Aos bocados, vai caindo…
Ontem, ao princípio da tarde, em plena Heliodoro Salgado, caiu um bocado do revestimento da fachada do prédio onde está instalada a Farmácia Simões. Não façam como eu que, inicialmente, induzido em erro, julgava tratar-se da caliça superficial. Pois, não senhor, foi mesmo o reboco, com uma boa espessura, que se destacou da altura de um primeiro andar, acabando por atingir, felizmente de raspão, uma senhora que entrava ou saía do estabelecimento.
Se bem repararem, o edifício em questão, aparentemente, até nem apresenta mau aspecto. Está muito longe, por exemplo, da imagem francamente degradante daquele renque de imóveis que, uns metros mais acima, entre os números dezasseis e trinta e tal, escancara as habituais misérias de Sintra. Ou, para que não haja dúvidas, a confirmação do inacreditável aspecto do prédio cor de rosa e da garagem, cujos donos se devem ter convencido que aquilo é tão bom como um poço de petróleo…
Ora bem, o número vinte e seis até nem está mau de todo, uma vez que foi reparado há uns cinco anos. Mas, como vinha dando preocupantes sinais, a Dra. Maria de Lourdes M. C. Simplício dos Santos, estimável e previdente senhora, há semanas tinha avisado os proprietários do imóvel para a eventualidade de vir a suceder algo de semelhante ao que acabou por acontecer. Ignoro se alguma previdência terá sido tomada mas, enfim, pelo que a casa costuma gastar, é possível imaginar o que terá sucedido. Ou foi para a pasta das dúvidas ou para o rol dos esquecidos…
Quando passei pela rua, para além dos basbaques opinantes, naturalmente sempre muito prolixos e eloquentes, também evoluíam agentes da Polícia de Segurança Pública, da Polícia Municipal e pessoal da Protecção Civil, entrando ou saindo das respectivas viaturas, não em grande actividade mas, flagrantemente, em manifesta agitação. Como sempre, depois das ocorrências, a autoridade policial, normalmente, aparece. O que dava um certo jeito é que, antes dos incidentes, portanto, sempre e quotidianamente, se fizesse sentir a ordem e a autoridade que prevalecem nas sociedades civilizadas…
Desconheço se a senhora vítima do acidente de ontem, apresentará queixa a quem de direito para se ressarcir das consequências mas, perfeitamente ao corrente da vigente cultura de desleixo cá do burgo, prevejo que, tanto os responsáveis da Câmara como os donos do prédio, devem estar «preocupadíssimos» com o sucedido… Em casos que tais, costuma dizer o povo que é para o lado que dormem melhor…E, na realidade, imaginará alguém que tal gente, alguma vez, sofreu de insónia?
Entretanto, muito para além deste incidente, que apenas constitui mais um sintoma de um quadro bem conhecido, tudo nos autoriza a que abramos as hastes do compasso. É mais do que evidente que Sintra cai aos bocados. Vai caindo. Hoje, um bocadinho, na Heliodoro Salgado, amanhã ou depois na Vila Velha. E há sempre vítimas. Nós! Sim, todos nós e não só aqueles que, por vezes, vão parar ao hospital.
Por outro lado, quando não cai, Sintra continua suja e fede. Não merece, pois não, mas a sede do concelho é mais descuidada que os subúrbios das freguesias que, de Sintra, têm tanto como Santa Iria de Azóia ou Paio Pires… Linda mas indefesa Sintra sofre tratos de polé, às mãos de quem não pode, de quem não sabe acudir-lhe, de quem não sonha sequer o mal que perpetua, numa arrepiante perversidade da Democracia, ao cadenciado ritmo dos ciclos e calendários eleitorais.
[sempre de acordo com a antiga ortografia]
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Afinal,
o programa continua...
Não voltaria à questão focada no último texto não se tivesse dado o caso, precisamente hoje, ao atravessar novamente a Correnteza, de ter escutado o comentário de dois sujeitos a propósito da sujidade do local. Não me contive e meti conversa. De visita a Cascais e Sintra, dois amigos, homens de meia idade, oriundos da Régua, deram conta da sua impressão sobre a falta de cuidado que encontraram nesta terra onde ambos já não vinham há mais de vinte anos.
Dizia um deles que, em Portugal, infelizmente, está habituado a cenas destas um pouco por todo o lado. Mas não estava à espera de deparar com tanto desleixo em Sintra onde, por ser local classificado pela Unesco, seria de esperar mais atenção. Estes dois homens, que iam juntar-se ao resto da família para almoço em Cascais, estão ainda a trabalhar em Inglaterra, em Coventry. Habituaram-se ao asseio e, diziam, têm dificuldade em aceitar que, no seu país, num local tão bonito, se continue a abandalhar desta maneira. E lá nos despedimos com palavras de circunstância já que não era o momento para falar daquilo que, agora, passo a fazer convosco.
Posso confirmar, porque todos os dias palmilho quilómetros por estes caminhos, que há diligentes cantoneiros de limpeza a trabalhar. Vejo-os a varrer. É verdade. Mas, santo Deus, não basta. Urge lavar, utilizando os meios mais expeditos. Estou farto de chamar a atenção para a situação. Há muito tempo que o faço sem qualquer resultado. Se, na realidade, a Câmara delegou a competência da tarefa numa empresa municipal, não deixa de manter a responsabilidade pela manutenção da higiene pública.
Na zona em questão, pelo menos há uns quatro anos, a limpeza das ruas era assegurada, por subcontrato, a uma firma com sede em Lisboa. Em 2004, ao denunciar idêntica situação, nada me surpreendeu que tivesse esbarrado num muro de irresponsabilidade, protagonizado por entidades que, em cascata, descartavam as suas culpas no cartório. Ou seja, em primeiro lugar, a Câmara que remetia para a HPEM e, depois, a empresa municipal na tal adjudicatária.
Exemplar e elucidativo? Sem dúvida, tanto mais que, na sequência do triplo ricochete, a última entidade referida acusava-me de apenas pretender atingir a Câmara de Sintra, servindo-me da matéria em apreço como arma de arremesso… Passou-se comigo, a propósito de um artigo publicado no Jornal de Sintra em 26.11.04.
A verdade é que, actualmente, o quadro permanece. Há contentores a transbordar, lixo espalhado, por exemplo, em plena Heliodoro Salgado e, de vez em quando, junto à paroquial de São Martinho, é o que se sabe. São cenas indesmentíveis, perfeitamente inadmissíveis em qualquer lugar e, portanto, sem necessidade de invocar as particulares características de Sintra para justificar a intervenção a que temos direito.
De qualquer modo, sendo questão que, estou em crer, afectará a maioria dos sintrenses residentes nestes lugares, apenas uma lamentável mas compreensível resignação justificará que não sejam mais visíveis e audíveis os sintomas de descontentamento. Acontece que os fregueses e munícipes estão resignados, baixaram os braços perante tanto manifesto de incúria. Deixaram de acreditar em qualquer hipótese de mudança, entregando-se à desgraçada inevitabilidade do resultado de tanta incompetência e desinteresse.
E não me venham com o estafado argumento de que isto é descrença inconsequente, negativismo paralizante e não sei que mais. Basta que apareçam evidentes sinais de mudança para que deixemos de dizer e escrever coisas que tais. A menos que os habituais desleixados militantes estejam na expectativa de que, esgotados por tanta luta e denúncia, acabemos por fazer o jeitinho e passemos a usar os óculos cor de rosa com que os responsáveis (?!) mascaram a sua descarada insuficiência...
o programa continua...
Não voltaria à questão focada no último texto não se tivesse dado o caso, precisamente hoje, ao atravessar novamente a Correnteza, de ter escutado o comentário de dois sujeitos a propósito da sujidade do local. Não me contive e meti conversa. De visita a Cascais e Sintra, dois amigos, homens de meia idade, oriundos da Régua, deram conta da sua impressão sobre a falta de cuidado que encontraram nesta terra onde ambos já não vinham há mais de vinte anos.
