[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 17 de março de 2017







Festival de Sintra
diálogo entre melómanos
[no facebook]
Caro João De Oliveira Cachado é no mínimo de grande inocência poder comparar, mesmo que proporcionalmente ou metaforicamente, o Festival de Sintra ao de Salzburg. O que se pode dizer é que em tempos passados, com um orçamento reduzido, se conseguia fazer uma programação óptima, essa sim que nos podia fazer lembrar - mesmo que não comparável - com o Ciclo de Piano do Festival de Verão de Salzburg!

Absolutamente, caro Bruno Caseirão! O mínimo que podemos partilhar é a certeza de que, para assim ter acontecido, pessoas havia «no circuito» do Festival de Sintra inequivocamente determinantes. Os seus contactos nacionais e internacionais, o enorme saber que detinham, possibilitavam a mobilização das melhores vontades no sentido de que o Festival de Sintra pudesse ter sido um verdadeiro assombro.
Claro que, imediatamente, todos nos lembramos da Senhora Marquesa de Cadaval. Porém, outros nomes importa ter em consideração para que sejamos justos no rol das memórias. Os casos de João Paes, Luís Santos Ferro, o Director Artístico Luís Pereira Leal que, depois de décadas dos mais notáveis serviços, foi «despedido» pelo actual executivo, liderado pelo Dr. Basílio Horta, com uma lamentável carta formal que, em idênticas circunstâncias, envergonharia qualquer entidade remetente...
Lembrar funcionários da Câmara Municipal de Sintra, dedicadíssimos à «causa do Festival» - testemunho eu sou da sua preocupação com todos os detalhes afins da qualidade - como a Dra. Ana Alcântara, ou o Dr. Mário João Machado.
E, apenas para mencionar o período post 25 de Abril, Presidentes da Câmara Municipal de Sintra como Távares de Carvalho, Edite Estrela e Fernando Roboredo Seara que, ao contrário do que, infelizmente, agora acontece bem podem ser lembrados por terem honrado o nobre legado que receberam.
Em conclusão, todas, todas as iniciativas que perduram, culturais e de outros domínios, podem atravessar períodos melhores e piores. Porém, quando, como actualmente sucede com o Festival de Sintra, o nível atingido é o que se verifica, bem nos podemos remeter aos limites do que é e do que não é tolerável.



Festival de Sintra,
a propósito da actual indigência

Ontem, no contexto de um post relativo ao festival de cinema que, num futuro próximo, vai ter lugar em Sintra, depois de descartado por Cascais, suscitava eu a necessidade de se voltar a financiar capazmente o Festival (de Música) de Sintra.
Tendo referido que o Dr Basílio Horta se permitira dizer que o nosso festival iria usufruir de condições dignas de Salzburg, o meu amigo Bruno Caseirão interrogou-me com veemência acerca da veracidade da afirmação.
Com o objectivo de recordar o episódio, eis a transcrição de um dos textos que escrevi acerca do assunto. Mais uma oportunidade para perceber que, mesmo ao usar legítimas figuras de estilo, um Presidente de Câmara deve ter a noção plena dos dislates em que pode incorrer quando aplica uma hipérbole, eventualmente, até com ironia...
Num parêntesis, recordarei que, precisamente, no ano seguinte, em 2015, quandoo Festival de Sintra comemoraria as 50 edições, com condições dignas de Salzburg, Olga Prats viu-se na circunstância de pagar € 30,00 (trinta Euros), do seu bolso, a alguém que, durante um seu recital no Palácio da Vila, lhe virou as folhas...
Findo o elucidativo parêntesis, ainda um alerta. É que, de vez em quando, como aconteceu no caso vertente, entre os ouvintes das suas presidenciais charlas, pode encontrar alguém que conheça bem a situação a que se reporta. Por exemplo, no meu caso, vou aos festivais de Salzburg há quarenta anos e, ininterruptamente, há vinte e não sei quantos...
Por isso também, me sinto autorizado a pedir que reparem como, de facto, na mesma Europa, parece estarmos em galáxias diferentes.
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[Blogue sintradoavesso]
segunda-feira, 23 de Junho de 2014
Festivais de música:
Salzburg, outro planeta

