Sintra do avesso
João Cachado
Quarta-feira, 18 de Abril de 2012
Sintra, dezoito de Abril,
Dia Internacional dos Monumentos e Sítios
No Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, a celebração que, a nível pessoal, pretendo assumir, numa terra tão pródiga em vestígios patrimoniais importantes e sofisticados, não pode deixar de se conjugar, quer com o que de melhor se faz a nível nacional e internacional no que à preservação e recuperação do património natural e edificado diz respeito, quer com a memória de um atentado cujos efeitos ainda estão por resolver.
Se, por um lado me refiro à empresa de capitais públicos Parques de Sintra Monte da Lua, cuja competência abrange os bens patrimoniais mais conhecidos de Sintra, por outro, mais uma vez, lamento o tristíssimo destino do tanque de Seteais, lugar geométrico de um lazer ancestral de dois séculos, transformado num prosaico e indigno armazém de maquinaria que, a seu bel-prazer, o concessionário do Palácio Hotel concretizou.
O que mais lamento é que tivesse sido a incúria e desvergonha do próprio IGESPAR, entidade pública e oficial afecta ao Ministério da Cultura, cujo objectivo último é zelar pela preservação do Património Cultural, que autorizou e deu aval a um despautério que, como é do conhecimento geral, em resultado da luta que levei a cabo em 2008, foi coroado pela recepção de uma caricata resposta oficial.
Nesta data, lembrar o episódio, também pressupõe o pedagógico objectivo de funcionar como alerta contra a possibilidade de análogas situações. E se isto afirmo é porque não consta que tivesse sido banida a incompetência e a ignorância que enquadraram a aludida resposta, sob forma de ofício subscrito por um Arquitecto Assessor Principal, em que teve o topete de me sossegar com a ideia de que a intervenção seria compensada através da instalação de um espelho de água ilusionista, a instalar sobre a cobertura que, entretanto, tinha sido construída para fechar o tanque e consumar o crime…
Está tudo documentado, fazendo parte de um arquivo que também preservo no meu património das ignomínias que vou tendo conhecimento. Sei, contudo, que o caso não está esquecido e também sei de cidadãos sintrenses que, proximamente, tomarão uma interessante iniciativa lembrando como urge resolver o assunto.
Apesar de uma certa letargia, agudizada pela situação de crise vigente, há pessoas que não deixam cair os braços, para quem a defesa e recuperação do património não se reduz à emissão de estéreis declarações de intenção como as que hoje lemos por tudo quanto é meio de comunicação social. Ainda são honrosos resquícios de uma cidadania que teima afirmar-se, num Portugal cujos índices de analfabetismo e iliteracia são tão desgastantes e preocupantes.
PS:
Pedi ao meu amigo Fernando Castelo, cúmplice desta luta de vários anos pela preservação e, actualmente, recuperação de um bem patrimonial sintrense e nacional, que introduzisse na minha cronologia os seus documentos visuais e audiovisuais que bem ilustram estas palavras. Aqui fica o meu antecipado agradecimento.
Terça-feira, 17 de Abril de 2012
Chostakovitch,
nas mãos da juventude
Sem margem para qualquer dúvida, Dmitri Chostakovitch é o grande compositor sinfonista do século vinte. Nada menos do que quinze sinfonias constam da lista das suas obras, seguindo muito de perto a evolução do compositor, como músico e como cidadão empenhado, numa União Soviética onde não foi fácil ser artista livre, em especial durante o consulado de Estaline.
A Sinfonia Nº 7 em Dó Maior, op. 60, que levou Leninegrado como subtítulo, é particularmente célebre já que, por um lado, funciona como hino heróico à resistência da Rússia contra o nazismo, em especial durante o cerco das tropas alemãs a Leninegrado e, por outro, poderá ser entendido como denúncia das violências perpetradas pelo regime vigente.
Foi esta a última obra trazida ao Grande Auditório da Gulbenkian pela Gustav Mahler Jugendorchester que, no domingo e na tarde de ontem, evidenciou o proverbial empenho dos jovens músicos que a compõem bem como o seu altíssimo gabarito, desta vez sob a direcção do jovem maestro alemão David Afkham. E, de facto, se o objectivo também era demonstrar como se mantem impecável o projecto inicial desta orquestra fundada por Claudio Abbado, não poderia ter terminado de melhor maneira a breve estada de dois dias em Lisboa.
Trata-se de uma peça absolutamente fascinante para grande orquestra sinfónica, com a duração total de cerca de uma hora e um quarto, em quatro andamentos, cuja sequência e obediência programática quase nos remetem para a morfologia de um poema sinfónico cujos contornos seriam os das referências políticas e beligerantes acima referidas.
Proponho-vos a audição do quarto andamento, Allegro non troppo, representativo da excelente oficina do compositor. Reparem, por exemplo, como, logo no início, se insinua um motivo quase marcha, nas cordas graves, dialogando com os violinos que, progressivamente, ganham grande agitação, tudo isto precedendo uma secção de oponente acalmia em que avultam temas de andamentos anteriores. Segue-se um violentíssimo climax e, como tantas vezes, acontece em Chostakovitch, o remate é irónico e de uma tranquilidade algo ambígua.
A interpretação deste excerto da Sinfonia, consta de uma gravação de 2004, a cargo da Orquestra Filarmónica Russa, sob a direcção de Dmitri Yablonsky.
Boa audição!
http://youtu.be/p5zt4ntcKSE
Domingo, 15 de Abril de 2012
Radu Lupu,
imperdível mestre
Ontem, no âmbito do Ciclo de Piano da Gulbenkian, recital de Radu Lupu, cuja presença em Lisboa é sempre imperdível. Como recordarão, já este ano tinha assistido a um seu concerto com a Orquestra Filarmónica de Viena, no dia 1 de Fevereiro, no Grosses Festspielhaus de Salzburg, durante a Mozartwoche, num evento de que vos dei oportuna conta, tanto aqui como no fb.
Radu Lupu continua em forma absolutamente impecável, tendo proposto leituras muito inspiradas tanto dos Improvisos op. 142 como da Sonata para Piano em Lá menor, D. 845, obras de Schubert. Mesmo num auditório onde, frequentemente, a interpretação das peças é perturbada por ruído inqualificável – reparem que não estou a referir-me aos períodos de pausa, de mudança de andamento - não é fácil mas, pelo menos, comigo tal acontece, Radu Lupu consegue conduzir-me à dimensão da esfera que o compositor, certamente, pretendia. Momentos de rara beleza, num respeito comovente pela intencionalidade mais radical e profunda das peças, mas de acordo com as inflexões, pausas, realces mais apropriados aos efeitos pretendidos.
Não tendo encontrado gravações das obras mencionadas, proponho esta outra belíssima interpretação de Radu Lupu da Sonata Nº 18 em Sol Maior, D. 894 de Schubert. Mas, como tantas vezes, tenho aconselhado, comparem outras leituras, por exemplo, com as de Alfred Brendel ou Sviatoslav Richter. Verão como enriquecem e afinam a sofisticação do vosso gosto. Boa audição!
http://youtu.be/Q1cZPsqZlaI
Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
[artigo publicado no Jornal de Sintra de 13.04.12]
Fonte Mourisca,
uma história mal contada
“(…)A história mais espantosa é a da fonte árabe, que agora está aqui. Os senhores Mello pegaram na fonte e levaram-na para a Quinta da Ribafria. Faltava lá uma fonte bonita… Levaram-na, com a alegação de que precisava de recuperação e, como a Câmara não tinha dinheiro e eles tinham, recuperam-na no seu palácio particular e ficam com ela. Só depois do 25 de Abril é que voltou para aqui. (…)”
[Miguel Real'Somos portugueses – e depois?' Nº 992 da Revista Visão, 8 de Março de 2012]
Desta vez, lamentavelmente, coube a Miguel Real a desdita de cair na armadilha oportunamente urdida por incógnita gente que, convenhamos, sem grande imaginação, misturou alguns factos com falsidades resultantes da mais evidente efabulação, fazendo circular como real e verdadeira a história citada na epígrafe que, só aparentemente, tem todos os ingredientes de plausibilidade e verosimilhança.
