[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Lição inesperada

Estive ontem a finalizar a preparação da minha intervenção num seminário em que, na qualidade de formador, abordarei algumas questões subordinados ao tema geral "A Estética e a Intervenção Cívica". Com esse objectivo, apenas me faltava fazer umas fotografias de conhecidos lugares de Sintra, cujos enquadramentos nem precisava ter preparado, de tão bem que os conheço, das mais diferentes perspectivas.
Foi precisamente neste contexto, de um trabalho que até estava a decorrer sem problemas de maior, que deparei com um quadro de imundície, em pleno centro histórico de Sintra, na Vila Velha, que me deixou tão desgostoso e desanimado, como há muito não me sentia. E a coisa sucedeu porque, para atalhar, desde o nosso Terreiro do Paço até às instalações da Santa Casa da Misericórdia, me meti pelo meu caminho de sempre, ou seja, através da rua que segue por baixo das esplanadas do Paris e do Central.
O fado da mouraria...
Aquilo que, uma vez cuidadosamente recuperado e arranjado, poderia, deveria ser mostrado como um interessante trecho da nossa mouraria, mais parece uma latrina à qual não falta o odor a preceito, para que tudo condiga. Sem qualquer iluminação e, portanto, quase completamente escurecido, mesmo em dia claro, não deixa de suscitar a curiosidade de turistas cujas impressões envergonham qualquer mortal...
A saída, a jusante, desemboca nuns degraus atulhados de uma mistura de areia, saibro e lama que evidenciam um desleixo inusitado e, muito menos, em qualquer lugar com as características daquele, constantemente sujeito à curiosidade de forasteiros os quais, se ainda não estavam, acabam por ali ficar perfeitamente elucidados quanto à capacidade de gestão urbana das autoridades locais.
Não conformados - pelo menos, quero eu acreditar... - mas habituados, isso sim, estamos nós, diariamente confrontados com aqueles prédios do casco histórico, ávidos de beneficiação, de uma demão de tinta que não recebem há dezenas de anos. Mas será que também já damos de barato a higiene mais rudimentar que mesmo a pobreza mais desgraçada não dispensa?
Não há por aí uns cantoneiros de limpeza a quem dar umas horas, de trabalho regular, de manutenção constante, que nos limpem a cara desta vergonha? Ou, ali mesmo, a política a manter é a de tapar as misérias com uns tapumes floridos, actualmente destruídos, decepcionante máscara de pseudo-artística intervenção performativa, num tecido urbano mais carente de água, lexívia, creolina e outros desinfectantes?
Para já, como se depreende, não me refiro às tais obras de recuperação, embora haja que concretizá-las e com a máxima urgência. Para já, era só uma intervençãozinha, por favor, para repor a higiene perdida. Não sei de quem depende medida tão simples, se da Câmara, se da Junta de Freguesia. Seja quem for, bom seria que actuasse depressa e bem.
E retomo o tema "A Estética e a Intervenção Cívica" para me questionar se poderia esperar quadro mais propício à minha intervenção. É uma daquelas coincidências que dá que pensar...

4 comentários:

Anónimo disse...

Apesar de os temas serem interesantes, acho estes posts muito longos.
Sugestão da casa :)
porque não fazes um blog com as versões curtas dos textos? nesse blog podias fazer a ligação para este blog, com as versões integrais dos textos!
Beijinhos
rita

saloio disse...

Apoio a Rita, sugerindo que - se possível - os textos sejam mais curtos...dizendo o mesmo, o que não é muito fácil, pela grandeza dos problemas.
A matéria desta peça leva-me a pensar, mais uma vez, se o Centro Histórico de Sintra anda à deriva no que concerne ao seu acompanhamento responsável. Então ninguém responsável vê? Então ninguém responsável viu - há alguns anos e até agora - a monstruosidade da Rua dos Arcos - que os tinha - ter a luz do dia por cima e ser feita uma plataforma com ferros e pavimento para uma esplanada que lhe tiraram a luz, a que nem um candeeiro apagado serve? E cozinhas a que a ASAE devia visitar? E gás armazenado nas paredes, fazendo perigar a todo o momento quem por lá se encontre? Como é possível isto? Veja-se a entrada da torre do relógio e aquela porta que lá foi colocada, num Património da C.M.Sintra. Quem autorizou? Turismo? Quem decidiu "oferecer" às pessoas que nos visitam - e são a fonte de receitas locais - o odor pestilento de 3 (três) contentores junto à paragem de autocarros, enquanto esperam para ir à Serra? Mesmo ali nas barbas do edifício do turismo? Não vêem, não cheiram? Chegámos a isto, mas havemos de retomar o caminho certo.

