[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 6 de outubro de 2009



Canções de Theresienstadt*


Anne Sofie von Otter está mesmo entre as maiores, entre aquelas que persigo por essa Europa fora, se tenho uma remota hipótese de não perder o seu canto, decididamente, uma das minhas preferidas cuja voz de meio-soprano, me habituei a distinguir, há mais de vinte anos, pelas mais nobres razões.

Deixem contar-vos em que medida ela se me impôs ao mais alto nível. Para tanto preciso é esclarecer que, desde miúdo, se há obra que tenho ouvido ao vivo e nas melhores gravações é a Missa em Si de J.S. Bach, justamente considerada por grandes conhecedores como a mais fabulosa peça de toda a História da Música Ocidental.

Pois a verdade é que devo a Anne Sofie von Otter a melhor interpretação que até hoje já pude ouvir dessa obra, numa célebre récita, no dia 2 de Abril de 1999, por ocasião do Festival da Páscoa de Salzburg, com outros excepcionais solistas como Véronique Gens, Charles Workman, Simon Keenlyside, Franz.Josef Selig, Coro da Rádio Sueca, solistas da Orquestra Filarmónica de Berlin, sob a direcção de Cláudio Abbado.

Foi de tal ordem a excepcionalidade, que ainda hoje se fala desse concerto em Salzburg, cidade à qual tão ligado estou. E isto é tanto mais notável quanto este é um dos lugares onde, como sabem (pelo menos, através dos meus relatos, numa série de anos seguidos, em densas páginas do Jornal de Sintra, e algumas já neste blogue) se faz da melhor música, a nível mundial.

A verdade é que, além de grande cantora, Anne Sofie von Otter também é, inquestionavelmente, uma mulher ligada às grandes causas da Liberdade e dos Direitos Humanos. Ora bem, de algum modo, foi igualmente neste contexto que ela se apresentou no passado dia 2, no Grande Auditório da Gulbenkian, com um programa absolutamente inesquecível, subordinado ao tema Canções de Theresienstadt.

Tratou-se de um recital onde houve oportunidade de escutar um conjunto de mais de vinte peças, vocais e instrumentais, compostas naquele que foi um campo de concentração para os judeus checos, estabelecido pelos nazis em 1941, no forte de Terezin. A máquina de propaganda nacional-socialista apresentava-o como um ghetto modelo onde se praticava uma certa liberalidade no quadro da qual os prisioneiros tinham um determinado grau de autonomia para as suas actividades culturais.

Anne Sofie von Otter veio acompanhada pelos amigos e grandes músicos – Daniel Hope (violino, membro do recém extinto Trio Beaux Arts), Bengt Forsberg (piano) e Bebe Risenfors (acordeão, guitarra e contrabaixo) – que com ela têm feito este excepcional programa, por esse mundo fora, neste tão estranho, tão especialmente estranho tempo nosso, que chega a haver gente afirmando não ter havido holocausto…

Bastaria recordar, dentre os nomes do cardápio que Anne Sofie von Otter partilhou com a audiência da Gulbenkian, os de Ilse Weber, Karel Svensk, Emmerich Kálmán, Robert Dauber, Viktor Ullmann, Erwin Schulhoff, Pavel Haas, compositores vítimas dos campos de concentração, para contrariar tão abstrusa quanto ofensiva descoberta que pretende negar a própria evidência histórica.

A nível da estrutura, todas as peças estavam sabiamente encadeadas, pensadas todas as vertentes, desde a acústica à temática, e com o particular aliciante de cada uma ser introduzida por palavras a cargo dos próprios intérpretes que, deste modo, ainda maior envolvimento emprestaram ao serviço daquela Arte saída de um contexto tão excepcional.

Naturalmente, a sofisticação e a elegância da concepção do programa, evitaram ter-se caído na facílima esparrela de explorar a fortíssima emoção que não era difícil insinuar-se, soltando-se e saltando nas curvas de discursos arrancados a cenas não raro lancinantes. Interessante que todos os registos foram presentes, inclusive o de certas propostas de cabaret que, de algum modo, também ali, em Theresienstadt, foi possível experimentar e propor.

Mais uma vez, Anne Sofie von Otter revelou outra faceta da sua plasticidade vocal absolutamente impressionante. Como atrás referi, ouvi-a naquela Missa em Si memorável. Mas, só me reportando à minha experiência pessoal, tão memoráveis como nessa ocasião, foram outras suas prestações em recitais de Lieder, na maior parte dos casos na Áustria, mas também numa Carmen espantosa, Oktavien de O Cavaleiro da Rosa, ou Ariodante de Händel. Recentemente, em Aix-en-Provence, fez uma Waltraut (Gotterdämmerung), admirável que, se Deus quiser, verei na próxima edição do Festival da Páscoa de Salzburg, já que se trata de uma co-produção dos dois festivais.

Como sempre tenho escrito, quando entro em capítulos mais exclusivos, portanto, de interesse menos geral, estou à disposição de quem queira aprofundar a matéria. De facto, nos últimos anos, tenho feito alguma pesquisa sobre a Música na Alemanha, durante o III Reich – assunto que está longe de se considerar esgotado – e através desse trabalho, tenho acedido a interessante informação cuja partilha me dará muito gosto.**

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A propósito de música em Theresienstadt, chamaria a atenção para os seguintes textos, publicados neste blogue:
- Contra todos os ditadores, de 07.02.09, a propósito de uma célebre récita da ópera Der Kaiser von Atlantis oder Der Tod dankt ab, de Viktor Ullmann, no Convento dos Capuchos (Almada), com encenação de João Maria de Freitas Branco;


- Maria Nobre Franco, amiga de Sintra, 29.02.08, onde faço alusão a uma sua iniciativa no CC Olga Cadaval, no contexto de uma exposição no Sintra Museu de Arte Moderna.