Dizia um deles que, em Portugal, infelizmente, está habituado a cenas destas um pouco por todo o lado. Mas não estava à espera de deparar com tanto desleixo em Sintra onde, por ser local classificado pela Unesco, seria de esperar mais atenção. Estes dois homens, que iam juntar-se ao resto da família para almoço em Cascais, estão ainda a trabalhar em Inglaterra, em Coventry. Habituaram-se ao asseio e, diziam, têm dificuldade em aceitar que, no seu país, num local tão bonito, se continue a abandalhar desta maneira. E lá nos despedimos com palavras de circunstância já que não era o momento para falar daquilo que, agora, passo a fazer convosco.
Posso confirmar, porque todos os dias palmilho quilómetros por estes caminhos, que há diligentes cantoneiros de limpeza a trabalhar. Vejo-os a varrer. É verdade. Mas, santo Deus, não basta. Urge lavar, utilizando os meios mais expeditos. Estou farto de chamar a atenção para a situação. Há muito tempo que o faço sem qualquer resultado. Se, na realidade, a Câmara delegou a competência da tarefa numa empresa municipal, não deixa de manter a responsabilidade pela manutenção da higiene pública.
Na zona em questão, pelo menos há uns quatro anos, a limpeza das ruas era assegurada, por subcontrato, a uma firma com sede em Lisboa. Em 2004, ao denunciar idêntica situação, nada me surpreendeu que tivesse esbarrado num muro de irresponsabilidade, protagonizado por entidades que, em cascata, descartavam as suas culpas no cartório. Ou seja, em primeiro lugar, a Câmara que remetia para a HPEM e, depois, a empresa municipal na tal adjudicatária.
Exemplar e elucidativo? Sem dúvida, tanto mais que, na sequência do triplo ricochete, a última entidade referida acusava-me de apenas pretender atingir a Câmara de Sintra, servindo-me da matéria em apreço como arma de arremesso… Passou-se comigo, a propósito de um artigo publicado no Jornal de Sintra em 26.11.04.
A verdade é que, actualmente, o quadro permanece. Há contentores a transbordar, lixo espalhado, por exemplo, em plena Heliodoro Salgado e, de vez em quando, junto à paroquial de São Martinho, é o que se sabe. São cenas indesmentíveis, perfeitamente inadmissíveis em qualquer lugar e, portanto, sem necessidade de invocar as particulares características de Sintra para justificar a intervenção a que temos direito.
De qualquer modo, sendo questão que, estou em crer, afectará a maioria dos sintrenses residentes nestes lugares, apenas uma lamentável mas compreensível resignação justificará que não sejam mais visíveis e audíveis os sintomas de descontentamento. Acontece que os fregueses e munícipes estão resignados, baixaram os braços perante tanto manifesto de incúria. Deixaram de acreditar em qualquer hipótese de mudança, entregando-se à desgraçada inevitabilidade do resultado de tanta incompetência e desinteresse.
E não me venham com o estafado argumento de que isto é descrença inconsequente, negativismo paralizante e não sei que mais. Basta que apareçam evidentes sinais de mudança para que deixemos de dizer e escrever coisas que tais. A menos que os habituais desleixados militantes estejam na expectativa de que, esgotados por tanta luta e denúncia, acabemos por fazer o jeitinho e passemos a usar os óculos cor de rosa com que os responsáveis (?!) mascaram a sua descarada insuficiência...
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
O costume…
4 de Setembro
Estas palavras só são especialmente partilháveis por quem anda a pé. Bastou chuviscar para pôr a descoberto mais alguma da sujidade que vai pelas ruas da sede do concelho. Na Correnteza, onde também se anda ao pontapé às levantadas pedras da calçada, a situação ainda é mais preocupante porque, devido aos excrementos dos pombos, que não são devidamente removidos, a possibilidade de quedas é por demais evidente.
A verdade é que igualmente se escorrega nos passeios de muitas ruas, por falta de adequada lavagem. Tal acontece, por exemplo, junto ao mercado da Estefânea, a caminho da Escola D. Fernando II, pela Alfredo da Costa, na Volta do Duche, nas imediações do edifício do Turismo e da igreja, em resultado da incapacidade de gestão de quem tem a responsabilidade de assegurar um serviço eficiente e civilizado de higiene pública.
Hoje mesmo, o antiquário Henrique Teixeira, a propósito deste despautério, me chamava a atenção para o facto de, além da habitual falta de limpeza, também ali bem perto, em pleno centro histórico, em vez de flores a sublinhar cantos e recantos, podermos deparar com silvas a incomodar a passagem de quem por ali circula e, não raro, como me mostrou, pombos mortos no pavimento.
5 de Setembro
Já não chove. Depois de terem secado, os passeios já não escorregam. Deixou de ser iminente o perigo de uma queda. Até à próxima chuvada, a gordura e o pó acumulados vão permanecer, embora aparentemente ocultos e completamente minimizados por quem não caminhe, a pé, ao ritmo de tão desagradáveis sinais. Portanto, prossegue o programa do costume, que persegue e até consegue suscitar reparos a quem está tão acostumado a ofensas que tais...
4 de Setembro
Estas palavras só são especialmente partilháveis por quem anda a pé. Bastou chuviscar para pôr a descoberto mais alguma da sujidade que vai pelas ruas da sede do concelho. Na Correnteza, onde também se anda ao pontapé às levantadas pedras da calçada, a situação ainda é mais preocupante porque, devido aos excrementos dos pombos, que não são devidamente removidos, a possibilidade de quedas é por demais evidente.
A verdade é que igualmente se escorrega nos passeios de muitas ruas, por falta de adequada lavagem. Tal acontece, por exemplo, junto ao mercado da Estefânea, a caminho da Escola D. Fernando II, pela Alfredo da Costa, na Volta do Duche, nas imediações do edifício do Turismo e da igreja, em resultado da incapacidade de gestão de quem tem a responsabilidade de assegurar um serviço eficiente e civilizado de higiene pública.
Hoje mesmo, o antiquário Henrique Teixeira, a propósito deste despautério, me chamava a atenção para o facto de, além da habitual falta de limpeza, também ali bem perto, em pleno centro histórico, em vez de flores a sublinhar cantos e recantos, podermos deparar com silvas a incomodar a passagem de quem por ali circula e, não raro, como me mostrou, pombos mortos no pavimento.
5 de Setembro
Já não chove. Depois de terem secado, os passeios já não escorregam. Deixou de ser iminente o perigo de uma queda. Até à próxima chuvada, a gordura e o pó acumulados vão permanecer, embora aparentemente ocultos e completamente minimizados por quem não caminhe, a pé, ao ritmo de tão desagradáveis sinais. Portanto, prossegue o programa do costume, que persegue e até consegue suscitar reparos a quem está tão acostumado a ofensas que tais...
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Festival de Bayreuth 2008,
o Ring
e uma saída pela porta grande
Como tinha anunciado antes de interromper a normal publicação de textos neste blogue, durante a segunda quinzena de Agosto, estive em Bayreuth, donde acabo de regressar, depois de ter assistido a mais uma produção de O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, obra que, entre iniciados, habitualmente se designa como Ring, já que o título original é Der Ring des Nibelungen.
Muitas vezes se continua a referir como Tetralogia este monumento artístico, obra máxima, não só da música de todos os tempos mas também da cultura universal, designação que, para todos os efeitos, abrange as quatro óperas, O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses. No entanto, mais se trata de uma trilogia, já que a primeira funciona como prólogo às subsequentes três jornadas.
O meu primeiro Ring, em Bayreuth, aconteceu em 1971. Basta fazer as contas para chegar à conclusão que já lá vão quase quarenta anos. Nesta história, o pormenor pessoal da passagem do tempo apenas interessa porque, naquela altura, reparem bem, já havia vinte anos que era director do Festival de Bayreuth o homem que, só há uns dias, deixou de o ser…
Wolfgang Wagner, pois é acerca dele que escrevo, neto de Richard Wagner e de Franz Liszt, tem quase noventa anos e esteve à frente da casa durante cinquenta e sete anos… Portanto, tudo o que se fez em Bayreuth, praticamente após a Segunda Guerra Mundial, tem a marca omnipresente, constante e obsessiva de Wolfgang Wagner, um produtor de Arte perante quem a humanidade tem uma dívida incalculável.