Enfim, tendo-me munido de provas inequívocas da realidade dos factos, julgo ser tempo de repor a verdade dos episódios inerentes à trasladação da designada Fonte Mourisca. Manda a verdade que assim o faça, objectivo este ainda mais justificado por ter sido Miguel Real – que tantas e sobejas provas de apego à verdade tem manifestado – afinal, quem acabou por dar azo à adequação do conhecido provérbio no melhor pano cai a nódoa…
Feita a justa ressalva e libertando Miguel Real de qualquer responsabilidade na propalação de uma mentira que, ao longo de dezenas de anos, tem feito caminho e evitáveis estragos, passemos aos factos. Entre 1922 – data em que foi edificada, a partir de um projecto de pendor revivalista, da autoria de Mestre José da Fonseca* – e 1960, a citada Fonte Mourisca, esteve instalada, sensivelmente, no local onde, rematando a descendente Rua Visconde de Monserrate, na curva de acesso à Volta do Duche, hoje se encontra o chafariz fronteiro ao edifício onde funcionou o antigo quartel dos bombeiros, actual Museu do Brinquedo.
Ora bem, naquele citado ano de 1960, a Câmara Municipal de Sintra, sob a presidência do Prof. Joaquim Fontes, adjudicou os trabalhos de construção do tal chafariz, substituto da fonte em apreço, a Alfredo da Silva Ventura, ao tempo, um dos mais conhecidos e conceituados empresários sintrenses da construção civil. Para cabal entendimento da questão, cumpre assinalar que, para todos os efeitos, no contexto da concretização daquela obra e nos termos da prática então vigente, os materiais constantes da fonte apeada pelo empreiteiro passaram a propriedade sua.
Subsequentemente, com o intuito de preservar as peças que, entretanto, nos termos referidos, já eram do seu património pessoal, o Sr. Alfredo da Silva Ventura fê-las depositar numa sua pedreira, nas imediações da Capela de Santo Amaro, relativamente próximo da Quinta de Ribafria, pedreira aquela onde permaneceram sem que dano algum as tivesse molestado.
Passados cerca de vinte anos, o Vereador dos Serviços Culturais, Brigadeiro Machado de Souza, através do ofício 12704, datado de 25 de Julho de 1980 – cuja fotocópia, na sequência de investigação muito sumária, tenho em meu poder – dá conhecimento ao Sr. Ventura da intenção de a Câmara Municipal reaver a fonte, mostrando-se interessado em iniciar conversações.
A resposta seguiu célere. Datada de 4 de Agosto, logo no primeiro parágrafo e sem quaisquer condições, a carta do Sr. Alfredo Ventura informa “(…) ser com o maior prazer que coloco à disposição da Exma. Câmara Municipal de Sintra a Fonte Mourisca (…)”. Para que se ateste da nobreza de intenções daquele senhor, não resisto à transcrição do terceiro parágrafo da missiva:
“(…) Embora tendo tido muitas ofertas, sempre me recusei a vender esta Fonte, alimentando sempre a esperança de que um dia a poderia ver novamente colocada na Vila de Sintra e, porque assim é, não imponho a V. Exa. ou à Exma. Câmara quaisquer condições, mas, porque a minha idade já vai avançada (75 anos), muito honrado me sentiria, como verdadeiro Sintrense que sempre fui, e sempre serei, se V. Exa., em minha vida, se dignasse conceder-me tal satisfação. (…)”
E a verdade é que nem uma pedra faltou! Nesta história, em que os Mello jamais interferem, é o Sr. Alfredo Ventura, isso sim, quem intervém na condição de oportuno benemérito, acabando por devolver à comunidade um interessante bem patrimonial, sem que nada o obrigasse a gesto tão altruísta. O resto é do conhecimento geral. Infelizmente, em 1982, com a reposição da peça, ninguém achou por bem que, igualmente, se impunha repor a verdade dos factos.
Finalmente, com algum natural desapontamento, não posso deixar de registar que, durante tantos anos, uma descarada mentira tivesse andado de boca em boca, conspurcando um episódio com evidentes contornos de dignidade, nobreza de carácter e de amor a esta terra. Sintra bem merece todo o cuidado quando se trata de relatar o seu passado recente ou remoto. Isso se esperaria, afinal, dos historiadores locais que, infelizmente, no caso vertente, parece terem andado algo distraídos…
_______________________________
*A propósito, lembrarei que, da autoria do mesmo mestre escultor e canteiro, são a Fonte dos Pisões, o Monumento ao Soldado Desconhecido, na Correnteza, o conjunto escultórico de homenagem ao Dr. Gregório de Almeida, também na Volta do Duche, e a cópia do Pelourinho manuelino, junto à igreja da Misericórdia.
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Fonte Mourisca,
uma história mal contada
“(…)A história mais espantosa é a da fonte árabe, que agora está aqui. Os senhores Mello pegaram na fonte e levaram-na para a Quinta da Ribafria. Faltava lá uma fonte bonita… Levaram-na, com a alegação de que precisava de recuperação e, como a Câmara não tinha dinheiro e eles tinham, recuperam-na no seu palácio particular e ficam com ela. Só depois do 25 de Abril é que voltou para aqui. (…)”
[Miguel Real'Somos portugueses – e depois?' Nº 992 da Revista Visão, 8 de Março de 2012]
Desta vez, lamentavelmente, coube a Miguel Real a desdita de cair na armadilha oportunamente urdida por incógnita gente que, convenhamos, sem grande imaginação, misturou alguns factos com falsidades resultantes da mais evidente efabulação, fazendo circular como real e verdadeira a história citada na epígrafe que, só aparentemente, tem todos os ingredientes de plausibilidade e verosimilhança.
Enfim, tendo-me munido de provas inequívocas da realidade dos factos, julgo ser tempo de repor a verdade dos episódios inerentes à trasladação da designada Fonte Mourisca. Manda a verdade que assim o faça, objectivo este ainda mais justificado por ter sido Miguel Real – que tantas e sobejas provas de apego à verdade tem manifestado – afinal, quem acabou por dar azo à adequação do conhecido provérbio no melhor pano cai a nódoa…
Feita a justa ressalva e libertando Miguel Real de qualquer responsabilidade na propalação de uma mentira que, ao longo de dezenas de anos, tem feito caminho e evitáveis estragos, passemos aos factos. Entre 1922 – data em que foi edificada, a partir de um projecto de pendor revivalista, da autoria de Mestre José da Fonseca* – e 1960, a citada Fonte Mourisca, esteve instalada, sensivelmente, no local onde, rematando a descendente Rua Visconde de Monserrate, na curva de acesso à Volta do Duche, hoje se encontra o chafariz fronteiro ao edifício onde funcionou o antigo quartel dos bombeiros, actual Museu do Brinquedo.
Ora bem, naquele citado ano de 1960, a Câmara Municipal de Sintra, sob a presidência do Prof. Joaquim Fontes, adjudicou os trabalhos de construção do tal chafariz, substituto da fonte em apreço, a Alfredo da Silva Ventura, ao tempo, um dos mais conhecidos e conceituados empresários sintrenses da construção civil. Para cabal entendimento da questão, cumpre assinalar que, para todos os efeitos, no contexto da concretização daquela obra e nos termos da prática então vigente, os materiais constantes da fonte apeada pelo empreiteiro passaram a propriedade sua.
Subsequentemente, com o intuito de preservar as peças que, entretanto, nos termos referidos, já eram do seu património pessoal, o Sr. Alfredo da Silva Ventura fê-las depositar numa sua pedreira, nas imediações da Capela de Santo Amaro, relativamente próximo da Quinta de Ribafria, pedreira aquela onde permaneceram sem que dano algum as tivesse molestado.