João Cachado disse...

Para Rita

Para te dizer com toda a franqueza, se o primeiro impulso, na sequência da leitura da tua sugestão, foi no sentido de agradecer - porque percebo perfeitamente que estejas preocupada com a eficácia do discurso - já na plataforma de uma vontade mais visceral, não direi que tenha sido de simples recusa de aceitação mas, de qualquer modo, não foi de acolhimento cordial...


Vamos lá a ver se me torno explícito. A minha experiência de filólogo, portanto de homem de Letras - sempre preocupado com a morfologia, a sintaxe, a organização, coerência dos discursos implícitos e explícitos, com a necessidade de sentir os textos a funcionar, com a prosódia específica do autor que eu sou - conjugada com as actividades do Técnico de Educação, do professor e também do formador de professores que tenho sido, ou se reflectem na escrita que produzo, com toda a verdade, inteireza e veemência que as matérias abordadas solicitam ou, de modo diferente, não me apresentam nem me representam.


[Deixa-me abrir este parêntesis para te pedir nova leitura do parágrafo precedente. Se obedeceres e o fizeres com a atenção que, julgo eu, tens posto na leitura dos textos a que tens acedido neste blog, imediatamente concluirás que este escrevente, João Cachado de sua graça, muito dificilmente conseguirá alterar o discurso algo carregado, muitas vezes elíptico, sinuoso, quase barroco que o caracteriza]


Acontece, minha cara Rita, que tal discurso, o meu, é a vertente escrita de uma expressão verbal, de sinais mais ou menos idênticos. E ambas as expressões, verbal e escrita, estão «na ponta» de um pensamento que se organizou, há décadas, com estas características.


O facto de ter decidido pôr a funcionar este expedito meio de comunicação que é o blog, no meu caso, não constitui razão bastante para que «adeque» o meu discurso à informalidade e à não formalidade que o medium em questão parece subentender. Parece, escrevi eu. Parece, sublinho, porque, para mim, não é coisa líquida nem sequer pacífica.


Creio eu que me vale a pena um pouco mais de empenho na explicação já que, deste modo, os actuais e potenciais leitores, terão disponível o meu «caderno de encargos», qual compromisso, contrato que me proponho honrar sem
desvios.


Repara que se me coloca uma questão de genuinidade, de verdade, uma vital necessidade de me abrir aos leitores, sem subterfúgios, com uma evidência especular.

De algum modo, se bem compreendi a sugestão que formulaste, eu teria de abdicar de uma componente inequívoca do meu discurso que, na verdade, até pode correr o risco de não ser tão eficaz quanto merecerãO os assuntos suscitados.


Todavia, entender-se-á que o tamanho dos textos, não sendo directamente proporcional ao meu empenho quanto à sua eficácia - matéria que pode articular-se com a questão do pragmatismo - é indissociável de um determinado «estilo pessoal»?
E, vamos lá, seja qual for o entendimento que mais nos convenha, para resolver essa misteriosa entidade que o «estilo» sempre será, ele alguma vez pressuporá concessões descaracterizadoras?


Mas eu queria muito ir ao encontro da tua generosa preocupação. E vou fazê-lo. Não sei é se coincide com a proposta com a qual, como já verificaste, pelo menos, mais um visitante do blog concordou. O que me proponho fazer,se possível, já a partir da próxima segunda feira, é uma apresentação resumida, sintética da mensagem «normal» que publicarei exactamente nos mesmos termos que tenho concretizado quotidianamente.


Se eu tivesse uma secretária, pedir-lhe-ia que me fizesse uma «versão curta». Acredita que a versão longa me dá algum trabalho. Mas acredita também, que a tal curta da sugestão, dar-me-ia muito mais... E eu tenho o tempo contado. Tenho muitas actividades, ouço muita música em casa e fora de portas - não há semana em que não vá, pelo menos, três vezes à Gulbenkian, para além de outros recitais, concertos e ópera e idas ao estrangeiro - aulas, actividade de formador, intervenção cívica, sindicalismo e não sei que mais. Acredita que não me sobra tempo para fazer as tais concessões que se traduziriam nas curtas versões.