Bem pode dizer-se que, em relação às produções das óperas da autoria do avô, as suas decisões, umas vezes mais ortodoxas, outras altamente polémicas, durante tão longo período, condicionaram e, em parte, contribuíram para a definição dos contornos da vida cultural mundial e da História da Música das seis últimas décadas.
Desconheço o que decidiram fazer os jornais nacionais a propósito do afastamento de Wolfgang Wagner da direcção do Festival de Bayreuth que, para todos os efeitos, foi um acontecimento de repercussão mundial. Desconfio que, na maioria dos casos, pura e simplesmente, nem se terão referido ao assunto.
Todavia, no último domingo, o Público, que se reclama de um estatuto de referência, nada escreveu sobre aquele passado que constitui um património absolutamente fascinante, limitando-se a veicular o que, acerca do assunto, propagaram as agências noticiosas internacionais para todos os tablóides ávidos de fait divers, ou seja, apenas os rápidos traços de uma pseudo guerra de sucessão, mais ou menos dinástica, à laia das séries televisivas americanas como Dallas ou Falcon Crest.
Que indigência!...
Wolfgang Wagner fez muitas leituras do Ring. A história dessas leituras constitui o percurso de uma longa vida ao serviço da Arte, que vale a pena conhecer na medida em que melhor se compreenderá o fabuloso novelo que é o próprio Ring. Na essência, permanece tão imutável quanto Richard Wagner o propôs, pela primeira vez, em 1876 no Teatro do Festival de Bayreuth que, para o efeito, expressamente construiu.
É uma obra que escapa às baias do tempo, servindo-se generosamente de todos os cambiantes das emoções e sentimentos humanos. Contudo, é tão plástica, tão aberta e, na interminável variedade dos temas, tão actual que, ali, a Arte se confronta com a luta pelo poder, com o vil metal e a mais selvagem ambição, à mistura com a baixa e alta política, a ecologia, a beleza e a justiça, enfim, em resumo, ainda com todas as perplexidades do Homem face à hipótese de viver ou recusar o amor e de aceder à felicidade.
Tudo isto está no Ring, servido pela Música mais sublime e por um texto espantoso, libreto e música compostos por Richard Wagner, ao longo de vinte e seis anos – filtrando influências de filósofos seus contemporâneos, como do amigo/inimigo Friedrich Nietzsche, de Ludwig Feuerbach ou ainda, entre outros, de Arthur Schopenhauer – obra que as melhores vozes do planeta se esforçam por nos devolver. Sempre melhor.
PS:
A propósito, três notas.
1.
Se Bayreuth é o santuário, tal não significa que, por exemplo, em Lisboa, não possamos já ter assistido a récitas espantosas das quatro óperas. Aliás, São Carlos tem um palmarés impressionante e, mesmo actualmente, será possível assistir à terceira jornada, Siegfried, programada a partir de 30 de Setembro e até 18 de Outubro, numa produção de Graham Vick, iniciada na temporada de 2005/06 – no tempo da saudosa direcção de Paolo Pinamonte – que está a dar brado. Não percam!
2.
Deixaria um conselho muito, muito oportuno, a todos os adeptos e prosélitos wagnerianos a quem, eventualmente, tenha escapado a oportunidade que passo a dar conta. Recentemente, a Decca lançou no mercado uma edição (atenção, escandalosamente barata…) composta por 33 CDs, das mais conhecidas óperas de Richard Wagner, nomeadamente, Der Ring des Nibelungen, / Der Fliegende Holländer, / Tannhäuser, / Lohengrin, / Tristan und Isolde, / Die Meistersinger von Nürnberg e Parsifal, todas gravadas ao vivo no Festival de Bayreuth, dirigidas por Karl Böhm, Wolfgang Sawallish e James Levine, contando com a participação de cantores tão fenomenais como Birgit Nilsson, Wolfgang Windgassen, Gustav Neidlinger, Theo Adam, Anja Silja, Jess Thomas e Karl Ridderbusch.
A não perder!
3.
Quem pretenda entender toda a especificidade dos temas wagnerianos de O Anel do Nibelungo, portanto, toda a estrutura dos Leitmotiv, poderá aceder a uma gravação muito bem concebida, em 2 CDs, sob o título Wagner´s Ring Motifs, an Audio Guide, da autoria de Sven Friedrich e Gerhard K. Englert, com uma impecável narração de Sir John Tomlinson. Eis as referências da edição: Aurícula GmbH, Berlin, Germany. Nº de catálogo: A-201-2, ISBN 3-936196-05-2. Trata-se da versão, num impecável Inglês, de um original alemão cujas coordenadas também poderei fornecer aos interessados.
E, naturalmente, também a não perder.
o Ring
e uma saída pela porta grande
Como tinha anunciado antes de interromper a normal publicação de textos neste blogue, durante a segunda quinzena de Agosto, estive em Bayreuth, donde acabo de regressar, depois de ter assistido a mais uma produção de O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, obra que, entre iniciados, habitualmente se designa como Ring, já que o título original é Der Ring des Nibelungen.
Muitas vezes se continua a referir como Tetralogia este monumento artístico, obra máxima, não só da música de todos os tempos mas também da cultura universal, designação que, para todos os efeitos, abrange as quatro óperas, O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses. No entanto, mais se trata de uma trilogia, já que a primeira funciona como prólogo às subsequentes três jornadas.
O meu primeiro Ring, em Bayreuth, aconteceu em 1971. Basta fazer as contas para chegar à conclusão que já lá vão quase quarenta anos. Nesta história, o pormenor pessoal da passagem do tempo apenas interessa porque, naquela altura, reparem bem, já havia vinte anos que era director do Festival de Bayreuth o homem que, só há uns dias, deixou de o ser…
Wolfgang Wagner, pois é acerca dele que escrevo, neto de Richard Wagner e de Franz Liszt, tem quase noventa anos e esteve à frente da casa durante cinquenta e sete anos… Portanto, tudo o que se fez em Bayreuth, praticamente após a Segunda Guerra Mundial, tem a marca omnipresente, constante e obsessiva de Wolfgang Wagner, um produtor de Arte perante quem a humanidade tem uma dívida incalculável.
Bem pode dizer-se que, em relação às produções das óperas da autoria do avô, as suas decisões, umas vezes mais ortodoxas, outras altamente polémicas, durante tão longo período, condicionaram e, em parte, contribuíram para a definição dos contornos da vida cultural mundial e da História da Música das seis últimas décadas.
Desconheço o que decidiram fazer os jornais nacionais a propósito do afastamento de Wolfgang Wagner da direcção do Festival de Bayreuth que, para todos os efeitos, foi um acontecimento de repercussão mundial. Desconfio que, na maioria dos casos, pura e simplesmente, nem se terão referido ao assunto.
Todavia, no último domingo, o Público, que se reclama de um estatuto de referência, nada escreveu sobre aquele passado que constitui um património absolutamente fascinante, limitando-se a veicular o que, acerca do assunto, propagaram as agências noticiosas internacionais para todos os tablóides ávidos de fait divers, ou seja, apenas os rápidos traços de uma pseudo guerra de sucessão, mais ou menos dinástica, à laia das séries televisivas americanas como Dallas ou Falcon Crest.
Que indigência!...
Wolfgang Wagner fez muitas leituras do Ring. A história dessas leituras constitui o percurso de uma longa vida ao serviço da Arte, que vale a pena conhecer na medida em que melhor se compreenderá o fabuloso novelo que é o próprio Ring. Na essência, permanece tão imutável quanto Richard Wagner o propôs, pela primeira vez, em 1876 no Teatro do Festival de Bayreuth que, para o efeito, expressamente construiu.
É uma obra que escapa às baias do tempo, servindo-se generosamente de todos os cambiantes das emoções e sentimentos humanos. Contudo, é tão plástica, tão aberta e, na interminável variedade dos temas, tão actual que, ali, a Arte se confronta com a luta pelo poder, com o vil metal e a mais selvagem ambição, à mistura com a baixa e alta política, a ecologia, a beleza e a justiça, enfim, em resumo, ainda com todas as perplexidades do Homem face à hipótese de viver ou recusar o amor e de aceder à felicidade.
