quinta-feira, 12 de Novembro de 2009


Vai um prato de lentilhas?


Já lá vão uns bons anos, era presidente da Câmara Municipal de Lisboa o Dr. Jorge Sampaio, quando vieram a público alguns indícios de que a Epul teria incorrido na prática de lamentáveis actos de corrupção. Não vem ao caso sequer esboçar aqui os contornos e muito menos esmiuçar detalhes das actividades menos recomendáveis que levaram o futuro Presidente da República a demitir liminarmente o conselho de administração daquela empresa pública.

Uns tempos mais tarde, já no exercício de funções de supremo magistrado, não esteve com demasias e, perante o que se soubera da irregular actuação da Fundação para a Prevenção Rodoviária, exigiu ao Primeiro Ministro António Guterres o imediato afastamento de Armando Vara do Governo.

Num país em que impera a famosa cultura do desleixo, que o mesmo Jorge Sampaio tão bem tem sabido caracterizar e alertar para o seu combate, não admira que, em ambos os casos aludidos, nada tivesse impedido que os membros do órgão de gestão e o multifacetado e talentoso rapaz, continuassem a merecer o crédito da classe política para o desempenho de outros cargos.

O problema é que a classe política é de péssima qualidade e, salvo raríssimas excepções, de baixo estrato. Abundam os casos em que uns pobres diabos, balconistas ou obscuros técnicos de autarquias de segunda, se muniram do providencial cartãozinho para – depois do laborioso e devido trabalho de base lá pelas berças, e de rapidíssimas e tortuosas passagens por faculdades de terceira, para obtenção de duvidosas qualificações universitárias – demandarem a capital, colhendo o fruto de tanto empenho nos mais variados enquadramentos institucionais. Trata-se de indivíduos que abastardam a nobre noção de serviço público, de serviço à República. Nada de confusões, só a estes me refiro.


Mesmo em Portugal, em circunstâncias mais propícias, e apesar de eventuais motivações pessoais menos recomendáveis, não teriam oportunidade de aparecer na ribalta do poder. Não passariam de obscuros mas digníssimos amanuenses mangas de alpaca, quando muito, de chefes de secretaria, ou de incógnitos mas diligentes mestres de criancinhas. No entanto, como as cicunstâncias não são as mais propícias, conseguem alcandorar-se aos mais altos cargos do poder central e local, da banca, das empresas públicas, satisfazendo a avidez da sua patológica ambição, em sórdidas gamelas, designadas por famosas siglas que o povo, enojado, já conhece de ginjeira, no âmbito dos processos de investigação que enchem as páginas da comunicação social.

Os rígidos valores da dignidade subsumidos no da honestidade, são liminarmente postergados, em detrimento da sui generis protecção da abóbada tão conveniente da dura lex… Os tão apregoados princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que sustentam os modernos Estados Democráticos de Direito, são atropelados, a toda a hora e momento, sem que o escândalo geral baste para suster a sua sangria.

Hoje em dia, se a Lei sancionar aquilo que o legislador propôs como correcto – tantas vezes, por ínvia encomenda do poder executivo, vd. caso Casa Pia e alterações legislativas de 2007… – tudo se apresenta como liso e susceptível de descansar as consciências. Parece ser tão grave este caldo de sofisticado desleixo que, provavelmente, vivendo sob a capa de um regime democrático, estaremos a assistir ao espectáculo da mais nociva inversão de valores que já desafiou as sociedades modernas desde a Revolução Francesa.

Afinal, o que faz falta?

Volto ao parágrafo inicial. Com a legislação vigente na altura, Jorge Sampaio não teve dúvidas. Numa situação, independentemente dos subsequentes apelos e agravos, demitiu quem considerou conveniente e na outra, igualmente cortando a direito, deixou de patrocinar a presença de um governante que fazia parte de um executivo a que ele próprio dera posse. A isto se chama estar à altura das funções.

Devem ser raríssimos os casos em que os dispositivos legais vigentes não estão servidos por mecanismos de operacionalidade que permitam, a quem de direito, actuar perante estes e outros prevaricadores institucionais. Todavia, não tenho a menor dúvida de que, enquanto imperar a dominante cultura do desleixo, sempre faltará, a tal vírgula que, quanto mais não seja, facilita o contorno da interpretação mais conveniente da Lei.

Mas quem sou eu, anónimo filólogo, para me arrogar meter a foice na seara alheia da legislação? Pois vos direi que a discreta mas permanente intervenção cívica em que estou envolvido foi especialmente desafiada pelas oportunas e sempre tão certeiras palavras da minha amiga Ana Gomes, no seu blogue Causa nossa, ela que também é mulher de Direito, habituada a dirimir causas à luz e com base no império da Lei.

Lembra Ana Gomes impor-se a retoma das propostas do Engº João Cravinho, que tanto se bateu pela necessidade de um combate sério e sem tréguas à corrupção. É aqui que me rendo. Se, efectivamente, falta preencher algum buraco da Lei, por exemplo, no respeitante ao enriquecimento ilícito, pois que actue o Parlamento, no exercício do poder que outorgámos aos seus membros, no sentido de nos defenderem contra as invectivas desses indecentes que, muito raramente, deparam com um Jorge Sampaio pela frente.

E assim finalizo, na boa companhia desta tríade em que Sampaio, Cravinho e Gomes me concedem a esperança de prever que, apesar de sinais tão desanimadores, o prato de lentilhas dos corruptos não vai transformar-se em mais Mercedes topo de gama… Urge dar sinais diferentes aos miúdos, aos nossos filhos, netos e alunos. Especialmente eles, não merecem este lodaçal.


segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

O melhor de Sintra

É natural que alguns dos habituais leitores ainda desconheçam que a Parques da Sintra Monte da Lua (PSML) aumentou recentemente o seu património, através da incorporação de três novas propriedades que, tal como todas as restantes parcelas, se incluem na zona classificada como Paisagem Cultural.