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No sentido de proporcionar uma razoável abordagem deste universo tão específico e interessante, a todos aconselharia, por exemplo, as seguintes três edições discográficas:

- Chamber Music from Theresienstadt, 1941-1945, (1991, Channel Classics);
- Erwin Schulhoff, Petersen Quartett (1995, Coproduktion RIAS & Capriccio, 10 539);
- Pavel Haas, Musica Rediviva, Iörg Dürmüller (tenor), Dennis Russel Davies (piano), Monika Hölszky-Wiedemann (violine), Stuttgarter Bläserquintett (1996, Orfeo).



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Sintra – Eleições Autárquicas

MANIFESTO DE APOIO A ANA GOMES

Através da nossa frequente intervenção cívica, quer em sessões de Assembleia Municipal e de Reunião Pública de Câmara, quer em artigos publicados em jornais e revistas regionais, blogues, etc., estaremos entre os sintrenses que mais frequentemente se manifestam pela defesa dos interesses da causa pública.

Neste contexto, quando se justificou, não regateámos apoio ao actual Presidente da Câmara, sempre no sentido de que o concelho desse passos rápidos para o desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes.

Confiámos que, tanto o Património Histórico como as outras componentes Culturais e o Turismo sintrenses beneficiariam do anunciado desenvolvimento sustentado, aproximando-os das sociedades mais evoluídas, em condições ideais à recuperação do tempo perdido.

Ao longo de oito anos, sendo os últimos quatro com maioria absoluta, esperámos pela concretização de novos projectos em que Sintra pudesse ser mais do que metáfora utilizada em estéreis discursos políticos, antes um território de bem-estar colectivo, com manifesta evolução qualitativa.

Ainda que não se deixe de valorizar a desistência de construção do parque de estacionamento subterrâneo na Volta do Duche, ou a não concretização do famigerado Parque Temático Sintralândia, bem como a rejeição de um desadequado projecto para o Vale da Raposa, não podemos salientar outros actos particularmente relevantes.

Infelizmente, também não assistimos à concretização de estruturas determinantes da qualidade de vida, tais como parques periféricos de estacionamento, recuperação do Centro Histórico, matrizes incentivadoras do comércio de proximidade, uma nova rede de transportes públicos estratégicos, higiene urbana e turismo qualificado.

Esgotaram-se as nossas ambições de índole colectiva. Não obtivemos resultados compatíveis com a vontade expressa pelos munícipes, ao passo que elevados recursos financeiros foram canalizados para entidades cujos projectos não respondem às necessidades em presença.

Nestes termos, após detida análise, decidimos apoiar a candidatura da sintrense Ana Gomes, prestigiada figura da vida política nacional e internacional, porque se nos afigura como reunindo os meios e as condições bastantes para liderar o processo que conduzirá Sintra à fase de evolução positiva que merece

Na nossa qualidade de cidadãos independentes, gostaríamos de salientar que este inequívoco apoio à candidatura de Ana Gomes, nas eleições autárquicas, não deve ser entendido como extensível a qualquer das candidaturas envolvidas nas Eleições Legislativas.


Em Sintra, aos 23 de Setembro de 2009-09


João Cachado
Fernando Castelo

3 comentários:

João Gonçalves disse...

Consulto diariamente este blog. Pergunto-me só se será mesmo necessário colocar o Manifesto de apoio a Ana Gomes em todos os artigos publicados. Quem aqui vem já sabe a posição do autor em relação ás eleições que se avizinham e sinceramente este manifesto torna a leitura do blog um pouco canasativa. É apenas uma opinião...

Eduardo B. Alves disse...

João,

Aqui venho saudar-te por mais este serviço à música. É um belo texto. Devias dedicar-te a sério a essa actividade. Ainda há muita gente que se lembra das centenas de páginas do Jornal aí de Sintra onde fizeste crítica musical durante três anos.

Como sabes, só apareço «por aqui» quando escreves sobre assuntos musicais. Também estive na Gulbenkian no concerto da ASvO onde até nos encontrámos. Concordo em absoluto com a tua opinião e só te invejo pela possibilidade que tens de ir ouvindo esta gente quando te apetece. De facto, sempre te conheci nessa vida, desde a faculdade. Sempre conseguiste conciliar as viagens, os grandes festivais da grande e boa música. Eu que ainda tenho uns bons sete ou oito anos até à reforma, não tenho outro remédio senão aguardar... pela reforma.

Há um professor aqui na escola que pergunta se tu podes gravar o CD do Schulhoff que aconselhas. Já fez umas consultas esta manhã e parece que não consegue encontrar.
Grande abraço

Eduardo B. Alves

Rosário Sousa disse...

É bom não esquecer que Theresienstadt foi só «ontem»... Há muita gente a querer branquear a situação. Em Portugal os movimentos nacionalistas quase não se dá por eles mas é preciso estar atento. A música como arte pode ter esse papel de despertador.
Rosário Sousa