Passados cerca de vinte anos, o Vereador dos Serviços Culturais, Brigadeiro Machado de Souza, através do ofício 12704, datado de 25 de Julho de 1980 – cuja fotocópia, na sequência de investigação muito sumária, tenho em meu poder – dá conhecimento ao Sr. Ventura da intenção de a Câmara Municipal reaver a fonte, mostrando-se interessado em iniciar conversações.
A resposta seguiu célere. Datada de 4 de Agosto, logo no primeiro parágrafo e sem quaisquer condições, a carta do Sr. Alfredo Ventura informa “(…) ser com o maior prazer que coloco à disposição da Exma. Câmara Municipal de Sintra a Fonte Mourisca (…)”. Para que se ateste da nobreza de intenções daquele senhor, não resisto à transcrição do terceiro parágrafo da missiva:
“(…) Embora tendo tido muitas ofertas, sempre me recusei a vender esta Fonte, alimentando sempre a esperança de que um dia a poderia ver novamente colocada na Vila de Sintra e, porque assim é, não imponho a V. Exa. ou à Exma. Câmara quaisquer condições, mas, porque a minha idade já vai avançada (75 anos), muito honrado me sentiria, como verdadeiro Sintrense que sempre fui, e sempre serei, se V. Exa., em minha vida, se dignasse conceder-me tal satisfação. (…)”
E a verdade é que nem uma pedra faltou! Nesta história, em que os Mello jamais interferem, é o Sr. Alfredo Ventura, isso sim, quem intervém na condição de oportuno benemérito, acabando por devolver à comunidade um interessante bem patrimonial, sem que nada o obrigasse a gesto tão altruísta. O resto é do conhecimento geral. Infelizmente, em 1982, com a reposição da peça, ninguém achou por bem que, igualmente, se impunha repor a verdade dos factos.
Finalmente, com algum natural desapontamento, não posso deixar de registar que, durante tantos anos, uma descarada mentira tivesse andado de boca em boca, conspurcando um episódio com evidentes contornos de dignidade, nobreza de carácter e de amor a esta terra. Sintra bem merece todo o cuidado quando se trata de relatar o seu passado recente ou remoto. Isso se esperaria, afinal, dos historiadores locais que, infelizmente, no caso vertente, parece terem andado algo distraídos…
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*A propósito, lembrarei que, da autoria do mesmo mestre escultor e canteiro, são a Fonte dos Pisões, o Monumento ao Soldado Desconhecido, na Correnteza, o conjunto escultórico de homenagem ao Dr. Gregório de Almeida, também na Volta do Duche, e a cópia do Pelourinho manuelino, junto à igreja da Misericórdia.
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Segunda-feira, 9 de Abril de 2012
Nacional-socialismo musical [III]
(conclusão)
Segundo Hans Severus Ziegler, a missão do homem político é comparável à do génio artístico que, de igual modo, de maneira exemplar, deve reforçar o instinto racial. Ziegler cita longamente o artigo «Atonalidade e bolchevismo artístico na música» do seu amigo Ernst Nobbe, para voltar a Richard Wagner e a Adolf Bartels, suas principais fontes ideológicas.
Tanto para Ziegler como para numerosos nazis, o facto de a tomada do poder ter acontecido em 1933, num ano Wagner, e de a exposição «Música Degenerada» de Düsseldorf se concretizar no contexto do centésimo vigésimo quinto aniversário do nascimento do compositor, é algo de profundamente simbólico.
Ziegler escolheu como principal adversário Ernst Krenek, que tinha sido festejado em Leipzig. Embora não seja de origem judaica, aquele compositor é considerado pioneiro da mistura racial por ter utilizado material proveniente do jazz. Segundo Ziegler, o público que se entusiasma com a ópera Jonny spiel auf, está tão confuso e interiormente emporcalhado que já não consegue assimilar a pureza e a profundidade de sentimento dos primeiros compassos da ópera Der Freischütz de Carl Maria von Weber.
Arnold Schönberg, o pai da atonalidade, também desempenha um papel fulcral na sua alocução de abertura. Num painel da exposição, ele é estigmatizado, juntamente com Hindemith, ambos descritos como os «teóricos da atonalidade» e de «charlatães sem raízes». Partindo do princípio de que o acorde perfeito corresponde a uma lei natural, Ziegler qualifica a atonalidade de charlatanismo, na medida em que pretensas extensões harmónicas teriam conduzido a uma desvalorização da tonalidade e, portanto, à sua degenerescência.
As raízes da exposição «Música Degenerada» de Düsseldorf, a exemplo da exposição «Arte Degenerada» de Munique, residem numa atitude característica dos nacional-socialistas, que consiste em sobrestimar a Arte. Ziegler espera, nada mais nada menos, que a música alemã cure a alma alemã. Por isso, a música deve ser expurgada dos elementos estranhos à raça. No seu discurso de abertura, o conselheiro de Estado declara a propósito:
“(…) À atonalidade, cujos fundamentos se plasmam no Tratado de harmonia do judeu Arnold Schönberg, eu qualificá-la-ia como produto do espírito judaico. Quem dele comer, morrerá. Quem for à escola de Beethoven, não conseguirá transpor o limiar da oficina de Schoenberg, mas quem permaneceu nesta oficina de Schnberg, perde necessariamente o sentimento da pureza do génio alemão Beethoven. (…)”.
À benfazeja pureza de Beethoven, opõe o orador a arte por assim dizer contaminada de Schönberg, que infecta mortalmente qualquer ouvinte. Igualmente, o jornal Rheinische Landeszeitung avalia a exposição em termos de higiene racial:
“(…) Esta exposição […] tal como a da «Arte Degenerada» o fez relativamente às artes plásticas, mostrará de maneira decisiva, para a música, o que está doente, pouco saudável e, ao mais alto nível, perigoso na nossa vida musical e que convinha erradicar. A exposição é um acerto de contas tão necessário como o foi a outra para as artes plásticas. (…)”
Seguidamente, exibida em Weimar e em Viena, a exposição não obteve, de modo algum, o efeito antegozado pelo seu promotor. Pelo contrário, até personalidades importantes da política cultural, como Peter Raabe, presidente da Câmara da Música do Reich, e Fritz Krebs, presidente da Câmara Municipal de Frankfurt, fazem ouvir os seus protestos. Estas declarações, para consumo interno, não serão tornadas públicas.
Porém, muito pragmaticamente, Goebbels compreende que esta reacção coloca um problema. Como a imprensa alemã está sob o seu escrutínio, apenas autoriza a publicação de breves resumos, proibindo qualquer reportagem especial. No dia 14 de Junho de 1938, antes da data prevista, a exposição de Düsseldorf é encerrada.
Como um eco da exposição «Arte Degenerada» de Munique, a exposição «Música Degenerada» esteve em exibição, em Düsseldorf, entre 24 de Maio e 14 de Junho de 1938. Na capa da brochura, a imagem do saxofonista negro, marcado com a estrela de David*, é directamente inspirada na ópera-jazz Jonny spielt auf do compositor Ernst Krenek. O subtítulo da exposição, «Um acerto de contas» [eine Abrechnung], relaciona-se com o do primeiro volume de Mein Kampf, de Hitler.
Antes de terminar, não poderia deixar de lembrar que, entre as personalidades mais atacadas, figura a do Judeu Otto Klemperer, director musical da Krolloper de Berlin entre 1927 e 1931. Devido às suas opções de leitura da partitura e em consequência da sua encenação de "Tannhaüser", foi acusado de ter conduzido um ataque contra a instituição Richard Wagner, transformando-se no bode expiatório dos meios nacionalistas, incarnando a degenerescência do sistema da República de Weimar.