[Transcrição do artigo publicado na edição de 20 de Junho de 2014 do ‘Jornal de Sintra’]

Na manhã do passado dia 5 de Junho, durante a apresentação pública do Festival de Sintra 2014, o senhor Presidente da Câmara referiu-se ao Festival de Salzburg para afirmar que, no próximo ano – altura em que vamos comemorar cinquenta edições – Sintra vai ter condições para apresentar uma programação digna da Meca da grande música.
Como já tive oportunidade de esclarecer, no uso de uma hipérbole bem aplicada, o Dr. Basílio Horta apenas pretendeu aproveitar aquela oportunidade de troca de impressões acerca da actual 49ª edição, comprometendo-se, desde já, com o maior empenho pessoal, para a afectação dos recursos indispensáveis, em 2015, à organização de um festival à altura dos seus melhores pergaminhos.
Ao Festival de Salzburg, portanto, se referiu o Presidente. Na realidade, bem pode assim designar-se embora tendo em consideração que, afinal, tão só e especificamente, se alude ao Festival de Verão, certo é que o mais importante, o mais conhecido da cidade dos príncipes arcebispos, mas apenas um dentre mais onze (!!!) que o burgo promove ao longo dos doze meses do ano, cada um dos quais importantíssimo, e também designado como festival de Salzburg…
Confirmando como assim é, durante temporadas sucessivas, a partir de Mozartplatz, Salzburg, Austria subscrevi artigos para o Jornal de Sintra, três vezes por ano: um, durante a Mozartwoche [Semana Mozart], festival de Inverno, exclusivamente dedicado a Mozart, quase duas semanas entre Janeiro/Fevereiro, coincidindo com o aniversário de Mozart (27 de Janeiro); um outro, o Österfestspiel [Festival da Páscoa] e ainda o Salzburg Festspiel no Verão. E bem posso gabar-me do sucesso dessa escrita porquanto alguns dos meus leitores acabaram mesmo por ir a Salzburg.
A montante de uma fascinante realidade, que nos remete para um quadro deveras propício de cidade dos festivais, em que as belezas naturais e o património edificado desempenham papel crucial, cumpre lembrar que, de há muitas dezenas de anos a esta parte, Salzburg se apetrechou para acolher uma grande concentração de eventos musicais.
Essencialmente, capitalizou o factor da localização geográfica estratégica. Basta ter em consideração que alguns dos meus amigos, vivendo em Milão ou Stutgart fazem a viagem de ida e volta no mesmo dia, para não referir os de Munique, que estão a dois passos. Estranho, estranho é o que comigo acontece que, para lá chegar e regressar a casa, tenho de fazer um total de quase seis mil quilómetros! Como chego a lá ir três vezes por ano…
Números impressionantes
Então, passarei a apresentar os dados estatísticos mais recentes, referentes ao ano de 2013 e, reparem bem, só no que se refere ao Festival de Verão. Estão preparados? Pois bem, durante os 40 dias da iniciativa, dispondo de 14 auditórios, houve 293 espectáculos, dos quais 38 récitas de 6 grandes produções de ópera, 9 de récitas concertantes de ópera, 94 de concertos sinfónicos, coral-sinfónicos e recitais, 60 de récitas de teatro, 37 de espectáculos para crianças, 1 baile, 35 espectáculos especiais, 19 ensaios gerais abertos ao público.
Quanto aos bilhetes, estiveram 256.285 disponíveis (estão mesmo a ler bem, duzentos e cinquenta e seis mil, duzentos e oitenta e cinco ilhetes!), dos quais 73.834 referentes às óperas, 62.719 às peças de teatro, 119.732 aos concertos. Os espetadores provieram de 73 países dos quais 39 eram não europeus. Vendeu-se 93% dos bilhetes disponíveis sendo de E:28.285.082 (vinte e oito milhões, duzentos e oitenta e cinco mil e oitenta e dois Euros) a receita da bilheteira. Estiveram acreditados 653 jornalistas ao serviço dos media de 35 países.
Quanto às receitas, a distribuição é a seguinte: da venda dos bilhetes, 46%, da Associação dos Amigos e patrocinadores do Festival, 4%, Patrocínios e dádivas, 18%, Financiamento Público, 17%, Fundo de Promoção Turística, 4%, Outras Receitas, 11%. O último estudo datado de 2011, elaborado pelo Zentrum für Zukunftsstudien Fachhochschule Salzburg, entre outras conclusões, demonstra que o efeito deste Festival de Verão no domínio das receitas fiscais equivale ao triplo do montante do investimento das entidades públicas. Finalmente, que o impacto geral do Festival no volume de negócios e na produtividade se cifra em cerca de 276 milhões de euros! E, não esqueçam, em apenas 40 dias de Festival.
Valerá a pena, em Sintra, ter estes dados em consideração? E ainda lembrar os casos de outros famosos festivais como Bayreuth, Verona, Luzern que também já me têm ocupado nas páginas deste jornal? Julgo que, salvaguardadas as questões de escala, se se pretende que Sintra volte a ocupar um lugar de referência nacional, permitindo-se lançar algumas pontes além fronteiras, então estas fontes podem ser preciosas. Voltaremos a este assunto.
[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

