[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 11 de junho de 2009



Festival de Sintra 2009,
palmarés comentado (conclusão)

Tal como eu próprio também tenho feito, o Dr. Arroz não põe em causa a qualidade. Até posso conceder que a qualidade não depende da presença de vedetas mas, quando estas são realmente excepcionais intérpretes, funcionam como marcas distintivas da capacidade de organização de um festival, constituindo irresistível desafio à procura do público, mesmo à daqueles que estão habituados a ver e a ouvir tais galáticos em grandes salas do maior prestígio mundial.

É um facto que, actualmente, o Festival de Sintra deixou de apresentar grandes nomes, circunstância que não pode deixar de ser apontada. Reparem, por exemplo, não ser despicienda a presença de um Sokolov - único grande nome do Festival de Sintra em 2008 - que, muito naturalmente, esgotou a lotação do CCOC.


E, muita atenção para o facto de a conquista de público não justificar toda e qualquer estratégia. Certamente que a última coisa desejável pela organização do Festival de Sintra seria a perda de reputação. Sintra tinha um público fidelizado que, hoje em dia, continuo a ver frequentando, por exemplo, a Gulbenkian, a Casa da Música, a Culturgest, o CCB e os festivais do Estoril, de Óbidos, de Póvoa de Varzim, de Espinho, ou de Alcobaça.

Vão a todas. Estão em todas. É que, em Portugal, o chamado meio musical é muito restrito. Invariavelmente, ao deslocar-me a qualquer dos mencionados festivais e salas, encontro e avisto, mais ou menos, sempre um núcleo duro das mesmas pessoas que, na maior parte dos casos, conheço há muitos anos, a maioria das quais coincide com o que afirma o Dr. Arroz, opinião com a qual também me identifico.

Compreenderão que só me dou ao trabalho de partilhar publicamente estas considerações porque quero o melhor para o Festival de Sintra, iniciativa que fui ao ponto de designar como melhor produto cultural de Sintra. No entanto, aquilo que, paulatinamente, tem vindo a acontecer ao Festival de Sintra é problemático e até algo preocupante.

Efectivamente, a organização tem insistido na integração de uma série de eventos - cuja qualidade, repito, não ponho em causa - que, designados como contrapontos, não se articulam com a economia geral do Festival, não obedecendo a qualquer lógica de articulação com as restantes propostas musicais, pelo que se apresentam de modo nitidamente desgarrado.

PS:

Este assunto continuará aqui sendo abordado através da transcrição do artigo subordinado ao título Quarenta e quatro, publicado na edição de amanhã, 12.06.09, no Jornal de Sintra.

5 comentários:

Artur Sá disse...

Amigo Dr. João Cachado,
Percebi que ainda vai publicar o artigo que sai no Jornal de Sintra mas já posso dizer qualquer coisa. Eu julgava que só havia dois directores artísticos, portanto, da música o Dr Pereira Leal (sobre quem o Cachado escreveu aquela homenagem quando ele se reformou da Gulbenkian) e o Vasco Wellenkamp da dança. Mas ao ler a ficha técnica do festival há uma senhora Isabel Worm que trata dos tais contrapontos. Mas Então esta senhora é que é a responsável por esta salganhada. Desculpe o Dr Cachado que nunca escreveu isto preto no branco. E também não percebo a atitude dos directores artísticos.
Pela intervenção da Emília Reis, do Dr Arroz e de Eduardo Alves e pelas suas respostas já percebi que o Festival de Sintra já deu o que tinha a dar a menos que haja uma grande mudança que não sei se vai a tempo. É como diz, até podem ter mais gente mas deixou de ser o Festival de Sintra onde gozei muito bons momentos artísticos.
Como sei que é aficcionado dos touros e provavelmente está para Santarém, desejo-lhe boas corridas.
Um abraço
Artur Sá

João Cachado disse...

AT:

A mensagem que I. Risoldi enviou como comentário ao meu texto datado de 10.06.09, embora se mantenha no espaço de origem, foi por mim transferida para o de hoje com o objectivo de permitir uma leitura continuada e mais lógica das participações dos leitores neste debate.

Portanto, tenham em consideração que o texto seguinte é a transcrição de um original que encontrarão em «Festival de Sintra, palmarés comentado». Portanto, inevitável e natural que agora apareça, a seguir ao de Artur Sá, encimado com o meu nome.