NB: Este artigo resulta da adaptação e tradução de um texto de Albrecht Dümling, publicado por ocasião da exposição subordinada ao tema O Terceiro Reich e a música, na Cité de la Musique, em Paris (Outubro de 2004-Janeiro de 2005).
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Bibliografia: Die Tagebücher von Joseph Goebbells…,Elke Fröhlich (ed.), Munique, Saut, 1987; Hitler, Adolf, Die deutsche Kunst als stolzeste Verteildigung des deutschen Volkesdiscurso proferido durante o Congresso de Nuremberga de 1933, reproduzido no nº 43, 4º ano, da Nationalsozialistische Monatschefte; Le Troisième Reich et la musique, Musé de la Musique/Fayard, Paris, 2004 (catálogo da exposição); Mann, Thomas, Grandeur et misère de Richard Wagner (1933) in Wagner et notre temps, Paris, , 1982; Staatsoper Berlin: Almanach 1936 bis 1939, Julius Kapp (ed.), Leipzig, Beck, 1936-1939.
Ainda mais uma peça de «Música Degenerada». Esta Suite Dansante En Jazz, WV 98, é de belíssimo recorte, inclusive em termos da própria composição, como poderão comprovar os que saibam ler música.
http://youtu.be/lvzpUGUQBto
Sábado, 31 de Março de 2012
[Segunda parte do artigo iniciado no sábado passado, transcrição do texto publicado na Secção Cultural da edição de 30.03.2012 do 'Jornal de Sintra]
Nacional socialismo musical [II]
Ao terminar a primeira parte do texto publicado na última edição, depois de ter feito o enquadramento das «Jornadas Musicais do Reich» [Reichmusiktage], passei ao segundo tema destas considerações, ou seja, a exposição «Música Degenerada» [Entartete Musik], cujo primeiro responsável foi o Conselheiro de Estado Hans Severus Ziegler, de Weimar.
Conselheiro técnico para os assuntos do teatro no Land da Turíngia, Ziegler publicara, já em 1930, um decreto «contra a cultura negra, a favor do carácter nacional alemão» com o intuito de combater a crescente influência do jazz. Tratava-se, fundamentalmente, de protestar contra a ópera Jonny spielt auf, de Ernst Krenek, representada em Leipzig com enorme sucesso.
Na altura em que, em 1936, se prepara em Weimar a Festa dos Músicos da Associação musical alemã, Ziegler ergue-se vivamente contra a programação de várias obras. No entanto, não é o único a fazê-lo. A título de exemplo, lembrarei Ernst Nobbe, director-geral do Teatro Nacional de Weimar, doutorado em musicologia, que produz a sua crítica no contexto de um contributo intitulado «Atonalidade e bolchevismo artístico na música» [Atonalität und Kunstbolschewismus in der Musik], publicado em 13 de Junho de 1936 pelo Allgemeine Thüringische Landeszeitung Deutschland/Weimar.
Procurando uma relação entre atonalidade e bolchevismo artístico, o autor diagnostica a perda da fundamental noção da medida, a dissolução e o desaparecimento dos temas musicais. Explica esta evolução através da «diversidade caótica» das raças na Alemanha, considerando o judaísmo como responsável principal. Goebbels, para quem a intervenção de Ziegler e de Nobbe dá a impressão que a Tonkünstlerfest, Festa dos Músicos, quase que só propunha a música atonal, anula a sua deslocação a Weimar. Por outro lado, decide dissolver a Associação musical alemã, fundada por Liszt e portadora de uma rica tradição, transferindo as suas competências para a Câmara da Música do Reich [Reichmusikkammer].
Em complemento, cria um departamento musical no Ministério da Propaganda. A diversidade de pontos de vista que caracterizava a referida associação e a sua longa tradição não tinham mais lugar no estado totalitário. Quanto às Festas dos Músicos, são substituídas pelos Reichmusiktage, cuja organização compete ao tal departamento musical.
A exposição «Música Degenerada»
Em Junho de 1936, uma exposição de manuscritos e de partituras originais, no foyer do Teatro Nacional de Weimar, celebrava os 75 anos da Associação musical alemã. Alguns artefactos, portanto, elementos desta exposição, serão aproveitados por ocasião da manifestação de propaganda «Música Degenerada» [Entartete Musik] que o referido Ziegler prepara para as Jornadas Musicais do Reich, em Düsseldorf – entre 22 e 29 de Maio de 1938, como referido na I parte do artigo - com a ajuda de Paul Sixt, o seu novo chefe de orquestra permanente.
Esta iniciativa obedece ao figurino da exposição «Arte Degenerada» [Entartete Kunst] levada a efeito em Munique no ano de 1937. Contudo, diferentemente da exposição de Munique, o projecto de Düsseldorf não parte de uma encomenda oficial. Ziegler consagra-se à ideia, de sua própria iniciativa, e por interesse pessoal. A estrutura da ADMV, Allgemeiner Deutsche Musikverein [Associação Musical Alemã] fornece-lhe o argumento de prova de que a vida musical alemã é dirigida por judeus negociantes sem escrúpulos, tendo como alvo principal Leo Kerstenberg, da agência de concertos de Berlin, Wolf & Sachs.
Como temas da exposição, são de considerar «O Teatro Judeu de Outros Tempos em Ritmo de Jazz» e a «Degenerescência na Criação Musical». Otto zur Nedden, nas suas conferências de introdução intituladas «Fundamentos Históricos e Raciais das Músicas Tonal e Atonal», tomando como exemplo o uso da longa trompa de bronze pelos primitivos povos germânicos, especialmente escandinavos, esforça-se por demonstrar a relação natural entre estes últimos e o acorde perfeito.
Repetidos em sucessivas ocasiões, tais argumentos socorrem-se de exemplos de obras como Finlândia, de Sibelius ou Sagração da Primavera, de Stravinki, não deixando de causar a mais viva polémica e de suscitar um acolhimento muito crítico por parte dos especialistas. Por exemplo, Friedrich Blume, que em Düsseldorf, naquele mesmo ano de 1938, tratou do tema “Música e Raça”, considerou a conferência de zur Nedden ‘indigna de um professor universitário alemão’.
Organizadas a pedido de Goebbels, por Heinz Drewes, seu adjunto para a música [Musikreferent], as primeiras Jornadas Musicais do Reich no novo Estado, são inauguradas no dia 22 de Maio de 1938, nos cento e vinte e cinco anos do nascimento de Richard Wagner. É neste enquadramento que, dois dias mais tarde, Ziegler inaugura no Palácio das Artes Düsseldorf a exposição de propaganda «Música Degenerada».
O seu discurso de abertura começa com uma citação de Adolf Hitler e, quanto ao subtítulo desta alocução, «Um acerto de contas», igualmente se refere ao Mein Kampf. Nele encontra um cúmulo de razão e dever para se comprometer publicamente na luta contra o mal que identificou, enunciando assim os seus objectivos: “(…) Fazer política cultural, significa preocupar-se com a alma do povo, cultivar as suas forças criativas e, todos estes valores, no carácter e nas ideias, aquilo que resumimos na noção geral de «carácter popular» [Volkstum]. Políticos e políticos da cultura têm um mesmo objectivo: criar uma nação forte e assegurar tanto as suas bases material e ideal, garantir a sua existência no exterior e aprofundar a sua existência no interior. (…)”
(Continua)
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A exemplo do que aconteceu na semana passada, eis uma proposta que reputo do maior interesse. Trata-se da célebre gravação da mesma ópera, "Die Meistersinger von Nürnberg", em que Karajan dirige a Staatskapelle Dresden. Como verificarão, do último acto, este é um dos mais sublimes excertos. Boa audição!
YouTube/c7gQ4TDx8dA
Richard Wagner - Die Meistersinger von Nürnberg - act 3^ part 10 www.youtube.com
Nacional socialismo musical [II]
Ao terminar a primeira parte do texto publicado na última edição, depois de ter feito o enquadramento das «Jornadas Musicais do Reich» [Reichmusiktage], passei ao segundo tema destas considerações, ou seja, a exposição «Música Degenerada» [Entartete Musik], cujo primeiro responsável foi o Conselheiro de Estado Hans Severus Ziegler, de Weimar.