[Ilustr: Salzburg, Grosses Festpielhaus, aenas um dos vários auditórios da cidade - aspectos da fachada e do interior da sala que dispõe de 2300 lugares]



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À especial atenção do
Senhor Vereador Luís Patrício 
da Câmara Municipal de Sintra

Para os meus amigos não sintrenses, passo a explicar que o referido Senhor Vereador, que tem o pelouro da Mobilidade Urbana, entre muitas promessas por cumprir, também avançou com uma que designou como «Quarteirão das Artes».
O seu objectivo era o da animação cultural da zona da Estefânea de Sintra onde, por exemplo, estão instalados o Centro Cultural Olga Cadaval, o edifício do Casino de Sintra e o Teatro Chão de Oliva. Há uma artéria pedonal, de aspecto horroroso, que também teria de ser requalificada.
Pois, o Senhor Vereador também prometeu que a requalificação em apreço passaria pela reposição da linha do eléctrico, que por ali já passou há umas décadas, obra que estaria pronta até ao termo (Setembro de 2017) do mandato do actual executivo autárquico presidido pelo Dr. Basílio Horta.
Claro que, nem «Quarteirão das Artes» nem prolongamento da linha do eléctrico. Como não era para cumprir, não se cumpriu mesmo... Serviu, no entanto, não para 'ter' fosse o que fosse mas, isso sim, para 'entreter'.
Mestre exímio em manobras de entretenimento, estas duas tretas emparceiraram com outra célebre - a do teleférico entre São Pedro e a Pena - com a qual, ainda entreteve uns bons dois anos até que a descartou por indecente e má figura... Mobilidade urbana? No seu gabinete, só altos voos condenados ao 'espalhanço'...
Entretanto, em Cascais, onde a vida cultural local é coisa encarada com uma seriedade outra, obedecendo a programas geridos por autarcas mais informados, cultos, lúcidos e competentes, o «Bairro dos Museus» é a realidade que se pode verificar.
Eis a notícia. Com todo o gosto! E, naturalmente, sempre que possível, tendo em consideração a oferta cultural de Estoril e Cascais apenas a pouco mais de dez quilómetros, por lá nos terá, a mim e a mais uma série de atentos sintrenses. Valha-nos esta 'compensação'!
PS:
Embora já tenha sugerido a outros autarcas, e até mais do que uma vez, aqui fica a sugestão de o Senhor Vereador fazer um estágio na Câmara Municipal de Cascais... Bem sei que já falta pouco tempo para permanecer no posto mas, até em termos curriculares, é capaz de lhe ser vantajoso. Pelo menos, talvez aprendesse a distinguir entre quem promete e quem faz...
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E o Festival de Sintra, 
sim, o Festival de Música de Sintra?

