[sempre de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

"Louvar Amar

(...)

Sintra é o único lugar do país em que a História se fez jardim. Porque toda a sua legenda converge para aí e os seus próprios monumentos falam menos do passado do que de um eterno presente de verdura. (...)

Mas é de pedir e de desejar que a cidade a não invada com o desembaraço expeditivo de quando expulsa dela o paraíso para o inferno entrar. Que esse inferno passe de largo com a perda da esperança, para que ela e o mais aqui continuem. Porque, como numa mesquita ou em certas salas reservadas, há que deixar à porta o que de impureza arrastamos com os pés. (...)

Um banco e uma sombra tranquiliza-nos do nosso excesso e é possível então ouvir em nós a voz que outras vozes ensurdeceram. Amar o seu silêncio, a frescura inicial da alma, a História e monumentos feitos elementos da Natureza. Amar a legenda sempre recente, a memória breve, a iniciação à alegria que não cansa.

Louvar Sintra. Amar Sintra"

Vergílio Ferreira

Fontanelas, 18 de Junho de 1994




..........................................



Esta a Sintra-Sintra tão genesíaca como agredida,

indefesa, cercada, afligida pela urbe.

Esta a Sintra-Sintra, altar conspurcado por pacóvios,

videirinhos e politiqueiros de pacotilha,

ignorantes e parasitas, que não consegue expulsar.



Vergílio Ferreira escreve

sobre uma esperança que não está perdida.

Perante muito concretos desafios,

é possível resistir. Se necessário,

lutar de chicote em riste,

como O Outro fez aos vendilhões do templo.

sábado, 8 de novembro de 2008




“Cintra is too good a place

for the Portuguese;

it is only fit for us Goths,

for Germans or English”…


Perante o que Sintra se tornou -
claro que sempre me refiro a
Sintra-Sintra e não a esses
descaracterizados subúrbios
do concelho que tanto têm a ver
com Sintra como Santa Iria de Azoia... -
é caso para que nos perguntemos sobre
o que temos feito no sentido
de contrariar esta asserção.

Embora, ainda hoje, infelizmente,
as circunstâncias continuem a apontar
para a razão da arrogância de
Lord Southey que, em 1800,
peregrinando por estas bandas, se permitiu
escrever palavras que nos soam
tão desagradavelmente;
ainda que nos recusemos admitir que
tais termos se apliquem
aos portugueses em geral,


não podemos deixar de convir

que, plena e totalmente,

se adequam a uma série de

pacóvios em quem delegámos

o poder de desgovernar

esta terra. Fosse Sintra parte

da Alemanha, da Áustria ou

da Inglaterra, por exemplo,

alguém duvida que estaria

nesta desgraça?






sexta-feira, 7 de novembro de 2008



Concluo a transcrição de um artigo publicado
no Jornal de Sintra que, infelizmente,
não perdeu oportunidade apesar de
terem passado mais de um bom par de anos.

Acerca do mesmo assunto, como hão-de verificar
nos próximos dias, tenho apresentado
outros contributos, sem qualquer veleidade
de originalidade, tentando privilegiar
uma perspectiva integrada e sistémica.

Não será preciso recorrer
ao exemplo de situações de sucesso
no estrangeiro. Aqui bem perto, em Cascais,
já foram adoptadas soluções congéneres.
Enfim, Estoril-Cascais não só é outro Portugal
mas também algo da melhor Europa.

Que pena, em Sintra, o adiamento
de práticas testadas que, na verdade,
resolvem os problemas com que,
há tantos anos, se confronta perante
a inoperância e incompetência de
sucessivos executivos autárquicos.


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Parques de estacionamento,
por favor!

