[sempre de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 12 de julho de 2011



O Carmo e a Trindade global

É tão evidente que escuso de sublinhar. De facto, recentemente, agigantaram-se de tal modo os factores negativos, endógenos e exógenos, condicionantes da situação da economia e das finanças nacionais que podem cair o Carmo e a Trindade pois, muito dificilmente, algum facto de incidência mais local, nos desviará a atenção do que está a acontecer, todos os dias, afectando decisiva e tão negativamente os nossos recursos.

Portanto, ultimamente, por mais relevante que, em Sintra, algo possa parecer evidenciar-se, nada se tem afigurado suficientemente decisivo e mobilizador que me desvie do foco em que tenho incidido as baterias. Não é que até não tivesse com que muito me entreter com os conventos do Carmo e da Trindade cá da terra, se quisesse enveredar por caminhos desviantes deste contexto político macro… Porém, perante uma tão grande e labiríntica floresta de enganos, não quero deixar-me apanhar por uma qualquer e insignificante arvorezita sintrense.

Deixemos Sintra em seu aparente remanso porque outros valores mais altos nos desassossegam. A coisa é seríssima. Este último episódio da classificação atribuída pela Moody’s à economia portuguesa, que suscitou inusitados manifestos de patriotismo nacional e europeu, emitidos por todos os quadrantes do espectro político-partidário, não passa de mais uma etapa da pressão geral sobre o Euro em que Portugal até nem é o insignificante peão que possa parecer. E, a demonstrar que assim não é, considerem-se as causas e consequências do ataque que, vindo da outra margem do Atlântico, é mais global do que, tão somente, aparenta a vertente americana.

Não se trata do cantinho lusitano, ao qual se imporia uma reacção isolada. Ainda não é desta vez que, por outro lado, poderemos assistir ao desenhar de uma estratégia conjunta e integrada das economias periféricas. Não, muito mais preocupante, é Bruxelas que não consegue contrariar as manobras predatórias das empresas de rating, através de um inequívoco manifesto da vontade geral europeia de não deixar cair qualquer dos países membros da zona Euro.

Ainda a propósito, não deixa de ser curiosa a nítida preferência dos sitiantes pelo caso irlandês – a que não serão alheios os factores do enorme e decisivo peso da comunidade irlandesa nos Estados Unidos e, apesar de se tratar de uma economia igualmente da periferia, da sua residual e importante componente anglo-saxónica – em detrimento da vertente greco-latina dos outros infelizes sitiados.

Ver-se-á, o que poderá mudar na estratégia europeia, agora que é iminente o contágio às economias italiana e espanhola. De qualquer modo, seja qual for a evolução, são de fascínio absoluto estes dias que temos o privilégio de viver. O desafio é enorme. Embora as comunidades nacional e internacional estejam tão falhas de autênticos estadistas entre os seus líderes, a resposta não deveria gorar as expectativas. É que, raramente, a própria democracia e a paz estiveram tão dependentes da lucidez dos decisores políticos.

PS:
Ah, é verdade, a manobra de boicote ao site da Moody’s não podia soar a maior infantilidade. Então cabe na cabeça de alguém anunciar, urbi et orbe com a antecedência de vários dias, um movimento como o que era proposto, concedendo ao inimigo todo o tempo para contrariar a mínima hipótese de sucesso? Mas que destempero!... Mas que ingenuidade!...


4 comentários:

Carlos Esteves disse...

Caro Dr. Cachado,
Tenho lido com interesse os seus posts sobre este assunto com que concordo geralmente. Atenção qu Sintra continua com muita matéria para criticar e o senhor sabe-o bem. Não me parece que os problemas globais desviem a nossa atenção de Sintra.
Carlos Esteves

Rui Lino disse...

Então em Sintra passou a estar tudo bem? Nem parece o João Cachado que a gente conhece há tantos anos como uma voz das mais críticas contra o que se passa de
criticável na nossa terra.
Rui Lino

Anónimo disse...

Agora nem percebo o nome do blogue. O que significa sintradoavesso quando o senhor diz
que deixa Sintra em sossego (porque está muito preocupado com os problemas globais)? Então não há problemas em Sintra?

João Cachado disse...

Caros leitores,

Até parece que não me conhecem...
Acham que podem interpretar as minhas palavras como uma decisão de desinteresse em relação a matérias que importa continuar a denunciar em Sintra?

Durante quinze dias, também por me encontrar longe, em trabalho, nos Açores, considerei conveniente este «distanciamento» sem que o mesmo possa ser entendido como os comentários dão a entender. Por outro lado, tenho a certeza de que, tal como eu, estarão preocupadíssimos com o que se está a passar a nível global, deveras merecedor dos modestos textos que tenho publicado a propósito.

De qualquer modo, fico muito grato já que as vossas palavras indiciam a falta que sentirão dos meus escritos sobre Sintra. A eles voltarei muito brevemente.

Um abraço para todos,

João Cachado