Lembremos que Convento dos Capuchos, Tapada D. Fernando II, Parque de Monserrate, Tapada de Monserrate, Tapada do Mouco, Parque da Pena, Tapada dos Bichos, Castelo dos Mouros e Quinta de Seteais somam 361 hectares, um conjunto cujos contornos e respectiva toponímia tão grato nos é registar por saber como tudo tem estado tão bem entregue.

Pois, a partir de agora, a PSML passa a responder por um total de mais de quatrocentos hectares de terras naquela zona, uma vez que, à área precedente, foram acrescentadas a Tapada das Roças (43 ha), a Mata da Trindade (1,9 ha) e a Tapada da Quinta do Ramalhão (4,75 ha). No caso em apreço, aquilo que, para outra empresa não passaria de um saudável aumento de propriedade, foi oportunidade para uma atitude que saúdo com o maior apreço.

Ora vejamos o que me leva a este encómio. É que, desta vez, a PSML veio ao encontro de alvitres que apontavam no sentido de privilegiar uma estratégia de comunicação com os cidadãos de Sintra, na tentativa de esclarecer inequivocamente o que, por exemplo, estava a montante das decisões que levaram às manobras de limpeza e desbaste florestal nas tapadas sob sua alçada.

Ainda não há muito tempo, estarão lembrados, armou-se para aí uma controvérsia dos diabos a propósito de tal actividade. Meia dúzia de pseudo defensores do ambiente, autênticos ecologistas da treta, implícita ou explicitamente, na peugada de um grupo – (infelizmente) sem dimensão que, volta não volta, aparece à luz do dia como arauto da defesa do património sintrense – insinuou ou acusou mesmo aquela empresa de crimes cuja existência apenas tem cabimento na sua incomensurável ignorância.

Afinal, como tive reiterada oportunidade de confirmar, esclarecer e justificar,** tratou-se de concretizar atitudes radicais de gestão florestal, absolutamente fundamentais e indispensáveis à saúde e segurança das espécies em presença, que foi desempenhada com o maior cuidado e inexcedível competência por parte de quem a tarefa foi cometida, sob coordenação do Engº Jaime Ferreira, um amigo de Sintra que apraz aplaudir.

Faltava fazer alguma coisa? Faltava sim senhor. Faltava mostrar, à saciedade, a razão que assiste à PSML para fazer e continuar a fazer aquilo que tem feito, e tão capazmente, no âmbito da gestão da floresta, nos terrenos em que não pode deixar de intervir. É neste contexto, portanto, que acabou por ser colmatada a falta a que me refiro.

Com a avisada descrição que o caracteriza, o seu Presidente convidou quem lhe aprouve, para mostrar e demonstrar, perante a obra por fazer na Tapada das Roças, em comparação com a que já foi realizada, por exemplo, na Tapada de Monserrate, como está certo o caminho traçado. Lá diz o povo, na sua proverbial sabedoria, que não há nada como realmente… É a atitude de São Tomé, ou seja, ver para crer. E assim se fez.

Das trevas para a luz

O Prof. Lamas concentrou as dezenas de convidados no topo da Tapada das Roças e, acompanhado da sua equipa de técnicos, conduziu toda aquela boa gente através de um matagal praticamente intransitável, com uma perigosíssima carga de biomassa, onde a luz do Sol mal chega, até à vizinha Tapada de Monserrate onde idêntico cenário ao que acabei de aludir, tão pela rama, foi devidamente corrigido.

Depois de uma experiência tão esclarecedora, pelo caótico inferno da Tapada das Roças, o que a vista alcançou, uns hectares mais à frente, na Tapada de Monserrate, claro que não sendo o céu, é um inequívoco descanso que, ao contrário do que alguns incautos poderiam ser levados a julgar, não dá tréguas seja a quem for. Para assim se manter, não se pode parar pois, caso contrário, repetir-se-á o dantesco ambiente tão caro aos tais apressados ambientalistas.

Para que todos pudéssemos ficar perfeita e totalmente identificados com as questões que fomos levados a partilhar naquela tarde, foram distribuídos dois mapas esclarecedores. Um primeiro, que fornece todas as coordenadas relativas às propriedades da PSML. O outro refere-se ao loteamento da Tapada do Saldanha que, para quem não se lembre, fica exactamente do outro lado da estrada, em frente à Tapada das Roças, servida esta pelo portão que dá acesso à Quinta das Sequóias, na estrada entre a Pena e os Capuchos.

Milagres em Sintra

Basta olhar, cá de fora, para a Tapada do Saldanha para perceber porque razão se lhe chama a mãe do fogos da Serra de Sintra… Aquilo, tal como a Tapada das Roças, é um paiol de autêntica pólvora. Enfim, oxalá (passe a ecuménica evocação a Alá, nesta companhia com a Santa Mãe de Jesus…) que Nossa Senhora de Fátima não se distraia. Se calhar, já terá sido por sua intercessão que, na sequência do 25 de Abril, ao loteamento não se seguiu a concomitante construção. Nesta coisa de milagres, preciso é respeitar uma certa reserva, não vá dar-se o caso de acabarmos por meter a foice em seara alheia…

De qualquer modo, a divisão daquela propriedade, em tão pequenas parcelas, tem inviabilizado a intervenção que se impõe no sentido da salvaguarda de uma zona crítica que, durante tantos anos foi descurada. Vale-nos a certeza de que, de facto, o Prof. António Lamas está atento a tudo quanto se passa ali à volta, pelo que tudo estará fazendo com o objectivo de que a questão se resolva a contento da comunidade.