(conclusão)


Regaleira? Apenas um exemplo

Mas não quero furtar-me ao desafio do leitor preocupado com o estacionamento junto à Regaleira. Então aquele quadro de terceiro mundo que a fotografia denuncia é uma inevitabilidade? Claro que não é. E importa notar que, não sendo isolado, o caso da Regaleira é aludido aqui, tão somente, como exemplo paradigmático. De uma coisa podem estar todos certos: estacioinamento, em cima dos passeios, junto à Regaleira, é algo que deixará de existir, apesar de fazer muito jeito aos turistas e até a certos senhores que trabalham na Cultursintra…

Vamos ao caso concreto. Independentemente da possibilidade de acesso por outras vias, incluindo a pedonal, tão saudável para quem queira meter pés ao caminho, poderia perfeitamente funcionar um circuito de mini autocarro, idêntico aos que já se concretizam, saindo da Portela e terminando em Monserrate, com paragens nos Paços do Concelho, Volta do Duche, Igreja de São Martinho, Regaleira e Seteais.

O visitante deixaria o automóvel no parque e, de acordo com a sua disponibilidade de tempo, poderia descer na Vila Velha para ir ao Palácio, comer e comprar as queijadas para, mais tarde, sempre com o mesmo título de estacionamento-transporte, retomar a linha do mini-autocarro que o levaria à Regaleira e, assim sucessivamente, ou não, até se decidir regressar ao carro.

Imaginação… com realismo

Outras sugestões de circuitos poderia avançar, a estudar e a avaliar por técnicos competentes: desde o Ramalhão ao Roseiral, com paragens em Chão de Meninos, São Pedro, Santa Maria e Fonte da Sabuga; desde Lourel à estação central da CP, com paragens na Estefânea, Paços do Concelho, Volta do Duche e Vila Vela; desde a Ribeira à Pena, com paragem na Correnteza, Paços do Concelho, Volta do Duche,Vila Velha, Parque das Merendas e Castelo dos Mouros. Naturalmente, seria sempre possível a aquisição de um módulo global de acesso a toda a rede, por um ou mais dias.

Como tantas vezes tenho lembrado, estas soluções do futuro contemplarão também o regime de cargas e descargas, o encerramento de certas vias e o acesso condicionado das viaturas prioritárias, de residentes e dos comerciantes.

Utopia? Não, isto é o que se faz em todo o mundo civilizado. Não é preciso inventar seja o que for. Independentemente da escala dos lugares - Sintra é um caso, Évora outro e Torres Vedras outro ainda – a solução do transporte cuja tarifa inclui o preço do estacionamento é algo que está muito generalizado. A criatividade fica reservada a quem estuda os circuitos, os horários, prevendo a possibilidade de cruzar as ofertas em presença, de tal modo que o utente se sinta confortável seja qual for a decisão quanto aos destinos seleccionados.

Neste domínio, não é necessário apelar à ousadia. Deixemo-la para outras batalhas. Para ganhar esta, contra o desleixo, pela disciplina e correcção do acesso ao centro histórico e aos monumentos, através de soluções tão razoáveis como pertinentes e civilizadas, basta copiar o que acontece em certos lugares nacionais e estrangeiros para onde o cidadão comum não precisa nem deve olhar invejosamente.


Publicado no Jornal de Sintra em 19.05.06

quinta-feira, 6 de novembro de 2008




Nos últimos anos, muito antes do advento do sintradoavesso, tenho escrito no Jornal de Sintra, dezenas e dezenas de páginas acerca de problemas que afligem o quotidiano da vida sintrense, em particular no centro vital da sede do concelho. Na economia de tais escritos, a questão do estacionamento evidencia-se com particular destaque.

Nada surpreende que assim seja na medida em que se trata de questão absolutamente crucial, cuja resolução contribuirá para a melhoria inequívoca da qualidade de vida dos munícipes. A verdade é que, os anos sucedem-se, os mandatos do executivo autárquico sucedem-se e, infelizmente, a Câmara Municipal de Sintra nada tem feito, nada, absolutamente nada, para remediar tão crítica situação.