Conselheiro técnico para os assuntos do teatro no Land da Turíngia, Ziegler publicara, já em 1930, um decreto «contra a cultura negra, a favor do carácter nacional alemão» com o intuito de combater a crescente influência do jazz. Tratava-se, fundamentalmente, de protestar contra a ópera Jonny spielt auf, de Ernst Krenek, representada em Leipzig com enorme sucesso.
Na altura em que, em 1936, se prepara em Weimar a Festa dos Músicos da Associação musical alemã, Ziegler ergue-se vivamente contra a programação de várias obras. No entanto, não é o único a fazê-lo. A título de exemplo, lembrarei Ernst Nobbe, director-geral do Teatro Nacional de Weimar, doutorado em musicologia, que produz a sua crítica no contexto de um contributo intitulado «Atonalidade e bolchevismo artístico na música» [Atonalität und Kunstbolschewismus in der Musik], publicado em 13 de Junho de 1936 pelo Allgemeine Thüringische Landeszeitung Deutschland/Weimar.
Procurando uma relação entre atonalidade e bolchevismo artístico, o autor diagnostica a perda da fundamental noção da medida, a dissolução e o desaparecimento dos temas musicais. Explica esta evolução através da «diversidade caótica» das raças na Alemanha, considerando o judaísmo como responsável principal. Goebbels, para quem a intervenção de Ziegler e de Nobbe dá a impressão que a Tonkünstlerfest, Festa dos Músicos, quase que só propunha a música atonal, anula a sua deslocação a Weimar. Por outro lado, decide dissolver a Associação musical alemã, fundada por Liszt e portadora de uma rica tradição, transferindo as suas competências para a Câmara da Música do Reich [Reichmusikkammer].
Em complemento, cria um departamento musical no Ministério da Propaganda. A diversidade de pontos de vista que caracterizava a referida associação e a sua longa tradição não tinham mais lugar no estado totalitário. Quanto às Festas dos Músicos, são substituídas pelos Reichmusiktage, cuja organização compete ao tal departamento musical.
A exposição «Música Degenerada»
Em Junho de 1936, uma exposição de manuscritos e de partituras originais, no foyer do Teatro Nacional de Weimar, celebrava os 75 anos da Associação musical alemã. Alguns artefactos, portanto, elementos desta exposição, serão aproveitados por ocasião da manifestação de propaganda «Música Degenerada» [Entartete Musik] que o referido Ziegler prepara para as Jornadas Musicais do Reich, em Düsseldorf – entre 22 e 29 de Maio de 1938, como referido na I parte do artigo - com a ajuda de Paul Sixt, o seu novo chefe de orquestra permanente.
Esta iniciativa obedece ao figurino da exposição «Arte Degenerada» [Entartete Kunst] levada a efeito em Munique no ano de 1937. Contudo, diferentemente da exposição de Munique, o projecto de Düsseldorf não parte de uma encomenda oficial. Ziegler consagra-se à ideia, de sua própria iniciativa, e por interesse pessoal. A estrutura da ADMV, Allgemeiner Deutsche Musikverein [Associação Musical Alemã] fornece-lhe o argumento de prova de que a vida musical alemã é dirigida por judeus negociantes sem escrúpulos, tendo como alvo principal Leo Kerstenberg, da agência de concertos de Berlin, Wolf & Sachs.
Como temas da exposição, são de considerar «O Teatro Judeu de Outros Tempos em Ritmo de Jazz» e a «Degenerescência na Criação Musical». Otto zur Nedden, nas suas conferências de introdução intituladas «Fundamentos Históricos e Raciais das Músicas Tonal e Atonal», tomando como exemplo o uso da longa trompa de bronze pelos primitivos povos germânicos, especialmente escandinavos, esforça-se por demonstrar a relação natural entre estes últimos e o acorde perfeito.
Repetidos em sucessivas ocasiões, tais argumentos socorrem-se de exemplos de obras como Finlândia, de Sibelius ou Sagração da Primavera, de Stravinki, não deixando de causar a mais viva polémica e de suscitar um acolhimento muito crítico por parte dos especialistas. Por exemplo, Friedrich Blume, que em Düsseldorf, naquele mesmo ano de 1938, tratou do tema “Música e Raça”, considerou a conferência de zur Nedden ‘indigna de um professor universitário alemão’.
Organizadas a pedido de Goebbels, por Heinz Drewes, seu adjunto para a música [Musikreferent], as primeiras Jornadas Musicais do Reich no novo Estado, são inauguradas no dia 22 de Maio de 1938, nos cento e vinte e cinco anos do nascimento de Richard Wagner. É neste enquadramento que, dois dias mais tarde, Ziegler inaugura no Palácio das Artes Düsseldorf a exposição de propaganda «Música Degenerada».
O seu discurso de abertura começa com uma citação de Adolf Hitler e, quanto ao subtítulo desta alocução, «Um acerto de contas», igualmente se refere ao Mein Kampf. Nele encontra um cúmulo de razão e dever para se comprometer publicamente na luta contra o mal que identificou, enunciando assim os seus objectivos: “(…) Fazer política cultural, significa preocupar-se com a alma do povo, cultivar as suas forças criativas e, todos estes valores, no carácter e nas ideias, aquilo que resumimos na noção geral de «carácter popular» [Volkstum]. Políticos e políticos da cultura têm um mesmo objectivo: criar uma nação forte e assegurar tanto as suas bases material e ideal, garantir a sua existência no exterior e aprofundar a sua existência no interior. (…)”
(Continua)
________
A exemplo do que aconteceu na semana passada, eis uma proposta que reputo do maior interesse. Trata-se da célebre gravação da mesma ópera, "Die Meistersinger von Nürnberg", em que Karajan dirige a Staatskapelle Dresden. Como verificarão, do último acto, este é um dos mais sublimes excertos. Boa audição!
YouTube/c7gQ4TDx8dA
Richard Wagner - Die Meistersinger von Nürnberg - act 3^ part 10 www.youtube.com
Sexta-feira, 30 de Março de 2012
Sintra,
um, dois, três concelhos?
Gostar de Sintra como eu gosto equivale a manter, sempre aceso, um amor de infância que, ao longo de dezenas de anos, se transformou na funesta paixão que me mantém em permanente desassossego. Durante muito tempo, através da escrita, tive necessidade de partilhar impressões e opiniões acerca desta ligação. Em especial, focando a atenção sobre inúmeras ofensas de que Sintra é vítima, dava conta do desgosto resultante de palavras, actos e omissões que tanto mal lhe têm causado.
Publicadas na imprensa local, principalmente no Jornal de Sintra, contam-se por algumas centenas as crónicas, acerca dos mais diversos assuntos, ainda que com particular destaque para a salvaguarda do património natural e edificado mas não descurando outras vertentes como turismo, urbanismo, educação, eventos culturais. Norteada por um rígido princípio de independência, a minha atitude, ao fim e ao cabo, não passava de uma forma de exercício da cidadania que preenchia o objectivo de participação nos desígnios da comunidade.
Não raro, contudo, me senti objecto de tão evidentes quanto lamentáveis reacções de incompreensão que, em determinadas ocasiões, assumiram contornos da mais baixa mesquinhez. Naturalmente, sendo a escrita uma arma contundente, não me podia surpreender. Enquanto foi possível, mantive o ânimo bastante para continuar mas o cansaço acabou por vencer, pelo que, pouco a pouco, me fui libertando da quase obrigação que, tacitamente, vinculava a minha actividade.