Na realidade, o advento do Conselho de Administração presidido por este homem providencial, foi determinante para Sintra. É por esta e por outras que não me canso de salientar como o Prof. António Lamas e a sua equipa fazem tanta diferença dos gestores de pacotilha e de cartãozinho, tão medíocres na forma como, sem excepção, dirigem as empresas municipais de Sintra e a própria Câmara Municipal, sem um rasgo de originalidade, sem definidas estratégias. De facto, os milagres de Sintra não estão ao alcance de quem se move sob a fasquia da vulgaridade… De facto, o melhor de Sintra está na Parques de Sintra Monte da Lua!

Amizade iniciática

Mas voltemos à tarde daquele dia 4, durante a qual ainda foi possível constatar quanto valem o companheirismo militante e a amizade de gente como Ema Gilbert, da Associação dos Amigos de Monserrate, Maria José Rau, da Associação dos Proprietários de Quintas da Serra de Sintra, de José Manuel Carneiro, director do Palácio da Pena, do Fernando Castelo, senhor de tantas lides e lutas, e de muitos outros que, tão gostosamente, continuo a encontrar nas periódicas cenas edificantes patrocinadas pelas iniciativas da PSML que, elas sim, nos animam e compensam do destempero da Sintra que sobra e soçobra.

Falta registar que, naquela vespertina caminhada, muito contei com o profundo conhecimento do jubilado e célebre biólogo, Prof. Doutor Fernando Catarino, outro amigo do Prof. António Lamas que, ao meu lado, ia caucionando, em amena conversa, todo o trabalho que por ali se processou e vai continuar. Era o Mestre que, seguro, ia conduzindo à Sabedoria o Aprendiz, beneficiando eu daquele percurso iniciático, através das trevas e dificuldades da Tapada das Roças para, finalmente, ver a Luz da Tapada de Monserrate.*

Não há dúvida, se preciso fosse, era o contraponto da descabelada ignorância dos mentores da campanha de desinformação que, pasmemos todos, apesar de radicar em tão frágeis bases, não deixa de ter quem lhe dê ouvidos e crédito. Exagero da minha parte? Mas, então, assim não sendo, acham que a imprensa local perderia tempo procurando colher a opinião do tal grupúsculo, cuja inactividade é prova cabal da sua falta de qualificação e só proporcional, aliás, à fraquíssima penetração numa comunidade, como a de Sintra, que se depara com tão bicudos problemas de defesa do património natural e edificado?

Aqui chegados, entraríamos já noutra questão, relacionada com certos meandros do quarto poder em Sintra. Todavia, sendo este mesmo o derradeiro parágrafo – embora a funcionar como um epílogo entre parêntesis – apenas me limitarei a remeter os meus leitores, eventualmente interessados na matéria, para um breve exercício de análise e interpretação da última página dos jornais locais, de há uns meses a esta parte. Verão como o patrocínio é deveras concludente…
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*Vão deixar que aqui introduza a componente musical que ali faltou. Nem mais nem menos do que, em A Criação, de Joseph Haydn, o momento em que, logo na introdução, do caos inicial, Deus fez a Luz. Neste ano jubilar do ducentésimo aniversário da morte do compositor, ouvir esta obra máxima da Cultura ocidental é a melhor homenagem que se lhe pode prestar.

**A propósito, ler neste blogue: Incoerência, 04.09.09; Na Serra, o descanso, 03.04.09; Monserrate, o cinco de Março, 06.03.09; Tomar a árvore pela floresta, 06.02.09; Monserrate, o castigo do sucesso; Paisagem Cultural, 09.10.08; À Cruz Alta, a pé, 25.07.08. Entre muitos outros que tenho escrito sobre a actuação do presente Conselho de Administração da PSML, nestes textos aludo à actividade relacionada com os desbastes florestais.


terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Uma aventura
com Isabel Alçada


Hoje, para falar de Isabel Alçada, tenho de recuar cerca de vinte anos, lembrando que, no âmbito das minhas atribuições como Técnico Superior do Ministério da Educação, estava afecto aos Serviços de Ensino de Português no Estrangeiro onde, entre outras tarefas, também me competia a concepção de materiais didácticos e a formação dos professores em actividade junto das comunidades portuguesas emigradas por esse mundo fora.

Não é fácil imaginar como, naquela altura, eram escassos os materiais disponíveis de suporte à actividade pedagógica em questão. Se, actualmente, a situação não é brilhante, então era de quase indigência. Na maior parte dos casos, acrescia a dificuldade de comunicação e, tantas vezes, a resposta dos serviços era lenta e burocratizada.

Nestes termos, o preenchimento de tal lacuna evidenciava-se, não só como o cumprimento de um assumido objectivo institucional mas também, para quem como eu tinha o privilégio de trabalhar em tal enquadramento, um desafio pessoal que procurava corresponder o melhor possível.

Um dos projectos que consegui concretizar, radicava na utilização de alguns livros da Colecção Uma Aventura, cujas bem conhecidas autoras, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, me concediam a rara oportunidade de trabalhar tais obras, com objectivos muito específicos, pela circunstância de proporem conhecidos lugares de Portugal como cenário dos enredos das suas histórias.

De facto, para além do inequívoco sucesso de uma obra que conta com várias dezenas de títulos, as referidas autoras, que também são professoras, produziram um enorme manancial de situações de ficção, sempre em lugares do maior interesse, cujos protagonistas, sabiamente caracterizados, tomam conta do leitor alvo através de uma cumplicidade fácil que sintoniza na idade, no espírito de aventura, na necessidade de alcançar a autonomia possível.

Reparem, no entanto, que os destinatários do trabalho que me propus concretizar eram, em primeira instância, os professores de um universo especial de leitores que constituem um grupo extremamente heterogéneo. Os miúdos com quem trabalham estão longe, muitos já não nasceram em Portugal, fazem parte de segunda e terceira gerações de portugueses instalados em determinadas comunidades estrangeiras, em diferentes continentes. Alguns desses potenciais e reais leitores são bilingues, para outros o Português é ensinado como língua estrangeira ou ainda como língua segunda.