Atacar o problema, começar e acabar por resolvê-lo contribuirá, não só para beneficiar sectores, como o do comércio local que, mais directamente, têm reivindicado a urgência das medidas afins, mas também muitos outros, nomeadamente o da defesa e recuperação dos bens patrimomiais, cujo acesso é matéria crítica, a merecer especial cuidado nas latitudes civilizadas, das quais Sintra já esteve mais perto, delas se afastando preocupantemente.

Mais recentemente, apenas a Alagamares tem sabido dar pública expressão a este mal de vivre. Naturalmente, revejo-me totalmente nessas posições e, com o propósito de, mais uma vez, sublinhar a circunstância, inicio hoje a transcrição de artigos que subscrevi no semanário sintrense que, há tanto tempo e tão frequentemente, tem acolhido a minha prosa.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
artigo publicado no Jornal de Sintra,19.05.06


Parques de estacionamento,
por favor!


Na sequência do artigo publicado na semana passada, encontrei um leitor que me interpelou, afirmando ter lido, com especial atenção, a introdução e o final onde, a propósito do lançamento da edição deste ano do Festival de Sintra, me reportava a algumas questões que permanecem por resolver no concelho adiado.

Ficara o senhor a pensar no caso do estacionamento junto à Quinta da Regaleira, interrogando-se quanto ao modo de resolver uma questão que, na sua opinião, aparentemente, não tem remédio. E, deveras preocupado, perguntava-me que solução tinha eu para o problema já que, lembrava-me, não basta apontar os males, impondo-se que sejam avançadas alternativas para sua correcção.

Naturalmente, não posso estar mais de acordo. No entanto, aquela era uma observação que não me atinge minimamente. Só por meu intermédio, o Jornal de Sintra dedica muitas páginas ao assunto da circulação e do estacionamento no centro histórico de Sintra, através das quais, repetidamente, insisto, tenho apresentado o conjunto de medidas consideradas indispensáveis à viabilização das soluções mais pertinentes.

Outra vez, nestas colunas

De facto, apenas falo por mim. Mas o que me tenho permitido opinar é tão consensual, tanto a nível nacional como internacional, que não me resta qualquer dúvida quanto a estar-se perante um apertado leque de hipóteses de trabalho, realmente operacionais e eficazes, no âmbito das quais o grande objectivo será sempre o de condicionar o acesso, a permanência e o estacionamento do transporte individual.

Aliás, as soluções concretizáveis não têm direitos de autor e, relativamente a cidades e vilas com centros históricos objecto da atenção e dos cuidados inerentes à preservação e conservação do seu património, como é o flagrante caso de Sintra, o caminho a percorrer não poderá ser de sinal contrário, apesar das pequenas bolsas de estacionamento já existentes cujas condições actuais deverão ser significativamente melhoradas.

Poder-se-á afirmar que há problemas para financiar as soluções que já estão equacionadas, em função de diagnósticos oportunamente realizados. Igualmente, poderão advogar-se discutíveis critérios de prioridade quando se está em presença de uma questão de tal modo estruturante que, tão decisivamente, condiciona a qualidade de vida e a viabilidade de projectos da mais diferente natureza, cultural, educacional, turística, comercial, a montante e a jusante.

Inadiável

Em termos gerais, os autarcas já não dispõem de margem para mais adiamento relativamente à instalação de parques de estacionamento periféricos, estrategicamente localizados, de dimensões variáveis, com inequívocas condições de higiene e segurança onde, mediante tarifas diferenciadas, consoante percursos pré seleccionados e disponíveis, os utentes possam deixar as suas viaturas e dirigirem-se aos seus destinos perfeitamente descansados.

Quando estiver em funcionamento um modelar sistema integrado de transportes colectivos de Sintra, é previsível, para além dos meios já existente - ou seja, táxis, autocarros de capacidade variada, eléctricos e os trens de tracção animal - a concretização de projectos antigos e recentes que, por exemplo, poderão passar pela instalação de duas linhas de funicular, uma entre a zona da Ribeira e o Parque da Pena, com estação intermédia em Rio do Porto-Vila Velha, outra entre Ramalhão e Santa Eufémia.