João Cachado

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"Dr. João Cachado,

Há anos que não falamos mas certas ocasiões vejo-o pela Gulbenkian e só não vou ter consigo porque sei como gosta pouco da conversa de intervalo. Para me situar, sou viuva do Jorge Risoldi, da delegação de Madrid, amigo do seu pai que sei também já faleceu. O senhor se lembra certamente de estarmos juntos no Schweitzerhof de Luzern duas ou três vezes.
Vi o seu post de hoje mas é mesmo sobre este de ontem que quero intervir. Por causa do José João Arroz que guiou duas viagens inesquecíveis ao Met e a Bayreuth em que eu e meu marido participámos. ELe sabe imenso de música e tenho sua opinião muito em conta. O que escreveu e você passou é muito certo e se refere a uma situação que amigos meus já me tinham falado. Infelizmente não fui a Sintra no ano passado e agora que estou de partida para Roma também não irei. Mas é mesmo uma pena o que está a acontecer. Sintra é tão especial e o festival tão especial também. Nós somos do tempo de Dona Olga, senhora incrível. Se fosse viva Dona Olga não consentiria isso que o Dr. Arroz e o senhor denunciam.
Verá que as coisas mudarão.
Uma saudação para sua mulher, para si e, por favor para José João Arroz da

Isabel Risoldi

11-06-2009 11:48"

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João Cachado disse...

Caro Artur Sá,

Muito obrigado. De facto, entendeu tudo muito bem. O Artur Sá é daquelas pessoas que sabem ler nas linhas e nas entrelinhas. Espero que continue a acompanhar o que for aparecendo e, portanto, também o meu artigo do JS que, como facilmente entenderá, só aparecerá na data da edição desta semana do referido jornal, ou seja, amanhã, 12 de Junho. Posteriormente, terá os meus comentários.

Para sua orientação não fui aos touros. E fique sabendo que não foi por consideração pelos militantes dos direitos dos animais... De facto, outras «músicas» se levantam. A sério, amanhã tenho a récita de "Don Giovanni" impedindo-me de fazer a viagem de ida e volta à corrida que me interessava.
Não vou «ganhar nada com o quiosque» porque esta produção do São Carlos é muito fraquinha, benza-a Deus. Mas, enfim, como tenho o bilhete comprado desde Setembro do ano passado, e para que ninguém possa dizer que o João Cachado não assistiu a mais uma das desgraças desta temporada miserável no nosso único teatro de ópera, lá vou eu.

Não tenha pena de mim. Eu desforro-me. Depois lhe direi onde, ainda este ano, irei assistir a estupendos espectáculos de ópera e não só. Deixo-o com a água na boca? Tenha paciência. É que não devo acicatar os invejosos...

Um abraço grande do

João Cachado

João Cachado disse...

AT:

Tal como anteriormente (mensagem de Isabel Risoldi), eis a transcrição da minha resposta:

" Olá Isabel,

Como não havia de me lembrar... Ainda se fecorda da minha opinião sobre os intervalos dos concertos. Na realidade, para mim, a necessidade de intervalo é para os artistas. Os espectadores aproveitam para «o social» e, para isso, eu não tenho paciência embora, de vez em quando, seja impossível escapar ao escrutínio de certos amigos e conhecidos.

A Isabel está a fazer confusão. Em Luzern, convosco, no Schweitzerhof - ah, meu Deus, que saudades!... - só estive uma vez. Com o meu pai, isso sim, é que terão estado em várias edições do Festival do qual ele era um grande apreciador. Aquilo, no fim de Verão e princípio de Outono era sacramental, não falhava. E com razão, já que o de Luzern é mesmo um dos melhores do Mundo. Tem acompanhado o que o Abbado lá tem feito nos últimos anos com aquela orquestra ád hoc?

Esteja descansada que passarei ao José João Arroz as suas recomendações. Ainda bem que este caso do Festival de Sintra nos está a proporcionar este contacto. O que por aqui se passa, toda esta confusão (afinal de quem não entendeu a lógica dos Kontrapunkte que, precisamente, o Abbado pôs a funcionar no festival da Páscoa de Salzburg...), merece que as pessoas se preocupem e digam de sua justiça. Porque, como escreveu a Isabel, o Festival de Sintra é especial, é talvez o que maior património virtual acumulou, um bem absolutamente inestimável que não pode correr o risco de se perder ou descaracterizar.

Tenho muita esperança de que, ainda se está a tempo de arrepiar caminho de tal modo que, em futuras edições do Festival, se corrija esta «estratégia» de conquista de público, que não tem pés nem cabeça.

Ainda bem que recorda a Senhora Marquesa de Cadaval. Com mais uns amigos, estou envolvido num trabalho acerca da sua excepcional figura de grande senhora da cultura europeia do século vinte. Hei-de ter oportunidade de lhe falar acerca desse projecto.

Por agora, o meu agradecimento pela sua preocupação e votos de boa estada em Roma onde, certamente, vai passar um período com a sua filha.

As melhores saudações do

João

11-06-2009 18:04"

Luísa Rego disse...

Bom dia João,

Mais uma vez, a lutar pelas coisas boas de Sintra. Parabéns. Como sempre, só vou a alguns eventos musicais onde talvez o encontre. Já lá vai o tempo em que tínhamos os "grandes nomes" como diz o João mas agora é tudo muito pobrezinho. Já várias pessoas disseram e eu repito o desagrado por não haver nada no Palácio da Pena. Também acho que há uma mistura escusada. O Festival de Sintra não precisa.
Abraço

Luisa Rego