250.000 Euros - duzentos e cinquenta mil !!! - nos termos do Protocolo que vai ser assinado entre a Câmara Municipal de Sintra e a 'Leopardo', empresa produtora de Paulo Branco é a verba com que o município vai apoiar a iniciativa que a Câmara Municipal de Cascais descartou depois de ter acolhido 10 edições da iniciativa.
Aqui fica a notícia. E, então, a propósito de um investimento tão significativo num festival que não tem qualquer tradição em Sintra, parece terem cabimento algumas linhas acerca de outro que tanto nos diz.
Cabe perguntar que motivos justificarão o facto de Sintra não financiar convenientemente aquele que, até há poucos anos, foi o Festival de Música com os mais nobres pergaminhos a nível nacional.
O actual Presidente, Dr Basílio Horta, chegou a afirmar, em 2014, que o Festival de Sintra iria contar com financiamento digno de Salzburg... Como jamais lhe passará pela cabeça o que isso poderia ser, logo entreguei ao Senhor Vice-Presidente um artigo que tinha publicado no 'Jornal de Sintra' acerca do assunto.
Devem ter ficado todos tão assustados com a escala dos números por lá praticados que terão resolvido nem sequer estar à altura do que foi prática no tempo em que era Director Artísticoi o meu querido amigo Dr. Luís Pereira Leal. Daí até à actual indigência foi o passo que todos conhecem.
Não fosse a Parques de Sintra ter assumido a promoção de iniciativas programáticas no âmbito da música erudita, os já famosos ciclos que decorrem em Queluz (música dos períodos barroco e clássico), Palácio da Vila (medieval e renascentista) e Palácio da Pena (período romântico), e o actual panorama seria um escândalo.
Com outra perspectiva do que possa voltar a ser o Festival de Sintra, com a dignidade que herdou e que não tem sido honrada, talvez voltemos a acolher uma programação a contento. Mas isso pressupõe autarcas lúcidos, informados, cultos e tão deslumbrados perante a grande Música como o era a Senhora Marquesa de Cadaval.
A decisão acontece porque o festival de cinema organizado por Paulo Branco ia ter menos apoio financeiro da Câmara Municipal de Cascais.
NIT.PT|POR RICARDO FARINHA

terça-feira, 14 de março de 2017





A Transparência em tratos de polé!


Veja-se a flagrante falta de controlo da Câmara Municipal de Sintra em relação às suas publicações oficiais incluindo as subscritas pelo próprio Presidente.
No caso vertente, subordinado ao título "Transparência Municipal SINTRA", datado de 6 de Abril de 2015, assinado por Basílio Horta, a Câmara mantém, na sua página oficial, um texto com 6 parágrafos, do qual é transcrito o seguinte excerto, com o devido realce para uma zona da folha à esquerda, sob a fotografia do Presidente:
"(...) A transparência como princípio constitucional imanente é, antes de se tornar um valor jurídico, um princípio ético estruturante da cidadania e da própria sociedade democrática, dai que o seu respeito constitua dever inclinável dos agentes públicos responsáveis pela gestão dos recursos da comunidade.(...)"
O pobre escriba a quem o Presidente terá encarregado da tarefa, redigiu e tratou de publicar a 'presidencial mensagem' sem se ter apercebido de que aquele adjectivo ´inclinável' corrompe totalmente a mensagem. O coitado terá pretendido, isso sim, escrever 'indeclinável'... Porém, não cuidando quanto lhe competia, pôs a boca do Presidente a fugir-lhe para a verdade...
Só hoje, passado tanto tempo, dei pela falta. Por mero acaso. O que não se entende é que o serviço do qual dependeu a divulgação de tão preciosa pérola, não tenha dado conta nos dias seguintes, nas semanas seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes...
De facto, quando, nem a imagem que passa do próprio Presidente é devidamente escrutinada, está tudo dito. Como é possível ter-se permitido o relaxamento do seu discurso, em matéria tão crítica? É que, nem mais nem menos, está em jogo, e passo a citar "(...) a transparência como princípio constitucional imanente (...)"...
Detalhe? Insignificância? Mais uma bizantinice do João Cachado? Não, meus amigos, apenas mais um flagrante sinal da cultura do desleixo reinante.
Não. Não sendo coisa pouca é mesmo simbólica de um estado de coisas que urge alterar.