Ribeira e Ramalhão, juntamente com Lourel-Campo Raso funcionariam como parques periféricos e interface a partir dos quais seriam propostas linhas que, exaustivamente, contemplassem todos os destinos, quer os das zonas onde os serviços estão instalados quer os percursos dos parques históricos e monumentos, incluindo o centro histórico.

(continua)


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ainda Sarrazola e Odrinhas





"(...) chamou-me a atenção esta sua história sobre a Sarrazola.
Então a Câmara Municipal de Sintra não aceitou a oferta da Sarrazola
e foi construir um edifício novo em Odrinhas,
desperdiçando as instalações do Ministério da Agricultura?
A CMS estava assim tão rica para um luxo daqueles?
Era bom ter acesso à resolução da Câmara para entender as razões.
No meio de tudo isto, ainda bem que actualmente a Sarrazola
está a cumprir o destino que o Dr. Brandão de Vasconcelos
deixou escrito no seu testamento.
Também lamento que depois do investimento da Câmara
na escola de Odrinhas, afinal esteja às moscas.

Com os cumprimentos de Álvaro Madeira"



Para hoje tinha preparado a publicação de matéria completamente diferente. Todavia, ao abrir o escritório, deparei com esta mensagem do professor Álvaro Madeira, como comentário aos meus textos aqui publicados nos passados dias 30 e 31 de Outubro e na sequência de anterior artigo no Jornal de Sintra (24.1008).

Particularmente pertinente, no texto em epígrafe, me pareceu aquela alusão à possibilidade de consultar os documentos afins da resolução da Câmara, no sentido de não aceitar a oferta das instalações do Ministério da Agricultura. A propósito, cumpre lembrar que, passados anos e anos de vandalismo militante, por fim, foram dignamente ocupadas pela Escola Profissional D. Alda Brandão de Vasconcelos, com manifesto sucesso de frequência.

Naquela altura, embora fosse professor da Escola de Recuperação do Património de Sintra e, como escrevi, tivesse participado na reunião em que a técnica do Ministério da Agricultura apresentou a sedutora proposta, em nome do seu Director-Geral, confesso que não tenho suporte documental que sequer me habilite à datação de quaisquer sessões de trabalho afins, em meados dos anos noventa, talvez 1995/96.

No entanto, todo este assunto há-de constar, não só da Acta das reuniões havidas no Departamento do Ensino Secundário do Ministério da Educação, na Av. 24 de Julho em Lisboa, para o efeito da instalação do Curso que veio a designar-se como Gestão de Espaços Verdes, mas também do arquivo da EPRP e da própria CMS. A então Presidente da Câmara, Dra. Edite Estrela, autarca cautelosa quanto à espalda documental das suas decisões, certamente não terá descurado a questão.

Aqui fica a sugestão de investigar. Sem dúvida que pode ser assunto objecto de interesse, quanto mais não seja, para a História da Educação no concelho de Sintra. Infelizmente, não me sobra tempo para o efeito mas estou à disposição de quem se habilite à tarefa.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Reconstrução?

(conclusão)


Assim rezava o primeiro aviso: Nº de Pisos acima da cota soleira: 2; Nº de Pisos abaixo da cota soleira:1; Área de construção: 872,81m2 acima da cota soleira mais 443,70m2 abaixo da cota soleira totalizando a área de construção 872,81m2, estando incluída nesta área_____m2 (espaço vazio) não contabilizados para efeitos de índice de construção de acordo com o PDM; Cércea 5,20; nº de fogos­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­______(espaço vazio); uso a que se destinam Habitação (sic).