Tudo isto está no Ring, servido pela Música mais sublime e por um texto espantoso, libreto e música compostos por Richard Wagner, ao longo de vinte e seis anos – filtrando influências de filósofos seus contemporâneos, como do amigo/inimigo Friedrich Nietzsche, de Ludwig Feuerbach ou ainda, entre outros, de Arthur Schopenhauer – obra que as melhores vozes do planeta se esforçam por nos devolver. Sempre melhor.
PS:
A propósito, três notas.
1.
Se Bayreuth é o santuário, tal não significa que, por exemplo, em Lisboa, não possamos já ter assistido a récitas espantosas das quatro óperas. Aliás, São Carlos tem um palmarés impressionante e, mesmo actualmente, será possível assistir à terceira jornada, Siegfried, programada a partir de 30 de Setembro e até 18 de Outubro, numa produção de Graham Vick, iniciada na temporada de 2005/06 – no tempo da saudosa direcção de Paolo Pinamonte – que está a dar brado. Não percam!
2.
Deixaria um conselho muito, muito oportuno, a todos os adeptos e prosélitos wagnerianos a quem, eventualmente, tenha escapado a oportunidade que passo a dar conta. Recentemente, a Decca lançou no mercado uma edição (atenção, escandalosamente barata…) composta por 33 CDs, das mais conhecidas óperas de Richard Wagner, nomeadamente, Der Ring des Nibelungen, / Der Fliegende Holländer, / Tannhäuser, / Lohengrin, / Tristan und Isolde, / Die Meistersinger von Nürnberg e Parsifal, todas gravadas ao vivo no Festival de Bayreuth, dirigidas por Karl Böhm, Wolfgang Sawallish e James Levine, contando com a participação de cantores tão fenomenais como Birgit Nilsson, Wolfgang Windgassen, Gustav Neidlinger, Theo Adam, Anja Silja, Jess Thomas e Karl Ridderbusch.
A não perder!
3.
Quem pretenda entender toda a especificidade dos temas wagnerianos de O Anel do Nibelungo, portanto, toda a estrutura dos Leitmotiv, poderá aceder a uma gravação muito bem concebida, em 2 CDs, sob o título Wagner´s Ring Motifs, an Audio Guide, da autoria de Sven Friedrich e Gerhard K. Englert, com uma impecável narração de Sir John Tomlinson. Eis as referências da edição: Aurícula GmbH, Berlin, Germany. Nº de catálogo: A-201-2, ISBN 3-936196-05-2. Trata-se da versão, num impecável Inglês, de um original alemão cujas coordenadas também poderei fornecer aos interessados.
E, naturalmente, também a não perder.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Cada terra com seu uso…
Nem sempre estou por aqui neste período de férias. Por isso, só ao fim de alguns dias de permanência contínua, é que me apercebi. Ontem, por exemplo, e hoje, terça-feira, a cena repetiu-se. A partir das três da tarde, num dia absolutamente normal, em que não há qualquer funeral a sair das capelas mortuárias, nem evento no Olga Cadaval, o trânsito fica num pára-arranca, logo desde a Rua Câmara Pestana até à Regaleira.
Nem mais. Correnteza, Alfredo da Costa, Volta do Duche, Consiglieri Pedroso, pouco a pouco, os carros lá vão avançando. Como só acontecia aos domingos e feriados. A partir do Laxrence´s, agora, estaciona-se de um e outro lado da via. Há cerca de uma hora, dois automóveis não conseguiam cruzar-se junto à Fonte dos Pisões… Carros em cima dos passeios, por ali fora, como sempre, perante a geral tolerância e complacência.
Mesmo junto à Villa Roma [como eu compreendo o desgosto da minha amiga Luísa Salgado…], acompanhando a curva ascendente, mais viaturas, constante e ilegalmente estacionadas. Um pouco mais à frente, logo a seguir a Seteais, mais «estacionamento» (?!) sobre a berma esquerda, roubando espaço à faixa de rodagem. É o caos instalado. Percebe-se que, tão somente, em desespero de causa, actue a força policial. Não pode fazer melhor, a verdade é essa, porque a autarquia não fez nem faz o que deveria.
Como, nos últimos tempos, tenho ido muito a Cascais, não posso deixar de notar como, cada vez mais, a qualidade de vida se vai distanciando entre as duas sedes de concelho e, naturalmente, com desvantagem para Sintra. Por exemplo, este sintrense caos do trânsito, conjugado com o problema da falta de estacionamento, é coisa que por lá se não sente. E não avanço por outros domínios onde, comparativamente, Cascais sempre fica em melhor posição.
A propósito, conto-vos um episódio esclarecedor. No ano passado, por esta mesma altura estival, alojei uma amiga austríaca, em minha casa, durante três dias. Como eu próprio estivesse de partida para o estrangeiro, a boa da Astrid foi para Cascais, para casa de um amigo comum, até ao fim da semana em que ela permanecia na zona de Lisboa. Assim sendo, teve oportunidade de comparar, em sequência imediata, as duas realidades.
Entretanto, só quando voltámos a encontrar-nos pessoalmente, em Salzburg, me confessou como ficara impressionada com a diferença de qualidade de vida entre Sintra e Cascais. Nós que aqui vivemos, praticamente paredes meias, dificilmente consciencializamos o que um estrangeiro imediatamente avalia. A meia dúzia de quilómetros de distância, dizia-me aquela amiga, parece que estamos em países completamente diferentes, com um desnível económico e cultural flagrante. Também não percebia ela como é que eram tão difíceis os transportes entre Sintra e Cascais.
Foi também pensando nesta realidade e evidentes diferenças que, há uns dias, escrevi aquele texto sobre a complementaridade e rivalidade entre estas duas terras. Está claro que logo fiz uma versão em alemão que remeti à Astrid. Não é que já respondeu? E, muito à vontade, até perguntou se ainda continua a haver sujidades à volta do contentor encostado à igreja (de São Martinho)… Ah, que vergonha!...
PS:
Só voltaremos a este contacto em Setembro.
Como já sabem, através das minhas respostas a anteriores comentários neste blogue, estou de partida para Bayreuth onde permanecerei até ao fim do mês. De novo, a estada nas bávaras e wagnerianas paragens para assistir a mais uma Tetralogia. De dois em dois anos, lá vou, para um inigualável gozo melómano, com a certeza de, pelo menos, ir encontrar tudo tão bem como da última vez. De facto, está sempre melhor. Também há terras assim...
Nem sempre estou por aqui neste período de férias. Por isso, só ao fim de alguns dias de permanência contínua, é que me apercebi. Ontem, por exemplo, e hoje, terça-feira, a cena repetiu-se. A partir das três da tarde, num dia absolutamente normal, em que não há qualquer funeral a sair das capelas mortuárias, nem evento no Olga Cadaval, o trânsito fica num pára-arranca, logo desde a Rua Câmara Pestana até à Regaleira.
Nem mais. Correnteza, Alfredo da Costa, Volta do Duche, Consiglieri Pedroso, pouco a pouco, os carros lá vão avançando. Como só acontecia aos domingos e feriados. A partir do Laxrence´s, agora, estaciona-se de um e outro lado da via. Há cerca de uma hora, dois automóveis não conseguiam cruzar-se junto à Fonte dos Pisões… Carros em cima dos passeios, por ali fora, como sempre, perante a geral tolerância e complacência.
Mesmo junto à Villa Roma [como eu compreendo o desgosto da minha amiga Luísa Salgado…], acompanhando a curva ascendente, mais viaturas, constante e ilegalmente estacionadas. Um pouco mais à frente, logo a seguir a Seteais, mais «estacionamento» (?!) sobre a berma esquerda, roubando espaço à faixa de rodagem. É o caos instalado. Percebe-se que, tão somente, em desespero de causa, actue a força policial. Não pode fazer melhor, a verdade é essa, porque a autarquia não fez nem faz o que deveria.
Como, nos últimos tempos, tenho ido muito a Cascais, não posso deixar de notar como, cada vez mais, a qualidade de vida se vai distanciando entre as duas sedes de concelho e, naturalmente, com desvantagem para Sintra. Por exemplo, este sintrense caos do trânsito, conjugado com o problema da falta de estacionamento, é coisa que por lá se não sente. E não avanço por outros domínios onde, comparativamente, Cascais sempre fica em melhor posição.