Na realidade, o cansaço a que aludi coincidia com uma sensação de dias avinagrados, protagonizando eu uma tenção que, pelo simples facto de se manifestar através da escrita militante – deixem que use o adjectivo sem que dele abuse – em nada de concreto ou positivo, rarissimamente, se transformava. Fui vencido por um complexo novelo de contradições já que a esperança de ver resolvidos os assuntos que denunciava ou cuja inequívoca solução alvitrava, era negada pelo sistemático e geral alheamento.
No entanto, há semanas, tendo vindo à baila a questão da reorganização da administração local, o tal desassossego da paixão tem vindo a avolumar-se, suspendendo e deixando de conceder a trégua a que me obriguei. Daí até concluir que que o melhor talvez fosse mesmo repegar na matéria que tratei em inúmeros textos, foi o passo que estão a testemunhar. Oxalá não ganhe motivo para maiores desilusões.
A minha intervenção neste domínio sempre privilegiou a perspectiva de que a governabilidade de um gigantesco concelho como o de Sintra passaria pela possibilidade de o dividir, em duas ou três unidades, agregando conjuntos de freguesias com mais ou menos evidentes características de coerência, por exemplo, geográfica, sociocultural, económica, etc.
Em Sintra, jamais me passaria pela cabeça propor a extinção e subsequente concentração de freguesias em unidades de maior escala. Admito perfeitamente que, em determinados concelhos do todo nacional, haja necessidade de assim proceder, sem que tal signifique ou traduza a sistemática generalização da medida a todo o território português.
Aliás, nalguns casos, a dimensão e escala das freguesias sintrenses ultrapassou – e de que maneira, veja-se, por exemplo, o caso de Algueirão Mem Martins!... – a viabilidade de uma gestão humanizada, de proximidade, valores que, inequivocamente, devem prevalecer. Neste contexto, como não considerar, como autêntico escândalo, a cegueira do poder político central tentando impor uma solução, que vem ao arrepio de toda uma cultura, com base na observância de compromissos com credores internacionais plasmados no designado Memorando de Entendimento, como se aí estivesse a salvação das finanças públicas?
Por acaso, o mesmo poder central já deu passos, de algum significado, no sentido de obviar o efectivo desperdício de recursos, numa sangria que continua a vitimizar e a enfraquecer a fazenda nacional através das proverbiais mas elimináveis gorduras da Administração Central ou, enfim, mais próxima da realidade local, já apresentou algum instrumento que viabilize a eliminação de empresas municipais que, em termos constitucionais, até são de de duvidosa génese?
Como permanecer indiferente, enquanto Sintra se prepara para aceitar as irremediáveis consequências desta invectiva do terreiro do Paço subjugado a estratégias desenhadas por negociadores estrangeiros que não tiveram interlocutores nacionais à altura das circunstâncias da negociação que precedeu o referido compromisso? Por outro lado, que residual força de David tenho eu para me permitir dirimir argumentos com cidadãos eleitos que, na Assembleia Municipal de Sintra, são fiéis seguidores da solução de supressão e concentração de freguesias?
E, ainda, para além de não alinhar em qualquer supressão de freguesias, como me permito eu, a partir da mesma realidade de base territorial, propor a constituição de mais um ou dois concelhos? Pois, de facto, não estando louco nem animado por qualquer espécie de espírito de contradição, tão somente penso na referida possibilidade de governança através de unidades concelhias de menor dimensão e mais coerentes.
Convencido da minha razão, lucidamente, também sei que não tenho qualquer veleidade de convencer quem, pelo menos, poderia abrir a porta ao debate. A única atitude que me resta é a de voltar a publicar, ipsis verbis, artigos – alguns dos quais com cerca de dez anos – cuja substância, nas suas linhas gerais, continuo a considerar actual. Espero que a vossa reacção me ajude a reflectir quanto à pertinência da solução que mantenho como mais consentânea.
Sábado, 24 de Março de 2012
Nacional-socialismo musical [I] *
A partir de hoje, entramos num universo temático em que consideraremos algumas notas indispensáveis à compreensão do modo como os nacional-socialistas do III Reich encaravam a música, ao serviço dos seu...s mais evidentes propósitos, em especial, no que se refere à tão proclamada necessidade de «recuperação» de uma suposta, remota e perdida pureza de contornos desta arte.
Assim, pedir-vos-ia que me acompanhassem na abordagem de dois momentos da história daqueles alemães e turbulentos anos trinta – em primeiro lugar, as "Jornadas musicais do Reich" e, seguidamente, a exposição "Música Degenerada" – que antecederam a eclosão do conflito armado no final da década, apesar de constituírem prova acabada e evidente de um tremendo choque que minava a vida cultural do país, perversamente caído nas malhas do totalitarismo na sequência de um processo eleitoral democrático.
1.As jornadas musicais do Reich
As Jornadas musicais do Reich (Reichmusiktage) que, a partir de 1938, substituem as anteriores "Tonkünstlerfeste", da Associação musical alemã (Allgemeiner Deutsche Musikverein, ADMV), proclamam a vitória das ambições totalitárias de Goebbels no domínio da música. De acordo com a vontade do Ministro da Propaganda, era suposto que proporcionassem uma visão de conjunto sobre a vida musical do Reich nacional-socialista, funcionando como ponto de referência para a sua evolução.
Goebbels definiria os princípios desta estratégia, no grande discurso sobre política cultural, pronunciado no encerramento das Jornadas de Düsseldorf. Anteriormente, a imprensa já tinha sublinhado o grande interesse de Goebbels pela música, por exemplo, no artigo intitulado 'O Dr. Joseph Goebbels: relação com a música e seus mestres', publicado em 1934, no Boletim oficial dos músicos do Reich.
Através de tal documento se evidencia como o ministro, para além de tudo o mais, se afirmava próximo de Richard Wagner. O autor do artigo, Paul Büllow, esclarece que “(…) ele conhece Wagner de cor! (…)”, afirmando que, no seu discurso sobre Os Mestres Cantores, em Bayreuth, em 1933, Goebbels acrescentara “(…) das coisas mais sublimes (…) alguma vez ditas acerca daquela obra, a mais alemã e a mais profunda de Wagner.
No discurso de 28 de Maio de 1933 em Düsseldorf, Joseph Goebbels propunha-se, nada mais nada menos, do que definir a essência da música alemã. Reparem como ele expressa o primeiro dos designados 'Dez Princípios' da criação musical alemã: “(…) A essência da música não reside nem no programa nem na teoria, nem na experimentação, nem na estrutura. A sua essência é a melodia. É a melodia que eleva os corações e revigora as almas; o povo canta-a, porque se grava facilmente na memória e, de modo algum é de gosto inferior ou censurável. (…)”
Para Goebbels, a música depende essencialmente do sentimento; nela, o que fala é a alma (Seele), e não a razão, o entendimento (Verstand). Também o próprio Hitler se exprime, mais ou menos, em termos idênticos, no mesmo ano, durante o Congresso do partido em Nuremberga: “(…) Não é o entendimento intelectual que deverá guiar o músico mas uma irrupção do sentimento musical (…)”
A tónica colocada na esfera do sentimento constitui como que um eco da hostilidade do nacional-socialismo em relação à Aufklärung, no conceito de «esclarecimento» que coincide com o de «Iluminismo» alemão. Não se esperava que os membros da Volksgemeinschaft, ou seja, da «comunidade do povo», debatessem questões políticas, antes deviam, pura e simplesmente, confiar na ideologia nacional-socialista.