O segundo, mantém inalterável a informação quanto ao número de pisos, ou seja, um total de três. Todavia, outra é a distribuição das superfícies: Área de construção 522,70m2 acima da cota soleira mais 350,11m2 abaixo da cota soleira totalizando a área de construção 872,81m2, estando incluída nesta área 350,11m2 não contabilizados para efeitos de índice de construção de acordo com o PDM (sic). Repararam bem na diferença?

É altura de fazer contas. De acordo com o Aviso 1, a área de construção total autorizada para os três pisos, montava a 1.316,51m2 mas, nos termos do Aviso 2, passa a 872,81m2 (isto é, um corte de 443,70m2 na área inicialmente considerada como do piso abaixo da cota soleira que, agora, também levou um corte de 93,59m2.

Confuso? Estranho? Que ideia!... Para além das áreas em referência, também não deixem de ter em consideração a soma da cércea com a da altura que fica abaixo da cota soleira. Entenderão, para além do movimento de terras que pressupôs, também o volume e o previsível impacto real do edifício que ali está a ser reconstruído?

Para finalizar:

Primeiro: Vão ao local, observem, questionem-se. Como tudo foi arrasado, que reconstrução é aquela? Com aquelas dimensões, ela resultará da soma das áreas ocupadas por diversos cómodos, eventualmente preexistentes que, dispersos, não tinham qualquer impacte ambiental ou visual, algo diferente, convenhamos, do de uma habitação cujo rés-do-chão terá 443m2?;

Segundo: Vão ao Google Earth e vejam bem o que lá ainda consta como edificações existentes e como campos agrícolas em patamares;

Terceiro e último: exijam que vos esclareçam quanto ao modo como as entidades oficiais, ao autorizar uma reconstrução, aferem e confirmam o que era uma construção com suporte legal para ser reconstruído como habitação.

Publicado no Jornal de Sintra em 31.10.08


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Reconstrução?


Há precisamente quinze dias, como estarão recordados, trouxe às páginas do Jornal de Sintra um artigo subordinado ao título Seteais, polémica no Vale dos Anjos. Referia-me à construção de uma habitação na quinta do outro lado da estrada do mítico terreiro verde – que permanece mas podia não estar encerrado – também a poucos metros de uma inqualificável casa de máquinas, edificada sobre os muros de um tanque.

Quem tenha vindo a acompanhar as minhas constantes chamadas de atenção acerca do que está a acontecer em Seteais, compreenderá a preocupação. Perante factos que, apesar da vontade geral, se vão consumando tristemente, espero que, quanto mais não seja, o episódio da Quinta do Vale dos Anjos conduza à reflexão de que, como tantos outros sítios em Sintra, Seteais não é um qualquer lugar.

A verdade, infelizmente, é que a sequência de desconchavos, que atentam contra o espírito do lugar, se sucedem a um ritmo galopante, ao arrepio dos compromissos contraídos perante a classificação de Sintra como Paisagem Cultural da Humanidade. É por isso que, ao abordar o caso da construção da habitação em apreço, o faço em articulação com os outros casos, portanto, como mais uma peça do puzzle cujo enquadramento é idêntico.

Começaria por evidenciar que, como uma coisa destas não pode fazer-se às escondidas, qualquer pessoa pode confirmar estas palavras. Basta predispor-se a subir o curto caminho lateral, indicado pelo letreiro Rampa da Pena que, até há pouco tempo, era um dos trilhos preferidos dos adeptos de BTT. Por causa das obras, de tal modo estreitou a tosca vereda que a circulação se tornou praticamente impossível.

À guisa de sumaríssimo resumo, lembraria que, desde o efectivo início das obras, foram removidas muito significativas quantidades de terras e transferidas para junto dos muros que bordejam a Rua Barbosa du Bocage, atingindo proporções inusitadas, num afã de escavadoras, camions, betoneiras bem à vista de qualquer passante.

