[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 8 de maio de 2009



magalhães, a festa do paradoxo

Convir-me-ia começar este pequeno texto lembrando, mas sem puxar e quaisquer galões, que, como Técnico de Educação, professor, formador, autor e co-autor de materiais escritos e audiovisuais, tenho obrigação de saber acerca do que me pronuncio quando, referindo-me ao magalhães, o reduzo apenas à condição daquilo que não passa, ou seja, de mais uma ferramenta a utilizar, com os devidos cuidados, nos contextos escolar e familiar.

Tenho-o escrito e, como deverão estar ao corrente, estou muitíssimo bem acompanhado por pedagogos de todos os quadrantes do espectro político, nacionais e estrangeiros, cujas mais pertinentes considerações são positivamente ignoradas por um Governo sem estadistas dignos de tal designação, com lamentável e proverbial falta de sentido de Estado.

Vem acontecendo que, a contrario sensu das recomendações mais avisadas, continua o Governo a impor, aos alunos das escolas do primeiro ciclo do básico, o envolvimento com o tal minicomputador. Fê-lo e continua a fazê-lo, sem olhar a despesas e recorrendo a práticas de duvidosa deontologia, no contexto de uma bem orquestrada campanha de marketing, marcada por inequívoco ambiente festivo.

Contudo, no sentido de enquadrar convenientemente a questão, cumpre recordar que, em geral, não estão presentes na sociedade portuguesa, as condições mínimas de base que, a montante, poderiam facilitar o acolhimento do magalhães. Primeiramente, reparem que, não sendo um país de terceiro mundo, Portugal está muito abaixo e cada vez mais longe da média europeia. Aliás, em muitas situações, é o protótipo do país charneira, que a péssima classe política nacional não tem sabido governar de acordo com os perfis cultural, económico e sociológico.

Governa-se Portugal como se este fosse um país coincidente com a média europeia e, de facto, não é, está muito longe disso. A propósito, convém não esquecer que, por exemplo, no tempo do consulado cavaquista, logo no princípio dos anos oitenta, se procedeu a uma deliberada e sistemática política de acabar com as acções de educação de base de adultos.

Não convinha, dizia-se à boca pequena, no período imediatamente precedente ao da plena adesão à CEE, mostrar as tripas de um pobre país, de gente atrasada, pobre, país cheio de dificuldades, de toda a ordem, que poderiam empecilhar o processo. Como resultado de tão esquecida e condenável estratégia, perpetuou-se, até ao presente, uma situação de analfabetismo pleno e regressivo e de iliteracia, cujos índices superam tudo quanto há de mais negativo na União Europeia.

Ora bem, sem grandes alterações, é este o quadro de referência de uma substancial percentagem das famílias de muitos dos meninos que frequentam as escolas do país, objecto desta campanha de distribuição do magalhães. Por outro lado, além de uma moldura sócio-cultural tão desfavorável, chega-se ao ponto de também não haver cobertura de rede que permita a operação dos computadores na Internet.

Não admira, pois, que haja pais a vender o magalhães nas feiras. Muito menos surpreende que, na maioria dos casos, quando o aparelho funciona, os miúdos passem o tempo nos jogos que lhes interessam sobremaneira. As comunidades acabam sempre por solucionar o problema da melhor utilização de um bem que, embora lhe tenha sido concedido com a melhor intenção, não lhe fazia a mínima falta.

Muito gostaria de, neste contexto, recomendar o visionamento de um filme, extremamente interessante, que tudo tem a ver com estas considerações. Trata-se de O Piano que, datado de 1973, tem argumento e realização de Sinde Filipe. É um documento notável, absolutamente recomendável, que bem atesta como o conhecido actor é um homem de bagagem cultural fora do comum.

Vejam e/ou revejam O Piano, percebendo como aquela circunstância específica, vivida pela população do Piódão, é algo de muito mais abrangente. Percebam como O Piano, tem tudo a ver com o magalhães e a especial coincidência com um fugaz clima e ambiente de festa que não passa de um paradoxo.





4 comentários:

Anónimo disse...

Pois é, Dr Joãomas apesar de todos os defeitos da iniciativa e de algumas faltas de atenção verificadas, não há muito quem não tenha aderido à iniciativa e o Magalhães é uma realidade nas famílias portuguesas;faz-me lembrar as cenas «absoluta recusa»de muitos professores,meus colegas que também juravam não querer computadores do e-escolas ou e-professores mas que correram para a secretaria da escola para ter acesso aos respectivos códigos de validação, para adquirirem logo para si e para os filhos,os portáteis do «ministério».Pois é, criticar é fácil mesmo fazendo o contrário do que se critica:sei que não será,decerto, o seu caso mas haja alguma justiça, se não fosse assim,muitos não teriam hipótese de ter acesso a estas ferramentas, não acha?
Margarida

João Cachado disse...