Pensemos num exemplo muito concreto. Para eles, a Sintra e o Palácio da Pena de Uma Aventura no Palácio da Pena são coisa bem diferente daquela que conhecem (ou não) os miúdos portugueses que estão e permanecem em Portugal. Portanto, havia que ajudar os professores a facilitar um diferente acesso a Sintra por parte dos seus alunos.

O que se me impunha – se a essa gente eu queria chegar – era aproveitar a oportunidade da existência daquela obra bem concreta e, para além da componente lúdica suscitada pela sua leitura, propô-la aos referidos docentes numa mala pedagógica cujo conteúdo incluiria, não só o próprio livro mas também um diversificado conjunto de materiais conotados com o lugar. Mas, cumpre esclarecer, foram trabalhados outros títulos da mesma colecção.

Era suposto que, longe de Portugal, pudessem trabalhar o lugar Sintra em termos pedagógicos. Para tanto, concebi um kit de materiais que iam desde folhetos originais de índole turística à fotocópia de notícias de jornal acerca de concretos e preocupantes problemas de Sintra, também sobre projectos relativos ao Palácio e Parque da Pena que se perspectivavam na altura, plantas e mapas, receitas de doçaria regional, um videograma da autoria da Editorial Caminho de promoção de Uma Aventura no Palácio da Pena, um vasto conjunto de diapositivos sobre Sintra, cassete áudio com várias hipóteses de música de fundo, etc.

Naturalmente, pedi às autoras que subscrevessem uma carta, muito informal, dirigida a todos os colegas que iriam receber as tais malas pedagógicas, de estímulo à actividade tão desgastante em que estavam empenhados. Pois a carta veio praticamente na volta do correio, sob a forma de manuscrito, qual diálogo entre gente do mesmo ofício que, como calculam, constituía um forte elemento afim do sucesso de utilização daquele dispositivo de animação da leitura, pretexto para a abordagem de um lugar em termos relativamente abrangentes.

Sob os auspícios da amizade

Sei que Isabel Alçada me considera seu amigo. E não se engana, eu retribuo. De facto, temos em comum como o mais intenso desejo de aplicar todas as nossas capacidades ao serviço das crianças e jovens deste país, com particular destaque para a promoção do gosto pela leitura, eu de forma muito modesta como técnico de Educação, ela não só como autora mas também no desempenho de funções tão importantes como as de Comissária do auspicioso Plano Nacional de Leitura.

A música leva-nos quer à Gulbenkian quer ao Grosses Festspielhaus de Salzburg, à volta da obra dos grandes compositores interpretada sempre pelos melhores entre os melhores do mundo. É uma grande mulher, determinada, competente, discreta e – factor absolutamente determinante nesta avaliação de amigo – sempre de uma irrepreensível elegância.

Quando, recentemente, se começou a falar no seu nome para substituir Maria de Lurdes Rodrigues, achei perfeitamente natural. A competência e dignidade que têm pautado o seu percurso continuarão a prevalecer no desempenho destas funções de Ministra da Educação. Mas entendam que, igualmente, fiquei apreensivo e com imensa preocupação por ela. Aquilo não é coisa que se deseje a ninguém e, muito menos, a um amigo…

Vão deixar que faça um parêntesis para lembrar que, há precisamente trinta anos, fiz parte do Gabinete de uma outra grande mulher da Educação deste país, Maria Alice Gouveia, também uma amiga, infelizmente já falecida, a quem o sistema educativo ficou a dever serviços inestimáveis em períodos críticos, antes, durante e na sequência do 25 de Abril. Pude aperceber-me da violência quotidiana que é estar naquele lugar do poder executivo, da exigência ética de fazer política àquele nível. Fecho o parêntesis.

Como, à minha limitada medida, sei o que é, o que já está a viver e o que espera esta amiga, maior não pode ser a expressão da estima e consideração que aqui registo. Por isso mesmo, recebo muito mal os sinais que certa imprensa não se coibiu de manifestar sobre Isabel Alçada, desde o Público ao Expresso que, enfim, não sendo uns quaisquer pasquins, por vezes, até parecem…

Como se mais nada de interessante houvesse para dar notícia, mesmo num registo ligeiro, já se entretiveram na investigação e subsequente publicação dos seus rendimentos, destacando os cinquenta mil euros de direitos de autor, com comentários de duvidoso nível ou interesse sobre os proventos do casal Vilar. Noutra oportunidade, o destaque para a caneta Montblanc com que assinou o termo de posse…

Que indigência, meu Deus! Será que tão doutos jornalistas (??) conseguirão perceber que, por muito significativos que possam ser os valores em questão, não há qualquer interesse jornalístico na sua divulgação porquanto se referem a rendimentos de inequívoco trabalho? Será que tal espécie de escrevinhadores terá feito coisa idêntica quando, por exemplo, o tão célebre quanto lamentável Dr (?) Armando Vara tomou posse e deixou os cargos de Secretário de Estado e de Ministro?

Quanto às Monblanc, o que dizer? Como eu a compreendo. Adoro. Porque são óptimas, refinadíssimas e fazem a diferença. Não por se terem transformado em ícones de prestígio mas, isso sim, porque até permitem distinguir quem as merece dos ordinários que, desde locutores a comentadores, políticos, etc, não perdem a oportunidade de as exibirem, rolando-as entre os dedos, perante as câmaras… De facto, um piroso será sempre um piroso, mesmo armado de Montblanc.