De facto, não é fácil o entendimento de tão ostensiva movimentação de milhares de metros cúbicos de terreno. E tanto assim é que o próprio regulamento desta Área de Protecção Parcial 1, refere explicitamente ser ”(…) interdita qualquer alteração no relevo e a remoção da camada superficial do solo arável.” Mas, enfim, esclareça e explicite quem pode e deve fazê-lo.

Um estranho Aviso


De todo em todo, o que eu não esperava é que desaparecesse o Aviso que, relativamente perto da esquina, ali se mantivera até à passada quarta-feira, dia em que o jornal Público, em artigo de Luís Filipe Sebastião, trouxe o assunto à consideração de uma audiência, naturalmente, bem mais vasta que a do JS.

A verdade é que, relacionada ou não com os factos que inicialmente relatei, confirmados pelo Público – notícia enriquecida por uma caixa onde era recolhido o testemunho de um assessor do Engº Pais do Amaral alusivo a um aparente desfasamento de áreas – o Aviso foi removido para ser reposto no dia seguinte, devidamente (?!) rectificado. Sim senhor, leram bem, o Aviso foi alterado e, valha-nos isso, colocado em posição bem mais conveniente à consulta, mais perto do portão improvisado na Barbosa du Bocage.

(continua)


Publicado no Jornal de Sintra, 31.10.2008

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Mas os animais, Senhor...


Pelos motivos que imediatamente compreenderão através da leitura do texto que se segue, resolvi transcrever a carta de Laura Miranda que me chegou através de chamada de atenção da minha amiga Dra. Cristina Ferreira, grande militante dos direitos dos animais.

Diz-se que o estado de evolução de um país, afinal de qualquer comunidade, está espelhado no modo como trata os animais. Como se ainda fosse preciso demonstrar ou lembrar, Como se verifica, Sintra não está nada bem posicionada...


A propósito, gostaria de recomendar uma visita ao canil municipal do Seixal onde um dedicado grupo de voluntários ajuda a autarquia a resolver problemas da comunidade em benefício dos animais, nossos amigos. Não estou a sugerir-vos uma deslocação a Londres ou Copenhague. Neste caso, é só atravessar o rio para depararem com uma situação verdadeiramente exemplar...


Agora, a transcrição do documento:


"Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra

Venho por este meio apresentar a minha indignação relativamente ao canil municipal de Sintra.

Sempre que consegui arranjar donos definitivos conscienciosos e retirei animais do "vosso" canil municipal, deparei com situações chocantes: um canil minúsculo, húmido, frio, onde se vê a agonia dos animais no corredor para a morte.

Não sei se o Sr. Presidente já visitou as instalações mas, se o fez, de certeza terá constatado o sofrimento dos animais e quão deprimente o espaço é.

Os animais não têm as mínimas condições, estão em jaulas minúsculas onde quase não se conseguem mexer nem deitar, em cima dos próprios dejectos, jaulas húmidas e frias propícias a que os animais rapidamente fiquem doentes!

Seria tão fácil faze-los felizes!

Construindo um canil municipal, onde todo os animais fossem castrados/esterlizadas, com tratadores e veterinário permanente; (...)

Onde os munícipes gostassem de ir adoptar um animal e fosse um exemplo de cidadania;

Acredito que seria também um exemplo para as pessoas tratarem bem os animais e não os abandonarem!

Onde só fossem efectuadas adopções responsaveis e definitivas com o respectivo chip!

Aberto ao fim de semana!

O problema não passa só pelo canil mas, infelizmente, também muito pelas pessoas irresponsáveis que abandonam os animais e que não são, de alguma forma, "punidas" por tal acto.

Não seria motivo de orgulho para Sintra ter um canil municipal que seria exemplo para o resto do país e Europa?;

Sendo Sintra património mundial, não o deveria tentar ser em todos os aspectos? (...)

