[sempre de acordo com a antiga ortografia]

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Asfixia*


Na passada terça-feira, dia 15, no programa da manhã da SIC conduzido por Rita Ferro Rodrigues, dava a entender Judite de Sousa (JS) que, provavelmente, um dia mais tarde, há-de publicar um livro através do qual virá a saber-se aquilo que não escreveu no que acaba de dar à estampa. Porque, segundo a locutora, agora não revelou tudo porque precisa de trabalhar.

Portanto, sem margem para qualquer dúvida, poderá concluir-se que, para continuar a trabalhar na empresa onde exerce a sua profissão, JS se obriga a uma limitação do direito de expressão. Ou, melhor, que, por enquanto, se considerará inibida do exercício de um direito fundamental. Pois bem, isto que pode ser entendível das palavras de JS, é coisa grave e geradora de polémica.

Primeiramente, porque não só põe em causa o próprio Estado de Direito mas também coloca em posição muito desconfortável o patrão de JS, nem mais nem menos do que a Rádio e Televisão de Portugal. Tanto mais - e importa ressalvar - que a aludida e implícita inibição não se refere ao exercício das quotidianas funções de jornalista mas, isso sim, às da autora de outras prosas, que também é, numa actividade exterior à empresa.

Em segundo lugar, na medida em que, em idêntico enquadramento, outros profissionais continuam a actuar diferentemente. Não será preciso recuar antes do 25 de Abril, em que a liberdade de expressão era espezinhada a todo instante, para que, nos nossos dias, em pleno regime democrático, encontremos exemplos de colegas de JS que não guardam para amanhã o que podem escrever hoje…

Naturalmente, ficamos preocupados com a declaração de alguém que, na comunicação social portuguesa ocupa lugar de tanto destaque. É que, não tendo razão para duvidar do testemunho de JS, então temos de admitir que dá nítido sinal de um certo grau de asfixia democrática. Se a sua intenção era a de se integrar nessa campanha, parece que não podia ter sido mais eficaz.



*Publicado no Jornal de Sintra, 6ª Coluna, 18.09.09



8 comentários:

Rui Pedro disse...

Dr. Cachado,
O seu artigo é óptimo mas o título é que não concordo. Não devia ser "Cobardia"?
Rui Pedro

Lurdes Soares disse...

Acabo de ler o seu artigo e o comentário de Rui Pedro e penso que tem muita razão. Também não esqueço mais duas coisas: hoje muitos locutores (termo do antigamente que foi substituído por jornalista) são «escritores» da treta. Como aparecem na televisão metade da propaganda do editor e livreiro está feita. Depois são professores convidados pelas faculdades. Que bons exemplos dão aos jovens estudantes ao dizerem que não escrevem porque precisam de trabalhar,,, Eu vi e ouvi JS afirmar isto e também me fez muita impressão.
Lurdes Soares

Rosário do Valle disse...

Caro Dr. João Cachado.
Li o texto neste blogue e já li também no Jornal de Sintra. Quanto mais for conhecida a história ainda melhor. É uma vergonha as fitas que fazem estes «profissionais» dos meios de comunicação. Era melhor que aprendessem a falar e a escrever. Lembro-me uma vez que JS disse num telejornal transfega em vez de trasfega. Não sabia que era professora de uma faculdade. Tudo é possível em Portugal com a mediocridade em todos os lugares de poder.
Rosário do Valle

Marta disse...

Se calhar na SIC a JS não tinha os problemas que tem na RTP. O patrão da SIC foi um grande jornalista e é um grande senhor, um verdadeiro democrata enquanto na RTP são uns servos do governo que estiver no poder.
Marta

Jorge Lima disse...

Há bons escritores.
Há maus escritores.
Depois há o Rodrigues dos Santos e a Judite de Sousa que não são bons nem maus escritores e nem sequer são escritores. Mas vendem muito porque aparecem todos os dias na televisão e podem escrever uma m.... qualquer que se vende sempre. A JS que não é escritora também já se viu que não é pessoa de coragem. Devia limitar-se a ser locutora e uma boa locutora. Mas até isso parece que está em causa a acreditar na «transfega» denunciada pela Rosário do Valle.
Jorge Lima

Anónimo disse...

Não consigo perceber como se perde tanto tempo com quem vale tão pouco.
José Figueira

Fernando Castelo disse...

Meu caro João Cachado,

Não tivesse acabado de ler o CidadeVIVA e saber que naquela Gala os profissionais da informação não podiam tirar fotografias e teria ficado calado.

Não tivesse, ainda ontem, assistido a uma peça na SIC (Nós por Cá) sobre um carro caído numa ribeira há vários meses e as palavras do Senhor Presidente da Câmara, e descansaria.

Mas confesso que ainda não recuperei do medo da Brigada de Reacção Rápida ter ocupado Sintra (era a imagem passada pelo Jornal de Sintra). Que coisa tão estranha em época eleitoral.

Vivemos numa terra que era tão pacífica, que podia servir apenas para os media dizerem bem, onde a RTP poderia brilhar de vez em quando sem dar muito nas vistas, sem asfixias e zás, acontecem destas coisas.

No fundo, todos nós vivemos condicionados, dependentes de eruditos da democracia, que é entremeada com laivos alimentares.

Dizes mal de mim? Toma lá umas queijadas e estás arrumado. Não fazes uma propagandazinha? Vai mas é comer uns travesseiros. Queres ter força para jogar à bola? Só comendo um bom leitão à maneira.

E chegámos a isto, à política do paladar, isto é, resposta consoante o paladar.

Se disseres bem só pode ser feita justiça e escolherás a comida "à la carte". Sem asfixia.

Voltando ao princípio, aquela jornada que podia ser de boa propaganda terá falhado em quê? Os jornalistas não poderem tirar fotografias terá sido por não estar lá alguma vedeta a homenagear por nada ter feito de importante na época anterior? Ou estaria alguém que não pudesse ser reproduzido em jornais de circulação extra portas?

Pois é, meu amigo, há cada história em Sintra.

João Cachado disse...

Fernando Castelo,
Caro Amigo,

Como poderá verificar, considerei conveniente publicar o seu comentário em primeira página de hoje.

Em resposta, remeto-o para a sugestão final que propus aos leitores. E, claro, as especialmente...

Um grande abraço,

João Cachado