A propósito, conto-vos um episódio esclarecedor. No ano passado, por esta mesma altura estival, alojei uma amiga austríaca, em minha casa, durante três dias. Como eu próprio estivesse de partida para o estrangeiro, a boa da Astrid foi para Cascais, para casa de um amigo comum, até ao fim da semana em que ela permanecia na zona de Lisboa. Assim sendo, teve oportunidade de comparar, em sequência imediata, as duas realidades.
Entretanto, só quando voltámos a encontrar-nos pessoalmente, em Salzburg, me confessou como ficara impressionada com a diferença de qualidade de vida entre Sintra e Cascais. Nós que aqui vivemos, praticamente paredes meias, dificilmente consciencializamos o que um estrangeiro imediatamente avalia. A meia dúzia de quilómetros de distância, dizia-me aquela amiga, parece que estamos em países completamente diferentes, com um desnível económico e cultural flagrante. Também não percebia ela como é que eram tão difíceis os transportes entre Sintra e Cascais.
Foi também pensando nesta realidade e evidentes diferenças que, há uns dias, escrevi aquele texto sobre a complementaridade e rivalidade entre estas duas terras. Está claro que logo fiz uma versão em alemão que remeti à Astrid. Não é que já respondeu? E, muito à vontade, até perguntou se ainda continua a haver sujidades à volta do contentor encostado à igreja (de São Martinho)… Ah, que vergonha!...
PS:
Só voltaremos a este contacto em Setembro.
Como já sabem, através das minhas respostas a anteriores comentários neste blogue, estou de partida para Bayreuth onde permanecerei até ao fim do mês. De novo, a estada nas bávaras e wagnerianas paragens para assistir a mais uma Tetralogia. De dois em dois anos, lá vou, para um inigualável gozo melómano, com a certeza de, pelo menos, ir encontrar tudo tão bem como da última vez. De facto, está sempre melhor. Também há terras assim...
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Rádio clássica,
alternativa temporária
Apesar de, durante algum tempo, ter sido patente a irregular qualidade do programa entre as sete e as dez horas da manhã, o despautério só tomou conta do estúdio da Antena Dois da rádio pública a partir do momento em que o radialista Paulo Alves Guerra se tornou responsável pelo Império dos Sentidos (vd. posts publicados nos dias 27, 30 de Junho e 1 de Julho).
Tal como muitos dos meus conhecidos e amigos, também eu deixei de sintonizar o FM 94.4 durante aquelas horas, exausto de muita conjugação dos verbos desfiar e resgatar, incapaz de acompanhar as sucessivas, exaustivas e cansativas revistas de imprensa, com football, cotações da bolsa e referência a todos os crimes de faca e alguidar do dia anterior, farto da desconchavada e crónica ironia de um tal Malaquias.
No meu caso, o matinal jejum vai sendo compensado com o recurso a estações estrangeiras, em especial à BR de Munique. Consoante os pessoais interesses e o individual domínio das línguas, outros amigos têm procurado as alternativas mais convenientes.
Eis que, entretanto, a boa notícia chegou. Guerra & Malaquias iam de férias! Uma cadeia de solidariedade imediatamente foi posta em marcha para anunciar que, durante quinze dias, o jovem André Cunha Leal ia tomar conta do leme. Conheço o André. É um jovem extremamente bem preparado, com sólida formação musical e não tenho a mínima dúvida em lhe augurar um brilhante futuro, seja qual for o enquadramento em que trabalhe ao serviço da música erudita.
Naturalmente, nestes últimos dias, voltei ao Império dos Sentidos e, felizmente, com o maior agrado e proveito. Tenho escutado um interessante trabalho subordinado à efeméride do ducentésimo aniversário das invasões francesas e, como é imprescindível, sigo a lógica da coerência programática, percebo que preparação esteve a montante daquele microfone e, portanto, estou com a minha gente.
Hoje mesmo, na sequência do que vem acontecendo, fez o André a imprescindível referência à estupenda edição de 2008, que confirma o Festival do Estoril, sem sombra de dúvida, como o melhor dos festivais da zona de Lisboa, apenas emparceirando, mais a Norte, em termos da qualidade programática, estrutura e objectivos, com Póvoa de Varzim. Só um aparte para felicitar Piñeiro Nagy e Rui Vieira Nery pela excelente direcção artística de ambos os festivais.
Julgo perceber – assim como o fazem os meus amigos e conhecidos, ouvintes da Antena Dois – a razão pela qual o André Cunha Leal não é o responsável, como já foi e com o maior sucesso, pelo programa em referência. Só não percebo o que lhe faltará, se o cartãozinho ou um padrinho a preceito…
Todavia, a fazer fé nos princípios e valores que o André Cunha Leal e a família professam [felizmente, ainda há gente assim, não se trata de últimos abencerragens…], bem me parece que Guerra & Malaquias, ainda têm pano para desfiar, muita trivialidade para resgatar, editando inenarráveis crónicas de imbecilidades. Enquanto João Almeida pontificar, o melhor é procurar postos além fronteiras, entre as sete e as dez!...
alternativa temporária
Apesar de, durante algum tempo, ter sido patente a irregular qualidade do programa entre as sete e as dez horas da manhã, o despautério só tomou conta do estúdio da Antena Dois da rádio pública a partir do momento em que o radialista Paulo Alves Guerra se tornou responsável pelo Império dos Sentidos (vd. posts publicados nos dias 27, 30 de Junho e 1 de Julho).
Tal como muitos dos meus conhecidos e amigos, também eu deixei de sintonizar o FM 94.4 durante aquelas horas, exausto de muita conjugação dos verbos desfiar e resgatar, incapaz de acompanhar as sucessivas, exaustivas e cansativas revistas de imprensa, com football, cotações da bolsa e referência a todos os crimes de faca e alguidar do dia anterior, farto da desconchavada e crónica ironia de um tal Malaquias.
No meu caso, o matinal jejum vai sendo compensado com o recurso a estações estrangeiras, em especial à BR de Munique. Consoante os pessoais interesses e o individual domínio das línguas, outros amigos têm procurado as alternativas mais convenientes.
Eis que, entretanto, a boa notícia chegou. Guerra & Malaquias iam de férias! Uma cadeia de solidariedade imediatamente foi posta em marcha para anunciar que, durante quinze dias, o jovem André Cunha Leal ia tomar conta do leme. Conheço o André. É um jovem extremamente bem preparado, com sólida formação musical e não tenho a mínima dúvida em lhe augurar um brilhante futuro, seja qual for o enquadramento em que trabalhe ao serviço da música erudita.
Naturalmente, nestes últimos dias, voltei ao Império dos Sentidos e, felizmente, com o maior agrado e proveito. Tenho escutado um interessante trabalho subordinado à efeméride do ducentésimo aniversário das invasões francesas e, como é imprescindível, sigo a lógica da coerência programática, percebo que preparação esteve a montante daquele microfone e, portanto, estou com a minha gente.
Hoje mesmo, na sequência do que vem acontecendo, fez o André a imprescindível referência à estupenda edição de 2008, que confirma o Festival do Estoril, sem sombra de dúvida, como o melhor dos festivais da zona de Lisboa, apenas emparceirando, mais a Norte, em termos da qualidade programática, estrutura e objectivos, com Póvoa de Varzim. Só um aparte para felicitar Piñeiro Nagy e Rui Vieira Nery pela excelente direcção artística de ambos os festivais.
Julgo perceber – assim como o fazem os meus amigos e conhecidos, ouvintes da Antena Dois – a razão pela qual o André Cunha Leal não é o responsável, como já foi e com o maior sucesso, pelo programa em referência. Só não percebo o que lhe faltará, se o cartãozinho ou um padrinho a preceito…
Todavia, a fazer fé nos princípios e valores que o André Cunha Leal e a família professam [felizmente, ainda há gente assim, não se trata de últimos abencerragens…], bem me parece que Guerra & Malaquias, ainda têm pano para desfiar, muita trivialidade para resgatar, editando inenarráveis crónicas de imbecilidades. Enquanto João Almeida pontificar, o melhor é procurar postos além fronteiras, entre as sete e as dez!...