A grande música, como a de Richard Wagner e de Anton Bruckner, servia para estimular esta atitude – diria – religiosa. Para Goebbels, não restava a mínima dúvida de que a música tem uma relação directa com as questões raciais. Senão, atentemos no terceiro dos já referidos 'Princípios':“(…) Tal como as outras artes, também a música provém de forças misteriosas e profundas, enraizadas na índole nacional (Volkstum), não podendo corresponder à necessidade e ao irreprimível instinto musical de um povo, se não for concebida e administrada pelos herdeiros deste carácter popular. Opostos por natureza, o judaísmo e a música alemã estão em contradição radical. (…)”
O sentimento, aqui considerado como elemento primeiro na música, vê-se completado pela pulsão, enquanto «irreprimível instinto musical», e pela noção do natural. A vida afectiva e a natureza pulsional do homem têm, portanto, o seu fundamento na raça. Os nazis, uma vez que concebem a Arte como expressão «da alma duma raça» e, ao mesmo tempo, fazem da pureza da raça o seu cavalo de batalha – ao ponto de criar vários «institutos de higiene racial» nas universidades – excluem os judeus da concepção e da administração da música germano-ariana.
Depois de 1933, mais nenhuma possibilidade lhes foi concedida no sentido de que fossem intérpretes, compositores, pedagogos, organizadores de concertos ou agentes da política cultural.
(continua)
*
Transcriçãoção do artigo, com o mesmo título, publicado na página de Cultura do 'Jornal de Sintra', em 23 de Março de 2012. Com periodicidade semanal, no dia posterior à sua publicação no referido jornal, continuarei a reproduzir os artigos que se seguirão neste mural do fb.
PS:Aqui têm o fim da ópera "Die Meistersinger von Nürnberg". São páginas de inspiradíssima música orquestral e de canto onde, tão abusivamente, os nacional-socialistas foram beber mensagens que alimentaram conceitos como os que Goebbels propala.
http://youtu.be/0vC-HI8x7Xg
Para vos permitir uma via de acesso facilitado ao discurso final de Hans Sachs, constante da gravação anterior, eis a tradução em Inglês:
"Beware! Evil tricks threaten us;
if the German people and kingdom should one day decay, under a false, foreign rule, soon no prince would understand his people;
and foreign mists with foreign vanities they would plant in our German land;
what is German and true none would know, if it did not live in the honour of German Masters.
Therefore I say to you: honour your German Masters, then you will conjure up good spirits!
And if you favour their endeavours, even if the Holy Roman Empire should dissolve in mist, for us there would yet remain holy German Art!"
De facto, como facilmente se verifica, era muito fácil aos nazis apropriarem-se desta mensagem...
A partir de hoje, entramos num universo temático em que consideraremos algumas notas indispensáveis à compreensão do modo como os nacional-socialistas do III Reich encaravam a música, ao serviço dos seu...s mais evidentes propósitos, em especial, no que se refere à tão proclamada necessidade de «recuperação» de uma suposta, remota e perdida pureza de contornos desta arte.
Assim, pedir-vos-ia que me acompanhassem na abordagem de dois momentos da história daqueles alemães e turbulentos anos trinta – em primeiro lugar, as "Jornadas musicais do Reich" e, seguidamente, a exposição "Música Degenerada" – que antecederam a eclosão do conflito armado no final da década, apesar de constituírem prova acabada e evidente de um tremendo choque que minava a vida cultural do país, perversamente caído nas malhas do totalitarismo na sequência de um processo eleitoral democrático.
1.As jornadas musicais do Reich
As Jornadas musicais do Reich (Reichmusiktage) que, a partir de 1938, substituem as anteriores "Tonkünstlerfeste", da Associação musical alemã (Allgemeiner Deutsche Musikverein, ADMV), proclamam a vitória das ambições totalitárias de Goebbels no domínio da música. De acordo com a vontade do Ministro da Propaganda, era suposto que proporcionassem uma visão de conjunto sobre a vida musical do Reich nacional-socialista, funcionando como ponto de referência para a sua evolução.
Goebbels definiria os princípios desta estratégia, no grande discurso sobre política cultural, pronunciado no encerramento das Jornadas de Düsseldorf. Anteriormente, a imprensa já tinha sublinhado o grande interesse de Goebbels pela música, por exemplo, no artigo intitulado 'O Dr. Joseph Goebbels: relação com a música e seus mestres', publicado em 1934, no Boletim oficial dos músicos do Reich.
Através de tal documento se evidencia como o ministro, para além de tudo o mais, se afirmava próximo de Richard Wagner. O autor do artigo, Paul Büllow, esclarece que “(…) ele conhece Wagner de cor! (…)”, afirmando que, no seu discurso sobre Os Mestres Cantores, em Bayreuth, em 1933, Goebbels acrescentara “(…) das coisas mais sublimes (…) alguma vez ditas acerca daquela obra, a mais alemã e a mais profunda de Wagner.
No discurso de 28 de Maio de 1933 em Düsseldorf, Joseph Goebbels propunha-se, nada mais nada menos, do que definir a essência da música alemã. Reparem como ele expressa o primeiro dos designados 'Dez Princípios' da criação musical alemã: “(…) A essência da música não reside nem no programa nem na teoria, nem na experimentação, nem na estrutura. A sua essência é a melodia. É a melodia que eleva os corações e revigora as almas; o povo canta-a, porque se grava facilmente na memória e, de modo algum é de gosto inferior ou censurável. (…)”
Para Goebbels, a música depende essencialmente do sentimento; nela, o que fala é a alma (Seele), e não a razão, o entendimento (Verstand). Também o próprio Hitler se exprime, mais ou menos, em termos idênticos, no mesmo ano, durante o Congresso do partido em Nuremberga: “(…) Não é o entendimento intelectual que deverá guiar o músico mas uma irrupção do sentimento musical (…)”
A tónica colocada na esfera do sentimento constitui como que um eco da hostilidade do nacional-socialismo em relação à Aufklärung, no conceito de «esclarecimento» que coincide com o de «Iluminismo» alemão. Não se esperava que os membros da Volksgemeinschaft, ou seja, da «comunidade do povo», debatessem questões políticas, antes deviam, pura e simplesmente, confiar na ideologia nacional-socialista.
A grande música, como a de Richard Wagner e de Anton Bruckner, servia para estimular esta atitude – diria – religiosa. Para Goebbels, não restava a mínima dúvida de que a música tem uma relação directa com as questões raciais. Senão, atentemos no terceiro dos já referidos 'Princípios':“(…) Tal como as outras artes, também a música provém de forças misteriosas e profundas, enraizadas na índole nacional (Volkstum), não podendo corresponder à necessidade e ao irreprimível instinto musical de um povo, se não for concebida e administrada pelos herdeiros deste carácter popular. Opostos por natureza, o judaísmo e a música alemã estão em contradição radical. (…)”
O sentimento, aqui considerado como elemento primeiro na música, vê-se completado pela pulsão, enquanto «irreprimível instinto musical», e pela noção do natural. A vida afectiva e a natureza pulsional do homem têm, portanto, o seu fundamento na raça. Os nazis, uma vez que concebem a Arte como expressão «da alma duma raça» e, ao mesmo tempo, fazem da pureza da raça o seu cavalo de batalha – ao ponto de criar vários «institutos de higiene racial» nas universidades – excluem os judeus da concepção e da administração da música germano-ariana.
Depois de 1933, mais nenhuma possibilidade lhes foi concedida no sentido de que fossem intérpretes, compositores, pedagogos, organizadores de concertos ou agentes da política cultural.
(continua)
*
Transcriçãoção do artigo, com o mesmo título, publicado na página de Cultura do 'Jornal de Sintra', em 23 de Março de 2012. Com periodicidade semanal, no dia posterior à sua publicação no referido jornal, continuarei a reproduzir os artigos que se seguirão neste mural do fb.
PS:Aqui têm o fim da ópera "Die Meistersinger von Nürnberg". São páginas de inspiradíssima música orquestral e de canto onde, tão abusivamente, os nacional-socialistas foram beber mensagens que alimentaram conceitos como os que Goebbels propala.
http://youtu.be/0vC-HI8x7Xg
Para vos permitir uma via de acesso facilitado ao discurso final de Hans Sachs, constante da gravação anterior, eis a tradução em Inglês:
"Beware! Evil tricks threaten us;
if the German people and kingdom should one day decay, under a false, foreign rule, soon no prince would understand his people;
and foreign mists with foreign vanities they would plant in our German land;
what is German and true none would know, if it did not live in the honour of German Masters.