Com os melhores cumprimentos,

Laura Miranda"


domingo, 2 de novembro de 2008


Em Seteais, grave ofensa a um eleito local

E não entrou mesmo


Adriano Filipe, Presidente da Junta de São Martinho, foi impedido de aceder ao terreiro de Seteais quando se propunha visitar as obras em curso. Estive em contacto com este meu amigo – um dos mais conhecidos autarcas de Sintra – pouco depois da ofensa que acabara de ser alvo, na passada sexta-feira, escutando-lhe o testemunho numa primeira pessoa, ainda mal refeita da emoção.

Perante um caso destes, logo ocorre a dúvida de ter ocorrido num Estado Democrático de Direito. Tendo-o elegido como Presidente da Junta de Freguesia, o povo de São Martinho de Sintra espera que, no cumprimento do exercício do poder e da autoridade que nele delegou, Adriano Filipe se desloque, com toda a Liberdade, a todos os lugares onde a sua presença e, se necessário, a sua intervenção possam contribuir para a condução dos negócios da coisa pública no território onde se exerce a sua competência.

O Adriano Filipe não é um qualquer cidadão, freguês, munícipe ou forasteiro que tivesse pretendido visitar Seteais numa altura em que – tão polemicamente como tenho salientado – o acesso ao local está temporariamente indisponível. Adriano Filipe identificou-se como autarca, mostrou o documento apresentando-o como o Presidente da Junta que administra uma zona onde está implantado aquele bem patrimonial nacional de importância relevante, a todos os títulos, para as gentes de Sintra e, em especial, muito naturalmente, para os seus fregueses.

Repare-se que, depois de se ter anunciado e ao que ia, depois de o porteiro ter comunicado superiormente quem pretendia aceder ao recinto, um responsável da empresa, encarregado local, para todos os efeitos em nome do Grupo Espírito Santo, decidiu não autorizar a entrada do eleito.


Desconheço o que fará Adriano Filipe. Desconheço o que fará a Câmara Municipal de Sintra que, de imediato, na pessoa do Vereador do Pelouro da Cultura, foi posta ao corrente de tão sério e grave acontecimento. Desconheço como reagirão as instituições perante uma ofensa deste calibre e, inclusive, se o Tribunal, enquanto órgão de soberania recorrível, será chamado a dirimir a questão. Como não poderia deixar de suceder, vamos estar todos muito atentos ao desenrolar deste caso.


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Na Sarrazola e em Odrinhas (conclusão)

Destino cumprido

Mais uma vez, envolvido no destino daquela casa, apenas cumpri o cívico dever de pôr o dedo na ferida, na expectativa de que as autoridades competentes também viessem a cuidar das suas obrigações. E, de facto, assim veio a acontecer já que o assunto acabou por se resolver através do contrato aludido no primeiro parágrafo.

Só hoje, no entanto, considero terminada a minha missão, com o acto de congratulação que já tardava. E, como logo comecei por afirmar, tal só me é possível graças à entrevista de Jorge Telles de Meneses ao director da Escola, Dr. José Furtado, constante da edição do passado dia 19 de Setembro do JS, dando conta do sucesso do labor ali em curso. Recorramos aos números.

A EPAV, tão recentemente instalada, em 2007/08, seu primeiro ano lectivo de funcionamento, acolheu cinco turmas, num total de cem alunos. No ano lectivo seguinte, 2008/09, o actual, a mesma escola já vai com uma frequência de trezentos jovens estudantes, repartidos por quinze turmas! Naturalmente, parabéns!

Desígnio nacional

Mas se isto já era conhecido, em especial por intermédio deste jornal, porque insistir? É que, aqui chegados, impossível é não fazer comparações com o que se passa em Odrinhas. A funcionar em óptimo edifício, cujo investimento público foi necessariamente muito vultuoso, por sua vez, a EPRPS debate-se com grande dificuldade de recrutamento de alunos.

