[sempre de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Llansol,
homenagem que ainda falta

Além do patrocínio que tem concretizado em relação ao denominado Espaço Llansol, sedeado naquela que foi a sua última residência, resolveu a Câmara Municipal de Sintra homenagear a escritora através de uma discreta placa circular, implantada nas pedras do passeio de calçada à portuguesa, junto a um dos grandes plátanos da Volta do Duche que Gabriela Llansol imortalizou.

Quem acompanhou as minhas chamadas de atenção, tanto na Assembleia Municipal, como no saudoso Jornal de Sintra e nas páginas deste mesmo blogue,* facilmente entenderá que as referidas atitudes da autarquia muito me satisfazem. Todavia, se igualmente bem se lembram, sempre considerei que a devida celebração pública deveria assumir uma inequívoca forma de aproximar a sua memória do cidadão comum.

Ora bem, apesar de tão boa vontade, parece que, de facto, a Câmara ainda não terá acertado. Se quiserem continuar a partilhar as minhas impressões acerca do assunto, terão de lembrar como Gabriela Llansol estava e ficou indissociavelmente ligada à Volta do Duche. E, como todos sabemos, se tal aconteceu, não só foi porque nalguns momentos da sua obra refere o lugar mas também porque tal trecho de Sintra a levou a protagonizar um acto de intervenção cívica que nunca será demais recordar.

A força do civismo

O texto que vão (re)ler, foi publicado no Público em 8 de Dezembro de 2001. Antes de o enviar ao jornal, a Maria Gabriela quis ter a gentileza de mo ler. Para mim, o inesperado, duplo e comovido privilégio das palavras escritas, ditas na voz empenhada da primeira pessoa-autora. Concordarão, estou certo, que tratando-se de um dos mais veementes testemunhos em defesa de Sintra, consegue ultrapassar tal dimensão, para funcionar como labéu contra todos quantos se permitem ofender a dignidade, a memória e o espírito dos lugares.



"Não haverá diálogo entre mortos

(A propósito do projecto de “parking” subterrâneo na Volta do Duche de Sintra)

Começo pelos factos. Domingo à tarde fui ao encontro de informação organizado, no terreiro do Palácio de Sintra, por algumas associações ambientalistas. Estávamos umas 200 pessoas. Foi então que percebi o que o executivo camarário planeava, com o acordo do programa Polis II, para a Volta do Duche. Isto: construir, exactamente por baixo da estrada que serpenteia a colina, um parque de estacionamento subterrâneo. Vista do palácio a ideia é simplesmente aberrante. Que espécie de humanos foi capaz de sequer imaginar uma coisa daquelas? Foi-me então explicado que o projecto iria criar uns 300 lugares de estacionamento, iria custar (para começar!) mais de um milhão de contos, poria em risco as árvores que sobrevivessem, além das que seriam abatidas. Ouvi ler extractos de um relatório do Instituto Português do Património Arquitectónico emitindo críticas severas ao projecto. Ouvi dizer que não fora feito nenhum estudo geológico, nem de impacto ambiental. Ouvi dizer que não fora organizada nenhuma consulta pública. Ouvi dizer que os lugares de estacionamento, além de caríssimos, ainda seriam menos dos que actualmente existentes.

Ouvi dizer. Ouvi dizer. Projecto inútil, faraónico, destruidor. Praticamente infantil. Na realidade, a informação era escassa. Fora obtida à revelia da edilidade instituída. Que esta se recusava a colocar à disposição da população os elementos necessários a uma aprovação (ou desaprovação) informada. Não ouvi nenhum “slogan”. Nenhum partido político foi aplaudido, nem, aliás, apupado. Apenas foi pedido aos presentes (e ausentes) que assinassem um abaixo-assinado a exigir uma discussão pública sobre a questão. O que assinei.

Saí dali com o sentimento de que, na minha “cidade”, onde se desenrolam tantos dos meus livros, eleitos, estranhamente afastados do vivo e do belo, decidiam e devastavam. De que era prudentemente fundada a desconfiança generalizada pelos políticos. De que estes eram um perigo. Que não deixavam sangue nas ruas, mas ferida mortais nos lugares, nas paisagens, nas sensibilidades, na simples e antiquíssima boa-fé. Que interpretavam o voto que lhes fora transitoriamente concedido como um direito a desprezar a inteligência e a estima dos seus concidadãos.

Não vou discutir com ninguém o que não pode ser objecto de discussão. Não vou aceitar a morte de árvores, em troco da precária sobrevivência de outras. Não aceito que se anule uma paisagem que não fez mal a ninguém, excepto o dom quotidiano que nos faz de uma beleza de que os paisagistas (assim chamados!) perderam o segredo. Não quero ouvir dizer que o homem pode destruir o que os outros edificaram, sobretudo quando os que assim falam são mentes sem lampejo. Não aceito promessas a troco de atentados irrecuperáveis. Discutir isso seria discutir entre mortos. Repito: só os mortos poderão ter imaginado que as suas ambições desvairadas não teriam consequências.