Cara Dra. Margarida Paulos,

Então, vamos lá a ver se não nos desviamos do cerne da questão, embora não me seja difícil aceitar que, no contexto de várias afinidades da matéria, pudéssemos, agora, também inflectir para outras histórias conotadas com o caso do magalhães, como será essa do equipamento destinado a docentes.

O facto de, eventualmente, ter havido muitas adesões à polémica iniciativa do Governo, traduzindo-se num indesmentível factor de apreciação quantitativa, não significa que o magalhães passe a merecer consideração porventura positiva, diferente, portanto, da que tenho tido oportunidade de referir nos vários textos que já dediquei ao assunto. Onde e quando é que a quantidade foi ou é sinónimo de qualidade?

Permita-me, então, que volte ao essencial, ou seja, à decisão do Governo de generalizar a distribuição do portátil computador como se, por aí, passasse a possibilidade de transformar um panorama tão negativo ao nível das aprendizagens e subsequentes rendimentos e, decisivamente, beneficiasse o modo como se processam as gerais aquisições das crianças e jovens dos ensinos básico e secundário no seu percurso escolar.

Como professora, sabe a Dra. Margarida que o mini portátil não passa de um simples instrumento que está longe de ser essencial. Todavia, nos dias que correm, é impensável negar a evidência vantajosa do acesso ao conhecimento, através de meios e materiais informáticos, um acesso que pressupõe o domínio de uma série de atitudes práticas na relação com a maquineta intermediária.

Daí que se perceba o interesse. Daí que se esteja atento à necessidade de possibilitar o seu acesso aos alunos, ao nível da dotação dos equipamentos do parque escolar. No entanto, inferir que tal evidência pressupõe o generalizar da distribuição gratuita ou quase gratuita do aparelho, isso é que me parece decisão perfeitamente precipitada, a tal rendição perante um dispositivo cujo lugar, mesmo enquanto instrumento de apoio, está longe de ser pacífico na consideração de especialistas de reputação nacional e internacional.

Era este sublinhar que pretendia partilhar consigo. O que mais há a dizer é conversa de pedagogos, já que, a partir deste ponto, teríamos de entrar em pormenores que ambos dominamos mas, se calhar, menos a propósito neste encontro do sintadoavesso.

As melhores saudações do

João Cachado

Anónimo disse...

Dr Cachado,

Permita-me este comentário, felicitando-o em primeiro lugar pela exposição que faz de todos os factos, que além de ser totalmente correcta é demais adequada e acessivel a quem visita o seu espaço.

Na minha opinião, é gritante a forma como o Governo continua a insistir no "sucesso" desta iniciativa, dando-lhe honras de salvação dos problemas da Educação que mesmo o Dr João refere no seu texto.

Não importa o "roubo" que representa nas contas públicas (haviam soluções mais baratas em termos informáticos), não importam os erros de programação em questões de Lingua Portuguesa, não importa que os miudos só o utilizem para jogos, não importa que tenham sido usadas crianças em acção publicitária, etc, etc.

Importa que as familias o têm, logo, um sucesso do governo porque se não o fosse as familias não tinham o referido objecto. Mesmo que o depois vendam na Feira da Ladra que ironicamente é frequentada por muitos estrangeiros e se houver algum feirante que saiba falar inglês, pode originar-se uma tertulia de risota se algum viajante mostrar curiosidade sobre o magalhães.

Para nós Portugueses esta posição do Governo não destoa porque é assim que tem tratado todas as questões, polémicas ou não: ignorando os factos, privilegiando a publicidade.

E ainda querem a maioria absoluta!!!

É preciso ter lata.....

José Silva

José João Arroz disse...

Meu caro João,

Parabéns, por estes dois artigos e pelos outros que tens escrito recentemente sobre este perfeito epifenómeno que é o portátil Magalhães. E parabéns também pelos complementos das tuas respostas aos comentários, como hoje aconteceu.

Felizmente que me reformei já vai para três anos, a tempo de não ter de aturar estas misérias a que os colegas no activo estão a sujeitar-se. Há muitos professores que gostam da bagunça e outros que têm tanta falta de preparação como uma grande percentagem dos paizinhos das criancinhas. Para esses o magalhães não causa qualquer problema. Como sabes, no meu caso de professor de português e francês, nunca deixei de exigir aos alunos a flexão verbal completa dos verbos de todas as conjugações, em todas as vozes, pessoas e tempos. Não é por isso que não deixo de utilizar o computador, Mas faz-me muita confusão pensar que os governantes do meu país considerem um computador como algo de essencial para a aprendizagem dos meninos do primeiro ciclo. Está tudo escrito e dito, aliás: com gente como Sócrates e Lurdes Rodrigues o que seria de esperar? Querias os mesmos resultados do sistema educativo como na tua bendita Áustria? Muitos ignorantes acabarão por se render ao que hoje os mais informados já sabem e estão fartos de avisar. Hão-de 'engolir' o magalhães que acabará por ser tão contestado como as máquinas calculadoras.
Um grande abraço do

J. J. Arroz