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Cascais e Sintra,
Complementares ou rivais
(Conclusão)
Os festivais de música
A governabilidade, a gestão de proximidade, a actuação dos decisores em tempo útil são factores determinantes da qualidade de vida que acabam por se traduzir em determinados produtos como, por exemplo, os festivais de música. A verdade é que o Festival do Estoril, com as suas conferências, tertúlias, as tradicionais master classes, os concursos de jovens intérpretes e, inegavelmente, no quadro de uma programação de irrepreensível coerência da responsabilidade de Piñeiro Nagy, apresenta salas cheias ou quase totalmente lotadas.
Num pequeno parêntesis poderia referir outros festivais nacionais. Póvoa de Varzim, excepcional, um sucesso absoluto sob a batuta de Rui Vieira Nery. Ou Óbidos que já é o mais sério caso dos festivais nacionais com componente pianística onde, há anos, se conta com a assídua presença de Vitaly Margulis e Paul Badura-Skoda, na sua qualidade de lendários intérpretes e de grandes pedagogos.
Sintomático, não é?... E, enfim, ainda continuando no parêntesis, importaria referir, para quem não está por dentro da realidade da vida musical, que os verdadeiros melómanos constituem um público, realmente muito restrito, sempre a mesma gente, que vai a todas… Vai à Gulbenkian, a São Carlos, à Culturgest, ao CCB, à Casa da Música, aos festivais nacionais e a alguns internacionais. E ninguém se queixa de falta de público quando a qualidade e a divulgação são inequivocamente capazes.
Há que conquistar novos públicos, é verdade, mas é preciso ter muito cuidado para não misturar alhos com bugalhos.
Há dezenas de anos, autarquias como Cascais e Sintra jogam no fomento de produtos culturais sofisticados como são os festivais de música, umas vezes com mais sucesso do que noutras. É natural que assim seja e que, portanto, se façam as avaliações indispensáveis. Tal como considero que Sintra e Cascais são concelhos complementares e interdependentes, também me parece que, ao nível da oferta específica dos respectivos festivais de música, tudo se ganharia numa estratégia de complementaridade e mesmo de interdependência.
Mas, no particular caso de Sintra, não estou nada, absolutamente nada convencido de que algum responsável tenha a coragem de fazer um tal percurso...
Complementares ou rivais
(Conclusão)
Os festivais de música
A governabilidade, a gestão de proximidade, a actuação dos decisores em tempo útil são factores determinantes da qualidade de vida que acabam por se traduzir em determinados produtos como, por exemplo, os festivais de música. A verdade é que o Festival do Estoril, com as suas conferências, tertúlias, as tradicionais master classes, os concursos de jovens intérpretes e, inegavelmente, no quadro de uma programação de irrepreensível coerência da responsabilidade de Piñeiro Nagy, apresenta salas cheias ou quase totalmente lotadas.
Num pequeno parêntesis poderia referir outros festivais nacionais. Póvoa de Varzim, excepcional, um sucesso absoluto sob a batuta de Rui Vieira Nery. Ou Óbidos que já é o mais sério caso dos festivais nacionais com componente pianística onde, há anos, se conta com a assídua presença de Vitaly Margulis e Paul Badura-Skoda, na sua qualidade de lendários intérpretes e de grandes pedagogos.
Sintomático, não é?... E, enfim, ainda continuando no parêntesis, importaria referir, para quem não está por dentro da realidade da vida musical, que os verdadeiros melómanos constituem um público, realmente muito restrito, sempre a mesma gente, que vai a todas… Vai à Gulbenkian, a São Carlos, à Culturgest, ao CCB, à Casa da Música, aos festivais nacionais e a alguns internacionais. E ninguém se queixa de falta de público quando a qualidade e a divulgação são inequivocamente capazes.
Há que conquistar novos públicos, é verdade, mas é preciso ter muito cuidado para não misturar alhos com bugalhos.
Há dezenas de anos, autarquias como Cascais e Sintra jogam no fomento de produtos culturais sofisticados como são os festivais de música, umas vezes com mais sucesso do que noutras. É natural que assim seja e que, portanto, se façam as avaliações indispensáveis. Tal como considero que Sintra e Cascais são concelhos complementares e interdependentes, também me parece que, ao nível da oferta específica dos respectivos festivais de música, tudo se ganharia numa estratégia de complementaridade e mesmo de interdependência.
Mas, no particular caso de Sintra, não estou nada, absolutamente nada convencido de que algum responsável tenha a coragem de fazer um tal percurso...
sábado, 2 de agosto de 2008
Cascais e Sintra,
complementares ou rivais?
Cascais-Estoril, aqui tão perto, constitui uma unidade com tal pujança e evidente afirmação que, com o seu perfil de centro cosmopolita de nível internacional, nada se lhe compara em termos da lusa e modesta realidade. Não surpreende a invejável a qualidade de vida da sede do concelho, se bem que tal não signifique a ausência de dificuldades e contradições, aliás, a exemplo do quadro dos problemas sociais em que é pródiga a periferia de Lisboa.
Os sintrenses, especialmente os que também vivem na sede de um concelho outro, habituados a realidade substancialmente inferior, sabem como o bom viver ali se revela em múltiplos aspectos e, portanto, reconhecem o flagrante o marasmo desta nossa terra que, embora tão próxima, parece pertencer a um diferente mundo.
Desde que perdeu o protagonismo de que gozou até ao fim do primeiro quartel do século passado, Sintra não tem outro remédio senão o de viver paredes-meias com este sofisticado vizinho a meia dúzia de quilómetros de distância. A capacidade hoteleira instalada, o comércio diversificado que ombreia com o que de melhor se encontra por esse mundo fora, a animação a todos os níveis incluindo o cultural, tudo concorre para que, de modo inequívoco, se imponha como o caso mais favorável em toda a zona metropolitana de Lisboa.
Paradoxos e soluções
E a verdade é que, em vez de, a seu favor, capitalizar a vantagem de uma tal proximidade, Sintra tem passado os últimos oitenta anos a roer-se de uma patológica inveja e, como se isso alguma vez fosse possível, na desesperada mira de, um belo dia, poder vir a rivalizar…
A primeira, de entre muitas medidasa tomar, seria assumir o fosso intransponível da oferta de alojamento e contar com ela para seu próprio proveito. Muito pelo contrário, coitada de Sintra, mais não faz do que queixar-se, sistemática e amargamente, contando os minutos e segundos de permanência dos seus visitantes para chegar, como não podia deixar de ser, à mais triste das conclusões.
Atitude muito mais realista, positiva e fundamentalmente estratégica, consistiria em unir ambas as sedes de concelho com um transporte público rápido e expedito, do tipo metro de superfície, permitido cómodas deslocações aos visitantes. Chega a ser aberrante como, durante décadas e décadas, não se privilegiou esta solução, permitindo que milhares de turistas alojados em Estoril-Cascais sem grande variabilidade sazonal, pudessem aceder e permanecer em Sintra por períodos muito mais prolongados, indispensáveis a visitas mais profícuas. Numa altura em que tanto se fala em comboio de alta velocidade é um verdadeiro paradoxo nada se ouvir a tal respeito...
Actualmente, espartilhados que estão pelos desígnios das agências de viagem – que aqui não encontram as defesas e espaldas de que carecem para fazerem valer os seus particulares interesses – os visitantes apenas têm o tempo bastante para dar uma espreitadela ao Palácio da Vila, comer e comprar um pacote de queijadas na Periquita…
Por outro lado, sem parques periféricos para o adequado estacionamento de automóveis particulares e de autocarros de turismo, sem a oferta de um sistema integrado de transportes públicos, Sintra também não consegue deixar-se usufruir com a qualidade que, hoje em dia, estão habituados nas latitudes consideradas civilizadas.
Efectivamente, durante décadas, Sintra acumulou um atraso de tal modo evidente que, não sendo intransponível, exige a adopção de medidas estruturantes que, de modo algum, os munícipes têm sabido exigir aos eleitos locais. Assim sendo, os sucessivos executivos autárquicos, incapazes da concretização de tais soluções, deixam-se mergulhar e, autenticamente, tragar pelo oceano de proporções gigantescas que é este ingovernável concelho.
