[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 16 de junho de 2009


Festival de Sintra 2009,
Vengerov maestro, um equívoco

(conclusão)


Já quanto ao Concerto para Violino e Orquestra no. 3, em Sol Maior, K.216 de W. A. Mozart, o que dizer daquela direcção? Pois, nada clássica, pois nada contida, no apolíneo registo que solicitava uma obra tão carregada de lirismo e liberdade de forma, em que o rondo final inclui episódios nitidamente contrastantes com o tema principal.

Como tantas vezes acontece, por parte de maestros sem grandes exigências, Vengerov imprimiu uma interpretação romântica da peça deste seu mal entendido Mozart, facto que nada abona a favor do maestro de serviço. Não diria que esteve mal a articulação entre orquestra e solista mas, na verdade, menos bem o exagerado volume de som que solicitou.

Otto Pereira é um jovem violinista, que, desde o ano passado, passou a integrar o naipe dos doze segundos violinos da orquestra Gulbenkian. É um rapaz dotado, com bastante sensibilidade, já senhor de segura técnica. No entanto, no que a Mozart concerne, bom será que esteja atento à linguagem e aos especiais acertos que pedem as obras deste compositor. Mais uma vez volto a Vengerov, cuja direcção, sem ser desastrada, contudo, acabaria prejudicando Otto Pereira por não suscitar a tal mozartiana interpretação – deixem passar o enfático pleonasmo – que a peça exige do solista.

Enfim, um concerto vulgaríssimo, absolutamente banal. Todavia, um evento muito especial dada a concentração de equívocos, que não podia ser mais desafiante. Por isso, decidi dar um ar da minha graça, quebrando o silêncio que me tinha imposto. É um facto, não resisti e, por isso, assumo a contradição em que caí quando anunciei que me manteria em silêncio. De qualquer modo, também penso que terei feito bem não calando o que me parece óbvio dever partilhar.

Relativamente ao público, claro está que, pouco exigente e ainda menos conhecedor, aplaudiu muito. Não percebeu nada do que ali aconteceu. Pelo simples facto de entrar num auditório, para assistir a um concerto de música erudita, muita gente se sente obrigada ao aplauso final. E, como a ignorância não conhece fronteiras, era ver quem menos acertava.


PS:
Entretanto, à saída do concerto, confirmava-se, muito menos prenhe de equívocos, o resultado das eleições, ditando uma claríssima chamada de atenção ao governo da nação. Tal como acabara de acontecer lá dentro, no auditório Jorge Sampaio, também cá fora, o maestro não está à altura de fazer a leitura mais acertada da partitura


4 comentários:

Tiago Coutinho disse...

Amigo João Cachado
Não vale a pena insistir mais com o Festival de Sintra deste ano. Houve muita incompetência mas agora não há nada a fazer. Talvez em 2010 haja mudanças de acordo com as críticas. Já houve neste blogue comentários sobre o Festival de Alcobaça (que está formidável) e o João Cachado escreveu também sobre o Estoril. De facto o Festival do Estoril é muito atractivo neste ano. Tem os concursos habituais, há conferências e tertúlias,um programa que se percebe, óptimos músicos e Haydn e Haendel em abundância. Vejam a página da internet. Lá nos vamos encontrar de certeza. Cumprimentos,
T. Coutinho

Anónimo disse...

Só uma pergunta:
Ainda existe um Festival de música em Sintra?

João Cachado disse...

AT: JUSTIFICAÇÂO


Como sabem os habituais leitores deste blogue, tenho por princípio não publicar mensagens anónimas. Como a precedente até usa de pertinente ironia, resolvi autorizar.

João Cachado

João Vasco Osório disse...

Caro Dr. Cachado,
Passo por cima deste caso do Vengerov mas Concordo com a sua opinião, mesmo com as questões deixadas em aberto.
É pena que o Festival em Sintra esteja nesta fase tão negativa. Deixei de frequentar há anos por várias razões, por exemplo por a direcção não conseguir fazer silêncio quando há concertos no Palácio da Vila com crianças a brincar e a gritar lá fora e o sino a tocar, etc. Deixaram de haver condições mas tenho muitas saudades dos tais "grandes nomes" que o Dr João Cachado lembrou naquele palmarés e dos concertos no Palácio da Pena. Lembro-me muito de ver Marquesa de Cadaval e o respeito que inspirava. Faz muita falta para pôr os ignorantes fora dos lugares que o R.V.N. diz que ocupam.
O Dr. é a única pessoa de Sintra que chama a atenção mas ninguém liga. Muito obrigado e respeitosos cumprimentos.
J. V. Osório