Quando me sentar na Volta do Duche, como tantas vezes faço, que vou dizer às árvores, aos arbustos, aos pássaros, às estações, à vida? Que vos vou dizer? Que não tive forças para respeitar um simples pacto de bondade? Que, mais uma vez, a minha espécie planificou friamente o desastre? Que, juntos, somos mais frágeis do que um punhado de edis, de paisagistas, de construtores civis, sem alma para sentir a santidade da paisagem?

E, desta vez, não me serve de consolo constatar o que sempre soube: onde os interesses materiais vingarem como fim, o homem não será. É aterrador pensar, mas é a realidade: sem o dom poético, sem a simples capacidade de sermos maravilhados pelo vivo, a liberdade de consciência está condenada a definhar. Por mim e por vós, foi essa liberdade que fui defender no terreiro do Palácio de Sintra.

Maria Gabriela Llansol"

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In memoriam

Não é de poético espanto, a força destas palavras? Que assombro! E que desassombro!


Considero conveniente recordar em que enquadramento surgiu o texto supra, que terá constituído a machadada final e decisiva no propósito da recandidatura de Edite Estrela à presidência da Câmara Municipal de Sintra. As eleições locais realizaram-se uma semana depois da publicação do artigo de opinião de Maria Gabriela Llansol que teve um impacto enorme.

Como sabem, MGL é um dos mais notáveis nomes das Letras portuguesas, não só dos nossos dias mas também, ouso dizê-lo, de todos os tempos, e estou muito bem acompanhado, por exemplo, pelo Prof. João Barrento. Pois, como se verifica, através de um discurso do maior alcance, com toda a acutilância, sem qualquer eufemismo, acabou a escritora por desmascarar quem, apesar do escândalo do projecto, se perfilava para permanecer no poder.

Por exemplo, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, dezenas e dezenas de conhecidos académicos subscreveram o abaixo-assinado de que fala a autora do artigo que, com a sua pública tomada de posição –verdadeiro manifesto de Cultura contra a barbárie – induziu muita gente a segui-la, num dos mais interessantes movimentos de cidadãos que Sintra conheceu.

Não é muito frequente que intelectuais da craveira de Maria Gabriela Llansol se exponham desta maneira. Subscrever um abaixo-assinado, a favor de uma causa nobre e elevada, é uma coisa. Em idênticas circunstâncias, outra coisa é subscrever um texto com esta força.

Definitiva homenagem

Pois é, meus amigos, Maria Gabriela Llansol é, na realidade, para todos os efeitos e para sempre, a grande senhora da Volta do Duche. Como ela, ninguém se bateu para que aquele lugar permanecesse como ainda hoje se apresenta. Não era do género de pessoa receosa que se refugiasse atrás de atávicos e perenes medos para colher louros, já que não buscava a ribalta videirinha - Maria Gabriela denunciava e subscrevia.

É por tudo isto que me permito insistir. A homenagem pública que merece ainda não aconteceu. Na minha opinião, é a própria Volta do Duche que tem de ficar indissociavelmente ligada à escritora. Trata-se de uma questão de toponímia mas sem que tenha de se alterar seja o que for no sentido da substituição e, muito menos, da supressão de qualquer elemento. Muito pelo contrário e, em suma, proponho que, muito simplesmente, sejam acrescentadas duas palavras nas actuais placas que passariam a indicar:
Volta do Duche - Caminho Llansol.

Noutros lugares, certo é que em latitudes mais beneficiadas, coisas que tais merecem placas explicativas. Não percebo como, por cá, não afirmamos a história das pessoas e das coisas, das casas, por exemplo, que lhes ficaram presas à memória. A casa que habitou, a história da sua luta pela Volta do Duche, não podem, não devem estar escondidas. Por ali passa a dimensão da escritora e cidadã que soube intervir quando foi importante que interviesse.

Se e quando tal acontecer – provavelmente, na altura em que o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Sintra tiver sido atribuído a alguém que, efectivamente, mereça a distinção de tão especial serviço à comunidade – bom será que os estafados discursos de ocasião não metam tanto os pés pelas mãos nas excelências, a que Maria Gabriela tão pouco ligava.


* Neste mesmo blogue, ler: Llansol, palavra certa, 02.03.09; Uma questão de homenagem, 03.07.08; Maria Gabriela Llansol, voz contundente, 02.04.08.
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Aproveito a oportunidade para desejar a todos um Bom Ano Novo.




9 comentários:

Artur Sá disse...

Amigo Dr. João Cachado,

Só ontem regressado de curtas férias, venho desejar-lhe feliz 2010, enriquecendo a todos com os seus textos sempre tão oportunos e em excelente português, o que é cada vez mais raro.
Parece que não foi a melhor altura para publicar esta mensagem. Espero que mais pessoas se pronunciem porque o assunto merece.
Completamente de acordo com sua sugestão toponímica para a Volta do Duche. Gabriela Llansol é uma honra para Sintra. Tenho dúvidas que a CMS aceite a proposta só porque foi o Dr. Cachado a lembrar.
Abraço para si e para todos os habituais leitores.

Artur Sá

Raquel Roque disse...