Therefore I say to you: honour your German Masters, then you will conjure up good spirits!
And if you favour their endeavours, even if the Holy Roman Empire should dissolve in mist, for us there would yet remain holy German Art!"
De facto, como facilmente se verifica, era muito fácil aos nazis apropriarem-se desta mensagem...
Sexta-feira, 23 de Março de 2012
O Ring sem palavras
É uma proposta do conhecido maestro e também compositor Lorin Maazel, algo que se poderia designar como síntese sinfónica do Ring, para concepção da qual terá sido fortemente influenciado pelos comentários de Wieland Wagner, neto do compositor, acerca da importância da orquestra na Tetralogia.
Trata-se de um resumo orquestral , com a duração de uma hora e um quarto, concebido com o expresso objectivo de proporcionar a novas audiências a magia destes monumentais dramas musicais. Se, no caso da gravação que vos proponho, acrescentarmos que a orquestra de serviço é a Filarmónica de Berlin, podem preparar-se para assistir a um concerto da máxima qualidade, independentemente de serem discutíveis algumas opções de Maazel.
Gostaria de chamar a vossa particular atenção para alguns momentos. Por ordem de audição, em Das Rheingold [Ouro do Reno], aos 6’15’’, ‘Entrada dos deuses no Walhalla’, e, particularmente conseguido, extremamente comovente, o episódio da despedida de Wotan, no fim de Die Walküre, aos 23’19’’. Na minha opinião, em Gotter Dämmerung [Crepúsculo dos Deuses], menos eficaz, a grande pressão que Maazel imprime em ‘Viagem de Siegfried pelo Reno', que se inicia aos 44’22’’ da qual se redime em ‘Morte de Siegfried e Música Fúnebre’, aos 56’12’’.
Não tenho a mínima dúvida de que este arranjo de Lorin Maazel constitui um excelente trabalho de promoção, animação e divulgação musical. É uma aproximação à Tetralogia, o famoso conjunto de preâmbulo e três jornadas que assumiu Der Ring des Nibelungen [O Anel do Nibelungo] que Richard Wagner nos legou como marco extremamente compósito e essencial, não só da ópera, mas de toda a música e da cultura ocidental.
Bom visionamento. Boa audição!
http://youtu.be/AQX0MswCnrw
PS: Ontem à noite, esta mesma peça foi interpretada no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, pela orquestra da casa, sob a direcção de Michael Boder. Naturalmente, a orquestra precisou de grandes reforços em todos os naipes, num total de mais de quarenta músicos extra! Infelizmente, veio a verificar-se a mais que previsível falta de coesão.
Abalançar-se a uma peça com estas características, com o misto grupo de músicos resultante do referido alargamento, exigiria um significativo conjunto de ensaios que, manifestamente, não se verificou. De qualquer modo, mesmo sem entrar em detalhe, cumpre referir terem-se escutado alguns momentos de bom recorte.
É uma proposta do conhecido maestro e também compositor Lorin Maazel, algo que se poderia designar como síntese sinfónica do Ring, para concepção da qual terá sido fortemente influenciado pelos comentários de Wieland Wagner, neto do compositor, acerca da importância da orquestra na Tetralogia.
Trata-se de um resumo orquestral , com a duração de uma hora e um quarto, concebido com o expresso objectivo de proporcionar a novas audiências a magia destes monumentais dramas musicais. Se, no caso da gravação que vos proponho, acrescentarmos que a orquestra de serviço é a Filarmónica de Berlin, podem preparar-se para assistir a um concerto da máxima qualidade, independentemente de serem discutíveis algumas opções de Maazel.
Gostaria de chamar a vossa particular atenção para alguns momentos. Por ordem de audição, em Das Rheingold [Ouro do Reno], aos 6’15’’, ‘Entrada dos deuses no Walhalla’, e, particularmente conseguido, extremamente comovente, o episódio da despedida de Wotan, no fim de Die Walküre, aos 23’19’’. Na minha opinião, em Gotter Dämmerung [Crepúsculo dos Deuses], menos eficaz, a grande pressão que Maazel imprime em ‘Viagem de Siegfried pelo Reno', que se inicia aos 44’22’’ da qual se redime em ‘Morte de Siegfried e Música Fúnebre’, aos 56’12’’.
Não tenho a mínima dúvida de que este arranjo de Lorin Maazel constitui um excelente trabalho de promoção, animação e divulgação musical. É uma aproximação à Tetralogia, o famoso conjunto de preâmbulo e três jornadas que assumiu Der Ring des Nibelungen [O Anel do Nibelungo] que Richard Wagner nos legou como marco extremamente compósito e essencial, não só da ópera, mas de toda a música e da cultura ocidental.
Bom visionamento. Boa audição!
http://youtu.be/AQX0MswCnrw
PS: Ontem à noite, esta mesma peça foi interpretada no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, pela orquestra da casa, sob a direcção de Michael Boder. Naturalmente, a orquestra precisou de grandes reforços em todos os naipes, num total de mais de quarenta músicos extra! Infelizmente, veio a verificar-se a mais que previsível falta de coesão.
Abalançar-se a uma peça com estas características, com o misto grupo de músicos resultante do referido alargamento, exigiria um significativo conjunto de ensaios que, manifestamente, não se verificou. De qualquer modo, mesmo sem entrar em detalhe, cumpre referir terem-se escutado alguns momentos de bom recorte.
Quarta-feira, 21 de Março de 2012
A vida é uma farsa!
Conhecer Sir John Falstaff é tarefa que, pelo menos, nos transporta a “Henrique IV” e “As alegres comadres de Windsor”, a um Shakespeare renascentista que, com o século dezanove quase a terminar, empresta a Arrigo Boito a matéria essencial com a qual comporia a personagem apresentada a Verdi como protagonista do seu libreto.
Sem margem para qualquer dúvida, é a partir daquele texto, e, portanto nesta ópera “Falstaff” que o compositor escreve as melhores páginas da sua música. Verdi excede-se no engenho burilado em oficina longa para nos legar belíssimas páginas de um testamento que continuamos a honrar sempre que, ouvindo-lhe a obra, o celebramos.
O final é estupendo. É uma súmula da vida. Se as palavras estão ao nível da ideia de proverbial sabedoria que se pretende salte para a cena, o público só partilha e se empolga quando, do fosso da orquestra, lhe chegam os acordes, geniais a todos os títulos,remetendo para o turbilhão de um tempo que vive, que passa e vai escoando nas mãos do truão que o Homem é. De certeza que não é preciso tradução…
Bom visionamento. Boa audição!
http://youtu.be/7E4S-E2qAX8
Conhecer Sir John Falstaff é tarefa que, pelo menos, nos transporta a “Henrique IV” e “As alegres comadres de Windsor”, a um Shakespeare renascentista que, com o século dezanove quase a terminar, empresta a Arrigo Boito a matéria essencial com a qual comporia a personagem apresentada a Verdi como protagonista do seu libreto.
Sem margem para qualquer dúvida, é a partir daquele texto, e, portanto nesta ópera “Falstaff” que o compositor escreve as melhores páginas da sua música. Verdi excede-se no engenho burilado em oficina longa para nos legar belíssimas páginas de um testamento que continuamos a honrar sempre que, ouvindo-lhe a obra, o celebramos.
O final é estupendo. É uma súmula da vida. Se as palavras estão ao nível da ideia de proverbial sabedoria que se pretende salte para a cena, o público só partilha e se empolga quando, do fosso da orquestra, lhe chegam os acordes, geniais a todos os títulos,remetendo para o turbilhão de um tempo que vive, que passa e vai escoando nas mãos do truão que o Homem é. De certeza que não é preciso tradução…
Bom visionamento. Boa audição!
http://youtu.be/7E4S-E2qAX8
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