Na gestão pública autárquica, a transparência é fundamental para a mudança de comportamentos, aumentando o poder dos eleitores e dando-lhes a possibilidade de se tornarem uma comunidade que verdadeiramente participa e controla.…
CM-SINTRA.PT


sábado, 11 de março de 2017

 
 
 
Sintra-Sintra,
ímpar e exclusiva,
Vereador exclusivo !
 
 
 
Eis a segunda parte do artigo inicialmente publicado na edição de 27 de Janeiro do Jornal de Sintra.
...
Trata-se de uma ideia que advogo há bastante tempo. Teria de procurar em que data o 'Jornal de Sintra' publicou o meu primeiro artigo defendendo esta opção. Seguramente, em 2003.

A sua pertinência parece-me inequívoca e, felizmente, trata-se de proposta cujo bom acolhimento, estou em crer, teremos oportunidade de verificar proximamente.

Não inventei fosse o que fosse. Casos como o da sede do concelho de Sintra, há-os por essa Europa fora, obedecendo a este modelo. Com seríssimos problemas por resolver - entre os quais o do acesso aos pontos altos da Serra é apenas um dos de mais fácil solução - este território de Sintra pressupõe uma gestão específica, exclusivamente afecta.

Ora bem, tal não significa que o Vereador, aliás a exemplo dos outros membros do executivo municipal, não seja um inter pares e nunca um 'primus inter pares'...



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 6 de março de 2017



Espólio Bartolomeu Cid dos Santos
Sintra, 2013 - 2017

4 frustrantes anos de lamentáveis negociações:
- adiamento sine die!


“(…) ouvi é que a Câmara não conseguiu chegar a acordo com a viúva de Bartolomeu Cid dos Santos, sobre os termos do acordo de cedência das obras. Quando, não recordo a data, mas há quatro anos segundo diz, se fez, na Regaleira, aquela cerimónia, onde estavam representados a Câmara e a família, fiquei com a ideia de que tudo estava já acordado. O João sabe-me dizer o que se passou, então?”

[Transcrição parcial de uma questão apresentada por Emília Emilia Reis, hoje publicada sob a forma de comentário ao meu texto “Bartolomeu Cid dos Santos ainda à espera...”]
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Em resposta à pergunta colocada pela minha amiga Emília Emilia Reis, não posso deixar de partilhar convosco certos factos, alguns dos quais até de ordem pessoal, que, espero bem, possam contribuir para tornar mais clara uma situação que, de facto, tem todos os ingredientes para que permaneça em penumbra mais ou menos conveniente.

Começo, então, por recordar que estava eu convalescer de uma intervenção cirúrgica na perna esquerda, na sequência de uma lamentável queda. Pois, ainda que estivesse praticamente impedido de me movimentar na altura da celebração do Protocolo entre a Câmara Municipal de Sintra e Fernanda dos Santos, viúva de Bartolomeu Cid dos Santos, a memória do meu querido amigo impunha-me a presença na cerimónia. E consegui, graças a Deus e ao precioso auxílio do querido amigo Mário João Machado, que me veio buscar a casa para ir até à Regaleira e regressar.

Na sequência das notas publicadas no texto precedente citado na epígrafe, bem posso considerar que o Protocolo foi mais um passo absolutamente decisivo para que se concretizasse aquele que é – recuso-me a usar o verbo no pretérito – um projecto cultural tão importante, não só para Sintra mas também para a área metropolitana de Lisboa e, em geral, para o país.

Poucos meses faltavam para as eleições locais. Então, já com o actual executivo autárquico em funções – embora perfeitamente convencido, tal como Emília Reis, “(…) de que tudo estava já acordado (…)”, ter-se-á verificado que algumas alíneas do clausulado do aludido Protocolo necessitariam de reformulação no sentido de melhor assegurar os interesses da autarquia.

Interessado que estava no processo, procurei inteirar-me e sempre confiei que se tratava de questões perfeitamente ultrapassáveis através de civilizado diálogo entre as partes. Aliás, verificando-se o extraordinário interesse do acervo, a Câmara apenas tem que evidenciar «só» o maior empenho para o sucesso das negociações inerentes.