Se a Câmara aceitar a sugestão será uma bonita homenagem num dos mais bonitos espaços de Sintra. Eu desconhecia que a escritora tinha tomado esta posição de defesa do lugar e nem sabia que esteve para ser destruído. Ainda fiquei mais a admirá-la. Será preciso explicar isso a quem vier a passar na Volta do Duche - Caminho Llansol. Obrigada por toda esta informação. Sou novata no seu blogue mas já não dispenso.

Raquel Roque

Anónimo disse...

"Caro Prof. João Cachado,

A propósito do seu post de hoje sobre Maria G. Llansol, gostaria de partilhar consigo
este episódio:

Em Novembro de 2007 conheci em Sintra uma pessoa brasileira que estava de visita à
nossa terra. Estava em Portugal a estudar na Universidade do Minho em Estudos Portugueses e Lusófonos e havia tirado uns dias para visitar Lisboa e Sintra. Para o dia seguinte ao nosso primeiro encontro, tinha planeado uma visita à Praia das Maçãs e Azenhas do Mar.

Então voltámos a encontrar-nos na Praia no dia seguinte e foi aí que me revelou querer
visitar aqueles lugares pois eram diversas vezes mencionados pela sua escritora favorita, Maria G. Llansol. Qual foi seu espanto quando eu disse que conhecia a pessoa…

O meu conhecimento da Senhora Llansol resumia-se aos cordiais “Bom dia” e “Como está?” aquando da distribuição do correio e sempre a achei uma pessoa bastante reservada. Este episódio com esta minha amiga levou-me a aprofundar um pouco mais da vida e obra da Sra. Llansol pois considerava (e considero) a sua literatura um pouco pesada, difícil de ler.

Então esta minha amiga pediu-me que lhe mostrasse a casa onde a Sra. Llansol vivia. Foi o que aconteceu nessa noite e devido ao adiantar da hora, entrou no café Tópico onde foi atendida pela senhora Maria Rolim. Foi-lhe comunicado o débil estado de saúde da Sra. Llansol e então deixou uma carta na caixa do correio por mim indicada, apresentando-se e contando todo o episódio.
Para seu espanto recebeu resposta da Sra. Llansol dias depois, agradecendo toda a atenção e dizendo conhecer o tal carteiro…

Mais tarde também eu ficaria surpreendido pois essa minha amiga é considerada um dos
novos valores da poesia no seu Estado. Toda esta situação me fez ficar ciente da grandeza humana que havia de ser Maria G. Llansol.

Aproveitando também a proposta por si lançada, concordo plenamente que seja acrescentado “Caminho Llansol” a “Volta do Duche” ou então que possa ser instalado um busto da Senhora junto de sua antiga casa.

Obrigado pela atenção,

Ricardo Duarte"

João Cachado disse...

Caros amigos,

O comentário anterior, subscrito por Ricardo Duarte, chegou-me através do mail. Considerei que, na sua singeleza, refere um episódio que também faz parte do património da Maria Gabriela. Estou certo de que concordarão comigo e, tal como eu, já estão gratos ao Ricardo Duarte por, assim, nos ter concedido esta possibilidade de o partilhar.

João Cachado

Alexandre Santos disse...

Concordo com a proposta Do Caminho Llansol. Gostei muito de ter escrito «saudoso» Jornal de Sintra. De facto é uma sombra do que já foi.

Alexandre Santos

Anónimo disse...

Estive presente na cerimónia (muito pobre em assistência, foi pena) que assinalou o “Grande Maior” - o plátano que a Maria Gabriela imortalizou no seu livro Parasceve, e, gostei.
O Espaço Llansol noticiou no seu post de 21 de Dezembro o que aconteceu na Volta do Duche naquele dia.
http://espacollansol.blogspot.com/
emilia reis

Sofia Anjos disse...

Gabriela Llansol não é uma escritora muito conhecida. Mas acredito na opinião do Dr. João Cachado a quem já ouvi dizer que dentro de alguns anos vai figurar entre os nomes mais destacados da literatura portuguesa e mesmo internacional. Ele é entendido e saberá o que diz. Sendo assim e tendo ela vivido mesmo junto à Volta do Duche, julgo que a Câmara Municipal de Sintra deve aceitar
a proposta. Todas as oportunidadesd são poucas para dar destaque aos grandes nomes da cultura. É de lembrar o caso da pintora Paula Rego em Cascais, por exemplo.
Sofia Anjos

Anónimo disse...

Concordo com Volta do Duche - Caminho Llansol. Sílvia Torres

Anónimo disse...

Deixo uma sugestão ao João Cachado, uma vez que foi sua a ideia: Redija uma proposta no sentido de ser acrescentado "Caminho Llansol" à actual designação da Volta do Duche que, depois de ser divulgada e assinada por todos os que o quiserem fazer, será apresentada à consideração do Presidente da Câmarara Municipal de Sintra, Dr.Seara. Ela será como que o complemento da sinalização do "Grande Maior".
O Espaço Llansol estaria de acordo, penso eu, em aderir a esta proposta. Passam no dia 3 de Março dois anos sobre o falecimento de Maria Gabriela Llansol.
emília reis