Não. Jamais verão Isabel Alçada em cenas que tais. E não a macem para além do que é suposto aguentar. Senão acaba por se fartar deixando o lugar a uma qualquer Lurdinhas, que para aí ande à espera de uma oportunidade para atacar na 5 de Outubro…


quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Problema crónico,
Estefânea (I)

Há cerca de quinze dias, solicitei a intervenção, não só da Junta de Freguesia de Santa Maria e São Miguel mas também da Câmara Municipal de Sintra, no sentido de resolver a questão da instalação de um sistema de protecção aos peões, nomeadamente crianças e jovens estudantes, que se deslocam entre o Largo Nunes de Carvalho e a escola D. Carlos I.

Através dos textos que, acerca do assunto, publiquei neste blogue, puderam acompanhar o modo como, até ao momento, ambas as autarquias responderam ao pedido em apreço. Como, mais uma vez, ficaram a saber o que a casa gasta, não estranharão que, acerca da matéria que hoje vos proponho, tenha resolvido, pura e simplesmente, deixar de consultar a Junta de Freguesia para, tão somente, lhe dar conhecimento do contacto com a CMS.

Então, vamos ao caso. Tudo se passa no bairro da Estefânea e já estão a calcular que é um problema de estacionamento. Pois não só já acertaram como, inclusive, também terão previsto que, especificamente, se trata de velha questão. É verdade. E, como tem três vertentes, aqui fica a promessa de que, para além de hoje, ainda aqui virá em mais duas oportunidades.

Naturalmente, importa não esquecer ser esta é uma zona onde, estando instalados inúmeros serviços, o estacionamento não abunda mas, ao contrário do que muita gente pensa, até é capaz de chegar para as necessidades. Por hoje, não pretendo que pensem no que acontece em dias e noites de eventos no CC Olga Cadaval, caso que, pela enésima vez, abordarei num dos próximos dias.

Portanto, apesar de tudo, raro não é haver o estacionamento efectivamente necessário. Talvez em dias de mercado, às terças e sextas feiras, a coisa seja mais difícil mas, se fosse observado o estrito cumprimento da lei, não estaríamos em presença de um caso gerador de questões muito preocupantes que, sistematicamente, põem em causa a circulação em segurança de transeuntes e veículos.

Tenham em consideração a Praça Dr. Francisco Sá Carneiro, ou seja, a do Centro Cultural Olga Cadaval. Considerem também a Rua Câmara Pestana que, entre a Heliodoro Salgado e a Adriano Coelho (que segue para a igreja de São Miguel e Bairro das Flores), apresenta os dois sentidos de circulação. Pois essa curta distância está constantemente impedida por veículos estacionados, de todos os tamanhos e feitios, incluindo, pasme-se, os mais compridos TIR.

Com o objectivo de impedir o estacionamento selvagem, no primeiro segmento da referida Rua Câmara Pestana, entre o quarteirão onde está instalada a própria Junta de Freguesia e, umas dezenas de metros mais à frente, a Conservatória do Registo Predial, impõe-se voltar a pintar o pavimento com as riscas oblíquas amarelas que, há alguns anos, já lá estiveram cumprido cabalmente o objectivo enunciado. Como era coisa civilizada, foi removida. Enfim, o costume…

Portanto, caros leitores, é isto que vou solicitar à Divisão de Trânsito da Câmara Municipal de Sintra. Mais uma vez, depois de, não sei quantas diligências e perante a inoperância da Junta de Freguesia local. Que sinalizem convenientemente aquele segmento da via, de tal modo que seja absolutamente inequívoca a informação quanto à circulação nos dois sentidos e também, sem margem para erros de interpretação, a proibição do estacionamento.

Olhem, provavelmente, se não obtiver a resposta que será de esperar, terei de contactar um bom grupo de pintores de grafitti que, em vez dos desmandos que para aí andam a fazer por tudo quanto é parede, se disponham a colaborar num projecto com tanto alcance cívico…


terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Árvores?
São para cortar...

Na passada semana, dezenas de árvores foram cortadas na Estrada de Chão de Meninos, ali bem à vista de todos, sem que se conheçam atitudes públicas contra tal destruição.

Ali passam por dia diversos responsáveis autárquicos, sem que se conheçam pormenores relacionados com os cortes num local em que, pelo menos, duas máquinas vão trabalhando e cortando sem apelo nem agravo.

Em pleno Parque Natural. Na área da Junta de Freguesia de São Pedro de Penaferrim.Há, pois, algo de estranho nestes cortes, numa altura em que os responsáveis autárquicos estão entre a saída e a tomada de posse.

Aliás, diga-se da facilidade com que se cortam árvores por esta zona, sem que se notem vozes indignadas, o que não deixa de causar sérias preocupações...pelo menos nos que verdadeiramente se preocupam.


Fernando Castelo



segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Megalomania regaleirense

No passado fim de semana, 24 e 25 de Outubro, a Cultursintra/Quinta da Regaleira promoveu um colóquio internacional subordinado ao tema Moradas Filosofais, Princípios e Métodos da Arte Real. Para o efeito alugou o grande auditório do Centro Cultural Olga Cadaval cuja lotação é de 1005 lugares.

Na véspera do evento, as inscrições apontavam para uma participação que não chegaria à meia centena de pessoas. Apesar do fiasco absolutamente monumental o colóquio realizou-se. Não vem ao caso se o programa era ou não aliciante. Também não interessa se a promoção foi capaz. De igual modo, para a economia deste apontamento, pouco interessa como decorreram os trabalhos.

Sabe-se, isso sim, que nada se notou na Praça Dr. Francisco Sá Carneiro, Bairro das Flores, Rua Câmara Pestana, vizinhanças da Estefânea, sempre tão causticadas pelo estacionamento caótico, quando algo de minimamente expressivo se realiza no CCOC. De facto, o sossego que, desta vez, reinou por aqueles lugares, apenas denunciava que as muitas centenas de pessoas esperadas pela Cultursintra/Quinta da Regaleira não se sentiram desafiadas.