A governabilidade
Qualquer isento observador rapidamente conclui que os políticos locais abandonaram a sede do concelho, nomeadamente o centro histórico e as freguesias que constituem a jóia da coroa – lugares que rendem poucos votos em termos eleitorais – com o para confrangedor e conhecido resultado que constitua a sua mais descarada declaração de incompetência, num pecaminoso comprometimento do futuro.
Para a economia deste escrito, pouco ou nada me interessa analisar se a paragem da betonização do concelho a que, tão desenfreadamente, se entregou o anterior executivo municipal, foi estancada pelo actual, como estratégia opcional ou fruto de circunstâncias exógenas. A verdade é que se parou. E ainda bem que se parou.
Entretanto, decorreu o tempo suficiente para que, com sentido de Estado, se pudesse ter legislado e concretizado a cisão do grande concelho em duas ou três unidades coerentes e governáveis, nos termos da proposta que eu próprio e outros munícipes advogamos, à míngua dos meios indispensáveis para a geral mobilização que pressupõe uma tal solução.
Decorreram mais sete anos. Retardou-se uma solução que, decisivamente, contribuirá para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos que habitam neste vasto e compósito território. É um adiamento nada conveniente. No entanto, só será de considerar irremediável se não dermos passos consistentes na direcção que, como está demonstrado, não pode ser outra.
Cascais, ao contrário de Sintra, constitui uma unidade territorial cuja escala, apesar de enormes dificuldades, permite a governabilidade da coisa pública, de acordo com uma gestão de proximidade, ainda adequada às intervenções dos decisores públicos em tempo útil. Basta circular por Cascais, Estoril, Parede, Carcavelos e outras freguesias do interior do concelho para perceber os anos-luz que distam das incomparáveis sintrenses...
(continua)
complementares ou rivais?
Cascais-Estoril, aqui tão perto, constitui uma unidade com tal pujança e evidente afirmação que, com o seu perfil de centro cosmopolita de nível internacional, nada se lhe compara em termos da lusa e modesta realidade. Não surpreende a invejável a qualidade de vida da sede do concelho, se bem que tal não signifique a ausência de dificuldades e contradições, aliás, a exemplo do quadro dos problemas sociais em que é pródiga a periferia de Lisboa.
Os sintrenses, especialmente os que também vivem na sede de um concelho outro, habituados a realidade substancialmente inferior, sabem como o bom viver ali se revela em múltiplos aspectos e, portanto, reconhecem o flagrante o marasmo desta nossa terra que, embora tão próxima, parece pertencer a um diferente mundo.
Desde que perdeu o protagonismo de que gozou até ao fim do primeiro quartel do século passado, Sintra não tem outro remédio senão o de viver paredes-meias com este sofisticado vizinho a meia dúzia de quilómetros de distância. A capacidade hoteleira instalada, o comércio diversificado que ombreia com o que de melhor se encontra por esse mundo fora, a animação a todos os níveis incluindo o cultural, tudo concorre para que, de modo inequívoco, se imponha como o caso mais favorável em toda a zona metropolitana de Lisboa.
Paradoxos e soluções
E a verdade é que, em vez de, a seu favor, capitalizar a vantagem de uma tal proximidade, Sintra tem passado os últimos oitenta anos a roer-se de uma patológica inveja e, como se isso alguma vez fosse possível, na desesperada mira de, um belo dia, poder vir a rivalizar…
A primeira, de entre muitas medidasa tomar, seria assumir o fosso intransponível da oferta de alojamento e contar com ela para seu próprio proveito. Muito pelo contrário, coitada de Sintra, mais não faz do que queixar-se, sistemática e amargamente, contando os minutos e segundos de permanência dos seus visitantes para chegar, como não podia deixar de ser, à mais triste das conclusões.
Atitude muito mais realista, positiva e fundamentalmente estratégica, consistiria em unir ambas as sedes de concelho com um transporte público rápido e expedito, do tipo metro de superfície, permitido cómodas deslocações aos visitantes. Chega a ser aberrante como, durante décadas e décadas, não se privilegiou esta solução, permitindo que milhares de turistas alojados em Estoril-Cascais sem grande variabilidade sazonal, pudessem aceder e permanecer em Sintra por períodos muito mais prolongados, indispensáveis a visitas mais profícuas. Numa altura em que tanto se fala em comboio de alta velocidade é um verdadeiro paradoxo nada se ouvir a tal respeito...
Actualmente, espartilhados que estão pelos desígnios das agências de viagem – que aqui não encontram as defesas e espaldas de que carecem para fazerem valer os seus particulares interesses – os visitantes apenas têm o tempo bastante para dar uma espreitadela ao Palácio da Vila, comer e comprar um pacote de queijadas na Periquita…
Por outro lado, sem parques periféricos para o adequado estacionamento de automóveis particulares e de autocarros de turismo, sem a oferta de um sistema integrado de transportes públicos, Sintra também não consegue deixar-se usufruir com a qualidade que, hoje em dia, estão habituados nas latitudes consideradas civilizadas.
Efectivamente, durante décadas, Sintra acumulou um atraso de tal modo evidente que, não sendo intransponível, exige a adopção de medidas estruturantes que, de modo algum, os munícipes têm sabido exigir aos eleitos locais. Assim sendo, os sucessivos executivos autárquicos, incapazes da concretização de tais soluções, deixam-se mergulhar e, autenticamente, tragar pelo oceano de proporções gigantescas que é este ingovernável concelho.
A governabilidade
Qualquer isento observador rapidamente conclui que os políticos locais abandonaram a sede do concelho, nomeadamente o centro histórico e as freguesias que constituem a jóia da coroa – lugares que rendem poucos votos em termos eleitorais – com o para confrangedor e conhecido resultado que constitua a sua mais descarada declaração de incompetência, num pecaminoso comprometimento do futuro.
Para a economia deste escrito, pouco ou nada me interessa analisar se a paragem da betonização do concelho a que, tão desenfreadamente, se entregou o anterior executivo municipal, foi estancada pelo actual, como estratégia opcional ou fruto de circunstâncias exógenas. A verdade é que se parou. E ainda bem que se parou.
Entretanto, decorreu o tempo suficiente para que, com sentido de Estado, se pudesse ter legislado e concretizado a cisão do grande concelho em duas ou três unidades coerentes e governáveis, nos termos da proposta que eu próprio e outros munícipes advogamos, à míngua dos meios indispensáveis para a geral mobilização que pressupõe uma tal solução.
Decorreram mais sete anos. Retardou-se uma solução que, decisivamente, contribuirá para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos que habitam neste vasto e compósito território. É um adiamento nada conveniente. No entanto, só será de considerar irremediável se não dermos passos consistentes na direcção que, como está demonstrado, não pode ser outra.
Cascais, ao contrário de Sintra, constitui uma unidade territorial cuja escala, apesar de enormes dificuldades, permite a governabilidade da coisa pública, de acordo com uma gestão de proximidade, ainda adequada às intervenções dos decisores públicos em tempo útil. Basta circular por Cascais, Estoril, Parede, Carcavelos e outras freguesias do interior do concelho para perceber os anos-luz que distam das incomparáveis sintrenses...
(continua)
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Fait divers
Pois é, o pequeno acontecimento, facto de pouca, relativa ou nenhuma importância. De algum modo, também a miscelânea da silly season, este tempo de Verão tão fértil na afirmação e assunção dos mais diferentes disparates. Pois então, se estiverem afim, acompanhem-me nesta referência breve a um fait divers que já conhece vários capítulos.
Confesso-vos que até já andava algo preocupado. Nas duas últimas semanas, depois do insensato, torpe e ordinário ataque ao Engº Baptista Alves [que aproveito para cumprimentar, na sua dupla qualidade de Capitão de Abril e de Vereador da CMS, que me merece o mais profundo respeito pela seriedade do trabalho que vem desenvolvendo], objecto de carta aberta publicada no Jornal da Região, mais nada!
De Monte Abraão, da pomposa Junta de Freguesia da Cidade de Queluz, nada soava. Pelo menos, que eu tivesse dado por isso - e, como calculam, é coisa que não me dá particular cuidado - não havia qualquer sinal daquela patológica sede de afirmação pessoal à qual, no seu perfeito juízo, já ninguém dá o mínimo crédito. Nenhum esbracejar, nenhum alerta que mantivesse aceso o facho de uma querela praticamente esquecida naquelas franjas do subúrbio.