Tudo solicitava que as mesmas pudessem processar-se com a rapidez conveniente já que estão em jogo, além dos interesses e valores culturais, também os relativos às actividades económicas, nomeadamente, ao nível do turismo, da restauração e do alojamento, interesses da maior relevância para a comunidade.

Não esqueçamos que nos estamos a referir a um pólo cultural que, de acordo com as características desenhadas, só tem paralelo com o que se passa em Cascais com o caso Paula Rego. Bartolomeu Cid dos Santos, tenho-o recordado amiúde, através de textos publicados no ‘Jornal de Sintra’ e nas redes sociais, é um notável das artes plásticas a nível mundial cujo espólio foi objecto do maior interesse e, inclusive, disputado por autarquias nacionais e entidades internacionais de relevância.
 
Breve parêntesis para lembrar que não deixa de ser curiosa – mas não surpreendente para quem acompanha o universo das artes plásticas em Portugal e além fronteiras – a íntima relação que une os dois grandes nomes portugueses da pintura e da gravura, amigos e cúmplices das mais bonitas aventuras artísticas em Londres. Na capital do RU, durante décadas, na Slade School of Fine Art, a faculdade de Belas-Artes da University College London, Bartolomeu Cid dos Santos, foi mestre dos mais famosos gravadores do mundo, que o referem e reverenciam como grande entre os maiores.

Voltemos ao Protocolo. Já agora, para que possam imaginar a que ponto pode chegar a maledicência, tenham em consideração que até o meu nome serviu para atacar o inequívoco interesse do acolhimento do acervo. É verdade. Estando prevista a figura de um curador da Colecção Bartolomeu Cid dos Santos, houve gente absolutamente medíocre e mesquinha que teve artes de pôr a circular o boato de que todo o meu interesse no assunto se limitava à circunstância de pretender o cargo em apreço…

Tendo-me preocupado com o andamento da questão, de vez em quando, em contacto com o Senhor Vereador Dr. Pedro Ventura, o mais que tenho conseguido saber é que continuam os obstáculos à resolução a contento. A verdade é que, por muito sofisticadas que pudessem ser as cláusulas cuja negociação se impunha com a parte cedente, nada, absolutamente nada justifica que, passados quatro anos, não se tivesse conseguido chegar a um acordo. Um acordo é sempre possível. Basta querer! E, naturalmente, ceder, sem perder a dignidade, e sempre com o objectivo de honrar o interesse geral, o interesse da comunidade.

A verdade é que, não tendo feito quanto seria necessário para levar a bom porto as negociações em questão, a Câmara Municipal de Sintra pôde instalar, à vontade, no edifício do Casino de Sintra, aquela galeria de artes plásticas denominada ‘musa’ que, inequívoca, manifesta e evidentemente, mantém às moscas, às moscas, às moscas !!

Depois do período durante o qual ali esteve instalado o Sintra Museu de Arte Moderna-Colecção Berardo, sob direcção da minha querida e saudosa amiga Maria Nobre Franco, tendo apresentado exposições magníficas, atraindo público que expressamente se deslocou a Sintra proveniente das mais diferentes latitudes, hoje, aquilo é um manifesto da maior incompetência, uma verdadeira aberração que há-de permanecer como bandeira hasteada no poste mais alto desta época negra da vida cultural de Sintra.

Decorreram quatro frustrantes anos, de lamentáveis negociações. Amigos que, tanto como eu, se interessam por estes assuntos, me têm dito que o nulo resultado dessas diligências entre as partes, é o mais conveniente à manutenção do statu quo. Mesmo sem pretender incorrer em qualquer cogitação afim de hipotética teoria da conspiração, quase sou levado a pensar que até terão razão…

De qualquer modo, além de mim – que, como bem sabem todos quantos me conhecem e são mais ou menos próximos, familiares, amigos e conhecidos, jamais pretendi fosse que lugar fosse – há muitos sintrenses que ainda esperam poder ver o espólio de Bartolomeu Cid dos Santos instalado em Sintra, com a dignidade que merece. É nesse grupo que me atrevo a considerar incluída a Emilia Reis. Por isso, pela consideração imensa que me merece, também estas linhas.