Ficar-me-ia por aqui se este tão flagrante episódio de megalomania fosse o único sinal de intranquilidade vindo das bandas da Regaleira. Se bem lembrados estão, ainda não há muitos dias, trouxe a estas páginas uma cena pouco edificante, protagonizada pelo administrador delegado da mencionada empresa. Em pleno acto de lançamento público de um livro do Dr José Manuel Carneiro sobre a Pena, fez uma intervenção de tal modo extemporânea que estragou a cerimónia. Comentou-se que fora uma questão de bicos dos pés…

Finalmente, assunto muito mais preocupante, o projecto de instalar na Quinta da Regaleira, intra muros, um parque de estacionamento para cerca de trinta viaturas, coisa perfeitamente aberrante mas que terá tido o parecer favorável do Igespar e recebido o acordo do executivo municipal de Sintra. E tudo isto para além das atitudes de prepotência que, ainda no domínio do estacionamento junto à Quinta, tive oportunidade de denunciar já há alguns anos.

PS:


A propósito da Regaleira, lembraria alguns textos aqui publicados: Quinta da Regaleira, insegurança institucionalizada, 07.10.07; Regaleira, os senhores da ilha, 23.10.07; Da Regaleira, o desgosto, 05.11.07; Cívica denúncia, 30.11.07; Pena, Regaleira, acessos & civilidade, 05.12.07; Parques de estacionamento, por favor, 06.11.08; Amargas amêndoas culturais, 23.04.09; O quê? Onde? Sim, na Regaleira, 09.07.09; Capital do quê?, 01.09.09; Em bicos dos pés, 05.10.09.

Neste acesso, por ordem cronológica, em relação aos escritos mais recuados, gostaria tivessem em consideração que a atitude da força policial se modificou radicalmente. Hoje em dia, se mais não fazem é porque, de facto, não podem.





sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Gostos e desgostos

Porque, na verdade, independentemente da sua escala, o assunto parece merecer inequívoco interesse, passo a tornar público o texto de um mail que acabo de enviar ao senhor Presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria e São Miguel. Se bem recordados estão, esta questão foi suscitada por matéria aqui trazida, faz hoje oito dias, através do texto Dedicação? Já à prova...


Exmo. Senhor
Presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria e São Miguel


Senhor Presidente,

Acerca do assunto em epígrafe, objecto de uma solicitação de intervenção e constante de uma ficha de atendimento que, em 20 do corrente, subscrevi e entreguei nessa Junta de Freguesia cumpre-me informar:

1.Naquela mesma data, como é do conhecimento de V. Exa., também solicitei a intervenção da Câmara Municipal de Sintra;

2. No dia seguinte, fui contactado pelo Engº Carlos Dinis, técnico da autarquia, que fora incumbido de estudar a matéria relativa ao caso que tive oportunidade de submeter, no sentido de propor a solução que tivesse como mais eficaz para prover a medida de segurança mais atinente ao desejado efeito de protecção;

3. Com uma operacionalidade a que, de facto, não estou habituado, imediata e informalmente, o Engº Carlos Dinis pediu que, na tarde desse mesmo dia, o acompanhasse através do percurso entre o Largo Nunes de Carvalho e a Escola D. Carlos I, que tantas razões de queixa de insegurança pedonal tem suscitado na comunidade e que, até ao presente, têm sido pura e simplesmente ignoradas;

4. Em tão curta confrontação com a realidade das condições de perigo a que, quotidianamente, estão sujeitos tantos cidadãos, nomeadamente crianças e jovens alunos da Escola D. Carlos I, tivemos oportunidade de encontrar e de ouvir o testemunho de quem nos confirmou quão justa e oportuno fora o pedido formulado à Junta de Freguesia e à Câmara Municipal de Sintra;

5. Tanto quanto consegui inteirar-me, o Engº Carlos Dinis irá propor a instalação de uma protecção de segurança que, na maior parte da distância e, de acordo com as características dos vários segmentos do referido percurso, no passeio do sentido descendente, portanto à esquerda da estrada em referência, obedecerá ao modelo já instalado entre a saída da Escola D. Fernando II e a Vila das Rosas;

6. Depois de tão auspicioso encontro com o Engº Carlos Dinis, como V. Exa. poderá facilmente depreender, fiquei deveras impressionado e na esperança de que, tão rapidamente quanto possível, a Câmara Municipal de Sintra, vai dar aos fregueses de Santa Maria e São Miguel a satisfação da concretização de obra tão necessária;

7. Naquela mesma tarde de anteontem, dia 23 do corrente, em informal conversa de rua, na Heliodoro Salgado, tive oportunidade de informar V. Exa. do que, até então se passara e que, resumidamente, dei conta nos parágrafos anteriores. Com toda a frontalidade, logo V. Exa. me retorquiu que a vedação de segurança nada, nada iria resolver.

Aqui chegados, dois dias depois, ainda gostaria de propor que, mantendo V. Exa. a mesma inequívoca e radical opinião que me transmitiu, então dela deverá dar conhecimento à Câmara Municipal de Sintra no sentido de, responsavelmente, como cidadão eleito, ainda possa evitar que seja concretizado um investimento escusado.

Por outro lado, convirá V. Exa. em que, nesta fase do processo, lhe cumprirá propor a alternativa mais competente, uma vez que, na iminência da resolução do caso, não passa pela cabeça de ninguém suspender agora uma iniciativa que, prestes a concretizar-se, me parece merecer o respeito de todos e, em especial, o dos fregueses de Santa Maria e São Miguel.

Tendo em consideração ser este um assunto que nasceu de um texto tornado público, informo V. Exa. de que, como seu autor, continuarei nesse registo, procurando que os cidadãos mais interessados e intervenientes se mantenham ao corrente da evolução do mesmo assunto que, independentemente da escala dos recursos a envolver, é suficientemente sintomático para merecer este destaque.

