sistematicamente, toda a informação acerca destes cursos e que, neste contexto, complementarmente, os professores e os estudantes do 3º ciclo do básico possam visitar escolas profissionais, verificando como a opção é pertinente, exigente, eficaz, de grande empregabilidade e nunca vedando o acesso ao Ensino Superior.

A esperança, sempre

Neste início de ano lectivo, continuam a equacionar-se, e à procura de melhores soluções, aspectos importantíssimos como os dos recursos materiais e humanos afectos à designada Escola Inclusa, ao ensino e a aprendizagem dos alunos com necessidades educativas especiais, às específicas necessidades dos alunos provenientes de minorias étnicas, às áreas de enriquecimento curricular e o da lamentável ausência da Música como disciplina curricular dos Ensinos Básico e Secundário. Paralelamente, verificou-se o aumento do número de alunos por turma, a dispensa de um impressionante contingente de professores contratados e, não menos importante, que o Sistema Educativo está a dificultar o acesso às acções de formação do pessoal de apoio educativo.

Cumpre finalizar, não deixando de sublinhar que tudo isto acontece num quadro de referência em que, por via de um criticável economicismo, o enquadramento laboral se agigantou, à escala dos designados mega agrupamentos, onde a participação cívica e a democracia na escola são, cada vez mais, letra morta. Preocupante? Sem dúvida! Todavia, em cada ano que se inicia, a esperança renovada. Assim o determina o olhar expectante da criança que, ainda receosa, passa o portão da escola pela primeira vez.

(1) Docimologia, do grego dokimé, teste. É o estudo sistemático dos exames, em particular do sistema de atribuição de notas e dos comportamentos dos examinadores e examinados.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]


Mas que xaropada!


[texto publicado no facebook em 16 de Setembro]


Aparentemente, nunca como agora, as práticas médicas e a situação económico-financeira do país foram tratadas, com tamanha afinidade, nos media portugueses.

Com toda a franqueza, acabou-se-me a pachorra para suportar mais comparações, abrir as meninges a tantas metáforas e articular não menor cópia de tão sofisticadas alegorias em catadupa.

É de tal modo avassaladora e prolixa a originalidade de alguns analistas cá da praça que, às tantas, os xaropes colam-se às mais-valias, os antipiréticos acabam a desalavancar os juros da dívida soberana e os supositórios explodem nas emissões de obrigações...

Por favor, tenham dó!