[Ilustr: Bartolomeu Cid dos Santos; Barto, "Atlantis" (1973); Barto, "Quatro Bispos" (1962)]

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Foto de João De Oliveira Cachado.

domingo, 5 de março de 2017


Bartolomeu Cid dos Santos
ainda à espera...


Há precisamente 4 anos, em 4 de Março de 2013, subscrevi e aqui publiquei o texto que se segue. O meu júbilo não podia ser maior. Naquela data, sob a presidência do Prof. Fernando Roboredo Seara, a autarquia tomou uma decisão perfeitamente histórica para a vida cultural de Sintra.

Leiam. Tentem entender, se puderem, o meu estado de espírito tanto naquela data como hoje. A informação que, então, veiculei não podia ser mais fidedigna, tendo-me sido transmitida pelas duas pessoas que são nomeadas, Prof. Fernando Roboredo Seara e Dr. Pedro Ventura, com igual ou maior satisfação do que a minha.

Passados 4 anos, o executivo autárquico seguinte, actualmente ainda em funções, não conseguiu dar sequência à decisão anterior. Que pena!
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SINTRA COM
ESPÓLIO DE BARTOLOMEU CID DOS SANTOS!


Acabo de aceder a informação absolutamente privilegiada nos termos da qual a Câmara Municipal de Sintra, em reunião de hoje, acaba de decidir receber o espólio de Bartolomeu Cid dos Santos que foi meu pessoal amigo aqui em Sintra.

Deixou uma enorme saudade a todos que tiveram o gosto de com ele privarem. A sua morte, sentidíssima, resultou num vazio tão difícil de preencher que só a notícia de hoje vem compensar, em especial, no alento que a todos determina de saber honrar o trabalho de quem nos cumulou com este fabuloso presente.

Posso testemunhar que os grandes artífices desta autêntica façanha cultural foram o próprio Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Prof. Fernando Roboredo Seara e o Vereador Dr. Pedro Ventura que se envolveram, ao longo de muitos meses, em difíceis e sofisticadas negociações que hoje culminaram com um sucesso tão determinante.

Trata-se, sem qualquer margem de dúvida, do maior acontecimento cultural dos últimos anos nesta terra. O espólio de Bartolomeu Cid dos Santos é um conjunto do maior interesse artístico, além do valor material, avaliado em cerca de quatro milhões e meio de Euros, composto por cerca de 3.600 obras, entre gravuras, desenhos, aguarelas e guaches, incluindo uma componente fotográfica de inestimáveis atractivos, além de obras de grandes artistas amigos deste que foi um dos maiores gravadores, mesmo a nível mundial.

Outro grande motivo de regozijo reside no facto de que tudo ficará sob custódia da Câmara Municipal de Sintra, a cargo da SintraQuorum, a empresa municipal que gere um dos melhores dispositivos culturais de toda a área metropolitana de Lisboa, ou seja, o conjunto de edifícios do Centro Cultural Olga Cadaval e Casino de Sintra, edifícios traçados pelo Arq. Norte Júnior. O espólio de Barto ocupará a quase totalidade do espaço do referido Casino onde apenas restarão duas salas para exposições temporárias.

Com este tão significativo benefício, Sintra adquire e vai passar a disponibilizar o fruto de uma outra mais-valia, a nível nacional, como incontornável referência da Arte Contemporânea. Preparemo-nos para festejar condignamente tao grande júbilo. E assim é porque, repito, Fernando Seara e Pedro Ventura tudo fizeram no sentido de que Sintra e Portugal ganhassem o que outras terras nacionais e estrangeiras estavam cobiçando com tão natural e justificado propósito. Naturalmente, é para eles que vai o meu mais forte e caloroso abraço de parabéns.