Sem outro assunto de momento, subscrevo-me, com os melhores cumprimentos,

João Cachado

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Romantismo?

Aquele desconchavo desmiolado que é a campanha Sintra, capital do Romantismo, promovida pela Câmara Municipal tem, como fundamental objectivo, fazer permanecer, em estadas mais prolongadas, os forasteiros que por aqui passam quase como cão por vinha vindimada.

Assim sendo, nada mais óbvio do que pensar em fazer com que tais pessoas se desloquem, natural e necessariamente a pé, através dos belíssimos caminhos que, ainda hoje – apesar do reinante desleixo, prova real da incapacidade de gestão da autarquia – têm ressonâncias, vislumbres, laivos de um ambiente que o comum mortal se habituou a conotar com uma certa ideia de romantismo.

Em Sintra, felizmente, abundam esses lugares de passagem, que convidam ao passo lento, a pedir quietação e ritmo remansoso, detença nas paragens mais propícias aos avistamentos e à surpresa de silêncios cortados pelo grave ruído de troncos que rangem ou se tocam nas alturas, de um bater de asas, que apenas se pressente, à mistura com os cantos mais singulares.

Conhecem os caminheiros a melhor hora para fazer determinados trilhos. Há sempre uma certa luz, consoante a altura do ano, em que um recanto ganha especial interesse. Preciso é saber olhar e escutar, saber viver o privilégio.

Já aqui tenho escrito sobre o Caminho dos Castanhais.* Faz parte de um périplo que deverá começar muito antes, na igreja de São Martinho, seguir pelos Pisões, Regaleira e Caminho dos Frades para, então, se iniciar junto à Quinta dos Alfinetes e prosseguir, inolvidável, até se esbater, num fim de castanheiros quase até ao centro histórico, terminando-se o passeio já no Terreiro do Paço, passando pela Rua dos Arcos.

Esta caminhada pelos Castanhais poderia fazer parte de uma tal Sintra, capital do Romantismo? Talvez, se não houvesse as razões de queixa que gritam o escândalo de tanto desalinho, tanta falta de cuidado, tanta degradação. Pois é. Eça de Queiroz, por exemplo, palmilhava-o diariamente, quando passava temporadas em Sintra com a família, na Quinta dos Castanhais. Que rica maneira de homenagear a sua memória!...

Verdade é que o Romantismo cultiva a dose certa de nostalgia, suscitada pela finitude da coisa que se esvai, do muro que já foi e se arruína. É verdade. Mas não, nunca, jamais a degradação e o aviltamento que acontecem nos Castanhais. Vão lá. Entreguem-se ao paradoxo do deleite outonal mesclado pela desgraça que não descrevo, deixando-a ao vosso desgosto.

Sintra, capital do Romantismo? Assim? Mantendo-se esta incapacidade da autarquia em fazer justiça a pérolas que não sabe cuidar? Assim? Não passa do mais piroso slôgane de promoção de um turismo ordinário, a enganar papalvos ou cativar os pares muito românticos interessados em a aliviar os apressados amores num desses motéis de duvidoso gosto que, bem articulados com a delambida e pirosa estratégia de marketing, a autarquia tem deixado instalar às portas da vila.


*
A propósito do Caminho dos Castanhais, ler neste blogue Criminoso esquecimento, 02.12.08 e Outonal passeio em 18.11.08.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009


Recomeçar

Muito naturalmente, passada que é uma semana sobre as eleições autárquicas, os resultados ainda estão sendo digeridos. Entre vários aspectos pertinentes, destacarei apenas um – o da cobertura mediática – cuja importância é perfeitamente indiscutível. Certos dados, que se afiguram irrefutáveis, evidenciam como a candidatura ganhadora beneficiou, de facto, de uma conjuntura mediática cujas provas se revelaram inequivocamente.

Será que apenas o fisco, o Instituto Nacional de Estatística e nós, munícipes de Sintra, é que sabemos ser este o concelho mais populoso do país? Até parece que sim. Em geral, os meios de comunicação social escrita e audiovisual ignoraram que, em Sintra, estava a acontecer um debate absolutamente decisivo, em que se perfilava a hipótese de uma mudança radical de paradigma de governação local, num território compósito a todos os títulos, gigantesco, diversificado e desafiante como poucos ou nenhum.

Tratava-se de um debate que, bem enquadrado e, como merecia, devidamente apresentado ao país, poderia ter constituído e resultado num conjunto de oportunidades indispensáveis à pedagogia da própria democracia, a nível local. Estava em perspectiva a possibilidade de demonstrar, perante as câmaras das televisões, a incapacidade de uma Câmara Municipal à qual compete gerir uma realidade deveras difícil em cujo seio está incrustado um dos mais míticos lugares do país.

Mas que distracção dos media foi esta? Se bem quisermos entender a que se deverá tão clamorosa ausência, forçoso é recordar que, salvo raríssimas excepções, nos últimos anos, a imprensa, a rádio e a televisão, de acordo com a rasteira qualidade nacional, que é reconhecido ao nosso quarto poder, se tem limitado a reproduzir, acriticamente e com preocupantes sintomas de acefalia, as mensagens mais convenientes ao actual executivo autárquico.

Na sequência de estratégia mediática tão pactuante com o statu quo e demissionária como esta, quem poderia surpreender-se com a decisão – repito, decisão, atitude que implica vontade e objectivo precisos – de remeter para as TVs por cabo, i.e., TVI 24 e RTP N, com direito a menos de uma hora, debates tão importantes, decisivos, capazes de desmontar e fazer cair por terra a estratégia de quem dá a entender que, em Sintra, continua intocável a mítica imagem que a tornou famosa noutras épocas?…

Se dúvidas houvesse, bastaria lembrar que, na verdade, Sintra esteve no mapa televisivo nacional – deixai que assim designe o lamentável quadro… – quando foi necessário mostrar o Prof. Fernando Seara no popularucho convívio com as mediáticas figuras do costume, abraçando o futebolista Caneira ou o curioso negociante de jóias Castelo Branco. Perfeitamente lamentável.