Já há três anos que deixou de ministrar o Curso de Gestão de Espaços Verdes por falta de candidatos. E, igualmente, há dois anos que não consegue pôr a funcionar o Curso de Assistente de Arqueólogo. Com capacidade instalada para ter a funcionar três cursos distintos, a EPRPS apenas mantém um, com um total de cerca de setenta alunos. Contudo, naturalmente, não estão em causa os parâmetros da excelente qualidade dos profissionais saídos da escola.

De qualquer modo, dar os parabéns à EPAV não significa estigmatizar a EPRPS. Como já escrevi nas páginas deste jornal* o Ensino Profissional em Portugal tem que conquistar uma percentagem de candidatos muito mais significativa do que actualmente, impondo-se que escolas profissionais, tão bem apetrechadas como estas do concelho de Sintra, estejam à altura do capital investido e respondam ao desígnio em apreço que é de autêntica sobrevivência nacional.


*JS, 16.06.2006, Quem tem medo dos cursos profissionais?

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Na Sarrazola e em Odrinhas

Enquanto professor e técnico de Educação, poucas notícias me poderiam ter dado tanta satisfação como a que o JS trouxe a público, relativa ao sucesso da Escola Profissional D. Alda Brandão de Vasconcelos que funciona na Sarrazola, freguesia de Colares, em instalações do Ministério da Agricultura, cedidas em regime de comodato.

Por via de regra, à excepção daqueles casos em que o êxito de outrem é alcançado por meios mais ou menos tortuosos, não há quem não se regozija com os sucessos alheios. Contudo, no caso vertente, como hão-de verificar, muitos são os meus motivos de alegria. Preciso recuar uns bons anos para partilhar convosco uma história cujos contornos espelham o modo como tanta coisa acontece no nosso país.

Em meados da década de 90, no desempenho de funções de Director Pedagógico da Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra (EPRPS) participei, com mais colegas professores e a então directora do estabelecimento, numa série de reuniões interministeriais – Educação e Agricultura – visando a instalação de um curso que acabaria por se designar como de Gestão de Espaços Verdes.

Não era para desconfiar

Numa dessas reuniões, a representante do Ministério da Agricultura, em nome do Director-Geral de quem dependia e, portanto, também do próprio Ministro da Agricultura, surpreendeu-nos com a proposta da cedência, a título gratuito, das estupendas instalações da Sarrazola. Ali mesmo, a EPRPS – então a funcionar, a título muito precário, em pleno centro do Cacém – poderia sediar as suas especialidades de recuperação do património edificado e também o novo curso que, naquela altura, perspectivava uma forte vertente de recuperação de jardins históricos.

Parecia um sonho, ouro sobre azul… Mas, nada feito. Na altura, a Presidente da Câmara Municipal de Sintra e, igualmente, Presidente do Conselho de Administração da EPRPS, decidiu não aceitar a oferta. Estou em crer que uma tal decisão, aparentemente tão controversa, já que tudo era altamente favorável, se terá devido à previsibilidade da futura instalação em Odrinhas, em edifício próprio, que veio a acontecer muitos anos depois. De qualquer modo, ocorre-me ter sido invocado o argumento da grande periferia de Colares e as dificuldades de acesso à Sarrazola.

Entretanto, as instalações que eram invejáveis, concebidas para o funcionamento de sofisticado centro de formação, devidamente equipado com as diferentes e habituais componentes, que a Câmara Municipal de Sintra não quis aceitar de mão beijada, foram-se degradando, inapelavelmente sujeitas a várias e sucessivas campanhas de vandalismo.

Até que, na sua edição de 11 de Novembro de 2005, o JS, através de artigos subscritos pelo então director, João Rodil, Graça Pedroso e por mim próprio, recorrendo a fotos bem elucidativas, denunciou o escândalo do abandono da Sarrazola que, cumulativamente, era uma ofensa à memória de um grande benemérito, o Dr. Brandão de Vasconcelos, cujo testamento era inequívoco relativamente às actividades escolares que ali poderiam ser concretizadas, afins dos ofícios relacionados com a realidade agrícola.