Costuma dizer-se e, mais uma vez, se verificou que o segredo é a alma do negócio. Neste caso, nem consigo perceber como algo tão grande pôde permanecer tão no segredo dos deuses…


PS: No arquivo do sintradoavesso.blogspot.com encontram vários textos que subscrevi sobre Bartolomeu Cid dos Santos

[Ilustr: Bartolomeu Cid dos Santos]

 
 

 
 

 

 


Vasco Dantas Rocha
Recital luminoso no Palácio da Pena


"(...) Quando me convidaram, houve a sugestão de que incluísse obras de Liszt, talvez devido ao meu CD 'Golden Liszt' (editado em 2016). Mas depois, pensando, achei mais interessante abordar diferentes facetas da obra de Liszt e "fugir" um pouco das peças mais virtuosísticas", explica. (...) Há as transcrições para piano de obras de outros compositores - no caso, de Bach, de Schubert e de Wagner; há, dentro das obras originais, os 3 Sonetos de Petrarca, que no fundo são de certo modo transcrições de originais seus para canto e piano e que remetem para as suas viagens por Itália. E há, a fechar, a Rapsódia Espanhola (...) provém de uma peregrinação dele importante para nós, que foi a digressão que ele fez pela Península Ibérica. E a obra, apesar de se chamar Espanhola, inclui também temas portugueses (...)"

[Entrevista a Bernardo Mariano, 'Diário de Notícias', 4.03.17]

Estas, grosso modo, as coordenadas de um recital sabiamente concebido através do qual, com toda a exuberância, teria oportunidade de evidenciar as razões que levaram Massimo Mazzeo, o ponderado Director Artístico das iniciativas musicais da Parques de Sintra, a convidá-lo para este recital, subordinado ao tema 'As peregrinações musicais de Franz Liszt', evento inaugural dos 'Serões Musicais no Palácio da Pena'.

Com lotação esgotada, o Salão Nobre do Palácio da Pena acolheu o jovem pianista que confessou o seu deslumbramento por aqui tocar pela primeira vez. As referências a D. Fernando II, as relações do Rei-consorte com o próprio Liszt - com quem, aliás, comungava as mais directas origens húngaras - o estupendo espaço e o ambiente propício ao gozo da grande Música, não podiam ter impressionado mais o Vasco Dantas Rocha.

Sabem o que é um recital electrizante, uma daquelas oportunidades em que só há lugar para aplausos calorosos, muito calorosos, o mais sorridentes possível, em que, unânime, o público se levanta, vezes sucessivas dizendo ao artista como o conquistou, como está no seu coração? E, neste caso, até nem era um público qualquer, bem tendo eu tido ocasião de trocar impressões com amigos melómanos, conhecedorres, verdadeiramente entusiasmados com a Arte que o pianista nos propiciou.

Vasco Dantas Rocha partilhou connosco todos os matizes exigíveis à interpretação destas peças, em que, sob todas as formas, está subjacente o mais flagrante virtuosismo lisztiano. Deixem que, neste contexto em que Franz Liszt está tão presente, possa eu confessar apenas um desgosto, qual seja o de o nosso querido Sequeira Costa - cujos estado de saúde e distância geográfica não lhe permitem – pudesse assistir a esta «prova da Pena» nos termos da qual poderia concluir como, em Vasco Rocha tem um digníssimo sucessor.

Estamos todos de parabéns! A finalizar, nesta conclusão do júbilo do serão de ontem, uma referência ao grande anfitrião, Dr. Manuel Baptista, Presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra e ao Director do Palácio, Prof. António Nunes Pereira.

A sinceridade do entusiasmo de ambos, no afectuoso abraço que partilhávamos com Massimo Mazzeo e com o próprio Vasco, no final de um recital - em que ainda nos cumulou com "Cavalgada das Valquírias", outra das transcrições de Listt a partir de outra ópera do genro Richard Wagner - não podia ser mais afectuosa, circunstância que muito me comove.

Querem partilhar comigo a "Rapsódia Espanhola" de Liszt, na interpretação do Vasco Dantas Rocha? Então, aí têm um vislumbre do que ontem vivemos na Pena.

Boa Audição

https://youtu.be/dhwqmyoKlfI

PS: A próxima oportunidade de assistir a um seu recital será em 29 de Abril, nos 'Dias da Música' no CCB, em que tocará obras de Schumann, Liszt/Wagner e Stravinsky/Agosti.

[Ilustr: Vasco Dantas Rocha; Franz Liszt]
 
 
 
Foto de João De Oliveira Cachado.
 
 
Foto de João De Oliveira Cachado.