Mas, na verdade, não foi nada de novo, nada que já não tivéssemos constatado, por exemplo, nos momentos vários em que a actual Câmara decidiu atribuir a medalha de ouro do concelho a outras figuras desse tão sui generis meio «artístico», que não aparecem nas prestigiadas publicações da Arte portuguesa, música, cinema, literatura, teatro, plásticas, etc, mas, isso sim, na imprensa cor de rosa que, com tão sintomático sucesso, para aí se vende.

Não sei até que ponto poderá falar-se numa relação de interesse mútuo. É possível. Quem não quer ser lobo… São demasiado sofisticadas as relações de dependência e de interdependência entre comunicação social e política, envolvendo tantos intervenientes intermediários, para que, num escrito tão rápido e ao correr da pena, me abalance a considerações mais substanciais.

Enfim, é chegado o momento de iniciar um novo período de governo local. Serão mais quatro anos em que todos os preocupados e atentos munícipes sintrenses – muita atenção, também os há! – não se revendo no programa da coligação ganhadora, esperam poder exercer o seu dever de cidadania activa, no apoio a iniciativas de uma oposição exigente, séria, responsável, efectiva e actuante.

Com isto, tão somente, pretendo confirmar que, para além de muito esperar da actividade de controlo, fiscalizadora, denunciadora, pressionante que, fundamentalmente, compete aos vereadores da oposição e aos deputados da Assembleia Municipal, igualmente confio naquele implícito programa de intervenção cívica que importa respeitar e, desde já, ter em consideração.

Agora, que governe quem tem de governar.


PS:

Como foi público e notório, umainequívoca cumplicidade com Ana Gomes levou-me a dar-lhe o modesto apoio pessoal que este blogue veiculou. Repito, apoio a Ana Gomes. Mais nada. Naturalmente, terminada a campanha eleitoral, mantenho o apoio pessoal a quem vai desempenhar o cargo de vereadora da oposição. Todavia, sentindo-me solidário com toda a oposição, não deixo de, a bem de Sintra, formular os votos de exercício de um digno mandato aos senhores vereadores da coligação ganhadora e, em especial, ao Prof. Fernando Seara.





sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Dedicação?
já à prova...

Tenham em consideração o Largo Nunes Carvalho e, poucas centenas de metros mais abaixo, na estrada a caminho do Lourel, o núcleo de edifícios que constituem grande parte do agrupamento escolar de Don Carlos I. Entre estes dois lugares há um passeio, do lado esquerdo que, diariamente, é palmilhado por muitas, muitas crianças, jovens estudantes e também familiares.

Ontem, pelas cinco da tarde, a meio deste caminho, assisti à iminência de um atropelamento de duas crianças por um grande camião, que me deixou impressionadíssimo. Não consigo escrever mais nada, seja o que for, antes de, mais uma vez, denunciar a conhecida situação.

Ao contrário do que acontece noutros locais, inclusive na mesma freguesia de Santa Maria e São Miguel, neste segmento de um percurso tão frequentado, não há qualquer protecção de segurança que, de algum modo, também possa contribuir para suster o natural desassossego de miúdos que, na infância e adolescência, apesar de todos os conselhos, insistem em brincar num caminho deveras perigoso, ao lado de intenso tráfego de veículos de toda a qualidade.

Não consigo compreender como, há tantos anos, ao corrente desta situação, nem a Junta nem a Câmara tomaram qualquer previdência. Ontem estive prestes a assistir a uma tragédia. Não passou de um grande susto. Podia ter acontecido com o meu neto, com os vossos filhos. Ainda estamos a tempo de evitar que algo de funesto aconteça realmente.


Já tive oportunidade de contactar com algumas famílias de crianças que frequentam aquela escola e também com meia dúzia de professores e funcionários. Claro que me confirmaram como, todos os dias, como soe dizer-se, andam com o credo na boca. Neste meu contacto, muito informal, ninguém soube dizer-me se a Associação de Pais já fez algum alerta. É para isto que serve.

Também me confirmaram serem imensos os pais que fazem um enorme sacrifício, ao ir levar e buscar os seus educandos, em carro próprio, à Don Carlos I, precisamente porque não estariam descansados se não o fizessem. Que tristeza tão grande! Pagam os seus impostos, cumprem com a sua parte e, depois, as autarquias não lhes devolvem o serviço que já deixaram de esperar. Desesperaram.


Já repararam que, ficando este caso de insegurança resolvido, acabar-se-ia com a evidente preocupação das famílias, recorrendo, escusadamente, ao transporte próprio, em horas de ponta, obrigadas a despesas e stress evitáveis e aumentando a poluição? E, de facto, Escola Segura também é isto. A polícia cumpre a função, as autarquias não podem demitir-se.

Será preciso fazer uma petição? Será que os slôganes das recentes campanhas do Professor Fernando Seara e do Senhor Eduardo Casinhas têm alguma correspondência com a realidade? A total dedicação que apregoaram, a favor dos fregueses e munícipes, vai corresponder a algum passo concreto no sentido do que aqui se sugere?

Por favor, acompanhem-me. Contactem as duas autarquias. Denunciem. Insistam. Não se acomodem. Se, como eu, tivessem presenciado a cena de que dou conta, bem diriam comigo que se trata de um caso de vida ou de morte. Acreditem que, hoje mesmo, poderíamos estar de luto. Assim sendo, não imagino como poderão dormir descansados os responsáveis pelo adiamento de resolução desta situação.