Ontem, porém, regressando de um concerto no Centro Cultural de Belém, ao sintonizar um posto para ouvir as últimas notícias, eis que uma inflamada voz afirmava a primeira pessoa do singular, com tanta ênfase, a propósito de levar um certo processo a não sei quantas instâncias judiciais, nacionais e internacionais, até às últimas consequências, que não tive mais dúvidas. A história estava de volta!
Entendi então a notícia que apanhara a meio. O douto Tribunal de Sintra não dera razão à causa que Monte Abraão julgava procedente. Contra tudo e contra todos, contra a própria ciência que ainda investiga para poder pronunciar-se daqui a uns anos sobre as linhas de muito alta tensão (vd. caso da Faculdade de Farmácia), ei-la, a voz que não deixa perder o filão e lança mais umas palavras de ordem.
Fait divers é isto. De facto, parece mas não é coisa importante. No caso vertente, o facto é absolutamente virtual. Ainda não existe. Está ainda na pasta das dúvidas... Naturalmente, certos profissionais da comunicação social, menos bem preparados, acabam por colaborar no logro, não cuidando de avaliar como alimentam uma novela de qualidade mais que manhosa, ao serviço de interesses facilmente detectáveis.
Apesar da pouca, relativa ou nenhuma importância do facto em si, uma vez que consiga atingir a ribalta do jornal, da rádio ou do canal de televisão, sempre haverá quem perca e quem ganhe com a o quiosque. No caso vertente, não é precisa muita perspicácia para perceber quem ocupa o pódio.
Pois é, o pequeno acontecimento, facto de pouca, relativa ou nenhuma importância. De algum modo, também a miscelânea da silly season, este tempo de Verão tão fértil na afirmação e assunção dos mais diferentes disparates. Pois então, se estiverem afim, acompanhem-me nesta referência breve a um fait divers que já conhece vários capítulos.
Confesso-vos que até já andava algo preocupado. Nas duas últimas semanas, depois do insensato, torpe e ordinário ataque ao Engº Baptista Alves [que aproveito para cumprimentar, na sua dupla qualidade de Capitão de Abril e de Vereador da CMS, que me merece o mais profundo respeito pela seriedade do trabalho que vem desenvolvendo], objecto de carta aberta publicada no Jornal da Região, mais nada!
De Monte Abraão, da pomposa Junta de Freguesia da Cidade de Queluz, nada soava. Pelo menos, que eu tivesse dado por isso - e, como calculam, é coisa que não me dá particular cuidado - não havia qualquer sinal daquela patológica sede de afirmação pessoal à qual, no seu perfeito juízo, já ninguém dá o mínimo crédito. Nenhum esbracejar, nenhum alerta que mantivesse aceso o facho de uma querela praticamente esquecida naquelas franjas do subúrbio.
Ontem, porém, regressando de um concerto no Centro Cultural de Belém, ao sintonizar um posto para ouvir as últimas notícias, eis que uma inflamada voz afirmava a primeira pessoa do singular, com tanta ênfase, a propósito de levar um certo processo a não sei quantas instâncias judiciais, nacionais e internacionais, até às últimas consequências, que não tive mais dúvidas. A história estava de volta!
Entendi então a notícia que apanhara a meio. O douto Tribunal de Sintra não dera razão à causa que Monte Abraão julgava procedente. Contra tudo e contra todos, contra a própria ciência que ainda investiga para poder pronunciar-se daqui a uns anos sobre as linhas de muito alta tensão (vd. caso da Faculdade de Farmácia), ei-la, a voz que não deixa perder o filão e lança mais umas palavras de ordem.
Fait divers é isto. De facto, parece mas não é coisa importante. No caso vertente, o facto é absolutamente virtual. Ainda não existe. Está ainda na pasta das dúvidas... Naturalmente, certos profissionais da comunicação social, menos bem preparados, acabam por colaborar no logro, não cuidando de avaliar como alimentam uma novela de qualidade mais que manhosa, ao serviço de interesses facilmente detectáveis.
Apesar da pouca, relativa ou nenhuma importância do facto em si, uma vez que consiga atingir a ribalta do jornal, da rádio ou do canal de televisão, sempre haverá quem perca e quem ganhe com a o quiosque. No caso vertente, não é precisa muita perspicácia para perceber quem ocupa o pódio.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Cruz Alta, a pé…
(conclusão)
Em segundo lugar, a cerimónia em si. Nem sequer me passa pela cabeça insinuar que lhe terá faltado dignidade. A Igreja Católica Apostólica Romana, guardiã de um savoir-faire milenar, não esteve com demasias e, como competia, em função da natureza do acto, fez-se representar pela dignidade episcopal de um dos seus mais notáveis ministros portugueses, o Senhor D. Carlos de Azevedo, bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, que celebrou e presidiu.
Todavia, aquela que era uma cerimónia inequivocamente religiosa, também pressupunha uma dimensão cultural que, efectivamente, não aconteceu. Por exemplo, não creio que fosse difícil, sem custos significativos, ter proporcionado um momento de leitura de textos. Entre outros, lembro o caso de Francisco Costa que, cada vez mais esquecido, precisamente se referiu à Cruz Alta. Com incontida emoção, penso em Maria Germana Tânger, imaginando como teria gostado de se prestar a tal serviço!...
E a música? Pois também não houve. Não tocou a banda nem qualquer músico ou agrupamento de câmara. Nem é caso para invocar exemplos da Alemanha, Áustria ou Espanha. Qualquer remoto lugarejo da bem portuguesa província teria feito soar uns acordes em honra do Senhor Jesus cuja Cruz não é coisa de somenos. E, santo Deus, há tantos belíssimos textos musicais a propósito, sei lá, de Bach, Haydn, Liszt…
Era coisa para convidar os artistas da ordem – ao todo, dois três – e, por ali, ter montado rudimentar palanque, disponibilizando uns bancos corridos ou simples cadeiras. Não poderão replicar que seria investimento incomportável. Ao prazer da queijadinha e dos frescos sumo ou branco seco, da tenda do sempre atento Dr. Silva Carvalho, acrescentaríamos outro alimento, de não menor importância que, pelos vistos, continua muito esquecido…
(conclusão)
Em segundo lugar, a cerimónia em si. Nem sequer me passa pela cabeça insinuar que lhe terá faltado dignidade. A Igreja Católica Apostólica Romana, guardiã de um savoir-faire milenar, não esteve com demasias e, como competia, em função da natureza do acto, fez-se representar pela dignidade episcopal de um dos seus mais notáveis ministros portugueses, o Senhor D. Carlos de Azevedo, bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, que celebrou e presidiu.
Todavia, aquela que era uma cerimónia inequivocamente religiosa, também pressupunha uma dimensão cultural que, efectivamente, não aconteceu. Por exemplo, não creio que fosse difícil, sem custos significativos, ter proporcionado um momento de leitura de textos. Entre outros, lembro o caso de Francisco Costa que, cada vez mais esquecido, precisamente se referiu à Cruz Alta. Com incontida emoção, penso em Maria Germana Tânger, imaginando como teria gostado de se prestar a tal serviço!...
E a música? Pois também não houve. Não tocou a banda nem qualquer músico ou agrupamento de câmara. Nem é caso para invocar exemplos da Alemanha, Áustria ou Espanha. Qualquer remoto lugarejo da bem portuguesa província teria feito soar uns acordes em honra do Senhor Jesus cuja Cruz não é coisa de somenos. E, santo Deus, há tantos belíssimos textos musicais a propósito, sei lá, de Bach, Haydn, Liszt…
Era coisa para convidar os artistas da ordem – ao todo, dois três – e, por ali, ter montado rudimentar palanque, disponibilizando uns bancos corridos ou simples cadeiras. Não poderão replicar que seria investimento incomportável. Ao prazer da queijadinha e dos frescos sumo ou branco seco, da tenda do sempre atento Dr. Silva Carvalho, acrescentaríamos outro alimento, de não menor importância que, pelos vistos, continua muito esquecido…
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