Blog não é isto? Paciência. O que eu não posso ou, se calhar, não estou disposto é a concretizar esforços que, às tantas, implicariam a negação de características pessoais. Assim sendo, embora saiba fazê-lo, também não vou introduzir fotografias. Quanto à mancha gráfica, poderei, sim senhor, utilizar, mais frequentemente, as ferramentas disponíveis.


Finalmente, com a sensação de que este escrito me apresenta e representa, só não o dou por fechado porque fico aguardando o enriquecimento do contributo que ainda quiseres acrescentar.


Beijinhos do


João Cachado

João Cachado disse...

Para saloio

Muito folgo por me aperceber de que, provavelmente, terei encontrado em si um fiel interlocutor, neste espaço.
Embora não perceba nada de blogs, parece-me que uma componente muito séria da sua eficácia, talvez a mais interessante, seja esta possibilidade que proporciona da correspondência dialogante.

Espero que tenha lido a resposta que remeti a Rita. Oxalá tivesse passado a ideia de que o autor deste blog não é um bloco empedernido... Enquanto órgão de comunicação sui generis [não o classificarei de não formal nem de informal porque tais adjectivos remetem para algumas conotações que não se adequam ao caso], estou em crer que o blog enquadra tantos «estilos» quantos os autores que se abalançam a esta aventura. Nestes termos, os destinatários, potenciais leitores, afinam ou não a sua sintonia com a do proponente emissor.

É tão simples como isto: na realidade, ou o discurso - na sua totalidade, isto é, na forma e conteúdo, os desafia e nele encontram uma porta aberta para expressar afinidades e diferenças, ou tal não acontece e o melhor é irem bater a outra porta...
Significa isto que eu não ando à procura de leitores. Mas estou cá, tenho coisas a partilhar e só sei escrevê-las «à minha maneira».

Quanto à parte do seu comentário referente ao assunto objecto de "Lição inesperada", é um verdadeiro complemento do meu escrito. Aliás, indispensável contributo para que se entenda, em toda a extensão, a miséria indizível, inenarrável, a que chegou a situação.

Como se lembrará, aquela peça foi suscitada por um trabalho que eu estava a preparar e, de algum modo, também coincidiu com uma chamada de atenção de um amigo de Sintra, o Fernando Castelo, que escreve no "Jornal de Sintra", homem muito preocupado e envolvido na tentativa de resolução dos problemas que a todos nos afectam.
Pois o Fernando Castelo já tinha chamado a minha atenção para aquela rua infecta que o saloio tão bem descreve. Para além de tudo o mais, há por ali matéria inerente a questões de segurança - as condutas de gás -(casos que a Protecção Civil de Sintra deveria investigar, monitorizar e propor as estratégias de remediação) bem como de higiene alimentar, como tão bem assinala, para intervenção da ASAE. Como é possível que agentes das actividades hoteleiras e da restauração descurem as suas responsabilidades a este ponto?

Quanto aos contentores, ali junto à Igreja de São Martinho, é assunto que já me ocupou no Jornal de Sintra (vd. JS, 01.09.06),com duas fotografias e tudo. Como os jornais ainda não publicam odores, quem nos lê não tem a dimensão completa do escândalo. E é como escreve, nas barbas do Turismo...

Na altura, escrevi eu:
"(...) Fiquem sabendo que tive o topete de me dirigir ao balcão do Turismo. Perguntei se havia qualquer problema com a recolha do lixo. Pura e simplesmente desconheciam a situação. Claro que não estava à espera que os funcionários de serviço pudessem actuar de modo consentâneo. O que todos esperamos é que os "responsáveis" (?) do Turismo se entendessem com os "responsáveis"(?) da Higiene Pública para que não sejamos incomodados pela frequência destas situações (...)"

Antes de 1 de Setembro mde 2006 já era assim, passou um ano e continua assim, apesar das nossas diligências, do nosso desconforto, do escândalo que causa e parece não afectar, afinal, quem pode, efectivamente, resolver. Está inmstalada, institucionalizada a designada "cultura do desleixo" e alterar o statu quo é um caso dos trabalhos...
Enfim, para isso cá estamos. Olhe, por outras vias, ando a trabalhar no sentido de motivar jovens finalistas do Secundário e universitários a adquirirem uma visão crítica da 'polis' que habitam, com o propósito da sua intervenção cívica, conquistando-os para as lutas em que andamos e ainda não nos rendemos. Tenho esperança de que, a curto prazo, tais jovens demonstrem publicamente o seu desencanto...

Um saloio abraço do

João Cachado